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Em setembro confessei aqui no blog a minha recente história de amor com a farofa e compartilhei a receita da minha farofa mais popular.

Mas isso não é exatamente verdade. Sim, minha farofa de banana e couve é extremamente popular na minha família, mas um dia fiz uma versão ligeiramente modificada dessa receita e o sucesso foi ainda maior. Chamei essa obra-prima comestível de “farofa rica”.

Como toda farofa, se trata mais de um conceito do que de uma receita. E o que é o conceito de farofa rica, você pergunta? É usar os restos de comida que estão de bobeira na geladeira, principalmente aqueles em quantidade tão pequena que não dá pra alimentar nem uma pessoa sozinha, misturar com farinha em uma frigideira quente e criar um prato tão saboroso e cheio de ingredientes que o único adjetivo que me veio à cabeça pra qualificar minha criação foi “rica”. Eu vejo muito a palavra “rica” ser acoplada à uma receita quando se trata de encarecer a conta de ingredientes. Ou seja, juntar ingredientes caros e sempre de origem animal (queijo, bacon, creme etc). Então minha farofa rica é pura subversão, já que se trata de um prato popular que foi preparado com sobras de alimentos e esses alimentos são todos vegetais.

Farofa rica

Como expliquei acima, se trata mais de um conceito do que de uma receita. Use essa lista de ingredientes como guia, pois dá uma farofa realmente arretada, mas substitua o que estiver faltando pelo que encontrar na sua geladeira. Feijão macaça (feijão de corda) é ideal aqui, pois além de muito saboroso ele se mantém intacto depois do cozimento e não dá caldo grosso, fazendo com que seja muito simples separar os grãos do caldo. Mas imagino que grão de bico cumpra o mesmo papel aqui, pras pessoas que tem acesso a esse ingrediente.

2-3 cs de óleo
1 cebola, picada
2-3 dentes de alho, picados
2 bananas, picadas (maduras, mas não muito)
1 x de feijão macaça (sem caldo)
1 – 1,5x de farinha de mandioca fina, peneirada
Um punhado de coentro, picado
Sal e pimenta do reino a gosto

Em uma frigideira grande e, de preferência, com o fundo grosso, aqueça o óleo e doure a cebola. Junte o alho, deixe fritar por alguns segundos e acrescente a banana picada, o feijão macaça e, aos poucos, a farinha. Vá mexendo com uma colher de pau, delicadamente pra não esmagar a banana, e juntando farinha, sobre um fogo baixo, até atingir a consistência desejada. Eu gosto de farofa úmida, então uso 1x de farinha, mas se você gostar de farofa mais seca, use mais.

Desligue o fogo e acrescente o coentro. Tempere com sal e pimenta do reino, prove e corrija o tempero, se necessário. Sirva imediatamente.

Rende de 4 a 6 porções, dependendo da intensidade do seu amor por farofa.

Ainda não é oficialmente inverno no hemisfério norte (o solstício de inverno é no dia 22 de dezembro esse ano), mas as noites já estão mais longas que os dias, o frio já se instalou e a luz natural já está fazendo falta. E isso tem um efeito interessante no meu apetite. Por um lado desejo comidas quentes e pesadas (sopa, muita sopa! creme!!!), pra aquecer o estômago e me proteger do inverno. Mas ao mesmo tempo sinto falta das frutas e verduras que crescem no calor, principalmente as da minha região no Brasil. É um fenômeno curioso, esse. Ao mesmo tempo que meu corpo demanda sopa e cogumelos, minha cabeça não para de pensar em abacaxi, quiabo e mamão.

Nessas horas abro meu o arquivo de fotos das férias em Natal e fico horas admirando os pratos coloridos que preparei por lá, já que comer com os olhos é tudo que me resta. E hoje, enquanto fazia isso, me deparei com a foto de um lanche simples, mas delicioso e bem original, que fiz e dividi com a minha mama. Tostada de chuchu. Se você é como o meu amigo Marcelo, que acredita que chuchu “é o quarto estado da água”, peço que segure a vontade de fechar essa página e dê uma chance pro chuchu.

Certo, não é o legume mais saboroso, mas sabendo preparar, ele fica uma delícia. Como diz um outro amigo, Ruan, não existe legume ruim, você que está preparando errado. Confesso que cresci comendo chuchu refogado, uma iguaria que adoro, e nunca entendi a birra das pessoas com o coitado.

Mas essa receita abre a oportunidade de abordar outro tema importante: o que colocar no pão quando se é vegana. É uma das perguntas que mais me fazem e, ouvi dizer, uma das maiores dificuldades na hora de transicionar pro veganismo.

Fico triste quando vejo que as pessoas podem chegar à conclusão que podem (e devem) viver sem consumir produtos do sofrimento animal, mas não conseguem sair do paradigma “pão se come com manteiga ou queijo, então preciso encontrar substitutos vegetais similares pra esses dois produtos”. Seria muito mais libertador (e divertido, e fácil de seguir no veganismo) se a gente quebrasse a barreira da manteiga/queijo e aceitasse que quase tudo pode ser comido com pão.

Na Inglaterra a galera come pão com feijão. O mundo árabe come pão com azeite e tomilho. Ou tahina e melado. Nos EUA comem pão com pasta de amendoim e banana. Tem países onde se come pão com tomate cru ralado (temperado com sal e azeite). Outros onde o pão é comido com abacate (temperado com sal e limão). O céu é o limite!

Se as combinações acima (e suas variações) já fazem parte do seu repertório, deixa eu dar uma sugestão pra expandir ainda mais as possibilidades. Sabe aquele refogadinho de legumes bem suculento? Fica ótimo numa fatia de pão.

E já que é pra expandir as fronteiras gastronômicas, use chuchu no seu refogado.

Tostada de chuchu


O refogado de chuchu fica uma delícia no pão, mas também é um ótimo acompanhamento pro almoço ou jantar.

1 cebola pequena, picada
2 dentes de alho (ou a gosto), amassados
1 chuchu médio, descascado, desmiolado e cortado em cubos pequenos
2 tomates maduros, picados
Azeite, sal e pimenta do reino a gosto
Folhas frescas de manjericão (ou uma pitada de manjericão desidratado)
Fatias de pão (gosto de pão de fermentação natural-levain, mas use o que preferir)

Em uma panela média, aqueça aproximadamente uma colher de sopa de azeite e doure a cebola. Junte o alho e o chuchu e refogue por alguns minutos. Junte o tomate, uma pitada generosa de sal, mais ou menos 1/3 xícara de água e cubra a panela. Baixe o fogo e deixe cozinhar até o chuchu ficar bem macio.

Se por acaso o líquido secar antes do chuchu ficar macio, junte um pouquinho mais de água. Se o chuchu estiver macio, mas ainda tiver muito líquido na panela, deixe cozinhar destampado no fogo alto por alguns instantes. O resultado desejado é um refogado com um pouco de molho e se uso tomates bem maduros quase não preciso acrescentar água.

Prove, corrija o sal, se necessário, e tempere com pimenta do reino. Fora do fogo junte as folhas de manjericão e mais um fio de azeite.

Coloque o refogado de chuchu sobre fatias de pão (é bom tostar um pouco antes) e sirva. Rende aproximadamente 4 tostadas grandes (mas vai depender do tamanho das fatias do seu pão, claro).

Durante a procura por apartamento aqui em Paris, um dos meus critérios de busca era ter fogão a gás. Em uma cidade onde quase todas as cozinhas são equipadas com placas elétricas, um fogão a gás é algo extremamente raro. Meu lar atual tem placas elétricas modernas (funciona por indução, seja lá o que isso quer dizer), mas apesar de preferir cozinhar com fogo, acabei me resignando. Sinto que tem algo de estéril em uma cozinha fria, onde não tem chama. (Crudívoras, não me detestem!) Talvez eu ainda me sinta muito apegada ao ato primitivo de reunir a comunidade ao redor do fogo e preparar o jantar enquanto se conta histórias. Talvez seja porque sou cozinheira e sei que não ter acesso à uma chama limita a gama de preparações culinárias possíveis (não posso preparar meu amado muta’bal, por exemplo). Mas o que tenho por enquanto são duas bocas elétricas e já adaptei minhas refeições ao que está ao meu alcance no momento.

Porém tem algo que está me fazendo muita falta na cozinha: um forno. Além de não ter gás, minha micro cozinha francesa não tem forno. A pessoa que nos alugou o apartamento não cozinhava (“Eu tomo sucos verdes” – ela explicou), por isso equipar sua cozinha com um forno era um despropósito.

Quando o verão chega e as temperaturas se tornam insuportáveis aqui (tenho péssimas lembranças dos meus verões parisienses), não faço questão nenhuma de ligar o forno. Posso passar semanas comendo saladas e frutas frescas. Mas a perspectiva de atravessar os meses frios do ano sem um gratinado, sem uma torta, sem uma lasanha me entristece. Nem gosto tanto de bolos, mas só porque agora não tenho forno passei a ter vontade de fazer meu bolo de melado e especiarias ou o bolo de laranja de Lu.

Além de desejar comida de forno durante o inverno, tem algo reconfortante em assar alimentos quando está frio e cinzento lá fora. Mas vou ter que enfrentar a chuva, o céu nublado e o frio intenso dos meses que virão sem a ajuda do aroma de algo assando no forno pra aquecer a casa e levantar nossos ânimos.

Então quando estive na casa do meu sogro umas semanas atrás aproveitei pra usar o forno em todas as refeições. Fiz até uma versão do bolo de Lu que ficou ainda melhor do que a original. Mas o que eu gostaria de compartilhar hoje é algo muito mais simples, porém não menos saboroso.

Gosto de assar quase todo tipo de legume, mas dependendo da estrutura do legume em questão o método de preparo varia um pouco. Legumes que crescem embaixo da terra, como batata, batata-doce, beterraba, cenoura etc. são densos (tem pouca água) e se beneficiam muito de um pré-cozimento na água antes de ir pro forno. Já legumes mais moles (cheios de água), como abobrinha, pimentão, tomate, berinjela e cebola, devem ir direto pro forno.

As receitas de hoje são tão ridiculamente simples que nem chegam a ser receitas. São métodos de cozimento que podem ser aplicados à uma infinidade de legumes. Mas o resultado é tão saboroso que vale a pena compartilhar as informações com vocês. E convenhamos que nunca em lugar nenhum alguém comeu algo delicioso e depois disse: “Que delícia! Uma pena que é tão simples.”

Talvez muitas pessoas me lendo agora já preparem batata e abobrinha assim em casa, mas pra todas as outras, vocês não podem viver mais nem um dia sem provar esses legumes preparados dessa maneira. Se você tem a sorte de ter um forno em casa, aproveite.

Batata assada

Descasque as batatas e corte em pedaços médios. Veja as fotos acima pra entender o formato dos pedaços. Cortados assim eles tem mais lados, o que faz com que tenha mais superfície pra dourar e fiquem mais crocantes. Se você não tem ideia do que estou falando deixe pra lá e corte sua batata como quiser. O importante é que os pedaços tenham mais ou menos o mesmo tamanho, pra que possam cozinhar por igual.

Coloque os pedaços de batata em uma panela e cubra com água fria. Salgue generosamente. Quando a água ferver desligue o fogo e escorra as batatas. Isso faz com que o amido da batata cozinhe ligeiramente e coagule, fazendo com que ela asse melhor (mais dourado e mais crocância) depois.

Transfira as batatas pré-cozidas pra uma placa/forma grande o suficiente pra que tenha um pouco de espaço vazio entre os pedaços. Regue com azeite (não precisa ser extra-virgem), mais uma pitada de sal e misture bem pra que o azeite envolva todos os pedaços. Leve ao forno alto até as batatas ficarem bem macias (espete uma faca pra testar). Se seu forno tiver a função “grill” esse é o momento de utiliza-la. Alguns minutos são suficiente pra deixar as batatas bem douradas (não se afaste da cozinha, já que elas podem passar de douradas pra queimadas em pouco tempo).

Retirte as batatas do forno e tempere com pimenta do reino e ervas frescas (tomilho ou alecrim amam batatas).

Abobrinha assada

Lave e corte a abobrinha (do tipo italiana) em rodelas finas. Use um fatiador se você não tiver muita habilidade com facas. Arrume as fatias de abobrinha em fileiras (veja a foto acima) bem apertadas. Enquanto assam parte da água da abobrinha evapora, fazendo com que as fatias encolham, por isso pode colocar as fileiras coladas umas nas outras (elas se separam enquanto assam e a parte exposta vai dourar). Regue as fileiras de abobrinha crua com azeite e tempere com sal. Leve ao forno alto até que a parte superior das fatias fique dourada. O tempo de cozimento varia dependendo do seu forno, então eu te digo: fique de olho na sua abobrinha e você saberá quando ela estará pronta. Se tiver a função “grill” no seu forno, use durante os últimos minutos. Usei o “gril” nessas duas receitas, por isso o dourado está tão lindo.

Retire do forno e tempere com pimenta do reino e ervas frescas (tomilho é sempre bom, mas manjerona e orégano também são uma delícia aqui).