Durante a procura por apartamento aqui em Paris, um dos meus critérios de busca era ter fogão a gás. Em uma cidade onde quase todas as cozinhas são equipadas com placas elétricas, um fogão a gás é algo extremamente raro. Meu lar atual tem placas elétricas modernas (funciona por indução, seja lá o que isso quer dizer), mas apesar de preferir cozinhar com fogo, acabei me resignando. Sinto que tem algo de estéril em uma cozinha fria, onde não tem chama. (Crudívoras, não me detestem!) Talvez eu ainda me sinta muito apegada ao ato primitivo de reunir a comunidade ao redor do fogo e preparar o jantar enquanto se conta histórias. Talvez seja porque sou cozinheira e sei que não ter acesso à uma chama limita a gama de preparações culinárias possíveis (não posso preparar meu amado muta’bal, por exemplo). Mas o que tenho por enquanto são duas bocas elétricas e já adaptei minhas refeições ao que está ao meu alcance no momento.

Porém tem algo que está me fazendo muita falta na cozinha: um forno. Além de não ter gás, minha micro cozinha francesa não tem forno. A pessoa que nos alugou o apartamento não cozinhava (“Eu tomo sucos verdes” – ela explicou), por isso equipar sua cozinha com um forno era um despropósito.

Quando o verão chega e as temperaturas se tornam insuportáveis aqui (tenho péssimas lembranças dos meus verões parisienses), não faço questão nenhuma de ligar o forno. Posso passar semanas comendo saladas e frutas frescas. Mas a perspectiva de atravessar os meses frios do ano sem um gratinado, sem uma torta, sem uma lasanha me entristece. Nem gosto tanto de bolos, mas só porque agora não tenho forno passei a ter vontade de fazer meu bolo de melado e especiarias ou o bolo de laranja de Lu.

Além de desejar comida de forno durante o inverno, tem algo reconfortante em assar alimentos quando está frio e cinzento lá fora. Mas vou ter que enfrentar a chuva, o céu nublado e o frio intenso dos meses que virão sem a ajuda do aroma de algo assando no forno pra aquecer a casa e levantar nossos ânimos.

Então quando estive na casa do meu sogro umas semanas atrás aproveitei pra usar o forno em todas as refeições. Fiz até uma versão do bolo de Lu que ficou ainda melhor do que a original. Mas o que eu gostaria de compartilhar hoje é algo muito mais simples, porém não menos saboroso.

Gosto de assar quase todo tipo de legume, mas dependendo da estrutura do legume em questão o método de preparo varia um pouco. Legumes que crescem embaixo da terra, como batata, batata-doce, beterraba, cenoura etc. são densos (tem pouca água) e se beneficiam muito de um pré-cozimento na água antes de ir pro forno. Já legumes mais moles (cheios de água), como abobrinha, pimentão, tomate, berinjela e cebola, devem ir direto pro forno.

As receitas de hoje são tão ridiculamente simples que nem chegam a ser receitas. São métodos de cozimento que podem ser aplicados à uma infinidade de legumes. Mas o resultado é tão saboroso que vale a pena compartilhar as informações com vocês. E convenhamos que nunca em lugar nenhum alguém comeu algo delicioso e depois disse: “Que delícia! Uma pena que é tão simples.”

Talvez muitas pessoas me lendo agora já preparem batata e abobrinha assim em casa, mas pra todas as outras, vocês não podem viver mais nem um dia sem provar esses legumes preparados dessa maneira. Se você tem a sorte de ter um forno em casa, aproveite.

Batata assada

Descasque as batatas e corte em pedaços médios. Veja as fotos acima pra entender o formato dos pedaços. Cortados assim eles tem mais lados, o que faz com que tenha mais superfície pra dourar e fiquem mais crocantes. Se você não tem ideia do que estou falando deixe pra lá e corte sua batata como quiser. O importante é que os pedaços tenham mais ou menos o mesmo tamanho, pra que possam cozinhar por igual.

Coloque os pedaços de batata em uma panela e cubra com água fria. Salgue generosamente. Quando a água ferver desligue o fogo e escorra as batatas. Isso faz com que o amido da batata cozinhe ligeiramente e coagule, fazendo com que ela asse melhor (mais dourado e mais crocância) depois.

Transfira as batatas pré-cozidas pra uma placa/forma grande o suficiente pra que tenha um pouco de espaço vazio entre os pedaços. Regue com azeite (não precisa ser extra-virgem), mais uma pitada de sal e misture bem pra que o azeite envolva todos os pedaços. Leve ao forno alto até as batatas ficarem bem macias (espete uma faca pra testar). Se seu forno tiver a função “grill” esse é o momento de utiliza-la. Alguns minutos são suficiente pra deixar as batatas bem douradas (não se afaste da cozinha, já que elas podem passar de douradas pra queimadas em pouco tempo).

Retirte as batatas do forno e tempere com pimenta do reino e ervas frescas (tomilho ou alecrim amam batatas).

Abobrinha assada

Lave e corte a abobrinha (do tipo italiana) em rodelas finas. Use um fatiador se você não tiver muita habilidade com facas. Arrume as fatias de abobrinha em fileiras (veja a foto acima) bem apertadas. Enquanto assam parte da água da abobrinha evapora, fazendo com que as fatias encolham, por isso pode colocar as fileiras coladas umas nas outras (elas se separam enquanto assam e a parte exposta vai dourar). Regue as fileiras de abobrinha crua com azeite e tempere com sal. Leve ao forno alto até que a parte superior das fatias fique dourada. O tempo de cozimento varia dependendo do seu forno, então eu te digo: fique de olho na sua abobrinha e você saberá quando ela estará pronta. Se tiver a função “grill” no seu forno, use durante os últimos minutos. Usei o “gril” nessas duas receitas, por isso o dourado está tão lindo.

Retire do forno e tempere com pimenta do reino e ervas frescas (tomilho é sempre bom, mas manjerona e orégano também são uma delícia aqui).

Menos de dois meses em Paris e a vontade de escapar dessa selva de pedra e respirar um ar mais puro já estava batendo no teto. Felizmente a poucas horas de trem daqui fica o vilarejo do meu sogro, no interior da França. A região é verde, cheia de bosques e vulcões adormecidos e a casa dele tem um jardim lindo de 1ha, além de dispor de uma lareira na sala. Eu brinco que a casa dele é um resort de luxo pra mim e ele responde que eu posso visitar o resort dele sempre que quiser.

Além de respirar ares mais frescos e abraçar árvores, eu estava interessada em procurar o tesouro que a região do meu sogro abriga nessa época do ano: cogumelos. Mas fui avisada que talvez não encontrasse nenhum esse ano. O colapso climático está sendo sentido em todos os lugares do mundo e o verão aqui foi extremamente quente, chegando a 46° em algumas cidades, a temperatura mais alta registrada na França desde que começaram a medir temperaturas por aqui. Negacionistas do clima devem viver exaustos com a ginástica mental que fazem pra continuar negando o óbvio. Tanta energia desperdiçada!

Assim o verão escaldante, muito mais longo do que o normal, e a seca reduziram drasticamente a presença de cogumelos na floresta. Felizmente choveu alguns dias antes da minha visita e tivemos a sorte de encontrar alguns cogumelos pelo caminho.

A família materna de Anne entende muito de cogumelos (como identificar os bons e onde encontra-los) e sair pra colhe-los é uma tradição que atravessa gerações. Dessa vez não vou compartilhar o passeio encantado que é sair pra procurar cogumelos no bosque porque estava chovendo quando fizemos nossa expedição e não levei nem máquina nem telefone comigo. Confesso que tem outro motivo também. Nesse tempo digital de comunicação instantânea, onde pessoas transmitem suas vidas pelos stories do Instagram, em tempo real, eu ando sentindo um prazer subversivo em sair de casa sem telefone (nem câmera), não fotografar nada do que vejo e saber que o que estou vendo e vivendo ali vai ficar só entre eu e as árvores. (Mas documentei a busca por cogumelos no mesmo lugar, alguns anos atrás, nesse post.)

Porém, chegando em casa, senti vontade de fotografar os cogumelos que colhemos. Eu nunca tinha visto cogumelos tão grandes e precisava registrar aquilo. Encontramos cogumelos de vários tipos, incluindo o que parece uma couve-flor e que é bem raro por lá. Tinha cèpes (boletus) e chanterelles (Craterellus lutescens), que o pessoal francês adora (impossível não adorar). E os gigantes que você vê nas fotos se chamam “coulemelles” (Macrolepiota procera). Eu achei que por serem tão grandes eles não teriam muito sabor, mas a regra “melhores perfumes nos menores frascos” aparentemente não se aplica aos cogumelos, pois eles eram deliciosos!

Levamos pra casa cogumelos suficiente pra jantar (com macarrão) no dia da colheita e ainda pude preparar, no dia seguinte, um gratin de batata e cogumelo que foi o prato principal do jantar de aniversário de uma tia querida e que alimentou 15 adultos. O gratin que fiz foi esse aqui e a receita nunca deixa de impressionar veganas e carnistas.

Acaba aqui a parte do post onde ostento a riqueza de poder colher e comer cogumelos selvagens frescos, deixando você, amiga me lendo no Sertão, com água na boca enquanto olha desolada pros mandacarus ao redor sabendo muito bem que não vai encontrar nenhum cogumelo ali (suspiro). Desculpa. Prometo que vou melhorar.

E pra provar que minhas intenções são verdadeiras, vim compartilhar uma receita de família que é uma jóia: a vinaigrette de Céline. “Vinaigrette” é o molho mais comum pra saladas aqui na França, composto por mostarda Dijon, vinagre e azeite. Cada pessoa tem a sua versão, usando esse ou aquele vinagre, preferindo mostarda lisa ou com sementes, acrescentando uma erva fresca… Desde que descobri esse molho tão simples, e que pode ser modificado infinitamente, uso no dia-a-dia em todas as minhas saladas cruas (já postei minha vinagrete preferida aqui, inclusive). Dizer que é uma receita é um exagero: é uma fórmula. Gordura + acidez + emulsificante (nesse caso, a mostarda). Entendendo o princípio, você pode criar uma receita diferente a cada dia. Ou, como faço aqui em casa, fazer uma receita grande e guardar num pote de vidro na geladeira pra usar durante a semana inteira.

A autora da receita é Céline, minha cunhada. Uma pessoa maravilhosa, extremamente solícita e ótima cozinheira. Quando nos conhecemos ela não sabia o que era veganismo, mas desde o início demonstrou abertura e interesse. Ela começou me pedindo dicas pra reduzir o consumo de produtos animais, depois me mandava mensagens perguntando como cozinhar esse ou aquele ingrediente vegetal e hoje ela se alimenta de uma maneira totalmente diferente, muito mais saudável e quase totalmente vegetal (fora de casa ela come ovos e queijo).

A vinaigrette dela é famosa na família, tanto que quando ela está em casa não passaria pela cabeça de ninguém pedir pra outra pessoa preparar o molho da salada. Sempre a observei com atenção enquanto ela fazia sua famosa vinaigrette, pra reproduzir sozinha na minha cozinha, mas, por uma razão que não sei explicar, isso nunca se concretizou.

Até essa última passagem pela casa do meu sogro. Céline veio nos visitar por apenas dois dias e durante o resto da semana sobrou pra mim a tarefa de fazer vinaigrette, pois meu sogro não considera nenhum almoço ou jantar completo sem uma bela salada de folhas, besuntada com bastante molho. Ele gosta de usar muito molho pra limpar o prato no final com um pedaço de pão. Recomendo.

Segui as instruções de Céline, aumentando só um tico a quantidade de vinagre (ela gosta de pouca acidez) e servi pro meu sogro, que, acostumado com a maravilhosa vinaigrette de Céline, julgaria se a minha imitação era digna da original.

Foi um sucesso e ele elogiou meu molho novamente a cada refeição. Certo, é uma receita de uma simplicidade infantil, mas frequentemente as receitas mais simples são as melhores. Sabe aqueles molhos pra salada que o pessoal compra nos supermercados e que são cheios de conservantes? Eu tenho algo muito melhor pra você aqui, amiga. Essa vinaigrette tem o poder de transformar qualquer coisa que ela toca em algo muito gostoso. Aquela alface sem graça, o tomate meio verdoso, a cenoura ralada sem nenhum outro ingrediente… Envolvida nela até o guardanapo de papel fica gostoso. (Mas não recomendo.)

Vinaigrette de Céline (molho francês pra salada)

Vou deixar a grafia francesa porque o termo “vinagrete”, no Brasil, faz referência a um tipo de salada crua, picadinha, enquanto “vinaigrette” (leia “vinegrete’) na França significa um tipo de molho usado na salada. Algumas informações importantes. Mostarda Dijon (a mostarda francesa, original da cidade de Dijon) é essencial aqui. Não é um ingrediente barato, mas um pote vai durar muito na sua casa. Se não achar, faça sem (só não use mostarda americana, pelas caridades!). Vale a pena procurar um vinagre de qualidade, pois a diferença no sabor é gritante. Céline usa metade óleo de girassol e metade azeite, mas eu gosto de usar mais azeite do que óleo. Se quiser deixar o molho mais suave (e barato) faça como ela. Sobre as medidas: eu fui fazendo no olho e ajustando os ingredientes ao meu paladar, por isso a receita está em colheres de sopa. Mas com certeza teria sido mais prático escrever as medidas em xícaras. Cebola francesa (chalota) é mais autêntico, mas quem danado tem acesso à cebola francesa aí no Brasil, né? Use cebola roxa e abafa o caso.

1/2 cebola francesa (ou 1/4 de cebola roxa)
1 dente de alho pequeno
1 cs de ervas frescas (tomilho, alecrim, manjericão, manjerona… uma ou várias)
1 cc de mostarda francesa (Dijon -lisa ou com sementes)
2-4 cs de vinagre de sidra ou de vinho (de boa qualidade)
6 cs de óleo de girassol (ou outro óleo neutro)
12 cs de azeite
sal e pimenta do reino

Corte a cebola em meia-luas finíssimas (ou pique miúdo se for mais fácil) e transfira pra uma tigela pequena. Esprema, ou pile, o dente de alho e jogue por cima da cebola picada. Acrescente as ervas frescas (se usar ervas com folhas grandes, como manjericão, use uma tesoura pra picar fininho), a mostarda e o vinagre (comece com 2cs). Misture vigorosamente. Vá acrescentando o azeite e o óleo aos poucos, mexendo bem entre cada acréscimo, até ter usado tudo. Não precisa bater a mistura, não estamos tentando fazer uma maionese, mas é importante misturar bem com uma colher pro molho ficar homogêneo. Tempere com sal e pimenta do reino a gosto, prove e decida se você quer um molho mais ácido (aí acrescente um pouco mais de vinagre) ou se está do seu agrado.

A vinaigrette vai se separar depois de algumas horas (compare a diferença entre a primeira e a última foto desse post). Sem pânico, é só misturar novamente antes de servir. Guarde na geladeira, em recipiente fechado, por até uma semana. Rende molho suficiente pra várias saladas (é tudo o que posso dizer, não medi o produto final).

Em pouco mais de um mês tivemos três grandes eventos veganos aqui em Paris. Se não me engano os três maiores do ano. Estive nos três, porque quero descobrir como o movimento vegano está se organizando aqui. Me tornei vegana quando ainda morava em Paris, em 2007, mas na época veganismo na França era algo praticamente desconhecido e não tinha eventos nem encontros veganos na capital.

Os três eventos foram bem diferentes entre si, mas não muito diferente do que vemos no Brasil: algumas palestras, muita comida e um grande foco no consumo vegano. O primeiro evento queria “mostrar o estilo de vida vegano de uma maneira positiva”, com música e muita comida, num parque da cidade. O segundo era um pouco mais militante (no próprio panfleto de divulgação tinha escrito “evento militante”), menor e com foco nas palestras com temas políticos como “desobediência civil” e “como politizar o veganismo”. O terceiro, e maior de todos, era totalmente consumista. Os dois primeiros eram gratuitos, mas o terceiro, dedicado exclusivamente ao consumo vegano de produtos alimentícios transformados, além de moda e cosméticos, era pago. A entrada custava 12 euros. Me recuso a pagar pra entrar em um evento desse tipo, mas uma amiga que estava trabalhando lá conseguiu uma entrada gratuita pra mim.

E por que eu queria ir a esse evento? Porque tinha uma palestra com o seguinte tema: “O business vegano salvará o mundo?” Sim, “business” (“negócio”) escrito em Inglês. A descrição da palestra era: “A economia do vegetal está em plena explosão. As prateleiras estão abarrotadas de produtos vegetarianos e veganos. Mas devemos, no entanto, comemorar a implicação de grandes grupos (Danone, Mac Donald’s) no desenvolvimento desses produtos? É possível adotar uma abordagem que faz com que business e veganismo sejam compatíveis: o altruísmo eficaz?”

Contrariando o que dizem por aí, eu não tenho um “ativismo fechado” nem me acho detentora da verdade absoluta. Por isso eu fui lá colocar minhas convicções à prova e escutar o que as duas pessoas palestrando tinham pra me dizer sobre o “ativismo de mercado”. Estaria eu enganada sobre a luta anticapitalista e o negócio, digo, o business vegano seria a solução pra salvar o mundo? Eu precisava descobrir.

Se informar sobre diferentes estratégias de luta, identificar seus limites e fazer críticas são atitudes extremamente importantes pra fortalecer nosso movimento e fazer avançar o debate antiespecista. Não caia nessa de que criticar quem está no seu campo é necessariamente errado porque “o inimigo é outro”. Um movimento incapaz de fazer autocrítica está fadado ao fracasso. Acredito que somos pessoas adultas aqui, capazes de debater, formular argumentos e defender nossas ideias. Se uma parte da galera do nosso campo tenta nos silenciar afirmando que toda crítica é contra-produtiva porque devemos focar nos que nos une e ignorar se eles fazem algo que prejudica o movimento, isso significa que, na falta de argumento sensato, estão tentando silenciar quem coloca suas estratégias pra debate. Mas o movimento vegano está em construção e nossas estratégias devem ser debatidas, sim. Os animais agradecem.

Mas talvez você precise antes de uma explicação sobre esse tal de “altruísmo eficaz”. Não sou expert nas origens do movimento, mas vou resumir em poucas linhas. O altruísmo eficaz deriva diretamente do utilitarismo. O utilitarismo é um tipo de ética normativa segundo a qual uma ação é moralmente correta se tende a promover a felicidade e condenável se tende a produzir a infelicidade. Parece óbvio, né? Aí entra o cálculo.

De acordo com o utilitarismo a moralidade de um ato é calculada, ela não é determinada a partir de princípios diante de um valor intrínseco. Este cálculo leva em conta as consequências do ato sobre o bem-estar do maior número de pessoas.

Na prática dá isso aqui. Conhece o famoso experimento de pensamento conhecido como “o dilema do bonde”? Um bonde está fora de controle em uma estrada. Em seu caminho, cinco pessoas amarradas na pista por um filósofo malvado. Felizmente, é possível apertar um botão que encaminhará o bonde para um percurso diferente, mas ali, por desgraça, se encontra outra pessoa também atada. Deveria apertar-se o botão?

Se você respondeu que é moralmente justificável matar intencionalmente uma pessoa inocente pra salvar a vida de outras cinco pessoas inocentes, você fez um cálculo utilitarista. (Não se sinta culpada, a maioria das pessoas responde que apertaria o botão.)

Mas os cálculos utilitaristas ficam mais complexos à medida que desenvolvemos esse raciocínio. Imagine agora que uma pessoa vai ao hospital porque quebrou o braço. Naquele hospital 5 pacientes esperam transplantes de órgão e morrerão se o transplante não for feito nas próximas horas. O médico deve matar o paciente do braço quebrado pra retirar seus órgãos e salvar os outros 5 pacientes? O cálculo é o mesmo do exercício anterior: matar uma pessoa inocente pra salvar 5 outras pessoas inocentes, mas nesse caso nos damos conta que a moral é algo muito mais complexo do que cálculos frios e impessoais.

Voltemos agora ao altruísmo eficaz. A ideia, como expliquei, veio do utilitarismo: escolher ações que tenham o maior impacto positivo. No site do Centro de Altruísmo eficaz podemos ler:

“O altruísmo eficaz procura responder uma pergunta simples: como podemos usar nossos recursos para ajudar da melhor maneira os outros? Em vez de apenas fazer o que parece certo, usamos evidências e análises cuidadosas para encontrar as melhores causas para se dedicar.”

O altruísmo eficaz te encoraja a ajudar o próximo, mas não de qualquer maneira. A ideia é que essa ajuda seja ditada pelo cálculo do “maior impacto positivo possível.” Então esse movimento, que nasceu nos EUA, prega que é mais “altruísta” ser um grande empresário capitalista, acumular muito dinheiro e em seguida doar esse dinheiro pra organizações que lutam contra a fome no continente africano, por exemplo.

Não precisa ir muito longe pra enxergar o problema aqui. O fato do milionário ter explorado um número enorme de pessoas pra acumular a fortuna que tem hoje e ter contribuído pra destruição do planeta nesse processo é deliberadamente ignorado. A única coisa que importa aqui é que ele doe milhões pra ONGs que vão ajudar… essas mesmas pessoas que tiveram a vida destruída pelo capitalismo.

O altruísmo eficaz se nega a entender o funcionamento do sistema econômico em vigor no mundo, o capitalismo, que acumula riquezas na base da exploração, e não reconhece que as desigualdades sociais são produzidas pelo próprio capitalismo. Não luta por justiça, apenas prega uma maior acumulação de riquezas (ignorando a desigualdade e miséria que isso provoca), pra que depois os ricos do Norte possam lavar a consciência fazendo doações pros miseráveis do Sul. Agora é possível justificar e até incentivar a exploração dos trabalhadores e da Terra porque assim você, amigo capitalista, vai “ajudar o maior número de pessoas possível”. E vemos aqui, senhoras e senhores, uma nova incarnação do imperialismo. Palmas pra mente astuta que inventou esse movimento.

Se você ainda não entendeu como o altruísmo eficaz se relaciona com o veganismo liberal, que prega um ativismo de mercado, continue lendo que as coisas vão ficar transparentes daqui a pouco.

Voltemos pra palestra “O business vegano vai salvar o mundo?”. O evento vegano que organizou essa palestra se chama Veggie World, acontece em 12 cidades diferentes todos os anos (de Bruxelas à Hong Kong) e é organizado pela ProVeg. A ProVeg é a organização criada por Melanie Joy, autora de “Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas”, e se descreve como (copiei do site) “uma organização internacional líder em conscientização alimentar”. Nada mais lógico que um evento promovido por uma organização de conscientização alimentar tenha como foco o consumo vegano, não a libertação animal. Aliás o panfleto de divulgação do evento dizia isso: “O maior salão do modo de vida vegano”. E a programação do evento ia nesse sentido, com oficinas de culinária e conversas sobre nutrição “plant-based”.

A palestra que vi foi dada por duas pessoas que trabalham na Associação Vegetariana Francesa (AVF) e são responsáveis pelo “V-label”, o selo vegano da AVF, comprado por empresas que querem ter o selo em seus produtos vegetais. Achou suspeito que pessoas que ganham dinheiro vendendo selo vegano pra grandes corporações façam palestra tentando convencer o público de que grandes corporações vão salvar o mundo? Imagina, amiga radical, isso não passa de uma coincidência inocente! Deixe de ativismo fechado e continue lendo pra descobrir o que essas bravas pessoas tem pra nos ensinar.

Eu, aprendiz dedicada do altruísmo eficaz e militante vegana disposta a dar uma chance ao ativismo de mercado, levei um caderninho pra anotar tudo, sentei na frente e escutei com muita atenção. Deixa eu compartilhar algumas coisas que foram ditas naquela manhã de domingo.

“O business vegano é o nosso trabalho.

Foi com essa frase que o palestrante abriu a palestra. Poxa, ele não está me ajudando. Eu aqui tentando defender que o fato dele pagar seus boletos vendendo selo vegano pra grandes corporações não tem nada a ver com isso dele estar ali defendendo as ditas corporações e ele já começa admitindo que o trabalho dele é o tal do business. Mas pelo menos o rapaz é honesto. Não chegou se apresentando como militante antiespecista, nem como ativista pelos animais, nem disse que o trabalho dele era acabar com a exploração animal.

“A AVF existe pra acompanhar o público numa transição vegetariana e vegana.”

Parece que as associações vegetarianas aqui e aí estão alinhadas nesse ponto: a divulgação da dieta vegetal, não o compromisso com a luta por emancipação animal. “Mas Sandra, deixa de implicância! Se as pessoas adotarem a dieta vegetal estarão salvando os animais! Então essas organizações estão trabalhando pra abolir a exploração animal, sim!” Não necessariamente. Falei sobre a diferença entre expansão do mercado vegano e libertação animal nesse post.

“Quando começamos a nos interessar por produtos veganos tivemos que começar definindo o que era um produto vegano. Uma maçã era um produto vegano? Uma pera? Decidimos focar unicamente em 1-produtos transformados, 2-com certificado vegano e 3-vendidos em grandes supermercados. Então não era sobre o consumo de maçã e pera, mas sim sobre o mercado vegano.”

Veja que interessante. A dita “expansão do mercado vegano”, que o veganismo liberal associa à “expansão do veganismo e vitória pros animais”, é medida apenas em número de produtos transformados, ou seja, industrializados e processados, que compraram o selo vegano e que são vendidos em grandes supermercados, como o Carrefour. Por que será que a maçã não interessa essa galera? Seria talvez porque maçã não precisa de um selo vegano pra atestar sua veganicidade? O que é uma pena, pois se a população passar a consumir mais frutas e verduras, mais leguminosas e cereais integrais (todos alimentos vegetais), isso diminuiria não só a exploração animal, mas melhoraria também a saúde das pessoas e geraria menos impacto ecológico. Produtos processados e produzidos por grandes corporações, mesmo à base de vegetais, vem de monoculturas cheias de agrotóxicos que envenenam o solo, a água, a fauna e as pessoas.

“Mas Sandra, como ficariam nossos camaradas que pagam seus boletos vendendo selo vegano pras grandes corporações? As organizações veganas que produzem esses selos? As veganas que desenvolvem esses tais produtos pras grandes corporações? As ativistas que fazem publicidade desses produtos no Instagram? Olha só quanta gente ia perder dinheiro!” Eita, é mesmo. Coitadas. Mas, espera! Veganismo não era sobre um compromisso com a luta antiespecista? Um engajamento com o fim da exploração animal? Olha só que esquecida que sou! O rapaz deixou bem claro no início da palestra que os motivos dele eram diferentes. O trabalho dele é com o business vegano, não com a libertação animal. Estou confundindo as categorias de veganos, perdão.

“Queremos sensibilizar as crianças a um outro tipo de consumo o mais cedo possível.

Ele estava falando sobre os programas do tipo “segunda sem carne” nas escolas. Acho muito importante oferecer refeições vegetais às crianças na escola e sei que aqui na França é um combate difícil. Toda iniciativa pra aumentar a oferta de vegetais pras crianças tem o meu apoio. Mas o que me chocou profundamente na declaração do rapaz foi, mais uma vez, o motivo por trás da ação. Não, o objetivo não é sensibilizar as crianças à questão animal, mas sim “a outro tipo de consumo”.

O veganismo liberal e o ativismo de mercado reduzem as pessoa a meros consumidores.“Quando você compra um produto vegano de uma grande empresa você está dizendo ‘eu existo’” – diz a vegana liberal. Então quem não consome esses produtos não existe? A oposição entre veganismo político/popular e veganismo liberal/pragmático não é apenas uma questão de divergência de estratégias. Nós denunciamos a mercantilização do veganismo e essa desumanização das pessoas, que são vistas apenas como consumidores. Assim o valor delas, e a eficácia do seu ativismo, são medidos pela régua do consumo de produtos processados produzidos por grandes corporações.

O veganismo liberal/estratégico é totalmente insensível à questão de classe, ao fato da maioria das pessoas não terem acesso a esses produtos certificados e de que a classe trabalhadora tem pouquíssima escolha na hora de se alimentar.

“Queremos um outro sistema, sem sofrimento animal. Mas não podemos fazer isso sem a ajuda das grandes empresas. Por isso precisamos buscar um diálogo com elas, que são capazes de fazer uma mudança mais radical.”

As mesmas grandes empresas que exploram e matam animais aos bilhões? Sim! Elas são nossas aliadas, meu povo! Aliás, de acordo com os palestrantes, são as únicas capazes de mudar o sistema. Inclusive em um dos slides que mostraram durante a palestra tinha escrito que elas eram as verdadeiras heroínas dessa mudança. Nós somos meras consumidoras, lembra? E entre as corporações heroínas, salvado o mundo, e nós, existindo e fazendo a diferença unicamente através do consumo dos seus produtos, existe o quê? O veganismo liberal, claro! Pra “acompanhar as empresas nessa transição”, vender selos veganos, fazer publicidade no Instagram (os infames publiposts que muitas vezes nem são sinalizados) e nos dizer que criticar esse modelo, muito mais interessado em ganhos financeiros do que em avanço na luta por libertação animal, é uma perda de tempo porque # devemos focar no que nos une e porque # estamos do mesmo lado. Desculpa aí, mas quando uma vegana diz que prefere dialogar com empresas que produzem carne do que com uma parte do movimento vegano ela própria declarou não estar do mesmo lado que eu. Se as aliadas dessa pessoa (e do veganismo liberal) são empresas que assassinam animais e lucram com o sofrimento animal e humano e a destruição da Terra, não estamos do mesmo lado, porque os aliados dela são os meus inimigos. E os inimigos dos animais.

“Investir em educar as pessoas tem um custo muito alto comparado ao impacto obtido. Se a oferta nas prateleiras mudar, as pessoas vão comprar produtos vegetais e não haverá mais trabalho a ser feito.

O altruísmo eficaz permeou toda a palestra, como você já deve ter percebido. Falaram muito em “custo-benefício” das ações e em sempre privilegiar ações que pudessem ter “o maior impacto no menor tempo”. Os parâmetros desses cálculos não foram explicados e isso expõe a fraqueza dos argumentos defendendo o veganismo liberal/estratégico. Muito se fala de “ações de muito mais impacto”, mas a maneira usada pra chegar nos números exibidos com orgulho nos sites das organizações é, no mínimo, duvidosa. Muitas vezes são coisas que não podem ser medidas de maneira concreta, como a “potencial redução de sofrimento de X animais após nossa ação de panfletagem em lugar Y”. Um amigo meu, que fez parte brevemente de uma dessas organizações, me contou que calculavam que a cada X panfletos “go vegan” distribuídos na rua X animais tinham sido salvos. E que por isso os voluntários são instruídos a não conversarem com as pessoas a quem entregam panfletos, pois isso é tempo perdido que poderia estar sendo usado pra entregar mais panfletos e salvar mais animais. Como eles sabem quantos panfletos são necessários pra salvar a vida de um animal é um mistério pra mim.

Mas deixa eu voltar pra declaração acima. O que me incomoda profundamente aqui (e veja que eu me incomodei com frequência durante a palestra) é o paternalismo desse tipo de ativismo. Promover autonomia alimentar e educação antiespecista pra que as pessoas 1- tenham a possibilidade de escolher o que comer e 2- possam fazer escolhas informadas? Não, isso levaria muito tempo! O estratégico e eficaz é escolher PELAS pessoas! Não dialogar com elas, seja na hora de entregar panfletos ou de substituir produtos ultraprocessados carnistas por versões vegetais nas prateleiras dos grandes supermercados. Eficaz, mesmo, é decidir o que elas comerão junto com as grandes corporações. É um tipo de ativismo extremamente elitista, paternalista e que busca manter a dependência das grandes empresas do agro-alimentar, indo contra a promoção da autonomia do povo. Porque as heroínas são as corporações, lembra? E o veganismo liberal, que negocia com elas e as acompanha nessa missão, obviamente. Se essa atitude que despreza e ignora o povo, que se acha no direito de escolher por ele e negociar com empresas que matam animais em seu nome não te incomoda, eu não sei o que dizer.

Num momento de urgência climática, onde militantes do mundo inteiro tomaram as ruas pra pedir “mude o sistema, não o clima”, é um absurdo o veganismo liberal decidir ir na contra-mão e defender o sistema afirmando: “Basta mudar a lista de ingredientes dos produtos, fazer ultraprocessados vegetais e deixar todo o resto como está”! E fazer isso alegando que é mais eficaz? Faz sentido pra você achar que eficaz mesmo é manter o sistema que está destruindo as condições de vida no planeta? Os animais que serão “potencialmente salvos” graças aos produtos das nossas heroínas, as grandes corporações, vão morar aonde mesmo? Em que planeta eles viverão quando nossas heroínas tiverem acabado de destruir a possibilidade de viver nesse aqui?

“Os consumidores não precisarão ser convencidos, está ali, na prateleira.”

Os palestrantes insistiram que bastava colocar produtos veganos nas prateleiras dos grandes supermercados pras pessoas passarem a consumir automaticamente esses produtos. “Muitos vão comprar o produto sem perceber que é vegetal!” disseram. Talvez algumas pessoas levem pra casa o produto enganadas e gostem. Talvez algumas comprem uma vez, pra experimentar, e na compra seguinte voltem pro consumo de produtos animais. Mas muita gente não vai comprar nunca esses produtos, justamente porque são carnistas.

O meu sogro é um bom exemplo disso. Ele é um francês típico, extremamente carnista, que mora numa cidade do interior onde o supermercado mais próximo é um Carrefour gigante. Ele escutou várias conversas sobre a questão animal, mas apesar de conviver com veganas há anos, continua totalmente fechado ao veganismo. Ano após ano eu frequento o Carrefour perto da casa dele e fico espantada com o aumento dos produtos processados e ultraprocessados à base de vegetais nas prateleiras. A oferta é realmente enorme. Não só o meu sogro nunca comprou um produto sequer desse tipo, como nas vezes que algum apareceu na mesa dele (porque eu comprei) ele ou não se interessou em provar, ou provou, achou gostoso ou ruim, mas mesmo quando achou muito gostoso nunca incluiu o produto testado e aprovado na sua lista de compras.

Se essa estratégia não é garantia de sucesso aqui na França, um país no centro do capitalismo, onde os produtos ultraprocessados da Danone, Nestlé e Unilever já custam praticamente o mesmo preço que o produto similar animal e são encontrados até em cidadezinhas com 5 mil habitantes (como é o caso do meu sogro), imagina então num país como o Brasil, que está na periferia do capitalismo, onde esses produtos não chegam na maior parte da população e onde só uma minoria tem grana pra gastar com eles? E será que o povo brasileiro realmente quer mais ultraprocessados, mesmo se for de origem vegetal?

Importar estratégias de ativismo dos gringos, que não são garantia de sucesso nem mesmo na Europa e nos EUA, pro nosso Sul global não faz o menor sentido. Nosso contexto político e econômico é totalmente diferente e nosso ativismo deveria ser pautado nas necessidades e possibilidades reais locais. Se defendemos o projeto de veganismo popular é porque sabemos que incluir o povo nessa luta não é “passar o humano na frente do animal na fila dos direitos”. É porque os animais não são capazes de se emanciparem sozinhos, daí a absoluta necessidade de incluir o povo nessa luta. E só o povo é capaz de determinar as estratégias de luta que fazem sentido no contexto onde estão inseridos. Essa é a divergência fundamental entre o veganismo popular e o veganismo liberal/estratégico. O primeiro acredita que o povo será o protagonista da luta por emancipação animal e que por isso mesmo essa luta só será vitoriosa se trouxer emancipação humana, e da Terra, também. O segundo ignora o povo e negocia em seu nome com o capital, pois as verdadeiras heroínas dessa história são…as grandes corporações capitalistas.

Uma última crítica à palestra “O business vegano vai salvar o mundo?”. Tirando uma breve menção ao sofrimento animal (no momento em que foi dito “Queremos um outro sistema, sem sofrimento animal”) o animal não esteve presente em nenhum momento. Assim, o “referente ausente”, tão discutido por Carol J. Adams no livro “A política sexual da carne”, permanece ausente. Vemos as ONGs de defesa dos animais adotarem cada vez mais o termo “plant-based”, desaconselharem fortemente o uso da palavra “vegana” e evitar ao máximo falar do animal pelo qual dizemos lutar. Isso é assustador. Como ganhar uma luta sem nunca dizer por quem estamos lutando?

Agora deixa eu terminar com a pérola que foi repetida 3 vezes (eu contei) durante a palestra:

“Não se perguntem ‘é ético?’. Se perguntem ‘é eficaz?’”

Tenho duas histórias pra ilustrar essa máxima do altruísmo eficaz e, por tabela, do veganismo liberal/estratégico.

Sabe o amigo que participou brevemente da organização que conta o número de animais salvos de acordo com o número de panfletos distribuídos? Então, durante o treinamento o funcionário encarregado de treinar novos voluntários perguntou ao meu amigo: “Se alguém te oferecer 50 mil reais pra você comer carne, você comeria?” Juro que não estou inventando isso. O meu amigo falou que não iria responder porque aquilo era uma falsa pergunta, mas o rapaz insistiu. Então ele disse: “Claro que não!”. Aí o rapaz falou: “A resposta certa é ‘sim’, porque depois de comer a carne você pode usar os 50 mil pra salvar muitos animais.”

A segunda história me foi contada por um amigo britânico, militante antiespecista e anticapitalista há mais de 30 anos. Foi ele quem primeiro me chamou a atenção pro altruísmo eficaz e pra sua influência em certos grupos veganos. Ele percebeu que nos últimos anos, à medida que as ONGs veganas se tornavam mais e mais neoliberais, as conferências internacionais de direitos animais se tornavam cada vez mais bem-estaristas. Sempre usando o argumento utilitarista de “dar preferências à ações que terão maior impacto em termos de números de animais alcançados”. Foi assim que campanhas por gaiolas maiores ou galinhas poedeiras criadas fora de gaiolas se tornaram parte do “ativismo vegano”, por exemplo, coisa impensável dentro do movimento abolicionista até uns anos atrás.

Ele voltou da última conferência de direitos animais, realizada na Polônia, em estado de choque. Um dos convidados, um ativista vegano, deu uma palestra sobre seu projeto em Taiwan. Ele tinha passado anos procurando um projeto onde ele teria o maior impacto possível na redução do sofrimento animal e acabou descobrindo que em Taiwan tinha enormes fazendas de criação de peixes, amontoados aos milhares em tanques pequenos demais pro volume de animais vivendo ali. Ele pensou: “Bingo! É aqui que posso ter o maior impacto possível!” Então nosso bravo vegano dedicou seus recursos pra…. desenvolver um motor que oxigena a água dos tanques. Agora os peixes, que continuam explorados, torturados, amontoados aos milhares e assassinados pra acabar no prato dos humanos, conseguem respirar melhor durante sua curta e triste vida. Isso, de acordo com o moço altruísta eficaz, tem um impacto quantitativo muito maior, e imediato, na redução do sofrimento animal do que qualquer outra iniciativa. Como investir em educação antiespecista ou incentivar a produção de verduras no local, por exemplo.

Pois é, amiguinha. Chegamos no ponto onde pessoas do movimento que em teoria deveria lutar por emancipação animal elegem como aliada a indústria que os tortura e mata, onde pessoas que trabalham em organizações que se dispõem a salvar animais de abatedouros acham que faz sentido comer animais pra salva-los e onde ativistas veganos bem intencionados acreditam que aumentar o oxigênio das fazendas de criação de peixes é a estratégia mais eficaz pra reduzir o sofrimento deles.

PS Surpreenderia alguém se eu disser que no final da palestra um dos palestrantes fez propaganda do app que ele desenvolveu que te diz se o produto na prateleira do supermercado é vegano? Produtos processados veganos é realmente o business do camarada.

PS 2 Isso me surpreendeu: a palestra durou 1 hora e não teve tempo pra que o público fizesse perguntas no final. Percebeu como está virando lugar-comum ter uma abordagem totalmente neoliberal do veganismo, pregando que isso é o mais estratégico a ser feito, não abrir espaço pra debate e depois silenciar quem tenta criticar esse modelo?

PS 3 E como disse Leila, que acompanha o meu trabalho no Instagram: “A solução não passa pelo capitalismo. Ela o derruba.”

(Tradução da foto de abertura do post: “Sair do capitalismo é uma questão de sobrevivência”. Fiz essa foto durante a ocupação organizada pelo grupo Extention Rebellion, aqui em Paris, no início do mês.)