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Ano passado a chef Paola Carosella causou um grande alvoroço dentro da comunidade vegana por causa da reação dela (via Twitter) depois de ter provado um hambúrguer vegetal que imita a textura e o sabor de carne animal. Acho oportuno abrir espaço pra discutir as declarações dela, pois acredito que podemos extrair algumas lições importantes do ocorrido.

Tirando uma única coisa descabida que ela falou, e que discutirei mais na frente, achei as críticas muito válidas. Ao invés de crucifica-la por ter falado mal de um produto ultraprocessado à base de plantas, inacessível pra maior parte da população brasileira (bastante caro comparado à outras alternativas de proteína vegetal, como feijão e arroz), proponho ler com atenção o que ela escreveu e ver isso como uma oportunidade de ouro pra fazer uma reflexão necessária sobre as estratégias que queremos adotar na luta por emancipação animal.

Seguem as críticas de Paola ao hambúrguer de planta que imita carne animal. Algumas eu só copiei/colei dos tweets dela, outras eu reformulei ligeiramente pra caber numa frase.

Crítica 1-
“Ultraprocessados, mesmo feito com vegetais, são péssimos pra saúde.”
O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, que é muito bom, por sinal, é categórico ao dizer que, em nome da nossa saúde, o melhor a fazer é ficar longe deles. Promover o consumo de ultraprocessados “veganos”, com a justificativa de que é um suposto “avanço pros animais”, não só não faz sentido pros não-humanos (explicações mais adiante), como é irresponsável do ponto de vista humano.

Crítica 2-
“Esses hambúrgueres vegetais imitando carne são oportunistas no momento de mais confusão alimentar da História.”
Sim. O fato da indústria vender esses produtos “veganos” (salsicha, hambúrguer) como uma alternativa saudável é perigoso, pois as pessoas que não tem acesso às informações certas vão se iludir e comer porcaria achando que estão fazendo uma escolha superior, mais saudável. Nunca vou esquecer de uma mãe brasileira que, depois de me explicar que a filha e o filho não comiam frutas, declarou, orgulhosa, que fazia questão de dar suco Addes (soja com suco de frutas) todos os dias às crianças, o que compensava a falta de fruta fresca no cardápio.

Crítica 3-
“Não é ato político parar de comer vaca, mas comer ultraprocessados de soja, milho, açúcar e trigo que em muitos casos são feitos pelas mesmas empresas (que vendem carne)”

Hambúrguer “vegano” produzido pela indústria agroalimentar é fruto do mesmo sistema alimentar hegemônico, baseado em monocultura, agrotóxicos, latifúndio, destruição de ecossistemas, grilagem de terras indígenas e trabalho escravo. Que, além de tudo, reforça a alienação do consumidor, que não sabe o que é nem como foi produzido aquilo. E aliena também a consumidora vegana, que acha que está fazendo “um ato politico” quando na verdade está fortalecendo o mesmíssimo sistema que explora e mata animais e destrói o meio ambiente.

A indústria alimentar nos quer dependentes dela, porque nossa autonomia significa redução de lucros pra ela. Sim, ela só se preocupa com lucro e não se importa se está lucrando com a venda de animais mortos ou de produtos vegetais que imitam animais mortos. Esse é o principal argumento do veganismo liberal pra incentivar a produção e consumo de produtos vegetais ultraprocessados, mas ele demonstra um profundo desconhecimento do modo de funcionamento do capitalismo.

Como escrevi mais acima, o que essa indústria quer realmente é nos manter dependentes dela, por isso não se importa se nossa dependência é de hambúrguer de carne animal ou vegetal. Porque de um jeito ou de outro ela continuará lucrando em cima de nós e usando esse dinheiro pra se expandir, aumentando a exploração da Terra e dos animais, humanos e não humanos. Aqui ou em outros países.

O fato de gigantes da exploração animal como JBS e Mantiqueira quererem uma parte do mercado vegano não é a prova que a “revolução vegana” está acontecendo. Isso não passa de uma manobra da indústria pra lucrar com um novo nicho de mercado, se manter relevante face às mudanças nos hábitos de consumo, enquanto, ao mesmo tempo, mantém o sistema de exploração animal, que é extremamente lucrativo, intacto. Que incentivo essas empresas terão pra parar de vender animais (ou produtos com derivados de animais) se a comunidade vegana passar a afirmar que “basta criar novos produtos vegetais, sem precisar diminuir o número de animais explorados e mortos pela sua empresa, pra que ela seja aplaudida e acolhida por nós, que passaremos a recomendar e fazer propaganda desses produtos vegetais”?

E qual seria a alternativa? Mexer na raiz do sistema econômico, o capitalismo, que precisa de exploração (humana e não-humana) pra existir. E sabe como tocamos na raiz desse sistema? Primeiro decidindo não fortalece-lo. Parece óbvio, mas estou sempre sendo obrigada a repetir que não dá pra acabar com a exploração animal fortalecendo o sistema que explora os animais. Então vou repetir mais uma vez:

Não podemos acabar com a exploração dos animais fortalecendo o sistema que os explora.

Aplaudir e (ser paga pra) incentivar o consumo de produtos de corporações gigantes que exploram animais (e a Terra e as pessoas) NÃO é apoiar o veganismo. É apoiar o capitalismo. Ou seja, apoiar o sistema que explora animais no nível gigantesco que vemos hoje. E sim, existia exploração animal e especismo antes da chegada do capitalismo, mas não podemos negar essa evidência: a chegada do capitalismo elevou o sofrimento animal a um nível nunca antes visto na História. Hoje se mata uma quantidade de animais pro consumo humano absurdamente maior do que alguns séculos atrás e a maneira que eles são criados se tornou insuportavelmente cruel. Então embora o fim do capitalismo não tenha como consequência garantida o fim do especismo, me parece impossível imaginar o fim da exploração animal enquanto ele existir.

Como acabamos com a exploração animal, então? Algumas sugestões:

-Fortalecendo quem planta alimento sem veneno (e, assim, protege ecossistemas e os animais selvagens que vivem ali). Fortalecendo a agricultura familiar que alimenta as brasileiras. 70% do que o povo brasileiro come vem da agricultura familiar, enquanto o agroalimentar planta soja, milho e cana que se transformarão na infinidade de produtos ultraprocessados nas prateleiras dos supermercados (incluindo os produtos “veganos” ultraprocessados). Fortalecendo a luta por reforma agrária, porque pra sair da monocultura de commodities (milho, soja, cana) praticada pelos ruralistas precisamos acabar com o latifúndio e garantir a democratização do acesso à terra. Só assim passaremos a plantar pra alimentar pessoas, não pra gerar lucros em cima da destruição. Apoie o MST e compre sua comida nas feiras da reforma agrária.

-Trabalhando pra aumentar a soberania, mas também a autonomia alimentar. Isso significa ajudar a educar o povo com relação ao que significa uma alimentação vegetal. Explicar, sempre que possível, que comida vegetal vem da feira, não necessariamente da indústria. Que comida vegetal vem da terra, não de laboratórios.

“Ah, mas nem todo mundo tem acesso a vegetais frescos e sem veneno. O pobre só consegue comprar ultraprocessado, porque é mais barato, então pelo menos que seja ultraprocessados vegano pra salvar os animais.”

Ao invés de lutar pra mudar o sistema que impede que o vegetal fresco sem veneno chegue em todas as mesas, a gente vai se contentar de substituir ultraprocessados animais por ultraprocessados vegetais, vindos da monocultura, cheios de agrotóxicos, que adoecem a população e destroem ecossistemas do mesmíssimo jeito? Mesmo se libertação animal é a única pauta importante pra você, me responda: como uma população doente vai poder lutar pelos animais? Só quem defende um movimento por libertação animal onde os únicos protagonistas são um punhadinho de ONGs e pessoas da elite negociando com o agroalimentar, pra substituir ultraprocessados animais por similares vegetais “pra democratizar o veganismo”, aceitaria isso. Pior, consideraria isso uma estratégia eficaz. Nem preciso dizer que esse grupo de “heróis veganos”, a galera que fecha com o capital, segue comendo seu alimento fresco e orgânico, né?

Se eu chamo a vertente do veganismo que defendo de “veganismo popular” é justamente porque acredito que o veganismo é um projeto ético-político que só vingará se for construído com o povo.

Nosso movimento é político, sim, e tem um potencial revolucionário enorme. Já pensou o que aconteceria se todo mundo boicotasse a JBS, Sadia, Perdigão, Nestlé, Unilever etc e passasse a comprar o seu alimento nas feiras da reforma agrária? Diretamente da agricultura familiar? Já pensou a galera toda fortalecendo o pequeno agricultor que planta sem veneno, a assentada da reforma agrária que pratica agroecologia, ao invés de continuar dependente dos produtos cheios de agrotóxico, vindos da monocultura, com exploração animal, com trabalho escravo do agroalimentar? Imagine o impacto que isso teria na sociedade!

A crítica de Paola só desandou quando ela disse: “Quem quer algo com gosto de carne, que coma carne!”, ignorando o fato que não comer animais é uma escolha ética, não uma preferência gastronômica. Mas nenhuma surpresa aqui. Ela vai continuar defendendo o especismo, pois ganha a vida cozinhando animais, ou seja, lucrando com a exploração animal.

A solução desses chefs preocupados com meio ambiente, mas que continuam defendendo o especismo, não é acessível pro povo. Como disse minha amiga Juliana Couto (do blog Vegana Prática), se ela (e outras chefs estrelas) “comem vacas que tomam banho de ofurô e bebem matchá, isso é algo impossível de ser reproduzido na escala mundial”. Essa é uma questão importante e que dá muito pano pra manga, por isso acho que merece ser discutida outro dia.

Porém tirando isso, achei as críticas dela extremamente válidas. Escutei a mesma crítica vinda de outros chefs famosos (no Brasil e aqui na Europa) e, o que me deixou realmente triste, de guardiãs de sementes crioulas na Palestina e pessoas que trabalham com agroecologia mundo afora. Quando essas pessoas criticam o veganismo dizendo que “comer produtos ultraprocessados, à base de soja e monocultura, não é uma boa solução” e que se a alternativa for essa, elas preferem “comer carne orgânica e galinhas criadas no quintal” isso significa duas coisas nas quais deveríamos estar prestando muita atenção:

1- Que o “veganismo de mercado”, essa tendência do veganismo liberal de fechar com o capital (agroalimentar) em nome de um suporto “avanço pros animais”, não só não diminui a exploração animal (olha aí a Mantiqueira dizendo que vai aumentar a produção de ovos logo depois de ter lançado o seu “ovo vegano”), como dá uma ideia completamente errada do que é uma alimentação vegana, o que acaba afastando e colocando contra a gente pessoas que tem tudo pra ser nossas aliadas. O veganismo liberal causa muito mais danos à causa do que ajuda.

2- Que temos um trabalho de informação muito importante pela frente se quisermos ver a exploração animal começar a diminuir.

Imagina se, ao ouvir a palavra “veganismo”, o povo associasse o nosso movimento ao fortalecimento da agricultura familiar, apoio à reforma agrária, agroecologia, fim do latifúndio, da grilagem de terras indígenas e da monocultura, solidariedade aos povos indígenas, luta contra a bancada do boi, por soberania e autonomia alimentar? Despertaríamos a simpatia e o apoio de quem está lutando pra construir um novo modelo de mundo com justiça pra todas, onde a emancipação animal realmente teria chances de acontecer. Isso sim seria ver a revolução vegana avançar, construindo as bases pra uma sociedade sem especismo.

Seria bem mais difícil dizer mentiras como: “Acha que ser vegano é melhor pro meio ambiente? Estão acabando com a Amazônia pra plantar soja pra fazer comida vegana”, como o chef Alex Atala disse tempos atrás. Seria bem mais difícil justificar o especismo dos que não querem mudar sua alimentação (porque lucram com a exploração animal, como esses chefs, ou por puro comodismo) alegando que a alternativa vegana é pior, pois significa “ultraprocessados e monocultura”.

Enquanto isso o veganismo liberal, que mede seu sucesso em número de produtos ultraprocessados vegetais nas prateleiras dos supermercados, prefere se aliar a corporações capitalistas que querem cooptar nossa luta e pagar de vegan-friendly, sem no entanto reduzir a exploração animal que praticam. Com excessão das ditas corporações todo mundo perde com essa estratégia. Principalmente os animais.

Depois de publicar essas reflexões no meu Instagram, algumas pessoas levantaram a questão de Paola estar claramente se referindo ao hambúrguer do Futuro, feito por uma start up brasileira, enquanto a minha crítica tinha sido direcionada às gigantes da exploração animal como a JBS, Sadia, Nestlé e Unilever.

Embora eu reconheça que essa empresa brasileira não se aproxime nem de longe do nível de destruição praticada pelas gigantes do agroalimentar, a crítica exposta nesse texto continua válida. O coração da reflexão desse texto é sobre o fato da produção de ultraprocessados à base de plantas (feitos por multinacionais ou startups) buscarem manter a nossa dependência do agroalimentar, que existe em parceria com o agronegócio.

Porque autonomia alimentar não dá lucro, não é mesmo? Não rende prêmio de inovação e empreendorismo, enquanto desenvolver e vender um produto ultraprocessado, sim, como falou minha amiga, sempre certeira, Juliana Couto. Então a lógica por trás, embora numa escala e com impactos negativos bem menores, é a mesma.

Tem gente que se obstina a dizer que estou defendendo um purismo no veganismo, que julgo negativamente quem gosta de hambúrguer de plantas que imita o sabor de animais porque me acho mais vegana que todas as veganas e que pretendo caçar a carteira de vegana da coleguinha. Não sou ingênua a ponto de pensar que é problema de compreensão: essas pessoas defendem produtos vegetais ultraprocessados simplesmente porque ganham dinheiro pra promover o consumo dos mesmos. Mas pra quem ainda não se convenceu que minha posição não é essa, vou desanuviar pra você.

Não critico, muito menos condeno, a pessoa que gosta desses produtos. Não acho que se você comer um hambúrguer vegetal que imita carne animal você estará boicotando o movimento vegano e merece ser expulsa do grupo. De maneira alguma. Quer comer isso? Se joga, amiga. Está aqui a mulher que não vai te julgar. E, já que chegamos nesse ponto, melhor comer o hambúrguer do Futuro do que o da JSB. Mas se num dia de corre você acabou comprando um ultraprocessados de uma grande corporação, garanto que o mundo continuará girando.

Minha crítica, como sempre, vai à crença de que isso (ultraprocessados vegetais de multinacionais nos supermercados) é uma revolução vegana que está diminuindo o sofrimento e exploração animal no mundo. E foi aí que achei bem bacana um tweet de Paola, exatamente o que deixava a entender que ela tinha comido o hambúrguer do Futuro.

“É a mesma indústria…quer falar de alimentação do futuro, falemos. Mas ultraprocessados sabor carne tem no mercado desde 1960…ou antes. Mudou nada.”

Sim, comida ultraprocessada imitação não é uma ideia do futuro porcaria nenhuma! Tem miojo de “galinha” sem um grama de galinha, só saborizantes artificiais, nas prateleiras do supermercado há bastante tempo, por exemplo. Sabe o que é a comida do futuro, na minha opinião? Comida agroecológica. Vegetais frescos e sem veneno preparados na cozinha e saboreados à mesa, com tempo.

“Ah, mas quem tem acesso à essa comida? Pelo menos o ultraprocessado ‘vegano’ da Unilever/Nestlé/JBS vai chegar em muito mais lugares!”

De novo esse argumento raso. Sim, nem todo mundo tem acesso à comida agroecológica hoje, mas ao invés de ver isso como motivo pra aceitar a porcaria que multinacionais querem nos fazer engolir, pra mim isso é a razão pra levantar e lutar pra mudar o sistema. Eu defendo o que eu quero ver multiplicado.

Estamos num momento de colapso climático e mudar o sistema é a nossa única chance de sobrevivência. Acreditar que defender o sistema capitalista porque “os animais não podem esperar o fim desse sistema pra que aí então a gente comece a lutar por eles” é prova de uma ignorância tremenda ou, mais provavelmente, de interesses econômicos por trás, que são antagônicos à libertação animal. Temos poucos anos pra mudar de sistema se quisermos ter uma chance de continuar existindo na Terra. E não seremos apenas nós que vamos desaparecer: os outros animais também (já vivemos um período de extinção em massa, com de 150 à 200 espécies entrando em extinção por dia!).

E é aí que o veganismo popular, anticapitalista, que luta por reforma agrária, contra o latifúndio e defende a agroecologia e a soberania alimentar contribuirá imensamente na construção de um novo modelo de sociedade. Com justiça pra animais humanos, animais não-humanos e natureza, e que também é o único modelo que nos daria a possibilidade de continuar vivendo na Terra.

Temos, geralmente, tendência a exagerar nossa força e nossa fraqueza: assim, durante tempos revolucionários, parece-nos que a menor de nossas ações deve ter conseqüências incalculáveis ​​e, por outro lado, em certos momentos de marasmo, toda a nossa vida, embora inteiramente dedicada ao trabalho, parece-nos infrutífera e inútil, e acreditamos que somos levados pelo vento da reação.

Então, o que deve ser feito para nos manter em um estado de vigor intelectual, de atividade moral e de fé na luta justa?

Vocês vieram à mim porque contam com a minha experiência com os homens e as coisas. Pois bem, na qualidade de velho, me dirijo aos jovens e digo:

Evite brigas e não lide com personalidades. Ouça argumentos contrários depois de ter exposto os seus; saiba se calar e refletir; não tente ter razão à custa da sua sinceridade.

Estude com discernimento e persistência. Entusiasmo e dedicação, até a morte, não são as únicas maneiras de servir a causa. É fácil doar a própria vida; nem sempre é fácil se comportar de maneira que nossa vida possa servir de ensinamento. O revolucionário consciente não é apenas um homem de sentimentos, ele também é um homem de razão, cujos esforços por justiça e solidariedade se baseiam no conhecimento exato e sintético da História, sociologia, biologia, que pode, por assim dizer, incorporar suas idéias pessoais ao conjunto genérico das ciências humanas e enfrentar a luta, apoiado pela imensa força que ele extrairá desse conhecimento.

Evite especializações; não pertença nem a pátrias nem a partidos. Não seja russo, polonês nem eslavo; sejam homens ávidos pela verdade, livres de qualquer pensamento interesseiro e de qualquer idéia de especulação em relação a chineses, africanos ou europeus: o patriota passa a odiar o estrangeiro, a perder o sentimento de justiça que iluminava seu entusiasmo inicial.

Nem patrão, nem chefe, nem apóstolo articulado considerado como palavra do Evangelho: fuja dos ídolos e procure unicamente a verdade nos discursos, de seu amigo mais querido, do professor mais instruído. Se, ao ouvi-lo, você tiver alguma dúvida, como último recurso mergulhe na sua consciência e repita a análise de julgamento.

Sendo assim, rejeite toda autoridade, mas respeite profundamente uma convicção sincera. Viva sua própria vida, mas reconheça que cada um têm total liberdade para viver a dele.

Se entrar na luta para se sacrificar em defesa dos humilhados e ofendidos, muito bem, companheiro. Encare a morte com nobreza. Se preferir o trabalho lento e paciente por um futuro mais promissor, melhor ainda. Faça disso o objetivo de todos os momentos de uma vida generosa. Mas se optar por permanecer pobre entre os pobres, em completa solidariedade aos que sofrem, que sua existência se irradie em luz benéfica, em exemplo perfeito, em ensino frutífero!

Saudações, camaradas.

(Carta escrita por Élisée Reclus pra abertura de um congresso anarquista em Barcelona, 1901, traduzida, do Francês, por mim.)

*Fotos feitas por Anne, durante a festa de ano novo organizada pelo grupo Solidarité Migrants Wilson, no campo de migrantes perto da minha casa, em Paris.

Frequentemente perguntam à pessoas veganas o que achamos de ovos de galinhas criadas no quintal. Até prometi à uma leitora escrever sobre isso aqui no blog e, anos depois, ainda estou devendo esse post. A conversa de hoje não é exatamente sobre isso, mas se aproxima. Semanas atrás vi esse letreiro (foto acima) numa estação de metrô em Paris. Ele me deu a ideia de vir aqui trazer alguns esclarecimentos quanto à ligação entre consumo de ovos, exploração e crueldade animal, mas também tocar em um ponto que está causando divergências dentro do movimento vegano.

Se você faz parte do imenso grupo de pessoas que se perguntam por que veganas não consumem ovos, já que “não precisa matar a galinha pra obter ovos”, vamos começar do princípio.

Por volta de 18 meses de idade galinhas poedeiras já não poem ovos suficientes pra que sua exploração seja considerada rentável. Assim como mulheres nascem com um número determinado de óvulos, galinhas também põem um número determinado de ovos durante a vida e eventualmente entram no que pra nós seria chamado de menopausa. Então a conclusão lógica da indústria é matar aquela galinha e substitui-la por outra mais jovem. Sim, galinhas são mortas pra que pessoas possam comer seus ovos. E tem mais. Na seleção das novas galinhas poedeiras, somente as fêmeas são interessantes (afinal galo não bota ovo), então pintos machos são mortos logo depois do nascimento. Só na França 100 milhões de galinhas poedeiras e pintos machos são mortos por ano, como consequência direta da indústria do ovo.

Aí que entra a proposta de empresa que será o centro da nossa discussão aqui. “Poulehouse” é uma empresa francesa que existe desde 2017, cuja proposta é vender “o ovo que não mata a galinha.” Poulehouse vende apenas ovos de criadores que se comprometem a enviar as galinhas de 18 meses pra um abrigo (gerenciado pela empresa), não pro abatedouro. Lá as galinhas terão um resto de vida feliz, segundo a empresa. Tudo isso tem um preço, claro, e o “ovo que não mata a galinha”, que vamos chamar a partir de agora de OQNMG, custa de 2x à 4x mais que ovo orgânico, que já é mais caro que um ovo comum. A unidade desse ovo custa 1€ (quase 5 reais).

Até pouco tempo atrás era consenso dentro do movimento vegano entender que o objetivo da nossa luta era abolir a exploração animal. Essa era a diferença fundamental entre abolicionistas e bem-estaristas, que pediam melhorias de bem-estar pros animais, ou seja, melhores condições de exploração, sem no entanto se opor à exploração animal. Até que o veganismo de cúpula (ONGs e associações veganas) resolveu, em nome de uma suposta estratégia tática, apoiar reformas bem-estaristas. A teoria é que já que a abolição da exploração animal não vai acontecer amanhã, toda reforma que alivie, mesmo que pouco, o sofrimento animal deve ser não só aplaudida como incentivada pelo movimento vegano.

Mas eu não estou aplaudindo a iniciativa da empresa que vende OQNMG? Entenda por quê.

1- A empresa incentiva criadores a utilizarem uma tecnologia que identifica o sexo dos pintos ainda no ovo, pra que só as fêmeas sejam chocadas, o que evitaria a matança dos pintos machos. Mas no site da empresa está escrito que apenas dois criadores usam essa tecnologia, então o ovo ainda produz morte, sim!

2- Qual a capacidade desse abrigo de galinhas poedeiras aposentadas? Porque no ritmo que ovos são consumidos na França, serão muitas galinhas se aposentando todos os anos. Não é difícil imaginar que essa solução é inviável a longo prazo.

Uma palavrinha sobre o consumo de ovos na França. O povo que inventou a quiche gosta muito, muito de ovo: 98% das pessoas aqui consomem ovos, em média 222 ovos por pessoa/ano (no Brasil, em 2018, foram 212 ovos por pessoa). É só pensar em todos os omeletes, bolos, merengues e mousses da culinária francesa pra entender que vai ovo em praticamente tudo.

Assim, cerca de 50 milhões de galinhas poedeiras são mortas por ano na França. Imagine que se todas elas se aposentassem, em 10 anos teríamos que encontrar espaço pra abrigar 500 milhões de novas aposentadas! E como alimentar tantas galinhas vivendo em abrigos? Com ração feita com soja e milho da monocultura que devasta floresta, solo, água?


3- Apesar de garantir a aposentadoria das galinhas poedeiras, a empresa não garante que esses ovos não produzem sofrimento. No site tem escrito que ela “incentiva produtores a não cortarem a ponta do bico das galinhas”, mas não é um imperativo pra trabalhar com eles. Essa prática é comum na indústria de exploração de aves. Presas e privadas de ter as necessidades da sua espécies atendidas, elas se tornam agressivas, machucando outras galinhas e até se tornando canibais. A “solução” que a indústria encontrou foi cortar a ponta do bico das galinhas. Então não podemos dizer que esse ovo é “sem crueldade”, ou “ético”, como está escrito nas propagandas da empresa.

4- A bandeja com 6 ovos orgânicos dessa empresa custa 6€ (ou 4€ pra versão não-orgânica), enquanto uma bandeja com 30 ovos dos mais baratos aqui custa 3€ (Carrefour). Ou seja, 10 centavos a unidade, o que significa 10x mais barato que o OQNMG. Esse ovo está longe de ser uma opção pras pessoas mais pobres, que constituem um grupo cada vez maior aqui na França e que consume muito ovo (por ser mais barato que animais).

Assim o rico compra sua consciência “ecológica-sustentável”, “fazendo a diferença com pequenas mudanças”, enquanto a maior parte da população não tem escolha na hora de alimentar a família e é obrigada a comprar os ovos mais baratos, sendo excluída desse processo de “comprar um planeta verde/comida ética” e passando a ser vista como parte do problema por comprar o produto que “não é ecológico nem ético”.

5- Sem falar que como apenas a elite compra esse produto, enquanto nas cantinas escolares, refeitórios de fábricas, restaurantes, lanchonetes e casas de trabalhadores os ovos consumidos continuam sendo os mais baratos (que matam a galinha), o impacto dessa empresa na redução do sofrimento animal é minúsculo.

6- Olha o beco sem saída. Pra fazer uma diferença significativa a maior parte dos ovos consumidos na França teria que vir desse sistema “que não mata a galinha”, mas aí em pouco tempo teremos o problema que mencionei acima: onde abrigar todas as galinhas poedeiras aposentadas e de onde virá o alimento delas?

Aqui entra o desacordo entre a base e as organizações, ou seja, entre a maior parte das pessoas na militância vegana e o ativismo das ONGs e sociedades veganas no Brasil, mas também fora dele. Essa corrente liberal, que defende um ativismo de mercado (acreditando que aumento de produtos vegs significa redução de sofrimento animal) afirma: “Pra cada ‘ovo que não mata a galinha’ comprado, será um ovo a menos produzido de maneira muito mais cruel. Logo isso é uma vitória pros animais que deve ser acolhida e incentivada pelo movimento vegano.”

O que eu tenho a dizer sobre isso? Muita coisa.

Fiz algumas pesquisas sobre consumo de animais desde que voltei pra França. Descobri, por exemplo, que o consumo de ovos aqui não parou de aumentar nos últimos anos (cerca de 2% ao ano). Pois é. Enquanto o mercado de produtos industrializados veganos francês aumenta (fato), aumenta também o consumo de ovos (outro fato), de modo que francesas e franceses nunca comeram tanto ovo na História.

A mesma coisa é válida no Brasil. 2018 foi um ano recorde no consumo de ovos no nosso país. Foi 10,6% a mais (ou 20 ovos) em comparação com 2017 segundo dados divulgados pela Associação Brasileira de Proteínas Animais (ABPA). As razões? É mais barato que carne animal. E com o aumento do preço da carne que aconteceu em novembro, a estimativa é que em 2019 o consumo de ovo, uma proteína animal mais barata, será ainda maior do que no ano anterior. Não vamos esquecer que 2019 foi também o ano em que a maior produtora de ovos da América Latina lançou o seu “ovo vegano” no Brasil e adeptas do veganismo liberal declararam que essa era mais uma vitória pros animais.

A existência desses produtos, sejam ovos caríssimos que não matam a galinha ou “ovo vegano” da empresa exploradora de animais, não está de maneira alguma substituindo uma parte do mercado tradicional de ovos, que não para de crescer. Isso não passa de criação de novos mercados. Os argumentos do veganismo liberal desmoronam assim que se adquire um mínimo de compreensão sobre o funcionamento do sistema econômico vigente (capitalismo).

“E por que o consumo de ovo está aumentando na França?”

Obrigada por perguntar, pois a resposta é fundamental pra nos ajudar a entender algumas problemáticas do ativismos vegano que vê a expansão do mercado e iniciativas bem-estarias como a maneira mais “estratégica” de obter libertação animal.

Já expliquei as razões que estão fazendo o consumo de ovos no Brasil aumentar. Será que mesma coisa está acontecendo na França? Mais ou menos.

Primeiro que fique claro que isso não está sendo puxado pelo aumento da população francesa, que aumentou de 0.3% em 2018 (lembre que o aumento do consumo de ovo aumentou de 2% no mesmo período).

O aumento no consumo de ovo na França se deve, principalmente, ao…aumento do “flexitarianismo”. Sabe aquelas pessoas que comem animais/seus derivados e vegetais, ou seja, carnistas, mas quiseram inventar uma palavra nova pra se definirem, pois o mundo precisava saber que elas eram mais evoluídas que um mero carnista? Aquela galera que diz reduzir seu consumo de animais, mas sem ser vegetariano/vegano porque não são “radicais/extremistas”? Pois bem, esse povo aí está reduzindo o consumo de animais, mas ao mesmo tempo aumentando o consumo de ovos. Viram como é problemático retirar a ética do centro da militância vegana e reduzir a questão ao consumo?

A pessoa flexitariana pode até ter reduzido seu consumo de carne bovina, mas se isso provocou um aumento no consumo de ovos (e, em muitos casos, provocou o aumento do consumo de aves também), podemos realmente dizer que ela está reduzindo o sofrimento animal?

Atenção! Não estou dizendo que não acharia melhor se todos os ovos consumidos no mundo viessem de galinhas criadas em liberdade, que não serão mortas aos 18 meses e sem a matança de pintos machos. De maneira nenhuma!

Mas sou antiespecista, por isso acredito que o problema não é a maneira que as galinhas são exploradas e sim o fato delas serem exploradas. O papel de militantes veganas é lutar pelo fim da exploração animal, não por reformas pra que animais sejam explorados de maneira menos cruel. Essa é a diferença essencial entre abolicionistas e bem-estaristas.

No final das contas esse ovo é mais uma artimanha do capitalismo, que incorpora as pautas da atualidade pra se manter relevante, mais um nicho de mercado criado, mais um produto elitizado, mais uma oportunidade de ganhar dinheiro com a exploração animal…tudo, menos a redução do sofrimento animal.

Enquanto isso a indústria do ovo aqui segue comemorando o fato dos franceses nunca terem comido tantos ovos (mesma coisa no Brasil). E está ainda mais feliz com a lei Egalim, aprovada recentemente pelo governo, que obriga as escolas a oferecerem uma refeição vegetariana por semana daqui pra 2022. A indústria do ovo vê isso como uma grande oportunidade pro setor, pois obviamente a carne será substituída por ovos.