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Faz 11 anos que me comprometi com a luta por libertação animal e foi mais ou menos na mesma época que a militância por direitos humanos entrou na minha vida. Esse compromisso se manifesta de várias maneiras, tanto na esfera digital quanto no mundo real.

2018 foi o ano em que meu ativismo tomou um rumo diferente. Primeiro senti necessidade de sair do mundo virtual por um tempo e conversar com pessoas no mundo real. A motivação principal foi perceber a que ponto o movimento vegano, pelo menos nos espaços virtuais, tinha se tornado algo que não me contemplava e que me parecia desconectado da luta por libertação animal. Pretendo escrever mais sobre isso no futuro, mas por hoje digo apenas que a abordagem liberal do veganismo, o que facilitou a sua cooptação pelo capitalismo, suprime todo potencial revolucionário desse movimento e foi isso que me levou a fazer uma turnê política pelo Brasil. Eu queria encontrar veganas de diferentes regiões e ver se o veganismo “estilo de vida”, vivido de maneira individualista e focado no consumo, era tão popular quanto parecia, visto pelo prisma das figuras veganas de destaque da atualidade.

Então em agosto caí na estrada e passei por 12 cidades diferentes, dando palestras e participando de rodas de debate com veganas, de Fortaleza à Joinville. Felizmente a resposta à pergunta que fiz no parágrafo acima é “não”. O veganismo continua sendo, pra muita gente, um posicionamento político e é exatamente sobre isso vou escrever no post que prometi publicar mais pra frente.

Mas enquanto esse post não chega, vim aqui falar de um assunto de extrema importância que fez parte das discussões por todas as cidades por onde passei durante a turnê pelo Brasil. Sempre que falo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no meu trabalho, seja nas palestras ou no Instagram, chove perguntas. Infelizmente também chove comentários cheios de ignorância e ódio, de gente que só ouviu falar do MST na mídia e que reproduz, sem procurar se informar, a campanha de demonização contra as pessoas que lutam por reforma agrária popular.

Como o assunto é extenso e cada detalhe é importante, vou criar uma série com 4 posts pra ficar mais digesto e você conseguir assimilar melhor as informações compartilhadas aqui. Pra entender onde estamos, é preciso saber de onde viemos, então esse primeiro post explica a criação do espaço agrário brasileiro, o que são latifúndios e por que eles representam uma ameaça à nossa soberania alimentar, ao meio ambiente e à justiça social.

O segundo post tratará de Reforma Agrária e explicará o que é o MST e pelo que essas pessoas lutam. No terceiro post responderei às dúvidas mais frequentes, as que recebo sempre, sobre o MST (“É vagabundo?” “Rouba terra?” “Merece bala?” etc) e como podemos apoiar esse movimento. Também é nesse post que você encontrará a resposta pra pergunta que provavelmente apareceu na sua cabeça assim que você leu o título desse post: “E o que o MST tem a ver com veganismo e direitos animais?” Muito mais do que você imagina, cara leitora.

O quarto e último post será sobre um assentamento no sul da Bahia, uma das paradas na minha turnê pelo Brasil desse ano, que conseguiu, em 20 anos, reflorestar uma área que tinha sido devastada pela pecuária e pela monocultura usando a agrofloresta. Vou falar sobre como é a vida num assentamento e dar a palavra às assentadas, porque precisamos ouvir a voz dessas pessoas. Principalmente nesse momento onde a vida das 350 mil famílias que fazem parte do MST estão em perigo, pois o governo recém-eleito quer criminalizar os movimentos sociais e declara que lutar pra que a lei seja cumprida (sim, reforma agrária está na nossa constituição) é terrorismo. Nesse post falarei sobre a aula de agroecologia que tive nesse assentamento e de como essa prática tem o potencial de nos salvar da catástrofe ambiental que já começou a bater na nossa porta.

Nesse último post também falarei sobre como o MST entrou na minha vida quando eu ainda era criança.

Vai ser uma jornada transformadora e no final da série espero ter feito você enxergar muita coisa com um olhar novo e mais inclusivo. Sim, porque no final das contas essa é a questão, como Paulo Freire explicou quando disse “Não existe imparcialidade. Todos são orientados por uma base ideológica. A questão é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente?”

Então segura na minha mão e vamos começar o aprendizado com uma base ideológica verdadeiramente inclusiva.

Entendendo o espaço agrário brasileiro

Pra entender a estrutura fundiária (fundiária = que diz respeito à terra) no Brasil precisamos voltar ao início da invasão portuguesa e falar das capitanias hereditárias. A formação do espaço agrário brasileiro pelos colonizadores foi baseada no roubo e concentração de terras. Além da espoliação das terras dos povos originários, a produção colonial só foi possível com o roubo da liberdade e da dignidade dos africanos, trazidos como escravos.

Em 1822, com a independência do país, a troca de donos das terras se deu sob a lei do mais forte, em meio a grande violência, não entre camponeses, pois na época quase todo trabalho no campo era feito por pessoas escravizadas, mas entre proprietários e grileiros apoiados por bandos armados. Em 1850 entrou em vigor a Lei das Terras. A partir dali a terra seria adquirida através da compra. Essa lei consolidou a concentração fundiária e fez com que a população escravizada continuasse excluída, mesmo depois da abolição da escravidão (1888), pois ex-escravizados não tinham recursos financeiros pra adquirir terras.

A instauração da República, em 1889, não democratizou a distribuição de terras. O poder político continuou nas mãos dos latifundiários, os coronéis. Apenas no final dos anos 50 e início dos anos 60, com a industrialização do país, a questão fundiária começou a ser debatida pela sociedade.

Em 1962, durante o governo de João Goulart, foi criada a Superintendência de Reforma Agrária (SUPRA). Em 1970, em plena ditadura militar, foi criado o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), substituindo a SUPRA. Na época, mais do que reforma agrária, o governo incentivava a colonização da Amazônia. A redemocratização, em 1984, trouxe de volta o tema da reforma agrária, mas a falta de apoio político e a pobreza orçamentária mantiveram a reforma agrária quase paralisada.

A invasão e ocupação histórica do nosso território facilitou, desde o início, a concentração fundiária e o Brasil é hoje um dos países com maior concentração de terras no mundo.

O problema do latifúndio

Latifúndio é uma propriedade rural de grande extensão, onde frequentemente as terras não são cultivadas. Segundo o Censo Agropecuário de 2006, realizado pelo IBGE, grandes propriedades rurais, com mais de mil hectares, eram menos de 1%, mas ocupavam 45% da área rural. Enquanto isso, pequenas propriedades de menos de 10 hectares representavam mais de 49% do total de propriedades do país, mas ocupavam apenas 2,3% da área rural total. Ou seja, quase 50% das terras agrárias brasileiras estão nas mãos de menos de 1% dos proprietários.

Existem latifúndios por todo o país, mas o Mato Grosso é de longe o estado que mais tem propriedades acima de 10 mil hectares, com 868 fazendas. Em segundo lugar vem o Mato Grosso do Sul, com 341 grandes latifúndios, seguido do Pará, com 188 latifúndios. No entanto, o Pará registra os maiores latifúndios do país, com uma média de tamanho de 300 km² por latifúndio (o equivalente a 42 mil campos de futebol). Esses dados foram publicados pelo último Censo Agropecuário, feito pelo IBGE em 2017.

Muitos dos grandes latifundiários, hoje chamados de ruralistas, também são grandes devedores à União. Dados da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional mostram que 4.013 pessoas físicas e jurídicas detentoras de terra devem, juntas, 906 bilhões de reais à União. Sim, você leu certo: 906 BILHÕES de reais.

De um lado temos os grandes latifundiários, muitos dos quais devedores de bilhões, controlando a maior parte das terras agrárias. Do outro lado estão mais de quatro milhões de famílias sem terra que buscam a terra pra poder viver com dignidade.

Em 2010 as terras improdutivas representavam 40% das grandes propriedades rurais brasileiras, de acordo com dados do Incra. Isso corresponde a 228 milhões de hectares abandonados ou que produzem abaixo da capacidade. Já a Comissão Pastoral da Terra (CPT) – entidade ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – considera que 62,4% da área do total dos imóveis rurais no país é improdutiva. Terra tem importância por seu valor de mercado, então deixa-la parada e esperar a especulação imobiliária aumentar o valor do hectare pode ser tão lucrativo quanto produzir.

Os latifúndios produtivos praticam a monocultura, o que provoca inúmeros problemas graves. A monocultura fragiliza a biodiversidade, homogeneizando o ecossistema e aumentando o risco de pragas, o que leva a um uso maior de agrotóxicos. A monocultura também afeta o valor do alimento no mercado, colocando em risco a segurança alimentar, já que produz voltada pra exportação, estimulando produções que nem sequer são destinadas a alimentação humana. Além de privar camponeses do acesso à terra, esse sistema aumenta o êxodo rural, pois na monocultura há uma redução do uso da mão de obra, responsável pelo inchaço demográfico das grandes cidades e do aumento da violência como um todo. Os empregos gerados no latifúndio representam uma parte pequena dos trabalhos no campo, além de serem frequentemente precários. Não é raro ver condições de trabalho análogas à escravidão nas grandes monoculturas e na pecuária.

Latifúndio gera pobreza. O relatório “Terrenos da desigualdade: terra, agricultura e desigualdades no Brasil rural”, publicado pela OXAM, em novembro de 2016, explica que  em termos de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), os melhores indicadores se encontram nos municípios com menor concentração de terra e os piores nos municípios com maior concentração. Correntina, na Bahia, é um exemplo disso: o latifúndio ocupa 75,35% da área total da propriedade agropecuária e a pobreza atinge 45% da população rural e 31,8% da população geral. O IDH é de 0,603, bem inferior à média brasileira.

E apesar da ruralista Kátia Abreu ter afirmado em 2015, quando assumiu o Ministério da Agricultura, que “latifúndio não existe mais”, ele não só existe como continua crescendo. Os dados do último Censo Agropecuário mostram um aumento da concentração de terras. Entre 2006 e 2017 houve um aumento no número de estabelecimentos com 1.000 hectares ou mais, passando de 45% para 47,5% a participação na área total. Nos últimos 30 anos a área das propriedades com mais de 100 mil hectares cresceu 372%, de acordo com o Relatório DataLuta Brasil do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária (NERA) da Unesp.

A expansão não se dá somente pela compra de terras, mas principalmente pela ocupação de áreas indígenas, zonas sob proteção ambiental ou por meio da grilagem de terras que pertencem à União.

Grilagem de terras é uma prática comum no interior do Brasil, principalmente na região Norte e Centro-Oeste. Grileiro é um proprietário privado que se apossa de terras públicas e/ou de terceiros. Pra isso cria títulos de posse falsos, colocados em uma gaveta com grilos (daí o nome), que vão desgastar o papel com seus detritos, dando aos mesmos um aspecto antigo. É comum a grilagem de terras estar associada a outros crimes. Jagunços e pistoleiros são contratados pra expulsar antigos proprietários, camponeses e indígenas que vivem ali e não é raro as terras griladas serem usadas pra extrativismo ilegal e práticas criminosas. Os grileiros são hoje uma das maiores ameaças aos pequenos produtores, trabalhadores sem terra e indígenas no Brasil.

Um exemplo da violência causada pelos grileiros pode ser visto na comunidade camponesa Tauá, localizada no município de Barra do Ouro (TO). As famílias vivem em situação de conflito violento há vários anos. Várias vezes as casas e roças das famílias camponesas foram destruídas por pistoleiros supostamente a mando do grileiro catarinense Emílio Binotto e seu filho, Edilson Binotto, empresários cuja família tenta expulsar há mais de uma década trabalhadores e trabalhadoras da comunidade tradicional. Não havia nenhuma ordem judicial que permitisse a destruição de barracos ou despejo de qualquer morador da comunidade. Muito pelo contrário: a criação de dois assentamentos foi publicada em portaria oficial do Incra no início de 2018 e outras 10 áreas estão passando por processos administrativos dentro do Incra pra também serem criados assentamentos que atenderão às demandas das famílias camponesas. A terra de Tauá tem sido o alvo constante de desmatamento do Cerrado realizado por Binotto, o qual grilou essa área pra plantar soja, milho e criar gado. A área total desmatada desde a chegada de Binotto pode atingir 11 mil hectares. Acompanhadas pela CPT de Araguaína (TO), cerca de 20 famílias tradicionais (que vivem há mais de 50 anos nessa terra) e outras 66 famílias que passaram a ocupar as terras na última década estão ficando ilhadas diante da força brutal do desmatamento e da violência exercida pelos funcionários de Binotto. Rios, córregos e nascentes estão desaparecendo devido ao assoreamento ocasionado pela devastação da natureza. Em muitos casos, o abate de árvores beira as casas das famílias, deixando o local impróprio pra desenvolver qualquer tipo de agricultura familiar. “Essa prática serve também como forma de pressionar as famílias para que elas saiam dali, pois nota-se que o grileiro desmatou, mas não plantou nada. Mas o pior vem depois, quando a soja ou o milho são plantados nos arredores e são despejados os diversos tipos de agrotóxicos”, aponta o agente e coordenador da CPT, Pedro Ribeiro.

Infelizmente essa situação pode piorar muito. Em 2017 Temer sancionou a Medida Provisória 759, que prevê a regularização fundiária de áreas urbanas e rurais e também altera a legislação da reforma agrária. Conhecida como “MP da grilagem”, por permitir a legalização massiva de áreas públicas invadidas (áreas griladas), ela agravará a concentração fundiária, assim como o desmatamento e conflitos de terra.

A expansão do agronegócio, um novo nome pro velho latifúndio, está diretamente ligada ao alto índice de violência no campo. O Brasil é o país que mais mata defensores da terra e do meio ambiente, de acordo com a ONG Global Witness e a CPT. Só em 2017 foram 57 assassinatos, fazendo do Brasil o país mais perigoso no mundo pra lideranças indígenas, camponesas e comunidades tradicionais. E como a maior parte dos conflitos acontece em lugares de difícil acesso, o número real de mortes pode ser muito mais elevado. O agronegócio se tornou o setor mais perigoso pra quem defende o meio ambiente.

Gerson Teixeira, presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), explica que grandes proprietários procuram áreas em processo de demarcação indígena e destinadas à reforma agrária pra conseguir preços mais baixos. “Hoje, os empresários e o agronegócio vão em busca de terras públicas ou baratas, criando uma nova fronteira agrícola nas regiões Norte e Centro-Oeste do País”, afirma. “É justamente onde se encontram comunidades tradicionais, como índios ou posseiros que aguardam a reforma agrária, e é por isso que vemos muitos conflitos agrários nestas regiões”

A PEC 215, que transfere a responsabilidade pela demarcação das terras indígenas da União pro Congresso, ameaça ainda mais a existência dos povos indígenas e a preservação da floresta. Kátia Abreu defendeu a PEC 215, proposta em discussão no Congresso, alegando que a emenda constitucional é necessária pois “as populações indígenas saíram da floresta e passaram a descer nas áreas de produção”.

O Conselho Missionário Indigenista (Cimi), no entanto, tem uma opinião bem diferente. As comunidades indígenas não estão saindo das florestas, é o agronegócio  que está invadindo tudo. “São os agentes do latifúndio, do ruralismo, do agronegócio que invadem e derrubam as florestas, expulsam e assassinam as populações que nela vivem”, afirmou a entidade em carta aberta.

O relatório da Oxam conclui que “a concentração da terra está ligada ao êxodo rural, à captura de recursos naturais e bens comuns, à degradação do meio ambiente e à formação de uma poderosa elite associada a um modelo agrícola baseado no latifúndio de monocultivo, voltado à produção de commodities para exportação e não para a produção de alimentos. É preciso reconhecer que a desigualdade é um grave e urgente problema no Brasil e que sua solução passa por transformações em suas causas estruturais.”

Apesar do cenário desesperador, existe uma maneira de lutar contra a concentração de terras, a destruição do meio ambiente, a violência, o desemprego e a desigualdade social e é sobre isso que falarei no próximo post.

Isso explica o silêncio por aqui. Estava fermentando a revolução. Faz uns meses que estou trabalhando em um projeto incrível (Cashewbert), criado por um rapaz muito bacana, Anderson, que acontece de ser brasileiro, ajudando a desenvolver queijos veganos que usam as técnicas e as bactérias da queijaria tradicional. As últimas semanas foram intensas, pois estávamos nos preparando pra abertura da primeira queijaria vegana de Berlim. Kojiterie abriu sexta passada e fica na Hohenstaufenstraße, 39 (Berlim). Por enquanto só funciona às sextas e sábados. Se dez anos atrás me dissessem que um dia existiriam queijarias veganas (já tem algumas mundo afora) e que eu faria queijos veganos em Berlim… eu provavelmente teria tido a mesma reação tive agora, uma mistura de encantamento com empolgação com esperança. O futuro é verde, meu povo (de planta e de mofo), e está ficando cada vez mais delicioso.

 

Estou passando por aqui hoje pra dar sinal de vida e fazer vocês salivarem com nossos queijos, mas também pra fazer alguns anúncios.

Os tours político-ativista-veganos na Palestina de 2018 acontecerão em março. Serão dois grupos, o primeiro do 1 ao 11/03 e o segundo do 16 ao 26/03. Como já tinha uma lista de espera pros próximos tours, quase todos os lugares foram ocupados. Só tem um lugar disponível no segundo grupo e se você quiser se juntar à nós peço que entre em contanto por email (papacapimveg@gmail.com). Não dou informações sobre os tours nos comentários, só por email. Essa vaga vai desaparecer rapidinho, então se você se interessou, se apresse em me escrever.

Em maio acontecerão os tours gastro-veganos em Paris e os dois grupos estão completos. Como o interesse foi grande, estou pensando em abrir um terceiro tour no segundo semestre de 2018 e quem quiser receber mais informações e entrar pra lista de espera deve me mandar um email. Ainda não sei onde estarei no segundo semestre de 2018, mas se voltar a morar em Berlim adoraria fazer tours gastro-vegano-políticos por aqui também. Eu não tinha planejado fazer esse tipo de trabalho, mas percebi que é um dos projetos que mais me trazem alegria e onde posso combinar várias das minhas paixões e talentos: ativismo, direitos humanos, direitos animais, gastronomia vegetal, viagens e transmissão de conhecimentos e experiências. Além de conhecer pessoas incríveis que acabaram se tornando grandes amigas. Tanto amigas minhas quanto amigas entre si, o que me emociona muito. Juntas estamos criando a comunidade ativista da qual quero fazer parte, que reconhece que o veganismo é parte de uma luta muito maior contra todo tipo de opressão e por justiça pra todos os seres, humanos e não-humanos. E juntas vamos fermentando a revolução, um queijo de castanha por aqui, um pão au levain por ali e muito chucrute no meio.

E falando em fomentar, digo, fermentar a revolução, acabo de confirmar minha próxima visita à Pindorama. Estarei em terras tupiniquins (e potiguaras, tupinambás, cayetés, guaranis etc) de junho à agosto e comecei a organizar minha agenda tropical. Já tem eventos programados (palestras e oficinas de culinária) em Natal, Recife e Brasília, mas ainda cabem mais algumas visitas. Se quiser que eu fomente/fermente a revolução na sua cidade me manda um email que talvez dê certo eu chegar aí com minhas bactérias e ideias. E quem não quer comer queijo vegano, se organizar e fazer parte desse futuro com compaixão e justiça pra todas?

Eu me tornei vegana dez anos atrás, em Paris. A cidade luz foi meu lar durante 6 anos, onde fiz toda a faculdade e um pedaço do mestrado (sou formada em Linguística). Não era fácil ser vegana por lá naquela época e pouca gente sabia o que a palavra significava. Mas minhas razões eram profundas e morar na terra do queijo e do croissant (com manteiga) não me impediu de alinhar as minhas escolhas alimentares com os meus valores, mesmo se o único lugar onde eu podia comer era na minha própria cozinha. Nunca eu imaginaria que dez anos depois o veganismo faria parte da paisagem gastronômica parisiense. Mas o que eu imaginava ainda menos era que um dia eu iria organizar tours gastronômicos na cidade que tanto torceu o nariz pro meu veganismo.

 

 

Queridas leitoras, vim anunciar algo que estou preparando, com muito carinho, há alguns meses. Em maio de 2018 vou guiar um pequeno grupo de brasileiras numa viagem gastronômica-cultural-ativista em Paris. Durante cinco dias descobriremos a cena vegana da cidade, os restaurantes, cafés, brasseries, mercearias, supermercados, lojas de cosméticos, chocolateria, queijaria…tudo  100% vegetal. Quero levar o grupo pra conhecer meus lugares preferidos na cidade, fazer piqueniques em jardins floridos e às margens do rio Sena, visitar feiras e mercados e comer todo o queijo e croissant que couber no estômago. Sim, porque na Paris de hoje nós, veganas, também somos convidadas pro banquete. E além dos passeios e das degustações vai ter muita conversa e explicações sobre gastronomia vegetal, ativismo por direitos animais e o futuro do movimento vegano. Você terá a oportunidade de perguntar tudo que sempre quis saber sobre veganismo, enquanto come a melhor baguete do mundo.

 

Pra ficar tudo perfeito o grupo ficará hospedado em um hotel único, “ecológico, militante e acessível”, como o local se descreve. O hotel se preocupa com economia de energia (lâmpadas de baixo consumo, painéis solares) e de água (torneiras, chuveiros e descargas equipados com redutores de vazão), com redução de embalagens (não utiliza nenhuma porção individual, nem no café da manhã nem nos produtos de higiene), os produtos utilizados na limpeza são biodegradáveis, os sabonetes e xampus oferecidos são naturais e não foram testados em animais, o café da manhã é orgânico e o hotel oferece bicicletas (de grátis!) pras hóspedes. Foram semanas de procura, mas encontrei um hotel que tem tudo a ver com a proposta do tour. E qual não foi a minha surpresa quando descobri que o lugar é a sede da Sea Shepherd na França!

Serão cinco dias inesquecíveis e estou empolgadíssima com esse projeto. O grupo só terá 7 pessoas e algumas vagas já estão ocupadas, então as interessadas devem entrar em contato comigo por email o mais rapidamente possível. Só darei as informações completas, incluindo valores, por email, então corre lá. Mas já vou adiantando que:

-O tour acontecerá entre os dias 15 e 19 de maio de 2018. Talvez tenha um segundo grupo do 22 ao 26 de maio, mas ainda não foi confirmado.

-Não precisa falar Francês (nem Inglês) pra participar do tour.

-Eu não sou uma agência de viagem e esse é um tour independente e alternativo, exatamente como os tours que organizo na Palestina. O que significa que você terá que comprar suas passagens, fazer seguro de viagem e reservar o hotel sozinha. O tour começa e termina em Paris.

-Como essa não é uma viagem turística tradicional, aconselho que as participantes fiquem uns dias a mais pra visitar os pontos turísticos, principalmente se essa for a primeira visita à Paris.

-Não precisa ser vegana pra participar, mas tudo que comeremos durante o tour será vegano. Pessoas não veganas que quiserem comer animais e suas secreções durante a viagem terão que fazer isso sem a minha companhia (depois do tour? na calada da madrugada?).

-Não precisa ser brasileira, mas tem que ser lusófona.

-Vamos caminhar muito, pois essa é a melhor maneira de conhecer Paris. Por isso é importante estar em boa condição física.

-Só cobrarei pelos meus serviços de guia, então as participantes são livres pra gastar o quanto quiser a cada dia nos restaurantes, mercados, lojas etc.  Foi o esquema que me pareceu o mais justo, pra que cada pessoa gaste exatamente o que couber no orçamento.

-Casais e pessoas de todos os gêneros são bem-vindas.

-Escrevam pra papacapimveg@gmail.com e garanto responder todas as perguntas que me fizerem por lá.

 Sigam essa baguete e coisas muito boas acontecerão.