Veganismo e feminismo

Em 2020 fui convidada pelo podcast Sapataria pra participar de um episódio sobre veganismo. Foi durante o mês da visibilidade lésbica e tive a honra de dividir o episódio com mais duas lésbicas veganas que admiro: Carla Candace e Luciene Santos. O post de hoje é a transcrição da minha fala, que tratou sobre feminismo e veganismo. São pautas centrais na minha militância e fazia tempos que eu pensava em abordar esses temas, expondo suas conexões, aqui. Mas recomendo muito que você não pare nessa leitura e escute o episódio inteiro (Especial Mês da Visibilidade: Veganismo), pois Carla e Luciene falaram coisas extremamente importantes, que não abordei aqui.

Desde o início do movimento feminista as mulheres já faziam essa relação entre a luta por emancipação feminina e o consumo de animais não humanos. As feministas europeias do final do século 19 já questionavam o consumo de carne porque, segundo elas, o preparo de animais exigia muito mais tempo de trabalho, enquanto cozinhar vegetais era mais rápido, fazendo com que a mulher passasse menos tempo na cozinha e tivesse mais tempo livre pra participar da vida política (lembrando que na época muitas delas abatiam com as próprias mãos e limpavam antes de cozinha-los). E os paralelos entre a dominação das mulheres e a dominação dos animais não humanos logo foram identificados. E é por aqui que eu gostaria de começar.

Pra entender o que veganismo e feminismo tem em comum acredito que é importante entender primeiro o que a opressão das mulheres tem a ver com a opressão de animais não-humanos, o que o sexismo tem em comum com o especismo. “Especismo”, pra quem não conhece o termo, é a discriminação e opressão baseada na espécie, assim como “racismo” é a discriminação baseada na raça, sexismo no sexo, etc. 

E o especismo e o sexismo têm uma base comum: a dominação do homem sobre o que é visto como vulnerável/mais fraco. No primeiro caso, sobre o animal não-humano e, no segundo caso, sobre a mulher. Como mulheres também podem ser especistas e se beneficiam do especismo, a coisa fica menos visível, mas vou tentar explicar aqui começando com uma história pessoal.

Quando eu tinha 12 anos um tio meu comprou uma casa com piscina. Foi a primeira vez (e até hoje única) que alguém da minha família teve uma piscina e o resultado foi que a família inteira invadia a casa do tio nos fins de semana. Durante as férias de verão vieram até familiares de outras cidades e o pobre do meu tio não teve sossego durante meses (até vender a casa). Mas o fato é que naquele verão, o verão dos meus 12 anos, eu passei muito tempo na piscina e um dos meus primos, um dos familiares que tinha vindo de longe pra aproveitar a piscina, sempre fazia um comentário específico quando me via de biquíni. Esse primo é uns 20 anos mais velho, então se eu tinha 12 anos ele tinha 32. Sempre que eu passava na frente dele de biquíni ele repetia, bem alto pra todo mundo ouvir, que eu estava “só o filé”. Meu corpo estava começando a mudar, meus peitos tinham começado a crescer, minha bunda também, e eu me lembro de ter ficado chocada com os comentários dele (tanto que hoje, 26 anos depois, eu ainda lembro perfeitamente do acontecido). O fato dele ter repetido, várias vezes, que eu estava “só o filé” ao mesmo tempo que preparava o churrasco, enquanto manipulava um filé de vaca, só aumentava o meu desconforto. 

Que mulher nunca se sentiu tratada “como um pedaço de carne” por um homem? Não é por acaso que a palavra escolhida pelo meu primo pra dizer que meu corpo estava mudando e que por isso eu estava pronta pra ser consumida, figurativamente, por um homem é a mesma usada pra falar de um pedaço de outra fêmea, a vaca, essa consumida no sentido literal. Não é por acaso que homens dizem “comi tal mulher” pra falar que fez sexo com ela. 

Então tem esse primeiro ponto em comum: a objetificação. O corpo da mulher é objetificado, assim como o corpo do animal não humano é objetificado.

Objetificação é o processo pelo qual a subjetividade e interesses de alguém são suprimidos e esse alguém, a vida desse alguém ou o corpo desse alguém, passa a existir apenas pro benefício de outro alguém. Mulheres são espancadas, estupradas e assassinadas por serem vistas como objetos pra satisfazer o prazer dos homens. Não como sujeitos conscientes com aspirações e desejos próprios. 

E o animal não humano também é objetificado seguindo essa lógica. Não são considerados como sujeitos que existem por razões próprias, mas como objetos que estão ali pra servir os interesses dos humanos, “dar” leite, ovos. O homem come a mulher pra satisfazer seu prazer sexual e come a vaca, literalmente, pra satisfazer seu prazer gustativo. 

Se o sexismo diz que o homem é superior à mulher, o especismo diz que o humano é superior ao não humano e essa suposta superioridade justifica discriminação, opressão e violência em ambos os casos. 

Quando você objetifica corpos eles se tornam coisas que servem pra um propósito específico.

O patriarcado diz que o homem é superior à mulher, então elas existem pros homens. O especismo diz que o humano é superior ao não humano, então animais não humanos existem pros humanos. Objetificar seres é a primeira etapa pra naturalizar e justificar a violência contra seus corpos.

Vou citar aqui uma feminista negra e vegana estadunidense, chamada Afh Ko: 

“O que é ainda mais assustador é que a vulnerabilidade percebida dos animais é usada como justificativa implícita para os abusos. Em outras palavras, porque os animais não podem lutar e resistir, nos dar ou negar consentimento, ou se organizar em oposição, nós, como seres humanos, sentimos que podemos fazer o que quisermos com eles, geralmente, sob o pretexto de “cuidar” dos seus interesses.”

Então já dá pra ver o quanto a lógica por trás da opressão das mulheres e dos animais não humanos é a mesma. (Eu vou repetir sempre “animais não humanos” porque é extremamente comum pensar que humanos não são animais, o que já é o primeiro passo pra que a ideologia de dominação do não humano se instale. Parece que somos algo diferente dos animais, que tem os animais, a natureza, e os humanos. Somos animais e somos natureza, e acho importante repetir isso sempre).

O segundo ponto em comum entre a opressão sofrida por mulheres e por animais não humanos é a violência sexuada. No complexo industrial especista, a violência imposta aos animais não humanos é diferente de acordo com o sexo deles. Fêmeas são ainda mais exploradas e torturadas do que machos, como vemos na produção de ovos e leite: a capacidade de reprodução dita o controle dos corpos dos animais. Vacas e porcas são continuamente estupradas, no processo de inseminação artificial, e quando seus corpos já não aguentam mais se reproduzir, depois de uma vida de tortura, elas são mortas e seus corpos terminam de ser consumidos. 

Talvez isso choque algumas feministas, mas consumir corpos de fêmeas de outras espécies, que foram violentadas e estupradas, deveria ser um problema pra nós, que lutamos contra a cultura do estupro. 

E tem mais um ponto em comum entre o sexismo e o especismo, talvez o mais difícil de observar sozinha, mas ao mesmo tempo o mais explícito de todos. 

Violência contra animais não humanos acaba gerando violência direta contra humanos, principalmente os mais vulneráveis: mulheres e crianças. Tem uma correlação entre essas duas violências. Tanto que o abuso de animais é um dos indicadores que o FBI usa pra avaliar um futuro comportamento violento. De acordo com a American Humane Association em 88% das casas onde tinha abuso de crianças, também tinha abuso de animais não humanos.

Em 2009 foi publicado um estudo, feito por 3 pesquisadoras nos EUA, sobre a correlação entre o trabalho nos abatedouros e o aumento de crimes. O nome do artigo, em Inglês, pra quem quiser procurar depois, é “Slaughtehouses and increased crime rates”. Foram vários anos de pesquisa em mais de 400 municípios e mesmo levando em conta as variáveis geralmente associadas ao aumento de criminalidade (como desemprego, pobreza, comunidades desorganizadas), quando um abatedouro se instala em uma cidade a taxa de crimes aumenta, mesmo de crimes graves, como assassinato. E, o que não é uma surpresa, a violência doméstica, estupros e agressões sexuais contra mulheres aumentam de maneira vertiginosa sempre que os homens da comunidade vão trabalhar em um abatedouro. Se você está pensando que talvez isso tenha a ver com a alienação produzida pelo trabalho industrial, saiba que o estudo investigou isso e nenhuma outra indústria produz o mesmo efeito de aumento de violência visto no trabalho em abatedouros.

A conclusão do estudo é exatamente o que tentei explicar aqui. Citando o estudo: “A maioria desses crimes é cometida contra aqueles e aquelas com menos poder e nós interpretamos isso como a evidência de que o trabalho feito em abatedouros pode se transformar em violência contra grupos com menos poder, como mulheres e crianças.” 

O sistema de dominação que produz o sexismo funciona de acordo com a mesma lógica que o especismo. Animais são objetificados, deixam de ser sujeitos que existem por razões próprias e passam a ser objetos que existem pro nosso prazer. E as fêmeas não humanas são torturadas e estupradas porque queremos os frutos do seu sistema reprodutor (o leite e os ovos) e quando elas não nos servem mais, são abatidas e seus corpos são consumidos. E se isso não é suficiente pra gente, que é feminista, questionar o especismo, a correlação entre violência contra animais não humanos e violência contra humanos, principalmente mulheres e crianças, deveria ser o argumento final pra gente decidir levar nossa solidariedade política aos animais não humanos, parando de dar apoio material e financeiro pro sistema de dominação e exploração conhecido como especismo. Em outras palavras, nos tornando veganas, se isso estiver dentro das nossas possibilidades materiais. 

Palavras como “cachorra”, “cadela”, “piranha”, “galinha” e “vaca” são são frequentemente usadas pra xingar mulheres. Mulheres são comparadas com animais, são animalizadas. Pro patriarcado, que exerce sua dominação sobre os mais vulneráveis, isso justifica a nossa opressão. Enquanto o especismo existir, o sexismo vai existir. Em outras palavras, enquanto a violência e a discriminação baseada na espécie for normalizada, a discriminação e violência contra mulheres vai continuar existindo. Por isso acredito que a luta feminista deve ser antiespecista e inversamente. 

Um dia de militância

Em março fiz um post mostrando com a militância pode adquirir formas diversas, ao alcance de todo mundo, e pra ficar bem didático relatei as tarefas que fiz durante um fim de semana. Dias atrás repeti o exercício, mas compartilhando minhas tarefas, em um único dia, no grupo Papacapim do Telegram (é um grupo exclusivo pras pessoas que apoiam o meu trabalho lá no Apoia-se). 

Como fazer nascer o desejo de militar nas pessoas é uma das minhas missões, e como também gosto de mostrar o que acontece desse lado da tela quando não estou cozinhando e escrevendo aqui, vim compartilhar esse dia de militância com vocês.

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Não existe comida “vegana”

Essa reflexão surgiu do lado de cá da tela há um certo tempo. E leitoras atentivas desse blog já devem ter percebido que mencionei isso algumas vezes nos posts dos últimos meses. Acho que foi no ano passado que decidi parar de usar o termo “comida vegana” pra descrever comida de origem vegetal. Mas foi o episódio do chocolate oferecido por uma amiga francesa que fez com que eu compreendesse que chegou a hora de escrever sobre o assunto.

Aconteceu meses atrás. A amiga, que não é vegana, me deu “um chocolate vegano” de presente. Era um chocolate com coco (leite e açúcar de coco, além de coco seco), mas tinha um selo “Vegano” na embalagem. “Provei com a minha irmã, mas não gostamos de chocolate vegano”, ela disse. Respondi: “Você não gostou de chocolate com coco. Chocolate ‘vegano’ é qualquer chocolate sem leite de mamífera” e ela insistiu: “É vegano, sim! Tá escrito na embalagem.” O selo fez com que minha amiga visse aquilo como “chocolate vegano”, não como o chocolate com coco que ele era, e quando percebeu que não gostava, ela não declarou: “Não gosto de chocolate com coco”, mas sim: “Não gosto de chocolate vegano”. 

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Biodiversidade e produtos vegetais ultraprocessados


Essa semana a ocupação que também serve de base pro nosso coletivo anarco recebeu caixas e mais caixas de hambúrguer vegetal que iriam pro descarte. Falei sobre comida de descarte, e como isso alimenta não só as camaradas do coletivo, mas também as pessoas ao nosso redor, nesse post. Além da comida que pegamos regularmente (frutas e verduras da feira, todo tipo de alimento transformado que pegamos do descarte de supermercados) duas vezes por semana, de vez em quando uma montanha de alguma coisa que acabaria no lixo chega até nós. Umas semanas atrás foram 2 toneladas (sim, literalmente) de cogumelo orgânico congelado. Semana passada foram centenas de quilos de hambúrgueres vegetais, também congelados. Eram hambúrgueres feitos de proteína de soja com beterraba, temperos e alguns aditivos. Provei pela primeira vez ontem e o sabor é tão ruim que agora não sei o que fazer com o enorme saco de hambúrguer no congelador. 


Enquanto eu tentava tragar o intragável (pra que o jantar não acabasse no lixo), me vi pensando, mais uma vez, na obsessão geral com hambúrgueres vegetais e no mantra do veganismo liberal (“Quanto mais produtos veganos industrializados, melhor pros animais.”). Já escrevi longamente sobre como essa visão liberal do veganismo vai contra os objetivos do movimento antiespecista nesse post e nesse post . Mas hoje eu queria chamar a sua atenção pra algo que é frequentemente ignorado nessa discussão: a questão da biodiversidade.

Moqueca de caju, arroz da terra, feijão verde, farofa de couve e bolinho de macaxeira
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Comida como ferramenta de ‘conversão’

Durante os primeiros anos de veganismo, acreditei que oferecer pratos veganos deliciosos pras pessoas ao meu redor seria a porta de entrada delas pra causa animal. Talvez eu tenha sentido essa responsabilidade ainda mais forte porque cozinho profissionalmente. Então não perdia nenhuma oportunidade (aniversários, reuniões de família) de passar horas (às vezes dias) preparando menus, comprando ingredientes e cozinhando pra impressionar as não-veganas. Nos jantares onde cada convidada leva um prato, eu levava 4 e era sempre a mais cansada, a que trabalhava mais, a que gastava mais com ingredientes… As pessoas comiam minha comida, sim, e adoravam. Porém minhas preparações vegetais dividiam espaço nos seus pratos com animais e seus derivados. Nunca ninguém deixou de comer o animal assado, ou a sobremesa entupida de leite condensado, porque tinha pratos veganos deliciosos na mesa.

Quiche de cogumelo e espinafre, usando esse método
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Querida pessoa vegetariana que gostaria de se tornar vegana um dia

Você, amiga vegetariana, que diz concordar com os princípios do veganismo e que tem condições materiais de escolher o que come, mas ainda “come algo com queijo quando não encontra opções veganas”. Seja na rua, no restaurante, nas festas de família, nas viagens, na casa das amigas… Muitas vezes até mesmo na própria casa. Chega mais que eu gostaria de ter uma conversa com você. 

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Jardins da Comuna – Ep 6

Lembram da luta pra salvar os jardins operários de Aubervilliers, a cidade na periferia norte de Paris onde moro? Um oficial de justiça esteve na ocupação semana passada e deu um ultimato: os lotes devem ser liberados até o dia 15 de julho. Estou acompanhando daqui, com o coração na mão, as ações de resistência das camaradas que ficaram defendendo esse território, incluindo Anne, minha esposa.

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Sobre o papel da exploração animal no colonialismo

O historiador estadunidense Howard Zinn, que era próximo do anarquismo, disse “O caçador conta a história. Teríamos uma versão completamente diferente se ela fosse contada pelo coelho.” Zinn, que não era antiespecista, usou essa analogia pra falar que a História com H maiúsculo é contada pelos dominantes e não pelas pessoas dominadas, mas eu quero usar a frase dele no sentido literal, mesmo. E se a História fosse contada pelos animais não-humanos?

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“Veganismo é um ato de solidariedade com animais não-humanos”

Muitas luas atrás eu comecei uma série de entrevistas com pessoas veganas. Recentemente resolvi dar continuidade à série, mas com versões mais curtas, publicadas no meu perfil no Instagram. Também decidi que iria entrevistar (por enquanto) apenas pessoas não-brasileiras, pra mostrar as cores do movimento vegano no exterior. O veganismo liberal das ONGs e celebridades de Instagram acaba dando uma ideia falsa do veganismo e eu queria mostrar como o movimento é diverso e construído por pessoas que entendem o veganismo como uma extensão lógica da luta anti-opressão. Existe um esforço em propagar o mito de que fora do Brasil o movimento vegano é homogêneo e todo liberal. Nos países onde morei (França, Palestina, Inglaterra, Alemanha, Líbano e Bélgica) pude constatar que isso não podia estar mais longe da realidade. Então pensei em trazer as vozes de algumas militantes antiespecistas do exterior pra que vocês vejam por si mesmas.

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E lutaremos em seu nome

Em 1977 o cineasta Polanski confessou, num tribunal dos EUA, ter estuprado uma menina de 13 anos. Condenado, ele fugiu do país antes de ser preso e nunca mais voltou. Desde então outras 11 mulheres o acusaram de estupro. Semana passada aconteceu a cerimônia dos Césars, a maior premiação do cinema francês. Polanski estava concorrendo a 12 prêmios, incluindo melhor diretor e melhor filme. 12 mulheres estupradas e 12 nomeações pro homem que as estuprou. “É preciso separar o homem do artista”, vomitavam os perpetradores da cultura do estupro. “Se seu padeiro estuprasse 12 mulheres, incluindo crianças, você separaria o homem do padeiro?”, “Quando uma mulher é estuprada não importa a profissão do estuprador nem se ele a pratica com talento” respondiam as mulheres. Os guardiães do patriarcado tinham sido particularmente cruéis dessa vez. Concorrendo ao prêmio de melhor atriz, pelo filme “Retrato da jovem em chamas” (que concorria ao prêmio de melhor filme, junto com o filme de Polanski), estava Adèle Haenel, que no final do ano passado levou ao público o fato de ter sido agredida sexualmente por um cineasta dos 13 aos 15 anos. Ela, que declarou: “Premiar Polanski é cuspir na cara das vítimas”, foi à cerimônia dos Césars junto com a equipe do filme “Retrato…”, feito por uma cineasta, com uma equipe quase exclusiva de mulheres, contando a história de duas mulheres que se amam. Esse filme me fez soluçar no cinema e todas nós torcíamos pra que ele e sua diretora levassem o prêmio. Mas o cinema francês, cúmplice, fiel aos seus amigos homens, mesmo os que cometem crimes de pedofilia, não deu o prêmio a “Retrato…”, nem à sua atriz principal. Era preciso punir Adèle por ter ousado sair do silêncio. Por ter levantado a voz e criticado esse clube do Bolinha sexista que é a indústria do cinema. Mas a punição não foi suficiente: era preciso “cuspir na cara das vítimas”. E assim Polanski ganhou o prêmio de melhor diretor. Nesse momento Adèle e a equipe de “Retrato…” se levantaram e saíram da sala. Embaixo do vestido de gala, a indignação. “Que vergonha! Palmas pra pedofilia!” ela repetia enquanto juntava o gesto à palavra.

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Por um veganismo que promove autonomia alimentar

Ano passado a chef Paola Carosella causou um grande alvoroço dentro da comunidade vegana por causa da reação dela (via Twitter) depois de ter provado um hambúrguer vegetal que imita a textura e o sabor de carne animal. Acho oportuno abrir espaço pra discutir as declarações dela, pois acredito que podemos extrair algumas lições importantes do ocorrido.

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Caros camaradas,

Temos, geralmente, tendência a exagerar nossa força e nossa fraqueza: assim, durante tempos revolucionários, parece-nos que a menor de nossas ações deve ter conseqüências incalculáveis ​​e, por outro lado, em certos momentos de marasmo, toda a nossa vida, embora inteiramente dedicada ao trabalho, parece-nos infrutífera e inútil, e acreditamos que somos levados pelo vento da reação.

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O conto do ovo que não mata a galinha

Frequentemente perguntam à pessoas veganas o que achamos de ovos de galinhas criadas no quintal. Até prometi à uma leitora escrever sobre isso aqui no blog e, anos depois, ainda estou devendo esse post. A conversa de hoje não é exatamente sobre isso, mas se aproxima. Semanas atrás vi esse letreiro (foto acima) numa estação de metrô em Paris. Ele me deu a ideia de vir aqui trazer alguns esclarecimentos quanto à ligação entre consumo de ovos, exploração e crueldade animal, mas também tocar em um ponto que está causando divergências dentro do movimento vegano.

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A libertação animal não será comprada

Precisamos falar sobre a cooptação do veganismo pelo capitalismo, ou, sobre o debate que parece ocupar o movimento vegano nesse momento: boicotar empresas que testam em animais ou boicotar somente produtos com ingredientes/testados em animais e apoiar qualquer produto vegetal, independente de quem os produziu?

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Por que o movimento vegano deve apoiar o MST – parte III

Preciso começa dizendo que recebi várias mensagens de pessoas que leram os posts anteriores e , ao começarem a entender a atuação do MST, passaram a ver o Movimento com outros olhos. Nem sei dizer o quanto isso conta pra mim. São essas mensagens que me fazem acreditar que é possível quebrar preconceitos e que o meu trabalho, apesar de no momento ser uma militância de sofá, é capaz de produzir uma mudança positiva na sociedade. Continuemos lutando de punho erguido.

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Por que o movimento vegano deve apoiar o MST – parte II

Depois de entender a formação do espaço agrário brasileiro e os problemas criados pelo latifúndio, nesse segundo post da série a conversa é sobre reforma agrária e a atuação do MST. Pela quantidade de comentários preconceituosos que escuto e leio por aí, a maioria das pessoas sabe pouco sobre reforma agrária e menos ainda sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST. Quem são? Onde vivem? O que comem? Querem invadir sua casa de praia?

Mas pra entender a luta do MST é preciso saber o que significa Reforma Agrária e é por aqui que vamos começar.

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Por que o movimento vegano deve apoiar o MST – parte I

Faz 11 anos que me comprometi com a luta por libertação animal e foi mais ou menos na mesma época que a militância por direitos humanos entrou na minha vida. Esse compromisso se manifesta de várias maneiras, tanto na esfera digital quanto no mundo real.

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O lugar de vocês é aqui conosco

Pessoas da minha família que votam em Bolsonaro,

Em que momento vocês pararam de se ver como a classe trabalhadora, sempre esmagada pelos poderosos, e passaram a identificar seus opressores como salvadores da pátria? Quando vocês começaram a acreditar que quem votou a favor da PEC que congelou os investimentos na educação, saúde e segurança por vinte anos seria a mesma pessoa que traria mais educação, saúde e segurança pro povo? Como vocês foram confiar em alguém que se diz a favor da tortura e que escolheu como seu maior herói um dos piores torturadores durante a ditadura? Como foram acreditar que alguém que admitiu publicamente ter recebido propina e que está sendo acusado de aceitar milhões de reais de empresas pra espalhar notícias falsas pelo WhatsApp seria a resposta pra acabar com a corrupção?

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Você pode substituir direitos humanos por veganismo, por exemplo

Alguns meses atrás Tel Aviv foi palco do que foi chamada de “a maior marcha de direitos animais da História“. Acredita-se que Israel tenha a maior população vegana do mundo e o país é frequentemente descrito como “a capital vegana do mundo” e “a terra prometida dos veganos” . Minhas amigas israelenses me disseram que o movimento vegano começou, vários anos atrás, como parte integrante da luta por justiça e contra todos os tipos de opressão, incluindo a ocupação e a colonização israelense da Palestina. Muitas veganas israelenses ainda militam contra a ocupação, mas essa conexão não está presente no discurso vegano dominante, onde conciliar veganismo e sionismo não parece ser um problema. Então eu não fiquei surpresa quando um amigo palestino me contou que um amigo dele, um palestino de 48, se juntou à marcha, mas decidiu ir embora pouco depois por causa dos comentários racistas que os ativistas israelenses estavam fazendo. É importante mencionar que um grande número de palestinos de 48 (palestinos que não foram expulsos de suas terras pelas forças sionistas durante a criação de Israel em 1948, contrariamente ao que aconteceu com dois terços da população da Palestina histórica da época, e que vivem no que hoje é Israel) são veganos ou vegetarianos. Na verdade, de acordo com um artigo de 2015 publicado no jornal israelense Haaretz, enquanto 3% da população judia israelense é vegana e 7% é vegetariana, a comunidade palestina de 48 conta com 6% de vegana(o)s e 11% de vegetariana(o)s.

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Defendendo a Palestina: libertando o povo, a terra e os animais

Eu conheci Ahmad Safi, um dos fundadores da Palestinian Animal League (PAL – Liga Animal Palestina), em 2015. Sou uma grande admiradora do trabalho que a PAL, a primeira Organização de Proteção aos Animais atuando dentro dos Territórios Palestinos Ocupados, está fazendo e tinha vontade de entrevistar Ahmad desde então. No final de abril deste ano, finalmente marcamos uma data e nos encontramos na hora do almoço no Sudfeh, o primeiro restaurante vegano/vegetariano da Palestina, localizada na Universidade Al Quds, em Abu Dis.

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