Macarronada com berinjela e casca de banana

Eu acredito que as pessoas cozinham errado com casca de banana. Sabe esse negócio de usar casca de banana na culinária (“carne de casca de banana”, como algumas pessoas falam)? A ideia de reduzir o desperdício é ótima. A vontade de expandir a categoria de “carnes vegetais” também. Pra quem ainda tem apego pela ideia de “mistura”, parece ser uma opção extremamente acessível, afinal se trata de transformar algo que iria pro lixo em prato principal. Mas é exatamente aqui que a coisa desanda, na minha opinião. 

Sou a favor de usar todas as partes comestíveis dos vegetais. Mas quando essas partes comestíveis não são muito apetitosas, como é o caso da casca da banana, devemos colocar isso em prática de maneira inteligente. A lição aqui é algo que vi minha mãe fazer durante toda a minha infância: usar um ingrediente barato pra aumentar o volume do prato. O erro, ao meu ver, é achar que “carne de casca de banana” pode ser o ingrediente principal, ou que pode ser usada sozinha como recheios. Seria incrível se a casca da banana fosse, além de barata (na verdade, gratuita, já que ela acabaria no lixo), deliciosa. Mas sejamos honestas aqui: ela não é e vai precisar da ajuda de vários outros ingredientes pra se tornar interessante.

Estamos atravessando tempos difíceis e a fome está batendo na porte de milhões de pessoas no Brasil. Saber usar a totalidade dos vegetais, da casca à semente, é uma competência que precisa ser adquirida. E isso significa aprender que em muitos casos as partes que costumam ser descartadas dos vegetais são tão deliciosas, ou mais, do que a parte que costumamos comer (o talo do brócolis, as folhas da couve-flor…), e que podem inclusive ser consumidas sozinhas e apreciadas pelo seu sabor. Enquanto que em outros casos devemos aceitar que a maior contribuição da parte que seria descartada será a de “aumentar o pouco” (casca de banana, presente!).

Tudo isso pra dizer que na última vez que estive em Natal fiz uma macarronada que tinha casca de banana como um dos ingredientes e ficou supimpa. “A casca de banana deixou a receita supimpa?”, a pessoa que ainda acredita no potencial gustativo da casca de banana pergunta. Não e afirmo, sem medo de fazer inimizades no campo das empolgadas da “carne de casca”, que a receita teria ficado igualmente supimpa sem ela. A contribuição dela foi, como expliquei acima, aumentar o pouco. No caso, o pouco era a berinjela. 

Comecei falando de receitas pra enfrentar tempos de carestia e sei que alguns olhos vão revirar ao ver que tem castanha na receita, um ingrediente caro. Berinjela também não é o legume mais acessível em todos os lugares do Brasil. Sem falar que visto o preço do gás, usar o forno se tornou algo impensável pra muita gente no momento. Mas se você não puder fazer esse prato do jeitinho que eu explico aqui, espero que pelo menos a receita te ensine a preparar casca de banana e sirva de inspiração pra futuras comidas que sairão do sua cozinha. 

Macarronada com berinjela e casca de banana

Essa é mais uma daquelas receitas sem medidas, porque cozinha de panela e do dia-a-dia não precisa de medidas exatas pra dar certo. Use seu paladar, e o que estiver disponível, como guia que não tem erro. Pode usar casca de banana madura ou verde, caso você tenha cozinhado banana verde pra fazer biomassa, por exemplo. 

Casca de banana (qualquer banana – usei casca de banana da terra que eu tinha cozinhado pro café da manhã), picada miúdo

Cebola, picada

Tomates bem maduros, picados

Berinjela, em cubos pequenos

Alho, picado/amassado

Castanha de caju (qualquer tipo)

Molho de soja (shoyu)

Óleo ou azeite

Temperos: páprica defumada, pimenta preta, orégano desidratado

Sal 

Macarrão (usei conchas, mas qualquer um serve)

Cubra as castanhas de caju com água quente e deixe descansando enquanto prepara a receita.

Em uma panela pequena, despeje óleo (ou azeite) suficiente pra cobrir o fundo e frite a casca até ficar marrom-dourado. Tempere com bastante molho de soja e páprica defumada, se tiver, e reserve.

Em outra panela, maior, refogue a cebola em um pouco de óleo. Junte o alho e a berinjela, tempere com sal, refogue mais alguns segundos, baixe o fogo e deixe cozinhar, coberto, até a berinjela ficar macia. Não precisa acrescentar água, basta manter o fogo baixo, a panela coberta e mexer com uma colher de pau de vez em quando. Junte o tomate picado em quantidade (aproximadamente quatro vezes o volume da berinjela), junte mais um pouco de sal e deixe cozinhar, sempre coberto, até o tomate se desintegrar e se tornar um molho espesso. Junte a casca da banana frita, a pimenta preta e o orégano, prove e corrija o sal, se necessário. Capriche no tempero e deixe os sabores bem intensos, pois ainda vamos acrescentar creme de castanha e macarrão aqui.

Ferva uma quantidade grande de água salgada pra cozinhar o macarrão e enquanto espera ela ferver, finalize o molho.

Bata as castanhas (que ficaram descansando na água fervente) no liquidificador com água suficiente (a mesma) pra formar um creme ralo. Comece com pouca água e vá acrescentando mais até atingir a consistência de um leite espesso. Esse creme de castanha engrossa no calor, então não se preocupe se parecer ralo demais agora. Despeje o creme de castanha no molho de tomate-berinjela-casca de banana, misture bem e corrija o sal (vai precisar de mais depois de acrescentar as castanhas). A proporção de creme de castanha pra molho de tomate fica por sua conta, mas eu diria que o creme deve representar mais ou menos um terço do volume total.

Cozinhe o macarrão, mas escorra antes de ficar completamente cozido (80%, eu diria), já que ele ainda vai pro forno e vai continuar o cozimento lá. Misture o macarrão com o molho, coloque numa forma e leve ao forno quente pra terminar de cozinhar e gratinar um pouco (coloque no modo “grill”, se seu forno tiver essa opção). 

Retire do forno e deixe descansar alguns minutos antes de servir.

A feijoada vegetal que você sempre quis

Seria mais acertado se o título desse post fosse “a feijoada vegetal que eu sempre quis”. Mas se você é uma pessoa que, como eu, adora feijoada, provavelmente você também queria muito essa receita.  

Veja, feijoada “vegana” tem muitas por aí. (Escrevo “vegana” entre aspas porque acredito que apenas pessoas são veganas, comida é “vegetal”.) Provei inúmeras feijoadas vegetais desde que me tornei vegana mas nenhuma era o que eu procurava. Teve feijoadas com verduras (pra mim o nome disso é sopa de feijão), com as caríssimas linguiças vegetais industrializadas (quase sempre acho esses sabores artificiais demais) e as que incluem ingredientes bacanas -tofu, cogumelos- mas sem o sabor marcante e característico de uma boa feijoada. Eu cresci comendo a feijoada de uma pessoa próxima da família que era um desbunde, então meus critérios de avaliação são altos. 

Uma palavrinha sobre a tendência a atolar verduras (cenoura, batata, tomate) na feijoada “vegana”. Parece que a cabeça de algumas pessoas buga quando elas cozinham versões vegetais de comida tradicionalmente feita com animais. Algo como “se é pra ser vegana, deixa eu colocar uma ruma de vegetais nada a ver aqui porque vegana gosta de verdura, né?” Vejo isso principalmente quando uma pessoa não-vegana cozinha pra pessoas veganas. Sim, gostamos muito de verduras, mas feijoada é um prato que tem um padrão de sabor e textura definidos e mexer nisso a transforma, não numa feijoada “vegana”, mas sim em outro prato (sopa de feijão, como já disse).

Talvez você faça parte do grupo de pessoas que não gostava muito daquela orgia de carnes no feijão antes mesmo de se tornar vegana e fique feliz com uma “feijoada” (sim, eu julgo) composta por feijão preto e verduras. Tranquilo, é direito seu. Porém a minha receita é pro pessoal que gostava da feijoada tradicional, do sabor defumado intenso e da mistura de texturas firmes/moles/elásticas junto com o feijão. E se você se encaixa nesse grupo provavelmente se decepcionou muitas vezes procurando essa combinação mágica nas feijoadas vegetais servidas por aí. Suas penas acabaram, compa.

Mas antes de passar pra receita, uma palavrinha sobre embutidos vegetais (salsicha, linguiça). Muita gente usa esses ítens nas suas receitas de feijoada vegetal e, mais uma vez, se isso te deixa feliz, está aqui a mulher que não vai te criticar. Eu, particularmente, tenho dois problemas com esses produtos. O primeiro é, como já mencionei acima, uma questão de sabor, pois acho tudo com gosto artificial demais pro meu paladar e, algumas vezes, uma textura meio estranha também. O segundo é a acessibilidade: esses produtos custam um rim e são difíceis de encontrar. Até o adorado tofu defumado, presença garantida de tantas feijoadas vegetais, cujo sabor me agrada imenso, é muito mais caro que a versão não-defumada.

A minha receita reúne todos os elementos característicos de uma boa feijoada com a vantagem extra de usar ingredientes mais fáceis de encontrar e mais baratos também. E leva zero ultraprocessados! Uso berinjelas, tofu comum e shimeji, que juntos formam um dos trios mais delicioso do mundo vegetal. Preparo metade das berinjelas como na receita de Dona Laura, cortadas em palitos e depois levemente fritas, e elas se transformam em carnes vegetais suculentas dentro do feijão. A outra metade é assada na chama do fogão, como na receita de muta’bal, e é daí que vem o sabor defumado intenso e característico de feijoada. Tive essa ideia um dia quando estava tentando dar o sabor defumado a um prato, mas não tinha nem fumaça líquida nem tofu defumado. Trago boas novas: você não precisa nem de um nem de outro e pode usar esse truque pra defumar qualquer receita, sem passar por ingredientes processados, caros ou difíceis de achar. O tofu entra aqui pra dar enriquecer a variedade de texturas, assim como o shimeji, que também cumpre a função de acrescentar mais uma camada de complexidade (e de umami) ao sabor do prato. Cogumelos são as verdadeiras carnes vegetais.

Talvez você veja o modo de preparo e ache que minha receita é trabalhosa demais. Vou argumentar que feijoada é um prato pra ser degustado em ocasiões especiais, não é algo que fazemos no dia a dia. E você sempre pode fazer uma quantidade grande e congelar a metade pra degustar outro dia. Duas feijoadas pelo trabalho de uma!

Minha feijoada 

Como já é costume aqui, não tem medidas exatas. Os ingredientes aparecem em ordem decrescente, ou seja, do usado em maior quantidade ao usado em menor quantidade. Pra simplificar mais ainda guarde essa informação em mente: no final tem que ficar, idealmente,  metade feijão, metade “recheios”. Se você perdeu a noção e acabou preparando recheio demais, guarde uma parte pra usar em outro prato. Importante: do momento em que coloca o feijão de molho ao momento de degustar a feijoada, você vai precisar de 3 dias. Se planeje em função disso.

Feijão preto

Berinjelas

Cebolas

Tofu

Cogumelo shimeji (tem que ser esse)

Óleo/azeite

Shoyu (molho de soja)

Louro

Sal e pimenta preta 

Dia 1

Deixe o feijão preto de molho (pelo menos 12 horas). 

Dia 2

Descarte a água da demolha, cubra o feijão com água limpa, junte uma ou duas folhas de louro (dependendo da quantidade de feijão que você estiver cozinhando), uma pitada generosa de sal e cozinhe na pressão até ficar macio. Reserve.

Enquanto isso prepare os outros ingredientes. Dica: você também pode preparar os outros ingredientes no dia 1 e reservar tudo na geladeira pra ser usado no dia seguinte, quando cozinhar o feijão.

Você vai preparar a berinjela de duas maneiras, então vamos supor que esteja usando 4 berinjelas médias. Prepare 2 berinjelas como nessa receita. Clique no link pra ver os detalhes, mas aqui vai um resumão: corte as berinjelas em palitos bem finos, salgue generosamente, deixe descansar pelo menos meia hora num escorredor de macarrão dentro de um recipiente maior (pra soltar parte do líquido), depois esprema bem entre as mãos (pra retirar o máximo de líquido) e frite em um pouco de óleo/azeite, mexendo algumas vezes, até ficar bem dourada. Reserve.

As outras 2 berinjelas (se tiver usando 4 ao todo) você vai assar diretamente na chama do fogão, como ensinei nessa receita. Resumão: coloque as berinjelas (inteiras, sem descascar) diretamente sobre a chama, virando pra assar de todos os lados, até ficar carbonizada (não tenha medo, tem que queimar por fora, mesmo). Retire do fogo, corte ao meio no sentido do comprimento e retire a polpa assada com uma colher. Reserve.

Corte os cogumelos shimeji em pedaços médios-pequenos (deixe os mais miúdos inteiros). Aqueça um pouco de óleo/azeite em uma frigideira grande e jogue os cogumelos dentro. Salgue e deixe cozinhar, mexendo de vez em quando, até ficar levemente dourado. Reserve.

Corte as cebolas em 4, no sentido da altura. Não subestime esse ingrediente humilde, elas são muito importantes na receita. Então se tiver fazendo 1/2kg de feijão, use 4 cebolas médias. Numa panela média aqueça óleo/azeite suficiente pra formar uma camada fina no fundo. Doure os pedaços de cebola em fogo médio, sem mexer, até dourar. Vire os pedaços e deixe dourar do outro lado. É importante que elas fiquem bem douradas, quase caramelizadas, então tenha paciência. Pessoas pacientes serão recompensadas. Reserve.

Corte o tofu em cubos médios/pequenos e doure em um pouco de óleo. Tempere com bastante shoyu e reserve. 

Chegou a hora de juntar tudo. Coloque as cebolas caramelizadas (as camadas vão se soltar, é normal), o tofu, o cogumelo, a berinjela em palitos e a polpa de berinjela assada dentro do feijão cozido. Feche a pressão e leve ao fogo só até começar a apitar. Desligue imediatamente o fogo e deixe a pressão sair naturalmente. 

Você pode degustar a feijoada nesse ponto, mas deixa eu te dizer que se você conseguir esperar até o dia seguinte ela vai ficar duas vezes mais gostosa. Prometo. Vale a pena esperar. Se você terminou de preparar a feijoada à noite, pode deixar em temperatura ambiente pra ser degustada no almoço do dia seguinte. Se preparou de manhã/tarde, ferva novamente à noite (sem colocar a pressão) pra que ela não azede enquanto você dorme. Você também pode optar por não ferver de novo e colocá-la pra dormir na geladeira (depois de fria), se sua panela couber dentro. Se quiser congelar uma parte da sua feijoada pra ser degustada outro dia, já pode. 

Dia 3

Ferva a feijoada novamente em fogo brando, até começar a aparecer bolhas pequenas, antes de degustá-la no almoço do dia seguinte.

Não esqueça os acompanhamentos: couve refogada, arroz, farofa e laranja (e, no nosso caso, batata doce cozida 😉

Tofu com berinjela e pimentão

Minha mãe era uma mestra em fazer render a mistura. Ela juntava vegetais à pequena porção de animal disponível, fazendo o conteúdo da panela triplicar de volume, pra poder alimentar todas as bocas ao redor dela. 

Tenho opinões fortes (impopulares?) sobre trazer a noção de mistura pra alimentação vegetal e escrevi sobre elas nesse post. Mas, assim como minha mãe e muita gente que cresceu empobrecida, carrego comigo a prática de “fazer render a mistura”.

A dica é simples e útil pra quem quer utilizar ingredientes especiais sem gastar o salário do mês numa refeição. (AVISO: Não precisa de ingrediente raro e gringo pra cozinhar pratos vegetais deliciosos. Mas é divertido expandir nossos horizontes gastronômicos de vez em quando, se o bolso permitir.)

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Reabilitar a fava

Gosto de me dar missões difíceis. Como, por exemplo, reabilitar a fava. Poucos alimentos do reino vegetal são tão mal-amados e mal-afamados como a fava. Eu já defendi publicamente o quiabo e o maxixe. Um dia volto pra falar de jiló, que também aprecio. Mas hoje, vamos falar sobre ela, a rainha dos feijões.

Eu poderia falar das propriedades nutricionais da fava, mas não é o propósito do meu trabalho. Minha ambição é fazer você se apaixonar pela comida que vem da terra porque ela é deliciosa e porque ela conta a historia do nosso povo e nos conecta ao nosso território. E é justamente no meu território, o Nordeste, que o apreço pela fava ainda resiste. Mas até lá as coisas mudaram e esse alimento tão nutritivo e saboroso se tornou comida de antigos e de pobres. Triste isso de ver a que ponto a comida que vem da terra é constantemente categorizada como “comida de pobre” (coisa “de rico” é consumir animais) e em seguida desprezada. O próximo passo é parar de cultivar esse alimento, já que ninguém mais quer comê-lo e aos poucos vamos perdendo biodiversidade no campo e variedade na mesa. E deixando pra trás a nossa cultura alimentar. Não somos mais o povo que come fava, somos o povo que come frango congelado e, pra quem tem mais dinheiro na conta, sushi de salmão geneticamente modificado e alimentado com soja transgênica, vinda da monocultura, da grilagem de terras e manchada com sangue indígena.  

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Maxixada

Há muitos anos declamei aqui o meu amor por maxixe na forma de pirão. Maxixe é um legume um pouco esquecido e que aparece mais em feiras do que em supermercados (mais um motivo pra não frequentar supermercados). O pirão ainda é um dos meus pratos preferidos, mas descobri recentemente (graças à minha irmã Lu) que maxixe com leite de coco também é um desbunde!

Repare que tudo com leite de coco fica melhor. Repare também que a receita do que a gente começou a chamar de “maxixada” (tradução: maxixe no coco) lá em casa é mais uma versão da fórmula “legumes + leite de coco + coentro”. Que você use banana da terra ou caju (e chame de “moqueca”), quiabo ou maxixe, os ingredientes da base e o preparo são os mesmos. Mas apesar de compartilhar os elementos, o resultado final é sempre distinto, já que o ingrediente principal muda. E digo mais. Se estamos repetindo essa fórmula, mudando somente o ingrediente principal, é por uma razão: é sempre uma delícia!

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Macaco

A estrada que vai pro povoado onde o meu pai mora, no Sertão potiguar, passa por algumas das cidades com os melhores nomes que conheço. Tem “Cachoeira do Sapo” e, logo depois, “Caiçara do Rio do Vento”, que é o nome de cidade mais poético que já ouvi (embora um rio do vento é um rio que secou e isso, no Sertão, é drama, não poesia). Quando eu era criança misturava os nomes dessas duas cidades e durante anos pensei que tinha uma “Cachoeira do Rio do Vento”. Lembro de imaginar como devia ser lindo uma cachoeira onde, ao invés de água, caía vento. Aqui no RN tem também outro nome de cidade ótimo: “Santo Antônio do Salto da Onça”. Diz meu pai que o salto que essa onça deu foi tão incrível que passou a ser o nome da cidade, embora oficialmente o lugar se chame apenas “Santo Antônio”. 

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Guisado cubano

Minha irmã caçula, Lu, já apareceu nesse blog várias vezes. Na verdade, quem aparece são as receitas dela. O bolo de laranja dela mudou a vida de muita gente que acreditava que tinha alguma incapacidade genética pra fazer bolos. E convenceu outro tanto de que é possível fazer bolo fofinho sem ovo. Tem também o hummus cubano, que ela me ensinou ano passado e que eu compartilho desde então com todas as pessoas que cruzam o meu caminho. Sucesso absoluto de público e de crítica.

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Feijão de mãe

Esse texto é sobre duas coisas diferentes, mas que se encontram no final. 

Uns dias atrás eu estava reunida com boa parte da minha família, numa casa de praia aqui do lado de Natal. Eu estava preparando o almoço com a minha cunhada e discutíamos sobre o que nós consideramos como essencial em termos de conhecimento culinário. Concordamos que qualquer pessoa no nosso território (o Nordeste) deveria saber preparar o essencial da nossa cultura alimentar: 1- feijão, 2- arroz, 3- cuscuz e 4- tapioca. Assim a pessoa garante sua autonomia alimentar no café, almoço e jantar. O resto (legumes refogados, salada, uma pasta pra passar na tapioca) também é importante, tanto pra ter uma alimentação diversificada quanto pra garantir refeições saborosas, mas deve ser construído em cima dessa base. Isso deve ser adaptado em função da sua cultura alimentar, obviamente. Tapioca não faz sentido pra todo mundo e talvez aí onde você mora o seu “essencial” seja diferente. 

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Creme de milho e cebola

Eu tenho uma pequena lista de assuntos sobre as quais eu gostaria de escrever. Aconteceu muita coisa nos últimos dias que me fizeram refletir e uma das razões que me levam a alimentar esse blog é ter um espaço pra compartilhar essas reflexões (minha pobre família já não aguenta mais minhas palestras cotidianas). Mas aí eu estava encarregada do fazer o almoço hoje e fiz algo tão gostoso que pensei que falar de qualquer outra coisa antes de compartilhar a receita seria um erro. 

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…mas tem quiabo também

Na última vez que estive aqui, no final do ano passado, Fábio, um dos feirantes da CECAFES (Cooperativa Central de Comercialização da Agricultura Familiar de Economia Solidária, do lado da CEASA), que é onde minha irmã Lu compra frutas e verduras pra nossa família, nos contou que preparava quiabo no leite de coco. Dessas coisas lindas que acontecem quando você conhece as pessoas que vendem (no caso da CECAFES, que plantam) a comida que você come: trocamos dicas e receitas. Eu nunca tinha ouvido falar dessa maneira de preparar quiabo, mas como adoro esse vegetal, fiquei curiosa pra testar a versão dele. Acontece que eu gosto tanto de quiabo grelhado que sempre que tinha quiabo em casa eu grelhava o danado e acabei voltando pra França sem preparar o tal do quiabo no coco. Já Lu, mais aventureira em se tratando de quiabo, resolveu seguir a dica de Fábio e foi um sucesso absoluto com a minha família (todo mundo adora quiabo aqui).

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23 de outubro

Pensei em fazer um breve apurado da minha vida no momento, como eu costumava fazer quando esse blog era uma mistura de caderno de receitas e diário de bordo. Era gostoso conversar por aqui, mas acabei afastando o conteúdo pessoal desse espaço porque, aos poucos, minhas leitoras e leitores forma migrando pro Instagram, outras chegaram por lá e nunca vieram pro blog. E, apesar de reclamar regularmente sobre isso, acabei seguindo o movimento e aparecendo mais por lá do que por aqui. Grande erro. Então vim anunciar a volta daquela que não foi.

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Tagine de berinjela

Por causa do covid não pude visitar minha família no Brasil esse ano. Então esse verão (europeu) eu passei umas semanas na casa do meu sogro, no interior da França, junto com o resto da família francesa. Nessas ocasiões cozinho bastante, pois minhas cunhadas adoram minha comida. Os homens também gostam, mas as mulheres são as minhas maiores fãs (eu ouvi “A política sexual da carne”?). As irmãs de Anne (ambas vegetarianas) gostam de tudo que eu faço, mas minha cuncunhada alemã (que come animais, mas prefere, de longe, comer vegetais) tem seus pratos preferidos e espera o ano inteiro pra poder degustá-los. E a minha especialidade que ela mais ama e sempre pede pra eu fazer de novo é tagine.

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A quiche que realmente era quiche

Eu tenho receitas de quiche deliciosas, que estão aqui no blog desde 2011. Tem uma de abobrinha e tomate seco e uma de cogumelo e sálvia e ambas fazem muito sucesso por onde passam. Mas veja, embora eu adore as duas, se eu for bem honesta elas são tortas salgadas, não quiches. A base do recheio delas é tofu, o que apesar de muito saboroso produz um resultado com textura bem diferente do que se espera de uma quiche. Isso é um problema? Nunca foi!

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Fiz uma campanha de financiamento coletivo – e cozinhei feijão

Outro dia uma moça me enviou uma mensagem pelo Instagram dizendo “Acompanho você desde os 11 anos, quando virei vegetariana. Estou com 21 anos agora e vegana há 5 anos.” Além da alegria proporcionada por esse momento Xuxa, me emocionei em saber que tem pessoas que acompanham meu trabalho há dez anos. Quanta honra!

Sim, esse blog completou 10 anos em fevereiro. Já contei como tudo começou?

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Fermente seu grãomelete

O texto poderia ter só essa frase, mas vou desenvolver a ideia, caso você precise ser convencida.

Lembram do meu grãomelete, o omelete à base de grão de bico? Lembram que fiz uma versão atualizada com farinha de grão de bico? Pois vim atualizar essa receita novamente e tenho ótimas razões pra isso.

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Crepes de sarraceno

Umas semanas atrás escrevi esse post sobre sarraceno, uma das melhores descobertas gastronômicas que fiz na vida (obrigada, veganismo, por ter expandido tanto os meus horizontes gastronômicos) e prometi a receita dos meus famosos crepes de sarraceno. Vou começar dizendo que essa receita não foi uma invenção minha, longe disso. Crepe de sarraceno é um prato típico da Bretanha, região no Noroeste da França. Lá eles são chamados de “galettes au blé noir” (“galettes de trigo negro”, como o sarraceno também é conhecido em Francês) ou simplesmente “galettes Bretonnes”.

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Unidas por um prato de grão de bico

Três meses depois de ter me mudado pra Berlim, ainda não encontrei um lar permanente. Atualmente estou em um apartamento lindo, mas que alugamos por apenas algumas semanas, enquanto o proprietário curte as férias na Tailândia. Além das mudanças constantes dificultarem o  desenvolvimento de uma rotina, indispensável pro meu bem estar e pro meu trabalho, essa instabilidade me faz sentir como se eu ainda não tivesse chegado de verdade. Parece que estou suspendida por algum fio invisível e só colocarei os pés no chão quando tiver um cantinho pra chamar de meu. Por isso ainda me parece que cheguei antes de ontem.

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Uma semana quase crua

Me mudei novamente exatamente uma semana atrás. O apartamento novo é lindo, luminoso, espaçoso, minimalista, numa área calma, com o pé direito alto, piso de madeira, varanda e fica a poucos metros de um parque. Tudo que eu procuro em um lar. Uma pena que é mais um lar temporário e só ficarei algumas semanas aqui. O único problema é que o fogão não funciona. O eletricista deveria ter consertado isso no dia seguinte, mas não consertou nada e estou há uma semana sem a possibilidade de cozinhar em casa.

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A fórmula do mexidão RO

Uma das poucas coisas da minha época de onívora que ainda me fazia falta era a capacidade de improvisar uma refeição completa em poucos minutos, simplesmente quebrando um ovo em cima dos restos que eu achasse na geladeira. Não sei se vocês faziam isso, mas eu era uma enorme consumidora de ovos na minha existência pré-vegana.

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Agradecendo com risoto

Já faz mais de um mês que, passando por cima de um medo gigantesco, publiquei a carta que escrevi pro meu irmão aqui no blog e, imediatamente depois, desliguei o computador, apaguei as luzes e me escondi embaixo da coberta. Naquela noite tive febre e vários pesadelos. Acordei com o corpo moído, os olhos inchados e um vazio em algum lugar do meu corpo que não consegui identificar. Precisei de algumas horas pra ter coragem de entrar aqui. Li os comentários de vocês dentro do ônibus e à medida que meus olhos percorriam as palavras deixadas aqui eles se enchiam de lágrimas.

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