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Lembram dos tours político-veganos em Paris? Em 2020 eles voltarão com força total. Até criei uma página aqui no blog pra explicar melhor a proposta. Convido as pessoas interessadas a darem uma olhada lá pra entender melhor a proposta desse projeto.

Foram dois grupos em dezembro de 2019 e a experiência foi muito bacana. Os primeiros tours aconteceram em 2018 e o foco foi exclusivamente na gastronomia vegetal. Mas, apesar de ter sido uma delícia passar uma semana comendo e falando de comida (quem não gostaria de ter férias assim?), eu queria expandir a proposta pra incluir mais política no roteiro. Não só política ligada à luta antiespecista, mas falar também dos movimentos sociais de hoje e do passado e do histórico de luta e insurreição de Paris, já que a cidade foi palco de tantas revoluções e levantes.

Então depois de muitas pesquisas e estudo, em 2019 o roteiro foi completamente transformado e agora inclui muita informação histórica sobre a resistência na cidade, com um foco especial na luta feminista, além de visitas aos lugares emblemáticos da Paris revolucionária. Claro que ainda comemos muito bem do primeiro ao último dia. E como a cena vegetal só aumenta na capital francesa, a parte gastronômica do tour está cada vez melhor.

Os próximos tours acontecerão em março, abril e maio (datas na página sobre os tours) e as inscrições estão abertas. Pessoas interessadas devem escrever pra esse email: tourspapacapim@gmail.com

Escrevi meu primeiro caderno de receitas com onze anos, mas comecei a cozinhar bem antes disso. Minha mãe, que nunca gostou de cozinhar, nos encorajou a fazer nossa própria comida desde muito cedo. As receitas do caderno eram de apenas um tipo: recheios pra colocar dentro do pão ou tapioca, todos variações de ovo mexido. Lembro que a única receita que não envolvia ovo era ‘pão frito’: pão em cubinhos, frito em muita, muita margarina. Embora não tivesse entrado no caderno, meu repertório da época também incluía bolachas cozinhadas no leite, papa de aveia com canela, vitamina de banana com achocolatado e, em um momento onde eu me senti particularmente gourmet, patê de salsicha e cebola crua, criado em colaboração com uma prima. 

Enquanto as outras crianças viam desenho animado, meu programa de televisão preferido na infância era a Cozinha Maravilhosa da Ofélia. Eu lembro vividamente de acompanhar com a maior atenção do mundo, salivando, a preparação daqueles pratos. Só depois de adulta me dei conta do racismo velado do programa, onde Aparecida, a assistente negra, estava sempre por trás da patroa branca limpando tudo no mais completo silêncio. Ela só tinha o direito de abrir a boca pra dizer “boa tarde” no finalzinho do programa.

Mas a comida que eu via naquele programa me marcou muito. Na mesa da minha família apareciam sempre os mesmos alimentos, dia após dia, semana após semana, ano acima e ano abaixo. Cuscuz ou tapioca pela manhã, arroz e feijão no almoço, cuscuz e tapioca no jantar. Eu não frequentava nenhuma casa onde a variedade alimentar fosse muito diferente da minha, então foi com Ofélia que descobri que existia muito mais coisa comestível no mundo. Nunca testei nenhuma das receita dela em casa, pois os muitos ingredientes que ela usava não existiam no meu mundo. Mas foi ali que comecei a sonhar acordada com comida.

Ainda criança encontrei um livro esquecido no guarda-roupa. Uma das minhas irmãs tinha trazido “A cozinha de Nhá Benta” de São Paulo, onde ela morou pour alguns anos. Era um livro pesado e eu o lia dentro do guarda-roupa, em sessões curtas. Não sei por que fazia isso, provavelmente pra me isolar do resto da casa e sonhar tranquila com os pratos que eu gostaria de preparar. Meu guarda-roupa de Nárnia tinha um livro de receitas, sem fotos (até hoje prefiro livros de receitas sem fotos, porque prefiro imaginar), e elas eram a passagem secreta pro meu mundo dos sonhos.

Não é raro me perguntarem como surgiu o interesse pela cozinha na minha vida. Imagino que a maioria das pessoas espera ouvir histórias sobre uma infância povoada por avós que faziam os melhores bolos, tias que preparavam massas famosas na família ou uma mãe cozinheira “de mão cheia”. Mas minha história de amor com comida é muito diferente.

Meu interesse pela cozinha surgiu porque eu tinha fome. Nunca fui dormir de barriga vazia, mas eu tinha fome de outras coisas. Meu paladar sonhava com aventuras. Graças à televisão e revistas de culinária eu sabia que tinha um mundo de sabores que eu nunca tinha provado e durante toda a minha infância e parte da adolescência não consegui pensar em outra coisa. 

Aos 16 anos consegui meu primeiro emprego formal. Eu era estagiária no DETRAN de Natal e o acesso, embora esporádico, à internet me proporcionou mais uma descoberta: sites de receitas. Entre uma e outra tarefa eu aproveitava pra imprimir receitas encontradas on-line e ia guardando na bolsa. Eu estava muito feliz com minha recém adquirida independência financeira, mas conciliar o trabalho e os estudos na Escola Técnica me obrigava a comer mal. Coxinha fria com café de manhã. Um pão francês com sardinha, que eu levava de casa, e mais café no almoço. Repartições públicas sempre tem café à vontade e tomei tanto café pra enganar a fome que terminei aquele ano com uma gastrite. À noite, quando voltava da escola, comia o tradicional cuscuz com ovo. Esse período, que sempre lembrarei como a pior fase alimentícia da minha vida, também foi, não por acaso, a época em que mais sonhei com comida.

Aos 17 anos fui trabalhar em um hotel quatro estrelas, que tinha um imenso restaurante com vista pro mar. Meu espanto e admiração quando vi a mesa do café da manhã! Porém, mais uma vez, aquela não era a comida que eu comia, só a que eu admirava. Funcionários comiam na cantina, onde quase sempre serviam vaca, mas como eu já não comia esse animal, consegui convencer o gerente a me deixar pegar uma proteína diferente na cozinha do restaurante algumas vezes por semana. Foi a primeira vez que coloquei os pés em uma cozinha profissional. O primeiro choque foi o barulho: todo mundo parecia gritar em permanência. O segundo foi o fato de só ter homens ali. Mas logo me acostumei com aquele ambiente quente e barulhento e passei a esperar ansiosamente minhas visitas à cozinha. Quando o chef não estava muito ocupado, a gente conversava e eu tentava extrair dele tudo que pudesse. Como ele fazia isso? Por que daquele jeito? Ele me ensinou uma receita com arroz que, apesar de nunca ter feito em casa (ainda o problema da falta de ingredientes), ficou na minha memória durante anos.

Mas o que realmente me impressionou foi que nenhuma das pessoas que conheci naquela cozinha parecia feliz como o trabalho que fazia. O chef me disse uma coisa que teve um impacto tão profundo em mim que matou meu recém surgido desejo de cozinhar profissionalmente. Quando perguntei se ele cozinhava muito em casa ele respondeu: “Nunca!” Disse que chegava tão cansado da cozinha que não queria mais ver panela na sua frente e comia qualquer coisa que a esposa preparasse. Perguntei se ela era uma boa cozinheira e ele respondeu: “Péssima!” Isso fez com que eu passasse a acreditar que chefs nunca cozinham em casa, pois a paixão acaba virando um fardo. Como eu não queria nunca perder a paixão por cozinhar, decidi que nunca cozinharia profissionalmente. 

Saí da casa dos meus pais, e do país, aos 20 anos pra estudar na França. Foi quando eu tive minha primeira cozinha. Meu lar parisiense era uma quitinete de 14m2. A cozinha ocupava um dos cantos da quitinete e tinha duas bocas elétricas, um micro forno elétrico e uma mini geladeira, não muito maior do que um frigobar. Mas como eu fui feliz naquela cozinha!

Apesar de estar sempre ocupada, entre a faculdade que durava quase o dia inteiro e os vários empregos de baby-sitter, que me mantinham acordada até o início da madrugada, eu preparava pratos e mais pratos na minha cozinha de boneca. A criança fascinada por comida estava vivendo o seu sonho. Eu estava na capital mundial da gastronomia, cercada por uma variedade imensa de ingredientes que, pela primeira vez, estavam ao alcance do meu bolso. Eu provei tudo que vi pela frente. Li revistas e livros de culinária. Pedi as receitas dos pratos que comi em todas as casas por onde passei.

Foi então que comecei a viajar pela Europa e a expandir minhas fronteiras gastronômicas. Assim que eu decidia qual seria a minha próxima destinação de férias começava a preparar um roteiro gastronômico do lugar. Mais importante do que a lista de pontos turísticos era, pra mim, a lista dos pratos típicos do local. Entre um e outro museu eu entrava em mercearias e supermercados de todos os lugares que eu ia e fuçava os ingredientes que o povo dali usava. Minhas lembraças de viagens sempre foram comestíveis. 

Voltei da Itália e passei a cozinhar risoto sem parar. Trouxe açafrão da Espanha e sempre que podia fazia paella. No Marrocos aprendi com uma senhora de Casablanca a fazer tagine. Trouxe hortelã seca da Turquia pra fazer a sopa de iogurte, arroz e hortelã que tanto gostei por lá. Voltei da Índia com muitas especiarias e a receita do curry da família dona de uma das pousadas onde me hospedei. Do Egito vierem flores secas de Hibiscus, pra fazer o tradicional chá gelado ‘karkadê’. Aliás descobri o mundo dos chás na Inglaterra e, depois de uma vida de fidelidade exclusiva ao café, sempre pronta a comprometer meus sucos gástricos por ele, passei a beber chá diariamente. Minhas papilas estavam vivendo um conto de fadas. Alguns países deixaram memórias gastronômicas menos marcantes que outros. Não lembro o que comi na República Tcheca nem na Hungria, por exemplo.

Hoje vejo o quão o desejo de desbravar lugares e descobrir sabores sempre estiveram intimamente ligados na minha vida. A fome que mencionei acima, aquela que me fazia sonhar constantemente com comida diferente do repertório invariável de 4 pratos que preenchiam meu estômago, era a mesma que me fazia sonhar com lugares distantes, mais interessantes e tolerantes do que a cidade onde nasci e cresci. Não era fome de comida nem de viagens, na verdade. Era fome de viver.

Enquanto isso eu cursava faculdade de Linguística e continuava o trabalho como baby-sitter pra poder me manter. Cheguei na França pra fazer faculdade, mas não sabia ainda de que. Meu primeiro pensamento foi gastronomia. Era a minha paixão e o fato de estar na cidade certa pra isso me fez esquecer momentaneamente a promessa de nunca fazer dessa paixão minha profissão. Mas os preços do curso me fizeram mudar de ideia rapidinho. Descobri a Linguística por acaso, mas logo no primeiro semestre percebi que tinha feito a escolha certa. Não só o curso me interessava enormemente como, a julgar pelas minhas notas, eu tinha talento pra aquilo. Mas estava faltando algo.

Linguística é uma ciência cognitiva e, como toda ciência, quem tem um diploma nessa área trabalha como professora universitária e pesquisadora. Eu não me via feliz ensinando em universidades, então me convenci que seria somente pesquisadora. A medida que eu avançava nos estudos um desconforto interno ia se instalando. Como a maioria das jovens, eu queria ter uma profissão que mudasse o mundo. Tentei me convencer que minhas pesquisas mudariam o mundo pra melhor, porém queria algo mais tangível e imediato. Como eu gostava muito de estudar Linguística e minhas professoras me encorajavam a seguir o caminho acadêmico, continuei, apesar de não estar totalmente feliz com aquilo. 

Até que um dia, aos 25 anos, me tornei vegana e tudo mudou. Foi uma escolha ética, mas a pessoa apaixonada por culinária que eu era desde a infância continuava ali, sonhando com comida. Eu não conhecia nenhuma pessoa vegana, nem sequer vegetariana e não sabia o que esse povo comia. Foi aí que, no ano da graça de 2007, começou a minha maior aventura gastronômica de todas.

Dias depois de ter me tornado vegana sentei na minha micro cozinha parisiense e comecei o meu segundo caderno de receitas. Na primeira página escrevi: “Estou determinada a retirar a crueldade da minha alimentação sem perder o prazer de comer. Meu coração me diz que não é preciso sacrificar o sabor pra ter uma alimentação que respeite o direito de viver e a liberdade dos outros animais.”

À partir dali comecei a passar muito mais tempo na cozinha, adaptando, inventando e testando receitas vegetais do que fazendo pesquisas pro meu mestrado. Até que num domingo, uns dois meses depois de ter me tornado vegana, comecei a preparar o café da manhã e uma certeza me atingiu como um raio na cabeça: “É isso que eu quero fazer da vida.” Eu tinha encontrado a peça que faltava no meu quebra-cabeça interior. Agora eu podia cozinhar e, ao mesmo tempo, participar da construção de uma sociedade com justiça pra todas as pessoas, humanas e não humanas.

Liguei pra minha irmã mais velha e perguntei o que ela acharia se eu abandonasse o mestrado pra tentar uma carreira na área de culinária vegetal. Serei eternamente grata à minha irmã por me acolhido com tanto respeito e entusiasmo naquele dia. Era o incentivo que eu precisava pra seguir meu sonho.

Decidi que no dia seguinte eu iria à faculdade pra conversar com minha orientadora e com as professoras do curso e comunicar a minha decisão. Mas a segunda chegou e decidi que um email seria suficiente. Logo depois a professora de semântica que eu mais admirava, e com quem eu tinha feito uma pesquisa durante um semestre, me chamou pra tomar um café e conversar. Durante duas horas ela tentou me convencer de não abandonar o mestrado, de seguir a carreira acadêmica, pois além de ser uma linguista talentosa, as oportunidades profissionais seriam muito melhores. Ela me perguntou educadamente se cozinhar não podia continuar sendo um hobbie, se eu não podia simplesmente cozinhar nos fins de semana. Eu adorava essa professora e fiquei tocada com a preocupação dela, mas nada me faria mudar de ideia.

Eu tinha, enfim, encontrado uma maneira de colocar a minha paixão a serviço da luta por uma sociedade melhor, guiada por princípios de compaixão, cuidado, liberdade e justiça universal.

Ainda não é oficialmente inverno no hemisfério norte (o solstício de inverno é no dia 22 de dezembro esse ano), mas as noites já estão mais longas que os dias, o frio já se instalou e a luz natural já está fazendo falta. E isso tem um efeito interessante no meu apetite. Por um lado desejo comidas quentes e pesadas (sopa, muita sopa! creme!!!), pra aquecer o estômago e me proteger do inverno. Mas ao mesmo tempo sinto falta das frutas e verduras que crescem no calor, principalmente as da minha região no Brasil. É um fenômeno curioso, esse. Ao mesmo tempo que meu corpo demanda sopa e cogumelos, minha cabeça não para de pensar em abacaxi, quiabo e mamão.

Nessas horas abro meu o arquivo de fotos das férias em Natal e fico horas admirando os pratos coloridos que preparei por lá, já que comer com os olhos é tudo que me resta. E hoje, enquanto fazia isso, me deparei com a foto de um lanche simples, mas delicioso e bem original, que fiz e dividi com a minha mama. Tostada de chuchu. Se você é como o meu amigo Marcelo, que acredita que chuchu “é o quarto estado da água”, peço que segure a vontade de fechar essa página e dê uma chance pro chuchu.

Certo, não é o legume mais saboroso, mas sabendo preparar, ele fica uma delícia. Como diz um outro amigo, Ruan, não existe legume ruim, você que está preparando errado. Confesso que cresci comendo chuchu refogado, uma iguaria que adoro, e nunca entendi a birra das pessoas com o coitado.

Mas essa receita abre a oportunidade de abordar outro tema importante: o que colocar no pão quando se é vegana. É uma das perguntas que mais me fazem e, ouvi dizer, uma das maiores dificuldades na hora de transicionar pro veganismo.

Fico triste quando vejo que as pessoas podem chegar à conclusão que podem (e devem) viver sem consumir produtos do sofrimento animal, mas não conseguem sair do paradigma “pão se come com manteiga ou queijo, então preciso encontrar substitutos vegetais similares pra esses dois produtos”. Seria muito mais libertador (e divertido, e fácil de seguir no veganismo) se a gente quebrasse a barreira da manteiga/queijo e aceitasse que quase tudo pode ser comido com pão.

Na Inglaterra a galera come pão com feijão. O mundo árabe come pão com azeite e tomilho. Ou tahina e melado. Nos EUA comem pão com pasta de amendoim e banana. Tem países onde se come pão com tomate cru ralado (temperado com sal e azeite). Outros onde o pão é comido com abacate (temperado com sal e limão). O céu é o limite!

Se as combinações acima (e suas variações) já fazem parte do seu repertório, deixa eu dar uma sugestão pra expandir ainda mais as possibilidades. Sabe aquele refogadinho de legumes bem suculento? Fica ótimo numa fatia de pão.

E já que é pra expandir as fronteiras gastronômicas, use chuchu no seu refogado.

Tostada de chuchu


O refogado de chuchu fica uma delícia no pão, mas também é um ótimo acompanhamento pro almoço ou jantar.

1 cebola pequena, picada
2 dentes de alho (ou a gosto), amassados
1 chuchu médio, descascado, desmiolado e cortado em cubos pequenos
2 tomates maduros, picados
Azeite, sal e pimenta do reino a gosto
Folhas frescas de manjericão (ou uma pitada de manjericão desidratado)
Fatias de pão (gosto de pão de fermentação natural-levain, mas use o que preferir)

Em uma panela média, aqueça aproximadamente uma colher de sopa de azeite e doure a cebola. Junte o alho e o chuchu e refogue por alguns minutos. Junte o tomate, uma pitada generosa de sal, mais ou menos 1/3 xícara de água e cubra a panela. Baixe o fogo e deixe cozinhar até o chuchu ficar bem macio.

Se por acaso o líquido secar antes do chuchu ficar macio, junte um pouquinho mais de água. Se o chuchu estiver macio, mas ainda tiver muito líquido na panela, deixe cozinhar destampado no fogo alto por alguns instantes. O resultado desejado é um refogado com um pouco de molho e se uso tomates bem maduros quase não preciso acrescentar água.

Prove, corrija o sal, se necessário, e tempere com pimenta do reino. Fora do fogo junte as folhas de manjericão e mais um fio de azeite.

Coloque o refogado de chuchu sobre fatias de pão (é bom tostar um pouco antes) e sirva. Rende aproximadamente 4 tostadas grandes (mas vai depender do tamanho das fatias do seu pão, claro).