Posts de categoria: Ativismo

Temos, geralmente, tendência a exagerar nossa força e nossa fraqueza: assim, durante tempos revolucionários, parece-nos que a menor de nossas ações deve ter conseqüências incalculáveis ​​e, por outro lado, em certos momentos de marasmo, toda a nossa vida, embora inteiramente dedicada ao trabalho, parece-nos infrutífera e inútil, e acreditamos que somos levados pelo vento da reação.

Então, o que deve ser feito para nos manter em um estado de vigor intelectual, de atividade moral e de fé na luta justa?

Vocês vieram à mim porque contam com a minha experiência com os homens e as coisas. Pois bem, na qualidade de velho, me dirijo aos jovens e digo:

Evite brigas e não lide com personalidades. Ouça argumentos contrários depois de ter exposto os seus; saiba se calar e refletir; não tente ter razão à custa da sua sinceridade.

Estude com discernimento e persistência. Entusiasmo e dedicação, até a morte, não são as únicas maneiras de servir a causa. É fácil doar a própria vida; nem sempre é fácil se comportar de maneira que nossa vida possa servir de ensinamento. O revolucionário consciente não é apenas um homem de sentimentos, ele também é um homem de razão, cujos esforços por justiça e solidariedade se baseiam no conhecimento exato e sintético da História, sociologia, biologia, que pode, por assim dizer, incorporar suas idéias pessoais ao conjunto genérico das ciências humanas e enfrentar a luta, apoiado pela imensa força que ele extrairá desse conhecimento.

Evite especializações; não pertença nem a pátrias nem a partidos. Não seja russo, polonês nem eslavo; sejam homens ávidos pela verdade, livres de qualquer pensamento interesseiro e de qualquer idéia de especulação em relação a chineses, africanos ou europeus: o patriota passa a odiar o estrangeiro, a perder o sentimento de justiça que iluminava seu entusiasmo inicial.

Nem patrão, nem chefe, nem apóstolo articulado considerado como palavra do Evangelho: fuja dos ídolos e procure unicamente a verdade nos discursos, de seu amigo mais querido, do professor mais instruído. Se, ao ouvi-lo, você tiver alguma dúvida, como último recurso mergulhe na sua consciência e repita a análise de julgamento.

Sendo assim, rejeite toda autoridade, mas respeite profundamente uma convicção sincera. Viva sua própria vida, mas reconheça que cada um têm total liberdade para viver a dele.

Se entrar na luta para se sacrificar em defesa dos humilhados e ofendidos, muito bem, companheiro. Encare a morte com nobreza. Se preferir o trabalho lento e paciente por um futuro mais promissor, melhor ainda. Faça disso o objetivo de todos os momentos de uma vida generosa. Mas se optar por permanecer pobre entre os pobres, em completa solidariedade aos que sofrem, que sua existência se irradie em luz benéfica, em exemplo perfeito, em ensino frutífero!

Saudações, camaradas.

(Carta escrita por Élisée Reclus pra abertura de um congresso anarquista em Barcelona, 1901, traduzida, do Francês, por mim.)

*Fotos feitas por Anne, durante a festa de ano novo organizada pelo grupo Solidarité Migrants Wilson, no campo de migrantes perto da minha casa, em Paris.

Frequentemente perguntam à pessoas veganas o que achamos de ovos de galinhas criadas no quintal. Até prometi à uma leitora escrever sobre isso aqui no blog e, anos depois, ainda estou devendo esse post. A conversa de hoje não é exatamente sobre isso, mas se aproxima. Semanas atrás vi esse letreiro (foto acima) numa estação de metrô em Paris. Ele me deu a ideia de vir aqui trazer alguns esclarecimentos quanto à ligação entre consumo de ovos, exploração e crueldade animal, mas também tocar em um ponto que está causando divergências dentro do movimento vegano.

Se você faz parte do imenso grupo de pessoas que se perguntam por que veganas não consumem ovos, já que “não precisa matar a galinha pra obter ovos”, vamos começar do princípio.

Por volta de 18 meses de idade galinhas poedeiras já não poem ovos suficientes pra que sua exploração seja considerada rentável. Assim como mulheres nascem com um número determinado de óvulos, galinhas também põem um número determinado de ovos durante a vida e eventualmente entram no que pra nós seria chamado de menopausa. Então a conclusão lógica da indústria é matar aquela galinha e substitui-la por outra mais jovem. Sim, galinhas são mortas pra que pessoas possam comer seus ovos. E tem mais. Na seleção das novas galinhas poedeiras, somente as fêmeas são interessantes (afinal galo não bota ovo), então pintos machos são mortos logo depois do nascimento. Só na França 100 milhões de galinhas poedeiras e pintos machos são mortos por ano, como consequência direta da indústria do ovo.

Aí que entra a proposta de empresa que será o centro da nossa discussão aqui. “Poulehouse” é uma empresa francesa que existe desde 2017, cuja proposta é vender “o ovo que não mata a galinha.” Poulehouse vende apenas ovos de criadores que se comprometem a enviar as galinhas de 18 meses pra um abrigo (gerenciado pela empresa), não pro abatedouro. Lá as galinhas terão um resto de vida feliz, segundo a empresa. Tudo isso tem um preço, claro, e o “ovo que não mata a galinha”, que vamos chamar a partir de agora de OQNMG, custa de 2x à 4x mais que ovo orgânico, que já é mais caro que um ovo comum. A unidade desse ovo custa 1€ (quase 5 reais).

Até pouco tempo atrás era consenso dentro do movimento vegano entender que o objetivo da nossa luta era abolir a exploração animal. Essa era a diferença fundamental entre abolicionistas e bem-estaristas, que pediam melhorias de bem-estar pros animais, ou seja, melhores condições de exploração, sem no entanto se opor à exploração animal. Até que o veganismo de cúpula (ONGs e associações veganas) resolveu, em nome de uma suposta estratégia tática, apoiar reformas bem-estaristas. A teoria é que já que a abolição da exploração animal não vai acontecer amanhã, toda reforma que alivie, mesmo que pouco, o sofrimento animal deve ser não só aplaudida como incentivada pelo movimento vegano.

Mas eu não estou aplaudindo a iniciativa da empresa que vende OQNMG? Entenda por quê.

1- A empresa incentiva criadores a utilizarem uma tecnologia que identifica o sexo dos pintos ainda no ovo, pra que só as fêmeas sejam chocadas, o que evitaria a matança dos pintos machos. Mas no site da empresa está escrito que apenas dois criadores usam essa tecnologia, então o ovo ainda produz morte, sim!

2- Qual a capacidade desse abrigo de galinhas poedeiras aposentadas? Porque no ritmo que ovos são consumidos na França, serão muitas galinhas se aposentando todos os anos. Não é difícil imaginar que essa solução é inviável a longo prazo.

Uma palavrinha sobre o consumo de ovos na França. O povo que inventou a quiche gosta muito, muito de ovo: 98% das pessoas aqui consomem ovos, em média 222 ovos por pessoa/ano (no Brasil, em 2018, foram 212 ovos por pessoa). É só pensar em todos os omeletes, bolos, merengues e mousses da culinária francesa pra entender que vai ovo em praticamente tudo.

Assim, cerca de 50 milhões de galinhas poedeiras são mortas por ano na França. Imagine que se todas elas se aposentassem, em 10 anos teríamos que encontrar espaço pra abrigar 500 milhões de novas aposentadas! E como alimentar tantas galinhas vivendo em abrigos? Com ração feita com soja e milho da monocultura que devasta floresta, solo, água?


3- Apesar de garantir a aposentadoria das galinhas poedeiras, a empresa não garante que esses ovos não produzem sofrimento. No site tem escrito que ela “incentiva produtores a não cortarem a ponta do bico das galinhas”, mas não é um imperativo pra trabalhar com eles. Essa prática é comum na indústria de exploração de aves. Presas e privadas de ter as necessidades da sua espécies atendidas, elas se tornam agressivas, machucando outras galinhas e até se tornando canibais. A “solução” que a indústria encontrou foi cortar a ponta do bico das galinhas. Então não podemos dizer que esse ovo é “sem crueldade”, ou “ético”, como está escrito nas propagandas da empresa.

4- A bandeja com 6 ovos orgânicos dessa empresa custa 6€ (ou 4€ pra versão não-orgânica), enquanto uma bandeja com 30 ovos dos mais baratos aqui custa 3€ (Carrefour). Ou seja, 10 centavos a unidade, o que significa 10x mais barato que o OQNMG. Esse ovo está longe de ser uma opção pras pessoas mais pobres, que constituem um grupo cada vez maior aqui na França e que consume muito ovo (por ser mais barato que animais).

Assim o rico compra sua consciência “ecológica-sustentável”, “fazendo a diferença com pequenas mudanças”, enquanto a maior parte da população não tem escolha na hora de alimentar a família e é obrigada a comprar os ovos mais baratos, sendo excluída desse processo de “comprar um planeta verde/comida ética” e passando a ser vista como parte do problema por comprar o produto que “não é ecológico nem ético”.

5- Sem falar que como apenas a elite compra esse produto, enquanto nas cantinas escolares, refeitórios de fábricas, restaurantes, lanchonetes e casas de trabalhadores os ovos consumidos continuam sendo os mais baratos (que matam a galinha), o impacto dessa empresa na redução do sofrimento animal é minúsculo.

6- Olha o beco sem saída. Pra fazer uma diferença significativa a maior parte dos ovos consumidos na França teria que vir desse sistema “que não mata a galinha”, mas aí em pouco tempo teremos o problema que mencionei acima: onde abrigar todas as galinhas poedeiras aposentadas e de onde virá o alimento delas?

Aqui entra o desacordo entre a base e as organizações, ou seja, entre a maior parte das pessoas na militância vegana e o ativismo das ONGs e sociedades veganas no Brasil, mas também fora dele. Essa corrente liberal, que defende um ativismo de mercado (acreditando que aumento de produtos vegs significa redução de sofrimento animal) afirma: “Pra cada ‘ovo que não mata a galinha’ comprado, será um ovo a menos produzido de maneira muito mais cruel. Logo isso é uma vitória pros animais que deve ser acolhida e incentivada pelo movimento vegano.”

O que eu tenho a dizer sobre isso? Muita coisa.

Fiz algumas pesquisas sobre consumo de animais desde que voltei pra França. Descobri, por exemplo, que o consumo de ovos aqui não parou de aumentar nos últimos anos (cerca de 2% ao ano). Pois é. Enquanto o mercado de produtos industrializados veganos francês aumenta (fato), aumenta também o consumo de ovos (outro fato), de modo que francesas e franceses nunca comeram tanto ovo na História.

A mesma coisa é válida no Brasil. 2018 foi um ano recorde no consumo de ovos no nosso país. Foi 10,6% a mais (ou 20 ovos) em comparação com 2017 segundo dados divulgados pela Associação Brasileira de Proteínas Animais (ABPA). As razões? É mais barato que carne animal. E com o aumento do preço da carne que aconteceu em novembro, a estimativa é que em 2019 o consumo de ovo, uma proteína animal mais barata, será ainda maior do que no ano anterior. Não vamos esquecer que 2019 foi também o ano em que a maior produtora de ovos da América Latina lançou o seu “ovo vegano” no Brasil e adeptas do veganismo liberal declararam que essa era mais uma vitória pros animais.

A existência desses produtos, sejam ovos caríssimos que não matam a galinha ou “ovo vegano” da empresa exploradora de animais, não está de maneira alguma substituindo uma parte do mercado tradicional de ovos, que não para de crescer. Isso não passa de criação de novos mercados. Os argumentos do veganismo liberal desmoronam assim que se adquire um mínimo de compreensão sobre o funcionamento do sistema econômico vigente (capitalismo).

“E por que o consumo de ovo está aumentando na França?”

Obrigada por perguntar, pois a resposta é fundamental pra nos ajudar a entender algumas problemáticas do ativismos vegano que vê a expansão do mercado e iniciativas bem-estarias como a maneira mais “estratégica” de obter libertação animal.

Já expliquei as razões que estão fazendo o consumo de ovos no Brasil aumentar. Será que mesma coisa está acontecendo na França? Mais ou menos.

Primeiro que fique claro que isso não está sendo puxado pelo aumento da população francesa, que aumentou de 0.3% em 2018 (lembre que o aumento do consumo de ovo aumentou de 2% no mesmo período).

O aumento no consumo de ovo na França se deve, principalmente, ao…aumento do “flexitarianismo”. Sabe aquelas pessoas que comem animais/seus derivados e vegetais, ou seja, carnistas, mas quiseram inventar uma palavra nova pra se definirem, pois o mundo precisava saber que elas eram mais evoluídas que um mero carnista? Aquela galera que diz reduzir seu consumo de animais, mas sem ser vegetariano/vegano porque não são “radicais/extremistas”? Pois bem, esse povo aí está reduzindo o consumo de animais, mas ao mesmo tempo aumentando o consumo de ovos. Viram como é problemático retirar a ética do centro da militância vegana e reduzir a questão ao consumo?

A pessoa flexitariana pode até ter reduzido seu consumo de carne bovina, mas se isso provocou um aumento no consumo de ovos (e, em muitos casos, provocou o aumento do consumo de aves também), podemos realmente dizer que ela está reduzindo o sofrimento animal?

Atenção! Não estou dizendo que não acharia melhor se todos os ovos consumidos no mundo viessem de galinhas criadas em liberdade, que não serão mortas aos 18 meses e sem a matança de pintos machos. De maneira nenhuma!

Mas sou antiespecista, por isso acredito que o problema não é a maneira que as galinhas são exploradas e sim o fato delas serem exploradas. O papel de militantes veganas é lutar pelo fim da exploração animal, não por reformas pra que animais sejam explorados de maneira menos cruel. Essa é a diferença essencial entre abolicionistas e bem-estaristas.

No final das contas esse ovo é mais uma artimanha do capitalismo, que incorpora as pautas da atualidade pra se manter relevante, mais um nicho de mercado criado, mais um produto elitizado, mais uma oportunidade de ganhar dinheiro com a exploração animal…tudo, menos a redução do sofrimento animal.

Enquanto isso a indústria do ovo aqui segue comemorando o fato dos franceses nunca terem comido tantos ovos (mesma coisa no Brasil). E está ainda mais feliz com a lei Egalim, aprovada recentemente pelo governo, que obriga as escolas a oferecerem uma refeição vegetariana por semana daqui pra 2022. A indústria do ovo vê isso como uma grande oportunidade pro setor, pois obviamente a carne será substituída por ovos.

Precisamos falar sobre a cooptação do veganismo pelo capitalismo, ou, sobre o debate que parece ocupar o movimento vegano nesse momento: boicotar empresas que testam em animais ou boicotar somente produtos com ingredientes/testados em animais e apoiar qualquer produto vegetal, independente de quem os produziu?

Como foi e ainda é o caso em muitos movimentos revolucionários, o boicote é uma das principais estratégias de luta do movimento vegano. Nós, veganas, escolhemos boicotar (não comprar nem apoiar) tudo que venha da exploração animal. Mas a maneira de aplicar esse boicote não é mais um consenso dentro da comunidade vegana e vejo um abismo se criando, em termos de posicionamento político e estratégia de luta, entre a base do movimento e as grandes organizações de direitos animais.

Como abolicionista e anticapitalista, deixa eu começar explicando que essa história que “certas pessoas veganas se incomodam quando a Unilever, ou outra grande empresa que testa em animais, lança um produto vegano” é uma grande falácia. Escutei até coisa pior, que veganas que seguem a mesma linha de ativismo que eu “se incomodam mais quando a Unilever lança um produto vegano do que quando ela lança um produto que contem ingredientes animais”. A pessoa tem que estar bem confusa quanto ao nosso posicionamento se acredita nisso, então vim esclarecer a confusão.

Produtos à base de vegetais fabricados por multinacionais que testam em animais não são veganos, são vegetarianos estritos. Mas a maneira como defino esses produtos não tem a menor importância, pois as grandes multinacionais entenderam que tem um nicho de mercado vegano e vão continuar lançando produtos vegetais, independente da nossa opinião. Na verdade acredito que o público alvo desses produtos nem somos nós e sim quem come animais, mas quer incluir mais produtos “plant based”  (como está na moda dizer) na dieta.

Então é perda de energia sair batendo boca nas redes sociais argumentando se tal produto merece ou não ser chamado de “vegano”. Porém sigo boicotando essas grandes corporações e vou explicar a razão por trás disso.

Eu não boicoto a Nestlé e a Unilever porque seus produtos são “vegetarianos estritos” e não “veganos”. Boicoto porque são empresas terríveis em tantos níveis que precisaria de um artigo inteiro só pra tratar desse assunto. Eu já boicotava essas empresas antes mesmo de me tornar vegana e não vejo razão nenhuma pra começar a comprar seus produtos agora que elas resolveram lucrar com a população vegana.

A Nestlé, por exemplo, está privatizando a água do mundo e privando populações inteiras desse direito humano fundamental (seu presidente, aliás, disse publicamente que a água não é um direito humano e deve ser privatizada), é famosa por vender cacau vindo do trabalho escravo, inclusive trabalho escravo infantil, e é responsável pela morte de um número assombroso de bebês no Sul global desde os anos 70 (pesquisem sobre o escândalo do leite em pó Nestlé e a campanha internacional de boicote à empresa). Isso pra citar apenas três exemplos da longa lista de crimes e ações antiéticas dessa empresa. Se a Nestlé lançar um hambúrguer “vegano”, como já anunciou, será suficiente pra me fazer ignorar tudo isso e passar a apoiar com meus reais essa empresa? De maneira alguma!

Mas deixa eu explicar melhor pra não criar mais confusão. Eu não me oponho ao lançamento de produtos “veganos” de grandes empresas que testam em animais. Como já disse, vai acontecer independente da minha opinião e seria totalmente inútil usar meu tempo e energia contra isso. Eu me oponho à promoção do consumo desses produtos pela comunidade vegana. Um veganismo que incentiva o consumo de ultraprocessados, quando sabemos o quão nefasto eles são pra saúde, não tem o meu apoio.

Se eu aplaudisse o hambúrguer “vegano” que a Nestlé prometeu lançar, ou a nova maionese Hellmann’s (da Unilever), porque supostamente “é um avanço pro veganismo quando mais empresas grandes lançam produtos veganos”, isso significaria achar positivo um futuro com mais produtos ultraprocessados, um futuro onde as opções veganas são fórmulas industriais vendidas como alimento, produzidas por multinacionais que exploram a Terra, os humanos e os animais. O futuro que eu quero é vegano, mas não tem ultraprocessados da Nestlé nem da Unilever. Tem vegetais frescos e sem veneno na mesa de todas as pessoas, independente da classe social. Tem mais agroecologia e menos agro-negócio.

Outra grande confusão é acreditar que veganas que boicotam empresas que testam em animais se acham superiores e “mais veganas” do que as que decidem boicotar produtos, não empresas. Isso não poderia estar mais longe da verdade.

Sempre expliquei no meu trabalho que veganismo não é um ideal de pureza individual, nem uma competição pra saber quem é a mais vegana dentro do movimento ou quem tem autoridade pra confiscar a “carteira de vegana” da coleguinha. Isso não avança em nada a luta pela emancipação animal, só distrai, mudando o foco da discursão do animal, que deve estar sempre no centro do debate, pro humano. Não estou interessada em apontar dedos pra indivíduos e, dentre as muitas atividades que preenchem meus dias, trabalhar pra polícia vegana não é uma delas.

Então que fique bem claro que quando digo que produtos da Nestlé e Unilever não são veganos, são vegetarianos estritos, não estou dizendo que veganas que consomem esses produtos deixam de ser veganas.

Porém é muito importante mencionar que essa é uma discussão necessária dentro do movimento, mas com relação ao posicionamento das organizações de direitos animais, não dos indivíduos. A questão não é a escolha (individual) de consumir ou não tal produto, mas sim se essas organizações, que tem um poder de influência muito maior, devem fazer propaganda e estimular o consumo de produtos ultraprocessados produzidos por multinacionais que exploram e testam em animais.

“Se você boicota grande corporações, como a Nestlé, então deveria boicotar igualmente o supermercado da esquina que vende verduras, porque ele também vende animais.” 

Dar meu dinheiro pro supermercado da esquina (que vende carne), ou pra agricultora que vende seus vegetais na feira (e cria galinhas pra abate), não é a mesma coisa que patrocinar grandes corporações. Se você tem a possibilidade de escolher onde e de quem comprar sua comida, a escolha mais ética seria comprar de pequenos produtores que, sim, não são veganos, mas que nem de longe destroem o planeta, nossa saúde e exploram animais no nível absurdamente elevado dessas corporações. É impossível, no mundo de hoje, só comprar alimentos de pessoas veganas ou produzir tudo que você consome (pra maioria de nós), mas é possível pra muitas pessoas escolher entre comprar de quem destrói e explora absurdamente ou de quem produz de maneira mais sustentável.

Mas precisamos conversar sobre estratégia de luta também. O movimento de libertação animal sempre adotou a estratégia, usada também por outros movimentos revolucionários, de focar em uma batalha isolada que tem aceitação de um público maior (no nosso caso, o público não-vegano), logo mais chances de ser vencida, e assim ir construindo um caminho de pequenas batalhas vencidas até se chegar ao objetivo final maior (libertação animal). O fim dos testes em animais é algo que conta com uma grande adesão de não-veganas, enquanto boicotar o supermercado do bairro porque ele vende carne não é algo que vai contar com o apoio de não-veganas, logo será menos efetivo. Isso é uma escolha estratégica, baseada no fato que, no momento, seria mais fácil acabar com os testes em animais do que com o consumo de animais e seus derivados.

“Comprar o hambúrguer veg da Nestlé é a mesma coisa que comprar o cachorro quente vegano da lanchonete da esquina que também vende cachorro quente de animal.” 

Não é. É tudo uma questão de patrocinar, com seu dinheiro, o modelo que você quer ver multiplicado. Queremos um mundo sem especismo? Queremos! Mas enquanto lutamos pra chegar lá teremos que escolher entre o modelo com menos exploração animal (a lanchonete da esquina) ou com muito, muito, muito mais exploração animal (a Nestlé/Unilever).  O que te parece menos terrível?

“Quando veganos compram os produtos veganos de grandes corporações, elas entendem que tem um mercado vegano e vão fazer mais produtos veganos e menos produtos com animais. É a lei da demanda e da oferta: quanto mais demanda, maior a oferta de produtos veganos, logo menos animais sofrerão.”

Sinto dizer que, embora pareça lógico, não é assim que o capitalismo funciona. A verdade é que quanto mais lucro as grandes empresas tiverem, mais animais elas explorarão.

Lição relâmpago sobre o capitalismo: ele depende do crescimento permanente pra existir. Quando um mercado novo é criado, digamos, o mercado vegano, empresas capitalistas não substituem os produtos animais por produtos vegetais. Elas simplesmente abraçam mais esse mercado, porque crescimento permanente é um imperativo pro capitalismo continuar tendo lucro, logo, continuar existindo.

E uma palavrinha sobre a tal da “lei da demanda e da oferta”. Usemos o exemplo da água em garrafa. Anos atrás, quando garrafinhas de água não existiam e todo mundo tomava água da torneira (ou do filtro), alguém aqui lembra de campanhas pedindo pras grandes corporações engarrafarem água e venderem pra gente por um valor absurdamente maior? O capitalismo já passou muito da época que produzir pra suprir nossas demandas. Agora o negócio é manipular nossos desejos, sem que a gente perceba, pra vender ainda mais produtos dos quais não precisamos. Em outras palavras: consumidoras tem pouquíssima influência sobre o mercado e o capitalismo cria demandas.

É essencial entender que empresas exploram animais por uma razão simples: dá muito lucro. No modelo econômico atual grandes empresas têm muito mais lucro explorando animais do que vendendo comida vegetal. Exemplos disso são os subsídios do governo brasileiro pra indústria da carne e benefícios fiscais pra pecuaristas . Comprar o hambúrguer da Nestlé, e todos os produtos vegs que ela venha a lançar, não será suficiente pra convence-la a parar de explorar animais, por mais dinheiro vegano que ela receba. Concretamente só vamos aumentar os lucros da Nestlé. As grandes corporações não vão escolher entre lucrar com comida vegetal ou lucrar com exploração animal, elas simplesmente vão querer uma fatia de cada um desses bolos.

Por isso enquanto a Nestlé investe em produtos vegetais aqui, ela faz uma campanha pesada pra incentivar o consumo de leite na China, onde as pessoas não tinham o hábito de consumir laticínios.

Por isso quando o Macdonald’s promete que, até 2025, suas lanchonetes nos EUA e Canadá só usarão ovos de galinhas criadas fora de gaiolas ele anuncia, dois anos depois, que vai abrir 2 mil novas lanchonetes na China nos próximos 5 anos. É mais de um novo Macdonald’s por dia durante 5 anos!

“Ah, mas isso teria acontecido de todo jeito. Pelo menos agora a exploração das galinhas na América do Norte vai diminuir. Você preferia 2 mil novos Macdonald’s na China e ao mesmo tempo galinhas em gaiolas nos EUA, por acaso?”

Nós, veganas, fazemos o trabalho essencial de denunciar a exploração animal, seja com palavras, ações diretas ou imagens, informar a população sobre as alternativas ao sistema especista e educar sobre o veganismo. Confrontadas com a verdade sobre a exploração animal, as reações das pessoas que comem animais geralmente são: 1-indiferença, 2-decidem parar de comer animais ou, 3-em um esforço pra aliviar a consciência, sem no entanto mudar os hábitos, exigem reformas no sistema de exploração animal. As mudanças bem-estaristas – que aumentam o bem-estar animal sem no entanto acabar com sua exploração – são uma tentativa da indústria carnista pra melhorar sua imagem e não perder consumidores que acreditam que o “errado” não é a exploração em si, mas a maneira como ela é feita.

Então negociar reformas bem-estaristas não é o trabalho do movimento de libertação animal. Reconheço a importância de muitas dessas reformas, mas esse tipo de ativismo é o que organizações de proteção animal fazem. Esses dois movimentos coexistem há muito tempo e o nosso papel é, justamente, nos diferençarmos do trabalho dessas organizações e ir mais além nas nossas demandas. Vejo a militância vegana como um farol apontando pra direção da libertação animal: as organizações bem-estaristas se empenham em trazer pequenos avanços imediatos, mas nós estaremos aqui pra lembrar que a mudança não deve parar por aí, deve ir mais além pois o objetivo final é o fim de toda e qualquer forma de exploração animal.

“O capitalismo em si não é ruim nem é bom. O fato é que vivemos em um mundo capitalista e isso não vai mudar amanhã. Por isso não podemos esperar o capitalismo ser destruído pra só então começar a fazer algo pelos animais.”

Eu nunca, em nenhum momento da minha militância, sugeri que as pessoas esperassem o fim do capitalismo pra só então se engajar na luta pelo fim da exploração animal. Além disso, a afirmação acima é problemática em vários pontos. Ela pressupõe que apenas um tipo de ativismo existe, o ativismo que incentiva e apoia mais produtos veganos de grandes empresas. Logo se você é anticapitalista e não incentiva o consumo desses produtos, você estaria sentada no seu sofá, sem fazer nada pelos animais, enquanto espera o capitalismo ser destruído.

Nós, veganas anticapitalistas, defendemos o fim do capitalismo e ao mesmo tempo lutamos contra o especismo. Porque entendemos que o capitalismo se alimenta de exploração animal (e humana e da Terra) e não dá pra acabar com ela sem acabar com ele. E porque nossa luta anti opressão não é seletiva: nos opomos a toda e qualquer opressão.

O segundo problema é um problema de imaginação. A mente foi tão doutrinada pelo capitalismo que quem repete a citação acima não consegue imaginar uma existência possível fora dele. Pensar alternativas é necessário e é o que propomos na militância anticapitalista. Não tem espaço pra tratar disso aqui, mas fica a reflexão. Porém gostaria de acrescentar uma última coisa.

Quase todas as pessoas que vi repetir “o capitalismo não é ruim nem bom, é uma realidade que não vai mudar amanhã, aceite a trabalhe com ele dentro do seu ativismo” vêm de uma classe econômica privilegiada. Não podemos negar que é fácil “aceitar o capitalismo” e até vê-lo como algo neutro quando nossa condição financeira é boa, né? Mas será que os bilhões de pessoas sofrendo nesse exato momento por causa das desigualdades criadas pelo capitalismo, as pessoas sem acesso aos direitos mais básicos (moradia, alimentação, educação), exploradas até a exaustão e tendo suas vidas destruídas por esse sistema vão concordar com isso? Não reconhecer que o capitalismo é a fonte da exploração humana e animal no nível que vemos hoje e pregar um ativismo vegano que, além de não denunciar, trabalha junto com esse sistema não é “aceitar a realidade”. É ignorar a raiz da opressão que buscamos destruir e ser insensível ao destino dos bilhões de seres- humanos e não humanos- sofrendo e morrendo sob esse sistema nesse exato momento.

“Se recusar a apoiar produtos veganos de grandes empresas (que testam em animais) é escolher não apoiar o veganismo.”

Tem gente no movimento confundindo “apoiar o veganismo” com “apoiar o capitalismo”.

Mais uma vez, olha o quanto o capitalismo doutrinou as mentes, ao ponto de ter gente acreditando que a única maneira de contribuir com o movimento vegano é através do consumo. Já vi ativistas veganas dizendo “quando você compra o produto vegano da grande empresa, você está dizendo ‘eu existo’”. É a lógica capitalista do “consumo, logo existo”. Ela é extremamente perigosa, pois acredita que só podemos existir através do consumo e que nosso valor na sociedade é proporcional ao nosso poder de compra. E sabemos bem as consequências cruéis disso: algumas vidas importam, muitas são descartáveis. E, como expliquei na resposta acima, acreditar que só o ativismo capitalista (incentivar a produção e consumo de produtos de grandes empresas)  é válido acaba apagando os esforços e ignorando as vitórias de todas as veganas que seguem outra linha de ativismo.

Porém preciso dizer que tenho consciência que meu boicote às gigantes como Unilever e Nestlé tem um impacto insignificante. Minha razão principal  pra seguir boicotando é de ordem ética (não quero apoiar financeiramente uma empresa que fere minha ética em tantos níveis).

Por isso espero que tenha ficado bem claro que o ponto desse texto não é dizer “compre ou não compre” produtos de grandes empresas que exploram animais. Reconheço que uma parte da população mora em desertos alimentares, só tem acesso a produtos industrializados e ultraprocessados e não tem a possibilidade de boicotar essas empresas. Meu coração está com essas pessoas e vou continuar lutando pra que elas tenham acesso a vegetais frescos, sem veneno e não vou apontar o dedo pra elas enquanto elas continuarem levando o ultraprocessado da grande empresa pra casa, seja por falta de opção ou informação. Ou simplesmente porque é mais conveniente naquela situação.

O ponto aqui é: me recuso a bater palmas e ser garota propaganda do agro-alimentar e suas empresas que exploram a Terra, os animais humanos e não-humanos. Me recuso a ver como positivo ter mais alimentos ultraprocessados no mercado, mesmo eles sendo à base de vegetais, e me recuso a incentivar o consumo de produtos que adoecem a população, em nome de um suposto avanço da causa.

“Ah, mas o pobre só tem acesso a isso, mesmo, então mais alimentos ultraprocessados veganos é positivo, sim, porque assim o pobre compra menos alimentos processados à base de animais.”

Precisamos reconhecer que industrializado vegano custa muito mais que similares não-veganos e perpetua a falsa ideia que comida vegana é cara e veganismo é elitista, o que acaba afastando muita gente do veganismo.

E o mantra “quanto mais produtos veganos disponíveis no mercado, melhor, porque assim o veganismo fica mais acessível” ignora o fato de que já tem muitos alimentos veganos no mercado. Frutas, verduras, hortaliças, cereais, leguminosas… Precisamos parar de associar comida vegana com sorvete Ben & Jerry’s, maionese Hellmann’s e hambúrguer Nestlé e lembrar que comida vegana é feijão com arroz, quiabo, açaí, batata doce e cuscuz com coco.

Alternativas, ou, um outro ativismo é possível

Já que não vejo a cooptação do veganismo pelo capitalismo como uma suposta vitória pros animais e me recuso a incentivar o consumo de produtos ultraprocessados, mesmo se forem vegetarianos estritos, o que proponho então pra popularizar o veganismo e fazer avançar a luta por libertação animal?

E se ao invés de incentivar o consumo de produtos ultraprocessados a gente investisse mais tempo e recursos em educação alimentar? Ao incentivar o consumo de comida de verdade as pessoas perceberão que veganismo não é o hambúrguer nem a salsicha “vegana” que custam uma fortuna e que ele já é uma possibilidade pra boa parte da população, só faltava a informação.

Curiosamente, quem mais vi aplaudir a opção vegana ultraprocessada da grande empresa, na verdade come vegetais orgânicos, faz seu leite de amêndoas em casa e compra seu panetone sem glúten de empresas veganas pequenas. Ainda não vi as veganas periféricas ou pessoas que moram em desertos alimentares pedindo mais produtos industrializados “veganos” de grandes empresas. Só escuto esse pessoal falando de soberania alimentar, do nutricídio da população pobre e negra e da falta de vegetais frescos em suas comunidades.

Pare e pense um pouco. Quando a galera vegana privilegiada defende o “orgânico pra mim, industrializado cheio de química pro pobre”, não é de se espantar que a maior parte da população, a classe trabalhadora, veja o veganismo como algo elitista e rejeite um movimento que parece não se importar com suas vidas. Se a ideia é “popularizar o veganismo”, esse tipo de ativismo liberal e focado no mercado vai contra o que propõe, pois aliena o povo ao invés de atraí-lo pro veganismo.

Tendo dito isso, gostaria de fazer uma sugestão. É muito mais importante construir um projeto vegano ético-político anticapitalista do que tentar explicar às veganas liberais que veganismo e capitalismo tem interesses conflitantes. Tem gente que é liberal e tem gente que é anticapitalista e obviamente nosso ativismo reflete nossa ideologia. Segue o barco.

Então, tendo em mente a construção desse projeto vegano ético-político anticapitalista, vamos pensar em estratégias. E se nossa militância fosse voltada pras classes excluídas, que não tem acesso às informações necessárias pra fazer escolhas alimentares saudáveis e compassivas? Que tal usar nossa energia fazendo trabalho de base, dialogando e informando o povo? Vamos nos juntar aos movimentos que lutam pra que todo mundo tenha acesso à comida, de verdade e sem veneno, e que apoiam as agricultoras que a produzem.

Como? São várias possibilidades e vou listar só algumas aqui.

Se junte à luta contra agrotóxicos

O Brasil é o mais utilizador de agrotóxicos do mundo e o governo Bolsonaro está liberando o registro de agrotóxicos que de tão perigosos são banidos na Europa. Resultado: o veneno na nossa comida está aumentando, assim como a contaminação do solo e da água e o risco de doenças e morte nas populações do campo. Precisamos ficar de olho nos nossos representantes políticos e acompanhar como eles estão se posicionando na luta contra o veneno na nossa mesa. Veja como os parlamentares se comportam nesse sentido aqui.

Apoie a luta por reforma agrária

O Brasil tem uma das maiores concentrações de terra do mundo e sem uma redistribuição justa, sem acesso à terra, as agricultoras não poderão plantar o que comemos. Embora, como cidadãs, não possamos fazer uma distribuição justa de terras, podemos votar em quem defende a reforma agrária e conscientizar as pessoas da importância dessa luta. Aumentando o apoio do povo, vai ficar mais difícil pros nossos governante passar sempre os interesses dos ruralistas na frente da justiça.

Apoie o MST

O Movimento dos Trabalhadores Rurais sem terra é o maior agente político de promoção da reforma agrária no Brasil. Os últimos posts que apareceram aqui no blog falam justamente sobre o movimento e o que ele tem a ver com o veganismo.

Apoie a agricultura familiar

Hoje 70% do que comemos no Brasil vem da agricultura familiar. São essas pessoas que nos alimentam, não o agro-negócio (que é voltado pra produção de comodities, principalmente pra exportação). Procure feiras de pequenas agricultoras ou da agricultura familiar, feiras agroecológicas da reforma agrária (onde os produtos de assentadas do MST são comercializados). Se comprar sua comida ali for uma possibilidade pra você, não perca essa oportunidade. Vamos apoiar quem produz alimento pra alimentar o povo, muitas vezes sem veneno. Leve a família, amigas, fale das feiras pra todas as pessoas que você conhecer.

Apoie a luta dos povos indígenas

Eles são os protetores das florestas e são vítimas de perseguição, opressão e limpeza étnica desde que os colonizadores europeus chegaram no continente até os dias de hoje.

Pra além disso, convido cada pessoa lendo esse texto a pensar em iniciativas que fazem sentido de acordo com a realidade e necessidades da sua comunidade, assim como as suas possibilidades. Dizer “go vegan” não é suficiente. É preciso entender o contexto político local, identificar os obstáculos que impedem as pessoas de terem uma alimentação vegetal e se juntarem à luta por emancipação animal e desenvolver maneiras de supera-los.

O agronegócio, maior força exploradora de animais, também é o inimigo da justiça no campo, das agriculturas sem terra e dos povos da floresta. Por isso a luta por abolição da exploração animal é irmã dessas lutas. Só quando nos unirmos às outras lutas de justiça social poderemos vencer um inimigo tão poderoso.

Ao invés de importar estratégias da Europa e dos EUA,  onde as condições econômicas e sociais são completamente diferentes das nossas, vamos descolonizar nosso ativismo, e nossas mentes, e imaginar estratégias que façam sentido no nosso contexto político, na nossa realidade.

Por isso, pensando no contexto brasileiro, lutar por soberania alimentar,  lutar pra que vegetais frescos e sem veneno apareçam diariamente na mesa de toda pessoa brasileira é o verdadeiro imperativo pra democratizar o veganismo no nosso país. E só quando a nossa luta se posicionar claramente como uma luta anti-opressão, toda e qualquer opressão, poderemos construir um novo modelo de sociedade com justiça social, animal e ambiental, onde a libertação animal será possível.

(Gostaria de agradecer as pessoas que me incentivaram a escrever esse artigo, principalmente Bárbara. Meu enorme agradecimento a Juliana, quem primeiro leu esse artigo e me deu dicas preciosas pra deixa-lo mais completo e a Tiago, que também leu de antemão e me fez ver alguns pontos que precisavam ser tratados, mas que eu não tinha enxergado ainda. Muito obrigada. )

PS Recomendo o artigo A conta não fecha no veganismo de mercado, de Vinicius Buenaventura, que complementa bem esse aqui.