Sobre leite de amêndoas, a morte de bilhões de abelhas e onde entra o veganismo nessa história

No início do ano uma pessoa que acompanha o meu trabalho no Intagram mandou uma pergunta que era mais ou menos assim: “Um amigo criticou o veganismo porque nos EUA as populações de abelha estão morrendo por causa do cultivo intensivo de amêndoas pra fazer leite vegano. É verdade? O que responder?”

Naquele momento eu fiz uma anotação mental pra tratar desse assunto e como recentemente saiu a terceira parte do vídeo que fiz com Ellen Monielle sobre ativismo de mercado e mencionei a situação das abelhas nesse contexto, achei que o momento era ideal pra aprofundar essa questão. 

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Como fazer cuscuz (com coco)

Aproveitando que estou no meu país, o Nordeste, vou compartilhar algumas receitas daqui. Começando com uma das mais simples, o café da manhã de todo dia aqui (pelo menos na parte do Nordeste onde me encontro): cuscuz.

É muito simples e rápido, mas muitas pessoas ignoram 2 coisas essenciais: hidratar o fubá antes de cozinhar e finalizar o cuscuz com um líquido quente e um pouco de gordura. Aqui vai o passo-a-passo.

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Ainda sobre ultraprocessados vegetais de grandes empresas: o veganismo está ganhando?

A terceira maior empresa produtora de leite animal na França acaba de lançar uma linha de leites vegetais. O veganismo está ganhando?

Fiz essa pergunta às pessoas que me acompanham no Instagram e o resultado foi o seguinte: 91% das pessoas responderam que não, 9%, que sim.

Essa empresa, que se chama Candia, faz parte do grupo Sodiaal, o número 3 na produção de leite de vaca na França e número 16 no mundo. São 4.7 bilhões de litros de leite de vaca comercializados por ano, de acordo com o site da empresa. Isso representa um número gigantesco de vacas exploradas pelo seu leite, cujos corpos serão vendidos como “carne” no final da vida, assim como os corpos de seus bezerros machos, um perverso “sub produto” da indústria que explora mamíferas pelo seu leite. Então pra ser uma “vitória pros animais”, o lançamento do leite vegetal da marca deveria diminuir o número de vacas exploradas e torturadas por Candia, certo? 

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Farofa de beterraba

Saí da quarentena (que na verdade era uma dezena) ontem, estado no qual tive que ser colocada depois de ter feito uma longa viagem de avião cruzando o Atlântico. E além de ter esperado os dez dias, só me senti segura pra ter contato com a minha família depois de ter feito um teste pra ter certeza que não estava com covid. Minha mãe é idosa e tem a saúde frágil, então precisamos levar o protocolo sanitário a sério.

E assim que fui liberada, corri pra cozinha.  Ontem fiz uma moqueca de caju que merece aparecer por aqui, mas antes de compartilhar essa receita vos ofereço uma ainda mais simples: farofa de beterraba. Depois que me reconciliei com a farofa, a argamassa da vitória (e da revolução proletária, pelo menos no Brasil), não perco uma oportunidade de preparar, comer e compartilhar esse prato. E essa aqui eu  aprendi com minha irmã Lu (a do bolo de laranja), que por sua vez conseguiu a receita com uma amiga.

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24 horas na periferia de Paris

Estou há alguns dias no Brasil, isolada do resto da família, enquanto respeito a quarentena necessária pra quem passou por três aeroportos em três países diferentes numa viagem de 24 horas. Mas antes de trazer os posts desse blog pra essa nova realidade, gostaria de descrever um dos meus últimos dias antes de viajar. Talvez você imagine que, por morar em Paris, meu cotidiano seja bem diferente de quando eu morava na Palestina e trabalhava em um campo de refugiados. A verdade é que posso ter mudado de país, mas o compromisso com a luta, principalmente com as pessoas refugiadas, migrantes e exiladas, não mudou. Isso é, pra mim, o internacionalismo nos dias de hoje. Pra entender melhor minha realidade de estrangeira do Sul global, morando na periferia de Paris, aqui está o relato de 24 horas na minha vida, da noite da última segunda à noite da última terça.

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O conceito de mistura

Uma das perguntas que escuto com mais frequência é: “Como substituir a carne?” Geralmente feita por pessoas que estão pensando em diminuir ou parar de comer animais, ela diz respeito ao aspecto nutricional da refeição. O que a pessoa está perguntando, na verdade, é: “O que preciso comer no lugar da carne pra ter acesso aos nutrientes que antes eu conseguia através dela?”

Mas pra além da questão nutricional, isso também está relacionado a um conceito que herdamos da culinária que vê animais como comida, o conceito de mistura. E é sobre isso que gostaria de escrever hoje.

O conceito de mistura (proteína animal vista como o componente principal do prato) tem três camadas: nutricional, de status e gastronômica. Vou tratar da nutrição primeiro e das outras em seguida.

Do ponto de vista nutricional carne não é essencial. Vários povos do mundo vivem sem comer animais, além de nós, veganas, e se isso não é evidência suficiente pra você, a ciência já provou que não precisamos comer animais nem o que seus corpos produzem (ovos, leite) pra viver, nem pra ter saúde.  Logo, você pode substituir a carne por…nada. Ela não precisa ser substituída. 

O tradicional pf segue completo sem a carne (feijão + arroz + salada). Feijão é a melhor fonte de proteína que conhecemos, sem os inconvenientes da carne animal, e é uma excelente fonte de ferro. Se você não tem o costume de comer leguminosa todos os dias, essa é a única adaptação que você precisa fazer pra excluir a carne de animais do cardápio (imaginando que o resto da sua alimentação já é variada, com cereais, frutas, verduras e sementes). Lembrando que leguminosas são o grupo do feijão, lentilha, grão de bico, ervilha e fava. Não sabe como prepará-las? Tem várias receitas aqui, só clicar na página “Receitas”. 

Mas se não precisa substituir a carne por nada (mais uma vez, imaginando que você tem uma alimentação variada, que é a recomendação pra todas as pessoas, veganas ou não), por que pessoas não-veganas, e até veganas, olham pra um prato de feijão+arroz+verduras e acham que está faltando algo? Aqui entra a questão de status.

Na escala de valor da sociedade em que vivemos, comida vegetal ocupa uma posição inferior quando comparada à comida animal. Fomos treinadas a ver pedaços de animais e seus derivados como “mais nutritivos”, mas também com “mais status”. É a comida da elite e isso acaba se tornando o modelo que desejamos seguir. 

Mas tem uma pergunta muito importante por trás disso. Quem ganha com o protagonismo de produtos animais na alimentação? E quem ganha quando a estrela do nosso prato passa a ser o vegetal (fresco)? Respostas: a agropecuária e a agricultura familiar, respectivamente. Aqui começamos a entender os interesses financeiros por trás do mito de que carne é essencial e da fabricação dos nossos desejos alimentares carnistas.

E esse mito/manipulação tem uma versão vegana. Entram em cena salsicha, hambúrguer e agora até frango… vegetal, feitos pelas gigantes do agroalimentar. Isso não é apontamento de dedo pra quem gosta desses ultraprocessados, é um convite pra uma reflexão mais profunda.

Ninguém precisa de “carne vegetal” pra retirar animais e seus derivados do prato. A existência desses produtos, longe de ser uma vitória pro movimento vegano, busca nos manter dependentes da indústria. É isso que está em jogo quando a maior produtora de carne de vaca do mundo lança um hambúrguer “vegano”. E tem mais. Isso perpetua outro mito, o de que é caro e difícil ser vegana. Mas tem mais uma consequência que se relaciona com o assunto de hoje. Produtos que imitam animais reforçam o mito de que feijão com arroz e verdura não formam um prato completo. 

E pra entender a última camada desse folhado, precisamos também entender o conceito de mistura do ponto de vista do sabor.

A culinária que vê animais como comida estrutura o prato ao redor do animal morto. É ele que vai receber o melhor tipo de cozimento, o molho caprichado, os temperos especiais. Junta-se a isso o fato que animais são ricos em proteína e possuem o sabor “umami”. Essa palavra japonesa, que pode ser traduzida como “delicioso”, faz referência ao quinto sabor básico (junto com doce, salgado, ácido e amargo). Carne de animais também tem gordura, um componente chave pra realçar o sabor. Muitas moléculas de sabor são lipossolúveis, ou seja, se dissolvem, e se tornam perceptíveis pras nossas papilas, apenas em contato com gordura. 

Nesse tipo de culinária, o animal é o prato principal, o vegetal é acompanhamento. Por isso vegetais não trazem a mesma carga de sabor, pois estão sempre em segundo plano. E ainda assim pedaços de animais e seus derivados são usados pra realçá-los. Basta pensar na função da manteiga, creme, queijo e bacon em muitas receitas de vegetais. Assim somos induzidas a achar o sabor de vegetais inferior. Retirar o animal do cardápio, mas manter esse padrão de culinária, faz com que o prato vegetal não ofereça a mesma satisfação, pois o elemento que carregava todo o sabor sumiu. 

Essa maneira de cozinhar precisa ser superada. Ela cria necessidades falsas (como os ultraprocessados “veganos” que imitam vaca, frango… pra ocupar o lugar da mistura) e nos impede de apreciar o sabor dos vegetais pelo que eles realmente são. Se libertar do conceito de “mistura” (seja um animal ou algo que imite um produto animal) é o primeiro passo numa importante mudança de paradigma. É passar a valorizar o vegetal e quem planta o vegetal. E é ver valor no vegetal pelo que ele é, não pelo que ele tenta imitar. Como diz meu compa de panela e luta Ruan Felix, “nessa revolução lentilhas serão lentilhas”.

Culinária vegetal não precisa e, na minha opinião, não deve, ser uma culinária de imitação. São tantos sabores, texturas e possibilidades no reino vegetal que seria uma pena se contentar em simplesmente reproduzir pratos com animais em versão vegetal. Vegetais só parecem coadjuvantes pra quem nunca os convidou pra ser a vedete da alimentação. Preparando certo eles viram a estrela do prato e enquanto você se delicia com a comida vegetal bem preparada, o conceito de “mistura” vai parar de fazer sentido: está tudo saboroso ali e você não sente mais falta de nada. 

“Quando penso em veganismo, penso em justiça”

Em julho eu contei que tinha voltado a entrevistar pessoas veganas, algo que comecei muitos anos atrás, aqui no blog. Mas dessa vez faço apenas três perguntas e entrevisto somente pessoas que não são brasileiras, pois o objetivo é mostrar que o veganismo lá fora segue forte como movimento político, apesar do veganismo liberal de ONGs e influenciadoras tentar nos convencer do contrário.

A entrevistada de hoje é Ahlam, uma palestina incrível que está construindo o movimento antiespecista e feminista na Palestina, enquanto segue resistindo a colonização de seus territórios e lutando pela autodeterminação do seu povo. Sim, é possível ser vegana e se importar com mais de uma causa! Não só possível, como coerente com a luta antiespecista.

O que é veganismo?

O veganismo é dizer NÃO à opressão em sua forma menos notada: especismo. Quando penso em veganismo, penso em justiça. Justiça pra todas as almas esmagadas, privadas de qualquer meio de se defender, exceto através da nossa voz.

Por que você se tornou vegana?

Sempre me peguei pensando no que fazemos aos animais enquanto eu refletia, falava ou escrevia sobre outras causas, principalmente o feminismo. A comparação era tão evidente e chocante. Nós discriminamos uns aos outros com base no gênero, religião, cor, status social, etc. e discriminamos animais com base no fato deles não serem humanos. Como uma mulher que vive sob ocupação militar (israelense) e em uma sociedade patriarcal, as camadas de opressão e discriminação que sofri abriram meu coração, de muitas maneiras, pra ver a opressão que outros animais humanos e não humanos sofrem na Palestina e no mundo em geral.

Anos antes de me tornar vegana, escrevi um artigo expressando minha raiva pelo linchamento de um jovem, membro de uma minoria religiosa no Egito, por uma multidão de extremistas. Concluí que linchamentos, um castigo cruel e uma maneira de intimidar um grupo, só iriam parar quando nós parássemos de lidar com a matança de pessoas como uma parte normal da vida, algo inevitável em guerras e conflitos. Foi então que me dei conta que a matança de pessoas não terá fim enquanto a matança de animais continuar. Porque quando você mata um animal, você normaliza o ato de matar.

Hoje eu lembro de muitos momentos veganos que experimentei ao longo dos anos, como quando fui forçada a dar uma mordida na carne de Misho, o cordeiro que criamos desde o nascimento. Eu não consegui engolir. Isso foi há oito anos e foi a última vez que coloquei carne de cordeiro na boca. Outro momento vegano, três anos atrás, foi quando estava preparando ovos caipiras e encontrei sangue dentro de um deles. Tinha um pinto começando a se formar ali. Eu não podia mais ignorar aquilo e me tornei vegana logo depois.

Como derrubar o especismo?

Com educação. Nosso sistema educacional é especista, da mesma forma que é sexista e classista. As aulas de ciências são terrivelmente especistas. Afirmam, por exemplo, que animais fazerem parte da cadeia alimentar, que humanos devem comer não-humanos. E reforçam o mito de que se não comermos animais, eles vão superpovoar a Terra, comer todas as plantas e nós morreremos de fome. Sem falar nas aulas de religião onde o mito de que “os animais foram criados pro nosso uso” é repetido de várias maneiras.

Transformar o sistema educacional é o objetivo. Envolver crianças e jovens em atividades intersetoriais é o caminho a ser seguido.

Sobre racismo no movimento vegano

A história de hoje é sobre:
-racismo
-veganismo
-leis que dizem proteger animais, mas que na verdade buscam marginalizar ainda mais minorias sociais
-como um país idolatrado pela comunidade vegana por ser o lar da maior comunidade veg no mundo está abandonando o vegetarianismo
-como nesse mesmo país, que tem reputação de ser um templo de não-violência, uma parte da população está linchando uma minoria social em nome da “proteção das vacas”
-e o que isso tem a ver com todo o resto.

(Resposta: é uma grande lição pra nós, no movimento vegano brasileiro, sobre estratégias de luta antiespecista que funcionam e estratégias que são um desastre anunciado.)

Muitas luas atrás escutei um podcast (The Vegan Vangard) com Rama Ganesan, uma ativista vegana indiana, falando sobre as consequências da lei de 2015 que proíbe o abate e o consumo de carne de vaca na Índia. Essa lei veio como uma emenda de uma lei dos anos 70 que proibia o abate de vacas e bezerros (não o consumo) pelo Estado, mas que cada estado (com “e” minúsculo) era livre pra adotar ou não. A emenda proposta pelo governo, liderado pelo partido nacionalista hindu BJP (Bharatiya Janata Party), defendia uma proibição a nível nacional, tanto do abate como do consumo e possessão de carne de vaca. Quem desrespeitasse a lei podia ser presa (até 5 anos de prisão) ou pagaria uma multa de US$ 150, ou os dois.

Parece uma medida de proteção animal incrível? Esses indianos do BJP merecem aplausos por defenderem com tanto afinco a vida das vacas em seu país? Antes de pular pra essas conclusões, siga lendo que tem muito caroço nesse angu.

Como indiana e hindu, Rama Ganesan explicou que a lei não tinha nada a ver com a defesa da vaca, que é sagrada na Índia. O que descobri ouvindo aquele podcast me deixou de queixo caído e desde então penso em escrever sobre o assunto. Aí umas semanas atrás duas coisas aconteceram. Recebi a revista “The funambulist” (uma das minhas preferidas) desse bimestre e vi que Rama tinha escrito um artigo sobre o mesmo tema, com algumas informações adicionais. E, logo depois, a cozinheira, palhaça e maravilhosa Thallita Flor sofreu ataques racistas por parte da comunidade vegana por se opor ao projeto de lei que visa criminalizar abate de animais em rituais de religiões de matriz africana.

Eu já falei sobre o assunto no Instagram, mas se você não me segue lá, deixa eu colar o texto aqui:

Como anti-especista luto pra que ninguém mais se ache no direito de matar animais, independente do motivo. Mas enquanto existir abatedouros, enquanto continuar sendo socialmente aceitável comprar animais mortos no supermercado e comer animais assados no almoço, a criminalização do ato de matar e comer animais somente pelo povo de santo não terá o meu apoio. Essa seletividade visa unicamente punir praticantes de religiões de matriz africana, em sua maioria negras, não diminuir o sofrimento animal.

Que fique bem claro que não estou defendendo o abate religioso. Estou dizendo que essa fantasia de proteção animal não passa da continuação da longa história de racismo e perseguição ao povo negro no Brasil e a tudo que lhe é associado.

Não se iluda. Você não estará “salvando a vida de muitos animais” ao defender esse tipo de lei. Estará apenas ajudando a reforçar a intolerância religiosa e o racismo. O povo de santo provavelmente continuará fazendo seus rituais, o que vai mudar é que ele será criminalizado por fazer exatamente a mesma coisa que a grande maioria da população brasileira faz em toda tranquilidade: matar (ou pagar pra matar) e comer animais.
Não caia no conto do “Primeiro focamos na proibição desse tipo de abate, depois proibiremos todos os outros.” Não, isso não vai de maneira alguma facilitar uma futura proibição do abate kosher e halal (extremamente lucrativos), não vai impedir a pecuária de continuar abatendo bilhões de animais, pois tem muito interesse econômico aí.

E antes de dizer que estou “colocando os humanos na frente dos animais” já vou avisando que a libertação animal não será conquistada em cima da opressão de outros grupos. Não estou colocando um grupo na frente do outro, estou sendo coerente, pois o meu compromisso é com a luta anti-opressão, toda e qualquer opressão. ⠀

Hoje gostaria de propor uma reflexão mais profunda, construída com a ajuda do exemplo indiano.

O que está por trás da lei indiana que proíbe o abate de vacas, o consumo e a possessão de carne de vaca? Primeiro é preciso entender o contexto e pra explicar isso vou usar aqui o que aprendi com Rama Ganesan, além das pesquisas que fiz pra escrever esse texto e da minha (curta) experiência na Índia. Vou simplificar muita coisa, mas é importante conhecer alguns elementos de base pra compreender a questão.

80% da Índia é Hindu, mas muita gente ignora que os 20% restantes representam uma imensa diversidade de religiões: Jainismo, Sikhismo, Budismo, Cristianismo, Zorastrismo e Islã. Essa última é a segunda religião mais popular na Índia, abraçada por mais de 14% da população.

A vaca é sagrada na religião Hinduísta (explicações necessárias sobre isso mais na frente) e desde que passou a liderar o governo, o BJP vem impondo uma agenda nacionalista Hinduísta, afirmando que essa é a religião nacional (a Índia é um Estado laico). A proibição de consumo de carne de vaca vai de encontro às crenças religiosas da população Hindu (informações sobre isso também aparecerão nesse texto), mas vai contra as práticas alimentares da maioria das outras religiões, além de destruir a fonte de rende de pessoas muçulmanas, que tradicionalmente comercializam carne de vaca (possuem açougues, abatedouros) e que formam o segundo maior grupo religioso do país. Mas não é tudo.

Outro grupo, esse ainda mais marginalizado do que a população muçulmana no país, também se alimenta de carne de vaca: Dalits (pejorativamente conhecidos como “intocáveis”). Aqui se faz necessária uma aula rápida sobre castas (bem simplificada, só pra todo mundo poder acompanhar a reflexão proposta nesse texto).

Os Vedas, textos sagrados que serviram de base pro Hinduísmo, descrevem um sistema de divisão hierárquica da sociedade em quatro classes, as castas. No topo da hierarquia estão os Brâmanes (sacerdotes/letrados), em seguida vem os Xátrias (guerreiros), depois os Vaixás (comerciantes) e, por último, os Sudras (camponeses). Ficou uma galera grande de fora, os “sem casta”, também conhecidos como “intocáveis”, porque as outras castas não deveriam nem tocar nesse pessoal. Essas pessoas, que preferem (obviamente) serem chamadas de Dalits, vivem à margem da sociedade (Dalits se organizam e lutam contra sua opressão há tempos) e fazem os trabalhos mais insalubres, que são vistos como “impuros”: limpar esgotos, trabalhar em curtumes, limpar as ruas… Outra comunidade que ficou de fora do sistema de castas são os Adivasis, o povo da floresta.

E o que isso tudo tem a ver com a lei que proíbe abate e consumo de carne de vaca? Dalits, assim como muçulmanas, comem carne da vaca. Enquanto as castas superiores tem acesso a outros alimentos, como laticínios, Dalits foram historicamente marginalizados e são forçados a comer o que está disponível, sem poder escolher, e muitas vezes isso significa comer carne ou miúdos de vaca.

Aí entra a lei defendida pelo BJP. Além de privar pessoas muçulmanas de sua fonte de renda (como expliquei, muitas delas comercializam carne, não só de vaca), ela marginaliza ainda mais essas duas comunidades já extremamente marginalizadas na Índia: muçulmanas e Dalits. E quem ganha com isso? Os animais?

Reza a lenda que Hindus são vegetarianos (lacto-vegetarianos) e, como 80 % da população indiana é Hindu, também reza a lenda que a Índia é uma nação vegetariana. Vi a informação de que mais de 50% da população é vegetariana diversas vezes e eu mesma repeti isso em conversas e palestras. Então qual não foi minha surpresa quando descobri que mais de 70% da população indiana come animais!

Um estudo de 2014 feito pelo Office of Registrar General & Census Commissioner, uma espécie de IBGE local, mostrou que 71% das pessoas na Índia não são vegetarianas. E esse número pode ser bem mais alto, já que comer animais ainda é visto como socialmente inaceitável (pra Hindus) e muita gente come animais no privado, mas se diz vegetariana no público.

As razões pro abandono do vegetarianismo na Índia são diversas, como mostra esse artigo de 2018 (“O caso de amor secreto da Índia vegetariana com frango”):

“Além das variações culturais e de religião, vários fatores-chave influenciaram a mudança na direção do consumo de carne na Índia. Como aumento da urbanização, aumento da renda disponível, globalização e influencias de outras culturas. Várias pessoas nas grandes zonas urbanas estão abraçando o consumismo como sinal de ascenção social e a carne é amplamente considerada como um símbolo de status.”

Sim, eu também fiquei decepcionada. Jurava que tinha muito mais vegetarianas na Índia. Mas vale lembrar que mesmo assim a Índia segue sendo um dos países que menos consome animais no mundo. Apesar de 71% das pessoas lá comerem animais, a quantidade é bem pequena comparada com o que vemos no Brasil, por exemplo. Em 2019 a média de consumo de carne (frango e vaca) por pessoa na Índia foi menos de 3kg. Já no Brasil, no mesmo ano, se comeu quase 80kg de carne (todos os tipos) por pessoa.

Descobrir que a Índia não era a nação vegetariana que eu imaginava foi uma surpresa. Mas o choque mesmo estava por vir. Pois não é que além de ser o maior produtor de laticínios do mundo, o país também é um dos maiores exportadores de carne de gado do mundo? Em 2015 a Índia passava inclusive na frente do Brasil como maior exportadora de carne de gado do mundo. Mas a vaca não era sagrada???

Rama Ganesan, explica:

“Mesmo para os hindus, comer ou não comer carne animal tem mais a ver com pureza e poluição (do corpo) do que com alguma preocupação com a vida animal e em grande parte se correlaciona com uma estrutura de classe social conhecida como castas. Especificamente, são os brâmanes e outras castas superiores que devem se abster de carne para preservar sua pureza e superioridade moral sobre as outras castas e grupos sem casta, incluindo os Dalits. Portanto, a ideia de que a Índia está particularmente preocupada com o bem-estar animal é uma fabricação, uma narrativa criada e vendida pelo grupo dominante para estrangeiros.

Em vez de qualquer preocupação com animais, vacas ou outros, a proibição da carne bovina faz parte do projeto nacionalista “Hindutva” para reforçar a identidade do Estado como uma nação hindu. A função do Hindutva é estabelecer a hegemonia dos hindus e do modo de vida hindu sobre as ideologias concorrentes, especificamente o Islã.

O atual governo na Índia, liderado pelo Partido Bharatya Janata, determinou que o abate de vacas é ilegal na maior parte do país porque, aparentemente, a religião hindu considera a vaca um animal sagrado. Olhando rapidamente, isso parece estar associado a uma posição de defesa dos direitos animais, mas não precisamos ir muito longe para encontrar evidências de que o animal não é o que motiva essas políticas. A Índia é o maior produtor de leite – uma indústria cruel que insemina vacas à força, separa os bezerros recém-nascidos de suas mães e mata os dois quando é conveniente. Mas como as castas privilegiadas são consumidoras ávidas de laticínios, esta forma de exploração e crueldade é ignorada. Além disso, a Índia continua sendo um dos principais países exportadores de carne bovina e couro (…) A proibição visa Dalits, muçulmanas e outras pessoas marginalizadas que costumam comer ou comercializar carne bovina. Nenhuma fonte alternativa de renda ou nutrição foi fornecida para os milhões que dependem da indústria do abate. A proibição trouxe à tona a animosidade de longa data (entre hindus e muçulmanos) e as pessoas decidiram fazer justiça com as próprias mãos. Os “vigias das vacas” e o linchamento daqueles que comem carne bovina aumentaram e os perpetradores muitas vezes não são punidos.”

E é aqui que a história, que já era triste, se torna assustadora. Além de perder sua fonte de renda e nutrição, pessoas marginalizadas, principalmente muçulmanas, foram linchadas por “comerem carne de vaca”. Entre 2015 e 2019 grupos de “vigilância de vacas” mataram pelo menos 44 pessoas.

“Um dia de junho, no final do Ramadã, dois jovens irmãos muçulmanos, em visita a Delhi para comprar roupas novas para Eid, embarcaram em um trem para voltar para casa, a três horas de distância. No trem, eles se envolveram em uma desavença sobre o assento com outros passageiros, que se transformou em uma discussão sobre a religião deles. Os outros passageiros zombaram dos meninos, chamando-os de “comedores de carne de vaca” e puxaram suas barbas, disse um dos irmãos mais tarde. Ate que as facas apareceram. No momento em que o trem passou pelo vilarejo dos meninos, o ataque estava em andamento. Junaid Khan, de quinze anos, foi atirado para fora do vagão uma estação depois da parada onde ele e o irmão deveriam descer; ele havia sido esfaqueado várias vezes e mais tarde foi declarado morto no Hospital Civil em Palwal.” Fonte

Além das mortes, segundo um relatório divulgado pela Human Rights Watch (HRW) pelo menos 280 pessoas ficaram feridas em mais de 100 ataques em 20 estados indianos entre maio de 2015 e dezembro de 2018:

“Os crimes visam principalmente as minorias e ficam impunes devido ao apoio da aplicação da lei (que proíbe o abate e consumo de carne de vaca) e do partido governante (BJP), que estimula campanhas violentas de “vigilância” contra o consumo de carne bovina e pessoas envolvidas no comércio de gado. As vítimas também são das comunidades Dalit (anteriormente conhecidas como “intocáveis”) e Adivasi (indígenas) da Índia.”

O ativista de direitos humanos Harsh Mander disse ao The Guardian que muitas das mortes foram filmadas e compartilhadas. “Este aspecto ‘performativo’ da violência lembra, para mim, os linchamentos de afro-americanos nos Estados Unidos como forma de mostrar o status ao qual uma comunidade foi reduzida.”

As tensões e violências contra comunidades marginalizadas na Índia não nasceram com a lei que proíbe o abate e o consumo de carne de vaca, elas são bem mais antigas. Mas o que eu quis mostrar aqui é como um grupo dominante pode usar uma lei, que aparentemente parece querer proteger animais, pra reforçar a opressão de grupos sociais marginalizados e avançar seu projeto hegemônico, incitando (direta ou indiretamente) violência contra pessoas que têm práticas culturais e religiosas diferentes das práticas do grupo dominante. Enquanto isso a opressão de animais não-humanos por grupos dominantes segue a todo vapor e só é considerado “inaceitável” aquilo que é praticado por grupos sociais marginalizados.

Deu pra perceber onde estou querendo chegar, né?

Na Índia, uma lei que proíbe o abate e consumo de vacas, algo que só é praticado por minorias sociais, ou seja muçulmanas, dalits (“intocáveis”) e advasis (indígenas) é islamofóbica e racista. É muita hipocrisia ser o maior produtor de laticínios e um dos maiores exportadores de carne de gado e de couro do mundo, mas punir quem comercializa ou consome carne de vaca pra sobreviver.

É a mesma hipocrisia e oportunismo que aparecem sempre que falam em fazer uma lei pra “proibir o abate ritual em religiões de matriz africana no Brasil”. Nosso país é hoje o maior exportador de carne do mundo e um dos maiores produtores de laticínios. Se a motivação por trás desse tipo de lei fosse proteger a vida de animais não-humanos, o alvo seria a pecuária, o agronegócio, os abatedouros gigantescos da JBS, não os terreiros.

Não estou afirmando que se tivéssemos uma lei dessas o Brasil ia ver o mesmo fenômeno que está acontecendo na Índia e pessoas negras que praticam uma religião de matriz africana seriam linchadas. Mas não é impossível. Dá pra imaginar muito bem a formação de grupos de “vigilância anti-sacrifício”, que se reuniriam na frente de terreiros e gritariam violências pra quem estivesse tentando praticar seus rituais lá dentro. Ou coisa pior. Enquanto isso a indústria da carne seguiria tranquilamente, quebrando recordes de número de animais abatidos, trimestre após trimestre.

Thallita Flor foi atacada porque as pessoas confundem “se opor à uma lei porque ela é racista”, além de ineficaz quando se trata de diminuir o número de animais mortos, com “apoiar o sacrifício de animais” porque, como várias pessoas me disseram nos comentários do meu post sobre o assunto, “é praticado por um grupo oprimido”.

Se você me leu até aqui, espero que seja capaz de completar o raciocínio sozinha, mas se ainda assim não deu pra entender, lá vai. Não é sobre “defender sacrifício animal porque vem de um grupo historicamente oprimido”. Precisamos sair desse veganismo que não enxerga pra além de um palmo diante do nariz, dar um passo pra trás e analisar o contexto TODO. Se trata de reconhecer que essa lei causaria mais discriminação, mais violência contra um grupo oprimido, enquanto falharia totalmente em “proteger” e “salvar vidas” animais. Temos um exemplo muito concreto que confirma isso: a Índia.

Então deixa eu terminar com mais uma fala de Rama Ganesan:

“É importante que o veganismo não seja misturado com as proibições de consumo de carne propostas pela direita, (…) nem com práticas discriminatórias que colocam os animais acima dos humanos. Não é assim que alcançaremos a libertação total. Como movimento anti-opressão, o veganismo precisa refletir seu objetivo em suas táticas. É contraproducente recorrer a métodos coercitivos para alcançar libertação animal às custas da libertação humana. Em segundo lugar, esses métodos não funcionam, eles apenas provocam reações negativas por parte daqueles que são discriminados e dos seus aliados. Por fim, como vimos, a proibição de abate e consumo de carne bovina nem sequer protege as vacas de serem abatidas ou exploradas.”

Por causa da lei que proíbe o consumo de carne de vaca, várias pessoas Dalits que não tinham o hábito de comer carne disseram ter passado a comer carne de vaca, em reação à essa lei discriminatória. Olha onde as coisas podem parar.

Mas deixa eu terminar com algo positivo, ainda parte do artigo “Veganismo deve ser anticastas”, que Rama Ganesan escreveu na revista “The funambulist”:

“Uma tensão desconfortável entre minha luta antiespecista e minha solidariedade com o movimento anticastas permanece. (…) Dias atrás ouvi esta estatística do professor universitário Dr. Balmurli Natrajan: atualmente, um terço dos Brâmanes são comedores de carne e um terço dos Dalits são vegetarianos. (..) Isso me dá esperança de que possamos separar o casteísmo (discriminação baseada na casta) do vegetarianismo, para mostrar que se importar com humanos e com animais não humanos são coisas que podem andar juntas, o que é muito natural.”

Links de alguns artigos que me ajudaram a escrever esse texto:

https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/07/india-modi-beef-lynching-muslim-partition/533739/
https://theconversation.com/is-lynching-the-new-normal-in-india-80415
https://www.abc.net.au/news/2019-02-20/india-cow-protection-groups-have-killed-over-44-people-report/10830902
https://www.hrw.org/report/2019/02/18/violent-cow-protection-india/vigilante-groups-attack-minorities#
https://data.oecd.org/agroutput/meat-consumption.htm
https://qz.com/india/1387151/vegetarian-indias-secret-love-affair-with-chicken/

Por que pessoas deixam de ser veganas?

Há muitos anos me faço essa pergunta e depois de muita pesquisa e reflexão acabei descobrindo que a resposta é complexa.

Em 2014 o Human Research Council fez um estudo com ex vegetarianas/veganas (vou escrever “vegs”, pra encurtar) pra tentar entender por que pessoas abandonam o vegetarianismo/veganismo. O estudo foi encomendado pra tentar entender esse fato alarmante: 84% das pessoas que se tornaram vegs voltam a comer animais. É essencial entender as razões por trás disso se quisermos construir um movimento antiespecista eficaz. Foram 11 mil ex vegs entrevistadas e a lista de razões que as fizeram deixar de ser vegs é longa, mas as principais são de ordem social. A razão principal (apontada por 84% das entrevistadas) foi “não participar ativamente de grupos vegs”, seguido de “não gostar de ser visto como diferente por ter dieta veg” (63%), “não ver vegetarianismo/veganismo como parte da identidade” (58%) e “não ter interações suficientes com outras vegs” (49%).

O estudo também confirmou algo que eu já tinha descoberto de maneira empírica: 33% das ex vegs voltaram a comer animais depois de começar um relacionamento com uma não-veg.

Tem um argumento usado pra despolitizar o veganismo que diz que o “veganismo radical”, que segue boicotando empresas especistas, faz as pessoas abandonarem o veganismo, mas isso não se confirmou. A verdade é que quem se torna veg, mas não faz parte de uma comunidade veg, pode se sentir tão isolada e diferente que acaba voltando a comer animais. Somos seres sociais e se for preciso escolher entre viver nossa ética ou pertencer à uma comunidade, a maioria de nós escolherá a segunda opção.

Tá, vimos os motivos que levam pessoas a deixarem de ser vegs, mas será que os motivos que as levaram a se tornar vegs também importam aqui? Sim! 58% das ex vegs se tornaram vegs pela saúde, enquanto somente 27% o fizeram pelos animais. Quando a motivação é saúde, a pessoa tende a abandonar o veganismo com mais facilidade: se aparecer outra “dieta” que seja vista como mais saudável, se ela não sentir os “benefícios” que prometeram que ela sentiria adotando o veganismo…

Resumindo. Pessoas deixam de ser veganas principalmente porque 1-entraram no veganismo por razões não-éticas, 2-não tinham uma comunidade vegana (amigas, familiares) pra apoiá-las e 3-ter uma prática que sai da norma era um peso pra elas. O custo social de ser vegana (ser vista como diferente, ser chamada de “difícil” nos almoços de família, ser alvo de piada carnista) parece alto demais quando as motivações não são de ordem ética.

Isso nos dá pistas de como construir um movimento vegano eficaz, mas antes de traçar estratégias, é preciso dar um passo pra trás e analizar isso dentro de um contexto mais amplo.

Como alguém pode voltar a participar ativamente da opressão animal depois de ter entendido que é possível não compactuar com ela? Não vim aqui culpabilisar ninguém, só oferecer uma reflexão pra tentar entender por que pessoas abandonam o veganismo, mesmo quando elas têm todas as condições de seguirem veganas.

Apesar de ter começado esse texto explicando as razões que, segundo as pessoas entrevistadas no estudo citado acima, as levaram a abandonar o veganismo, é preciso ir além e não se contentar em individualizar esse debate.

O especismo é a ideologia que discrimina e oprime com base na espécie e isso é o resultado de uma força social organizada. Tudo na nossa sociedade facilita e incentiva a exploração animal: propaganda de carne por todos os lados, oferta de produtos animais em todos os locais, médicos e nutricionistas afirmando que é essencial comer animais pra ter saúde. Os interesses econômicos por trás do hábito de comer animais e seus derivados são gigantes. Ir contra essa força é uma prática constante que pode ter um custo social alto demais pra certas pessoas. Afinal, ser vegana é, de certa forma, entrar num grupo minoritário e navegar um mundo que, estruturalmente organizado de maneira especista, não foi feito pra acolher e levar em consideração as necessidades de veganas.

E é aqui que entra nossa missão: construir um movimento organizado e forte, capaz de mexer na estrutura especista, enquanto, ao mesmo tempo, lutamos por transformações mais imediatas pra, de um lado, acabar com a exploração animal onde já é possível e, por outro lado, retirar os obstáculos que impedem as pessoas de adotarem o veganismo e facilitar a vida de quem já é vegana. Trabalhar pra ter merenda vegetal nas escolas e opção vegetal no restaurante universitário são alguns exemplos.

E se ex-veganas resolverem voltar pro movimento, vamos garantir que elas serão bem recebidas:)

PS Bora parar de glorificar celebridades veganas? Aí já evita o desgaste quando elas anunciarem (surpresa!) que não são mais veganas.

Sobre racialização e as armadilhas coloniais

Dia 4/07 aconteceu a Parada Política do Orgulho LGBT+ em Paris. A Parada política existe justamente pra protestar contra a Parada oficial, patrocinada por bancos e cartões de crédito, que transformou esse dia tão importante, onde ocupamos as ruas pra honrar a memória das que lutaram antes de nós e continuamos a luta por direitos LGBT+, em uma festa despolitizada pra celebrar o pink money.

A Parada política desse ano teve dois temas principais: a luta antirracista e o impacto do corona na vida das pessoas LGBT+ precarizadas. Ela foi organizada por dezenas de coletivos e organizações LGBT+ locais, algumas que constroem esse luta há décadas. Sem carro de som, sem os balões e banners dos patrocinadores (sem patrocinadores), sem celebridades, mas com percussões e, principalmente, com nossas vozes gritando alto e forte pelas ruas de Paris: “Não tem ‘orgulho’ sem migrantes indocumentadas”, “Não tem ‘orgulho’ sem as deficientes”, “Basta dessa sociedade que não respeita as trans, as sapatonas e as racializadas”, “Todo mundo detesta a polícia”, “Nosso orgulho não está à venda” ,“Nosso orgulho é político”, “Queremos libertação LGBT, não capitalismo rosa”, “Sem justiça, não há paz!” e “Vidas negras importam”.

E já que um dos temas centrais da parada desse ano foi a luta antirracista, era muito importante que um grupo de pessoas LBGT+ não-brancas liderasse a marcha. Eu digo “não-brancas” aqui porque na França a questão racial é mais complexa do que no Brasil, no sentido de que além do racismo contra a população negra, tem o racismo contra as populações árabe e Rom, muitas vezes ainda mais estigmatizadas. Eu já falei sobre isso no post sobre a luta contra a islamofobia, mas vale repetir. Na França uma pessoa negra é 6x mais suscetível de ser parada pela polícia na rua do que uma pessoa branca. Já uma pessoa árabe é 8x mais suscetível de ser parada pela polícia do que uma pessoa branca.

Foi incrível fazer parte desse bloco e caminhar do lado de tantas pessoas LGBT+ racializadas. Sempre que alguma pessoa branca entrava no bloco, alguém avisava que ali era um espaço pra pessoas racializadas e a pessoa branca ia se juntar às milhares de outras pessoas caminhando atrás do bloco. Menos, adivinha, alguns homens brancos que se recusaram a respeitar o pedido da galera e ficaram a dois dedos de agredir fisicamente as pessoas do bloco, enquanto repetiam o o famigerado: “Somos todos iguais! Não precisa dividir o movimento!” Claro, homem branco, somos tão iguais que você se recusa a respeitar o desejo de pessoas não-brancas de ter um espaço só pra elas, mesmo por apenas algumas horas, e quer impor sua presença em todos os espaços, porque quem manda no mundo é você, né?

Eu caminhei a maior parte do tempo no bloco das LGBT+ racizadas, enquanto Anne, que é branca, estava fazendo fotos na parte de trás. Sim, eu estava lá. Sei que no Brasil eu sou considerada “branca”, mas na Europa eu sou “latina” e “latina” não é branca.

Sempre que digo isso pra brasileiras a galera arregala os olhos. “Como assim, você não é branca?” E como eu acabei de ler um artigo extremamente interessante sobre o processo de racialização (ou etnicização), vim conversar com vocês sobre isso.

Aqui na França o termo “racializada” é o mais utilizado pra falar de uma pessoa não-branca (o equivalente do “people of colour” em Inglês). É importante entender como o processo de racialização opera pra entender o racismo (não só anti pessoas negras, mas também anti árabe, anti Rom, etc).

Uma pessoa racializada é “uma pessoa que pertence, de uma maneira real ou suposta, a um dos grupos que passou por um processo de racialização. A racialização é um processo político, social e mental de alteridade. Observe que ‘raças’ e o que chamamos de grupos ‘raciais’ ou ‘étnicos’ costumam ser uma mistura de gêneros, como por exemplo muçulmanos ou judeus (religião), negros (cor da pele), árabe (idioma) ou asiático (continente). O termo ‘racializado’ destaca o caráter socialmente construído das diferenças e sua essencialização. Ele enfatiza que a raça não é objetiva nem biológica, mas que é uma ideia construída que serve pra representar, categorizar e excluir o ‘outro’. ” Alexandra Pierre, militante feminista negra.

Ou seja, é o processo de construir um “outro” que é diferente (de diversas formas) do “padrão” do grupo dominante. E sim, amigas brasileiras, nós, da América do Sul, somos o ‘outro’ do francês.

Antes de prosseguir quero deixar registrado que não estou dizendo que na França eu, como “latina”, sofro o mesmo tipo de discriminação e opressão que pessoas negras ou árabes sofrem. Estou apenas frisando que no contexto francês eu não sou vista, nem tratada, como uma pessoa branca. Mas sabemos que tem hierarquias dentro desse processo de racização e cada grupo racizado será oprimido de maneiras diferentes.

Obviamente reconheço perfeitamente que no Brasil eu sou branca e sempre tive acesso a todas as facilidades reservadas às pessoas brancas. Se a Parada política fosse no Brasil, eu não entraria no bloco de pessoa não-brancas alegando que “na França eu não sou branca”. Nunca faria isso! Estou apenas dizendo que uma pessoa como eu, vinda do Brasil e com a pele clara, mas não exatamente branca de olhos claros, ocupa lugares diferentes de acordo com o país em que está. Na Palestina a galera me lia como branca. Na Turquia também. Na maior parte da Europa, não. E, o mais curioso de tudo, em certos casos fui lida como branca aqui na França e já explico como essa “mágica” aconteceu.

Eu descobri que não era branca aos 20 anos, quando me mudei pra Paris. Eu era babá de duas crianças francesas (uma irmã e um irmão) e fiquei muito próxima delas, que cuidei durante os 6 anos que morei aqui como universitária. Como a mãe e o pai das crianças trabalhavam muito, eu acabava indo a todos os eventos das crianças. Por isso quando a menina começou a fazer aula de dança e teve o primeiro espetáculo, eu fui. Eu era a única babá ali, todas as pessoas presentes eram mães das crianças (não lembro de ter visto nenhum pai). Então quando a professora de dança, no final da apresentação, falou sobre o progresso de cada criança com sua mãe respectiva, mas não veio falar comigo, deduzi que ela tinha captado que eu não era a mãe da menina (aos 20 anos eu tinha cara de 12) e não me interessaria pelo assunto.

No caminho de volta pra casa a menina, vou chamar de M., falou o seguinte. “Sandra, você acha que a professora não falou com você porque você não é branca?” Eu fiquei olhando pra ela com a boca aberta. Como?

M. não falou isso com indignação, parecia algo bem óbvio pra ela. Aos 6 anos ela já tinha entendido que no mundo as pessoas eram brancas (como ela) e tratadas com respeito, ou não-brancas (como eu) e podiam ser ignoradas. Não sei qual das duas informações me chocou mais no momento. O fato de ter descoberto que eu não era branca, depois de ter vivido minha vida inteira até ali acreditando que eu era, ou o fato de uma criança de 6 anos ter se dado conta do racismo, mas parecer ter normalizado aquilo ao ponto de não se indignar se uma pessoa que ela gostava fosse ignorada por não ser branca. (Ainda acredito que a professora não falou comigo porque eu não era a mãe de M. , mas o fato da menina ter me feito aquela pergunta mostra como ela me percebia de maneira diferente das pessoas brancas.)

Anos mais tarde eu estava conversando sobre quem era branca e quem não era com o menino, que vou chamar de L. Ele, que tinha a pele mais bronzeada do que a minha, dizia que era branco, mas eu, não. Eu coloquei o braço do lado do dele, que era vários tons mais escuro do que o meu, pra ver como ele ia explicar aquilo. Ele ficou desconcertado, sem saber como explicar o fenômeno, e no final gaguejou que ele era branco porque era francês e eu não era porque vinha do Brasil. Pra L. a branquitude tinha a ver com a nacionalidade. O Brasil era um país de não-brancas, então não fazia diferença se minha pele era bem mais clara do que a dele. Não é a cor da pele que fazia de mim uma não-branca, era a minha nacionalidade.

Parênteses pra explicar que uma pessoa nascida no Brasil, mas loura ou ruiva e de olhos claros, será lida como branca aqui na França. A ascendência europeia dela é imediatamente identificada, o que faz com que ela não seja racializada. Ela não é o ‘outro’, é parte do universal (o europeu). Então talvez seja importante dizer que não é apenas o fato de nascer no Brasil (ou na América do Sul) que faz de uma brasileira uma pessoa não branca na França. Não é a conexão com o país em si (geográfica) e sim com os povos nativos daquele país.

Já que vim trazer verdades pra ajudar na reflexão anti-colonial, abro outro parênteses pra explicar que o Brasil não é Ocidente. Sim, você leu certo. Sei que é comum se falar no Brasil “porque no Ocidente isso, a visão ocidental aquilo” sempre se incluindo nesse grupo, mas não, coleguinha, não somos ocidentais. “Ocidente” faz referência a uma organização colonial do mundo. Significa o Norte Global: a Europa, embora não toda a Europa, América do Norte (EUA e Canadá) e Austrália e Nova Zelândia (embora esses países estejam no Hemisfério Sul). Trocando em miúdos, Ocidente é o lugar de onde saíram os colonizadores e as ex colônias mais prósperas e brancas.

Embora tenham me perguntado muitas vezes aqui se minha pele clara vinha de uma ascendência europeia, fica evidente olhando pra minha cara que não tenho só europeus como antepassados, o que me classifica imediatamente na categoria do “outro”. O quão branca uma pessoa brasileira precisa ser pra ser considerada branca na França também? Como Alexandra Pierre explicou, o conceito de ‘raça’ é subjetivo, mas sabemos que 1- indivíduos com cabelos e olhos claros (não estou falando de cabelo pintado, obviamente) serão lidos sempre como brancos e 2- indivíduos de pele negra serão sempre lidos como não brancos. Mas entre esses dois polos tem muitas variações.

E é justamente por isso que já fui lida como branca aqui. Tenho uma história engraçada que ilustra perfeitamente isso.

Muitas luas atrás, quando eu ainda era universitária em Paris, entrei numa farmácia pra comprar um protetor solar. O farmacêutico, muito solícito, perguntou se eu precisava de ajuda. Eu disse “Tô procurando um protetor solar.” Veja, Francês é minha segunda língua e meu sotaque é discreto. Tão discreto que quando troco frases curtas, ele pode passar desapercebido. O farmacêutico achou que eu era francesa e disse: “Como você tem a pele branca, eu aconselho esse protetor aqui” e me deu um bem alto. Continuei a conversa com ele e falei que tinha que tomar cuidado com o sol porque, por ser brasileira, minha pele já tinha sofrido muito com ele. Ele me olhou desconcertado e falou: “Você é brasileira?” E imediatamente pegou o protetor 50 que ele tinha proposto e me ofereceu um mais baixo, dizendo: “Então esse aqui já tá ótimo pra você.”

O farmacêutico tinha achado que eu era branca porque deduziu que eu era francesa. Mas bastou ele descobrir minha origem brasileira pra imediatamente me classificar em um grupo diferente. Em outras palavras, me racializar.

Já um tio-avô de Anne, ao me conhecer, ficou o jantar inteiro me encarando com aquela cara de Nazaré confusa. Até que ele não se aguentou e perguntou: “Não é comum ter brasileiras com a pele leitosa como a sua, né?” Minha pele era leitosa, não “branca”, porque na cabeça dele não era possível ser brasileira e branca. (Não que eu faça questão de ser lida como branca aqui na França ou em qualquer lugar. Entro no bloco de pessoas racializadas e sinto que essa é a minha turma.)

E teve todas as vezes que me falaram “Ah, mas você é branca demais pra ser brasileira”, como se fosse elogio ser branca e algo ruim ser brasileira. Ou quando me olham desconfiados (geralmente homens) e dizem: “Você não tem o tipo da brasileira.” Não vou nem explicar o que isso significa porque todo mundo entendeu, né?

A discriminação com “latinas” se manifesta de maneiras mais sutis, mas aí se junta com a questão do sexismo e pode ser extremamente violento. Tem essa ideia de que mulheres latinas são “calientes”, querem fazer sexo com qualquer homem que aparecer pelo caminho, são necessariamente heterossexuais e se mudam pra Europa com o único objetivo de encontrar um marido europeu.

No meu primeiro ano de faculdade na Sorbonne um professor, que era também o diretor do curso, apontou pra mim e mais duas outras estudantes, uma mexicana e outra venezuelana, e falou pra turma inteirou ouvir: “Por que vocês estão se dando o trabalho de conseguir um diploma? É muito melhor arrumar um marido francês, aí vocês não precisam se preocupar com mais nada.”

A visão ocidental/colonialista que os “brancos” tem de nós mudou pouco desde a invasão europeia: somos menos inteligentes, menos sérios (no sentido “confiável”), o Brasil é um lugar de atraso…

Um médico francês me perguntou se era tranquilo ir pro Brasil e levar seu bebê com ele. As palavras exatas dele foram: “Se meu bebê adoecer, é fácil encontrar um médico pra consultá-lo?”

As crianças também imaginam o Brasil como um lugar exótico e uma menina me perguntou se tinha prédios e carros no Brasil. Perguntei onde ela imaginava que a gente morava. “Em árvores!” Ela também me disse que sonhava em se mudar pro Brasil pra poder usar biquini todos os dias, o tempo todo, em todos os lugares.

Uma outra pessoa francesa me perguntou onde eu tinha estudado. Falei “graduação nessa faculdade aqui, início de mestrado nessa outra ali”. Como comecei o mestrado em Linguística na universidade mais prestigiosa da França, quando ela me ouviu pronunciar esse nome ela me interrompeu e disse: “Não, não pode ser. Você deve estar se confundindo de universidade.”

Como postei esse texto primeiro sob forma de uma série de stories no Instagram, muitas pessoas me escreveram depois pra contar que viveram experiências parecidas quando foram morar fora do Brasil. É estranho quando seu lugar no mundo muda de uma hora pra outra, principalmente se você passar de um lugar privilegiado (branca no Brasil) pra um lugar subalterno na hierarquia social do país novo. Mas eu achei a experiência de passar a ser vista como o “outro” como uma baita oportunidade de reflexão, de questionamentos e de amadurecimento.

Lembro de um livro de Isabel Allende, acho que “Paula”, onde ela conta que a nora era racista no Chile. Aí quando ela foi morar nos EUA, deixou de ser vista como “branca” e passou a ser “latina”, o que fez com que ela desconstruísse o racismo que a acompanhava há tanto tempo.

Não estou dizendo que é preciso sair do Brasil pra deixar de ser racista (dá pra fazer esse trabalho aí), nem que toda pessoa que mudou de país e deixou de ser vista como branca vai necessariamente se tornar uma pessoa anti-racista em casa. É muito mais complexo.

O artigo que li hoje, e que mencionei no início desse post, foi escrito por Ariella Aïcha Azoulay e foi publicado na última edição da revista The Funambulist. Azoulay é uma escritora nascida em Israel, em uma família árabe-judia da Argélia. Ela se mudou pros EUA em 2012 e é professora na Brown University. O último livro dela se chama “Unlearning Imperialism”.

O artigo que me fez pensar em escrever essa série de stories é uma crítica ao mito do termo “Judeo-Cristão”, ou “tradição judaico-cristã”. Como judia, ela está longe de esquecer que durante a maior parta da História o povo judeu não foi considerado branco, independente do país de origem e da cor da pele e olhos, o que custou a vida de milhões de indivíduos.

Como falei no início do texto, racialização não é necessariamente sobre a cor da pela, mas sobre um processo político, social e mental de alteridade. É sobre criar um “outro”. Grupos que hoje são brancos já foram historicamente não-brancos. Irlandeses, tanto com relação ao Reino Unido como quando migraram pros EUA, são um exemplo. Judeus constituem outro grupo “embranquecido”. E é esse processo de embranquecimento, que veio acompanhado da invenção do termo “judeu-cristão”, como se esses dois grupos tivessem experiências compartilhadas, que ela critica no artigo. Vou traduzir alguns trechos aqui.

“O termo ‘judaico-cristianismo’ é uma das mais recentes iterações da prática imperial de assimilação, que foi materializada em um Estado-nação com interesses Cristãos-europeus chamado Israel.”

Azoulay explica como na Argélia colonizada a França tratava de maneira diferente os e as argelinas judias e criaram escolas francesas pra elas, num longo processo de “embranquecimento” cujo objetivo era ensinar argelinas judias a não mais se verem como árabes. Qual o interesse da França em fazer isso? Se trata de uma velha prática colonial, dividir pra melhor controlar. À partir do momento em que judeus/judias argelinas passaram a acreditar que eram diferente de argelinas muçulmanas, que estavam mais próximas dos colonizadores brancos do que da comunidade da qual tinham feito parte até ali, elas passaram a discriminar argelinas muçulmanas. Algumas décadas depois da invasão da Argélia pela França, argelinas judias ganharam a nacionalidade francesa, prova de que o processo “embranquecimento” tinha sido completado com sucesso. Nas palavras de Azoulay:

“Com a conquista da Argélia pelos franceses os judeus foram colocados à parte dos árabes e foram transformados em ‘problema’. Forçados a se livrar de tudo que os identificava como indígenas, pra que algumas décadas mais tarde o regime colonial pudesse recompensá-los pelos sues esforços com o ‘presente’ da cidadania francesa.

Em Israel, pra onde meu pai imigrou em 1949, ele pode tirar vantagem da barganha imperial da II guerra mundial, já que sua cidadania francesa -dada aos judeus argelinos em 1870- significava que ele podia se passar por um judeu europeu (ou seja, branco), e ser assimilado, ao custo de esquecer que era árabe.

O Estado de Israel não só foi criado com ferramentas imperiais (colonização, partilha, deportação, formato de Estado-nação), ele também replicou a dominação de europeus brancos de origem judia, que transformaram sua maneira de ser judeu na única maneira de ser judeu – uma maneira Judeo-cristã. Nesse projeto, europeus de origem judia tiveram que ser embranquecidos (…) Pra se tornarem brancos, judeus europeus precisavam de outros judeus pra serem os seus judeus não-brancos. É nisso que repousa o coração do Estado imperial.

O presente da Palestina foi dado como recompensa pelo embranquecimento dos judeus. A criação do Estado de Israel e a imposição de um sistema de cidadania diferente transformou o ser árabe em ameaça. A proximidade temporal entre a invenção do termo Judeu-cristão (1945) e a criação do Estado judeu (1948) não é coincidência.”

Eu falei sobre o processo de se descobrir não branca na França, quando no Brasil sou lida com branca. O processo descrito por Azoulay aqui é o inverso e numa dimensão muito mais ampla. Ela fala do embranquecimento de um grupo historicamente considerado não-branco (judeus) e de como isso só pode acontecer se outro grupo de não-brancos for criado. É uma dança das cadeiras da alteridade: judeus europeus adquirem status de brancos, às custas de judeus árabes, que se tornam os judeus não-brancos dos judeus europeus brancos. E os judeus árabes? Passam a tentar a todo custo se aproximar da branquitude oferecida aos judeus europeus, negando o ser árabe e tentando se assimilar à maneira única de ser judeu (branco e europeu). O árabe agora se transforma em ameaça, como ela explica no artigo.

Israel é um país extremamente racista onde judeus europeus estão no topo da hierarquia, seguidos por judeus árabes e, no degrau mais baixo, estão os judeus negros (etíopes). Mas Israel se acha um país branco e ocidental. Eu sempre achei risível o fato de Israel participar do campeonato europeu de futebol, ou do Eurovision (o “The Voice” europeu), como se esse país do Oriente Médio fizesse parte da Europa.

E o que dizer dessa notícia do jornal israelense Haaretz?

“Israel ocupa o terceiro lugar em maior taxa de contaminação diária entre países europeus, diz a OMS” O memo avisando que Israel saiu do Oriente Médio e migrou pra Europa chegou aí? Porque aqui não recebemos nada.

Ter descoberto que sou uma pessoa racializada no contexto francês abriu uma janela de reflexão dentro de mim que nunca mais se fechou. Precisei entender o processo político, social e mental de racialização, a construção do ‘outro’, pra começar a descontruir o racismo dentro de mim. Pra entender que aceitar que certos grupos sejam o meu “outro” significa ser cúmplice da dominação e violência exercidas contra ele. E também que nunca estarei a salvo de receber uma dose desse mesmo veneno: eu também sou o “outro” de certos grupos dominantes.

No início isso me desestabilizou. Mas foi um caminho sem volta pra reflexão permanente. Sei que continuarei sendo lida como branca no Brasil e em certos lugares fora dele também. Mas hoje não tenho mais desejo nenhum de provar que não sou o ‘outro’ do francês, como eu pude fazer assim que me mudei pra cá.

Gostaria de compartilhar mais alguns trechos do artigo de Ariella Aïcha Azoulay, pois temos muito o que aprender com ele.

“Ao contrário de muitos judeus de países árabes que foram forçados a viver em campos de passagem e usados ​​como escudos humanos para invadir cidades palestinas, meu pai se ofereceu para se juntar ao exército judeu e foi para Israel por vontade própria em 1949, após ter sido enganado pela propaganda sionista que o fez acreditar que a guerra contra os nazistas para salvar judeus na Europa continuava na Palestina, agora contra os árabes. Quase tudo que os imigrantes árabes trouxeram com eles para Israel foi rejeitado e ridicularizado. Eles foram incentivados a esquecer seus hábitos, heranças culturais, boa parte de sua comida e música (…) A lógica imperial depende da interrupção da memória intergeracional: os pais morrem e os filhos esquecem. Utilizada contra os palestinos, essa lógica pressupõe que eles esquecerão a Palestina. Utilizada contra judeus-árabes, significava que nós cresceríamos e nos tornaríamos ‘israelenses’, purgados das memórias árabe-judaicas, alienados da cultura palestina e aprendendo a ver os palestinos como inimigos.

O Estado de Israel é responsável pela destruição de séculos da vida judaica na África. Também é responsável pela destruição da cultura judaica árabe entre aqueles que migraram para Israel. Israel forneceu aos imigrantes novas memórias e novas origens, que apagavam os judeus da África.

Mas escolho desaprender o imperialismo: desaprendendo Israel e reconhecendo a existência da Palestina em seu lugar, desaprendendo a identidade israelense fabricada e recuperando a identidade judeu-árabe, desaprendendo o apagamento dos judeus da África que vê este mundo como algo que desapareceu, desaprendendo “Judaico-cristão” como termo fixo e, recentemente, rejeitando (embora neste caso eu não tivesse nada a desaprender) a feminilidade branca oferecida a mim como “judia” em troca de ser legível em um mundo em que judeu-árabe, judeu-palestino ou judeu-argelino eram identidades ilegíveis. Não vou aceitar essa barganha.”

Esse é o centro da minha reflexão aqui. Sobre essa “barganha” colonialista que é oferecida a alguns indivíduos no Brasil. Sobre a construção de uma nova subjetividade branca subalterna, que um leitor dos stories no Instagram colocou assim: “Podemos aplicá-la no processo de racialização no Brasil. Considere os ‘combos: ‘pretos x pardos’, pele mais clara x pele menos clara, nortistas/nordestinos x sudestinos/sulistas, centro x periferia…”

Assim, o grupo do qual faço parte (brasileira de pela clara, nas não visualmente europeia, ou seja, que não tem cabelos e olhos claros) entra nessa nova classe branca, mas subalterna ao brancos de cabelos e olhos claros, aprendendo a me entender como um grupo distinto e superior às brasileiras negras e indígenas, que se tornam o meu “outro”, o meu não-branco. Pessoas brasileiras de pele clara passaram a acreditar que têm mais em comum com colonizadores europeus do que com outros grupos de brasileiras (exatamente o processo que aconteceu na Argélia colonizada). Aí chegam na Europa e entram em choque quando descobrem que sua “branquitude” só existe no Brasil e que aqui ela é a não-branca, a racializada do povo francês.

Sabe Bacurau e o casal paulista/carioca que acha que é branco e vira motivo de piada pros estadunidenses? Exatamente isso.

Assim como A. A. Azoulay em seu artigo brilhante, também recuso essa “barganha” colonialista. Servimos os interesses de quem quando acreditamos que somos “brancas” e “ocidentais”?

Fica aqui o convite pra se aventurar por esse caminho e refletir sobre todos esses “outros” (negro, indígena, nordestino, periférico), artificialmente construídos. Pra não se deixar mais iludir por esse “presente” de branquitude/ocidentalização que pode ser oferecido pra algumas de nós. Está na hora de desaprender o colonialismo.

A peste de Camus, o teste Bechdel e o que isso tem a ver com todo o resto

Adoro ler e apesar de não dedicar o tempo que gostaria à leitura durante o dia, dou cabo de uma modesta pilha de livros mensalmente, pois só consigo dormir depois de ler por pelo menos uma hora na cama. A pessoa que estiver dividindo a cama comigo que lute pra dormir com o barulho das páginas sendo viradas (bem discretamente, juro).

Um dos últimos livros que li me marcou muito, tanto que vim aqui fazer umas observações sobre sobre ele. Porque isso abre janelas pra reflexões importantes.

O livro em questão é “A peste”, de Albert Camus. Recomendo demais, não porque estamos vivendo uma pandemia no momento (o que durante a quarentena aqui na França fez muita gente tirar esse livro da estante), mas pelo contexto político. O livro foi publicado em 1947, então falar que estou dando spoiler não se aplica aqui, concorda? A peste de Camus é uma alegoria pro fascismo. Sim, a história é sobre uma cidade que vê a peste (bulbônica) chegar, se instalar e levar uma parte considerável da população. Mas é tudo um simbolismo pra alertar sobre o perigo do fascismo. Quem ler vai entender.

Sobre a peste em si (e aí saio do campo figurativo), tem uma passagem que me lembrou muito a atitude ecofascista de algumas pessoas diante do corona. Aquela galera que acha que a morte das pessoas mais precarizadas e vulneráveis na nossa sociedade é “limpeza espiritual”. Gostaria que essa galera explicasse o princípio dessa “limpeza planetária 2020” que leva os indivíduos mais sofridos e poupa aqueles que mais exploram e destroem o planeta, exatamente como sempre aconteceu. No livro, o padre da cidade prega durante a missa algo bem parecido com o que vimos umas pessoas escrevendo nas redes sociais (“estão morrendo da peste/corona? Tão vibrando negativo, amores!”) e a resposta do doutor pra essa atitude é perfeita. (Leiam o livro ; )

Mas não é sobre isso que quero falar aqui. (Sou a rainha das preliminares em conversas). Lembra que eu disse que a leitura desse livro me fez refletir sobre algumas coisas (além do fascismo)?

A primeira é que a história acontece em Oran, na Argélia. A Argélia foi invadida pela França em 1830 e a colonização só acabou em 1962, depois de muita luta e resistência do povo argelino. Mas o livro é de 1947 e a Argélia da época era uma colônia francesa. Aliás, Camus é um francês que nasceu na Argélia ocupada. O narrador conta que a cidade tem 200 mil habitantes e sabe quantos árabes tem no livro? Zero. E não estou falando somente dos personagens principais: nem a vendedora de tabaco, nem o entregador de jornais, nem o zelador do prédio, ninguém é argelino. O livro pinta um retrato exato do que era a Argélia colonizada: segregação total. Provavelmente muitos dos pacientes do doutor (o personagem principal) são árabes. Mas nenhum tem nome nem história, logo são totalmente invisíveis. Todos os personagens com nome e com história são franceses. A população nativa de Oran, de toda a Argélia, é fantasma. Sem nome, sem história, sem menção sequer da sua existência.

Isso foi ainda mais chocante pra mim porque li “A peste” enquanto lia um livro sobre Frantz Fanon e o contraste entre a luta por autodeterminação do povo argelino e a descrição do que ainda hoje os franceses chamam de “Argélia francesa” me fez perder o sono algumas noites.

Vou abrir um parênteses aqui pra contar um causo pessoal. Uns anos atrás, quando eu morava em Bruxelas, fui contratada pra ser intérprete de uma professora brasileira durante uma conferência. Eu dividia o trabalho com um português, pois a tradução era simultânea e na orelha e isso é um trabalho muito cansativo pra fazer sozinha durante horas a fio. E lá estava eu, traduzindo o que uma professora belga estava dizendo pra professora brasileira, discretamente pra não incomodar as outras pessoas ouvindo a conferência. E de repente, enquanto reclamava que a China estava tomando todo o mercado europeu e que por isso a Bélgica precisava se unir aos EUA em acordos econômicos, ela solta essa pérola: “Precisamos fazer alguma coisa! A gente já perdeu a África!”

Eu sou muito profissional, mas naquele momento não consegui me manter neutra e traduzir a fala da criatura. Eu engasguei e emiti um leve grito de horror ao mesmo tempo. Imediatamente me desculpei com a professora brasileira, explicando que traduziria essa infâmia no final da fala da professora colonialista. Sim, coleguinhas, tem uma galera grande aqui na Europa que acha que “perdeu a África”. Porque a África era deles, obviamente.

Agora voltando pro livro “A peste” e a segunda (e derradeira) reflexão. Além de não ter árabe, mesmo a história acontecendo no meio da Argélia, sabe o que também não tem no livro? Mulheres. Na verdade algumas mulheres passam pelas páginas, mas apesar de terem nome elas praticamente não falam e não fazem nada de interessante. Tem a esposa do doutor, que viaja logo no começo do livro pra tratar de uma doença grave. Tem a mãe do doutor, que vem cuidar do filho na ausência da nora. E tem a noiva de um personagem, que ficou em Paris e só é mencionada. Elas não tem substância, não tem interesses, são como as “mulheres de Atenas” de Chico Buarque (“Elas não tem gosto ou vontade, nem defeito nem qualidade….”). Aliás quando um amigo fala das qualidades da mãe do doutor é pra exaltar o quanto ela é “apagada”. Sim, várias vezes ele faz esse “elogio”, dizendo que era exatamente o que ele mais apreciava na própria mãe.

Já imaginaram o contrário? Um livro onde todas as personagens são mulheres, mas não num contexto íntimo, mas sim no nível de uma cidade de 200 mil habitantes! Imagina um livro onde as médicas, jornalistas, estudantes, prefeita, funcionárias da prefeitura, policiais…todas fossem mulheres? Ia causar, no mínimo, estranhamento. Provavelmente a autora (porque o livro seria escrito por uma mulher, obviamente) seria duramente criticada.

“Claro que não, Sandra, estamos em outra época! Não é mais 1947, hoje seria de boa.”

Aí que você se engana, camarada. Ano passado saiu um filme maravilhoso, no meu top 5 de melhores filmes da vida, chamado “Retrato de uma jovem em chamas”.

Um filme francês, de uma diretora mulher, contando a história de uma pintora que vai pintar o retrato de uma jovem, na casa dela, e se apaixona por ela. A história acontece no século 18, no interior da França. Como a jovem mora sozinha com a mãe e uma doméstica e o filme acontece quase todo dentro da casa, adivinha? Só tem mulheres no filme. Veja, não estamos falando aqui de uma história com muitos personagens, dentro de uma cidade de 200 mil habitantes (como no livro A peste). Estamos falando de um história muito mais íntima que acontece no espaço doméstico. E foi de boa? Nada! A diretora, Céline Sciamma, foi duramente criticada pela escolha de fazer um filme apenas com mulheres.

Durante a turnê de divulgação perguntavam, num tom ofendido ou acusador, “por que escolher fazer um filme militante/feminista?” Porque se tem uma coisa que o patriarcado nos ensinou foi que histórias de homens é algo “neutro”, “universal”. Já histórias de mulheres é militante.

Lembra aquela coisa de que se a opinião é de direita é “neutra”, mas se for assumidamente de esquerda é “política, ideológica”. Ou seja, é “neutro” quando segue o roteiro escrito por quem? Por quem? HOMENS! Geralmente brancos e héteros. Tudo que sai desse roteiro é “militante, feminista, tomou partido, é nicho” etc.

Eu critiquei a falta de mulheres no livro de Camus, mas isso é verdade na maioria dos livros, principalmente os “grandes clássicos”. Idem pros filmes. Você conhece o teste Bechdel? Pois siga lendo que você vai dormir mais sabida hoje.

Alison Bechdel é uma autora que eu adoro. Ela está por trás da HQ “Dykes to watch out for”, que segue as aventuras de um grupo de amigas lésbicas de 1983 à 2008.

Numa tirinha de 1985 Ginger, uma das personagens, explica que tem uma regra na hora de escolher filmes. Ela só assiste a filmes que:
1- tenham pelo menos duas mulheres que
2- conversam uma com a outra
3- sobre algum assunto que não seja homem.

Alison Bechtel não tinha a intenção de criar um teste, mas por causa dessa tirinha feministas começaram a usar esses critérios pra expor o papel absurdo das mulheres em filmes. Elas estão ali pra decorar, pra ser o objeto de desejo de um homem, mas raramente tem protagonismo. Óbvio que tem os filmes protagonizados por mulheres (e glória à deusa o número é cada vez maior), mas pense aí nos filmes “clássicos” ou mesmo qualquer filme que você viu ultimamente. Quando comecei a analisar, uns 10 anos atrás, poucos passavam o teste. Faça o exercício, lembrando dos seus filmes preferidos, e veja por você mesma.

Destacando aqui que esse teste, que nunca quis ser um, não determina se um filme é feminista ou não, como algumas pessoas pensam. Sinceramente, achar que o fato de ter duas mulheres, que conversam uma vez sobre algo que não seja homem é suficiente pra dizer que um filme é feminista é um insulto!

Mais tarde o primeiro critério ficou mais elaborado. Agora um filme, pra passar o teste Bechdel, tem que ter 2 mulheres com nome e profissão e elas tem que praticar a profissão no filme (além dos critérios 2 e 3).

Se você é homem e está me lendo, pare e pense. Como você se sentiria se todos os “grandes livros” e “filmes clássicos” contassem apenas histórias de mulheres? Se os homens entrassem ali apenas pra ser o objeto de desejo das mulheres e/ou servir as mulheres da trama (ter uma “natureza apagada”, como a mãe do doutor no livro de Camus)?

É assim que me senti lendo “A peste”. E o pior é que nós, mulheres, estamos tão acostumadas a não ter lugar nos livros e filmes, a achar que a narrativa masculina, as histórias do ponto de vista do homem são “universais” que na maior parte do tempo nem percebemos isso. Falei com duas amigas francesas que adoram Camus sobre o meu desconforto por não ter mulheres no livro e ambas disseram que tinham lido o livro mais de uma vez e não tinham reparado isso.

E olha que nem entrei no apagamento de quem não se encaixa na binaridade que descrevi nessa conversa.

Lendo “A peste” me ocorreu o seguinte pensamento. Se um extraterrestre que nunca pisou na Terra tivesse acesso aos nossos livros e filmes, que imagem ele teria da sociedade humana? Provavelmente algo como “homens vivem aventuras, paixões, fazem descobertas, salvam países e até a Terra inteira, se o apocalipse bater na porta. Já mulheres…” Não vou nem terminar a frase, pois se você leu até aqui vai completar o raciocínio sozinha. Isso não condiz com a realidade e precisamos de livros e filmes que contem histórias à partir de olhares que não sejam de homens, porque achar que a narrativa masculina basta, achar que ela é “universal” é um tremendo absurdo. E totalmente machista.

Sobre leite condensado, queijo e o que o veganismo tem a ver com isso

Dias atrás eu estava comendo as primeiras cerejas do ano e lembrei de um causo que aconteceu comigo há mais de 15 anos. Isso me fez refletir sobre algumas coisas, que se juntaram à uma reflexão que nasceu quando eu trabalhava numa queijaria vegetal em Berlim e passava meus dias entre bactérias e leveduras. (Comida também alimenta o pensamento.)

Eu era universitária e estava na cozinha da minha kitnet cobrindo de leite condensado um punhado de cerejas frescas no fundo de uma tijela. A francesa assistindo à cena perguntou horrorizada: “Qual o sentido de fazer isso?” Coloquei a latinha açucarada na mesa e olhei com pena pra moça. Tadinha, ela não sabia que tudo ficava muito melhor com leite condensado.

Quando cheguei na França, no ano da graça de 2002, fiquei impressionada com as sobremesas e doces vendidos nas confeitarias: era tudo lindo, mas nada, pra mim, tão gostoso quanto os doces brasileiros. Lembro de um dia estar acompanhada de uma amizade brasileira de passagem pela cidade, parar na frente da vitrine de uma confeitaria, apontar pros doces e comentar: “Lindos, né? Mas só tem beleza, o sabor passou bem longe.”

Eu notei de cara que o nível de açúcar nos doces era mais baixo do que no Brasil, mas não era exatamente isso que me incomodava (ou pelo menos era o que eu pensava). O “problema” dos doces franceses, na opinião da Sandra de 20 anos, era que nada, absolutamente nada, levava LEITE CONDENSADO. Na verdade a maioria das francesas nem conhecia esse produto e eu comprava as latinhas em mercearias de produtos “africanos”. As aspas estão aqui porque a maior parte dos tais “produtos africanos” não vinha do continente africano. Muitos eram apenas produtos de gigantes europeias que o agroalimentar empurrava no povo africano, da mesma maneira que empurram “danoninhos” e “leite ninho” no povo sul-americano. Nem lembro como descobri isso, mas era lá também que eu comprava o leite em pó da marca do capeta, aliás outro produto que o povo francês não utiliza nunca. Leite em pó aqui só os especiais pra bebês.

Então na minha kitnet parisiense sempre tinha leite em pó e condensado. Eu colocava o primeiro, religiosamente, no café, e o segundo em todas as sobremesas que eu preparava em casa que, na minha opinião, eram muito superiores aos doces das confeitarias espalhadas pela cidade.

Mas será que leite condensado, um concentrado de açúcar e gordura saturada, realmente deixa tudo mais gostoso? Veja, uma lata (395g) tem nada menos que 217g de açúcar e 31,6g de gordura. Na próxima vez que você segurar uma lata de leite condensado visualise isso aqui: mais da metade (55%) é açúcar. Tem mais açúcar do que leite no “leite condensado”.

Sabe como esse produto é feito (industrialmente)? Leite é, basicamente, água, gordura, proteína e açúcar (lactose). Através de um processo de evaporação, 60% da água presente no leite é eliminada, o que concentra a gordura, a proteína e a lactose no líquido que sobrou. Aí juntam (muito) açúcar e (pasmem!) mais lactose. Só ver a lista de ingredientes da latinha com a moça estampada. Isso explica algumas coisas importantes.

Sabemos que açúcar é uma substância altamente viciante. Tem estudos que mostram que ele vicia tanto quanto ópio e causa dependência mais rápido do que crack. Mas a verdade é que nem precisa ler esses estudos pra perceber a que ponto muitas pessoas são viciadas em doces, onde além da dependência emocional existem sintomas físicos também (mau humor e dores de cabeça quando ficam um tempo sem comer doce, por exemplo). Mas além do açúcar, o leite condensado vem com muita gordura.

Nosso cérebro é programado pra preferir alimentos ricos em açúcar e gordura, pois a programação aconteceu numa época remota (pense nas cavernas) em que tinha pouca comida disponível e um punhado de calorias a mais determinava quem sobreviveria pra ver o dia seguinte. É muito recente na História que humanos tenham uma abundância de alimentos à disposição e possam escolher o que comer. Lembrando aqui que isso não impede que boa parte da humanidade durma com a barriga vazia e que, de acordo com a FAO, 25 mil pessoas morram de fome por dia no mundo.

Os hipermercados podem ser modernos, a comida ultraprocessada em fábricas-laboratórios, mas a humana enchendo o carrinho ali conta com a mesma programação cerebral que sua antepassada das cavernas, pois essas coisas levam um tempo enorme pra mudar, e será guiada pelos mesmos instintos que garantiram a sobrevivência da espécie: mais calorias significa maior chance de sobreviver, pois amanhã talvez precisaremos passar o dia fugindo dos predadores, sem tempo pra parar e procurar comida.

Pausa pra dizer que OBVIAMENTE nem tudo é determinado pelos nossos instintos primitivos e é totalmente possível comprar comida na feira, encher sua geladeira somente de hortaliças, frutas, cereais e grãos e ser muito feliz. A historinha sobre a mulher das cavernas no hipermercado é só pra explicar por que somos naturalmente atraídas pelo sabor doce (uma fruta doce agrada mais o paladar geral do que uma fruta ácida) e por gordura (basta ver a tara da galera por fritura, queijo, creme…). Mas de maneira alguma isso significa que todo mundo é assim (eu não gosto nem de doce nem de fritura, olha aí), nem que é impossível aprender a gostar de verduras e hortaliças, nem que seu vício por açúcar é incurável. Como todo vício, tem cura, sim.

Mas voltemos ao leite condensado. Além da montanha de açúcar e da abundância de gordura, esse produto é um concentrado de lactose, mais um tipo de açúcar. Essa dose dupla de açúcar o deixa ainda mais viciante. Mas não é tudo. Deixa eu contar uma coisa que descobri nas minhas pesquisas sobre leite.

Leite de mamíferas tem uma proteína chamada caseína. Ao ser ingerida, a caseína se quebra e se transforma em casomorfina, um tipo de… opioide! E por que a natureza colocaria uma substância viciante no leite que uma mãe produz pro seu bebê, você pergunta? Saca só a sabedoria da natureza. O bezerro (lembre que leite é produzido pra ele, não pra ser evaporado, açucarado, vendido em latinhas e consumido por humanos) precisa do leite pra sobreviver, crescer e se tornar adulto. O que aconteceria se ele desse a primeira mamada, cuspisse tudo na cara da vaca sua mãe e declarasse que já ia direto pastar grama? O corpo dele não teria acesso aos nutrientes necessários pra atravessar a infância e o bezerro provavelmente não sobreviveria. O mesmo é válido pra todos os filhotes mamíferos, incluindo o humano. E lembre que a natureza quer muito que os filhotes sobrevivam, pra garantir a continuação das espécies, por isso ela deixou o leite materno um tantinho narcótico, com todo o respeito às mamíferas amamentando seus bebês. Assim fica garantido que o bebê não vai rejeitar o peito da mãe e vai crescer fortinho (óbvio que pra tudo nesse mundo tem excessão e provavelmente uns bebês rejeitaram o peito, mas isso não é regra).

(Não foram vozes na minha cabeça que me disseram isso tudo, aprendi sobre o poder viciante do leite com um médico estadunidense chamado Neal Barnard, um dos fundadores do Physicians Committee for Responsible Medicine – tradução: Comitê de médicos por uma medicina responsável.)

E por que estou falando de narcose e dependência no meio de uma conversa sobre leite condensado? Porque o leite, que a natureza fabricou um tantinho viciante pra garantir a sobrevivência dos filhotes mamíferos, é tranquilo em sua forma natural e adaptado pra cada filhote específico. A caseína, aquela mesma que se transforma em um tipo de opioide (casomorfina) representa de 20 à 45% da proteína no leite humano, mas é nada menos que 80% da proteína no leite de vaca, porque as necessidades de um filhote humano são diferentes das necessidades de um bezerro. E lembra que o leite condensado teve 60% da água evaporada, fazendo com que a proteína (que é principalmente caseína) ficasse ainda mais concentrada? Então o que acontece quando 1- a concentração de caseína de um determinado produto é obscena e 2- ele é consumido em grandes quantidades por mamíferos de outra espécie, que passaram muito da idade de serem chamados de filhotes? Aí, coleguinha, temos a bomba viciante que responde pelo nome de leite condensado.

Voltando às cerejas que a Sandra de 20 e poucos anos estava afogando em leite condensado. A francesa provou a preparação e não se convenceu que o líquido açucarado viscoso tinha “deixado tudo mais gostoso”. Na verdade ela nem entendia por que eu pensava que precisava melhorar o sabor das cerejas, que pra ela já estava perfeito.

Isso mostra como a adoração por leite condensado não é algo dado. Não, objetivamente falando, ele não é a coisa mais deliciosa do mundo. Idem pro amado-idolatrado-salve-salve “leite ninho”. “Mas Sandra, você não acabou de dizer que a composição do leite condensado faz com que ele seja uma armadilha pras nossas papilas?” Sei que parece que estou contradizendo todo o meu argumento sobre a periculosidade do leite condensado, mas deixa eu explicar melhor.

Nosso paladar (preferências em matéria de comida) é construído de acordo com o que colocamos à disposição das nossas papilas. Assim, francesas adoram queijo em estado de decomposição avançado, por exemplo, enquanto outras culturas acham isso um nojo. Quem cresce comendo sobremesas entupidas de leite condensado vai moldar seu paladar pra achar isso o supra sumo da deliciosidade. A francesa cresceu comendo tortas de frutas, as mesmas que eu achava insípidas (e pensava secretamente que uma boa dose de leite condensado por cima seria a solução). Ela tinha outro padrão gustativo. Mas, sendo humana, ela também adorava gordura e açúcar. Basta ver a devoção das francesas por queijos e patês ultra gordurosos feito com vísceras animais (foie gras). Explica também o hábito francês, estranhíssimo pra mim, de comer morangos mergulhados no açúcar (enquanto no Brasil ele será servido afogado em leite condensado). A apreciação por gordura e açúcar é universal, a forma dos produtos que cada cultura coloca nesse pedestal é que difere.

E claro que o agroalimentar sabe há bastante tempo da nossa preferência por doce e gordura e usa esse conhecimento pra criar substâncias comestíveis altamente viciantes.

O leite condensado foi desenvolvido como forma de preservar o leite, numa época em que não existia refrigeração. Depois foi usado como alimento pra soldados durante guerras (começando na Secessão, nos EUA), sempre se aproveitando dessa característica: ele pode ser conservado por anos em temperatura ambiente. Esse produto poderia ter parado de ser produzido depois da chegada das geladeiras domésticas, mas sabe como a indústria capitalista funciona: se dá pra lucrar com algo, criaremos uma demanda por ele. Aí a dona Moça começou a espalhar fake news, dizendo que o leite da sua latinha era ótimo pra crianças e bebês.

Recado pras fiéis da igreja “Mercado”, seguidoras da “lei da oferta e da procura”. Veja como na maior parte do tempo nós, consumidoras, não decidimos o que será produzido pelo agroalimentar e nos será empurrado goela abaixo. Sabe a lógica do veganismo capitalista (“quanto mais produtos veganos de grandes empresas comprarmos, mais produtos veganos elas produzirão e aos poucos elas pararão de fabricar produtos de origem animal”)? É lorota! Não tinha mais soldados pra consumir as latinhas? Sem problemas! Criaremos uma nova demanda! Assim apareceu uma campanha publicitária agressiva pra colocar na cabeça das mães que leite condensado era uma ótima alternativa ao leite materno e criar um novo grupo de consumidoras pra esse produto! Sim, esse mesmo que tem mais da metade da lata de açúcar era vendido como substituto pro leite materno e várias pessoas que me acompanham no Instagram escreveram contando que a mãe, pai e avós beberam leite condensado na mamadeira!

Outra leitora comentou que “uma geração foi criada mamando leite condensado, literalmente. Essa bomba de açúcar deixava os bebês nocauteados pela ação do açúcar e tendo que digerir a bomba de gordura. Enquanto isso o leite materno não ‘dopava’ os bebês, seguia nutritivo, mas de fácil digestão. Ou seja, o bebê precisava mamar mais. Estava criado o mito do leite fraco leite/pouco que arruína a amamentação até hoje.”

Mas como a lógica capitalista é crescimento infinito, logo o mercado foi expandido e vieram os livrinhos com receitas de sobremesas usando leite condensado, distribuídos com as latinhas, propagandas em revistas, etc e hoje nos encontramos nesse ponto onde, apesar de não ter mais gente colocando leite condensado nas mamadeiras de seus bebês (espero), brasileiras associam sobremesas gostosas a leite condensado e pessoas, crianças e adultas, são viciadas no dito cujo. E acham que escolheram livremente adorar esse produto, que qualquer papila vai concordar que é um verdadeiro néctar dos deuses! Tudo fabricado.

Então, aqui vai minha primeira reflexão.

Nosso paladar é construído de acordo com os alimentos que entram em contato com ele e isso conta cada vez mais com um grande empurrão do agroalimentar e seus produtos fabricados de maneira a lucrar o máximo com a nossa preferência natural por gordura e açúcar. A sobremesa que a brasileira acha D-E-L-I-C-I-O-S-A pode ser um purgante pra uma francesa e vice-versa (vou ficar só com essas duas culturas pra simplificar, mas saiba que tem culturas que gostam ainda mais de açúcar que a nossa). É interessante se perguntar sempre: quem lucra com minhas preferências gastronômicas?

Eu precisei me tornar vegana e abandonar laticínios pra entender a francesa que compartilhou as cerejas comigo naquele dia. Hoje acho que leite condensado, justamente por ser uma bomba de açúcar com uma boa dose de gordura, mascara o sabor dos alimentos. Mas é algo que você só descobre depois de parar de entupir sua salada de frutas de leite condensado. Frutas tem sabores tão diversos e delicados, é realmente um insulto afoga-las em açúcar e gordura. Mas se seu paladar for viciado em açúcar vai ser muito difícil concordar comigo.

O que me leva à segunda reflexão.

Hoje vejo a montanha de receitas de leite condensado vegano na internet e o desespero pra encontrar o leite condensado idêntico ao de vaca e percebo que deixamos de consumir os corpos de outros animais e as substâncias produzidas por eles, mas raramente questionamos o padrão de consumo alimentar imposto pela indústria que lucra com a exploração e morte de animais. Eu também cresci achando que comida era algo dado: todo mundo fazia igual, por isso nunca me passou pela cabeça perguntar se podia ser de outro jeito. Então entrei no veganismo procurando “versões veganas” de tudo que eu tinha costume de comer antes de me tornar vegana.

A obsessão com “leite condensado vegano” (ou “brigadeiro vegano”) merece uns minutinhos da nossa atenção. Tem muitas receitas por aí, muito debate na comunidade vegana pra saber qual versão é a melhor, qual é a mais parecida com a original. Quando a autora de uma receita quer te convencer que ela (a receita) é boa, mesmo, declara que sua versão ou é “idêntica” ou é “melhor” que o leite condensado original.

Primeiro que nenhum leite condensado vegetal será igual porque 1-leite de vaca tem composição e sabor diferentes de leites vegetais 2-nenhum leite condensado vegetal tem as substâncias entorpecentes (a caseína que se transforma em casomorfina dentro do nosso corpo). Apesar de continuar sendo uma bomba de açúcar (logo, vicia o paladar), nunca teremos esse efeito narcótico com leite condensado vegetal, logo ele nunca será tão viciante quanto a versão original. É esse poder viciante que, infelizmente, confundimos com “delicioso”.

Mas o miolo da questão pra mim é: por que nos esforçamos tanto pra reproduzir um produto criado pelo agroalimentar, cujo único interesse é colonizar nossas papilas e lucrar com a nossa preferência natural por açúcar e gordura, foda-se se adoecermos no processo? Por que nós, veganas, procuramos desesperadamente reproduzir um produto que mascara o sabor dos alimentos, mantendo nosso paladar condicionado a apreciar sabores artificiais (nada na natureza, em sua forma natural, tem uma concentração de açúcar tão alta como o leite condensado)? Não estaríamos perdendo a oportunidade de liberar nossas papilas do padrão de sabor da indústria, descolonizar nossa alimentação e aprender a apreciar o sabor das frutas em toda a sua delicada complexidade?

Se você leu até aqui e ainda lembra do começo desse texto provavelmente deve estar pensando: “Mas e as reflexões do tempo que ela fazia queijo vegetal em Berlim? O que isso tem a ver com todo o resto?”

Tudo que eu disse sobre o leite condensado pode ser aplicado ao queijo. Apesar de ter um nascimento diferente (não foi a indústria de alimentos que o criou e sim pessoas que criavam animais em pequena escala), ele também foi criado como uma forma, bem mais antiga, de preservar o leite e faze-lo durar. E o resultado também é um produto com concentração de gordura ainda mais elevada do que na versão natural (leite líquido). Porém no caso do queijo não é o açúcar que agrava o poder viciante. Além de não ter açúcar acrescentado na receita, boa parte da lactose (açúcar natural do leite) é digerida pelas bactérias durante a fermentação (o que não significa que não sobra nada ali, como pessoas alérgicas à lactose podem confirmar ao comerem queijo). Mas lembra da caseína, aquela que se transforma, no corpo, em um tipo de opioide? Queijo tem quantidades ainda mais obscenas de caseína do que leite condensado porque é ainda mais concentrado. Entenda, no processo de fabricação do queijo mais água foi descartada: começamos com algo líquido, o leite, e terminamos com algo semi ou totalmente sólido, o queijo. É preciso pelo menos 10 litros de leite pra produzir 1kg de queijo firme. Por isso o poder viciante do queijo é tão alto. Se ainda não ficou evidente, deixa eu confirmar que “casomorfina” não tem esse nome por acaso: ela tem efeito similar ao da morfina.

E tem mais um ingrediente chave aqui. Quando comecei a trabalhar em uma queijaria (vegetal) e estudar sobre fabricação de queijo descobri o quanto de sal se usa nesse produto. Sal é essencial aqui, tanto pra conservar o produto quanto pra afastar as bactérias ruins. Não dá pra fazer um queijo curado sem sal, leveduras e mofo nada apetitosos tomariam conta dele. E sabemos que sal também vicia o paladar. Então queijo é uma bomba de gordura e sódio, com um concentração gigante de caseína. Outra receita perfeita pra criar dependência, o que vemos quando tanta gente declara: “Eu não poderia ser vegana nunca, pois não posso viver sem queijo!”

E por que as reflexões sobre leite condensado me levaram a pensar em queijo? Porque nós, na comunidade vegana, também temos uma obsessão em recriar “queijos veganos idênticos aos animais”. Vou ser apedrejada em praça pública aqui, mas lá vai.

Será que é realmente interessante usar tanto do nosso tempo tentando reproduzir produtos criados pra responder uma necessidade bem específica (conservar o leite de vaca numa época em que não existia refrigeração e que a oferta de alimentos frescos durante o inverno era bem reduzida), que tem um perfil nutricional tão desequilibrado (bomba de açúcar no caso do leite condensado, bomba de gordura e sódio no caso do queijo), que causa dependência na galera ao ponto de empurrar alimentos muito mais interessantes pra fora do prato, deixando nossa alimentação repetitiva e restrita? Se muitas veganas fazem coro dizendo que depois de terem veganizado passaram a se alimentar de forma muito mais variada, é exatamente por isso! Carnistas gostam de pensar que “comem de tudo” (e ovo-lacto-vegetarianas “de quase tudo”), enquanto a alimentação vegetal seria limitada. Mas na maior parte do tempo elas não “comem de tudo”, elas “comem do mesmo”. Só ver o protagonismo que laticínios tem na sua alimentação.

E olha que quem tá dizendo isso é alguém que passou 2 anos trabalhando com queijo vegetal, tentando quebrar o código dos queijos animais pra reproduzi-los em versão sem exploração animal.

Curiosamente foi quando comecei a fazer queijos vegetais tão bons quantos os queijos animais que eu comia antes que esses questionamentos começaram a me invadir. À partir do momento em que essas maravilhas fermentadas fixaram residência na minha geladeira eu passei a querer comer aquilo em todas as refeições. Exatamente o que eu fazia antes de me tornar vegana. O que me mostrou que mesmo sem caseína, a concentração de gordura e sal também eram capazes de me fazer desejar comer queijo vegetal todos os dias. O poder viciante de queijos vegetais é muito menor, mas não deixa de ser um alimento manipulado pra concentrar gordura e proteína, além do sal, e lembre que nosso cérebro é programado pra preferir alimentos ricos em calorias (herança das cavernas). Por isso quando dei por mim estava abrindo a geladeira e escolhendo o queijo, ignorando todos os outros alimentos ali dentro, com muito mais frequência do que gostaria.

Semana passada fui colher cerejas no jardim da tia de Anne, no interior da França. Não fui uma coletora muito eficaz, já que colocava duas cerejas no cesto e uma na boca. Mas que experiência linda! Eu nunca tinha comido cerejas diretamente do pé e, consciente do privilégio daquele momento, degustei cada uma devagar, agradecendo a cerejeira pelo presente. Sei que se tornou um clichê exaltar o sabor de alimentos naturais, mas eu preciso dizer que realmente estava estragando minhas cerejas quando as afogava em leite condensado. Elas são perfeitas como são.

PS Enquanto colhia as cerejas da tia, que se chama Hélène, ela deu a seguinte instrução: “Não colha as cerejas que estão pra fora da cerca. Essas aí eu gostaria de deixar pras crianças e adultos que passarem pela rua.” Por mais tias compartilhando os frutos do seu jardim com desconhecidas e menos tempo gasto tentando reproduzir, em versão vegana, os produtos viciantes daquela capeta que começa com N.

A fórmula da farofa + a farofa de cenoura da minha família

Uma etapa essencial pra quem quer aprender a cozinhar (se você vier desse território colonizado conhecido como Brasil) é saber fazer farofa. Extremamente simples, mas que faz toda a diferença na vida da cidadã, ela alegra o prato e é a melhor amiga do feijão. Aliás, deixa eu contar uma das minhas opiniões mais impopulares: não gosto de arroz. Por isso prefiro casar meu feijão com farofa e ignorar o pobre arroz, o que nunca deixa de provocar surpresa nas vizinhas de mesa. Farofa, como dia minha amiga Maria Helena, é a argamassa da vitória!

Farofa não é um prato, é uma categoria. Assim como “salada” e “sopa”, basta entender o princípio e você será capaz de criar uma infinidade de farofas sem nunca precisar de receita. A fórmula de base clássica da farofa é: gordura + coisas + farinha de mandioca. Temperos e ervas também são bem-vindos.

As “coisas” podem ser: legumes, tofu, frutas secas ou frescas, castanhas, sementes… Mas o que gosto mesmo é de usar qualquer resto que encontro na geladeira, seja legumes ou feijão (macaça/fradinho é uma delícia na farofa). É aqui que a farofa se revela como uma bênção pra quem não gosta de desperdício na cozinha. Isso eu aprendei com meu amigo André Cantú, que me inspirou a escrever esse post aqui. Obrigada pelos ensinamentos, irmão.

Pra ilustrar a fórmula da farofa, aqui vai uma receita da minha família. E como falei de evitar desperdício, ela usa farinha de rosca. É assim que chamo farinha feita com pão velho e bem seco ralado (como minha mãe fazia) ou triturado (bem mais rápido). Qualquer pão seco serve, com casca e tudo.

Farofa de cenoura com farina de rosca

Acho uma lindeza essas astúcias pra evitar desperdício, então quando consigo juntar farinha de pão seco e restos de legumes na mesma farofa fico duplamente feliz. Mas sim, pode usar farinha de mandioca, se quiser. E outra erva, se não gostar de coentro. Mas aí já é outra receita.

Frite uma cebola picada (gosto de cortar em meia lua, mas aqui nada é obrigado, é tudo sugerido) no óleo ou azeite. Alho também vai bem.

Junte duas cenouras raladas, misture bem e vá acrescentando farinha de rosca até chegar no ponto do seu agrado (eu gosto de farofa úmida, então uso pouca farinha). Tempere com sal e pimenta do reino.

Desligue o fogo e junte um punhado de coentro picado.

Chucrute

Faz 8 anos que publiquei aqui a receita do chucrute que faço regularmente em casa. De tanto fermentar legumes acabei simplificando a técnica, então vim aqui vou postar as instruções atualizadas.

Chucrute (repolho lacto-fermentado)

-Escolha um recipiente de vidro com tampa e lave bem.
-Corte repolho (qualquer cor) em tiras fininhas. A quantidade de repolho vai depender do tamanho do seu recipiente, pois ele tem que ficar cheio até a borda.
-Salgue generosamente (mais sal do que você usaria normalmente pra temperar essa quantidade de legume).
-Coloque o repolho salgado no recipiente escolhido. Vá colocando e compactando com as mãos. Quando achar que não cabe mais repolho, aperte bem e coloque mais um pouco. Tem que ficar bem cheio.
-Preencha o espaço que sobrou com água fria. O repolho tem que ficar submerso, pois o que ficar exposto ao ar pode apodrecer.
-Tampe bem e deixe em temperatura ambiente até fermentar. Isso pode levar 2 dias ou semanas, dependendo da temperatura da sua casa. Está pronto quando tiver com bolhinhas de ar, cheiro e sabor levemente ácidos (só provando pra saber).
-Depois de pronto guarde na geladeira. Se conserva por várias semanas no frio (tem quem pegue o pote pra se servir e deixe ele na mesa por horas antes de lembrar de colocar de volta na geladeira. Não seja essa pessoa!).
-Essa técnica funciona com rabanete, cenoura, beterraba… Mas se tiver usando outro legume, gosto de misturar com uma parte de repolho (pelo menos 1/4). Por alguma razão esotérica bactérias adoram repolho e sempre fermenta mais rápido e melhor quando ele está presente.
-Consuma o chucrute cru (se cozinhar, as bactérias vão morrer) nas saladas (pode misturar com qualquer tipo de salada, dá certo com tudo).

*Sobre “lacto-fermentação”. O “lacto” aqui não tem nada a ver com leite. Esse tipo de fermentação produz ácido lático, por isso dizemos que é repolho lacto-fermentado.

*Eu já tinha comido uma parte do chucrute nas fotos, por isso o recipiente não está cheio. Na primeira foto o pote menor, à direita, é rabanete fermentado com um pouco de repolho. Uso um pouco do líquido do chucrute pronto pra fermentar outros legumes, se não tiver repolho em casa. Isso leva uma colônia de bactérias pra dentro do pote e facilita a fermentação.

Respondendo as dúvidas mais frequentes:

Depois de ter deixado um tempo em temperatura ambiente meu repolho subiu e não está mais coberto por água. Será que mofou?

Essa é a dúvida que mais recebo, mas isso poderia ser facilmente evitado escolhendo o recipiente de acordo com a quantidade de repolho. Como falei nas instruções, tem que ficar bem cheio e compactado. Mesmo assim a camada superior pode subir e ficar fora da salmoura. Nesse caso basta apertar com as costas de uma colher limpa e colocar um pouquinho mais de água. Se mesmo assim ficou uma parte exposta, que adquiriu uma cor diferente do resto no final da fermentação, basta descartar essa camada superior. O resto ainda vai estar bom pra ser consumido.

Como sei quando está fermentado?

O tempo de fermentação varia de acordo com a temperatura do lugar onde o chucrute for colocado pra fermentar. Não tenha medo de provar durante o processo: quando estiver ligeiramente ácido e mole (como se tivesse cozido), tá pronto. Tem quem goste de um sabor suave e vai parar a fermentação logo quando surgir as primeiras bolhinhas no líquido (recomendo, se for a primeira vez que consumir chucrute). Eu adoro chucrute, e fermentados em geral, e deixo fermentar bastante pra ficar com o sabor mais ácido.

Será que usei sal suficiente?

O sal é essencial pra afastar bactérias ruins e garantir uma fermentação saudável. Salgo no olho, jogando o dobro do que usaria se fosse consumir aquele repolho na hora. Mas se você precisa de medidas e números, lá vai: use 1/2 colher de sopa de sal pra cada 1/2 kg de repolho. Mesma coisa se tiver usando outros legumes.

Esqueci meu chucrute umas semanas na geladeira e agora não sei se ele estragou. Como saber se ainda posso come-lo?

Observando, cheirando e provando. Como tudo na cozinha, você vai ter que desenvolver uma intuição culinária. Não dá pra pedir a resposta pra alguém do outro lado do mundo sempre que tiver uma dúvida se a comida na geladeira estragou. Não é má vontade minha, não! Só quem está ali, de frente pra comida em questão, pode saber. Então primeiro observe: tem mofo? a cor está estranha? a textura está gosmenta? Se a resposta for “sim” pra qualquer uma das perguntas, estragou. Se respondeu “não” à todas elas, vamos pro passo seguinte: aproxime o recipiente do nariz e cheire. O cheiro está diferente? é desagradável? Se não, vamos pro teste final: coloque um pouquinho na boca e prove. Ainda está com sabor agradável? era o sabor que tinha antes? Se a resposta for afirmativa, seu chucrute ainda está ótimo. Pode comer sem medo.

E sobre medo, não tenha medo de cheirar e provar a comida se quiser saber se ela está passada. Mesmo se estiver, você não vai morrer se colocar um tiquinho na boca pra testar. Na pior das hipóteses a gente sente imediatamente que apodreceu e cospe (embora o nariz seja o primeiro a indicar o apodrecimento, evitando que comida podre vá parar na nossa boca). Vivemos uma época estranha onde as pessoas preferem deixar perguntas no Instagram de desconhecidas morando do outro lado do oceano pra saber se a comida na geladeira delas está estragada, quando uma cheirada rápida resolveria o mistério em 2 segundos. Mas eu não culpo quem me faz essas perguntas. O agroalimentar, e seus produtos ultraprocessados com data de validade, colocaram na cabeça das pessoas que comida tem dia e hora determinada pra estragar e precisamos confiar em outras pessoas (ou na indústria) pra nos dizer quando podemos ou não comer determinado alimento. O que me leva a outra observação que me choca profundamente. O pessoal se caga de medo de provar um tiquinho de comida que ficou mais tempo do que devia na geladeira, como se tivesse um risco de morte súbita nisso, mas consome, por anos, ultraprocessados entupidos de químicos e agrotóxicos. Observação importante: me refiro aqui a comida vegetal, obviamente. Comer animais e os produtos extraídos dos seus corpos depois de estragados é realmente uma atividade perigosa, que pode ser letal. Corpos mortos se decompõem e atrai bactérias perigosas pra nós. Então não vá comer pedaços de animais mortos estragados ou leite de mamíferos azedo e depois dizer que eu falei que tudo bem. Aliás aproveito pra lembrar que eu não acho tudo bem consumir animais nem produtos extraídos dos seus corpos mesmo se não estiverem estragados.

Leite de amendoim em segundos

Que tempos difíceis estamos atravessando, não é? Mas além de não me sentir pronta pra falar sobre a pandemia que nos colocou em quarentena na maior parte do mundo, estimo que já tem gente demais falando sobre isso no momento. Então me permita te distrair por alguns minutos com leite de amendoim.

Veja. Não tem nada muito original em leite de amendoim. Pelo menos se você for vegana. Se for vegana e nordestina, então, provavelmente você já faz leite de amendoim há anos. Mas deixa eu contar como eu faço leite de amendoim, pois é uma técnica ridiculamente fácil e que quebra o galho nas viagens. Preparada?

Sabe pasta de amendoim? Essa que entrou na moda desde que o pessoal da maromba descobriu que amendoim é muito rico em proteína? Então. Pega ela e mistura com água. TADÁ! Leite de amendoim.

Se você já faz isso há tempos, perdoe minha lentidão em descobrir essa utilização genial da pasta de amendoim. Um leite vegetal barato, pronto em segundos e que você pode preparar em qualquer lugar (na rua, na chuva, na fazenda… ou dentro da barraca no acampamento). Eu uso o liquidificador pra deixar tudo homogêneo, mas se não tiver um por perto, você vai precisar de um pouco mais de força no braço e paciência, pra bater tudo com uma colher, mas dá certo do mesmo jeito. E daí se ficar uns carocinhos de pasta de amendoim sem dissolver, né? Francamente, tem tanta coisa mais importante acontecendo no mundo.

E o que fazemos com leite de amendoim, você pergunta? Tanta coisa… Começando por colocar no café. Confie, fica uma delícia. Depois você coloca na papa de aveia, nas vitaminas de frutas (com banana fica uma perfeição), nos pratos salgados (quando fervido esse leite engrossa e vira um creme). Obviamente o sabor de amendoim é marcante e estará presente no produto final, então lembre disso quando cozinhar com esse leite.

Porque essa receita não é uma, resolvi acompanha-la de algo um tantinho mais elaborado. Um chocolate quente com leite de amendoim que ando fazendo com frequência aqui em casa. E que, por ser ultra simples, você também vai poder fazer num piscar de olhos, quando bater aquela vontade de algo gostoso e doce no meio da tarde (ou tarde da noite).

Então é isso, camarada. Fique em casa, se puder, e isso também vai passar.

Leite de amendoim em segundos

Uso água morna e um liquidificador pra mistura ficar homogênea em segundos. Se não tiver um, bata na mão, acrescentando água morna aos pouquinhos, até dissolver tudo. Use uma pasta de amendoim sem nenhum outro ingrediente (leia o rótulo), o que nem sempre é tarefa fácil em tempos de pasta de amendoim com whey e não sei mais o quê (marketing pra galera da maromba). Dá pra ver na foto acima que minha pasta de amendoim é bem cremosa, mas se a sua for compacta, não tem problema, funciona igualzinho.

2 cs de pasta de amendoim (pura, sem açúcar)
500ml de água morna (quase quente)

Bata tudo no liquidificador por alguns segundos, até ficar homogêneo. Guarde em recipiente tampado. Se conserva alguns dias na geladeira.

Chocolate quente de liquidificador – com leite de amendoim

Eu uso cacau 100% (que é sem açúcar, já que, como o nome indica, é 100% cacau), mas você pode usar 70% ou 50%, se preferir, que nesse caso já vem com açúcar. Uso chocolate 70%, porque é o que sempre tenho em casa, mas aqui também você pode adaptar de acordo com seu gosto (ou conteúdo da despensa). A medida aqui é uma xícara padrão (236ml), porque esse chocolate é bem rico e você não precisa de uma quantidade grande pra ficar satisfeita.

1x de leite de amendoim (receita acima)
1/2cs de cacau em pó
1 pedaço de chocolate (uso 2 quadrados de uma barra de 100g)
Algo pra adoçar, se quiser (açúcar, melado, açúcar de coco)
Canela (opcional)

Aqueça o leite até ficar bem quente (mas não deixe ferver, pois não queremos derreter o liquidificador!). Jogue no liquidificador e acrescente o cacau em pó mais o chocolate (quebrado em pedaços menores) e o adoçante escolhido, se estiver usando (comece com uma quantidade pequena). Tampe bem (líquido quente, cuidado!) e bata por alguns segundos, até o chocolate derreter completamente. Prove e corrija o doce, se necessário. Sirva polvilhado com canela, se quiser. Rende 1 porção