Semanas atrás postei no IG a foto do pudim de chocolate e tahina que ando fazendo com frequência por aqui e, como sempre acontece quando tem chocolate envolvido, muitas pessoas pediram a receita. Ela é antiga (postei sete anos atrás), mas a novidade aqui é a tahina. Descobri recentemente que chocolate e tahina é uma das melhores combinações dos todos os tempos. Não sei por que demorei tanto pra juntar A mais B, já que anos atrás comi uma barra de chocolate amargo coberta com gergelim e achei divino! Só quando vi uma sorveteria vegana em Seattle fazendo sorvete de chocolate e tahina que me dei conta que deveria começar a colocar tahina em todas as minhas confecções achocolatadas.

Esse pudim é muito simples. Das sobremesas que faço pras pessoas de casa, mas raramente pra visitas. O sabor da tahina é suave e quase imperceptível. O que esse ingrediente faz aqui é complementar o sabor do chocolate e acrescentar um “je ne sais quoi” à receita. Claro que a qualidade da tahina utilizada é crucial aqui, por isso escolha a melhor possível (mais sobre isso abaixo). Recentemente quebrei minha regra “pras visitas, não” e servi esse pudim pra uma amiga de passagem. Como ela adorou, me animei mais ainda pra compartilhar a receita aqui.

Notas sobre tahina, pois me fazem as mesmas perguntas sempre, então vou logo antecipando as respostas.

1-Tahina é a mesma coisa que tahine. As duas grafias são aceitas (eu que decidi). Em Árabe é “tahiniya”, então nos dois casos a gente tá fazendo uma aportuguesação da palavra. Prefiro com “a” porque fica mais próxima da palavra original.

2- Tahina vendida em supermercados e lojas de produtos naturais são geralmente feitas com gergelim integral, com casca. Isso modifica muito o sabor e deixa a tahina bem amarga (e mais escura). Aqui no Oriente Médio tahina é sempre feita com gergelim descascado. Vamos cair na real, gente. A quantidade microscópica de fibras que a casca do gergelim vai trazer pra sua dieta vai fazer uma diferença igualmente microscópica. Nesse caso a palavra “integral” não faz diferença nenhuma. Aliás se você for uma pessoa vegana, já deve estar ingerindo fibras suficientes. E se não estiver, coma mais feijão e não casca de gergelim! E a diferença no sabor entre tahina de gergelim integral ou descascado é gigante.

3- Não tenho nenhuma marca pra recomendar aí no Brasil. Sei que meu amigo Josias, do Empório Pura Vida (Recife) vende a melhor tahina que já comprei aí. Pra quem mora em outras cidades, procure tahina em lojas de produtos árabes. A tahina libanesa é uma das melhores e a regra geral é: quanto mais clara e fluida, mais suave o sabor.

4- Sim, você pode tentar fazer tahina em casa processando gergelim ligeiramente torrado (facilita a liberação do óleo), mas eu só aconselho se você não encontrar tahina onde mora. As máquinas usadas pra moer gergelim são feitas especialmente pra não esquentar a semente. Aqui na Palestina a melhor tahina é feita de maneira tradicional, num moinho de pedra e isso faz uma diferença enorme no sabor, além de deixar a textura muito mais lisa. O processador da sua casa vai esquentar o gergelim (e o óleo que ele carrega) e o sabor não será o mesmo. Também adoro fazer tudo em casa, mas em alguns (poucos) casos, os resultados caseiros deixam muito a desejar e aí é melhor deixar o trabalho com especialistas.

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Pudim de chocolate e tahina

Conheço pessoas que evitam usar amido de milho porque o milho no Brasil é sempre transgênico e aplaudo essas pessoas. Então quem quiser pode substituir esse ingrediente por polvilho doce ou araruta. Fica um pouco menos firme, pois percebi que polvilho e araruta não se comportam exatamente da mesma maneira que amido de milho, mas nada que comprometa a receita. Faço essa receita com xarope de bordo, que tem um sabor maravilhoso, mas sei que é caro e difícil de encontrar no Brasil. O melhor substituto pra ele aqui é xarope de agave (sabor neutro) ou melado (sabor mais forte). Além de adoçar, o xarope/melado deixa a consistência mais próxima de um flan. Não me perguntem que ciência é essa, mas o xarope/melado é essencial pra dar viscosidade e sempre que faço essa receita só com açúcar de coco a textura fica mais compacta e menos “pudim”.

2 cs (rasas) de amido de milho (leia acima)

2 cs de cacau (puro, sem açúcar)

2x de leite vegetal

2 cs de xarope da agave, de bordo (maple) ou melado de cana

Açúcar de coco a gosto (uso 1cs)

Uma pitada de sal

1/2 cc de extrato natural de baunilha (opcional, uso as sementes de um favo de baunilha)

80 g de chocolate 70%

2 colheres sopa de tahina (clara e líquida)

Em uma panela pequena dissolva o amido de milho (ou polvilho/araruta) e o cacau em uma quantidade pequena de leite vegetal. Mexa bem pra dissolver tudo. Junte o resto do leite vegetal, o açúcar de coco e o sal e leve ao fogo baixo, mexendo sem parar com uma colher de pau. Assim que começar a ferver e engrossar levemente desligue o fogo. Junte a baunilha e o chocolate em pedacinhos e misture devagar até derreter completamente. Acrescente a tahina e misture delicadamente. É importante usar uma tahina fluida e líquida, pois se for muito compacta não vai dissolver de maneira homogênea e a textura ficará granulosa. Prove e decida se está doce o suficiente. Se achar necessário acrescente mais açúcar de coco à mistura ainda quente e mexa bem pra dissolver. Divida o pudim em copinhos (gosto de usar xícaras de café), cubra com filme ou papel alumínio e leve à geladeira por 12 horas antes de servir. Rende de 4 a 8 porções, dependendo do tamanho dos seus copos e de quanto de pudim você quiser oferecer pra cada convidada. Se conserva alguns dias na geladeira.

No início do passado fui morar em Beirute por três meses. Sempre tive vontade de visitar a cidade, conhecer as belezas do Líbano e provar a maravilhosa culinária libanesa na fonte. Aproveitei pra fazer um curso de Árabe escrito e foi uma experiência muito enriquecedora, em todos os sentidos. Já cheguei em Beirute decidida a fazer um Guia Vegano da cidade, pra compartilhar os tesouros gastronômicos que eu iria descobrir por lá. Levei um ano pra realizar o guia e hoje, pensando sobre o porquê disso, me dei conta que o fato de ainda não ter digerido completamente minha vivência em Beirute estava criando essa resistência. Quando me perguntam: “O que achou de Beirute?” nunca sei o que responder. A cidade é muito interessante, com lugares lindos e outros ainda carregados de cicatrizes da guerra civil, as pessoas são calorosas e simpáticas e a comida é a melhor parte de tudo, mas… Tem um “mas” gigante.

A desigualdade social. As condições de vida nos campos de refugiados palestinos, como Sabra e Shatila. A situação de 1.5 milhões de refugiados sírios, parte deles palestinos refugiados pela segunda vez, tratados como cidadãos de segunda categoria pelo governo e pela sociedade libanesa. A obsessão com as aparências traduzida no uso excessivo de cirurgia plástica. As trabalhadoras domésticas vindas da Ásia e África que vivem em um regime de escravidão moderna. O sectarismo da sociedade libanesa. A impressão que todo mundo se tolera, mas não esqueceu as disputas do passado e que uma nova guerra civil pode explodir a qualquer minuto. O sistema político extremamente complicado e que não represente a população. A corrupção escancarada em todos os setores da vida política e civil.

De uma certa maneira, o Líbano tem muitas semelhanças com o Brasil, mas talvez por ser tão menor (o Líbano é metade de Sergipe em área!) tudo fica muito mais concentrado e visível. Não entendam mal, adorei os meses que passei lá e recomendo muitíssimo uma visita a Beirute. Tenho até planos de voltar no futuro. Mas foram experiências tão contrastadas que não sei o que fazer de tudo que vi, ouvi e vivi.

Mas é claro que você pode visitar a cidade e ter uma experiência radicalmente distinta da minha. Vi muitas pessoas estrangeiras que estavam ali pra aproveitar as praias, as belezas naturais, a comida, a hospitalidade e saíram encantadas com tudo. A maneira como você viaja é determinante aqui. Beirute tem restaurantes incríveis, bares, discotecas e festas pra todos os gostos e turistas podem voltar pra casa tendo visto só coisas lindas e maravilhosas. Mais uma semelhança com a nossa realidade brasileira. Porém a pessoa escrevendo esse guia não tem a pretensão de te dizer como viajar, isso vai depender dos interesses políticos (ou falta deles) de cada pessoa. Vou deixar tudo isso de lado aqui pra me concentrar na melhor parte da minha estada em Beirute: a comida. Mais precisamente, a comida vegana.

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Comecemos pelo começo. Beirute é extremamente vegan-friendly. Não que o veganismo seja algo muito popular por lá, embora tenha uma comunidade vegana na cidade, o que me deixou muito feliz. Mas simplesmente porque a culinária tradicional libanesa é riquíssima em vegetais. Até hoje ainda não encontrei um povo que soubesse tratar vegetais com mais amor e sabor do que libaneses. Lá legumes não são meros acompanhamentos de animais assados/grelhados/cozidos. Eles são a estrela de muitos pratos e o fato de ter uma população cristã ortodoxa aumenta a oferta de pratos vegetais ainda mais. Os cristãos ortodoxos fazem uma quaresma totalmente livre de animais e seus derivados, contrariamente aos cristão católicos que só retiram alguns animais do cardápio durante a quaresma. E mesmo assim é uma prática marginal entre os católicos hoje em dia, enquanto que praticamente todos os ortodoxos respeitam o regime 100% vegetal durante a quaresma. Então é muito fácil encontrar pratos veganos nos restaurantes da cidade e, como estive lá durante uma parte da quaresma, alguns restaurantes passam a servir um cardápio vegetal ainda mais longo nessa época do ano. Fica a dica: visitem Beirute durante a quaresma. Além de tudo ficar mais lindo na primavera, vocês vão se extasiar com a imensa oferta e a qualidade da comida nessa época do ano. Pensei até em fazer um tour gastronômico vegano da cidade, de tão maravilhosa que é a comida por lá.

Porém, preparem o bolso. Os preços estão mais perto da Europa do que do Oriente Médio. Nesse guia você vai encontrar lugares muito baratos, baratos e um pouco mais caros (pros padrões locais). Não visitei os restaurantes mais chiques e caros da cidade, primeiro porque minhas finanças não permitiram, mas também porque quanto mais chique o lugar, menor suas chances de achar comida vegana. Pois é. Pra grande felicidade das veganas, os lugares mais baratos têm mais opções veganas, pois são os restaurantes tradicionais e populares. Comer animais é coisa de rico!

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Em lugares mais descolados (entenda “hipsters”) você encontra um ou outro prato vegano, mas geralmente feitos com ingredientes vindos de longe (oi, quinoa!), então a conta vem sempre mais salgada. Incluí alguns desses lugares nesse guia, mas meu foco principal são lugares populares com comida tradicional. Porque ir parar no Líbano pra comer quinoa vinda do Peru não faz muito sentido pra mim, principalmente quando a culinária local, com ingredientes tradicionais, é tão deliciosa.

Importante! Os endereços nunca têm número, então você terá que localizar a rua e começar a perguntar aos passantes onde fica o restaurante procurado. Mas não se preocupe. As pessoas libanesas são extremamente gentis e adoram ajudar a gringaiada perdida.

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Gemayze/Mar Mikhael

Eu morei exatamente entre esses dois bairros e foi aqui qui fiz a maior parte das minhas explorações culinárias. É o local mais descolado/hipster da cidade e onde a juventude classe alta sai pra se divertir à noite. Mas vale a pena vir aqui durante o dia também, pois esses bairros, com suas escadarias coloridas, são super charmosos. A rua Gouraud, que se transforma em rua Armenia, é a principal e conecta os dois bairros. Ela abriga vários restaurantes, cafés e bares simpáticos. Todos os lugares abaixo estão concentrados em uma área bem pequena e dá pra ir andando de um endereço pro outro.

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Le Chef (Rue Gouraud, Gemayze)

Meu restaurante preferido na cidade. Descobri por acaso, porque morava a poucos metros dali. É um lugar simples, que serve comida tradicional libanesa deliciosa por um preço imbatível. E durante a quaresma a variedade de pratos vegetais é ainda maior. Tem hummus, babaganoush, fatoush (salada de tomate e pepino com pedaços de pão frito) e tabule, mas o que mais gostei foram a sopa de lentilha coral (com muito limão e cominho), mussaka (berinjela frita servida com molho de tomate e grão de bico), as saladas cruas (sempre temperadas com melado de romã), o quibe de jerimum com acelga verde, feijão branco com tomate e as maravilhosas folhas de acelga recheadas (como folhas de parreira).

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Im Nazzieh (Rue Pasteur, Gemayze)

A cantina da escola de Árabe onde estudei (Saifi Institute), mas não precisa ser estudante pra comer lá. O lugar é aberto ao público o dia inteiro e você pode tomar café da manhã (tem man’oushe – pão libanês assado na hora, coberto com azeite e za’atar, um tipo de tomilho, hummus, café e chá), almoçar, jantar ou fumar um narguilê. Ou todas as todas as opções mencionadas. Foi o almoço mais barato que encontrei na cidade (mais barato que isso só sanduíche de falafel) e o cardápio tem várias opções veganas, como mudjadara (arroz com lentilha e cebola frita), sopa de lentilha, os traidicionais hummus e babaghanoush e mais alguns pratos típicos, dependendo do dia. A comida era boa, sem ser extraordinária, mas pelo preço cobrado você vai sair achando tudo ótimo. Menção especial pro foul (pasta de fava com azeite), que foi um dos melhores que comi por lá.

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Fern Ghattas (Rue Gouraud, Gemayze)

Um dos mais famosos man’ouches da cidade, no top 3 de todo mundo. Man’oushe é mais que um pão tradicional recheado com os mais diversos ingredientes, é uma instituição no Líbano. E esse lugar minúsculo, que funciona desde 1920, serve o melhor man’oushe que já comi até hoje. Os preços são camaradas (man’oushe é sempre uma opção barata), o atendimento é extremamente simpático e o cardápio indica claramente as opções veganas, o que terminou de conquistar o meu coração. Pessoas que evitam glúten se abster, obviamente, mas pra todas as outras esse lugar é imperdível! Os man’oushes veganos são: dois tipos de za’atar (libanês e sírio, que tem uma mistura especial de sementes e especiarias), za’atar/tomate/cebola e espinafre. Prove todos. Perfeito pro café da manhã ou lanche.

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Enab (Rue Armenia, Mar Mikhael)

Um restaurante tradicional mais chique que os que indiquei acima, mas vale a pena ir pelo menos uma vez. Os preços são mais elevados, claro, mas você encontra alguns pratos vegetais mais sofisticados. Tudo que comi lá estava delicioso e não deixe de provar o muhamara (pasta de pimentão vermelho, nozes e melado de romã, bem apimentada), quibe de batata (de bandeja), as folhas de parreira recheadas e a limonada com manjericão (surpreendente).

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Urbanista (Rue Gourad, Gemayze)

Um café/restaurante que serve cappuccino com leite de soja, smoothies e alguns pratos veganos. Tem internet e mesas espaçosas, então muitas pessoas vão lá pra trabalhar. Os preços são mais elevados e a clientela é uma mistura de hipsters locais e estrangeiros.

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Oslo Ice Cream (Rue de Madrid, Mar Mikhael – próximo ao prédio da Eletricité du Liban)

Sorveteria artesanal com uma longa lista de sorbets (sorvetes à base de água, logo, veganos). Tem 17 sorbets, dos clássicos morango, framboesa, limão, manga e coco, aos sabores mais locais como rosa, romã, hortelã e toranja. Dá pra degustar no local ou levar um potinho (ou vários) pra casa.

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SoleInsight  (Vendome Stairs, Asharafiah)

Na Rue Armenia, depois de passar pelo restaurante Enab (à sua direita), continue andando mais um pouco até achar uma grande escadaria subindo à direita. No meio da escadaria tem um café mimoso, onde você pode descansar um pouco, tomar um café turco (ou algo mais forte) e curtir o ambiente relaxante. Tem sempre uma ou outra coisinha vegana pra beliscar (hummus, sopa) e algumas geleias ótimas pra você levar pra casa.

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Bourj Hammoud

Se você continuar andando na rua principal (Gouraud, que se transforma em Armenia) na direção do rio Beirute, você vai chegar na ponte que atravessa o rio. Do lado de lá da ponte fica Bourj Hammoud, conhecida como “a pequena Armênia”. É o bairro que acolhe a população armênia de Beirute, e o coração da comunidade armênia no Líbano, que chegou ali fugindo do genocídio cometido pela Turquia, quase 100 anos atrás. É um lugar fascinante, caótico e visualmente impactante. E pra fazer a visita valer ainda mais a pena, você poderá provar a autêntica culinária armênia no mais famoso restaurante do gênero na cidade.

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Onno Bistrot (Brad Street, Bourj Hammoud)

Achar esse lugar é um desafio, mas vale a pena procurar, se perder, pedir informação, se perder novamente… Pensamento positivo: assim você vai visitando o bairro. O local é famoso por ser o melhor restaurante armênio da cidade e apesar da culinária armênia ser extremamente carnívora (descobri lá, pois nunca tinha provado antes), tem opções veganas saborosas que valem a viagem. Pedi ajuda ao garçon e ele me aconselhou: quibe de lentilha coral (de bandeja e delicioso), berinjela recheada com verduras, arroz, grão de bico e nozes (a melhor berinjela recheada que já comi) e muhamara, que é um pouco diferente do muhamara que eu conheço. Continua sendo a base de pimentão vermelho assado, mas não é nada picante e tem um sabor de queijo envelhecido (como parmesão ou cantal) tão impressionante que tive que ir perguntar ao chef se aquilo era vegano, mesmo. Era. E com certeza tem ciência. Os preços são honestos e o atendimento é muito bom.

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New Indo-Lankan (Daura)

Se você caminhar na rua principal de Bourj Hammoud, na direção de Daura, vai chegar em uma rotatória, embaixo de um viaduto. Na rua que parte à direita, logo em frente, tem uma loja de produtos indianos e um restaurante indiano no primeiro andar.  Esse é só para pessoas fortes. Quem tem exigências de higiêne elevadas deve passar direito, mas pra quem não se importa muito com isso e adora comida do sul da Índia (e cansou de comer hummus e man’oushe) esse lugar é um achado. Dosas (crepes de arroz e lentilha, recheados com legumes e especiarias e servidos com uma variedade de chutneys) deliciosas e a preço de banana. Na loja no andar de baixo eu comprava a mistura pra dosa (farinha de arroz e lentilha misturadas) e farinha de grão de bico pra fazer grãomelete.

Downtown/Ashrafieh

Essa parte da cidade fica colada à Gemayze, na direção oposta de Bourj Hammoud. O centro da cidade (Downtown) foi completamente destruído durante a guerra civil e foi reconstruído recentemente de maneira espetacular e que não agradou todo mundo. Confesso que não gosto muito desse bairro, que mais parece uma cidade cenográfica povoada com butiques de luxo. Mas tem um tesouro lá: Souk Al Tayeb (“souk” significa “feira” em Árabe). Ashrafieh é um bairro residencial gostoso de se passear, onde tem o melhor restaurante sírio da cidade (foi o que os sírios que conheci me disseram e eu acreditei, claro) e uma loja de produtos orgânicos que é uma verdadeira mina de ouro pra veganas.

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Souk Al Tayeb (Souks – Downtow)

O meu lugar preferido de todos! Uma feira de pequenos produtores, que acontece nos sábados das 9h às 14h, onde além de encontrar vegetais orgânicos, oleaginosas, geléias, especiarias e ervas você vai achar tesouros, muitos tesouros. Tem uma cooperativa de mulheres refugiadas sírias, que vende salgados deliciosos (com za’atar, espinafre, pimentão, nozes e pimenta, meu preferido). Várias mulheres vendendo sua arte comestível, como quibes veganos, folhas de acelga recheadas, melado de uva batido, doce de figo e gergelim… Sucos frescos e shots de grama de trigo (wheatgrass). Biscoitos veganos e sem glúten (e sem fermento/levedura!!!!) divinos da marca Bites of Delight. Tem biscoitos de cacau, café, canela, anis ou baunilha, e biscoitos salgados, com za’atar ou azeitonas. São todos maravilhosos, mas o de baunilha, de uma delicadeza poética, derreteu meu coração. E são feitos com ingredientes nutritivos como: feijão adzuki, sarraceno e óleo de coco. Pode soar pouco apetitoso, mas são os melhores biscoitos que já provei (veganos ou não, gluten-free ou não). Na feira tem também o camarada Rodrigue Harb, um vegano que faz queijo de amêndoas estilo coalhada seca no azeite (muito, muito bom) e uma pasta de chocolate chamada Chakala, adoçada com tâmaras. E tem o pessoal da Eshmoon que faz as coisas mais maravilhosas que já fizeram nessa Terra, umas preparações à base de chocolate (pastas, bolinhas, barras) com os melhores ingredientes possíveis (cacau em pó, manteiga de cacau, óleo, manteiga e néctar de coco, tudo orgânico). Praticamente tudo que elas fazem é vegano, com exceção dos produtos que levam mel. A pasta de chocolate e laranja (vaza desse mundo, Nutella!) e as pílulas de alfarroba (brigadeiro foi pra casa com vergonha depois de descobrir essas pílulas) sozinhas valem uma viagem à Beirute. E eu não estou nem exagerando. Visite a feira com fome, almoce por lá e tente se controlar pra não gastar todo o seu dinheiro, o da sua companheira e a herança da família que você ainda não recebeu com comida pra levar pra casa. Só não venha me culpar depois, é por sua conta e risco!

Falafel M. Sahyoun (Damascus Rd, na altura do cruzamento com a rua Syrian Patriarcat, perto de Downtown)

Tem falafel em cada esquina de Beirute, mas eu só vou indicar um: Sahyoun. Você não vai precisar de outro. Ninguém precisa de outro. Pessoas, eu comi muito falafel na vida, mas nada, nada, nem de longe se iguala ao que seu Sahyoun faz. O lugar abriu em 1935 e hoje é o filho do Sahyoun pai (o M é de Mustafa) que faz falafel. Cheguei sem muita expectativa, pois apesar de muitas libanesas terem recomendado o lugar eu pensava que já tinha comido tanto falafel bom na Palestina que nada ali podia me surpreender. Ledo engano! O lugar só vende um ítem: sanduíche de falafel. Nada mais. O falafel em si tem um tempero diferente dos outros que já comi e o sanduíche, no pão folha, vem com tomate, rabanete, uma floresta de salsinha e hortelã (faz toda a diferença) e é generosamente regado com molho de tahine (tahine, limão, água, sal) e, se a cliente quiser, molho de pimenta não muito forte. Minha nossa senhora das Quenturas, que coisa maravilhosa é aquela? Sahyoun filho faz falafel há mais de 50 anos e é uma simpatia só. Meu Árabe me ajudou a conquistar a afeição dele, que achou num primeiro tempo que eu tinha ascendência palestina ou libanesa. Falei: “Seu Sahyoun, libera a receita do seu falafel aí pra nós”. Ele sorriu e disse: “Esse segredo eu vou levar pro meu túmulo.” Então corre todo mundo lá enquanto seu Sahyoun ainda vive e se deliciem com essa maravilha. O preço, como é o caso de sanduíches de falafel em geral, é bem modesto.

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Bab Sharqk Le Jardin (Trabaud Street, Ashrafieh)

Eu nunca tinha provado comida síria na vida, mas já conhecia a reputação dessa culinária. Aqui no Oriente Médio, e fora dele, todo mundo diz que a cozinha mais refinada de todas é a síria. Com uma população síria tão grande, não é de se espantar que o número de restaurantes tradicionais desse país seja grande em Beirute. Só fui em um, pois depois de muito perguntar, me garantiram que era o melhor de todos. O restaurante em si é lindo, todo de pedra, com uma parte fechada e outra ao ar livre. Sentei embaixo de árvores frondosas e o serviço é impecável. O menu é imenso e tive que pedir ajuda ao garçon pra saber quais ítens eram veganos. Ele foi muito simpático e foi me dizendo todos os ingredientes dos pratos que eu poderia pedir. No final pedi um trio de pastas de legumes (a de alcachofra estava de cair da cadeira!) e um quibe de lentilha sublime. Do pouco que vi, me pareceu que a culinária síria é um pouco mais carnívora e menos veg-friendly que a libanesa, mas ainda assim recomendo o lugar. Os preços refletem a qualidade da comida e do serviço (mesma faixa de preço que Enab).

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A New Earth – loja de produtos orgânicos (Rue Zahret El Ihsan, Ashrafieh)

Fui pela primeira vez nessa loja porque Valentina, a amiga italiana com quem dividíamos o apartamento, recomendou. Ficava relativamente perto de casa e fui porque lojas de produtos orgânicos é o meu parque de diversões. Não esperava encontrar tantas opções veganas, incluindo as pastas e chocolates da Eshmoon e alguns queijos e iogurtes veganos (à base de amêndoas ou arroz). Também é o lugar pra comprar cosméticos orgânicos e sem crueldade. Os preços são elevados, então eu só comprava uns mimos de vez em quando, como condimentos que eu não encontrava em outros lugares: missô, levedura de cerveja maltada (nutricional), pasta de amêndoas, óleo de cânhamo, uma espécie de molho shoyu feito com coco…

Hamra

Esse é o centro comercial da cidade, a parte mais animada e movimentada. Tem restaurantes mais populares e alguns bares alternativos.

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Mezyan (Rasamny Center, Main Street, Hamra)

Um restaurante muito simpático e espaçoso, o primeiro lugar onde comi quando cheguei na cidade. O cardápio tem várias opções veganas, todas marcadas com um V. Meus pratos preferidos lá: sopa de lentilha amarela com cominho (uma das melhores), abobrinha frita com molho de tahine (mtabbal kousa) e pasta de beterraba assada com tahine e alho (mtabbal beetroot). Os preços são honestos e o atendimento é de uma simpatia só. Quando contei pro garçon que era vegana ele trouxe o gerente que fez questão de me oferecer a pasta de beterraba, sua última criação, de graça, em troca da minha opinião sincera sobre o prato. Às vezes rola música ao vivo e outros eventos à noite.

Bardo (Mexico Street, Hamra)

Café/espaço de trabalho de dia e restaurante/bar durante a noite, é um dos (poucos) lugares alternativos de Beirute. E por “alternativo” eu quero dizer que pessoas alegres frequentam o lugar. E por “alegres” eu quero dizer pessoas como eu e a minha esposa. Entendidas entenderão. Fui lá pra procurar a minha turma e acabei comendo muito bem. Pedi ajuda ao garçon, pois não tem muitas opções veganas no menu, que é tão alternativo quanto o lugar (você não vai achar hummus aqui). Ele explicou direitinho quais pratos eu poderia pedir. Comi gyosa de berinjela com missô e mais umas coisinhas que esqueci e estava tudo delicioso. E o lista de vinhos servidos lá é impressionante. Gostei demais do lugar e vale a pena uma visita mesmo se você não fizer parte da minha turma.

Raouch

Essa é a parte mais turística de Beirute, onde fica a famosa Rocha dos Pombos e as praias mais visitadas. E também é lá que fica o restaurante com a melhor vista de todos.

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Manara Palace (Corniche, perto do farol Manara. Qualquer motorista de taxi conhece o lugar e pode te deixar na porta)

Esse restaurante imenso tem uma sala fechada (evite) e um espaço externo do lado do mar. O cardápio é tradicional (hummos e afins), gostoso e barato. É um local popular, que ainda não foi invadido por turistas. E a vista! A vista!!! Vou deixar as fotos falarem por mim.

E único lugar vegetariano/vegano da cidade (e que eu não visitei):

The Olive Tree (Sodeco Square, Bloco D, térreo, Ashrafieh)

Tem um café/restaurante totalmente orgânico, vegetariano e vegano, com opções sem glúten, que não usa nada refinado. Parece maravilhoso, mas eu nunca fui lá. Eu queria ter ido, mas o tempo foi passando e eu acabei indo embora da cidade sem ter passado por lá. Uma pena. Então não posso dizer se é bom, mas achei que deveria inclui-lo no guia, mesmo assim, e deixar vocês descobrirem (cada uma vai por sua conta e risco!).

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Gostaria de terminar esse guia com algumas dicas não comestíveis. Se quiserem ver um filme, o Metropolis Cinema (Rue Michel Bustros, Achrafieh) tem sempre opções interessantes (filmes de arte, indies, cinema europeu obscuro, produções independentes). O Museu Sursok (Greek Ortodoxo Archbishopric Street – Ashrafieh) foi um dos lugares que mais gostei na cidade. O prédio é lindo, a coleção de arte moderna, feita principalmente por artistas libaneses, é muito interessante e a entrada é gratuita. A Corniche, que é o calçadão da praia em Beirute, merece ser visitada várias vezes, no final da tarde e à noite. E já que você está lá, olhando os locais irem e virem, ou fumarem narguilê de frente ao mar, prove as favas ou tremoço dos vendedores ambulantes que estão sempre por ali.

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Eu dividi um apartamento enquanto morei lá, mas uma amiga ficou hospedada na Saifi Guest House, a pousada da nossa escola de Árabe, e gostou muito. Quem estiver procurando hospedagem relativamente barata, é pra lá que você deve ir. Fica muito bem localizada, em Ashrafieh, (de lá dá pra ir andando pra vários lugares que indiquei nesse guia) e fica em cima do restaurante Im Nazzieh.

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Se me perguntarem o que é o pior e o melhor de Beirute, diria o seguinte. Pior: os preços de tudo, mas principalmente de telefone (crédito pra celular) e internet, o cheiro (estive por lá durante uma greve de garis e o lixo se acumulava pelas ruas), o trânsito maluco e os carros sempre estacionados nas calçadas e os cortes diários de eletricidade. O melhor? Os tesouros escondidos em cada esquina (viagem com os olhos e a mente bem abertos), a gentileza das pessoas (duas me venderam fiado! Numa capital!!!) e a comida, claro. Comi em muitos lugares que não entraram no guia e tive várias surpresas boas. Como um café perdido no meio de um bairro residencial, longe do centro, que servia cappuccino  com leite de soja e sanduíches com queijo de amêndoas. Então não seja tímida, pergunte sempre o que tem de vegano no menu ou que pode ser veganizado na cozinha e garanto que você, amiga vegana, não só não passará fome em Beirute como voltará pra casa com as papilas encantadas.

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Se Beirute fosse um cheiro, eu diria: jasmim com lixo. Eu sei, eu sei, parece horrível falar assim de uma cidade tão linda, mas foi esse o aroma que ficou gravado na minha memória olfativa. Se Beirute fosse um sabor, seria man’oushe de za’atar com hortelã fresca, tomate e azeitonas pretas. Se Beirute fosse uma música, seria com certeza uma canção de Fairuz, a grande dama da música libanesa. Mas confesso que atualmene meu coração está pendendo pro lado de uma outra cantora de Beirute, Yasmine Hamdam, e é ela que escuto quando bate saudades da cidade (especialmente essa música).

Quer ver mais fotos de Beirute? Escrevi esse post ano passado e sugiro também dar uma olhada no meu Instagram, pois postei muitas fotos lá quando estava morando na cidade (procure a #papacapimbeirute).

Escrevi no primeiro dia do ano que eu tinha casado e prometi falar mais sobre o assunto, e compartilhar fotos, em um outro post. Cá estou pra cumprir a promessa.

Quando criei esse blog, exatos sete anos atrás, eu queria compartilhar mais que receitas. Queria colocar pedaços da minha vida aqui pra mostrar que pessoas veganas não são muito diferente das outras e que não é nada esotérico ter um estilo de vida sem crueldade. Quase imediatamente senti a mesma responsabilidade com relação à outra comunidade da qual faço parte, a comunidade LGBTQ. Falar abertamente da minha orientação sexual aqui no blog é extremamente importante pra mim, pois nós, LGBTQs, precisamos de visibilidade. Se sentir representada na literatura, cinema, mídia, internet, política e todos os aspectos da vida civil importa e muito. Então gosto de pensar que o blog me dá a oportunidade, além de desmistificar a culinária vegetal, de fazer minha contribuição nesse sentido.

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Anne e eu estamos juntas há mais de oito anos e assinamos os documentos de união estável seis anos atrás, no consulado francês em Jerusalém. Na época casamento era um direito ao qual não tínhamos acesso, então nos pareceu natural chamar a união estável de casamento. Fizemos um brunch pra celebrar a união e viajamos em lua-de-mel pra Irlanda. Os anos se passaram e descobrimos que a união estável não nos dava os mesmos direitos que o casamento, logo não nos protegia da discriminação anti-imigrante institucionalizada (principalmente na Europa), o que é algo muito importante quando cada metade do casal vem de um continente diferente e que vocês estão sempre mudando de país.

Eu nunca fui uma dessas pessoas que sonhava com casamento. Anne se sentia do mesmo jeito. Mas fico irritada com pessoas dizendo que casais homossexuais não deveriam lutar pelo direito de participar de “uma instituição falida”. Ou, pior, quando dizem que queremos imitar casais heterossexuais. Primeiro porque ninguém pode me dizer pelo que lutar. Luto pelo que é importante pra mim e se não é pra você, ao invés de criticar a minha luta, vá procurar a causa que toca o seu coração. Mas principalmente porque é uma questão de direitos iguais. Não acho que todas as pessoas devem se casar, mas isso tem que ser uma escolha pessoal. E pra que seja uma escolha, a lei tem que nos dar essa opção. Pra quem não sabe, isso se tornou possível em 2013, tanto no Brasil quanto na França. Pelo menos por enquanto, pois com a situação política atual nos dois países, principalmente no Brasil pós golpe, nenhum direito está a salvo de ataques.

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Na família de Anne, contrariamente à minha, casamento é algo enorme. As cerimônias são pomposas e seguidas de banquetes. Precisamos convencer a parentada que não queríamos festa e que a cerimônia seria informal. A gente escolheu inclusive não trocar alianças e nosso anelar esquerdo continua pelado. Na França casamento acontece na prefeitura e é celebrado pela prefeita/vice. Não tem madrinhas/padrinhos de casamento, só testemunhas (que estão igualmente presentes na igreja, caso tenha também uma cerimônia religiosa). Claire, a irmã caçula de Anne, foi a testemunha dela. Emilie, uma prima de Anne, foi a minha. Ambas significam muito pra nós. Não fizemos de propósito, mas quando me dei conta que seríamos quatro mulheres (feministas!) participando da cerimônia fiquei muito feliz. Provavelmente foi inconscientemente de propósito…

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Optamos por não fazer festa porque é o que mais combina conosco, mas também porque minha família, que mora no Brasil, não estaria presente e não seria justo. Mas logo nos demos conta que a família francesa queria muito assistir à cerimônia e já que estariam todas e todos ali, convidamos o pessoal pra fazer um brinde conosco na casa do meu sogro. Quando insistiram em nos dar presentes explicamos que não temos casa e não teríamos como transporta-los conosco de país em país nessa nossa vida nômade. Então pedimos que quem quisesse oferecer algo pras recém-casadas, que fosse na forma de dinheiro pra uma lua-de-mel (nossa segunda!). Cobrimos uma caixinha de papelão com papel kraft, escrevemos nossos nomes em cima e foi lá que depositaram nossos presentes. A família foi generosa e acabamos levantando mais dinheiro do que o necessário pra viajar pra onde queremos. E quando a vida nos dá mais do que precisamos, acredito que é uma sugestão pra dividir com quem está mais necessitada. Então decidimos doar uma parte do nosso presente de casamento e esse gesto pequeno nos encheu de felicidade.

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A cerimônia foi muito especial pra nós porque foi o tio de Anne, que é vice prefeito, que nos casou. Bernard, que também é o pai de Emilie, minha testemunha, passou seis meses escrevendo o discurso lindo que ele leu pra nós e foi muito emocionante. O bom de ter uma cerimônia íntima, só com pessoas muito próximas e realizada por um tio é que cada indivíduo presente nos conhecia bem e estava sinceramente feliz por estar ali celebrando o nosso amor. Tinha quatro gerações naquela sala e a pessoa mais velha da família e a mais jovem estavam conosco. E como foi tudo muito simples e em casa, ninguém precisou comprar roupa nova. Pode parecer bobagem, mas eu não teria gostado de saber que fiz as pessoas terem gastos pra ir ao meu casamento.

Usei uma calça que comprei em um bazar de roupa usada em Paris, anos atrás, e uma blusa da minha irmã caçula, pois queria senti-la presente de alguma maneira naquele dia. E usei, pela primeira vez, o sapato da Insecta Shoes (uma marca brasileira de sapatos veganos feitos com material reciclado) que Márcia, uma leitora do blog, me deu de presente ano passado. Um dia recebi um email dela dizendo: “Muitas vezes, tarde da noite leio os seus posts, depois de um dia cheio de desesperança e notícias ruins, e vejo nas suas palavras e nas suas imagens um mundo onde o ser humano, apesar do sofrimento, não está só, que há pessoas iluminadas que se importam com as outras pessoas e então sinto meu coração aquecido porque, apesar de haver o mal, há pessoas, muitas delas, que ajudam de alguma forma com o que podem dar de si mesmas.” Ela disse que queria me agradecer de alguma maneira e me deu os sapatos. Sempre que olhava pra eles pensava em Márcia e em como somos responsáveis uns pelos outros (e incluo aqui todos os seres) nesse planeta. Foi muito especial ter usado sapatos tão carregados de significado positivo naquele dia. Anne colocou um bottom no blazer que dizia: “Racismo e injustiça existem quando pessoas boas não fazem nada” porque ela achou importante se manter ativista mesmo durante o casamento. Ela nunca me deixa esquecer porque escolho ela, dia após dia, pra me acompanhar nessa aventura que se chama vida.

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Escolhemos alguns dos nossos petiscos preferidos pra acompanhar o brinde. Nada muito sofisticado: pastas pra comer com pão ou legumes crus, samossas com tofu, manga e gengibre, nhoque no palito, chips de couve… Todas as receitas criada ou adaptadas por mim. Apesar de sermos as únicas veganas da família, ninguém reclamou da comida ser inteiramente vegetal, muito pelo contrário. Era uma escolha óbvia e a família fez questão de me dizer que estava tudo delicioso. Surpreendi uma tia-avó, que está beirando os 90, exclamando que se a comida fosse sempre gostosa daquele jeito ela podia muito bem ser vegana. Enquanto degustava os petiscos, um tio me contou que depois de ter participado de um jantar que fiz alguns anos atrás ele passou a ver comida vegana como algo que pode se tão gourmet et delicioso quanto comida tradicional. “No quesito sabor e prazer, comida vegana não fica devendo nada”, ele me falou.

Minhas três cunhadas nos ajudaram a preparar a comida e fizemos quase tudo na véspera. No dia do casamento Emilie se juntou à sororidade pra preparar os últimos pratos. Pedi à uma tia e à madrinha de Anne pra trazerem algo doce pra completar o buffet. A mãe de Anne morreu quando ela ainda era adolescente, mas Hélène, irmã da mãe de Anne, e Annie, que era a melhor amiga dela (e casou com um dos seus irmãos), ocupam na minha vida e no meu coração o lugar que minha sogra teria ocupado. Comida é a minha linguagem do amor e essas duas mulheres incríveis compartilham essa linguagem comigo. Por isso era muito importante pra mim ter um pouco do amor delas na mesa.

Fizemos alguns petiscos especialmente pras crianças e um ponche sem alcool pra elas. Também preparamos uma sopa (jerimum com gengibre e leite de coco) imaginando que as pessoas que ficariam até mais tarde acabariam sentindo fome novamente. Foi sugestão das minhas cunhadas e preciso dizer que foi uma ideia brilhante. Ter uma sopa pronta, esperando pra ser esquentada e servida, foi um presente pra lá de reconfortante no final de um dia tão intenso. E sopa é minha comida preferida, então foi uma maneira perfeita de encerrar as comemorações.

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Optamos por não fazer aquelas fotos tradicionais de casamento, pois acho entediante ficar posando pra foto e não tem nada a ver com o nosso estilo. Pedimos pra família fazer algumas fotos, com suas câmeras ou telefones, e no final recolhemos tudo. Claro que muitas fotos ficaram fora de foco ou com enquadramento ruim. Outras ficaram hilárias. Mas eu adorei, pois elas traduzem perfeitamente aquele dia: espontâneo, relaxado, informal… Uma bagunça feliz e transbordante de amor.

Emilie, as irmãs e o irmão de Anne, mais a esposa dele, se juntaram pra nos oferecer um presente fantástico: uma diária em um hotel 5 estrelas, com spa e direito a um jantar vegano criado pelo chef do restaurante do hotel, especialmente pra nós. No dia seguinte ao casamento tomamos café com a família e pegamos a estrada pra Vichy, a cidade onde ficava o hotel. Além da massagem, sauna, piscina de água mineral e do jantar sublime, foi maravilhoso ter esse tempo só pra nós duas, depois de ter tido tanta gente ao nosso redor o tempo todo por vários dias.

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Sei que meu relato é o de uma pessoa homossexual que tem muita sorte. Nossas famílias nos aceitam plenamente. Hélène, que já passou dos sessenta, nos confessou alguns dias depois do casamento que fazia questão de contar pra todo mundo que a sobrinha tinha casado com um mulher e acrescentou: “Eu tenho muito orgulho de vocês!” As outras tias e tios tiveram uma reação parecida. Uma tia-avó de mais de oitenta anos me puxou pelo braço na prefeitura e disse: “Minha filha, quem você ama só diz respeito a você mesma e ninguém tem o direito de opinar sobre isso.” Um primo veio me contar o favor que eu estava fazendo em entrar pra família porque até então só tinha casais héteros e estava mais que na hora de incluir um pouco de diversidade naquele grupo. Os filhos desse primo (4 e 2 anos) estavam felizes por demais de ir ao casamento e ele explicou que era o primeiro casamento deles e que há meses eles conversavam, cheios de animação, sobre o assunto. A avó de Anne assistiu à cerimônia na prefeitura e participou do brinde. Ela tem a saúde frágil por conta dos quase cem anos que viveu, mas as filhas fizeram questão de ir busca-la no asilo-hospital onde ela mora. Ela nos beijou tantas vezes, sorriu muito e apertou minha mão tão forte que não consegui controlar as lágrimas. Foi o único momento em que chorei naquele dia. Até o prefeito nos felicitou quando demos entrada no pedido de casamento, dizendo que sempre defendeu o direito ao casamento pra todas as pessoas e que a mudança na lei deveria ter acontecido há muito mais tempo. Ele também nos disse que tinha orgulho de ver acontecer um casamento entre mulheres na prefeitura dele (o primeiro casamento do tipo ali).

Mas isso não deveria ser “sorte”, deveria ser a experiência de todas as pessoas celebrando esse tipo de união. Ser aceita pela família, pela sociedade e ter seu casamento validado e festejado é um direito de todas.

A única coisa da qual me arrependi foi de não ter feito algumas fotos com a minha câmera, pra lembrar dos pequenos detalhes. Como os origamis que minha cunhada Claire fez (cisnes, estrelas, pinheiros) pra decorar a mesa. E os buquês que Céline, minha outra cunhada, fez com as folhas e galhos colhidos ao redor da casa. Mas claro que os detalhes importantes ficaram gravados na minha memória. São coisinhas miúdas, mas sempre que penso nelas abro um sorriso. Como quando Emilie me contou que tinha colocado o seu vestido preferido especialmente pra nós e eu tive certeza que não poderia ter escolhido uma testemunha melhor (ela chorou de emoção no dia que perguntei se ela aceitava ser minha testemunha). Quando me contaram que o tio de Anne que nos leva pra colher cogumelos no bosque, famoso por ser a pessoa mais casmurra da família, tinha sido visto chorando durante a cerimônia (como fui perder isso?). Poucos minutos antes ele tinha me dito, dentro de um abraço: “Você é uma das minhas sobrinhas preferidas.” O fato que as duas irmãs de Anne tenham decidido usar um kefieh (lenço tradicional palestino) pra nos acompanhar. Decidimos usar kefiehs naquele dia pra homenagear a Palestina, país onde nos conhecemos. O abraço a quatro, nós duas e nossas testemunhas, logo antes da cerimônia, embaixo do carvalho do jardim, a árvore preferida de Anne. A maneira como o dia terminou, com a família jogando baralho na mesa da sala de jantar, de peruca e com outros acessórios carnavalescos, fazendo piadas e tomando sopa. Eu olhei mais uma vez aquelas pessoas que nunca me ofereceram outra coisa além de amor e aceitação e senti uma imensa gratidão. Por estar onde estou hoje. Por ter casado com uma pessoa que eu admiro tanto. Por ter tanto amor na minha vida. E desejei o mesmo pra todas as outras pessoas.

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Então demos mais esse passo juntas e o nosso casal continua não-convencional. Quero aproveitar o ensejo pra falar de outra coisa importante na minha vida. Eu já mencionei isso, casualmente, em alguns posts, mas não sei se ficou claro pra todas então pensei que um coming out se fazia necessário. Eu sou poli (de “poliamorosa”), o que significa que não sou adepta da monogamia. E já que estou passando na sua tela pra destruir os valores da família tradicional cristã (cof, cof) com fotos do meu casamento lésbico, aproveito pra informar que tenho uma namorada, que ela se chama Claire (não confundir com a minha cunhada Claire) e que ela tem um lugar muito importante na minha vida.

Já tive relações monogâmicas, já tive relações abertas e alguns anos atrás chegamos à conclusão, Anne e eu, que o poliamor era o modelo de relação que mais nos correspondia. Fazia tempo que queria falar sobre isso aqui, pois já estabelecemos que gosto de desmistificar conceitos nesse blog. Esse post me pareceu a oportunidade perfeita porque o assunto dele é amor. E depois de ter visto o frisson causado por Jout Jout quando ela contou que tinha uma relação aberta com o ex namorado, seguido de comentários infelizes e desrespeitosos, percebi o quanto é necessário que mais pessoas poli se assumam publicamente pra ver se a turma monogâmica pára de dar chilique quando vê alguém adotando um modelo diferente.

Percebi que quando explico que sou poli as pessoas têm uma reação idêntica à quando digo que sou vegana. “Você é vegana? Nunca poderia ser vegana (adoro carne/queijo/ovo etc).” “Você é poli? Nunca poderia ter um relacionamento aberto (teria ciúme etc)!” Então deixa eu esclarecer isso de uma vez por todas. Quando eu faço uma escolha de vida é porque eu pensei com meus botões, matutei, estudei todas as opções disponíveis e cheguei à conclusão que era o melhor pra mim. Pra mim! Euzita! Moi! Vamos parar de supor imediatamente que a coleguinha quer que você mude e vamos aceitar que ela está simplesmente compartilhando as escolhas dela. Porque modelo de relacionamento é uma questão de escolha pessoal e cada qual escolhe o que é melhor pra si.

Vamos celebrar o amor, em todas as suas variações, a família, em todas as suas composições e os relacionamentos que nos fazem felizes, lembrando que não existe um só modelo possível. E aceitar que a coleguinha na sua frente decidiu não forçar o coração a caber no modelo pré-estabelecido usado pela maioria e procurou o modelo personalizado que melhor acolhe o coração dela. Sem ficar na defensiva, sem julga-la e sem precisar explicar que isso não daria certo pra você. Porque ela não acha o seu modelo monogâmico errado, de maneira nenhuma, nem espera que você adote o poliamor só porque ela escreveu esse post. (Mas confesso que espero do fundo do coração que você seja vegana um dia.)

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(As taças de champanhe com nossos nomes gravados foi presente de casamento da prefeitura!)