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O historiador estadunidense Howard Zinn, que era próximo do anarquismo, disse “O caçador conta a história. Teríamos uma versão completamente diferente se ela fosse contada pelo coelho.” Zinn, que não era antiespecista, usou essa analogia pra falar que a História com H maiúsculo é contada pelos dominantes e não pelas pessoas dominadas, mas eu quero usar a frase dele no sentido literal, mesmo. E se a História fosse contada pelos animais não-humanos?

Teríamos uma versão completamente diferente dos fatos, como ele previu. E, o que mais me interessa nesse exercício de imaginação, conseguiríamos enxergar animais não-humanos, que sempre fizeram parte da classe dos dominados, como companheiros que sempre foram explorados do nosso lado.

A História contada pelos animais não-humanos tem dois momentos cruciais: a domesticação e a chegada do capitalismo. A domesticação foi o processo pelo qual certos animais, que antes viviam livres, foram privados de liberdade pelo ser humano. Isso aconteceu pra satisfazer interesses pessoais dos humanos, que queriam seu leite, lã, ovos e corpos. Como era de se esperar, a versão do caçador afirma que esses interesses são mútuos: humanos oferecem comida e abrigo aos animais não-humanos que, em sinal de gratidão, colocam sua força de trabalho e corpos a serviço do humano. No final dessa “troca”, o animal “oferece” a própria vida (e a de seus filhotes) pro humano que o “criou”, e será consumido diretamente por ele ou será vendido pra outros humanos, gerando lucro pro seu “criador”.

Uma palavrinha sobre animais domésticos criados pra abate e suas origens. Vacas são auroques domesticados (o auroque, espécie bovina ancestral da vaca, foi extinto no século 17), enquanto porcos são javalis domesticados. Galinhas vieram provavelmente de um cruzamento de duas espécies de aves (o bengal e o galo-banquiva), enquanto cabras descendem de uma antepassada selvagem e ovelhas descendem do muflão. Se é verdade que humanos sempre se alimentaram de outros animais, a domesticação é o momento em que essa relação foi profundamente alterada. Ao invés de caçar animais selvagens, atividade trabalhosa, que podia custar a vida do caçador e não tinha garantia de sucesso (o caçador podia voltar pra casa de mãos vazias), domesticar animais significou passar a ter acesso ao corpo de outros animais em permanência e sem riscos (o processo de domesticação selecionava justamente os animais mais “dóceis”). Se antes a presença de animais no jantar era uma questão de sorte (do caçador), a domesticação colocou o domínio de outros animais nas mãos de humanos, fazendo com que a presença do animal no prato passasse a ser uma questão de vontade (do humano).

O segundo momento crucial na História contada por animais não-humanos é o capitalismo. Se a dominação animal começou com a domesticação, o capitalismo instalou um sistema que permitiu que a exploração animal atingisse os níveis gigantescos que vemos hoje. Não é um acaso se esses momentos foram cruciais também na história de dominação de humanos. Como escrevi acima, a exploração animal e humana sempre existiram lado a lado.

E entre a domesticação (privação de liberdade) e a chegada do capitalismo (animal-mercadoria), temos outro episódio histórico de extrema importância, que é o foco desse texto: o colonialismo.

Como animais “de abate” chegaram no Brasil

Você achava que vacas, porcos e galinhas sempre existiram no território que chamamos de Brasil? Longe disso! Esses animais foram levados pro continente pelos colonizadores europeus em algum momento entre 1534 e1549 (de acordo com a fonte). Tudo indica que as primeiras vacas, porcos e galinhas vieram de Cabo Verde, território colonizado por Portugal, pra onde esses animais já tinham sido levados pelos colonizadores (Europa-Cabo Verde-Brasil).

Além de servir de alimento pros colonizadores, eles eram indispensáveis pro funcionamento dos engenhos: eram bestas de carga e a força motriz que girava os moinhos, além da carne e do couro que abasteciam os colonos.

No livro “Nordeste”, Gilberto Freyre (outro que não era antiespecista) descreve o papel fundamental da exploração animal na atividade colonial:

“O aliado fiel do escravo africano no trabalho agrícola, na rotina da lavoura de cana, na própria indústria do açúcar, foi o boi; e esses dois – o negro e o boi – é que formaram o alicerce vivo da civilização do açúcar.”

O que ele chamou de “aliado fiel” eu chamaria de “companheiro de dor e exploração”. Pessoas africanas escravizadas eram animalizadas, no processo de desumanização que justificava sua dominação aos olhos dos colonos brancos, e isso só era possível porque tinha essa classe inferior que podia ser explorada sem nenhuma consideração moral: os animais. Essa prática de “rebaixamento” de certos grupos de humanos à classe dos animais pra justificar sua dominação e exploração econômica é praticada, de maneira mais ou menos explícita, até hoje.

Mas o papel da exploração animal no Brasil-colônia não se resume aos engenhos. O “gado” funcionou principalmente como meio de ocupação e aumento do território.

Lembra das Sesmarias, os enormes pedaços de terra distribuídos pela coroa portuguesa? Se não fossem ocupadas, elas eram transferidas a outro colono. Foi então que começou essa história de usar vacas pra ocupar terras, o que ainda é feito com bastante frequência. Lembro de uma conversa com um assentado da reforma agrária, uns anos atrás, onde ele me disse “nosso maior inimigo é a pata do boi”. Soltar um punhado de bois em latifúndios improdutivos ainda é uma arma usada por latifundiários pra impedir que suas terras, que não cumprem a função social, sejam distribuídas pra agricultoras e agricultores que precisam dela pra sobreviver. Se a época da colônia acabou, certos hábitos coloniais seguem vivos.

E era assim, “passando a boiada”, que o território ia sendo colonizado. Depois do litoral, onde estavam as plantações de cana-de-açúcar e engenhos, vacas foram levadas pro interior das terras. Foi assim que o Sertão foi colonizado, logo depois do litoral. Colonização e pecuária sempre estiveram intimamente ligadas.

“Como teria se dado a ocupação de áreas tão extensas, distantes do litoral, incultas e longínquas, de condições ambientais tão adversas, sem a presença do boi? “O sertão foi aberto com o som das boiadas e berrantes, troncos caindo, solo amassado, arbustos queimados, chocalhos soando, chifres estalando, animais mugindo e homens cantando.” (Morais, 2009:27).”

Esse trecho foi retirado do artigo “Os animais que aqui desembarcaram” e pelo título já deu pra perceber a mudança de narrador novamente. É a velha versão da história contada pelo caçador (o artigo foi publicado no site Animal Business, então a escolha do ponto de vista na narração não deve surpreender ninguém). Mas quis inclui-lo nesse texto pra mostrar, novamente, que quando a pessoa narrando o fato não é antiespecista, a exploração animal pode ser descrita nos mínimos detalhes e mesmo assim não ser notada. O especismo é o sistema de dominação e discriminação mais normalizado de todos, por isso se tornou invisível.

No processo de colonização, o animal não-humano tinha características extremamente vantajosas. Estamos falando de uma “mercadoria” que se auto-transporta, pode percorrer grandes distâncias, carregando outras mercadorias, inclusive, além de ter valor em si mesmo (abastece o mercado de consumidores de carne e couro).

A história da colonização, se contada pelas pessoas dominadas (humanas e não-humanas), é uma história de violência e destruição. Terras indígenas espoliadas, gado ocupando essas terras, florestas destruídas, indígenas sendo obrigadas a buscar refúgio nas terras que ainda não tinham sido invadidas, enquanto seus territórios continuavam sendo reduzidos junto com a possibilidade de sobreviver da floresta. Os territórios iam sendo invadidos e alargados pela pata do boi, deixando um rastro de morte (de povos indígenas, povos escravizados e animais não-humanos ) e destruição ambiental. Li artigos que diziam que alguns indígenas, privados de terra, floresta e de seu modo de vida ancestral, se viam obrigados a trabalhar na pecuária. Qualquer semelhança com pessoas de comunidades indígenas em zonas de forte desmatamento trabalhando em abatedouros hoje não é mera coincidência.

E a agricultura nisso tudo? Certo, ela sempre coexistiu com a pecuária, mas no Sertão os pequenos roçados, cultivados principalmente por pessoas pobres, não tinham valor comercial e serviam pra alimentar a família. O prestígio, e dinheiro, vinham da criação de gado e não é por acaso se até hoje carne animal e produtos produzidos por seus corpos carregam mais valor, aos olhos da população, do que vegetais. (Lembrando que a monocultura -da cana primeiro, depois do café- era o tipo de agricultura praticada pela classe dominante.)

“A expansão da pecuária não trouxe mudanças somente espaciais aos domínios colonizados. Ao mesmo tempo em que alargava o território, transformava a sociedade luso-brasílica, especialmente aquela que circundava a grande unidade produtora na qual estava assentada toda a estrutura econômica e social do país, baseada na grande propriedade, na monocultura e no trabalho escravo (Prado Junior, 1994: 123).”

Releiam esse trecho (tirado do artigo “Entre bois e cabras: uma visão histórica sobre mentalidades e valores nos sertões”, de Oswaldo Gonçalves Júnior) com atenção. Mais uma vez vemos a conexão entre dominação animal e injustiças sociais descrita com grande nitidez por alguém que não faz parte do movimento antiespecista. Lendo constatações como essa me pergunto até quando a dominação dos animais vai ser ignorada pela militância anticapitalista, como se ela não tivesse absolutamente nada a ver com as injustiças sociais que combatemos.

Pecuária e expansão colonial hoje

Estamos em 2020 e a colonização segue firme e forte, enquanto a exploração animal continua sendo uma de suas ferramenta mais poderosas.

Só no primeiro semestre desse ano o desmatamento na Amazônia aumentou 25% em comparação a 2019 (que já tinha sido um ano de desmatamento recorde). E não é segredo pra ninguém que o desmatamento está intimamente ligado à pecuária. O ciclo de destruição continua o mesmo: invasão de territórios indígenas, desmatamento, genocídio dos povos da floresta… A única novidade aqui é a adição da soja. Defensoras da floresta repetem sempre: primeiro cortam as árvores, atrás da madeira vem o gado, atrás do gado vem a soja. Lembrando que a soja é utilizada, em sua maior parte, pra alimentar animais que serão comidos por humanos (quase 80% da soja produzida mundialmente vai pra alimentação de animais “de corte”, segundo a WWF). Enquanto isso as gigantes da carne montam esquemas complexos, conhecidos como “lavagem de gado”, passando vacas de terras ocupadas ilegalmente pra fazendas legalizadas antes de enviá-las ao abatedouro. Seus corpos serão despedaçados e chegarão no mercado com a garantia de que não vieram de floresta desmatada. A Amazônia está virando pasto e bois continuam sendo usados como ferramenta de expansão colonial.

Um pequeno salto no tempo pra entender que a colonização da Amazônia é um projeto político. Nos anos 1970, em plena ditadura militar, o INCRA foi criado. INCRA significa “Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária”. Não vou descrever aqui todas as atividades de colonização que se seguiram, queria focar num episódio que aconteceu à partir dos anos 90. Foi nessa década que começaram a surgir assentamentos da reforma agrária na Amazonia. Em 2008 67% dos lotes da reforma agrária estavam na Amazônia legal. Essa foi a maneira encontrada pelo Estado pra, por um lado, ceder à pressão por reforma agrária vinda dos movimentos sociais (especialmente o MST), e por outro lado não incomodar os latifundiários. Desapropriar latifúndios improdutivos, que só servem pra especulação imobiliária, e reduzir as desigualdades no campo? Que nada! Vamos usar a Amazônia, seguir colonizando essa parte do território e deixar a concentração fundiária como está. E, pra completar o estrago, pessoas de outros estados foram assentadas ali, pessoas que não tinham a prática do agroextrativismo, o que acabou causando mais danos à floresta. E quando vemos todas as políticas de incentivo à criação de gado (crédito rural Pronaf-A – que é uma linha de crédito pra assentadas- pra comprar gado, cerca e semente capim), entendemos que isso tudo é parte de um plano muito maior e tão velho quanto a invasão do território conhecido como Brasil.

Atenção! Assentados e assentadas da reforma agrária não são responsáveis pelo desmatamento na Amazônia! Apesar de todos os problemas que descrevi acima, o impacto negativo que os assentamentos da reforma agrária podem ter ali é bem pequeno comparado ao que ruralistas fazem na região. Não confunda o inimigo!

E a Europa segue colonizadora…

A União Europeia é a segunda maior compradora de soja brasileira (13 milhões de toneladas/ano), atrás apenas da China. 87% dessa soja vira alimento pra animais de abate (50% pra aves, o resto pra porcos, vacas e peixes. Sim, o salmão aqui é alimentado com soja transgênica brasileira). A UE também é a segunda maior compradora de animais (carne) do Brasil. Até agora o desmatamento da Amazônia e do Serrado não foram vistos como problemas na hora de importar os produtos que causam destruição ambiental, ameaçam a existência de indígenas e outros povos tradicionais.

Na França, onde moro atualmente, mais de 60% da soja vem do Brasil. O que é uma ironia amarga pra quem é vegana aqui, já que escutamos com frequência que “Veganas só comem soja!” ou “Veganas comem quinoa que vem da América do Sul! Minha alimentação é local – só como frango e queijo fabricados na França- e isso é muito mais ecológico do que ser vegana.” Pois é. Quando como algum derivado da soja (tofu, tempeh ou iogurte), o que faço uma ou duas vezes por semana, é sempre feito com soja francesa e orgânica. E nas duas vezes que comi quinoa desde que voltei pra cá, ela também tinha sido cultivada na França. A lentilha, feijões, aveia, trigo, sarraceno e vegetais frescos que entram na minha casa são franceses. Já o “frango local” e o “queijo local” do amigo que se acha muito mais ecológico do que a vegana foram alimentados com soja brasileira transgênica (tanto as galinhas quando as vacas leiteiras, exploradas na produção de laticínios).

Por um veganismo decolonial

É frequente, dentro do movimento vegano anticapitalista, falar de veganismo decolonial como um convite a refletir sobre as raízes da nossa alimentação e decolonizar o prato. Agora que você já sabe que vacas, porcos e galinhas foram levadas pelos colonizadores pro território que viria a ser chamado de Brasil, isso provavelmente te fez repensar o que chamamos de “comida brasileira”. Será que pratos com creme de leite e queijo, sobremesas à base de leite condensado e até o sacrossanto churrasco dominical são representativos do nosso território? A ideia não é se alimentar como os povos indígenas comiam há 500 anos, mas sim refletir sobre a que ponto a colonização europeia chegou até na nossa mesa e colonizou nossas papilas. Mas isso é um assunto pra outro dia, pois me dispus aqui a falar sobre o aspecto territorial da colonização e sua ligação direta com a exploração animal.

Dizer que a exploração animal sempre existiu ao lado da exploração humana se torna uma evidência quando fazemos uma leitura da História que considera também os interesses dos animais não-humanos. Quando escutamos a versão da História contada pelo coelho, não pelo caçador.

Então gostaria de convidar todas as pessoas me lendo, mas principalmente as que fazem parte de um grupo historicamente oprimido (mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBT, colonizadas, proletárias), a rever a posição do animal não-humano na nossa cosmovisão. O que me leva ao último ponto a ser tratado nesse texto.

A domesticação de outros animais trouxe um rebaixamento na posição que eles ocupavam no mundo. Antes animais não-humanos eram seres que coabitavam a Terra conosco, com quem partilhávamos a terra com t minúsculo, a água, o ar… Sim, eles eram eventualmente caçados e devorados, mas não tinham status de propriedade do humano (que podia ser explorada, herdada). Animais não pertenciam aos humanos, que não acreditavam ter direitos sobres seus corpos e vidas. E isso teve um impacto negativo nas relações humanas também. O processo de objetificação-subordinação-dominação imposto aos animais foi aplicado em seguida a outros grupos humanos. Essa hierarquização (humanos acima de não-humanos) deu margem pra opressão de outros humanos. Como já descrevi aqui, certos grupos de humanos foram e são sistematicamente animalizados (“rebaixados” ao nível do animal não-humano) pra legitimar sua dominação por humanos da classe dominante.

Veganismo popular é um projeto ético-político que luta contra a mercantilização da vida. Nos comprometemos com a luta anti-capitalista e queremos o fim da lógica mercadológica que rege as relações entre humanos e não-humanos. Mas temos consciência que a derrubada do capitalismo não colocará automaticamente um fim ao especismo. Por isso insisto na necessidade de quebrar a lógica dominação, quebrar a relação de dominação sobre o vivo (e incluo aqui, além do animal não-humano, as florestas, os rios, etc).

Na minha militância trabalho com o conceito de libertação de todos os corpos. E ultimamente tenho pensado em algo que vai mais além. Ao rever o lugar do animal não-humano na nossa visão de mundo, retirando-o da condição de dominado onde o colocamos, acredito que devemos enxergá-lo como um companheiro de luta. Animais sempre foram explorados ao nosso lado e são as maiores testemunhas do poder devastador e cruel do capitalismo, por isso merecem um lugar ao nosso lado no processo revolucionário.

Apenas se tornar vegana não é suficiente pra salvar a Amazônia, mas comer animais e alimentar a ideologia especista com certeza vai ajudar a destruí-la. Parar de colaborar com o especismo, boicotar toda exploração animal, não vai por fim ao colonialismo, mas assim como a pecuária é uma ferramenta de colonização, o veganismo popular, que é aliado da luta dos povos indígenas e quilombolas e da reforma agrária popular, é uma poderosa ferramenta de decolonização.

Muitas luas atrás eu comecei uma série de entrevistas com pessoas veganas. Recentemente resolvi dar continuidade à série, mas com versões mais curtas, publicadas no meu perfil no Instagram. Também decidi que iria entrevistar (por enquanto) apenas pessoas não-brasileiras, pra mostrar as cores do movimento vegano no exterior. O veganismo liberal das ONGs e celebridades de Instagram acaba dando uma ideia falsa do veganismo e eu queria mostrar como o movimento é diverso e construído por pessoas que entendem o veganismo como uma extensão lógica da luta anti-opressão. Existe um esforço em propagar o mito de que fora do Brasil o movimento vegano é homogêneo e todo liberal. Nos países onde morei (França, Palestina, Inglaterra, Alemanha, Líbano e Bélgica) pude constatar que isso não podia estar mais longe da realidade. Então pensei em trazer as vozes de algumas militantes antiespecistas do exterior pra que vocês vejam por si mesmas.

Como essa série foi pensada pra ser compartilhada no Instagram, onde os caracteres são limitados, faço apenas três perguntas: 1- O que é veganismo? 2-Por que você se tornou vegana? 3-Como derrubar o especismo?

Mas quando pedi ao meu querido amigo Craig pra responder essas perguntas, ele me enviou um texto longo demais pra ser publicado no Instragram, mas interessante demais pra não ser compartilhado. Então a solução foi postar uma versão bem curta no Instagram e publicar a versão integral aqui.

Craig é britânico, um dos maiores militantes antiespecistas que conheço e vegano há mais de 30 anos.

O que é veganismo?

Pra mim, o veganismo tem a ver com a capacidade, usando do meu privilégio, de me desligar um pouco de um sistema de exploração. Existem inúmeras maneiras pelas quais animais humanos e não humanos são explorados neste mundo e eu sinto que se nós, como indivíduos, pudermos fazer algo para impedir que um dano seja causado, removendo nosso apoio físico ou financeiro a esse sistema, então isso se torna um imperativo moral.

Veganismo -boicotar produtos vindos da exploração animal, seja o alimento que comemos ou bebemos, ou as roupas que vestimos- é apenas parte da solução, definitivamente não é a única coisa que podemos ou devemos fazer. Nós, que somos capazes de viver uma vida vegana, pessoas que têm o privilégio de escolher o que consomem, precisamos fazê-lo. Como podemos continuar a participar de um sistema que gera sofrimento se nós temos a capacidade de sair dele? “Por que ser cruel quando você pode ser gentil?”, como um amigo disse uma vez.

Acredito firmemente que veganismo não é uma dieta, é um ato político, um ato de solidariedade com animais não-humanos. É um ato político de boicote análogo à campanha pra boicotar produtos israelenses por causa da ocupação da Palestina, ou ao boicote aos produtos sul-africanos em apoio àqueles e àquelas que viviam sob o regime de apartheid naquele país.

E o veganismo certamente não é o mesmo que “plant-based”, que não passa de uma escolha dietética sem substância que pode mudar a qualquer momento. Isso significa que ser vegana é mais do que apenas evitar produtos de origem animal, é estar ciente de como tudo o que consumimos é produzido: considerando as pessoas que cultivam, colhem, produzem os alimentos, o impacto ambiental dessa produção e consumo, etc.

Ser vegana definitivamente não é sobre ser ‘perfeita’, o que é impossível. Eu vivo em uma sociedade capitalista, onde a maioria das coisas que faço têm um efeito prejudicial sobre outros animais (humanos e não-humanos) e pro meio ambiente. Pra mim é sobre estar ciente desses danos e aprender o que posso fazer para reduzi-los ou eliminá-los o máximo possível. A conscientização é o primeiro passo pra criar mudanças.

Por que você se tornou vegano?

No início da adolescência comecei a militar por direitos humanos e descobri como todas as questões de exploração estão interconectadas. Eu cresci na Inglaterra e na época a mídia estava cheia de imagens angustiantes de pessoas passando fome na Etiópia. Eu já quase não comia carne, porque a ideia de que animais eram mortos pra que eu os comesse não me agradava, e uma vez que tomei consciência do impacto das dietas ocidentais centradas em carne na vida das pessoas no Sul Global parar de comer carne por completo era o única opção possível para mim.

Eu li livros sobre soberania alimentar e fiquei horrorizado ao descobrir que enquanto populações inteiras passavam fome, seus países cultivavam grãos pra serem exportados e alimentar animais de criação no Norte Global. A causa de tanta pobreza e fome não era um excesso de pessoas no mundo nem uma escassez de comida, era o capitalismo, que depende da distribuição desigual de recursos pra existir. Tornar-se vegetariano quase não foi uma escolha, foi uma necessidade.

Naquela época eu não conhecia nenhuma pessoa vegana, mas quando me tornei ativo no movimento por direitos animais o veganismo foi o próximo passo lógico.

Ter me tornado vegano na adolescência, mais de 30 anos atrás, fez com que eu tivesse que aprender a cozinhar. Na época havia poucos alimentos processados veganos disponíveis, geralmente encontrados apenas em lojas especializadas de alimentos saudáveis. Isso foi realmente benéfico. Comecei a usar ingredientes dos quais nunca tinha ouvido falar (muitas leguminosas) e experimentar receitas (principalmente asiáticas). Venho de uma família da classe trabalhadora, meu pai e minha mãe tinham vários empregos ao mesmo tempo, muitas vezes trabalhando também durante a noite. Por isso comíamos muitas refeições processadas, rápidas de preparar e à base de carne. Aprender a cozinhar sem acesso a uma montanha de ingredientes processados fez com que eu passasse a comer de maneira mais saudável do que antes de me tornar vegano.

O veganismo amplamente promovido atualmente, que passa por aumentar a oferta de ultraprocessados nada saudáveis que imitam as opções de baixa qualidade comidas por pessoas não-veganas, apoiando multinacionais que prejudicam animais, pessoas e meio ambiente não faz parte do veganismo no qual acredito. Ocasionalmente gosto de comer um ultraprocessado vegano, mas ter sido vegano por tanto tempo sem acesso a esses produtos definitivamente fez com que eu aprendesse a me alimentar de uma maneira mais saudável.

Como derrubar o especismo?

Só podemos acabar com o especismo reconhecendo que a luta por libertação animal não pode ser separada da luta pela libertação de todos os seres, humanos ou não-humanos.

Grande parte da população mundial já tem uma dieta quase toda vegetal, não por escolha, mas por falta de escolha (a pobreza econômica que limita o acesso a alimentos). Nas próximas décadas provavelmente veremos mais pessoas nos países mais ricos, onde hoje o consumo de produtos de origem animal é elevado, se tornarem veganas. Não necessariamente por preocupação com os animais, mas por causa da crescente conscientização dos danos causados por produtos de origem animal ao meio ambiente e à saúde das pessoas. A produção de carne e laticínios está literalmente nos matando e destruindo o planeta.

No entanto, precisamos garantir que os direitos dos animais não-humanos sejam uma pauta central nessa mudança. Promover o veganismo como um ‘estilo de vida’, como ‘ alimentação plant-based’, fazer campanhas incentivando o tal do “part time vegan” (“parcialmente vegana”) ou apenas relacionar o veganismo à crise climática não vai acabar com o especismo.

Discussões recentes sobre a crise climática, particularmente graças a Greta Thunberg, e a atual pandemia COVID-19 revelaram que não podemos continuar vivendo da mesma maneira destrutiva que muitos de nós (principalmente no Norte Global) vivemos. Acabar com o especismo é essencial pros seres humanos, mas não devemos acabar com práticas prejudiciais apenas porque nos afeta diretamente. Seria egoísta.

Também precisamos reconhecer que grande parte da população mundial não tem os mesmos privilégios que muitas de nós, no movimento dos direitos dos animais, temos. Principalmente ocidentais. A maioria das pessoas não tem acesso ao leque de opções que está à nossa disposição na hora de escolher o que comer. Mesmo no Norte Global há uma enorme desigualdade no que diz respeito ao acesso à comida, principalmente quando se trata de pessoas racializadas. Além de mudar nossa atitude para com animais não-humanos, é preciso mudar nossa atitude com outros humanos.

“Somente através de uma luta anti-opressão consistente o veganismo poderá crescer e deixar de ser o movimento marginal que é atualmente. Pessoas veganas devem se conscientizar, aprender e se envolver com a luta pelos direitos humanos pra elevar os direitos não-humanos. Ser consistente com a luta anti-opressão dentro do nosso movimento não significa retirar os não-humanos do centro do seu próprio movimento. Significa criar um ambiente onde as comunidades marginalizadas não sejam mais oprimidas e alienadas pelas ações do movimento. ”
Julia Feliz Brueck, Veganism in an Oppressive World.

*Craig não gosta de exibir sua cara na internet, por isso a “arte” na foto 😉

Em 1977 o cineasta Polanski confessou, num tribunal dos EUA, ter estuprado uma menina de 13 anos. Condenado, ele fugiu do país antes de ser preso e nunca mais voltou. Desde então outras 11 mulheres o acusaram de estupro. Semana passada aconteceu a cerimônia dos Césars, a maior premiação do cinema francês. Polanski estava concorrendo a 12 prêmios, incluindo melhor diretor e melhor filme. 12 mulheres estupradas e 12 nomeações pro homem que as estuprou. “É preciso separar o homem do artista”, vomitavam os perpetradores da cultura do estupro. “Se seu padeiro estuprasse 12 mulheres, incluindo crianças, você separaria o homem do padeiro?”, “Quando uma mulher é estuprada não importa a profissão do estuprador nem se ele a pratica com talento” respondiam as mulheres. Os guardiães do patriarcado tinham sido particularmente cruéis dessa vez. Concorrendo ao prêmio de melhor atriz, pelo filme “Retrato da jovem em chamas” (que concorria ao prêmio de melhor filme, junto com o filme de Polanski), estava Adèle Haenel, que no final do ano passado levou ao público o fato de ter sido agredida sexualmente por um cineasta dos 13 aos 15 anos. Ela, que declarou: “Premiar Polanski é cuspir na cara das vítimas”, foi à cerimônia dos Césars junto com a equipe do filme “Retrato…”, feito por uma cineasta, com uma equipe quase exclusiva de mulheres, contando a história de duas mulheres que se amam. Esse filme me fez soluçar no cinema e todas nós torcíamos pra que ele e sua diretora levassem o prêmio. Mas o cinema francês, cúmplice, fiel aos seus amigos homens, mesmo os que cometem crimes de pedofilia, não deu o prêmio a “Retrato…”, nem à sua atriz principal. Era preciso punir Adèle por ter ousado sair do silêncio. Por ter levantado a voz e criticado esse clube do Bolinha sexista que é a indústria do cinema. Mas a punição não foi suficiente: era preciso “cuspir na cara das vítimas”. E assim Polanski ganhou o prêmio de melhor diretor. Nesse momento Adèle e a equipe de “Retrato…” se levantaram e saíram da sala. Embaixo do vestido de gala, a indignação. “Que vergonha! Palmas pra pedofilia!” ela repetia enquanto juntava o gesto à palavra.

Mas naquela noite Adèle não estava sozinha. Do lado de fora do cinema onde acontecia a premiação dos Césars, uma centena de mulheres se reunia. Uma bomba de fumaça vermelha foi acesa. Era o sinal. Imediatamente um canto explodiu das nossas gargantas “Polanski, estuprador. Cinema, culpado” e nos jogamos contra a grade que separava a rua do tapete vermelho e começamos a sacudi-la, enquanto, do outro lado, dezenas de policiais armados protegiam a barreira. Naquele momento senti que o corpo a corpo era extremamente simbólico: nós contra os guardiães do patriarcado. Algumas mulheres conseguiram passar pela grade e pisar no tapete vermelho. Pânico do lado de lá. À partir dali lembro de policiais nos empurrando violentamente, de estar espremida com outras mulheres contra uma parede enquanto eles lançavam gás lacrimogêneo e spray de pimenta diretamente contra nossos rostos, sem que pudéssemos escapar. Em poucos minutos a polícia nos forçou a sair dali e deteve duas mulheres. Mas ainda não tínhamos dito nossa palavra final. Uma mulher gritou “Violência sexista” e gritamos de volta “resposta feminista”. Ocupamos a rua. “Estuprador, nós te vemos. Vítima, acreditamos em você.” De repente vi, no final da rua, um grupo muito maior de mulheres se aproximar, com faixas e cartazes, juntando suas vozes às nossas. Nos abraçamos e agora que o grupo tinha triplicado de tamanho pudemos ocupar uma grande avenida, a dois passos do Arco do Triunfo. Paramos o trânsito e cantamos juntas “Estupro é crime/Não nos calaremos”. A polícia nos cercou e fechou a parte da avenida onde estávamos, tentando conter nossa raiva, abafar nossos gritos. Tarde demais, a cerimônia dos César um fiasco. Uma mulher do meu lado disse “essa noite, fomos nós que vencemos”. Sentei na calçada no final da ação, esperando ser liberada pra ir pra casa (a polícia nos deteve temporariamente no local) quando do meu lado duas mulheres começaram a cantar baixinho o Hino das Mulheres, a música escrita por feministas francesas nos anos 70 que ainda cantamos hoje e que sempre mareja meus olhos: “Juntas, somos oprimidas, mulheres. Juntas, nos revoltemos!”

O patriarcado vai cair de podre. Os que se beneficiam dele estão se agarrando a esse velho mundo odioso, esperneando pateticamente pra continuar oprimindo e agredindo mulheres sem ter que encarar as consequências. Quando descobri que Polanski tinha sido nomeado a 12 Césars, mesmo depois de ter sido condenado pelo estupro de uma menina de 13 anos, além de ser acusado por outras 11 mulheres de estupro (de 9, 10, 12, 18, 29 anos quando ele as estuprou), imaginei na hora que seria organizado um protesto e que eu participaria. Contra esse sistema desprezível que culpa a vítima e dá prêmio ao estuprador. Mas, principalmente, pelas vítimas dele. Por Adèle Haenel. Por todas as mulheres vítimas de uma agressão sexual. Era por elas que eu estava ali. Por elas que eu gritava “Estupradores por todos os lados/Justiça em lugar nenhum” Então não sei exatamente em que momento as coisas começaram a mudar. Fui agredida por um policial e mulheres me socorreram, seguraram minha mão e falaram: “Você está sozinha? Se quiser fica aqui com a gente.” Depois nos demos as mãos e cantamos “Solidariedade com as mulheres do mundo inteiro”. Quando li o décimo cartaz da noite falando de “pedocriminalidade” (“pedofilia” não faz sentido) meu coração parou de bater por um segundo e aquilo que eu vinha sentindo desde o início da noite se cristalizou: era por mim também que eu estava ali! Pela criança de 5 anos que fui, agredida sexualmente por um amigo da família. E como ela precisava colocar aquilo tudo pra fora! Como ela precisava estar no meio daquela massa de mulheres indignadas, de punho erguido, gritando “Estupro é crime! Não nos calaremos!” Eu não imaginava que estar com companheiras naquela ação, mesmo tão curta e simbólica, seria o bálsamo que terminaria de cicatrizar essa ferida. Naquela noite eu não me calei e revidei. Naquela noite mulheres desconhecidas me deram a mão e disseram “você não está sozinha, nós te vemos, nós acreditamos em você e lutaremos em seu nome”.

(Todas as fotos foram feitas por Anne Paq)