A terceira maior empresa produtora de leite animal na França acaba de lançar uma linha de leites vegetais. O veganismo está ganhando?

Fiz essa pergunta às pessoas que me acompanham no Instagram e o resultado foi o seguinte: 91% das pessoas responderam que não, 9%, que sim.

Essa empresa, que se chama Candia, faz parte do grupo Sodiaal, o número 3 na produção de leite de vaca na França e número 16 no mundo. São 4.7 bilhões de litros de leite de vaca comercializados por ano, de acordo com o site da empresa. Isso representa um número gigantesco de vacas exploradas pelo seu leite, cujos corpos serão vendidos como “carne” no final da vida, assim como os corpos de seus bezerros machos, um perverso “sub produto” da indústria que explora mamíferas pelo seu leite. Então pra ser uma “vitória pros animais”, o lançamento do leite vegetal da marca deveria diminuir o número de vacas exploradas e torturadas por Candia, certo? 

Aí encontro essa notícia, de outubro de 2020, dizendo que Candia pretende aumentar sua produção em pelo menos uma de suas fábricas. Também quis saber se a produção de leite em geral na França está aumentando ou diminuindo. Encontrei um artigo de setembro de 2020 que dizia: “A produção de leite aumenta, mas os mercados continuam incertos.” O artigo explica que “a crise sanitária não diminuiu a produção leiteria das grandes bacias exportadoras mundiais. Nos primeiros sete meses de 2020, a coleta aumentou de 1,3% na União europeia.”

Talvez você esteja pensando: “Tá, a Europa segue produzindo mais leite a cada ano, mas o fato que as maiores produtoras de leite animal estão lançando leites vegetais é sinal que tem mais demanda por leite vegetal nos países europeus, certo? Logo, é uma vitória pros animais, sim!”

Deixando de lado a produção (falarei disso mais na frente) e focando só no consumo, o leite vegetal da Candia é uma vitória pro movimento antiespecista? Significa que mais pessoas estão bebendo leite vegetal aqui, logo, comprando menos leite de vaca, e que isso é uma “revolução” e que temos que parabenizar a marca?

Nesse artigo publicado no jornal francês Le Monde podemos ler “Franceses bebem cada vez menos leite, Em 15 anos, o consumo de leite caiu quase 25% de acordo com os dados publicados pelo sindicato Syndilait. Um francês bebe em média 45,5 litros de leite por ano.” Vitória pros animais, então? 

O artigo lista as razões dessa baixa no consumo de leite de vaca: “As explicações por trás dessa tendência são variadas, desde a menor importância do café da manhã nos hábitos alimentares, até a desconfiança de alguns com relação aos supostos benefícios nutricionais dos laticínios.” Aí talvez você pense: “Mas e daí se estão bebendo menos leite por razões de saúde e não por razões éticas? Isso não faz a menor diferença pros animais que não foram explorados e mortos!”

Focar na saúde e não na ética cria situações como essa aqui. Esse artigo publicado em julho de 2020 mostra os resultados de uma pesquisa feita sobre o consumo de laticínios na França em 2019. Ela mostrou que enquanto o consumo de leite líquido diminuiu nos últimos anos, o consumo de outros laticínios (creme, queijo, manteiga…) aumentou. Porque queijo e iogurte são vistos como “saudáveis”. E o consumo de leite orgânico, e laticínios orgânicos em geral, explodiu. É a ilusão que “se é orgânico, deve ser saudável.” Não por acaso o mercado de leites especiais (orgânico, desnatado e sem lactose) também explodiu. A mesma pesquisa mostrou que o consumo de leite de vaca orgânico teve um aumento de 22% entre 2016 e 2019. E tem mais! Se até então a cada ano víamos uma baixa no consumo de leite na França mais importante do que no ano anterior, em 2019, pela primeira vez desde que começou a baixar, a curva de consumo voltou a subir levemente e a redução foi menos importante do que nos anos anteriores. E, ainda surfando na onda da saúde, o consumo de leite de cabra e, principalmente, de ovelha, aumentou. Esses leites são vistos como mais “saudáveis” que o leite de vaca. Em termos de redução de sofrimento animal, isso é trocar seis por meia dúzia.

Agora abra bem os olhos pro que você vai ler. Ainda de acordo com essa pesquisa “o volume de leite de ovelha dobrou, passando na frente inclusive dos sucos vegetais, produtos cujo crescimento parou em 2019, quando teve uma redução de compra de 3,7%.” Sim, você leu certo. Tem mais leite de ovelha sendo consumido na França no momento do que leite vegetal, que o estudo chama de “suco vegetal” porque o lobby da indústria leiteira conseguiu proibir o uso da palavra “leite” quando se trata de bebidas vegetais. E, BOMBA! O consumo de leite vegetal na França está diminuindo.

O artigo “Freio nos leites vegetais”, publicado no jornal Le Figaro em setembro de 2020, informa que “As vendas de suco de soja, arroz, aveia e amêndoa diminuíram significativamente no ano passado.”

Resumindo:

1-Uma empresa de leite francesa (Candia), que pertence ao terceiro maior produtor de leite na França, lança uma linha de leite vegetal.

2- Logo depois a empresa anunciou o aumento na sua produção de leite de vaca. 

3- A União Europeia segue aumentando sua produção de leite. 

4- O consumo de leite de vaca na França, que vinha diminuindo progressivamente nos últimos 15 anos, voltou a crescer em 2019 (embora ainda seja mais baixo que 15 anos atrás). 

5- O consumo de leite orgânico, de ovelha e de cabra explodiu na França. 

6- Embora o consumo de leite tenha diminuído nos últimos anos, o consumo de laticínios nunca parou de aumentar no país. 

7- O consumo de leite vegetal, que vinha aumentando ano após ano na França, caiu bastante em 2019. 

Agora vamos tratar do produto em si, o leite vegetal de amêndoas da Candia. A sua composição, de acordo com o site da empresa, é: água de fonte, suco concentrado de tâmara, amêndoa (3%), avelã (1%), xarope de arroz, cálcio de algas, sal, estabilizantes: farinha de semente de alfarroba, goma Gellane. Primeiro que com míseros 3% de amêndoas, isso não passa de água empacotada! Segundo que isso aqui é um produto ultraprocessado e a gente conhece o perigo de consumir produtos ultraprocessados com frequência, né?

Mas a desgraça dessa marca não para por aí. No site tem um quiz sobre verdades e mentiras relacionadas ao leite, pra fazer uma lavagem cerebral básica em quem estiver em dúvida sobre os benefícios do leite de vaca. Alguns exemplos aqui:

“Verdade ou mentira? Leite de vaca não é adaptado às necessidades dos humanos.” Resposta da marca: “É mentira! O leite mais consumido é o leite de vaca, desde que o mundo é mundo. Os nutricionistas mostraram que uma dieta sem leite e sem laticínios só supre 50% das necessidades diárias de cálcio.”

Preciso comentar isso antes de prosseguir. Seres humanos só passaram a consumir leite de outras espécies depois de terem domesticado animais, cerca de 12 mil anos atrás. As descobertas mais recentes mostram que existimos como homo sapiens há cerca de 300 mil anos, logo, passamos 288 mil anos tomando apenas o leite da nossa mãe. E até hoje muitos humanos em várias regiões da Terra nunca beberam leite de vaca. A questão do cálcio merece uma explicação mais longa, mas pra resumir:  essas “necessidades” de cálcio foram definidas, pela iniciativa da indústria do leite, pensando na quantidade de cálcio equivalente a 3 laticínios (pra depois dizer que tem que consumir três laticínios por dia, obviamente) e não reflete nossas necessidades reais de cálcio. A prova é que muitas populações vivem sem laticínios, ou seja, ingerindo uma dose inferior de cálcio do que essa citada aí (equivalente a três laticínios), e têm menos problemas de osteoporose que as populações que mais consumem leite de vaca. E pra fechar o comentário, como disse Naomi Mayer, uma cozinheira e cientista social arretada, “desde que o mundo é mundo = desde que a Europa invadiu terras outras, se autoproclamou como centro do mundo e espalhou vaca em tudo quanto é canto. Até no nosso chocolate enfiaram leite.”

Mais um exemplo do quiz “Verdade ou mentira?” do site da empresa de leite Candia:

“Só tem cálcio no leite? O leite e laticínios em geral são as maiores fontes de cálcio, mas não são as únicas.” Repare na artimanha. Antes o lobby do leite dizia que só tinha cálcio no leite de vaca, mas como hoje muitas pessoas sabem que isso não é verdade, ele adaptou a propaganda. Demonstração na continuação da resposta: “Frutas, verduras e algumas águas minerais complementam a oferta de cálcio. Mas vale lembrar o quanto é difícil, quase impossível, atingir a quantidade de cálcio recomendada quando excluímos laticínios do prato.”

Percebe como a coisa é bem mais complexa do que “mais produtos vegetais de grandes empresas = vitória pro veganismo”? Uma mesma empresa pode lançar um leite vegetal e depois fazer uma campanha pra incentivar o consumo de leite animal, espalhando mitos pra criar confusão e impeder que as pessoas parem de consumir leite de vaca, aumentando sua produção de leite animal, surfando em todas as ondas que aparecerem (leite de vaca orgânico, sem lactose, desnatado, leite de ovelha e cabra). E percebe também que em um mesmo país o consumo de leite (líquido) pode diminuir, enquanto aumenta o consumo de outros laticínios, de modo que ano após ano o número de vacas exploradas, torturadas e mortas segue aumentando? 

Mais produtos vegetais não significa necessariamente menos animais mortos. Expansão do mercado de produtos vegetais não significa diminuir a exploração animal. Os dois coexistem em todos os lugares, da Europa ao Brasil.

Depois de ter compartilhado esse texto no meu perfil no Instagram, pedi pras pessoas que achavam que esse leite vegetal era uma vitória pro veganismo, os 9% que tinha respondido minha enquete, pra me explicar por que defendiam essa posição. Vou comentar algumas das respostas que me enviaram.

“Essas opções são geralmente pra não veganos. Antes comprarem algo sem secreção de vaca que algo com. É tipo hambúrguer vegano da Seara. É de uma big company, mas explora menos animais. As pessoas comem ultraprocessados. Btw o ideal seria ser de uma empresa pequena e vegana, mas há poucas, pelo menos aqui.”

Escuto bastante variações desse comentário. Tem essa visão de que o veganismo popular quer o “ideal”, enquanto o veganismo liberal, que defende a expansão do mercado de ultraprocessados vegetais, é mais “realista” e foca no “possível”. Segundo essa visão, o veganismo popular seria moralista, apontador de dedo e, por ser “radical demais”, afastaria as pessoas do veganismo. E quem sai perdendo com o nosso “purismo” que quer “o ideal ou nada”? Os animais. 

Eu já expliquei inúmeras vezes por aqui que não se trata de criticar o tal hambúrguer vegetal da Seara porque não é “o ideal”. Criticamos porque essa estratégia não funciona, mesmo. Dei o exemplo da empresa de leite francesa, que lançou dois leites vegetais e ao mesmo tempo: 1-aumentou sua produção de leite de vaca; 2- lançou uma campanha de publicidade reforçando os mitos relacionados ao leite de vaca, fazendo a velha lavagem cerebral pra todo mundo pensar que é impossível ter saúde sem beber leite de vaca. Tudo isso acontecendo enquanto o consumo de laticínios segue aumentando na França e a venda de leites vegetais, caindo. 

A JBS, dona da Seara, também segue aumentando sua produção e dizendo pra quem quiser ouvir que a “mania vegetal” não vai de maneira alguma afetar a produção de carne. Ou seja, o argumento de que “o hambúrguer vegetal da Seara vai fazer com que menos animais sejam explorados” é falso. Só faz sentido pra quem foi convencida que temos apenas duas opções: o hambúrguer animal da Seara, ou o hambúrguer vegetal da mesma Seara. Obviamente isso não é verdade. Tem muitas outras opções: comprar hambúrguer vegetal artesanal (em alguns lugares), fazer seu próprio hambúrguer em casa ou simplesmente comer outra coisa, pois hambúrguer nunca foi essencial. 

Tem outro ponto que me incomoda nesse comentário que é “as pessoas comem ultraprocessados”. Não é segredo que o consumo de ultraprocessados está relacionado a um maior risco de doenças crônicas e o próprio Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda que você fique longe deles. Achar aceitável substituir ultraprocessados animais por similares vegetais e deixar a população mais carente seguir pagando o preço com a própria saúde e vida é cruel. “Ah, mas pelo menos assim animais foram poupados.” Quem tem esse discurso defende uma visão do veganismo elitista e que beira o ecofascimo. Não se trata de passar a saúde do povo na frente da vida dos animais. Acredite, é possível, e necessário, defender os dois se quisermos que o veganismo saia das margens e se torne um movimento verdadeiramente popular. E esse é o único caminho pra conseguir libertação animal. 

“Compreendo as informações que trouxe de que na prática o consumo de leite não diminuiu em números, mas saber da possibilidade de que há outras alternativas pra consumo de leite, pra alguém está muito engessado nesse vício, pode ser útil pra mudar a mentalidade da pessoa e ela progressivamente vir a largar também. Foi o meu caso. No momento da transição sentia ‘necessidade’ de consumir alimentos hiper proteicos e que parecessem mesmo com os de origem animal, as opções vegetais  (algumas sim de grande empresas que lucram absurdo com explorada animal) me foram bastante úteis nesse momento.”

Sim, isso é verdade, embora seja uma faca de dois gumes. Essa mensagem joga luz num ponto crucial. Produtos ultraprocessados vegetais (de grandes ou pequenas marcas) podem ajudar algumas pessoas a fazerem a transição pro veganismo com mais facilidade. Com a condição, e isso é algo não pode ser ignorado, que você tenha dinheiro pra comprar esses produtos, o que não é a realidade pra maior parte das pessoas. Então já começo dizendo que esse produtos serão uma ajuda pra uma parte reduzida da população. E essa facilidade pode se tornar uma armadilha. Eu bato muito nessa tecla, mas vou repetir mais uma vez: passar do ultraprocessado animal pro ultraprocessado vegetal pode ser uma grande oportunidade perdida. Oportunidade, justamente, de sair da dependência do agroalimentar e adotar uma alimentação com vegetais frescos e minimamente processados. 

É comum as pessoas abandonarem o veganismo por questões de saúde e seguir o caminho da alimentação fresca, melhorando a saúde (no caso da pessoa que comia muito ultraprocessado animal antes de se tornar vegana), pode ser o fator determinante pra que a pessoa se mantenha vegana. No final das contas o que vai ajudar mais? De um lado temos o ultraprocessado da grande empresa, comprado por poucas e utilizado por um período curto (transição), que pode potencialmente comprometer a saúde da pessoa que acabou de se tornar vegana. Do outro o vegetal fresco, que vai fazer com que a pessoa se emancipe do agroalimentar, desenvolva sua autonomia na cozinha, sendo capaz de preparar comida gostosa em qualquer lugar (mesmo nas cidades onde o ultraprocessado não está disponível) e melhorando a saúde, reduzindo o risco da pessoa abandonar o veganismo por questões de saúde ou porque esses produtos são caros/difíceis de achar e manter um veganismo que depende deles se torna complicado. 

O discurso liberal defende que esses produtos não são pra veganas e sim pra quem comem animais. Mas na prática acho isso pouco plausível, pois por todos os lugares por onde andei vi muito mais pessoas veganas consumindo esses produtos do que não veganas, que podem até provar uma vez, mas que não consomem regularmente. Então se esses produtos são consumidos principalmente por pessoas veganas (na fase de transição ou não), elas já tinham tomado a decisão de se serem veganas quando compraram o produto. Tão acompanhado? No final das contas esses produtos não trazem ninguém pro veganismo. Nenhuma pessoa não-vegana prova o hambúrguer vegetal da Seara ou o leite vegetal da gigante do leite francesa e proclama: “Nossa, que delícia! Vou virar vegana!” Pergunte pras pessoas veganas que você conhece quem dentre elas se tornou vegana porque provou um produto ultraprocessado vegetal (ou um prato feito com vegetais frescos) delicioso. Eu arrisco apostar que zero pessoa dirá que essa foi a razão que as fizeram considerar o veganismo. 

Então vemos que sim, pode ser uma ajuda pra quem está em transição, mas que essa “ajuda” pode se transformar em armadilha (a pessoa pode se decepcionar com o sabor inferior e passar a viver com a impressão de privação, se manter dependente do agroalimentar e comprometer a saúde, o que poderia levar a pessoa a abandonar o veganismo). E se as pessoas se tornam veganas primeiro e compram ultraprocessados vegetais depois, isso não está “potencialmente reduzindo o sofrimento/morte de X animais a cada X hambúrgueres vegetais da Seara”, pois essas pessoas já não comprariam o hambúrguer de vaca de todo jeito. O que acontece, na verdade, é que perdemos a oportunidade de apoiar empresas veganas pequenas, cozinheiras da nossa cidade, a agricultura familiar e da reforma agrária…pra dar nosso suado dinheirinho pra empresa que mais mata vacas no mundo!

Antes de passar pro próximo comentário, gostaria de apontar mais um elemento a ser considerado antes de declarar que “produtos ultraprocessados vegetais podem abrir uma porta pro veganismo”. Uma estratégia que funciona em um lugar não necessariamente funciona em outro. Vejo muita gente no movimento usar os EUA como parâmetro, pois o mercado vegano (ultraprocessados vegetais) lá é muito grande. Já expliquei como mercado vegano e exploração animal podem coexistir, mas queria discutir outro aspecto desse debate.

Vou contar o caso da França, que é um país que conheço bem e onde moro no momento. A gastronomia francesa é mundialmente reputada e o povo francês aprecia muito o artesanal, dá um imenso valor à comida de verdade, feita por quem domina essa arte. Na França as pessoas tem o maior orgulho dos alimentos típicos da sua região, do seu “terroir”, daquilo que foi feito com maestria e em pequena escala. Preferem comer menos, mas comer bem. (Isso está mudando, como em todos os lugares do mundo, mas o povo francês ainda é muito apego à essa ideia e à essa visão de si mesmo, mesmo se na prática comem no Macdonald’s. Mas isso é conversa pra outro dia.) Então inundar o mercado de ultraprocessado vegano causou muito mais dano ao movimento lá do que outra coisa. Facilitou a vida das veganas sem tempo de cozinhar na França? Sim! Mas também deu uma fama terrível ao veganismo, uma fama de que é uma alimentação que não é saudável, que é artificial e que, principalmente, não tem sabor nem carrega um saber artesanal que mereça ser valorizado. 

Encontrei várias francesas que me falaram: “Veganismo não é saudável, porque é só comida industrializada. Prefiro mil vezes comer meu queijo de cabra artesanal, meu leite orgânico e minha carne de vaca criada em liberdade, por pequenos criadores do país. Muito mais ecológico, saboroso e saudável do que comida vegana.” Obviamente eu e você sabemos que comida vegana é baguete, rúcula, tomate e maçã, coisas que a pessoa que me falou isso come diariamente. Mas de tanto focar na expansão do mercado de ultraprocessados vegetais, as pessoas acabaram associando veganismo a ultraprocessado. Sem conscientização antiespecista (por que somos veganas) e política (por que entendemos que não vai ter libertação animal em um mundo com opressão humana) e sem autonomia e soberania alimentar, o veganismo não passa de um modo de consumo. E o povo francês vai seguir achando que o modo de consumo que privilegia pequenos criadores e produtores é muito superior a um modo de consumo que foca em ultraprocessados vegetais. 

“Infelizmente 99% dos meus amigos e família estão longe de serem veganos mas eu falo/posto tanto que vários já vieram conversar comigo sobre quererem mudar hábitos e reduzir o consumo de produtos de origem animal. Só que eles estão muito longe do anticapitalismo, tem até bolsominion no meio. E pra essas pessoas ter um produto fácil de origem vegetal pra substituir ajuda muito na transição porque ninguém quer se esforçar pra mudar. As vezes acontece de abrir portas pra esse novo mundo porque é muita coisa que tem que mudar e se eu chego falando de cara tudo as pessoas fogem, acham radical, me acham louca… Enfim, é uma estratégia que eu tenho tentado usar.”

Esse tipo de comentário começou a aparecer com frequência na minha caixa de mensagens. Acho interessante as pessoas associarem comer vegetais frescos com ser anticapitalista. Imagino que tenha até uma galera grande que é toda trabalhada no orgânico fresco e votou em Bolsonaro, defende políticas liberais. Entendo a preocupação de quem diz “é muita coisa pra mudar ao mesmo tempo”, porém continuo achando que as chances de fazer um grande carnista que adora linguiça considerar o veganismo depois de ter provado uma linguiça industrializa vegetal são ínfimas. Porque o sabor é muito diferente e essa pessoa vai provavelmente se frustrar e dizer “Prefiro minha linguiça de porco”. E isso me leva ao coração desse debate.

Ouso dizer que estamos usando a “porta de entrada” errada. A gente sabe que veganismo não é dieta, que ninguém se tornou vegana porque provou o hambúrguer vegetal que imita perfeitamente carne de vaca (ou qualquer outro ultraprocessado) e adorou, mas seguimos insistindo em usar comida (e ultraprocessada!) pra atrair as pessoas pro veganismo. 

“Mas Sandra, as pessoas não estão nem aí pros animais! Elas são egoístas e não querem fazer esforço.” 

Verdade, tem um pessoal assim. Mas raciocina aqui comigo. Se essas pessoas estão cagando e andando pros animais e só se preocupam com o seu prazer gustativo, sério que você acha que vai ser provando um hambúrguer da Seara ou do Futuro que ela vai deixar de comer animais? Não vamos nos iludir, gente. Esses produtos NÃO tem gosto de carne animal. Pede pra qualquer carnista provar e te dar um retorno. Aí a pessoa que cagou pros animais prova um hambúrguer-imitação que tem sabor inferior e o que vai acontecer? Ela vai voltar pro hambúrguer de vaca, mais gostoso (pra ela) em mais barato, já que ELA TÁ NEM AÍ PROS ANIMAIS. 

“É por isso que precisamos investir em tecnologias pra que essas carnes vegetais fiquem com sabor idêntico ao sabor de carne animal!”

É uma opção. Mas concretamente isso: 1- vai levar muito tempo até estar ao alcance de todas as pessoas; 2- seguiremos dependentes do agroalimentar; 3- nossa comida vai seguir nas mãos de um punhado de empresas gigantes (adeus soberania alimentar) e; 4- por trás desses produtos ultraprocessados tem monocultura, concentração de terra e destruição (o que prejudica outros animais). Sem colocar na conta o impacto da saúde de uma alimentação baseada em ultraprocessados.

Mas essa não é a única opção. Talvez você tenha a impressão que as pessoas não se importam com os animais e, acredite, eu sinto isso com muita frequência. As vezes bate um desespero dentro de mim. Mas ao mesmo tempo eu vejo as mudanças na sociedade que ocorreram nos meus 13 anos de veganismo. Aí converso com amigos que são veganos há mais de 30 anos e as mudanças que eles viram são ainda mais significativas. Ver pessoas veganas nos mais diferentes movimentos sociais é o que me faz acreditar que essa mudança social está acontecendo, sim. E esse é o caminho: educação antiespecista e formação política. 

Talvez você pense que assim a mensagem vegana se espalha mais devagar do que se as multinacionais do agro inundarem o mercado de ultraprocessados vegetais (baratos) e é aqui que entra o ponto mais importante na disputa dentro do movimento vegano: qual o nosso objetivo?

O veganismo liberal quer mudar o modo de consumo das pessoas (passar do animal pro vegetal, mesmo se a forma – ultraprocessada- continuar a mesma). Nós, no veganismo popular, queremos transformar o mundo.

Então quando ONGs que seguem a corrente liberal, ou ativistas veganas liberais, declaram que “os números mostram que nossa estratégia é a mais pragmática e está atingindo os objetivos” isso é verdade. Se o objetivo é expandir o mercado de ultraprocessados vegetais, com certeza o veganismo liberal será o que vai ter mais sucesso. Mas esses não são os nossos objetivos no veganismo popular. Por isso não é suficiente dizer “somos todas veganas, então bora dar as mãos e trabalhar juntas” porque as “estratégias” adotadas pelo veganismo liberal fortalecem quem está destruindo as possibilidades de vida na tera (o capitalismo). 

A corrente liberal vê tudo através do prisma do mercado. Como se as pessoas só existissem como consumidoras. Nós, no veganismo popular, acreditamos que pessoas são sujeitos políticos e sabemos que nenhum movimento de justiça social atingiu seus objetivos através da compra de produtos ou da “ajuda” de empresas capitalistas. Só a luta muda a vida. Incluindo a vida dos animais não-humanos.

“Quanta ingenuidade! Que utópico! Animais não podem esperar por essa sua revolução.”

Ingenuidade é ignorar que a ideologia liberal, o capitalismo e as multinacionais tem interesses conflitantes com a emancipação animal. Assim como não existe revolução em terra devastada (cito as amigas ecossocialistas aqui ), também não existe veganismo em terra devastada. Quando o solo tiver sido completamente destruído pelo agro, quando toda a água tiver sido contaminada, quando as nascentes tiverem secado por causa do desmatamento, nós vamos comer e beber o quê? Quando todas as florestas tiverem sido destruídas, todos os biomas comprometidos, os animais viverão aonde? Enquanto o capitalismo estiver nos empurrando pra uma distopia, seguirei defendendo a minha utopia.

O futuro será agroecológico, ou não haverá futuro. 

E não, ultraprocessados vegetais das gigantes do agro não são uma “etapa intermediária”, antes de ter alimento agroecológico pra todas. Sabe por quê? Porque cada medida que fortalece o agro nos deixa um pouco mais longe do futuro que queremos, destrói um pouco mais nossa única chance de sobreviver, humanos e não-humanos. 

“Fico sempre na dúvida quando são empresas desse porte, mas respondo sim. Porque entra nesse lugar das conquistas de transformação do imaginário. Que ao ver uma propaganda começa a se “sensibilizar” a novos modos de se alimentar.”

Achei esse comentário excelente pra fazer refletir sobre questões muito importantes. É preciso construir um novo imaginário, onde animais não serão vistos como comida, nem mercadorias, onde seus corpos não serão vistos como nossa propriedade. Mas tem duas coisas com as quais discordo nesse comentário. Não acho que ver propaganda de ultraprocessado de multinacional sensibiliza ninguém. Também não acho que o veganismo é um novo modo de se alimentar.  Mas já tratei desses pontos nas respostas anteriores, então não vou me repetir. 

Gostaria de terminar esse texto com uma fala de Tainá Marajoara, do Instituto Iacitatá. Aliás, conheçam esse projeto! Tainá coloca lágrimas nos meus olhos quando fala e alimenta meu fogo de justiça. Ela participou do último episódio da segunda temporada do Prato Cheio, o podcast do Joio e o Trigo. Não perco um episódio desse podcast e leio o blog toda semana. Recomendo que você faça os dois.

E a última pergunta do episódio foi justamente o tema desse stories. É positivo ter produtos vegetais feitos por grandes empresas, como o tal do hambúrguer vegetal, ou não passa de greenwahsing? (Greenwashing é a estratégia das empresas que querem pagar de ecológicas, quando na verdade estão destruindo o planeta). Deixo vocês com a resposta de Tainá Marajoara.

“A gente está sendo impactada por corporações gigantescas, onde nosso local de fala, nossa existência e futuros estão sendo roubados, retirados de nós por um processo de apropriação. Como é o caso do hambúrguer de soja das corporações dos alimentos. Não é um hambúrguer de soja, é um hambúrguer feito a partir do derramamento do sangue indígena, feito com muita grilagem de terra, de riqueza, privatização da água, esfacelamento dos direitos humanos e socio-ambientais. São processos econômicos e de produção extremamente injustos. Eu adoraria poder escolher uma comida vegana feita pelo Movimento Sem Terra, eu adoraria poder escolher um hambúrguer vegetariano feito a partir de alimentos dos territórios quilombolas. Eu não quero escolher hambúrguer das corporações transnacionais que estão fazendo o lobby do veneno. Quando a gente diz que a nossa cozinha é sem veneno, que ela é sem genocídio, a gente tem a alegria de poder não contar a cabeça de nenhum dos nossos companheiros de luta dentro das nossas panelas. Porque cada vez que eu uso o óleo de soja eu sei que muitos dos nossos companheiros, dos nossos parentes, foram dizimados pelo avanço das sojeiras na Amazônia. Tirem os inimigos de dentro da cozinha e busquem outros caminhos.” Tainá Marajoara

Saí da quarentena (que na verdade era uma dezena) ontem, estado no qual tive que ser colocada depois de ter feito uma longa viagem de avião cruzando o Atlântico. E além de ter esperado os dez dias, só me senti segura pra ter contato com a minha família depois de ter feito um teste pra ter certeza que não estava com covid. Minha mãe é idosa e tem a saúde frágil, então precisamos levar o protocolo sanitário a sério.

E assim que fui liberada, corri pra cozinha.  Ontem fiz uma moqueca de caju que merece aparecer por aqui, mas antes de compartilhar essa receita vos ofereço uma ainda mais simples: farofa de beterraba. Depois que me reconciliei com a farofa, a argamassa da vitória (e da revolução proletária, pelo menos no Brasil), não perco uma oportunidade de preparar, comer e compartilhar esse prato. E essa aqui eu  aprendi com minha irmã Lu (a do bolo de laranja), que por sua vez conseguiu a receita com uma amiga.

Farofa de beterraba

Como toda farofa, a quantidade de farinha pode ser adaptada de acordo com o seu gosto. Eu gosto de farofa úmida, então uso menos farinha. Se gostar de farofa mais seca, use mais. Outra coisa importante sobre farofa: pra que ela fique úmida, as pessoas costumam carregar na gordura, mas eu consigo a mesma textura simplesmente usando menos farinha (e mantendo a quantidade de óleo numa quantidade que acho aceitável). 

1 beterraba (média – CRUA)

1 cebola, de preferência roxa (média)

1 punhado de coentro

Páprica doce defumada (opcional)

Óleo ou azeite

Farinha de mandioca, fina e peneirada (aqui usei uma amarela, que vem misturada com um pouco de cúrcuma, mas a branca funcional igual) 

Sal a gosto

Rale a beterraba no ralo grosso (ou passe no processador, se tiver um). Corte a cebola ao meio, depois em fatias finas.

Numa panela grande, de preferência um tacho do fundo grosso, aqueça a quantidade de óleo ou azeite que achar aceitável. Farofa precisa de gordura pra ficar gostosa, mas usei aqui aproximadamente 3 colheres de sopa (de cozinha, não colher medidora) e pra mim fica perfeito. 

Refogue/frite a beterraba junto com a cebola (fogo alto), mexendo de vez em quando com uma colher de pau, até a beterraba reduzir e ficar ligeiramente tostada. Fique de olho pra não queimar, mas, como falei, uma tostadinha é bem-vinda. Baixe o fogo e vá juntando a farinha de mandioca peneirada e mexendo, até chegar no ponto que você gosta. Tempere com sal e páprica doce defumada, se estiver usando. 

Desligue o fogo e junte o coentro picado. Rende de 3 a 6 porções (dependendo do seu amor por farofa e da quantidade de farinha utilizada).

*A farofa da direita foi feita por Lu, a da esquerda, por mim. Veja como duas pessoas podem seguir uma mesma receita e obter resultados diferentes.

Estou há alguns dias no Brasil, isolada do resto da família, enquanto respeito a quarentena necessária pra quem passou por três aeroportos em três países diferentes numa viagem de 24 horas. Mas antes de trazer os posts desse blog pra essa nova realidade, gostaria de descrever um dos meus últimos dias antes de viajar. Talvez você imagina que, por morar em Paris, meu cotidiano seja bem diferente de quando eu morava na Palestina e trabalhava em um campo de refugiados. A verdade é que posso ter mudado de país, mas o compromisso com a luta, principalmente com as pessoas refugiadas, migrantes e exiladas, não mudou. Isso é, pra mim, o internacionalismo nos dias de hoje. Pra entender melhor minha realidade de estrangeira do Sul global, morando na periferia de Paris, aqui está o relato de 24 horas na minha vida, da noite da última segunda à noite da última terça.

Segunda à noite

Segunda tem a reunião semanal do coletivo do qual faço parte, a Brigada de Solidariedade Popular (BSP). Então falei pra Samba que íamos voltar tarde e que ele não nos esperasse pro jantar. Demos dinheiro pra ele ir buscar comida no restaurante na esquina da rua, onde ele gosta de comer porque a comida é parecida com a que ele comia no seu país, o Mali. Samba comeu sozinho, enquanto a gente discutia sobre as ações da semana com as camaradas do coletivo. A França está, mais uma vez, em lockdown e nossa reunião era clandestina. Nos reunimos numa ocupação com um imenso galpão e respeitamos à risca o protocolo sanitário. A reunião clandestina não foi motivada pelo nosso instinto de rebelião, apesar de nós, anarquistas, termos essa fama, mas pelas necessidades gritantes da população da nossa cidade, na periferia de Paris. O coletivo foi criado no início da pandemia, justamente pra organizar a autodefesa sanitária e a solidariedade na base. Nossa cidade é uma das mais pobres na França e se o desemprego e insegurança alimentar já eram agudos antes do Covid, agora a situação está beirando o desastre. Essa semana precisamos planejar a retomada das atividades de distribuição de alimentos, pois nossa comunidade (vizinhas, migrantes em situação de rua e mulheres refugiadas nos abrigos públicos) voltaram a nos contactar pra explicar que já começou a faltar comida em casa, além do material de higiene necessário pra respeitar o protocolo anti-Covid. A reunião era pra organizar a logística das atividades do fim de semana: buscar os vegetais não vendidos no final da feira pra formar as cestas, transformar em sopa ou compota o que estivesse passando do ponto, ir nas farmácias da cidade pedir doações, formar equipes pra pedir doações nos supermercados e mercearias da região… E, o maior desafio, organizar a distribuição das cestas respeitando o protocolo de higiene e do lockdown, sem nunca juntar mais de 5 pessoas no local da distribuição.

Voltei pra casa evitando o caminho que passa pela saída do metrô, pois a polícia está sempre por lá. Cheguei tarde e cansada demais pra preparar algo pra comer. Me contentei com um pedaço de pão e uma maçã. O dia seguinte seria muito importante pra mim.

Terça – Manhã

Tomamos café com Samba e depois fui ajudá-lo com os processos administrativos pra que ele seja reconhecido como menor isolado pelo governo francês. Samba é um menino de 16 que deixou o seu país, o Mali, quando tinha 14 anos pra escapar da dura realidade na qual ele cresceu e pedir asilo em um país europeu. Foram dois anos na estrada, sozinho, até chegar, alguns meses atrás, em Paris. Anne encontrou Samba a poucos metros do nosso apartamento, em uma das ações da BSP. Regularmente montamos equipes com as camaradas da BSP pra fazer visitas aos migrantes em situação de rua. São milhares no momento e boa parte deles ficam na periferia norte de Paris, onde moramos. Essas visitas tem dois objetivos. Levar a solidariedade popular até eles e tentar oferecer os ítens dos quais eles mais precisam (roupas de inverno, saco de dormir, barracas, remédios e material de higiene). Nós identificamos as pessoas que precisam de ajuda, depois listamos as necessidades delas e voltamos no dia seguinte com o que elas pediram. Na ocupação onde nos reunimos temos um pequeno estoque de roupas quentes, sacos de dormir e produtos de higiene pessoal, que coletamos durante as ações nos mercados ou que pessoas doam pra nós diretamente. O segundo objetivo das nossas ações nos locais onde os migrantes acampam pra passar a noite é identificar os menores de idade e as mulheres sozinhas. Essas são as duas populações mais vulneráveis, que correm risco de serem sequestradas pelo tráfico (de drogas e humano) e de sofrerem abusos na rua. A maior parte dos exilados são homens, mas de vez em quando encontramos uma mulher ou um menino e nessas horas se torna uma prioridade encontrar um lar temporário pra essas pessoas. Foi assim que Anne encontrou Samba. Ele ficou com a gente até encontrarmos uma família, pra acolhe-lo por um tempo, sempre graças à solidariedade da comunidade,. Nosso apartamento tem 30m2 e ele dormia no chão da sala, no meio da passagem pro banheiro. Não era uma situação confortável pra ele nem pra nós e embora a família com que aceitou acolhe-lo (uma mãe solo e seus dois filhos adolescentes) more um pouco longe, numa cidade no sul de Paris, ele ficaria melhor lá do que conosco. Mas como começamos o processo jurídico pra que ele seja reconhecido como menor isolado (ou seja, sem o acompanhamento de uma pessoa adulta) com os Médicos Sem Fronteiras (MSF) perto da nossa casa, ele dorme conosco pelo menos uma vez por semana, pra dar continuidade ao processo junto com o MSF. Toda semana ele tem hora marcada com a assistente social, com a psicóloga ou com a enfermeira e no início ele teve que passar por uma bateria de exames em vários hospitais diferentes. Como sigo sendo a pessoa responsável por ele, eu o acompanho em todos esses lugares, já que frequentemente menores não são recebidos sem a presença de uma pessoa adulta. 

Então depois do café passamos um longo momento tentando resolver algumas pendências pela internet, solicitação de documentos necessários pra completar o dossiê dele. Só que não deu certo, pois tudo é extremamente complicado quando se trata de fazer o Estado francês reconhecer que esses meninos são menores de idade, pois isso os colocaria sob a tutela do Estado. Samba voltou pra casa da família que o hospeda frustrado, pois estamos numa corrida contra o tempo. Em dezembro ele completa 17 anos e se já é difícil fazer com que o Estado proteja os menores migrantes de menos de 16 anos, a coisa fica ainda mais complicada entre 17 e 18. Se o menor completar 18 anos sem ter seus status de menor isolado reconhecido, o Estado não tem mais nenhuma obrigação legal com ele. Então Samba está começando a se desesperar e me partiu o coração não ter conseguido fazer nada pra ajudá-lo naquele momento. 

Tarde

Às 14h eu tinha que me apresentar no órgão da polícia que entrega vistos, pra retirar minha carteira de residente. Faz mais de uma ano que dei entrada no pedido de residência e recebi uma mensagem em fevereiro dizendo que ela estava pronta e que eu podia retirá-la no dia 24 de março. Só que a França decretou um lockdown exatamente uma semana antes dessa data. Uma das consequências foi que milhares de vistos e carteiras de residente ficaram bloqueadas e nós, estrangeiras morando na França, ficamos numa situação delicada. Sem esses documentos, não podemos sair do território francês e, em plena pandemia, isso foi um motivo de muita preocupação pra mim. Há meses que o medo de algo acontecer com a minha família, no Brasil, me acompanhava. Eu já tinha inclusive decidido ir ao Brasil mesmo assim, pois a condição de saúde da minha mãe, que tem Alzheimer, está se degradando rapidamente. Na verdade, o governo francês não pode me impedir de sair da França, já que sou uma cidadã estrangeira. É o retorno que se torna impossível, já que quebrei a lei ao deixar o país no meio do processo de pedir residência aqui. Foi difícil tomar essa decisão, mas eu não ia deixar uma burocracia, um pedaço de papel dado por um governo que prefere me ver bem longe, me separar dos últimos momentos de lucidez da minha mãe. E olha que interessante, depois de ter tomado essa decisão não é que recebi uma mensagem do governo falando pra eu ir retirar a carteira de residente no dia 10? Então fui lá, receber o tão esperado sésamo que abriria as fronteiras pra mim. 

Tem fila pra entrar no prédio, fila pra passar pela segurança… Um policial retirou minha mochila da esteira do raio-X pra ler os bottons que a decoram e depois de ter descoberto que todos denunciavam o tratamento do Estado francês aos migrantes, fez uma careta e se recusou a colocar a mochila de volta na esteira. Coloquei a mochila de volta e segui o percurso até chegar na sala onde as carteiras são entregues. Quase todas as pessoas trabalhando ali eram estrangeiras e pensei que o Estado é muito engenhoso, mesmo. Recruta estrangeiras pra tratar os pedidos de visto e residência de outras estrangeiras, criando uma hierarquia entre nós e destruindo nossa solidariedade de classe. 

Mal acreditei quando vi a carteira de residente com a minha foto e o meu nome, mas ao pegar o telefone pra contar pra família que tinha dado tudo certo, vi que tinha quatro ligações perdidas de Samba. Comecei a imaginar que ele estava em apuros, provavelmente com a polícia que tinha pego ele no caminho de volta pra casa e dado um multa pra ele, já que ele não podia provar que tinha uma razão válida pra descumprir as medidas do lockdown (a hora marcada com a enfermeira de MSF tinha sido no dia anterior e ele deveria ter voltado pra casa logo depois, não ter passado a noite com a gente). Pior, ao ver que ele não tinha documentos, a polícia teria detido ele. Saí do prédio apressada pra poder ligar pra ele do lado de fora. Felizmente ele estava bem, só queria saber se tinha dado tudo certo pra mim. Desliguei o telefone e toda a felicidade que eu tinha sentido minutos antes se evaporou. Eu tinha acabado de me tornar uma cidadã “legalizada”, enquanto Samba, e todas as pessoas exiladas dormindo na rua na nossa cidade, seguiam na ilegalidade, sendo perseguidas pela polícia e sem nenhum tipo de proteção. Fui caminhando em direção ao metro, pra voltar pra casa, e não pude conter o choro, pensando em como esse sistema é injusto. Sentei nas margens do rio Sena e liguei pra minha irmã aos prantos, que, com o susto,  pensou que eu não tinha conseguido retirar a carteira. Enquanto eu falava com ela percebi que a poucos metros de onde eu estava sentada tinha uma barraca, o tipo de barraca que as ONGs dão aos migrantes. Tinha um migrante dormindo na rua ali do lado, no coração da cidade mais turística, e uma das mais ricas, do mundo. 

Noite

A cozinha é o meu porto seguro, é pra onde corro nos momentos de alegria e tristeza. Depois de ter preparado um jantar especial e digerido as emoções do dia, eu estava pronta pra comemorar o fato de ser uma migrante documentada com Anne. Mas antes de sentarmos pra comer, vimos a polícia ocupar o pátio central do nosso Cohab e deter alguns moradores jovens. A presença policial na periferia norte de Paris é constante, mas durante o lockdown (estamos atravessando o segundo lockdown desde o início da pandemia) o número de policiais aqui triplicou. Preciso dizer que nos bairros chiques de Paris as pessoas têm uma experiência totalmente diferente do lockdown, sem polícia? É a segunda vez em uma semana que a polícia aparece no nosso Cohab e na última, no meio da madrugada, policiais entraram no prédio e subiram até o nosso andar, que é o último. É difícil fazer abstração das desigualdades e injustiças ao meu redor aqui, mesmo quando estou tentando me concentrar em pequenas vitórias pessoais. Não esqueço nem um segundo que ninguém é livre até que todas sejamos livres. Então fui dormir prometendo a mim mesma que usarei meu recém adquirido status de migrante documentada pra fazer tudo que estiver ao meu alcance pra transformar a realidade daquelas e daqueles que vieram de longe e merecem ter seus direitos reconhecidos também.