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Duas coisas estão me revoltando profundamente aqui na França: o tratamento dado a migrantes/refugiados e a islamofobia. Pretendo falar sobre a questão de pessoas migrantes outro dia, porque essa militância está ocupando boa parte do meu tempo aqui. Mas hoje queria chamar vocês pra uma conversa sobre islamofobia. Pode parecer algo distante de nós, ou talvez você tenha uma visão negativa de pessoas muçulmanas, mas continue lendo que você vai entender por que essa questão não só é importante pra nós, como é também uma questão feminista.

Definições primeiro. Islamofobia é um tipo de racismo dirigido, como o nome indica, contra pessoas de fé muçulmana. O elemento religioso esconde (mal) o caráter racista da islamofobia, assim como vemos no Brasil com a perseguição às religiões de matriz africana. O ódio dos islamofóbicos tem mais a ver com o fato da maioria dos seus praticantes serem árabes do que com o Islam em si.

Em outubro um homem tentou incendiar a mesquita de Bayonne, no Sudoeste da França, enquanto pessoas rezavam lá dentro. Dois homens muçulmanos, de 74 e 78 anos, arriscaram a vida pra impedir o incêndio. O terrorista atirou nos dois antes de fugir e eles estão no hospital, em estado grave. O criminoso é um antigo candidato do Front National, o partido de extrema direita francês, e disse que queria queimar a mesquista pra “vingar a destruição de Notre Dame”. (O incêndio que destruiu uma parte da igreja Notre Dame, em Paris, foi acidental. Ninguém, muçulmano ou não, tentou destruir a igreja, que, graças à comoção internacional, já recebeu doações mais que suficientes pra consertar os estragos feitos pelo fogo.

A declaração oficial do Ministro do Interior Francês, Christophe Castaner, famoso pela islamofobia que ele não faz questão de esconder, foi a seguinte: “Os fatos cometidos na mesquita de Bayonne emocionam e indignam cada um de nós.” Os FATOS. Agora imaginem o seguinte: um muçulmano tenta colocar fogo numa igreja cheia, durante uma missa, e fere gravemente dois fiéis idosos que colocaram a vida em risco pra salvar as pessoas que se encontravam rezando ali. Todos os canais e jornais falariam de “atentado terrorista”. Mas “terrorista” tem cor e tem religião precisa e sabemos muito bem que pra mídia e pro Estado não existe terrorista branco. Aliás a mídia francesa já deixou bem claro que o cara que cometeu os “fatos” não passava de uma pessoa mentalmente instável.

O escritor francês Éric Zemmour está puxando o bloco da islamofobia aqui. Ele fez declarações como “A maioria dos traficantes são árabes ou negros. É um fato.” Sim, já ouvimos esse discurso racista antes. Porém o mais chocante não é o racismo de Zemmour, mas o fato dele continuar sendo convidado pra dar sua “opinião” (tradução: “vomitar seu racismo”) em vários programas de TV. Ele defende que os muçulmanos estão “invadindo a França” e que querem “impor seu regime totalitário ao povo francês.”

Essa teoria da “grande invasão muçulmana” foi repetida tantas vezes que acabou virando senso comum por aqui. Uma pesquisa do Institut Ipsos Mori, feita em 2016, mostrou que franceses (não-muçulmanos) acreditam que a população muçulmana na França é de 31%, quando na realidade ela é de 7,5%. Vejam com a percepção da realidade pelo povo foi alterada por causa do discurso islamofóbico “estão invadindo a França”.

E claro que não preciso explicar a presença de pessoas muçulmanas na França, né? Todo mundo sabe do passado colonial da França. O rapper Kery James nasceu em Guadalupe, de pais haitianos, e chegou na França aos 7 anos. Ele faz músicas de protesto extremamente fortes, mas tem uma canção em especial que é uma tijolada na cara do colonizador. Ela se chama “Carta à República” e começa assim:

“Para todos esses racistas com sua tolerância hipócrita
Que construíram sua nação com nosso sangue
Agora se acham na posição de dar lições de moral
Ladrões de riqueza, assassinos de africanos
Colonizadores, torturadores de argelinos
Esse passado colonial é o de vocês
Foram vocês que escolheram vincular sua história à nossa
(…)
E agora vocês tem que assumir
O cheiro de sangue persegue vocês, apesar de vocês se perfumarem
Nós, árabes e negros, não estamos aqui por acaso
Toda chegada teve uma partida
Vocês desejaram a imigração
Graças à ela, vocês encheram a pança até a indigestão
Eu acredito que a França nunca fez caridade
Imigrantes são apenas mão de obra barata”

Vi a frase “Foram vocês que escolheram vincular sua história à nossa” em vários cartazes nos protestos e atos contra a islamofobia que aconteceram nos últimos meses.

Voltando à conversa sobre islamofobia aqui na França, as maiores vítimas desse tipo de racismo são mulheres. Lembra que falei no inícios desse texto que se tratava também de uma questão feminista? Explico.

A França adora encher a boca pra falar que é um estado laico. Só que interpretam a Lei da Laicidade de 1905 de uma maneira bem peculiar. Essa lei separa a religião do Estado e garante a liberdade de culto (todo e qualquer culto). Em 2004 foi aprovada uma lei proibindo usar “sinais religiosos chamativos” em escolas públicas até o final do ensino secundário e em escolas técnicas profissionalizantes. A gente sabe muito bem que o alvo dessa lei são as meninas muçulmanas que usam véu, o único símbolo religioso que parece incomodar, justamente porque pertence à religião demonizada. Eu estava na faculdade, em Paris, quando essa lei foi aprovada e lembro da indignação das minhas colegas de classe muçulmanas.

Qual o problema dessa lei? Quem tem que ser neutro, não se ligar a nenhuma religião, é o Estado, não as pessoas! De acordo com a própria lei da laicidade, as cidadãs são livres de praticar a religião que escolherem, sem sofrer perseguição do Estado (liberdade de culto, lembra?). Olha a hipocrisia de ter férias de Páscoa e de Natal nas escolas públicas francesas, mas proibir uma secundarista muçulmana que frequenta essa mesma escola de usar um símbolo da sua religião!

“Com véu ou não, a escolha é minha”

O governo francês defende sua lei islamofóbica afirmando que o objetivo é: “Proteger meninas do extremismo religioso muçulmano.”

Talvez você esteja pensando agora: “Nossa, mas é verdade que as mulheres muçulmanas são submissas, mesmo. São obrigadas a cobrir os cabelos e tudo! Esse véu é o símbolo da opressão da mulher muçulmana e a França está certa em fazer isso pra protege-las.” Primeiro deixa eu dizer que eu já pensei assim. Segundo, por favor, peço que você continue lendo pra ter acesso à uma análise menos rasa da questão.

Antes de ir morar na Palestina, um país de maioria muçulmana, eu via a mulher muçulmana que usava véu exatamente assim: submissa e precisando da ajuda da mana feminista não-muçulmana pra liberta-la. Poderia falar muito sobre esse assunto, mas vou resumir em dois pontos.

1-Se é verdade que “o estado quer a libertação da mulher muçulmana”, será que proibi-la de usar véu na escola vai ajudar? Imagine que ela realmente é obrigada pela família a usar o véu (claro que não é verdade pra todas as mulheres, mas pra simplificar o argumento, vamos dizer que sim) e que agora ela não pode mais frequentar a escola de véu. O que você acha que a “família conservadora” dela vai fazer? Provavelmente tira-la da escola, já que a condição pra frequenta-la é retirar o véu. Você realmente acredita que impedir o acesso de meninas muçulmanas à educação vai ajudar de alguma maneira a emancipa-las?

2- O que está sendo discutido aqui é a agência das meninas e mulheres muçulmanas. Elas estão sendo proibidas de escolherem como se vestir, como demonstrar sua fé. Olha como é o mesmo sexismo sob outra forma: a mulher nem pode se descobrir demais (é “vadia”) nem se cobrir demais (é extremista religiosa/submissa e precisa ser libertada).

O caso mais extremo disso aconteceu em Nice, no verão de 2016. Uma senhora muçulmana estava curtindo a praia usando um legging, blusa de mangas compridas e um turbante combinando. Quatro policiais homens, julgando aquela roupa indigna do estado laico francês, cercaram a senhora e a obrigaram a retirar a blusa de mangas compridas (ela estava de regata por baixo). Sim, você leu certo: homens obrigando uma mulher muçulmana a se despir em público. Olha que ironia amarga: num passado não muito distante o errado era se despir demais nas praias. Biquinis, mesmo nas suas versões mais modestas, já foram proibidos.

O mais revoltante é que sabemos muito bem que esse discurso de “libertação da mulher” é utilizado por homens escancaradamente machistas, que buscam apenas esconder sua islamofobia por trás de um suposto “feminismo”. No grande protesto contra a islamofobia que aconteceu em Paris dia 10/11, mulheres muçulmanas gritaram pelas ruas “Não nos libertem, nós mesmas cuidamos disso.”

E além de não poder frequentar a escola de véu, aqui na França também tem várias restrições nos passeios escolares com as crianças. Eu tenho um amigo que é professor de uma escola maternal em Strasbourg, no norte da França. Ele me contou que precisa da ajuda de mães voluntárias pra levar as crianças pra piscina, uma vez por semana. “Imagina o trabalho que é dar banho e vestir, sozinho, 35 crianças de 4 anos.” Só que muitas das mães voluntárias usam véu e por isso não podem entrar no espaço da piscina pública junto com o pessoal da escola (professores e alunas). Então elas ajudam a colocar a roupa de banho nas crianças, depois ficam esperando dentro do vestiário durante a sessão de natação, pra ajudar a dar banho e vestir as crianças no final. Elas são voluntárias, estão ali doando o seu tempo, e são obrigadas a esperar dentro de um vestiário. Meu amigo fica revoltado com esse absurdo, mas não pode fazer nada. E estão falando em criar uma lei pra proibir totalmente o uso do véu por acompanhantes de passeios escolares.

O pior é que as escolas que mais dependem dessas mães voluntárias pra organizar passeios com alunos são as que ficam em zonas mais precárias, onde o orçamento é ainda mais reduzido (não podem contratar pessoas pra fazer esse acompanhamento). E nessas zonas precárias a maioria dos habitantes são…muçulmanos. “É uma maneira de punir nossos filhos, pra que eles tenham ainda menos oportunidades de lazer” me disse uma muçulmana em uma reunião contra a islamofobia organizada pelas camaradas da UCL (União Comunista Libertária), aqui perto de casa.

Discriminação contra mulheres, reduzir sua agência, punir suas crianças, que são as mais pobres da França…

O último exemplo de islamofobia na França que quero compartilhar integra mais um elemento: o carnismo. Se segura aí que quando você achava que já tinha esgotado todas as possibilidades de discriminação, ainda tem mais.

Um grupo de mães da periferia de Paris, onde ficam alguns dos municípios mais pobres da França, organizaram um coletivo pedindo refeições vegetarianas na escola das filhas. Algumas são vegetarianas, outras se preocupam simplesmente com a saúde das crianças e do planeta, por isso decidiram reduzir seu consumo de carne. As escolas recusaram sistematicamente. Preciso dizer que essas mães periféricas são muçulmanas e/ou árabes?

As mães se viram como podem, algumas organizando todo um esquema pra que as crianças possam almoçar em casa (preparando almoços vegetarianos no pouco de tempo livre, contando com os filhos mais velhos pra ir buscar os filhos menores na escola na hora do almoço), outras, sem essa possibilidade, instruíram as crianças pra simplesmente deixar a carne da cantina no prato. Mas há anos continuam na luta pras escolas oferecerem uma opção vegetariana e nutritiva, na hora do almoço.
Fatima, vegetariana há bastante tempo, disse que quando conseguiu falar com responsáveis da área disseram que “o pedido não era representativo dos pais e era uma demanda ‘comunitarista’”. A França racista adora usar essa palavra quando se trata de minorias se organizando e fazendo demandas, mas quando só tem branco na parada, como na Assembleia Nacional, aí não é comunitarismo, não. Inventaram até que elas estavam exigindo comida “halal”, que é uma prática muçulmana pra matar animais de abate. Elas estavam pedindo refeições sem carne!!!

“Como nós somos habitantes da periferia, vindas da imigração, a conversa sempre fica presa ao debate sobre a laicidade, quando não é isso que estamos questionando. O bloqueio era total, como se recusar de comer carne fosse recusar de se integrar à sociedade francesa.” disse Fatima.

Só quando mães brancas também começaram a pedir refeições sem carne na escola o pedido foi acolhido. À partir do 1/11/2019 as escolas da região passaram a ter a obrigação de oferecer uma refeição sem carne por semana (!).

Fatima tem um blog e explicou que ficou claro que uma associação de mães composta de mães vindas da imigração post-colonial não pode escolher o que os filhos e filhas vão comer: o Estado colonial é que tem a autoridade necessária pra decidir por elas.

Decidir o que as filhas comem, o que as filhas vestem… Claramente algumas mães tem competência pra fazer escolhas pras suas crianças, outras não.

Termino dizendo o que vocês já devem ter se dado conta sozinhas lendo esses post: a caça às bruxas continua, só que a bruxa agora, na França, é muçulmana.

(Fotos de Anne Paq, feitas durante o ato contra a islamofobia dia 27/10 e a grande marcha contra a islamofobia do dia 10/11, ambos em Paris.)

Em pouco mais de um mês tivemos três grandes eventos veganos aqui em Paris. Se não me engano os três maiores do ano. Estive nos três, porque quero descobrir como o movimento vegano está se organizando aqui. Me tornei vegana quando ainda morava em Paris, em 2007, mas na época veganismo na França era algo praticamente desconhecido e não tinha eventos nem encontros veganos na capital.

Os três eventos foram bem diferentes entre si, mas não muito diferente do que vemos no Brasil: algumas palestras, muita comida e um grande foco no consumo vegano. O primeiro evento queria “mostrar o estilo de vida vegano de uma maneira positiva”, com música e muita comida, num parque da cidade. O segundo era um pouco mais militante (no próprio panfleto de divulgação tinha escrito “evento militante”), menor e com foco nas palestras com temas políticos como “desobediência civil” e “como politizar o veganismo”. O terceiro, e maior de todos, era totalmente consumista. Os dois primeiros eram gratuitos, mas o terceiro, dedicado exclusivamente ao consumo vegano de produtos alimentícios transformados, além de moda e cosméticos, era pago. A entrada custava 12 euros. Me recuso a pagar pra entrar em um evento desse tipo, mas uma amiga que estava trabalhando lá conseguiu uma entrada gratuita pra mim.

E por que eu queria ir a esse evento? Porque tinha uma palestra com o seguinte tema: “O business vegano salvará o mundo?” Sim, “business” (“negócio”) escrito em Inglês. A descrição da palestra era: “A economia do vegetal está em plena explosão. As prateleiras estão abarrotadas de produtos vegetarianos e veganos. Mas devemos, no entanto, comemorar a implicação de grandes grupos (Danone, Mac Donald’s) no desenvolvimento desses produtos? É possível adotar uma abordagem que faz com que business e veganismo sejam compatíveis: o altruísmo eficaz?”

Contrariando o que dizem por aí, eu não tenho um “ativismo fechado” nem me acho detentora da verdade absoluta. Por isso eu fui lá colocar minhas convicções à prova e escutar o que as duas pessoas palestrando tinham pra me dizer sobre o “ativismo de mercado”. Estaria eu enganada sobre a luta anticapitalista e o negócio, digo, o business vegano seria a solução pra salvar o mundo? Eu precisava descobrir.

Se informar sobre diferentes estratégias de luta, identificar seus limites e fazer críticas são atitudes extremamente importantes pra fortalecer nosso movimento e fazer avançar o debate antiespecista. Não caia nessa de que criticar quem está no seu campo é necessariamente errado porque “o inimigo é outro”. Um movimento incapaz de fazer autocrítica está fadado ao fracasso. Acredito que somos pessoas adultas aqui, capazes de debater, formular argumentos e defender nossas ideias. Se uma parte da galera do nosso campo repete que toda crítica é contra-produtiva porque devemos focar nos que nos une e ignorar se eles fazem algo que prejudica o movimento, isso significa que, na falta de argumento sensato, estão tentando silenciar quem coloca suas estratégias pra debate. Mas o movimento vegano está em construção e nossas estratégias devem ser debatidas, sim. Os animais agradecem.

Mas talvez você precise antes de uma explicação sobre esse tal de “altruísmo eficaz”. Não sou expert nas origens do movimento, mas vou resumir em poucas linhas. O altruísmo eficaz deriva diretamente do utilitarismo. O utilitarismo é um tipo de ética normativa segundo a qual uma ação é moralmente correta se tende a promover a felicidade e condenável se tende a produzir a infelicidade. Parece óbvio, né? Aí entra o cálculo.

De acordo com o utilitarismo a moralidade de um ato é calculada, ela não é determinada a partir de princípios diante de um valor intrínseco. Este cálculo leva em conta as consequências do ato sobre o bem-estar do maior número de pessoas.

Na prática dá isso aqui. Conhece o famoso experimento de pensamento conhecido como “o dilema do bonde”? Um bonde está fora de controle em uma estrada. Em seu caminho, cinco pessoas amarradas na pista por um filósofo malvado. Felizmente, é possível apertar um botão que encaminhará o bonde para um percurso diferente, mas ali, por desgraça, se encontra outra pessoa também atada. Deveria apertar-se o botão?

Se você respondeu que é moralmente justificável matar intencionalmente uma pessoa inocente pra salvar a vida de outras cinco pessoas inocentes, você fez um cálculo utilitarista. (Não se sinta culpada, a maioria das pessoas responde que apertaria o botão.)

Mas os cálculos utilitaristas ficam mais complexos à medida que desenvolvemos esse raciocínio. Imagine agora que uma pessoa vai ao hospital porque quebrou o braço. Naquele hospital 5 pacientes esperam transplantes de órgão e morrerão se o transplante não for feito nas próximas horas. O médico deve matar o paciente do braço quebrado pra retirar seus órgãos e salvar os outros 5 pacientes? O cálculo é o mesmo do exercício anterior: matar uma pessoa inocente pra salvar 5 outras pessoas inocentes, mas nesse caso nos damos conta que a moral é algo muito mais complexo do que cálculos frios e impessoais.

Voltemos agora ao altruísmo eficaz. A ideia, como expliquei, veio do utilitarismo: escolher ações que tenham o maior impacto positivo. No site do Centro de Altruísmo eficaz podemos ler:

“O altruísmo eficaz procura responder uma pergunta simples: como podemos usar nossos recursos para ajudar da melhor maneira os outros? Em vez de apenas fazer o que parece certo, usamos evidências e análises cuidadosas para encontrar as melhores causas para se dedicar.”

O altruísmo eficaz te encoraja a ajudar o próximo, mas não de qualquer maneira. A ideia é que essa ajuda seja ditada pelo cálculo do “maior impacto positivo possível.” Então esse movimento, que nasceu nos EUA, prega que é mais “altruísta” ser um grande empresário capitalista, acumular muito dinheiro e em seguida doar esse dinheiro pra organizações que lutam contra a fome no continente africano, por exemplo.

Não precisa ir muito longe pra enxergar o problema aqui. O fato do milionário ter explorado um número enorme de pessoas pra acumular a fortuna que tem hoje e ter contribuído pra destruição do planeta nesse processo é deliberadamente ignorado. A única coisa que importa aqui é que ele doe milhões pra ONGs que vão ajudar… essas mesmas pessoas que tiveram a vida destruída pelo capitalismo.

O altruísmo eficaz se nega a entender o funcionamento do sistema econômico em vigor no mundo, o capitalismo, que acumula riquezas na base da exploração, e não reconhece que as desigualdades sociais são produzidas pelo próprio capitalismo. Não luta por justiça, apenas prega uma maior acumulação de riquezas (ignorando a desigualdade e miséria que isso provoca), pra que depois os ricos do Norte possam lavar a consciência fazendo doações pros miseráveis do Sul. Agora é possível justificar e até incentivar a exploração dos trabalhadores e da Terra porque assim você, amigo capitalista, vai “ajudar o maior número de pessoas possível”. E vemos aqui, senhoras e senhores, uma nova incarnação do imperialismo. Palmas pra mente astuta que inventou esse movimento.

Se você ainda não entendeu como o altruísmo eficaz se relaciona com o veganismo liberal, que prega um ativismo de mercado, continue lendo que as coisas vão ficar transparentes daqui a pouco.

Voltemos pra palestra “O business vegano vai salvar o mundo?”. O evento vegano que organizou essa palestra se chama Veggie World, acontece em 12 cidades diferentes todos os anos (de Bruxelas à Hong Kong) e é organizado pela ProVeg. A ProVeg é a organização criada por Melanie Joy, autora de “Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas”, e se descreve como (copiei do site) “uma organização internacional líder em conscientização alimentar”. Nada mais lógico que um evento promovido por uma organização de conscientização alimentar tenha como foco o consumo vegano, não a libertação animal. Aliás o panfleto de divulgação do evento dizia isso: “O maior salão do modo de vida vegano”. E a programação do evento ia nesse sentido, com oficinas de culinária e conversas sobre nutrição “plant-based”.

A palestra que vi foi dada por duas pessoas que trabalham na Associação Vegetariana Francesa (AVF) e são responsáveis pelo “V-label”, o selo vegano da AVF, comprado por empresas que querem ter o selo em seus produtos vegetais. Achou suspeito que pessoas que ganham dinheiro vendendo selo vegano pra grandes corporações façam palestra tentando convencer o público de que grandes corporações vão salvar o mundo? Imagina, amiga radical, isso não passa de uma coincidência inocente! Deixe de ativismo fechado e continue lendo pra descobrir o que essas bravas pessoas tem pra nos ensinar.

Eu, aprendiz dedicada do altruísmo eficaz e militante vegana disposta a dar uma chance ao ativismo de mercado, levei um caderninho pra anotar tudo, sentei na frente e escutei com muita atenção. Deixa eu compartilhar algumas coisas que foram ditas naquela manhã de domingo.

“O business vegano é o nosso trabalho.

Foi com essa frase que o palestrante abriu a palestra. Poxa, ele não está me ajudando. Eu aqui tentando defender que o fato dele pagar seus boletos vendendo selo vegano pra grandes corporações não tem nada a ver com isso dele estar ali defendendo as ditas corporações e ele já começa admitindo que o trabalho dele é o tal do business. Mas pelo menos o rapaz é honesto. Não chegou se apresentando como militante antiespecista, nem como ativista pelos animais, nem disse que o trabalho dele era acabar com a exploração animal.

“A AVF existe pra acompanhar o público numa transição vegetariana e vegana.”

Parece que as associações vegetarianas aqui e aí estão alinhadas nesse ponto: a divulgação da dieta vegetal, não o compromisso com a luta por emancipação animal. “Mas Sandra, deixa de implicância! Se as pessoas adotarem a dieta vegetal estarão salvando os animais! Então essas organizações estão trabalhando pra abolir a exploração animal, sim!” Não necessariamente. Falei sobre a diferença entre expansão do mercado vegano e libertação animal nesse post.

“Quando começamos a nos interessar por produtos veganos tivemos que começar definindo o que era um produto vegano. Uma maçã era um produto vegano? Uma pera? Decidimos focar unicamente em 1-produtos transformados, 2-com certificado vegano e 3-vendidos em grandes supermercados. Então não era sobre o consumo de maçã e pera, mas sim sobre o mercado vegano.”

Veja que interessante. A dita “expansão do mercado vegano”, que o veganismo liberal associa à “expansão do veganismo e vitória pros animais”, é medida apenas em número de produtos transformados, ou seja, industrializados e processados, que compraram o selo vegano e que são vendidos em grandes supermercados, como o Carrefour. Por que será que a maçã não interessa essa galera? Seria talvez porque maçã não precisa de um selo vegano pra atestar sua veganicidade? O que é uma pena, pois se a população passar a consumir mais frutas e verduras, mais leguminosas e cereais integrais (todos alimentos vegetais), isso diminuiria não só a exploração animal, mas melhoraria também a saúde das pessoas e geraria menos impacto ecológico. Produtos processados e produzidos por grandes corporações, mesmo à base de vegetais, vem de monoculturas cheias de agrotóxicos que envenenam o solo, a água, a fauna e as pessoas.

“Mas Sandra, como ficariam nossos camaradas que pagam seus boletos vendendo selo vegano pras grandes corporações? As organizações veganas que produzem esses selos? As veganas que desenvolvem esses tais produtos pras grandes corporações? As ativistas que fazem publicidade desses produtos no Instagram? Olha só quanta gente ia perder dinheiro!” Eita, é mesmo. Coitadas. Mas, espera! Veganismo não era sobre um compromisso com a luta antiespecista? Um engajamento com o fim da exploração animal? Olha só que esquecida que sou! O rapaz deixou bem claro no início da palestra que os motivos dele eram diferentes. O trabalho dele é com o business vegano, não com a libertação animal. Estou confundindo as categorias de veganos, perdão.

“Queremos sensibilizar as crianças a um outro tipo de consumo o mais cedo possível.

Ele estava falando sobre os programas do tipo “segunda sem carne” nas escolas. Acho muito importante oferecer refeições vegetais às crianças na escola e sei que aqui na França é um combate difícil. Toda iniciativa pra aumentar a oferta de vegetais pras crianças tem o meu apoio. Mas o que me chocou profundamente na declaração do rapaz foi, mais uma vez, o motivo por trás da ação. Não, o objetivo não é sensibilizar as crianças à questão animal, mas sim “a outro tipo de consumo”.

O veganismo liberal e o ativismo de mercado reduzem as pessoa a meros consumidores.“Quando você compra um produto vegano de uma grande empresa você está dizendo ‘eu existo’” – diz a vegana liberal. Então quem não consome esses produtos não existe? A oposição entre veganismo político/popular e veganismo liberal/pragmático não é apenas uma questão de divergência de estratégias. Nós denunciamos a mercantilização do veganismo e essa desumanização das pessoas, que são vistas apenas como consumidores. Assim o valor delas, e a eficácia do seu ativismo, são medidos pela régua do consumo de produtos processados produzidos por grandes corporações.

O veganismo liberal/estratégico é totalmente insensível à questão de classe, ao fato da maioria das pessoas não terem acesso a esses produtos certificados e de que a classe trabalhadora tem pouquíssima escolha na hora de se alimentar.

“Queremos um outro sistema, sem sofrimento animal. Mas não podemos fazer isso sem a ajuda das grandes empresas. Por isso precisamos buscar um diálogo com elas, que são capazes de fazer uma mudança mais radical.”

As mesmas grandes empresas que exploram e matam animais aos bilhões? Sim! Elas são nossas aliadas, meu povo! Aliás, de acordo com os palestrantes, são as únicas capazes de mudar o sistema. Inclusive em um dos slides que mostraram durante a palestra tinha escrito que elas eram as verdadeiras heroínas dessa mudança. Nós somos meras consumidoras, lembra? E entre as corporações heroínas, salvado o mundo, e nós, existindo e fazendo a diferença unicamente através do consumo dos seus produtos, existe o quê? O veganismo liberal, claro! Pra “acompanhar as empresas nessa transição”, vender selos veganos, fazer publicidade no Instagram (os infames publiposts que muitas vezes nem são sinalizados) e nos dizer que criticar esse modelo, muito mais interessado em ganhos financeiros do que em avanço na luta por libertação animal, é uma perda de tempo porque # devemos focar no que nos une e porque # estamos do mesmo lado. Desculpa aí, mas quando uma vegana diz que prefere dialogar com empresas que produzem carne do que com uma parte do movimento vegano ela própria declarou não estar do mesmo lado que eu. Se as aliadas dessa pessoa (e do veganismo liberal) são empresas que assassinam animais e lucram com o sofrimento animal e humano e a destruição da Terra, não estamos do mesmo lado, porque os aliados dela são os meus inimigos. E os inimigos dos animais.

“Investir em educar as pessoas tem um custo muito alto comparado ao impacto obtido. Se a oferta nas prateleiras mudar, as pessoas vão comprar produtos vegetais e não haverá mais trabalho a ser feito.

O altruísmo eficaz permeou toda a palestra, como você já deve ter percebido. Falaram muito em “custo-benefício” das ações e em sempre privilegiar ações que pudessem ter “o maior impacto no menor tempo”. Os parâmetros desses cálculos não foram explicados e isso expõe a fraqueza dos argumentos defendendo o veganismo liberal/estratégico. Muito se fala de “ações de muito mais impacto”, mas a maneira usada pra chegar nos números exibidos com orgulho nos sites das organizações é, no mínimo, duvidosa. Muitas vezes são coisas que não podem ser medidas de maneira concreta, como a “potencial redução de sofrimento de X animais após nossa ação de panfletagem em lugar Y”. Um amigo meu, que fez parte brevemente de uma dessas organizações, me contou que calculavam que a cada X panfletos “go vegan” distribuídos na rua X animais tinham sido salvos. E que por isso os voluntários são instruídos a não conversarem com as pessoas a quem entregam panfletos, pois isso é tempo perdido que poderia estar sendo usado pra entregar mais panfletos e salvar mais animais. Como eles sabem quantos panfletos são necessários pra salvar a vida de um animal é um mistério pra mim.

Mas deixa eu voltar pra declaração acima. O que me incomoda profundamente aqui (e veja que eu me incomodei com frequência durante a palestra) é o paternalismo desse tipo de ativismo. Promover autonomia alimentar e educação antiespecista pra que as pessoas 1- tenham a possibilidade de escolher o que comer e 2- possam fazer escolhas informadas? Não, isso levaria muito tempo! O estratégico e eficaz é escolher PELAS pessoas! Não dialogar com elas, seja na hora de entregar panfletos ou de substituir produtos ultraprocessados carnistas por versões vegetais nas prateleiras dos grandes supermercados. Eficaz, mesmo, é decidir o que elas comerão junto com as grandes corporações. É um tipo de ativismo extremamente elitista, paternalista e que busca manter a dependência das grandes empresas do agro-alimentar, indo contra a promoção da autonomia do povo. Porque as heroínas são as corporações, lembra? E o veganismo liberal, que negocia com elas e as acompanha nessa missão, obviamente. Se essa atitude que despreza e ignora o povo, que se acha no direito de escolher por ele e negociar com empresas que matam animais em seu nome não te incomoda, eu não sei o que dizer.

Num momento de urgência climática, onde militantes do mundo inteiro tomaram as ruas pra pedir “mude o sistema, não o clima”, é um absurdo o veganismo liberal decidir ir na contra-mão e defender o sistema afirmando: “Basta mudar a lista de ingredientes dos produtos, fazer ultraprocessados vegetais e deixar todo o resto como está”! E fazer isso alegando que é mais eficaz? Faz sentido pra você achar que eficaz mesmo é manter o sistema que está destruindo as condições de vida no planeta? Os animais que serão “potencialmente salvos” graças aos produtos das nossas heroínas, as grandes corporações, vão morar aonde mesmo? Em que planeta eles viverão quando nossas heroínas tiverem acabado de destruir a possibilidade de viver nesse aqui?

“Os consumidores não precisarão ser convencidos, está ali, na prateleira.”

Os palestrantes insistiram que bastava colocar produtos veganos nas prateleiras dos grandes supermercados pras pessoas passarem a consumir automaticamente esses produtos. “Muitos vão comprar o produto sem perceber que é vegetal!” disseram. Talvez algumas pessoas levem pra casa o produto enganadas e gostem. Talvez algumas comprem uma vez, pra experimentar, e na compra seguinte voltem pro consumo de produtos animais. Mas muita gente não vai comprar nunca esses produtos, justamente porque são carnistas.

O meu sogro é um bom exemplo disso. Ele é um francês típico, extremamente carnista, que mora numa cidade do interior onde o supermercado mais próximo é um Carrefour gigante. Ele escutou várias conversas sobre a questão animal, mas apesar de conviver com veganas há anos, continua totalmente fechado ao veganismo. Ano após ano eu frequento o Carrefour perto da casa dele e fico espantada com o aumento dos produtos processados e ultraprocessados à base de vegetais nas prateleiras. A oferta é realmente enorme. Não só o meu sogro nunca comprou um produto sequer desse tipo, como nas vezes que algum apareceu na mesa dele (porque eu comprei) ele ou não se interessou em provar, ou provou, achou gostoso ou ruim, mas mesmo quando achou muito gostoso nunca incluiu o produto testado e aprovado na sua lista de compras.

Se essa estratégia não é garantia de sucesso aqui na França, um país no centro do capitalismo, onde os produtos ultraprocessados da Danone, Nestlé e Unilever já custam praticamente o mesmo preço que o produto similar animal e são encontrados até em cidadezinhas com 5 mil habitantes (como é o caso do meu sogro), imagina então num país como o Brasil, que está na periferia do capitalismo, onde esses produtos não chegam na maior parte da população e onde só uma minoria tem grana pra gastar com eles? E será que o povo brasileiro realmente quer mais ultraprocessados, mesmo se for de origem vegetal?

Importar estratégias de ativismo dos gringos, que não são garantia de sucesso nem mesmo na Europa e nos EUA, pro nosso Sul global não faz o menor sentido. Nosso contexto político e econômico é totalmente diferente e nosso ativismo deveria ser pautado nas necessidades e possibilidades reais locais. Se defendemos o projeto de veganismo popular é porque sabemos que incluir o povo nessa luta não é “passar o humano na frente do animal na fila dos direitos”. É porque os animais não são capazes de se emanciparem sozinhos, daí a absoluta necessidade de incluir o povo nessa luta. E só o povo é capaz de determinar as estratégias de luta que fazem sentido no contexto onde estão inseridos. Essa é a divergência fundamental entre o veganismo popular e o veganismo liberal/estratégico. O primeiro acredita que o povo será o protagonista da luta por emancipação animal e que por isso mesmo essa luta só será vitoriosa se trouxer emancipação humana, e da Terra, também. O segundo ignora o povo e negocia em seu nome com o capital, pois as verdadeiras heroínas dessa história são…as grandes corporações capitalistas.

Uma última crítica à palestra “O business vegano vai salvar o mundo?”. Tirando uma breve menção ao sofrimento animal (no momento em que foi dito “Queremos um outro sistema, sem sofrimento animal”) o animal não esteve presente em nenhum momento. Assim, o “referente ausente”, tão discutido por Carol J. Adams no livro “A política sexual da carne”, permanece ausente. Vemos as ONGs de defesa dos animais adotarem cada vez mais o termo “plant-based”, desaconselharem fortemente o uso da palavra “vegana” e evitar ao máximo falar do animal pelo qual dizemos lutar. Isso é assustador. Como ganhar uma luta sem nunca dizer por quem estamos lutando?

Agora deixa eu terminar com a pérola que foi repetida 3 vezes (eu contei) durante a palestra:

“Não se perguntem ‘é ético?’. Se perguntem ‘é eficaz?’”

Tenho duas histórias pra ilustrar essa máxima do altruísmo eficaz e, por tabela, do veganismo liberal/estratégico.

Sabe o amigo que participou brevemente da organização que conta o número de animais salvos de acordo com o número de panfletos distribuídos? Então, durante o treinamento o funcionário encarregado de treinar novos voluntários perguntou ao meu amigo: “Se alguém te oferecer 50 mil reais pra você comer carne, você comeria?” Juro que não estou inventando isso. O meu amigo falou que não iria responder porque aquilo era uma falsa pergunta, mas o rapaz insistiu. Então ele disse: “Claro que não!”. Aí o rapaz falou: “A resposta certa é ‘sim’, porque depois de comer a carne você pode usar os 50 mil pra salvar muitos animais.”

A segunda história me foi contada por um amigo britânico, militante antiespecista e anticapitalista há mais de 30 anos. Foi ele quem primeiro me chamou a atenção pro altruísmo eficaz e pra sua influência em certos grupos veganos. Ele percebeu que nos últimos anos, à medida que as ONGs veganas se tornavam mais e mais neoliberais, as conferências internacionais de direitos animais se tornavam cada vez mais bem-estaristas. Sempre usando o argumento utilitarista de “dar preferências à ações que terão maior impacto em termos de números de animais alcançados”. Foi assim que campanhas por gaiolas maiores ou galinhas poedeiras criadas fora de gaiolas se tornaram parte do “ativismo vegano”, por exemplo, coisa impensável dentro do movimento abolicionista até uns anos atrás.

Ele voltou da última conferência de direitos animais, realizada na Polônia, em estado de choque. Um dos convidados, um ativista vegano, deu uma palestra sobre seu projeto em Taiwan. Ele tinha passado anos procurando um projeto onde ele teria o maior impacto possível na redução do sofrimento animal e acabou descobrindo que em Taiwan tinha enormes fazendas de criação de peixes, amontoados aos milhares em tanques pequenos demais pro volume de animais vivendo ali. Ele pensou: “Bingo! É aqui que posso ter o maior impacto possível!” Então nosso bravo vegano dedicou seus recursos pra…. desenvolver um motor que oxigena a água dos tanques. Agora os peixes, que continuam explorados, torturados, amontoados aos milhares e assassinados pra acabar no prato dos humanos, conseguem respirar melhor durante sua curta e triste vida. Isso, de acordo com o moço altruísta eficaz, tem um impacto quantitativo muito maior, e imediato, na redução do sofrimento animal do que qualquer outra iniciativa. Como investir em educação antiespecista ou incentivar a produção de verduras no local, por exemplo.

Pois é, amiguinha. Chegamos no ponto onde pessoas do movimento que em teoria deveria lutar por emancipação animal elegem como aliada a indústria que os tortura e mata, onde pessoas que trabalham em organizações que se dispõem a salvar animais de abatedouros acham que faz sentido comer animais pra salva-los e onde ativistas veganos bem intencionados acreditam que aumentar o oxigênio das fazendas de criação de peixes é a estratégia mais eficaz pra reduzir o sofrimento deles.

PS Surpreenderia alguém se eu disser que no final da palestra um dos palestrantes fez propaganda do app que ele desenvolveu que te diz se o produto na prateleira do supermercado é vegano? Produtos processados veganos é realmente o business do camarada.

PS 2 Isso me surpreendeu: a palestra durou 1 hora e não teve tempo pra que o público fizesse perguntas no final. Percebeu como está virando lugar-comum ter uma abordagem totalmente neoliberal do veganismo, pregando que isso é o mais estratégico a ser feito, não abrir espaço pra debate e depois silenciar quem tenta criticar esse modelo?

PS 3 E como disse Leila, que acompanha o meu trabalho no Instagram: “A solução não passa pelo capitalismo. Ela o derruba.”

(Tradução da foto de abertura do post: “Sair do capitalismo é uma questão de sobrevivência”. Fiz essa foto durante a ocupação organizada pelo grupo Extention Rebellion, aqui em Paris, no início do mês.)

Lembram do tour gastronômico que organizei em Paris ano passado? Agora que voltei a morar aqui, esse projeto vai fazer parte das minhas atividades profissionais regulares. A ideia é fazer tours organizados duas vezes por ano (no inverno e na primavera), mas quem estiver de passagem pela cidade fora dessas datas terá a possibilidade de me contratar por um dia (ou mais) em um tour privê.

Meus tours não são convencionais nem tem apelo turístico. Não acompanho ninguém na visita da Torre Eiffel (mas posso te informar qual metrô pegar pra chegar lá), nem ao Museu do Louvre (não precisa de guia pra admirar obras de arte), mas te levo pra comer a melhor comida (vegana) da capital, ofereço explicações sobre a gastronomia francesa e como está se dando a vegetalização dessa culinária (complexo!), conto o que descobri sobre o movimento vegano francês e te levo pra passear pelos meus lugares preferidos, sempre dando o contexto político e de luta dos lugares.

Outra coisa importante: não trabalho pra uma agência de turismo, então não organizo a parte aérea nem reservo hospedagem pras participantes do tour. É uma viagem independente, cada pessoa se vira pra chegar em Paris e o tour só começa quando nos encontramos no primeiro dia.

Os próximos tours acontecerão em dezembro. Tem um grupo do 3 ao 7/12 e um segundo grupo do 24 ao 28/12. São sei participantes em cada grupo e ainda tem algumas vagas, então se você ficou interessada, peço que envie um email pra tourspapacapim@gmail.com (Não passo informações nos comentários, nem adianta perguntar.)

E se a proposta do tour privê te apeteceu, me escreve (também por email) pra gente discutir essa possibilidade. Não precisa ser vegana pra participar do tour, mas saiba que é um tour vegano, logo, não tem comida de origem animal no programa.

Estou escrevendo essas linhas no interior da França, onde vim visitar meu sogro. Domingo fomos colher cogumelos no bosque da família e demos tanta sorte na busca que nos fartamos de cogumelo durante três dias! Aí começo a sonhar em organizar um tour aqui no interior, no outono, pra colher cogumelos e ter o prazer de degustar essa iguaria fresca, recém saída do bosque… Quem sabe um dia.