Posts de categoria: Entradas e Acompanhamentos

É comum ouvir reclamações do feijão macaça (fradinho), pois o bichinho dá caldo ralo. Eu cresci comendo esse feijão e até hoje meu tio planta ele lá no Sertão. O que parece problema é na verdade uma bênção. Quando eu era menina minha mãe cozinhava esse feijão, depois jogava uns temperos na panela e oferecia o caldo puro, no copo, pra acalmar o estômago que roncava antes da hora do almoço. Era o lanche das 11h. Ela aprendeu isso com a mãe, que fazia render ao máximo o pouco de comida que tinha.

Dias desses cozinhei feijão macaça, o que sempre me deixa nostálgica, e lembrei de outra coisa que minha mãe fazia: caldo da caridade. É uma especialidade sertaneja e minha mãe contava que vó fazia isso quando passava alguém pra pedir comida e não tinha mais nada pra oferecer. Imagino que venha daí o nome. Os ingredientes são dos mais humildes: alho, coentro, farinha de mandioca e água (tem uma versão com ovo, aí é Cabeça de Galo). Vi o caldo do meu feijão macaça e pensei em fazer um caldo da caridade usando ele ao invés de água. Ficou poético e comi com lágrimas nos olhos.

Caldo da caridade – com caldo de fejão macaça/fradinho

Cura resfriado, fome, ressaca e saudade do Sertão.

1 cs de alho picado
2cs de óleo (ou azeite)
1 concha de grãos de feijão macaça (fradinho) cozido
4 conchas do caldo do feijão macaça
4 cs de farinha de mandioca fina (peneirada, se necessário)
Um punhado de coentro picado
Limão pra servir

Refogue o alho picado no óleo até começar a dourar. Minha mãe usava muito alho e além de ser o responsável pelo sabor da receita, deve vir daí a crença de que caldo da caridade é bom pra curar resfriado. Desligue o fogo. Junte uma concha dos grãos do feijão (pra dar mais sustança ao caldo) e salpique a farinha de mandioca por cima. Junte 4 conchas do caldo do feijão e misture bem. Leve ao fogo novamente e aqueça a mistura, mexendo com uma colher de pau. Não estamos fazendo pirão, então não cozinhe por muito tempo senão vai engrossar demais. Se isso acontecer, coloque mais caldo. Tempere com sal e pimenta do reino a gosto (minha mãe usava muita pimenta, faz parte do poder de cura do caldo). Desligue o fogo e junte o coentro picado. Sirva com um tico de limão. Rende 2 porções.

Em setembro confessei aqui no blog a minha recente história de amor com a farofa e compartilhei a receita da minha farofa mais popular.

Mas isso não é exatamente verdade. Sim, minha farofa de banana e couve é extremamente popular na minha família, mas um dia fiz uma versão ligeiramente modificada dessa receita e o sucesso foi ainda maior. Chamei essa obra-prima comestível de “farofa rica”.

Como toda farofa, se trata mais de um conceito do que de uma receita. E o que é o conceito de farofa rica, você pergunta? É usar os restos de comida que estão de bobeira na geladeira, principalmente aqueles em quantidade tão pequena que não dá pra alimentar nem uma pessoa sozinha, misturar com farinha em uma frigideira quente e criar um prato tão saboroso e cheio de ingredientes que o único adjetivo que me veio à cabeça pra qualificar minha criação foi “rica”. Eu vejo muito a palavra “rica” ser acoplada à uma receita quando se trata de encarecer a conta de ingredientes. Ou seja, juntar ingredientes caros e sempre de origem animal (queijo, bacon, creme etc). Então minha farofa rica é pura subversão, já que se trata de um prato popular que foi preparado com sobras de alimentos e esses alimentos são todos vegetais.

Farofa rica

Como expliquei acima, se trata mais de um conceito do que de uma receita. Use essa lista de ingredientes como guia, pois dá uma farofa realmente arretada, mas substitua o que estiver faltando pelo que encontrar na sua geladeira. Feijão macaça (feijão de corda) é ideal aqui, pois além de muito saboroso ele se mantém intacto depois do cozimento e não dá caldo grosso, fazendo com que seja muito simples separar os grãos do caldo. Mas imagino que grão de bico cumpra o mesmo papel aqui, pras pessoas que tem acesso a esse ingrediente.

2-3 cs de óleo
1 cebola, picada
2-3 dentes de alho, picados
2 bananas, picadas (maduras, mas não muito)
1 x de feijão macaça (sem caldo)
1 – 1,5x de farinha de mandioca fina, peneirada
Um punhado de coentro, picado
Sal e pimenta do reino a gosto

Em uma frigideira grande e, de preferência, com o fundo grosso, aqueça o óleo e doure a cebola. Junte o alho, deixe fritar por alguns segundos e acrescente a banana picada, o feijão macaça e, aos poucos, a farinha. Vá mexendo com uma colher de pau, delicadamente pra não esmagar a banana, e juntando farinha, sobre um fogo baixo, até atingir a consistência desejada. Eu gosto de farofa úmida, então uso 1x de farinha, mas se você gostar de farofa mais seca, use mais.

Desligue o fogo e acrescente o coentro. Tempere com sal e pimenta do reino, prove e corrija o tempero, se necessário. Sirva imediatamente.

Rende de 4 a 6 porções, dependendo da intensidade do seu amor por farofa.

Ainda não é oficialmente inverno no hemisfério norte (o solstício de inverno é no dia 22 de dezembro esse ano), mas as noites já estão mais longas que os dias, o frio já se instalou e a luz natural já está fazendo falta. E isso tem um efeito interessante no meu apetite. Por um lado desejo comidas quentes e pesadas (sopa, muita sopa! creme!!!), pra aquecer o estômago e me proteger do inverno. Mas ao mesmo tempo sinto falta das frutas e verduras que crescem no calor, principalmente as da minha região no Brasil. É um fenômeno curioso, esse. Ao mesmo tempo que meu corpo demanda sopa e cogumelos, minha cabeça não para de pensar em abacaxi, quiabo e mamão.

Nessas horas abro meu o arquivo de fotos das férias em Natal e fico horas admirando os pratos coloridos que preparei por lá, já que comer com os olhos é tudo que me resta. E hoje, enquanto fazia isso, me deparei com a foto de um lanche simples, mas delicioso e bem original, que fiz e dividi com a minha mama. Tostada de chuchu. Se você é como o meu amigo Marcelo, que acredita que chuchu “é o quarto estado da água”, peço que segure a vontade de fechar essa página e dê uma chance pro chuchu.

Certo, não é o legume mais saboroso, mas sabendo preparar, ele fica uma delícia. Como diz um outro amigo, Ruan, não existe legume ruim, você que está preparando errado. Confesso que cresci comendo chuchu refogado, uma iguaria que adoro, e nunca entendi a birra das pessoas com o coitado.

Mas essa receita abre a oportunidade de abordar outro tema importante: o que colocar no pão quando se é vegana. É uma das perguntas que mais me fazem e, ouvi dizer, uma das maiores dificuldades na hora de transicionar pro veganismo.

Fico triste quando vejo que as pessoas podem chegar à conclusão que podem (e devem) viver sem consumir produtos do sofrimento animal, mas não conseguem sair do paradigma “pão se come com manteiga ou queijo, então preciso encontrar substitutos vegetais similares pra esses dois produtos”. Seria muito mais libertador (e divertido, e fácil de seguir no veganismo) se a gente quebrasse a barreira da manteiga/queijo e aceitasse que quase tudo pode ser comido com pão.

Na Inglaterra a galera come pão com feijão. O mundo árabe come pão com azeite e tomilho. Ou tahina e melado. Nos EUA comem pão com pasta de amendoim e banana. Tem países onde se come pão com tomate cru ralado (temperado com sal e azeite). Outros onde o pão é comido com abacate (temperado com sal e limão). O céu é o limite!

Se as combinações acima (e suas variações) já fazem parte do seu repertório, deixa eu dar uma sugestão pra expandir ainda mais as possibilidades. Sabe aquele refogadinho de legumes bem suculento? Fica ótimo numa fatia de pão.

E já que é pra expandir as fronteiras gastronômicas, use chuchu no seu refogado.

Tostada de chuchu


O refogado de chuchu fica uma delícia no pão, mas também é um ótimo acompanhamento pro almoço ou jantar.

1 cebola pequena, picada
2 dentes de alho (ou a gosto), amassados
1 chuchu médio, descascado, desmiolado e cortado em cubos pequenos
2 tomates maduros, picados
Azeite, sal e pimenta do reino a gosto
Folhas frescas de manjericão (ou uma pitada de manjericão desidratado)
Fatias de pão (gosto de pão de fermentação natural-levain, mas use o que preferir)

Em uma panela média, aqueça aproximadamente uma colher de sopa de azeite e doure a cebola. Junte o alho e o chuchu e refogue por alguns minutos. Junte o tomate, uma pitada generosa de sal, mais ou menos 1/3 xícara de água e cubra a panela. Baixe o fogo e deixe cozinhar até o chuchu ficar bem macio.

Se por acaso o líquido secar antes do chuchu ficar macio, junte um pouquinho mais de água. Se o chuchu estiver macio, mas ainda tiver muito líquido na panela, deixe cozinhar destampado no fogo alto por alguns instantes. O resultado desejado é um refogado com um pouco de molho e se uso tomates bem maduros quase não preciso acrescentar água.

Prove, corrija o sal, se necessário, e tempere com pimenta do reino. Fora do fogo junte as folhas de manjericão e mais um fio de azeite.

Coloque o refogado de chuchu sobre fatias de pão (é bom tostar um pouco antes) e sirva. Rende aproximadamente 4 tostadas grandes (mas vai depender do tamanho das fatias do seu pão, claro).