Posts de categoria: Pratos principais

Outro dia uma moça me enviou uma mensagem pelo Instagram dizendo “Acompanho você desde os 11 anos, quando virei vegetariana. Estou com 21 anos agora e vegana há 5 anos.” Além da alegria proporcionada por esse momento Xuxa, me emocionei em saber que tem pessoas que acompanham meu trabalho há dez anos. Quanta honra!

Sim, esse blog completou 10 anos em fevereiro. Já contei como tudo começou?

Eu era vegana há 3 anos e morava na Palestina há 2. Na época minha vida se dividia entre o trabalho voluntário com o grupo de mulheres, no campo de refugiados, a militância (participar de ações de resistência, junto ao povo palestino) e meu projeto de “restaurante em casa”, que acontecia 2 vezes por mês. O trabalho com as mulheres era focado na culinária (falei dele aqui e aqui) e como eu desenvolvia receitas pros jantares que eu dava em casa (era assim que eu conseguia ganhar uns trocados por lá), eu passava a maior parte da semana escolhendo vegetais na feira e cozinhando.

Foi então que Anne sugeriu criar um blog de receitas. Ela achava minha comida maravilhosa e dizia que seria uma pena não compartilhar meus conhecimentos em culinária vegetal com mais pessoas. Embora eu tivesse achado a ideia bacana, eu sempre deixava pra depois. No fundo eu me perguntava se minhas receitas eram realmente dignas de serem publicadas, mas o fato de ter poucos blogs sobre culinária vegetal em Português (estou falando de 2009) acabou me convencendo que mesmo se minhas receitas não impressionassem tanto fora de casa, eu tinha uma contribuição a fazer pra comunidade vegana.

Até que veio essa noite de fevereiro de 2010, quando estava sozinha em casa (Anne tinha viajado pra Gaza, a trabalho) e a insônia me impedia de dormir. Fui pra sala, abri o computador e criei o blog.

E lá se foram dez anos! No início eu só postava receitas, sempre acompanhadas da história por trás delas. Eu tinha tanta receita no meu repertório que chegava a postar três por semana! Nesse época um amigo francês, que morava na Palestina, me perguntou como eu fazia pra inventar três receitas por semana, já que ele tinha inventado, no máximo, duas receitas durante a vida inteira. A verdade é que as ideias fervilhavam na minha cabeça e eu praticamente inventava uma receita nova por dia! Uma combinação muito feliz de fatores produzia isso. Por um lado eu estava cercada de ingredientes frescos e deliciosos (eu morava a poucos metros da feira, onde agricultoras vendiam diretamente seus produtos) e estava descobrindo uma culinária vibrante, a palestina, que vê o vegetal com tanto interesse, e o trata com tanto carinho, que os ingredientes animais. E que o devora com tanto prazer quanto! Por outro lado eu passei os primeiros anos do meu veganismo mergulhada em receitas, tanto as que eu inventava quanto as que eu via em sites estrangeiros e testava/adaptava na minha cozinha. Acho que toda vegana passou por essa fase. Quando você se torna vegana descobre que tem que reaprender a cozinhar tudo! Como se faz bolo sem ovos? Como se faz pratos cremosos sem creme?

Hoje, no meu décimo terceiro ano de veganismo, tenho um repertório extremamente vasto de receitas pra todas as ocasiões e a culinária vegetal passou a ser a coisa mais fácil, automática e descomplicada do mundo. Isso não significa que parei de desenvolver receitas. Mas como em qualquer outro aprendizado, o início requer mais atenção e esforço. Até que chega um ponto em que você já não precisa mais fazer esforço e as coisas fluem. Aprender a cozinhar (vegetal) é como aprender uma nova língua. Começa dando um certo trabalho, até que você fica fluente. Isso é algo que eu gostaria que as pessoas que dizem “ah, mas dá muito trabalho cozinhar comida vegana” entendessem.

Mas voltemos ao nascimento do Papacapim. Eu morava na Palestina e logo senti que era absurdo falar só de receitas enquanto, ao meu redor, as violações de direitos humanos se multiplicavam, o colonialismo avançava e a ocupação militar israelense se tornava cada vez mais brutal.

O primeiro post dessa nova linha editorial foi “Só pela subversão” e até hoje pessoas vem falar comigo depois das palestras que dou no Brasil pra contar a que ponto elas se sentiram tocadas por essa história.

Pra minha surpresa, misturar outras lutas sociais ao veganismo não fez com que leitoras saíssem correndo alegando indigestão, muito pelo contrário. Tenho muito orgulho de dizer que além de ter ensinado muitas pessoas a cozinhar, ter inspirado outras mais a se tornarem veganas, contribuí com a politização delas, principalmente sobre a luta palestina.

E o que dizer das pessoas que entraram na minha vida graças ao Papacapim e que se tornaram grandes amigas? Foram muitos convites pra dar palestras, muitas oficinas de culinária e a grande felicidade de participar da construção do movimento vegano no Brasil.

Os tempos mudaram e a era dourada dos blogs foi ficando pra trás à medida que redes sociais passaram a ocupar cada vez mais espaço nas nossas vidas. No início eu concentrava o meu trabalho aqui no blog (receitas, dicas de culinária, reflexões sobre veganismo e outras lutas) e usava o Instagram como um “por trás das cortinas”. O conteúdo era mais pessoal por lá: viagens, coisas que eu estava lendo ou comendo… Depois minhas leitoras aqui foram migrando pra lá, outras foram chegando sem nunca ter lido o blog e depois de alguns anos de resistência acabei levando o conteúdo que produzo aqui pro Instagram também. Isso significa que o trabalho dobrou, mas também que e a comunidade Papacapim está ainda maior.

O blog me acompanhou em todas as aventuras que vivi nos últimos dez anos. Escrevi posts da Palestina, claro, mas também de Bruxelas, de Londres, de Beirute, de Berlim, do Brasil e agora de Paris. E em cada lugar as receitas ganharam cores locais, as histórias refletiam minhas experiências convivendo com outras culturas… Abri o coração e perdi a conta de quantas mulheres fizeram a mesma coisa comigo, via email, carta ou pessoalmente.

O Papacapim representa uma parte muito importante da minha vida e muita gente me chama de “Sandra Papacapim”. Outro dia um amigo me contou que um amigo dele, tentando lembrar do meu nome, disse: “Aquela menina que tem um sobrenome bem diferente”.

Essa semana eu fiz algo que me pediam pra fazer há anos: uma campanha de financiamento coletivo. Eu tenho muita dificuldade pra pedir ajuda, o que explica minha hesitação por tanto tempo. Se antes eu me perguntava se minhas receitas interessariam alguém, hoje eu me pergunto se alguém estaria disposta a apoiar financeiramente o meu trabalho. Ainda mais em uma época tão difícil quanto essa que estamos atravessando agora.

Mas promover a construção do veganismo popular e criar pontes entre a luta por libertação animal e os outros movimentos sociais nunca me pareceu tão urgente. Se esse blog nasceu apenas como um espaço pra compartilhar conhecimentos culinários e ajudar quem estava pensando em ser tornar vegana, hoje eu vejo que a sua missão principal se tornou reafirmar o caráter político do movimento vegano, disputar o movimento com quem defende uma visão liberal, capitalista e excludente de veganismo e fortalecer nossa luta buscando alianças com outros movimentos e lutadoras, pra além da comunidade vegana. E pra continuar fazendo isso e ir mais longe, eu preciso de ajuda.

Quem quiser contribuir, clica aqui apoia.se/papacapimveganismopopular pra ir pra página da campanha. Se você não puder oferecer um apoio financeiro, saiba que divulgar o meu trabalho também é uma ajuda preciosa.

E pra comemorar, uma receita. Porque não tem melhor maneira de comemorar algo do que ao redor de comida boa e que não causou sofrimento em outros seres nem explorou quem a produziu.

Feijão macaça (fradinho) é um dos meus preferidos. Como ele dá caldo ralo (um caldo que eu adoro! Inclusive, recomendo usa-lo nessa receita), gosto de usar os grãos em saladas. Na verdade nem chamo isso de salada, é só a maneira como preparamos esse tipo de feijão na minha família: com tomate, cebola ou cebolinha e bastante coentro.

No Sertão é tradicional adicionar manteiga da terra (manteiga de garrafa) e muita gente por lá acha que é a única maneira de deixar ele gostoso. Mas, olha que notícia boa, descobri que feijão macaça gosta mesmo é de gordura, não necessariamente da gordura que vem da exploração de uma vaca lactante. Então um azeite gostoso aqui faz maravilhas! E se você tiver a sorte de ter óleo de babaçu por perto, essa é uma receita perfeita pra usar essa iguaria.

Feijão macaça como lá em casa


No RN, de onde venho, chamamos esse feijão de macaça. Outros nomes usados Brasil afora: fradinho ou feijão de corda. As medidas são aproximadas, pois faço tudo no olho. Adapte de acordo com seu gosto. Prefiro usar cebolinha aqui, por ter um sabor mais suave. Quando não tenho, uso um pouquinho de cebola comum. Porém só recomendo pra quem gosta de cebola crua. Se esse não for o seu caso e você não tiver cebolinha, melhor deixar as duas de fora e fazer esse prato só com os outros ingredientes.

3x de feijão macaça/fradinho cozido com sal (só os grãos)
1 tomate
Algumas cebolinhas (ou um pedaço de cebola)
1-2 pimentas de cheiro (opcional, só use se gostar)
Um punhado de coentro
Azeite, limão, sal e pimenta do reino a gosto

É importante que o feijão seja temperado quente, pra que ele absorva bem os temperos e fique saboroso. Então cozinhe o feijão com sal e deixe descansando dentro da panela fechada, no caldo, enquanto prepara os outros ingredientes.

Pique o tomate, a cebolinha (a parte verde e branca), a pimenta de cheiro e o coentro e coloque tudo no recipiente em que for servir. Se estiver usando cebola crua, pique um pedaço, de acordo com seu gosto, o mais miúdo possível.

Coloque o feijão cozido ainda quente (só os grãos) sobre o tomate/cebolinha/pimenta de cheiro/coentro picados. Regue generosamente com azeite, tempere com uma pitada de sal, pimenta do reino e suco de limão a gosto (comece espremendo meio limão). Misture bem, prove e corrija o tempero. Escute seu paladar e junte mais um bocadinho de azeite, limão ou pimenta, se desejar.

*A foto de abertura desse post foi feita numa feira da agricultura familiar na Palestina, poucos meses depois de ter criado o blog.

O texto poderia ter só essa frase, mas vou desenvolver a ideia, caso você precise ser convencida.

Lembram do meu grãomelete, o omelete à base de grão de bico? Lembram que fiz uma versão atualizada com farinha de grão de bico? Pois vim atualizar essa receita novamente e tenho ótimas razões pra isso.

Primeiro: o que é grãomelete?
Se você ainda não descobriu essa maravilha, deixa eu explicar que ele representa um pequeno Everest pra culinária vegetal. Durante os primeiros anos do meu veganismo eu ainda sentia falta de ovo. Até que um dia eu percebi que não era do ovo em si que eu sentia falta, pois já nem lembrava mais do sabor, mas da praticidade que o ovo oferece. Você quebra um ovo na frigideira, coloca num pedaço de pão e em poucos minutos tem uma refeição. E da versatilidade dele na versão salgada: omelete, tortillas, fritadas… Então quando o grãomelete entrou na minha vida (quase) todos os meus problemas acabaram. Quem imaginava que a mistura de grão de bico e água pudesse resultar em algo que se comportaria de maneira muito similar ao ovo? Então grãomelete é um omelete feito com grão de bico (seja farinha de grão de bico ou o grão inteiro, como expliquei na primeira receita de grãomelete que publiquei aqui).

Passemos à fermentação.
Algumas pessoas que conheço tinham problemas pra digerir o grãomelete feito com farinha de grão de bico e água. Veja, a farinha é simplesmente o grão de bico cru moído. Sabemos que leguminosas (principalmente grão de bico, feijão, ervilha) precisam ficar de molho no mínimo 12 horas pra se livrarem das enzimas que dificultam a digestão. O processo de triturar o grão também destrói essas enzimas, mas o estômago de muita gente continuava reclamando. Além disso, eu achava o sabor do grãomelete feito com a farinha inferior, pois eu sentia um gostinho de cru lá no fundo. A gente sabe que grão de bico leva um tempão pra cozinhar e farinha é o grão cru. Não tinha quem me fizesse acreditar que aqueles poucos minutos na frigideira (mais que isso e ele queima) eram suficientes pra cozinhar o danado.

Então um dia tive a ideia de dissolver a farinha de grão de bico na água e deixar descansando uma noite antes de fazer o grãomelete. Pensei que assim o grão de bico (mesmo em versão farinha) ficaria mais mole e cozinharia mais rápido. Bingo! Resolvido o problema do leve sabor de cru. Fiz algumas receitas (influenciada digitalmente pelas blogueiras do Instagram) de pão de frigideira com grão de bico cru, onde elas falavam pra misturar a farinha com outras coisas e deixar cozinhar 5 minutos na frigideira e sempre foi um fracasso. Me pergunto se só eu consigo sentir o sabor de cru dos pratos que usam esse método…

Mas a história não parou aí. Um dia fiz mais massa pra grãomelete do que precisava usar no momento e esqueci o resto num canto da cozinha. No dia seguinte ela tinha fermentado espontaneamente. Faço parte das entusiastas de fermentação e uma bacteriazinha nunca me assustou, então fui em frente e preparei o grãomelete mesmo assim. Ficou ainda melhor! E agora, fermentado, o problema da indigestão tinha sido resolvido. As bactérias pré-digerem a massa e fica bem mais leve no estômago.

Desde então me tornei a evangelizadora do grãomelete fermentado. Eu preparo a massa na noite anterior e deixo em temperatura ambiente, coberta com a tampa (mas sem enroscar a tampa), pra preparar pro café do dia seguinte. Dependendo da temperatura na sua casa, 12 horas serão suficientes pra fermentar levemente a massa. Aqui, no inverno europeu, preciso de mais tempo, então eu desenvolvi um método pra ter sempre grãomelete fermentado em 12 horas: uso o mesmo pote, sem lavar, de uma leva pra outra. As bactérias da leva anterior, que ficaram no pote junto com um restinho da massa, atuam como um levain, um fermento natural. Funciona muito bem. De vez em quando lavo o pote (quando começa a ficar cheio de crostas das levas anteriores) e começo o processo novamente.


Outra dica de ouro: prepare uma quantidade grande, deixe fermentar ligeiramente e guarde (dessa vez bem tampado) na geladeira. O frio vai frear a fermentação e você vai ter a possibilidade de preparar um grãomelete (ou uma tortilla) sempre que quiser. E assim consegui ter de volta a praticidade e versatilidade culinária que uma bandeja de ovos me proporcionava, mas sem explorar as companheiras galinhas.

Grãomelete fermentado

Não precisa de receita, só instruções e dicas, então lá vai. E se você ficou curiosa sobre o que tem na foto de abertura do post, é grãomelete com cogumelos.

Misture farinha de grão de bico com água aos pouquinhos, mexendo vigorosamente pra evitar os grumos. A consistência deve ficar pastosa, mas não muito espessa. Cubra com a tampa (não enrosque a tampa, só coloque por cima pra evitar que mosquitos caiam na massa) e deixe na cozinha, em temperatura ambiente, por 12 horas. Ou seja: prepare à noite pra comer no café ou pela manhã pra comer no jantar.

No dia seguinte, dependendo da temperatura na sua cidade, vai ter ocorrido uma leve fermentação selvagem (com bactérias que vivem no ar). Você vai notar algumas bolinhas na massa, que vai estar mais aerada. Se isso não ocorrer você tem duas opções. 1- preparar seu grãomelete mesmo assim (já vai estar mais macio e gostoso do que se tivesse usado a farinha crua sem o tempo de descanso) ou 2- deixe mais tempo em temperatura ambiente, até ocorrer a fermentação.

Pra fazer o grãomelete basta colocar água suficiente pra textura ficar quase totalmente líquida, temperar com sal a gosto (ervas secas ou frescas, alho, cebola desidratada, páprica, pimenta do reino, tudo isso pode ser acrescentado à massa), esquentar um pouco de óleo ou azeite em uma frigideira antiaderente (tem que ser antiaderente, senão gruda) e espalhar uma camada de massa e cobrir a frigideira. Deixe cozinhar uns minutos, em fogo médio, até ficar firme na parte superior. Retire a tampa, espere alguns segundos pro vapor ir embora e as bordas secarem um pouco e vire, usando uma espátula grande. Doure do outro lado e sirva.

Algumas informações suplementares, mas muito úteis:
-A consistência da massa vai determinar a textura do grãomelete. Se a massa tiver muito espessa, o grãomelete vai ficar pesado. Eu gosto de grãomelete ligeiramente cremoso por dentro, o que é possível quando a massa tem bastante água, pra ficar na textura de um leite. Mas é mais complicado pra assar: demora mais e precisa de uma frigideira realmente antiaderente, senão é lambança na certa e seu grãomelete vira grão mexido. Feio, mas gostoso do mesmo jeito.
-Pras pessoas que tem problemas pra virar o grãomelete: infelizmente só posso recomendar trocar de frigideira. Se não for antiaderente e em ótimo estado, não vai rolar. Mesmo assim não deixe de usar óleo/azeite.
-Se quiser um grãomelete levemente crocante nas bordas, use mais azeite. Lembre que grão de bico não tem gordura, por isso acho que com uma quantidade mais generosa de azeite seu grãomelete fica ainda mais gostoso e com a textura mais bacana.
-A massa fermentada pode ser conservada vários dias na geladeira. Uns 4-5.
-Se seu grão fermentou demais, ele vai ficar com um sabor ligeiramente ácido. Eu adoro, mas se você achar ruim, fermente menos da próxima vez.
-Se você mora em um local frio, considere adotar o meu método do pote sujo (explicações no texto acima) pra fermentar seu grãomelete mais rápido.
-Com a massa fermentada você pode fazer outras coisas além do grãomelete: quiches, tortillas, fritadas, rabanada e, minha última invenção, grão na chapa.

Umas semanas atrás escrevi esse post sobre sarraceno, uma das melhores descobertas gastronômicas que fiz na vida (obrigada, veganismo, por ter expandido tanto os meus horizontes gastronômicos) e prometi a receita dos meus famosos crepes de sarraceno. Vou começar dizendo que essa receita não foi uma invenção minha, longe disso. Crepe de sarraceno é um prato típico da Bretanha, região no Noroeste da França. Lá eles são chamados de “galettes au blé noir” (“galettes de trigo negro”, como o sarraceno também é conhecido em Francês) ou simplesmente “galettes Bretonnes”.

Não me recordo se já conhecia essa delícia na minha vida pre-vegana, mas lembro que alguns anos atrás peguei um pacote de galettes prontas (sem recheio) num supermercado francês e me surpreendi ao perceber que a receita era naturalmente vegana. Na França você não vai colocar as palavras “tradicional” e “vegana” juntas com frequência e é um mistério que um dos raríssimos pratos típicos 100% vegetal venha da Bretanha, região famosa pelo queijo e creme e por colocar manteiga em absolutamente tudo. Tem até um bolo típico de lá que é praticamente manteiga e açúcar com duas pitadas de farinha, um tal de “kouign aman” (nunca comi, mas quem provou me disse que o estômago reclamou bastante depois de ser forçado a digerir tanta gordura saturada de uma vez).

Infelizmente o fato das galettes serem naturalmente veganas não significa que você, amiga vegana, vai poder entrar em qualquer creperia bretã e poder degustar uma. Não podemos esquecer que estamos falando da Bretanha (e da França) e que todos os recheios servidos por lá são à base de animais e suas secreções. A última vez que estive nessa região foi em 2013. Anne e eu entramos em todas as creperias da cidade onde estávamos hospedadas (Saint Malo, uma cidadezinha linda no litoral) e não encontramos uma só galette com recheio vegano. Como diz a minha mama, nem uma pra fazer um chá! O jeito foi comprar as galettes sozinhas e preparar recheios em casa. Aliás naquela viagem criei um recheio com algas frescas, mais um alimento típico da região, que ficou registrado nas nossas papilas, mas isso é outra história.

Voltemos à galette. A receita não poderia ser mais simples. Só tem dois ingredientes (três, se você contar o sal) e exige apenas um liquidificador e uma frigideira. Bem mais em conta que uma viagem à França. Como interroguei todas as cozinheiras e cozinheiros das creperias em Saint Malo, na esperança de achar um recheio feito com plantas, acabei encontrando um que concordou em me dar a sua receita e descobri exatamente como é feito por lá.  E por ser uma alma boa (e modesta) vim aqui compartilhar o segredo com vocês. O pessoal na Bretanha usa farinha de sarraceno, mas além de ser um produto difícil de encontrar, acho o sabor da farinha inferior quando comparado ao sarraceno em grãos. Minha teoria é que provavelmente os grãos pra fazer aquela farinha tenham sido moídos meses atrás e foram ficando rançosos. Não posso garantir que minha teoria tem fundamento, talvez eu tenha simplesmente comprado um saco de farinha velha anos atrás, mas o importante é que não só é possível fazer crepes de sarraceno com os grãos inteiros descascados, como o sabor fica, na minha opinião, ligeiramente superior.

O segredo que o cozinheiro bretão compartilhou comigo foi o seguinte: prepare a massa no dia anterior e deixe fermentando em temperatura ambiente. As bacterias que moram no ar vão entrar na massa, fermenta-la levemente e ela vai ficar mais aerada e com um sabor mais complexo. Eu já esqueci a massa por 48h e ela fermentou bastante e ficou bifásica, com um líquido claro na parte superior e uma massa mais densa na parte inferior. Eu não gosto de desperdício e não tenho medo de fermentar loucamente minha comida, então fiz os crepes apesar do cheiro forte da massa e ficou uma delícia. O sabor ficou bem intenso (não espalha, mas me lembrou camarão seco), o que não vai agradar todo mundo e preciso avisar que não posso me responsabilizar pelos resultados. Se você quiser brincar com as bactérias da sua cozinha e comer o resultado, será por sua conta e risco.

Eu fiz uma oficina de receitas francesas ano passado em Recife e ensinei a fazer esses crepes. Mas como precisava fazer a massa e preparar os crepes imediatamente, o que significava que não podia deixar a massa repousando por 12 horas, usei um atalho. Acrescentar um pouquinho de vinagre de maçã (não pasteurizado) dá uma certa leveza à massa e acrescenta uma pontinha de acidez, o que aconteceria durante o processo de fermentação. Você pode fazer isso numa emergência, mas o método de preparação natural produz resultados melhores.

Então aqui está a receita das deliciosas galettes bretãs, ou crepes de sarraceno. Quem leu o post sobre sarraceno sabe que ele não tem glúten e é uma proteína vegetal completa, então acho esses crepes muito melhores do que os tradicionais feitos com farinha de trigo. Muitas pessoa me perguntam como fazer crepes sem ovos e leite e embora eu tenha postado a minha receita aqui, acho que muito mais interessante do que veganizar crepes convencionais é troca-los por crepes de sarraceno.

 Crepes de sarraceno (galettes bretãs – sem glúten)

Não espere o mesmo sabor de crepes feitos com farinha de trigo. Esses aqui têm um gosto mais forte, com notas ligeiramente amargas, típico do sarraceno. Quem nunca provou pode estranhar um pouco, mas garanto que depois do segundo crepe você terá sido conquistada.

1x de sarraceno em grãos (cru, descascado)

3x de água

Pitada generosa de sal

Bata o sarraceno com a água e o sal no liquidificador até virar uma mistura bem lisa (esfregue um pouco entre os dedos pra testar). Transfira a massa pra um recipiente (de preferência de vidro), cubra com um pano de prato limpo e deixe em temperatura ambiente por 12 horas. Eu faço à noite pra comer no almoço do dia seguinte, ou de manhã pra comer no jantar. A massa vai fermentar ligeiramente (um processo natural, não precisa acrescentar nada) e o sabor e a textura ficarão ainda melhores.

Depois de período de  descanso/fermentação esquente uma frigideira anti-aderente (importante! Se a sua frigideira não for anti-aderente e seu crepe não der certo, não me culpe, pois eu te avisei) com algumas gotas de azeite. Despeje um pouco de massa no centro e imediatamente vire a frigideira em um movimento circular pra massa escorrer pros lados. O crepe deve ficar finíssimo e você pode usar as costas de uma colher pra terminar de espalhar a massa. Deixe cozinhar em fogo médio e assim que descolar, vire o crepe pra cozinhar do outro lado. Uma espátula fina e plana é a sua melhor amiga na hora de virar crepes sem rasga-los. Se o primeiro não sair perfeito, não se preocupe. Dizem que o primeiro crepe nunca dá certo, mesmo. Coma esse crepe como consolo enquanto faz o segundo. Você merece. Repita a operação até ter usado toda a massa, colocando algumas gotinhas de azeite na frigideira antes de cozinhar cada crepe. Eu consigo fazer 6 crepes médios (e fininhos) com essa receita, mas esse número pode variar dependendo do tamanho da sua frigideira e da espessura dos seus crepes.

Recheie como preferir e sirva, de preferência acompanhado de uma salada verde. Você pode dobrar os crepes como uma tapioca, ou tentar a maneira tradicional bretã, como nas fotos acima. Pra isso coloque o recheio no centro do crepe e dobre a parte direita e esquerda do crepe por cima do recheio.  Em seguida dobre a parte superior e inferior da mesma maneira, formando um quadrado, mas deixando uma parte do recheio exposta no meio. Nas fotos acima recheei os crepes com berinjela e cogumelo salteados, cubos de tofu defumado e queijo de castanha.

A massa crua pode ser guardada na geladeira por uns dois dias, em recipiente fechado. Os crepes prontos podem ser guardados na geladeira pelo mesmo tempo. Esquente na frigideira (com umas gotinhas de azeite ou não) antes de degustar. Eles ficarão mais crocantes, mas igualmente deliciosos.

Sugestões de recheios

Espinafre com creme

Cogumelo com creme (refogue cogumelos e use o creme da receita acima)

Tofu mexido com tomate e manjericão

Patê de tofu, tomate seco e ervas

A berinjela de dona Laura

Requeiju + legumes refogados

Hummus, tomate e rúcula

Qualquer pasta que você gostar, mais legumes crus ou refogados

Banana caramelizada e chocolate derretido