Feijão de mãe

Esse texto é sobre duas coisas diferentes, mas que se encontram no final. 

Uns dias atrás eu estava reunida com boa parte da minha família, numa casa de praia aqui do lado de Natal. Eu estava preparando o almoço com a minha cunhada e discutíamos sobre o que nós consideramos como essencial em termos de conhecimento culinário. Concordamos que qualquer pessoa no nosso território (o Nordeste) deveria saber preparar o essencial da nossa cultura alimentar: 1- feijão, 2- arroz, 3- cuscuz e 4- tapioca. Assim a pessoa garante sua autonomia alimentar no café, almoço e jantar. O resto (legumes refogados, salada, uma pasta pra passar na tapioca) também é importante, tanto pra ter uma alimentação diversificada quanto pra garantir refeições saborosas, mas deve ser construído em cima dessa base. Isso deve ser adaptado em função da sua cultura alimentar, obviamente. Tapioca não faz sentido pra todo mundo e talvez aí onde você mora o seu “essencial” seja diferente. 

Minha cunhada acrescentou 5- um bolo simples. Pro lanche da tarde e pra ter a possibilidade de receber pessoas na sua casa com um bolo quentinho. Hospitalidade é, pra ela, algo indispensável e apesar de não gostar muito de bolo, acho que ela está coberta de razão. Já eu acrescentei 6- uma sopa. Sei que sou suspeita pra falar, já que sopa é um dos meus pratos preferidos e eu poderia jantar sopa todos os dias e seguir feliz. Mas uma sopa (de legumes ou de feijão) tem a vantagem extra de poder ser preparada em grande quantidade e congelada pra ser degustada depois, fazendo você economizar tempo, ao mesmo tempo que garante o jantar daqueles dias em que você chega tarde e cansada em casa. E ainda faz uso dos restos da geladeira, evitando desperdício.

Eu já ensinei a fazer cuscuz e tapioca aqui. Também já ensinei a fazer um bolo simples que encanta todo mundo. E já compartilhei inúmeras receitas de sopa (se quiser uma sugestão de “sopa simples” pra começar, sugiro essa aqui). Da lista que fiz com a minha cunhada, só ficou faltando ensinar a fazer feijão e arroz e hoje vim mostrar como faço feijão, caso você não saiba fazer, ou esteja insatisfeita com o seu. 

Falei que esse texto é sobre duas coisas diferentes, mas que se encontram e é aqui que entra a segunda coisa. A receita de feijão que vou compartilhar hoje, que é, na verdade, um modo de preparo, me foi transmitida pela minha mãe. Ela fazia o melhor feijão que eu já comi na vida, que acontece de ser o mais simples também e sem nada de origem animal. Esse feijão, geralmente preto, ficou famoso na família inteira, justamente por ser delicioso sem usar nenhum pedaço de animal. E isso em uma época em que nem eu nem ninguém aqui em casa era vegana/vegetariana. Minha mãe não temperava seu feijão com animais simplesmente porque nossas condições financeiras não permitiam. 

Eu tenho o hábito de fazer a seguinte pergunta a pessoas que acabei de conhecer: “O que você pediria, se pudesse pedir qualquer coisa no mundo, como última refeição?” Inevitavelmente as pessoas me fazem a pergunta de volta e minha resposta sempre envolvia o feijão preto da minha mãe. 

Acontece que minha mãe tem Alzheimer e já não cozinha há vários anos. Não lembro da última vez que comi o feijão dela, mas ela já tinha me ensinado a fazer o seu feijão muito antes de adoecer. Não preciso dizer que nunca ficou com o sabor igualzinho ao dela, pois cozinhar envolve muito mais que ingredientes e modos de preparo. Tem uma parte da receita que é impalpável e impossível de ser reproduzida. Mesmo assim, meu feijão é bem gostoso.

Semana passada eu preparei o feijão aqui em casa, como é de costume quando estou visitando a família em Natal e enquanto fazia aqueles gestos, que vi minha mãe fazer tantas vezes, fui invadida pela saudade da comida e da presença dela. Minha mãe raramente lembra quem eu sou e precisa de ajuda pra tomar banho, pra ir ao banheiro, além de depender de alguém pra cozinhar e preparar o prato dela. Ela ainda está fisicamente aqui, mas não é mais a minha mãe e os papeis mudaram: quem tanto cuidou, hoje, é cuidada. 

Quando servi o feijão no almoço recebi elogios. Meu sobrinho mais velho passou a refeição inteira dizendo o quanto o meu feijão estava gostoso e perguntou qual era o segredo. Servi o prato da minha mãe e fiquei pensando que, além de me tornar cuidadora de quem cuidou de mim, eu também tinha ganhado um novo papel na família. Herdei o lugar da minha mãe como a cozinheira do melhor feijão. 

O feijão da minha mãe

Uso a técnica da minha mãe, mas faço duas coisas diferentes: o momento de colocar o sal e troco o colorau por páprica doce defumada. Se você faz feijão de outro jeito e está feliz com ele, inútil deixar um comentário dizendo que é melhor fazer assim ou assado. Essa é uma receita afetiva, na verdade uma herança imaterial que minha mãe deixou pra mim e não tenho interesse nenhum em mudá-la. E se você não sabe fazer feijão ou não gosta do seu feijão, esse é um tutorial muito simples que vai ser muito útil pra quem precisa aprender o básico. Sobre medidas: elas estão aqui como guia pra quem é novata em matéria de cozinhar feijão, mas com o tempo você vai temperar seu feijão de maneira intuitiva, sem medir nada.

500g de feijão (o preto era o preferido da minha mãe, mas qualquer um serve)

2 cebolas grandes

4-6 dentes de alho

1 folha de louro

1 colher de chá de páprica doce defumada (ou colorau/urucum, como a minha mãe usava)

2 colheres de sopa de óleo

sal e pimenta preta a gosto

Um punhado de coentro

Na véspera, cate o feijão (retire os grãos podres e eventuais pedras) e deixe de molho em bastante água fria. No dia seguinte jogue a água fora e transfira o feijão demolhado pra uma panela de pressão. Acrescente uma pitada generosa de sal (com os 5 dedos), o louro e cubra com água fria. Deixe a água passar alguns dedos do feijão (3 ou 4, dependendo se você gostar de caldo fino ou grosso). Feche a panela de pressão e coloque em fogo alto até começar a apitar. Nesse momento baixe o fogo e deixe cozinhar por uns 15-20 minutos. Passado esse tempo deixe a pressão sair naturalmente, abra e verifique se o feijão está macio. Quanto mais velho, mais tempo o feijão leva pra cozinhar. Se ainda estiver firme demais, volte a fechar a panela de pressão e cozinhe por mais alguns minutos.

Corte a cebola em fatias grossas e pique ou pile o alho (minha mãe sempre pilava o alho, mas eu prefiro picar). Em uma panela média aqueça o óleo e doure a cebola. Cuidado pra não deixar queimar, ela tem que ficar bem macia, mas ainda clara. Junte o alho e deixe cozinhar mais alguns segundos. Nesse momento acrescente a páprica doce defumada, mexa bem e despeje duas conchas de feijão cozido (principalmente os grãos) na panela. Use as costas da concha pra amassar os grãos, ainda com o fogo ligado. Não precisa transformar tudo em purê, mas é importante amassar uma parte do feijão pra engrossar levemente o caldo. Minha mãe acreditava que isso fazia com que o feijão “pegasse gosto” também. Despeje essa mistura na panela do feijão, acrescente uma pitada de pimenta preta e mexa bem. Prove e corrija o sal.

Leve de volta pro fogo, mas dessa vez coloque a tampa sobre a panela (não encaixada dentro da panela, pra não pegar pressão) e deixe ferver por alguns minutos. Minha mãe também acreditava que essa era outra etapa essencial pro feijão pegar gosto. Desligue o fogo e junte o coentro, picado. Sirva com um tico de limão espremido por cima. 

Rende bastante feijão se você estiver cozinhando pra uma pessoa sozinha. Nesse caso espere esfriar e congele porções individuais. Aqui em casa só rende um almoço. 

19 comentários em “Feijão de mãe

  1. Adoro cebola no feijão, pena que o pessoal aqui de casa não goste. O que faço as vezes e tirar um pouco e temperar separado só para mim. Pra mim se não tem feijão na refeição é como se estivesse incompleto.

  2. Amei a receita e as histórias! Como novata no cozimento de feijão, agradeço muito, e com certeza vou usar todas as novas dicas! ❤️

  3. um problema do feijão sào os medrosos com a panela de pressao! muita gtente nao faz feijao em casa pq tem medo da panela!
    amei a história!
    um abraço!

  4. Sandra, andei reunindo coragem para te escrever. Sou da geração que te conheceu pelo Instagram, e pra mim lá era mais natural comentar os teus posts. Mas agora finalmente chegou a hora de te escrever.
    Algum tempo atrás você compartilhou nos teus stories um comentário meu falando que o teu jeito de preparar tapioca é idêntico ao da minha mãe, mesmo a gente sendo da região norte. Novamente aconteceu a mesma coisa. Quando falaste feijão de mãe, tive suspeitas de que seria igual ao feijão da minha mãe, e não me enganei.
    Isso me leva a crer que um dos maiores poderes da culinária é a ancestralidade. É como quando mesmo após vários anos desde a morte da minha bisavó eu ainda lembre perfeitamente do cheiro da sopa dela, e da maniçoba, que desde então nunca mais senti mas que carrego comigo pra sempre. Tenho estudado bastante sobre isso, e sempre me emociona. Suspeito que esses trajetos e formas de interagir com a culinária, a forma de conduzir os alimentos tem raízes mais profundas que os modos de preparo e as receitas. Mas acho que você já sabe disso, pela forma que sempre conduziu o blog de um jeito que não se restringe às receitas.

    1. Ola, sou nortista. Preparo feijão dessa forma, louro durante o cozimento na pressão e depois alho e cebola refogados. Coloco sal por último, um pouco de pimenta e cúrcuma. Na hora de comer, espremo um pouco de limão siciliano.

  5. Oi Sandra!! Eu acrescentaria a farofa à sua lista! Inclusive porque, salvo engano, o subproduto mais durável da mandioca não é nem a goma, é a farinha mesmo. Meu pai dizia que a mãe dele fazia farinha na casa de farinha e que durava uns seis meses – já a goma seria algo de consumo mais imediato.
    Sei que a gente não faz nada disso na casa de farinha mais, foi mais para lembrar da importância da farinha de mandioca na nossa culinária mesmo. Acho que serve até de conservante/isolante térmico. Vovó dizia que a mãe dela fazia uma carne de panela, deixava no caldeirão, cobria com farinha de mandioca, deixava dentro do forno. Nos dias seguintes, tirava um pedaço para esquentar e servir, e assim a carne durava mais dias…
    Gosto da farinha também por “fazer render” os legumes. Lembro de quando fizeram uma ocupação na UFPE que o pessoal estava fazendo couve refogada… fiquei louca! Porque depois que refoga não rende nada, né? 😀 Sugeri ao que, ao invés de refogar, fizessem uma farofa de couve, mais fácil de render mais e distribuir para todo mundo.
    Além disso, dá uma textura e um cheiro maravilhosos para a comida né. Sou muito fã!

  6. Que lindo esse texto! Obrigada por compartilhar!
    Compartilhei com minha irmã. Ela tem um menino de sete anos. Fiquei imaginando que um dia ele vai aprender a cozinhar com ela, comigo ou com a vó. Ele adora meu shimeji refogado, come a bandeja toda… fico super orgulhosa por que só eu sou vegetariana na família. Sigo há tempo seus canais. Gosto muito! Vc é muito especial!

  7. Agradeço por compartilhar sua história, tão emocionante, e a receita do feijão.
    A senhora anônima que comentou acima tem razão, a ancestralidade também é forte mesmo na questão da culinária, e isso talvez também tenha um papel importante em reunir as pessoas.
    Atualmente estou preparando feijão com aveia, alho, cebola, sal e temperos variados que gosto, como salsa e ervas finas. Mas gosto de aprender modos novos de cozinhar, e tentarei a sua receita do feijão assim que a atual remessa acabar. (:

  8. Dos leites vegetais que eu já tomei (de soja; de arroz; de amêndoas; de castanha de caju; e de aveia com coco), o leite de aveia com coco foi o melhor que já tomei e o leite de castanha de caju foi o segundo melhor que já bebi. Fiz leite de castanha de caju em casa através de uma receita que vi na internet.

    Dos queijos vegetais que eu já comi (de soja; de batata; de gordura de palma; e de castanha de caju), o queijo de castanha de caju foi o melhor que já comi.

    Como a castanha de caju está ganhando espaço na culinária vegana!

    Na Europa, você encontra ou já encontrou produtos alimentícios veganos feitos com castanha-de-caju (creme/pasta, creme de leite, leite, queijo, requeijão, manteiga)?

    Perguntei isso; porque um vegano brasileiro foi a uma queijaria vegana em Londres e achou queijos feitos de castanha de caju.

    Talvez até 2015 não existia isso aqui no Brasil; mas de uns 4 a 6 anos para cá, começou a vender produtos alimentícios veganos feitos de castanha de caju aqui no Brasil.

  9. Sandra, que coisa mais bonita e comovente esse seu texto! Fiquei feliz ao ler a receita porque percebi que eu faço feijão praticamente do mesmo jeito. Eu não aprendi com a minha mãe, nem com qualquer outra pessoa específica. Fui chegando na receita meio por conta própria, depois de experimentar várias maneiras diferentes de fazer. Claro que se eu tivesse aprendido com alguém também seria especial porque compartilhar receitas é o máximo, mas eu gosto muito e sinto o maior orgulho de ter encontrado o meu jeito de fazer feijão “por conta própria”. Ainda mais por ser feijão… Adoro saber fazer receitas mais elaboradas, mas, pra mim, poucas alegrias chegam aos pés dessa que é conseguir fazer um feijão gostoso que todo mundo em casa elogia.
    Mudando de pato pra ganso – como diria a minha avó – eu te conheci pelo instagram e interagi algumas poucas vezes nos stories por lá, mas aquela rede nunca foi muito a minha praia e eu sentia que ela roubava minha energia. Tenho pensado inclusive, no quanto a minha entrada no instagram coincide com a época em que eu me tornei mais “apática” na internet. Antigamente eu tinha vários blogs, vivia escrevendo coisas, me aventurava na fotografia, iniciava conversas através de comentários, etc. Nos últimos anos quase não fiz mais nada disso e vivia com a sensação de que algo estava faltando. Por que eu estou contando tudo isso na sua publicação sobre o feijão da sua mãe? Não sei ao certo… mas deu vontade. De certa forma, estar na caixa de comentários de um blog novamente me fez lembrar do que eu gostava na internet. E, claro, não é qualquer caixa de comentários, mas a sua. E isso pra mim é muita coisa. Há tempos eu pensava diariamente em sair do instagram, mas acabava não saindo por causa de algumas poucas pessoas de quem eu sabia que sentiria falta, mesmo podendo encontrá-las em outras paragens. Você, claro, é uma delas. Aí aconteceu tudo aquilo com o seu perfil e depois, por várias razões que não vem ao caso agora, eu finalmente me dei conta de que não aguentava mais adiar minha saída de lá.
    Agora estamos aqui. E claro que nem a palhaçada do instagram com a sua conta, nem o processo que me fez sair de lá foram agradáveis, muito menos ideais, mas tenho que te dizer que eu estou muito contente por podermos nos encontrar aqui.
    Um abraço e aproveite bastante sua estadia aqui no Brasil!

    1. Adorei ler seu comentário, Nara. Cada dia se torna mais evidente que o Instagram não é um lugar adaptado pra minha proposta de trabalho. Eu tô passando muito melhor sem ele 😉 E feliz de ver tanta gente bacana vindo pra cá.

  10. AMO feijão! Obrigada por compartilhar sua receita conosco, vou testar aqui em casa. Eu concordo que algumas coisas na cozinha têm uma parte impalpável, impossível de copiar através de uma receita. Já aconteceu de eu comer PF com um feijão maravilhoso e pedir dica pra cozinheira, e ela me dizer “só coloco alho e sal”. Eu também coloco alho e sal, e não fica tão delicioso!

  11. O melhor feijão da minha vida era o da minha avó… Eu comia, repetia, comia mais! Era um trem maravilhoso (“trem de mineiro”, como ela diria!). Quando comecei a cozinhar, não acertava o jeito do feijão… Não sei… Sempre faltava algo. Então falei pra minha mãe: “quero aprender a fazer o feijão da vovó!”. Ela começou a me falar a receita e eu: “Não, a receita eu já sei. Quero fazer com vc. Observar todo passo a passo” E aí que a gente vai pegando essas dicas de apurar o feijão, porque sua mãe estava certa, isso que dá o sabor! Amassar um pouco o feijão, pra engrossar o caldo! (Minha outra avó tirava uma parte do feijão, batia e voltava pra panela, pra deixar bem grossinho!), além de como ela picava a cebola, o alho, refogava, o sal… A gente aprende a cozinhar cozinhando, e acompanhar aquelas que vieram antes, que aprenderam com as mãe, as avós… e ir passando isso também… A cozinha é o maior lugar do afeto, mesmo também podendo ser um dos locais de maior exploração do trabalho. Amo a reunião das mulheres, o compartilhamento dos saberes, a troca… e servir esse afeto ao final de tudo <3

Deixe uma resposta