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Muitas luas atrás eu comecei uma série de entrevistas com pessoas veganas. Recentemente resolvi dar continuidade à série, mas com versões mais curtas, publicadas no meu perfil no Instagram. Também decidi que iria entrevistar (por enquanto) apenas pessoas não-brasileiras, pra mostrar as cores do movimento vegano no exterior. O veganismo liberal das ONGs e celebridades de Instagram acaba dando uma ideia falsa do veganismo e eu queria mostrar como o movimento é diverso e construído por pessoas que entendem o veganismo como uma extensão lógica da luta anti-opressão. Existe um esforço em propagar o mito de que fora do Brasil o movimento vegano é homogêneo e todo liberal. Nos países onde morei (França, Palestina, Inglaterra, Alemanha, Líbano e Bélgica) pude constatar que isso não podia estar mais longe da realidade. Então pensei em trazer as vozes de algumas militantes antiespecistas do exterior pra que vocês vejam por si mesmas.

Como essa série foi pensada pra ser compartilhada no Instagram, onde os caracteres são limitados, faço apenas três perguntas: 1- O que é veganismo? 2-Por que você se tornou vegana? 3-Como derrubar o especismo?

Mas quando pedi ao meu querido amigo Craig pra responder essas perguntas, ele me enviou um texto longo demais pra ser publicado no Instragram, mas interessante demais pra não ser compartilhado. Então a solução foi postar uma versão bem curta no Instagram e publicar a versão integral aqui.

Craig é britânico, um dos maiores militantes antiespecistas que conheço e vegano há mais de 30 anos.

O que é veganismo?

Pra mim, o veganismo tem a ver com a capacidade, usando do meu privilégio, de me desligar um pouco de um sistema de exploração. Existem inúmeras maneiras pelas quais animais humanos e não humanos são explorados neste mundo e eu sinto que se nós, como indivíduos, pudermos fazer algo para impedir que um dano seja causado, removendo nosso apoio físico ou financeiro a esse sistema, então isso se torna um imperativo moral.

Veganismo -boicotar produtos vindos da exploração animal, seja o alimento que comemos ou bebemos, ou as roupas que vestimos- é apenas parte da solução, definitivamente não é a única coisa que podemos ou devemos fazer. Nós, que somos capazes de viver uma vida vegana, pessoas que têm o privilégio de escolher o que consomem, precisamos fazê-lo. Como podemos continuar a participar de um sistema que gera sofrimento se nós temos a capacidade de sair dele? “Por que ser cruel quando você pode ser gentil?”, como um amigo disse uma vez.

Acredito firmemente que veganismo não é uma dieta, é um ato político, um ato de solidariedade com animais não-humanos. É um ato político de boicote análogo à campanha pra boicotar produtos israelenses por causa da ocupação da Palestina, ou ao boicote aos produtos sul-africanos em apoio àqueles e àquelas que viviam sob o regime de apartheid naquele país.

E o veganismo certamente não é o mesmo que “plant-based”, que não passa de uma escolha dietética sem substância que pode mudar a qualquer momento. Isso significa que ser vegana é mais do que apenas evitar produtos de origem animal, é estar ciente de como tudo o que consumimos é produzido: considerando as pessoas que cultivam, colhem, produzem os alimentos, o impacto ambiental dessa produção e consumo, etc.

Ser vegana definitivamente não é sobre ser ‘perfeita’, o que é impossível. Eu vivo em uma sociedade capitalista, onde a maioria das coisas que faço têm um efeito prejudicial sobre outros animais (humanos e não-humanos) e pro meio ambiente. Pra mim é sobre estar ciente desses danos e aprender o que posso fazer para reduzi-los ou eliminá-los o máximo possível. A conscientização é o primeiro passo pra criar mudanças.

Por que você se tornou vegano?

No início da adolescência comecei a militar por direitos humanos e descobri como todas as questões de exploração estão interconectadas. Eu cresci na Inglaterra e na época a mídia estava cheia de imagens angustiantes de pessoas passando fome na Etiópia. Eu já quase não comia carne, porque a ideia de que animais eram mortos pra que eu os comesse não me agradava, e uma vez que tomei consciência do impacto das dietas ocidentais centradas em carne na vida das pessoas no Sul Global parar de comer carne por completo era o única opção possível para mim.

Eu li livros sobre soberania alimentar e fiquei horrorizado ao descobrir que enquanto populações inteiras passavam fome, seus países cultivavam grãos pra serem exportados e alimentar animais de criação no Norte Global. A causa de tanta pobreza e fome não era um excesso de pessoas no mundo nem uma escassez de comida, era o capitalismo, que depende da distribuição desigual de recursos pra existir. Tornar-se vegetariano quase não foi uma escolha, foi uma necessidade.

Naquela época eu não conhecia nenhuma pessoa vegana, mas quando me tornei ativo no movimento por direitos animais o veganismo foi o próximo passo lógico.

Ter me tornado vegano na adolescência, mais de 30 anos atrás, fez com que eu tivesse que aprender a cozinhar. Na época havia poucos alimentos processados veganos disponíveis, geralmente encontrados apenas em lojas especializadas de alimentos saudáveis. Isso foi realmente benéfico. Comecei a usar ingredientes dos quais nunca tinha ouvido falar (muitas leguminosas) e experimentar receitas (principalmente asiáticas). Venho de uma família da classe trabalhadora, meu pai e minha mãe tinham vários empregos ao mesmo tempo, muitas vezes trabalhando também durante a noite. Por isso comíamos muitas refeições processadas, rápidas de preparar e à base de carne. Aprender a cozinhar sem acesso a uma montanha de ingredientes processados fez com que eu passasse a comer de maneira mais saudável do que antes de me tornar vegano.

O veganismo amplamente promovido atualmente, que passa por aumentar a oferta de ultraprocessados nada saudáveis que imitam as opções de baixa qualidade comidas por pessoas não-veganas, apoiando multinacionais que prejudicam animais, pessoas e meio ambiente não faz parte do veganismo no qual acredito. Ocasionalmente gosto de comer um ultraprocessado vegano, mas ter sido vegano por tanto tempo sem acesso a esses produtos definitivamente fez com que eu aprendesse a me alimentar de uma maneira mais saudável.

Como derrubar o especismo?

Só podemos acabar com o especismo reconhecendo que a luta por libertação animal não pode ser separada da luta pela libertação de todos os seres, humanos ou não-humanos.

Grande parte da população mundial já tem uma dieta quase toda vegetal, não por escolha, mas por falta de escolha (a pobreza econômica que limita o acesso a alimentos). Nas próximas décadas provavelmente veremos mais pessoas nos países mais ricos, onde hoje o consumo de produtos de origem animal é elevado, se tornarem veganas. Não necessariamente por preocupação com os animais, mas por causa da crescente conscientização dos danos causados por produtos de origem animal ao meio ambiente e à saúde das pessoas. A produção de carne e laticínios está literalmente nos matando e destruindo o planeta.

No entanto, precisamos garantir que os direitos dos animais não-humanos sejam uma pauta central nessa mudança. Promover o veganismo como um ‘estilo de vida’, como ‘ alimentação plant-based’, fazer campanhas incentivando o tal do “part time vegan” (“parcialmente vegana”) ou apenas relacionar o veganismo à crise climática não vai acabar com o especismo.

Discussões recentes sobre a crise climática, particularmente graças a Greta Thunberg, e a atual pandemia COVID-19 revelaram que não podemos continuar vivendo da mesma maneira destrutiva que muitos de nós (principalmente no Norte Global) vivemos. Acabar com o especismo é essencial pros seres humanos, mas não devemos acabar com práticas prejudiciais apenas porque nos afeta diretamente. Seria egoísta.

Também precisamos reconhecer que grande parte da população mundial não tem os mesmos privilégios que muitas de nós, no movimento dos direitos dos animais, temos. Principalmente ocidentais. A maioria das pessoas não tem acesso ao leque de opções que está à nossa disposição na hora de escolher o que comer. Mesmo no Norte Global há uma enorme desigualdade no que diz respeito ao acesso à comida, principalmente quando se trata de pessoas racializadas. Além de mudar nossa atitude para com animais não-humanos, é preciso mudar nossa atitude com outros humanos.

“Somente através de uma luta anti-opressão consistente o veganismo poderá crescer e deixar de ser o movimento marginal que é atualmente. Pessoas veganas devem se conscientizar, aprender e se envolver com a luta pelos direitos humanos pra elevar os direitos não-humanos. Ser consistente com a luta anti-opressão dentro do nosso movimento não significa retirar os não-humanos do centro do seu próprio movimento. Significa criar um ambiente onde as comunidades marginalizadas não sejam mais oprimidas e alienadas pelas ações do movimento. ”
Julia Feliz Brueck, Veganism in an Oppressive World.

*Craig não gosta de exibir sua cara na internet, por isso a “arte” na foto 😉

Em 1977 o cineasta Polanski confessou, num tribunal dos EUA, ter estuprado uma menina de 13 anos. Condenado, ele fugiu do país antes de ser preso e nunca mais voltou. Desde então outras 11 mulheres o acusaram de estupro. Semana passada aconteceu a cerimônia dos Césars, a maior premiação do cinema francês. Polanski estava concorrendo a 12 prêmios, incluindo melhor diretor e melhor filme. 12 mulheres estupradas e 12 nomeações pro homem que as estuprou. “É preciso separar o homem do artista”, vomitavam os perpetradores da cultura do estupro. “Se seu padeiro estuprasse 12 mulheres, incluindo crianças, você separaria o homem do padeiro?”, “Quando uma mulher é estuprada não importa a profissão do estuprador nem se ele a pratica com talento” respondiam as mulheres. Os guardiães do patriarcado tinham sido particularmente cruéis dessa vez. Concorrendo ao prêmio de melhor atriz, pelo filme “Retrato da jovem em chamas” (que concorria ao prêmio de melhor filme, junto com o filme de Polanski), estava Adèle Haenel, que no final do ano passado levou ao público o fato de ter sido agredida sexualmente por um cineasta dos 13 aos 15 anos. Ela, que declarou: “Premiar Polanski é cuspir na cara das vítimas”, foi à cerimônia dos Césars junto com a equipe do filme “Retrato…”, feito por uma cineasta, com uma equipe quase exclusiva de mulheres, contando a história de duas mulheres que se amam. Esse filme me fez soluçar no cinema e todas nós torcíamos pra que ele e sua diretora levassem o prêmio. Mas o cinema francês, cúmplice, fiel aos seus amigos homens, mesmo os que cometem crimes de pedofilia, não deu o prêmio a “Retrato…”, nem à sua atriz principal. Era preciso punir Adèle por ter ousado sair do silêncio. Por ter levantado a voz e criticado esse clube do Bolinha sexista que é a indústria do cinema. Mas a punição não foi suficiente: era preciso “cuspir na cara das vítimas”. E assim Polanski ganhou o prêmio de melhor diretor. Nesse momento Adèle e a equipe de “Retrato…” se levantaram e saíram da sala. Embaixo do vestido de gala, a indignação. “Que vergonha! Palmas pra pedofilia!” ela repetia enquanto juntava o gesto à palavra.

Mas naquela noite Adèle não estava sozinha. Do lado de fora do cinema onde acontecia a premiação dos Césars, uma centena de mulheres se reunia. Uma bomba de fumaça vermelha foi acesa. Era o sinal. Imediatamente um canto explodiu das nossas gargantas “Polanski, estuprador. Cinema, culpado” e nos jogamos contra a grade que separava a rua do tapete vermelho e começamos a sacudi-la, enquanto, do outro lado, dezenas de policiais armados protegiam a barreira. Naquele momento senti que o corpo a corpo era extremamente simbólico: nós contra os guardiães do patriarcado. Algumas mulheres conseguiram passar pela grade e pisar no tapete vermelho. Pânico do lado de lá. À partir dali lembro de policiais nos empurrando violentamente, de estar espremida com outras mulheres contra uma parede enquanto eles lançavam gás lacrimogêneo e spray de pimenta diretamente contra nossos rostos, sem que pudéssemos escapar. Em poucos minutos a polícia nos forçou a sair dali e deteve duas mulheres. Mas ainda não tínhamos dito nossa palavra final. Uma mulher gritou “Violência sexista” e gritamos de volta “resposta feminista”. Ocupamos a rua. “Estuprador, nós te vemos. Vítima, acreditamos em você.” De repente vi, no final da rua, um grupo muito maior de mulheres se aproximar, com faixas e cartazes, juntando suas vozes às nossas. Nos abraçamos e agora que o grupo tinha triplicado de tamanho pudemos ocupar uma grande avenida, a dois passos do Arco do Triunfo. Paramos o trânsito e cantamos juntas “Estupro é crime/Não nos calaremos”. A polícia nos cercou e fechou a parte da avenida onde estávamos, tentando conter nossa raiva, abafar nossos gritos. Tarde demais, a cerimônia dos César um fiasco. Uma mulher do meu lado disse “essa noite, fomos nós que vencemos”. Sentei na calçada no final da ação, esperando ser liberada pra ir pra casa (a polícia nos deteve temporariamente no local) quando do meu lado duas mulheres começaram a cantar baixinho o Hino das Mulheres, a música escrita por feministas francesas nos anos 70 que ainda cantamos hoje e que sempre mareja meus olhos: “Juntas, somos oprimidas, mulheres. Juntas, nos revoltemos!”

O patriarcado vai cair de podre. Os que se beneficiam dele estão se agarrando a esse velho mundo odioso, esperneando pateticamente pra continuar oprimindo e agredindo mulheres sem ter que encarar as consequências. Quando descobri que Polanski tinha sido nomeado a 12 Césars, mesmo depois de ter sido condenado pelo estupro de uma menina de 13 anos, além de ser acusado por outras 11 mulheres de estupro (de 9, 10, 12, 18, 29 anos quando ele as estuprou), imaginei na hora que seria organizado um protesto e que eu participaria. Contra esse sistema desprezível que culpa a vítima e dá prêmio ao estuprador. Mas, principalmente, pelas vítimas dele. Por Adèle Haenel. Por todas as mulheres vítimas de uma agressão sexual. Era por elas que eu estava ali. Por elas que eu gritava “Estupradores por todos os lados/Justiça em lugar nenhum” Então não sei exatamente em que momento as coisas começaram a mudar. Fui agredida por um policial e mulheres me socorreram, seguraram minha mão e falaram: “Você está sozinha? Se quiser fica aqui com a gente.” Depois nos demos as mãos e cantamos “Solidariedade com as mulheres do mundo inteiro”. Quando li o décimo cartaz da noite falando de “pedocriminalidade” (“pedofilia” não faz sentido) meu coração parou de bater por um segundo e aquilo que eu vinha sentindo desde o início da noite se cristalizou: era por mim também que eu estava ali! Pela criança de 5 anos que fui, agredida sexualmente por um amigo da família. E como ela precisava colocar aquilo tudo pra fora! Como ela precisava estar no meio daquela massa de mulheres indignadas, de punho erguido, gritando “Estupro é crime! Não nos calaremos!” Eu não imaginava que estar com companheiras naquela ação, mesmo tão curta e simbólica, seria o bálsamo que terminaria de cicatrizar essa ferida. Naquela noite eu não me calei e revidei. Naquela noite mulheres desconhecidas me deram a mão e disseram “você não está sozinha, nós te vemos, nós acreditamos em você e lutaremos em seu nome”.

(Todas as fotos foram feitas por Anne Paq)

Ano passado a chef Paola Carosella causou um grande alvoroço dentro da comunidade vegana por causa da reação dela (via Twitter) depois de ter provado um hambúrguer vegetal que imita a textura e o sabor de carne animal. Acho oportuno abrir espaço pra discutir as declarações dela, pois acredito que podemos extrair algumas lições importantes do ocorrido.

Tirando uma única coisa descabida que ela falou, e que discutirei mais na frente, achei as críticas muito válidas. Ao invés de crucifica-la por ter falado mal de um produto ultraprocessado à base de plantas, inacessível pra maior parte da população brasileira (bastante caro comparado à outras alternativas de proteína vegetal, como feijão e arroz), proponho ler com atenção o que ela escreveu e ver isso como uma oportunidade de ouro pra fazer uma reflexão necessária sobre as estratégias que queremos adotar na luta por emancipação animal.

Seguem as críticas de Paola ao hambúrguer de planta que imita carne animal. Algumas eu só copiei/colei dos tweets dela, outras eu reformulei ligeiramente pra caber numa frase.

Crítica 1-
“Ultraprocessados, mesmo feito com vegetais, são péssimos pra saúde.”
O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, que é muito bom, por sinal, é categórico ao dizer que, em nome da nossa saúde, o melhor a fazer é ficar longe deles. Promover o consumo de ultraprocessados “veganos”, com a justificativa de que é um suposto “avanço pros animais”, não só não faz sentido pros não-humanos (explicações mais adiante), como é irresponsável do ponto de vista humano.

Crítica 2-
“Esses hambúrgueres vegetais imitando carne são oportunistas no momento de mais confusão alimentar da História.”
Sim. O fato da indústria vender esses produtos “veganos” (salsicha, hambúrguer) como uma alternativa saudável é perigoso, pois as pessoas que não tem acesso às informações certas vão se iludir e comer porcaria achando que estão fazendo uma escolha superior, mais saudável. Nunca vou esquecer de uma mãe brasileira que, depois de me explicar que a filha e o filho não comiam frutas, declarou, orgulhosa, que fazia questão de dar suco Addes (soja com suco de frutas) todos os dias às crianças, o que compensava a falta de fruta fresca no cardápio.

Crítica 3-
“Não é ato político parar de comer vaca, mas comer ultraprocessados de soja, milho, açúcar e trigo que em muitos casos são feitos pelas mesmas empresas (que vendem carne)”

Hambúrguer “vegano” produzido pela indústria agroalimentar é fruto do mesmo sistema alimentar hegemônico, baseado em monocultura, agrotóxicos, latifúndio, destruição de ecossistemas, grilagem de terras indígenas e trabalho escravo. Que, além de tudo, reforça a alienação do consumidor, que não sabe o que é nem como foi produzido aquilo. E aliena também a consumidora vegana, que acha que está fazendo “um ato politico” quando na verdade está fortalecendo o mesmíssimo sistema que explora e mata animais e destrói o meio ambiente.

A indústria alimentar nos quer dependentes dela, porque nossa autonomia significa redução de lucros pra ela. Sim, ela só se preocupa com lucro e não se importa se está lucrando com a venda de animais mortos ou de produtos vegetais que imitam animais mortos. Esse é o principal argumento do veganismo liberal pra incentivar a produção e consumo de produtos vegetais ultraprocessados, mas ele demonstra um profundo desconhecimento do modo de funcionamento do capitalismo.

Como escrevi mais acima, o que essa indústria quer realmente é nos manter dependentes dela, por isso não se importa se nossa dependência é de hambúrguer de carne animal ou vegetal. Porque de um jeito ou de outro ela continuará lucrando em cima de nós e usando esse dinheiro pra se expandir, aumentando a exploração da Terra e dos animais, humanos e não humanos. Aqui ou em outros países.

O fato de gigantes da exploração animal como JBS e Mantiqueira quererem uma parte do mercado vegano não é a prova que a “revolução vegana” está acontecendo. Isso não passa de uma manobra da indústria pra lucrar com um novo nicho de mercado, se manter relevante face às mudanças nos hábitos de consumo, enquanto, ao mesmo tempo, mantém o sistema de exploração animal, que é extremamente lucrativo, intacto. Que incentivo essas empresas terão pra parar de vender animais (ou produtos com derivados de animais) se a comunidade vegana passar a afirmar que “basta criar novos produtos vegetais, sem precisar diminuir o número de animais explorados e mortos pela sua empresa, pra que ela seja aplaudida e acolhida por nós, que passaremos a recomendar e fazer propaganda desses produtos vegetais”?

E qual seria a alternativa? Mexer na raiz do sistema econômico, o capitalismo, que precisa de exploração (humana e não-humana) pra existir. E sabe como tocamos na raiz desse sistema? Primeiro decidindo não fortalece-lo. Parece óbvio, mas estou sempre sendo obrigada a repetir que não dá pra acabar com a exploração animal fortalecendo o sistema que explora os animais. Então vou repetir mais uma vez:

Não podemos acabar com a exploração dos animais fortalecendo o sistema que os explora.

Aplaudir e (ser paga pra) incentivar o consumo de produtos de corporações gigantes que exploram animais (e a Terra e as pessoas) NÃO é apoiar o veganismo. É apoiar o capitalismo. Ou seja, apoiar o sistema que explora animais no nível gigantesco que vemos hoje. E sim, existia exploração animal e especismo antes da chegada do capitalismo, mas não podemos negar essa evidência: a chegada do capitalismo elevou o sofrimento animal a um nível nunca antes visto na História. Hoje se mata uma quantidade de animais pro consumo humano absurdamente maior do que alguns séculos atrás e a maneira que eles são criados se tornou insuportavelmente cruel. Então embora o fim do capitalismo não tenha como consequência garantida o fim do especismo, me parece impossível imaginar o fim da exploração animal enquanto ele existir.

Como acabamos com a exploração animal, então? Algumas sugestões:

-Fortalecendo quem planta alimento sem veneno (e, assim, protege ecossistemas e os animais selvagens que vivem ali). Fortalecendo a agricultura familiar que alimenta as brasileiras. 70% do que o povo brasileiro come vem da agricultura familiar, enquanto o agroalimentar planta soja, milho e cana que se transformarão na infinidade de produtos ultraprocessados nas prateleiras dos supermercados (incluindo os produtos “veganos” ultraprocessados). Fortalecendo a luta por reforma agrária, porque pra sair da monocultura de commodities (milho, soja, cana) praticada pelos ruralistas precisamos acabar com o latifúndio e garantir a democratização do acesso à terra. Só assim passaremos a plantar pra alimentar pessoas, não pra gerar lucros em cima da destruição. Apoie o MST e compre sua comida nas feiras da reforma agrária.

-Trabalhando pra aumentar a soberania, mas também a autonomia alimentar. Isso significa ajudar a educar o povo com relação ao que significa uma alimentação vegetal. Explicar, sempre que possível, que comida vegetal vem da feira, não necessariamente da indústria. Que comida vegetal vem da terra, não de laboratórios.

“Ah, mas nem todo mundo tem acesso a vegetais frescos e sem veneno. O pobre só consegue comprar ultraprocessado, porque é mais barato, então pelo menos que seja ultraprocessados vegano pra salvar os animais.”

Ao invés de lutar pra mudar o sistema que impede que o vegetal fresco sem veneno chegue em todas as mesas, a gente vai se contentar de substituir ultraprocessados animais por ultraprocessados vegetais, vindos da monocultura, cheios de agrotóxicos, que adoecem a população e destroem ecossistemas do mesmíssimo jeito? Mesmo se libertação animal é a única pauta importante pra você, me responda: como uma população doente vai poder lutar pelos animais? Só quem defende um movimento por libertação animal onde os únicos protagonistas são um punhadinho de ONGs e pessoas da elite negociando com o agroalimentar, pra substituir ultraprocessados animais por similares vegetais “pra democratizar o veganismo”, aceitaria isso. Pior, consideraria isso uma estratégia eficaz. Nem preciso dizer que esse grupo de “heróis veganos”, a galera que fecha com o capital, segue comendo seu alimento fresco e orgânico, né?

Se eu chamo a vertente do veganismo que defendo de “veganismo popular” é justamente porque acredito que o veganismo é um projeto ético-político que só vingará se for construído com o povo.

Nosso movimento é político, sim, e tem um potencial revolucionário enorme. Já pensou o que aconteceria se todo mundo boicotasse a JBS, Sadia, Perdigão, Nestlé, Unilever etc e passasse a comprar o seu alimento nas feiras da reforma agrária? Diretamente da agricultura familiar? Já pensou a galera toda fortalecendo o pequeno agricultor que planta sem veneno, a assentada da reforma agrária que pratica agroecologia, ao invés de continuar dependente dos produtos cheios de agrotóxico, vindos da monocultura, com exploração animal, com trabalho escravo do agroalimentar? Imagine o impacto que isso teria na sociedade!

A crítica de Paola só desandou quando ela disse: “Quem quer algo com gosto de carne, que coma carne!”, ignorando o fato que não comer animais é uma escolha ética, não uma preferência gastronômica. Mas nenhuma surpresa aqui. Ela vai continuar defendendo o especismo, pois ganha a vida cozinhando animais, ou seja, lucrando com a exploração animal.

A solução desses chefs preocupados com meio ambiente, mas que continuam defendendo o especismo, não é acessível pro povo. Como disse minha amiga Juliana Couto (do blog Vegana Prática), se ela (e outras chefs estrelas) “comem vacas que tomam banho de ofurô e bebem matchá, isso é algo impossível de ser reproduzido na escala mundial”. Essa é uma questão importante e que dá muito pano pra manga, por isso acho que merece ser discutida outro dia.

Porém tirando isso, achei as críticas dela extremamente válidas. Escutei a mesma crítica vinda de outros chefs famosos (no Brasil e aqui na Europa) e, o que me deixou realmente triste, de guardiãs de sementes crioulas na Palestina e pessoas que trabalham com agroecologia mundo afora. Quando essas pessoas criticam o veganismo dizendo que “comer produtos ultraprocessados, à base de soja e monocultura, não é uma boa solução” e que se a alternativa for essa, elas preferem “comer carne orgânica e galinhas criadas no quintal” isso significa duas coisas nas quais deveríamos estar prestando muita atenção:

1- Que o “veganismo de mercado”, essa tendência do veganismo liberal de fechar com o capital (agroalimentar) em nome de um suporto “avanço pros animais”, não só não diminui a exploração animal (olha aí a Mantiqueira dizendo que vai aumentar a produção de ovos logo depois de ter lançado o seu “ovo vegano”), como dá uma ideia completamente errada do que é uma alimentação vegana, o que acaba afastando e colocando contra a gente pessoas que tem tudo pra ser nossas aliadas. O veganismo liberal causa muito mais danos à causa do que ajuda.

2- Que temos um trabalho de informação muito importante pela frente se quisermos ver a exploração animal começar a diminuir.

Imagina se, ao ouvir a palavra “veganismo”, o povo associasse o nosso movimento ao fortalecimento da agricultura familiar, apoio à reforma agrária, agroecologia, fim do latifúndio, da grilagem de terras indígenas e da monocultura, solidariedade aos povos indígenas, luta contra a bancada do boi, por soberania e autonomia alimentar? Despertaríamos a simpatia e o apoio de quem está lutando pra construir um novo modelo de mundo com justiça pra todas, onde a emancipação animal realmente teria chances de acontecer. Isso sim seria ver a revolução vegana avançar, construindo as bases pra uma sociedade sem especismo.

Seria bem mais difícil dizer mentiras como: “Acha que ser vegano é melhor pro meio ambiente? Estão acabando com a Amazônia pra plantar soja pra fazer comida vegana”, como o chef Alex Atala disse tempos atrás. Seria bem mais difícil justificar o especismo dos que não querem mudar sua alimentação (porque lucram com a exploração animal, como esses chefs, ou por puro comodismo) alegando que a alternativa vegana é pior, pois significa “ultraprocessados e monocultura”.

Enquanto isso o veganismo liberal, que mede seu sucesso em número de produtos ultraprocessados vegetais nas prateleiras dos supermercados, prefere se aliar a corporações capitalistas que querem cooptar nossa luta e pagar de vegan-friendly, sem no entanto reduzir a exploração animal que praticam. Com excessão das ditas corporações todo mundo perde com essa estratégia. Principalmente os animais.

Depois de publicar essas reflexões no meu Instagram, algumas pessoas levantaram a questão de Paola estar claramente se referindo ao hambúrguer do Futuro, feito por uma start up brasileira, enquanto a minha crítica tinha sido direcionada às gigantes da exploração animal como a JBS, Sadia, Nestlé e Unilever.

Embora eu reconheça que essa empresa brasileira não se aproxime nem de longe do nível de destruição praticada pelas gigantes do agroalimentar, a crítica exposta nesse texto continua válida. O coração da reflexão desse texto é sobre o fato da produção de ultraprocessados à base de plantas (feitos por multinacionais ou startups) buscarem manter a nossa dependência do agroalimentar, que existe em parceria com o agronegócio.

Porque autonomia alimentar não dá lucro, não é mesmo? Não rende prêmio de inovação e empreendorismo, enquanto desenvolver e vender um produto ultraprocessado, sim, como falou minha amiga, sempre certeira, Juliana Couto. Então a lógica por trás, embora numa escala e com impactos negativos bem menores, é a mesma.

Tem gente que se obstina a dizer que estou defendendo um purismo no veganismo, que julgo negativamente quem gosta de hambúrguer de plantas que imita o sabor de animais porque me acho mais vegana que todas as veganas e que pretendo caçar a carteira de vegana da coleguinha. Não sou ingênua a ponto de pensar que é problema de compreensão: essas pessoas defendem produtos vegetais ultraprocessados simplesmente porque ganham dinheiro pra promover o consumo dos mesmos. Mas pra quem ainda não se convenceu que minha posição não é essa, vou desanuviar pra você.

Não critico, muito menos condeno, a pessoa que gosta desses produtos. Não acho que se você comer um hambúrguer vegetal que imita carne animal você estará boicotando o movimento vegano e merece ser expulsa do grupo. De maneira alguma. Quer comer isso? Se joga, amiga. Está aqui a mulher que não vai te julgar. E, já que chegamos nesse ponto, melhor comer o hambúrguer do Futuro do que o da JSB. Mas se num dia de corre você acabou comprando um ultraprocessados de uma grande corporação, garanto que o mundo continuará girando.

Minha crítica, como sempre, vai à crença de que isso (ultraprocessados vegetais de multinacionais nos supermercados) é uma revolução vegana que está diminuindo o sofrimento e exploração animal no mundo. E foi aí que achei bem bacana um tweet de Paola, exatamente o que deixava a entender que ela tinha comido o hambúrguer do Futuro.

“É a mesma indústria…quer falar de alimentação do futuro, falemos. Mas ultraprocessados sabor carne tem no mercado desde 1960…ou antes. Mudou nada.”

Sim, comida ultraprocessada imitação não é uma ideia do futuro porcaria nenhuma! Tem miojo de “galinha” sem um grama de galinha, só saborizantes artificiais, nas prateleiras do supermercado há bastante tempo, por exemplo. Sabe o que é a comida do futuro, na minha opinião? Comida agroecológica. Vegetais frescos e sem veneno preparados na cozinha e saboreados à mesa, com tempo.

“Ah, mas quem tem acesso à essa comida? Pelo menos o ultraprocessado ‘vegano’ da Unilever/Nestlé/JBS vai chegar em muito mais lugares!”

De novo esse argumento raso. Sim, nem todo mundo tem acesso à comida agroecológica hoje, mas ao invés de ver isso como motivo pra aceitar a porcaria que multinacionais querem nos fazer engolir, pra mim isso é a razão pra levantar e lutar pra mudar o sistema. Eu defendo o que eu quero ver multiplicado.

Estamos num momento de colapso climático e mudar o sistema é a nossa única chance de sobrevivência. Acreditar que defender o sistema capitalista porque “os animais não podem esperar o fim desse sistema pra que aí então a gente comece a lutar por eles” é prova de uma ignorância tremenda ou, mais provavelmente, de interesses econômicos por trás, que são antagônicos à libertação animal. Temos poucos anos pra mudar de sistema se quisermos ter uma chance de continuar existindo na Terra. E não seremos apenas nós que vamos desaparecer: os outros animais também (já vivemos um período de extinção em massa, com de 150 à 200 espécies entrando em extinção por dia!).

E é aí que o veganismo popular, anticapitalista, que luta por reforma agrária, contra o latifúndio e defende a agroecologia e a soberania alimentar contribuirá imensamente na construção de um novo modelo de sociedade. Com justiça pra animais humanos, animais não-humanos e natureza, e que também é o único modelo que nos daria a possibilidade de continuar vivendo na Terra.