Isso explica o silêncio por aqui. Estava fermentando a revolução. Faz uns meses que estou trabalhando em um projeto incrível (Cashewbert), criado por um rapaz muito bacana, Anderson, que acontece de ser brasileiro, ajudando a desenvolver queijos veganos que usam as técnicas e as bactérias da queijaria tradicional. As últimas semanas foram intensas, pois estávamos nos preparando pra abertura da primeira queijaria vegana de Berlim. Kojiterie abriu sexta passada e fica na Hohenstaufenstraße, 39 (Berlim). Por enquanto só funciona às sextas e sábados. Se dez anos atrás me dissessem que um dia existiriam queijarias veganas (já tem algumas mundo afora) e que eu faria queijos veganos em Berlim… eu provavelmente teria tido a mesma reação tive agora, uma mistura de encantamento com empolgação com esperança. O futuro é verde, meu povo (de planta e de mofo), e está ficando cada vez mais delicioso.

 

Estou passando por aqui hoje pra dar sinal de vida e fazer vocês salivarem com nossos queijos, mas também pra fazer alguns anúncios.

Os tours político-ativista-veganos na Palestina de 2018 acontecerão em março. Serão dois grupos, o primeiro do 1 ao 11/03 e o segundo do 16 ao 26/03. Como já tinha uma lista de espera pros próximos tours, quase todos os lugares foram ocupados. Só tem um lugar disponível no segundo grupo e se você quiser se juntar à nós peço que entre em contanto por email (papacapimveg@gmail.com). Não dou informações sobre os tours nos comentários, só por email. Essa vaga vai desaparecer rapidinho, então se você se interessou, se apresse em me escrever.

Em maio acontecerão os tours gastro-veganos em Paris e os dois grupos estão completos. Como o interesse foi grande, estou pensando em abrir um terceiro tour no segundo semestre de 2018 e quem quiser receber mais informações e entrar pra lista de espera deve me mandar um email. Ainda não sei onde estarei no segundo semestre de 2018, mas se voltar a morar em Berlim adoraria fazer tours gastro-vegano-políticos por aqui também. Eu não tinha planejado fazer esse tipo de trabalho, mas percebi que é um dos projetos que mais me trazem alegria e onde posso combinar várias das minhas paixões e talentos: ativismo, direitos humanos, direitos animais, gastronomia vegetal, viagens e transmissão de conhecimentos e experiências. Além de conhecer pessoas incríveis que acabaram se tornando grandes amigas. Tanto amigas minhas quanto amigas entre si, o que me emociona muito. Juntas estamos criando a comunidade ativista da qual quero fazer parte, que reconhece que o veganismo é parte de uma luta muito maior contra todo tipo de opressão e por justiça pra todos os seres, humanos e não-humanos. E juntas vamos fermentando a revolução, um queijo de castanha por aqui, um pão au levain por ali e muito chucrute no meio.

E falando em fomentar, digo, fermentar a revolução, acabo de confirmar minha próxima visita à Pindorama. Estarei em terras tupiniquins (e potiguaras, tupinambás, cayetés, guaranis etc) de junho à agosto e comecei a organizar minha agenda tropical. Já tem eventos programados (palestras e oficinas de culinária) em Natal, Recife e Brasília, mas ainda cabem mais algumas visitas. Se quiser que eu fomente/fermente a revolução na sua cidade me manda um email que talvez dê certo eu chegar aí com minhas bactérias e ideias. E quem não quer comer queijo vegano, se organizar e fazer parte desse futuro com compaixão e justiça pra todas?

As ameixas estavam se estragando no cesto das frutas. Anne comprou dois quilos (promoção de fim de feira) e elas já chegaram em casa maduras demais. Expliquei que nunca daríamos conta de comer tudo a tempo, mesmo assim comemos todas as que pudemos nos dois dias que seguiram. Tem essas regras de economia doméstica, como “comprar uma quantidade grande de uma fruta que já está madura demais e que não pode ser congelada não é economia, mesmo se for uma promoção, porque vai se estragar antes que você possa comer tudo”, que quem não cozinha com frequência geralmente ignora. Eu compro banana madura demais (ou frutas vermelhas) pra congelar e colocar nas vitaminas, mas ainda não me animei pra colocar ameixa fresca na minha vitamina. Isso foi na terça e hoje, sexta, um terço das ameixas que não tinham sido devoradas estavam apodrecendo e eu precisava agir.

Foi depois do café da manhã. Excepcionalmente teve Camembert e queijo azul. Comecei recentemente uma colaboração com um projeto aqui em Berlim de queijos veganos artesanais, que usa técnicas da queijaria tradicional. Estou aprendendo muito e ainda tenho o privilégio de testar os queijos e trazer alguns pra casa pra serem testados em Anne e em quem mais passar pela minha casa. Então hoje tomei um café da manhã de rainha, com minha amada papa de aveia (com chia e óleo de coco), pão de fermentação natural, café dos Zapatistas, mais Camembert e queijo azul. Depois teve um segundo café da manhã lá pelas onze, com mais camembert, mais café e um omelete (grãomelete). As britânicas chamam essa refeição de “evelenses”, que é uma pausa às onze da manhã pra tomar um café ou chá acompanhado de uma coisinha pra mastigar. Tem povo mais fofo que os brits? Digo, quando não estão colonizando e oprimindo o resto do mundo, obviamente.

Então lá estava eu e a esposa que compra fruta madura demais em grandes quantidades degustando o café das onze (minha tradução de “elevenses”), mais bem servida que a rainha Beth e tive vontade de dar minha gargalhada de bruxa. “HAHAHAHAHAHA! Disseram que eu nunca mais ia comer omelete e Camembert!” Eu e meus inimigos imaginários… Digo inimigos no masculino porque são homens. Nenhuma mulher é minha inimiga, são todas minhas manas. (Com excessão talvez de Thatcher, uma brit que não era nada fofa, mas ela já morreu, então é irrelevante.) Mas voltemos à minha cozinha hoje de manhã, onde se encontravam eu, a esposa, o café das onze, o Camembert de castanha, o riso de bruxa e a visão das ameixas apodrecendo. Levantei da mesa decidida a dar um destino às pobres frutas.

Primeiro pensei em fazer uma compota, pra comer com minha papa de aveia matinal. Tudo a ver com o outono! Cortei as ameixas que ainda podiam ser salvas ao meio, retirei o caroço, cobri com suco de maçã integral (outro alimento que precisava de um destino, pois eu geralmente não bebo sucos de frutas e a garrafa tinha sido trazida por um amigo) e coloquei no fogo. Eu cozinho e faço trabalhos domésticos escutando podcasts e atualmente o meu preferido se chama “The vegan option”. Escutei dois episódios sobre pessoas que nasceram e cresceram veganas e foi extremamente instrutivo. Uma das pessoas entrevistadas, filho de pessoas veganas e atualmente criando duas crianças veganas, explicou que nunca se sentiu mal por não comer o que as outras crianças comiam, pelo contrário. Ele disse que ficava com pena das outras crianças, que não sabiam que aquilo que elas comiam eram animais e se sentia “empoderado por poder fazer escolhas conscientes”. Um dia ele contou pra um amiguinho que salsicha era na verdade porco e a mãe do amiguinho foi reclamar com a mãe dele dizendo: “Não quero que seu filho conte essas coisas pro meu filho.” A mãe dele respondeu: “Meu filho falou a verdade e eu não vou ensinar meu filho a mentir.” E enquanto eu escutava o podcast (inglês) e mexia a compota de ameixas me veio a ideia de transformar aquilo num chutney. “Chutney” significa uma variedade de molhos na Índia, mas o tipo de chutney que eu queria fazer é uma especialidade anglo-indiana, um tipo de geleia de fruta agridoce. A receita é mais ou menos essa: Império Britânico + apropriação cultural + molho indiano + muito açúcar e vinagre = chutney. Mas eu tento descolonizar o meu chutney fazendo uma versão sem açúcar e sem vinagre e com muitas especiarias.

Então comecei a cortar cebola e escolher especiarias quando me ocorreu que eu nunca tinha postado uma receita de chutney no blog e que essa era a oportunidade perfeita. Pra publicar a receita eu precisava de medidas precisas, algo que não existe quando cozinho em casa. Fiquei olhando as ameixas borbulhando na panela e tentando visualizar quantas xícaras seria aquilo quando vi o montinho de caroços de ameixa na pia e resolvi conta-los. 26 caroços. 26 ameixas. A quantidade de ameixas da receita teria que ser em unidades.

O aroma do chutney perfumou o apartamento e pra mim poucas coisas são mais prazeirosas do que passar horas criando delícias e escutando podcasts na minha mini-cozinha, onde sentada à mesa eu consigo mexer as panelas no fogão, abrir a mini-geladeira e alcançar as prateleiras, tudo sem me levantar. Nem esperei o chutney esfriar e provei com um pedaço de Camembert, porque chutney com queijo é uma dupla que adoro. Ficou delicioso, uma combinação de sabores perfeita pro frio e chuva do outono em Berlim.

Depois do almoço, que foi um prato suculento de feijão branco, brócolis, berinjela defumada e tahina com muita salsinha, sentei pra escrever a receita enquanto ela ainda estava fresquinha na minha memória.

Eram quase cinco da tarde quando Anne me propôs uma xícara de chá. Earl Grey ainda por cima! Meu trabalho de descolonização ainda deixa muito a desejar.

Logo depois o sol resolveu dar as caras, no fim de um dia inteiro de chuva. Quando isso acontece por aqui nessa época do ano você se sente na obrigação de largar tudo que estiver fazendo e correr pra rua, porque talvez você só veja novamente um pedaço de céu azul dali a seis meses. Coloquei algumas camadas de roupa suplementares e fui passear pelo meu quarteirão. Me mudei pra esse apartamento algumas semanas atrás e ainda estou descobrindo a vizinhança. No passeio de hoje visitei uma mercearia sem embalagens (você leva seus potes e sacos de casa, tudo é vendido a granel) e me empolguei pra diminuir consideravelmente a quantidade de lixo que produzo. Mas o tesouro mesmo foi uma livraria anarquista, a poucos metros da minha casa. Meus olhos brilharam e me perguntei como não tinha visto o lugar antes. Eu simpatizo muito com o anarco-sindicalismo, mas não tenho muitas amigas com quem discutir a revolução aqui em Berlim. Entrei e precisei de vários segundos pra conseguir enxergar alguma coisa no meio da nuvem de fumaça. “A revolução não será televisionada, mas será fumada”, pensei com meus botões. Perguntei se tinha livros em Inglês , com um leve receio de ser chamada de imperialista, e tinha! Em várias línguas, inclusive. Trouxe Frantz Fanon pra casa, porque minhas intenções de descolonizar a mente são sérias.

Cheguei em casa e o chutney me chamou lá da cozinha. E lá se foi mais um pedaço de Camembert (a emoção de ter, depois de dez anos de veganismo, um camembert vegano na geladeira faz isso com a pessoa) com uma colherada do meu chutney super saboroso numa fatia de pão, folheando Fanon. E no meu celular as amigas de uma recém independente Catalunha me mandavam notícias. Catalunya Lliure!

 

Chutney de ameixa e especiarias

Eu gostaria de dar a quantidade de ameixas em gramas, mas tive que contar as unidades (explicações no texto acima). Se você tiver uma a mais ou uma a menos não vai fazer diferença. Uma pitada generosa pra mim tem 4 dedos (pegue a especiaria em questão com quatro dedos, não dois). Eu acho a doçura das ameixas e do suco de maçã suficiente, mas tradicionalmente chutney é feito com açúcar. Sinta-se livre pra colocar açúcar (de qualquer tipo) até atingir a doçura ideal pra você. Mas lembre-se que isso é um chutney, não uma geleia, então não exagere. Update: Acabo de me dar conta que as ameixas que encontro aqui são de uma variedade bem pequena, talvez tenham apenas 1/3 do tamanho das ameixas encontradas no Brasil. Misericórdia! Quase dou a receita de um desastre pra vocês.

 

8-9 ameixas frescas maduras, partidas ao meio e sem o caroço (usei 26 de uma variedade bem pequena – explicações acima)

1 cebola grande, picada

1cc cheia de alho picado (3-4 dentes)

2cs de azeite

Suco de maçã suficiente pra cobrir as ameixas (natural, sem açúcar)

1cc de canela em pó

6-8 favos de cardamomo (ou 1/3cc de cardamomo em pó)

Uma pitada generosa de cada: pimenta do reino, cúrcuma, semente de coentro, cominho

Sal a gosto (coloco uma pitada generosa)

1-2cs de açúcar, opcional (melhor se for mascavo ou de coco)

Em uma panela média/grande, com o fundo grosso (importante! senão seu chutney vai queimar), aqueça o azeite e doure a cebola. Junte o alho e deixe cozinhar por mais alguns segundos. Junte as ameixas (cortadas e sem o caroço) e cubra tudo com suco de maçã. Junte só o suficiente pra cobrir as ameixas, pois elas vão soltar bastante líquido durante o cozimento. Quando começar a ferver baixe o fogo e deixe cozinhar, sem tampa, até metade do líquido ter evaporado. Junte as especiarias (abra os favos de cardamomo e use só as sementes), o sal (e o açúcar, se estiver usando) e continue cozinhando até o chutney engrossar, mexendo de vez em quando com uma colher de pau. Pra saber se está pronto, raspe o fundo da panela com a colher de pau. Se o traço feito pela colher de pau não voltar a ser coberto pelo chutney imediatamente, está pronto. Se minha explicação te parecer esotérica demais, veja se seu chutney atingiu uma consistência espessa, quase uma geleia e pronto. Prove e corrija o sal ou açúcar, se necessário. Se você nunca provou chutney saiba que o objetivo é atingir uma mistura equilibrada de doce, salgado e ligeiramente ácido (a acidez vem naturalmente das ameixas e do suco de maçã).

Coloque em um pote de vidro e espere esfriar completamente antes de transferir pra geladeira. Se conserva pelo menos uma semana na geladeira. Rende aproximadamente 2 1/2 xícaras. Deguste seu chutney com queijos, burgers, croquetes ou simplesmente com pão. Você provavelmente não vai conseguir comer tudo em uma semana, então faça como eu e dê uma parte de presente pras amigas.

Eu me tornei vegana dez anos atrás, em Paris. A cidade luz foi meu lar durante 6 anos, onde fiz toda a faculdade e um pedaço do mestrado (sou formada em Linguística). Não era fácil ser vegana por lá naquela época e pouca gente sabia o que a palavra significava. Mas minhas razões eram profundas e morar na terra do queijo e do croissant (com manteiga) não me impediu de alinhar as minhas escolhas alimentares com os meus valores, mesmo se o único lugar onde eu podia comer era na minha própria cozinha. Nunca eu imaginaria que dez anos depois o veganismo faria parte da paisagem gastronômica parisiense. Mas o que eu imaginava ainda menos era que um dia eu iria organizar tours gastronômicos na cidade que tanto torceu o nariz pro meu veganismo.

 

 

Queridas leitoras, vim anunciar algo que estou preparando, com muito carinho, há alguns meses. Em maio de 2018 vou guiar um pequeno grupo de brasileiras numa viagem gastronômica-cultural-ativista em Paris. Durante cinco dias descobriremos a cena vegana da cidade, os restaurantes, cafés, brasseries, mercearias, supermercados, lojas de cosméticos, chocolateria, queijaria…tudo  100% vegetal. Quero levar o grupo pra conhecer meus lugares preferidos na cidade, fazer piqueniques em jardins floridos e às margens do rio Sena, visitar feiras e mercados e comer todo o queijo e croissant que couber no estômago. Sim, porque na Paris de hoje nós, veganas, também somos convidadas pro banquete. E além dos passeios e das degustações vai ter muita conversa e explicações sobre gastronomia vegetal, ativismo por direitos animais e o futuro do movimento vegano. Você terá a oportunidade de perguntar tudo que sempre quis saber sobre veganismo, enquanto come a melhor baguete do mundo.

 

Pra ficar tudo perfeito o grupo ficará hospedado em um hotel único, “ecológico, militante e acessível”, como o local se descreve. O hotel se preocupa com economia de energia (lâmpadas de baixo consumo, painéis solares) e de água (torneiras, chuveiros e descargas equipados com redutores de vazão), com redução de embalagens (não utiliza nenhuma porção individual, nem no café da manhã nem nos produtos de higiene), os produtos utilizados na limpeza são biodegradáveis, os sabonetes e xampus oferecidos são naturais e não foram testados em animais, o café da manhã é orgânico e o hotel oferece bicicletas (de grátis!) pras hóspedes. Foram semanas de procura, mas encontrei um hotel que tem tudo a ver com a proposta do tour. E qual não foi a minha surpresa quando descobri que o lugar é a sede da Sea Shepherd na França!

Serão cinco dias inesquecíveis e estou empolgadíssima com esse projeto. O grupo só terá 7 pessoas e algumas vagas já estão ocupadas, então as interessadas devem entrar em contato comigo por email o mais rapidamente possível. Só darei as informações completas, incluindo valores, por email, então corre lá. Mas já vou adiantando que:

-O tour acontecerá entre os dias 15 e 19 de maio de 2018. Talvez tenha um segundo grupo do 22 ao 26 de maio, mas ainda não foi confirmado.

-Não precisa falar Francês (nem Inglês) pra participar do tour.

-Eu não sou uma agência de viagem e esse é um tour independente e alternativo, exatamente como os tours que organizo na Palestina. O que significa que você terá que comprar suas passagens, fazer seguro de viagem e reservar o hotel sozinha. O tour começa e termina em Paris.

-Como essa não é uma viagem turística tradicional, aconselho que as participantes fiquem uns dias a mais pra visitar os pontos turísticos, principalmente se essa for a primeira visita à Paris.

-Não precisa ser vegana pra participar, mas tudo que comeremos durante o tour será vegano. Pessoas não veganas que quiserem comer animais e suas secreções durante a viagem terão que fazer isso sem a minha companhia (depois do tour? na calada da madrugada?).

-Não precisa ser brasileira, mas tem que ser lusófona.

-Vamos caminhar muito, pois essa é a melhor maneira de conhecer Paris. Por isso é importante estar em boa condição física.

-Só cobrarei pelos meus serviços de guia, então as participantes são livres pra gastar o quanto quiser a cada dia nos restaurantes, mercados, lojas etc.  Foi o esquema que me pareceu o mais justo, pra que cada pessoa gaste exatamente o que couber no orçamento.

-Casais e pessoas de todos os gêneros são bem-vindas.

-Escrevam pra papacapimveg@gmail.com e garanto responder todas as perguntas que me fizerem por lá.

 Sigam essa baguete e coisas muito boas acontecerão.