O bolo dos meus sonhos

Meu problema com bolos é que, na maioria das vezes, quando coloco um pedaço na boca, minhas papilas detectam um engrolado de farinha de trigo, açúcar e óleo (o que realmente eles são) e não consigo achar isso gostoso. Sei que essa é uma das minhas muitas opiniões impopulares mas bolos não entram na categoria “comida” pra mim. É guloseima, e tudo bem comer guloseimas… se elas te trazem prazer. O negócio é que essa guloseima aí não me traz prazer. 

Veja que, no meu trabalho, eu já defendi a posição de que tentar fazer bolos “saudáveis” é meio absurdo. Bolo é só pra ser gostoso, mesmo, e apreciado com moderação. “Saudável” é um prato de feijão com arroz e couve. Já coloquei abobrinha em um bolo, delicioso, por sinal! Mas não fiz isso pra deixar o danado mais saudável. Se trata de uma receita interessante pra aproveitar um excesso de abobrinha que tenha na geladeira e a textura do bolo realmente é melhorada pelo acréscimo desse vegetal. 

Então não acho que eu deva fazer o esforço de desenvolver bolos “saudáveis” e “nutritivos” pra que se tornem interessantes pra mim. Eu simplesmente deixo os bolos pra quem gosta deles e vou bater meu prato de feijão e comer frutas frescas, feliz da vida. Mais uma vez: não porque fruta é saudável mas porque troco qualquer sobremesa por fruta.

E falando em fruta, os únicos bolos tradicionais (entenda: que usam uma mistura de farinha de trigo, açúcar e óleo) que eu gosto, embora um pedaço pequeno seja o suficiente pra me deixar satisfeita, são o bolo de laranja e, principalmente, o de maracujá que minha irmã Lu e eu fazemos. 

O bolo de hoje está em outra categoria pra mim. Não leva farinha de trigo (de nenhum tipo, na verdade), só tem um tico de óleo e muito menos açúcar do que você espera encontrar em uma receita de bolo. Bolo de macaxeira é uma tradição aqui no Nordeste e sempre foi o meu preferido. Feito com macaxeira inteira (ralada) e coco fresco, quando como bolo de macaxeira tenho a impressão de comer comida e comida muito gostosa!

Uma das minhas cunhadas é famosa na família por fazer o melhor bolo de macaxeira de todos. Mas a receita dela leva ovo e quando me tornei vegana deixei de comer o bolo dela. A pessoa que faz o segundo melhor bolo de macaxeira que já comi, uma amiga da família que mora no Sertão, sempre fez seu bolo sem ingredientes de origem animal. Então quando o veganismo entrou na minha vida, essa amiga passou a ser a minha fornecedora de bolos de macaxeira e ela ainda me manda bolos de presente quando estou em terras potiguares. Eu até pedi a receita dela, mas nunca consegui fazer algo tão bom quanto ela. Até que ano passado minha cunhada, triste por eu não comer mais o bolo de macaxeira dela, disse que ia tentar fazer sem ovos também. Eu fiquei feliz demais porque sabia que, sendo ela a melhor fazedora de bolo de macaxeira que eu conheço, o bolo de macaxeira vegetal dos meus sonhos tinha que sair da cozinha dela. E ela realmente não me decepcionou!

Pedi a receita à minha cunhada, pra ter certeza que dava pra reproduzir os mesmos resultados em outras cozinhas, e depois de ter feito duas adaptações, ela está pronta pra ser compartilhada. As mudanças que fiz foram: 1-deixar de fora o fermento, já que esse não é um bolo fofo, não cresce no forno e o fermente é desnecessário e 2- substituí o coco ralado desidratado por coco ralado fresco, em maior volume, porque era o que eu tinha mas também porque minha intuição culinária me falou pra seguir esse caminho. Alterou ligeiramente a textura e sabor do bolo mas fiquei ainda mais feliz com o resultado. E minha irmã mais velha, outra grande apreciadora de bolo de macaxeira, declarou que eu tinha conseguido fazer um bolo ainda mais delicioso do que o bolo original da minha cunhada. Não me surpreendeu, já que o ovo não tem motivo pra entrar nesse bolo (como eu disse, ele não cresce e a macaxeira – rica em fécula- é mais que suficiente pra dar liga), e ainda vem, com seu cheiro forte, tentar ofuscar o brilho da macaxeira. E ter acrescentado coco fresco, e não desidratado, só aumentou a gostosura: coco e macaxeira foram feitos um pra outra (mais uma prova disso nessa tapioca com coco). 

Mas ter ouvido que ultrapassei minha mestra de bolo de macaxeira, isso sim me surpreendeu.

Bolo de macaxeira com coco

Essa é a receita da minha cunhada, com pequenas modificações minhas. Esse bolo é cremoso, cheiroso e o sabor é uma perfeição. É o meu preferido da vida! Ele fica muito mais delicado com leite de coco fresco. Se você só puder usar leite de coco industrializado, se joga mas saiba que nesse caso o sabor de coco será muito mais pronunciado, comprometendo o protagonismo da macaxeira. Se você gosta de bolo de macaxeira, experimente também o meu bolo de carimã com goiabada. Esse bolo não tem o excesso de açúcar que se espera encontrar em um bolo. Você pode dobrar a quantidade de açúcar, se quiser um bolo mais tradicionalmente doce, mas eu te pergunto: por que fazer isso, compa????? Açúcar deveria ser tempero e não o ingrediente principal.

2,5 xíc. de macaxeira, crua e ralada fina – descascar antes de ralar, obviamente (macaxeira = mandioca = aipim)

1,5 xíc. de coco fresco ralado (aquele usado pra fazer leite de coco)

1 xíc. de leite de coco (fresco e concentrado -use menos água do que o usual)

1/2 xíc. de açúcar (qualquer um)

2 col. de sopa de óleo (usei de coco)

Pitada generosa de sal (com quatro dedos)

Misture tudo com uma colher de pau. 

Unte uma forma pequena com óleo (gosto das formas com buraco no meio) e polvilhe com bastante farinha de mandioca (pode usar farinha de trigo ou coco ralado desidratado, daqueles de pacote). Despeje a massa na forma e leve pra assar em forno médio (não precisa pré-aquecer) até ficar bem dourado nos lados e levemente dourado em cima. No nosso forno, que é bem quente, leva 1h20, mas pode precisar de mais tempo. Compare com a foto abaixo pra saber se ele está pronto. Resista a tentação de colocar o forno no máximo, pra acelerar o processo, pois seu bolo vai queimar por fora antes que a macaxeira cozinhe por dentro.

Deixe esfriar na forma antes de desenformar. Esse bolo é bem cremoso recém-saído do forno, e fica mais firme (embora ainda cremoso) no dia seguinte. 

Observações importantes:

-Se você gosta de bolo de macaxeira cremoso, como eu, é importante que a macaxeira seja ralada bem fina. Eu usei o processador, com a lâmina de ralar em cima mais a lâmina “S” embaixo, pra ficar bem fininho (e ralar tudo em um piscar de olhos). Se você só tiver um ralo grosso, dá certo também. Porém preciso avisar que a textura vai ficar um pouco mais rústica e o bolo, ligeiramente menos úmido. Veja a textura da massa crua na foto abaixo pra ter uma ideia do que chamo de macaxeira “ralada fina”.

-Essa receita faz um bolo pequeno por uma razão importante: bolo de macaxeira tem vida curta. Menos de 48 horas depois de feito ele estraga. Dica: sabemos que está estragado quando o cheiro fica levemente ácido e o bolo “puxa fio” quando cortado. Pelo menos é o que acontece aqui no calor do Nordeste. Sim, você pode deixar na geladeira e talvez ele dure mais um dia se refrigerado mas a consistência muda (fica duro e meio áspero) e acho menos gostoso. Então acho que a solução é fazer um bolo pequeno, mesmo, pra não correr o risco de ter disperdício. 

12 comentários em “O bolo dos meus sonhos

  1. Que delícia, Sandra! Obrigada pela receita. Vou procurar coco fresco ralado e fazer em breve. Nesse Brasil de Paulo Guedes, escolho muito bem quando vou ligar o forno e para qual receita vale “gastar gás”. Essa me parece valer a pena.

    1. Te entendo demais! Aqui na casa da minha mãe, quando ligo o forno já faço um bolo e asso outra coisa ao mesmo tempo, pra aproveitar o gás (o forno é grande).

  2. Sandra, esse bolo é um dos meus preferidos, eu colecionava várias receitas mas nunca tinha feito nenhuma porque tinha receio de não ficarem ótimas e eu gastar aipim a toa, rs.
    Quando vi seu post me animei logo, porque toda receita sua que faço fica deliciosa.
    Fiz ontem. Resultado: é o melhor bolo de aipim que já comi! Obrigada!

  3. como amava esse bolo! apesar de sempre ter ficado chocada com o tanto de aipim que tinha que ralar, na minha família, nunca se fazia porção pequena de nada. adorei ver essa adaptação e voltar a ler teu texto, fazia tempo que não vinha aqui, sempre uma alegria 🙂

  4. Obrigada Sandra por compartilhar seus sonhos e multiplicar essa felicidade pelo mundo! Minha dica pra deixar esse bolo ainda mais irresistível é assar em forminhas pequenas, estilo de cupcake, pra ter crocância por todos os lados. E pra fechar, uma cobertura de goiabada cremosa faz um contraste maravilhoso!

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