Ano passado a chef Paola Carosella causou um grande alvoroço dentro da comunidade vegana por causa da reação dela (via Twitter) depois de ter provado um hambúrguer vegetal que imita a textura e o sabor de carne animal. Acho oportuno abrir espaço pra discutir as declarações dela, pois acredito que podemos extrair algumas lições importantes do ocorrido.

Tirando uma única coisa descabida que ela falou, e que discutirei mais na frente, achei as críticas muito válidas. Ao invés de crucifica-la por ter falado mal de um produto ultraprocessado à base de plantas, inacessível pra maior parte da população brasileira (bastante caro comparado à outras alternativas de proteína vegetal, como feijão e arroz), proponho ler com atenção o que ela escreveu e ver isso como uma oportunidade de ouro pra fazer uma reflexão necessária sobre as estratégias que queremos adotar na luta por emancipação animal.

Seguem as críticas de Paola ao hambúrguer de planta que imita carne animal. Algumas eu só copiei/colei dos tweets dela, outras eu reformulei ligeiramente pra caber numa frase.

Crítica 1-
“Ultraprocessados, mesmo feito com vegetais, são péssimos pra saúde.”
O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, que é muito bom, por sinal, é categórico ao dizer que, em nome da nossa saúde, o melhor a fazer é ficar longe deles. Promover o consumo de ultraprocessados “veganos”, com a justificativa de que é um suposto “avanço pros animais”, não só não faz sentido pros não-humanos (explicações mais adiante), como é irresponsável do ponto de vista humano.

Crítica 2-
“Esses hambúrgueres vegetais imitando carne são oportunistas no momento de mais confusão alimentar da História.”
Sim. O fato da indústria vender esses produtos “veganos” (salsicha, hambúrguer) como uma alternativa saudável é perigoso, pois as pessoas que não tem acesso às informações certas vão se iludir e comer porcaria achando que estão fazendo uma escolha superior, mais saudável. Nunca vou esquecer de uma mãe brasileira que, depois de me explicar que a filha e o filho não comiam frutas, declarou, orgulhosa, que fazia questão de dar suco Addes (soja com suco de frutas) todos os dias às crianças, o que compensava a falta de fruta fresca no cardápio.

Crítica 3-
“Não é ato político parar de comer vaca, mas comer ultraprocessados de soja, milho, açúcar e trigo que em muitos casos são feitos pelas mesmas empresas (que vendem carne)”

Hambúrguer “vegano” produzido pela indústria agroalimentar é fruto do mesmo sistema alimentar hegemônico, baseado em monocultura, agrotóxicos, latifúndio, destruição de ecossistemas, grilagem de terras indígenas e trabalho escravo. Que, além de tudo, reforça a alienação do consumidor, que não sabe o que é nem como foi produzido aquilo. E aliena também a consumidora vegana, que acha que está fazendo “um ato politico” quando na verdade está fortalecendo o mesmíssimo sistema que explora e mata animais e destrói o meio ambiente.

A indústria alimentar nos quer dependentes dela, porque nossa autonomia significa redução de lucros pra ela. Sim, ela só se preocupa com lucro e não se importa se está lucrando com a venda de animais mortos ou de produtos vegetais que imitam animais mortos. Esse é o principal argumento do veganismo liberal pra incentivar a produção e consumo de produtos vegetais ultraprocessados, mas ele demonstra um profundo desconhecimento do modo de funcionamento do capitalismo.

Como escrevi mais acima, o que essa indústria quer realmente é nos manter dependentes dela, por isso não se importa se nossa dependência é de hambúrguer de carne animal ou vegetal. Porque de um jeito ou de outro ela continuará lucrando em cima de nós e usando esse dinheiro pra se expandir, aumentando a exploração da Terra e dos animais, humanos e não humanos. Aqui ou em outros países.

O fato de gigantes da exploração animal como JBS e Mantiqueira quererem uma parte do mercado vegano não é a prova que a “revolução vegana” está acontecendo. Isso não passa de uma manobra da indústria pra lucrar com um novo nicho de mercado, se manter relevante face às mudanças nos hábitos de consumo, enquanto, ao mesmo tempo, mantém o sistema de exploração animal, que é extremamente lucrativo, intacto. Que incentivo essas empresas terão pra parar de vender animais (ou produtos com derivados de animais) se a comunidade vegana passar a afirmar que “basta criar novos produtos vegetais, sem precisar diminuir o número de animais explorados e mortos pela sua empresa, pra que ela seja aplaudida e acolhida por nós, que passaremos a recomendar e fazer propaganda desses produtos vegetais”?

E qual seria a alternativa? Mexer na raiz do sistema econômico, o capitalismo, que precisa de exploração (humana e não-humana) pra existir. E sabe como tocamos na raiz desse sistema? Primeiro decidindo não fortalece-lo. Parece óbvio, mas estou sempre sendo obrigada a repetir que não dá pra acabar com a exploração animal fortalecendo o sistema que explora os animais. Então vou repetir mais uma vez:

Não podemos acabar com a exploração dos animais fortalecendo o sistema que os explora.

Aplaudir e (ser paga pra) incentivar o consumo de produtos de corporações gigantes que exploram animais (e a Terra e as pessoas) NÃO é apoiar o veganismo. É apoiar o capitalismo. Ou seja, apoiar o sistema que explora animais no nível gigantesco que vemos hoje. E sim, existia exploração animal e especismo antes da chegada do capitalismo, mas não podemos negar essa evidência: a chegada do capitalismo elevou o sofrimento animal a um nível nunca antes visto na História. Hoje se mata uma quantidade de animais pro consumo humano absurdamente maior do que alguns séculos atrás e a maneira que eles são criados se tornou insuportavelmente cruel. Então embora o fim do capitalismo não tenha como consequência garantida o fim do especismo, me parece impossível imaginar o fim da exploração animal enquanto ele existir.

Como acabamos com a exploração animal, então? Algumas sugestões:

-Fortalecendo quem planta alimento sem veneno (e, assim, protege ecossistemas e os animais selvagens que vivem ali). Fortalecendo a agricultura familiar que alimenta as brasileiras. 70% do que o povo brasileiro come vem da agricultura familiar, enquanto o agroalimentar planta soja, milho e cana que se transformarão na infinidade de produtos ultraprocessados nas prateleiras dos supermercados (incluindo os produtos “veganos” ultraprocessados). Fortalecendo a luta por reforma agrária, porque pra sair da monocultura de commodities (milho, soja, cana) praticada pelos ruralistas precisamos acabar com o latifúndio e garantir a democratização do acesso à terra. Só assim passaremos a plantar pra alimentar pessoas, não pra gerar lucros em cima da destruição. Apoie o MST e compre sua comida nas feiras da reforma agrária.

-Trabalhando pra aumentar a soberania, mas também a autonomia alimentar. Isso significa ajudar a educar o povo com relação ao que significa uma alimentação vegetal. Explicar, sempre que possível, que comida vegetal vem da feira, não necessariamente da indústria. Que comida vegetal vem da terra, não de laboratórios.

“Ah, mas nem todo mundo tem acesso a vegetais frescos e sem veneno. O pobre só consegue comprar ultraprocessado, porque é mais barato, então pelo menos que seja ultraprocessados vegano pra salvar os animais.”

Ao invés de lutar pra mudar o sistema que impede que o vegetal fresco sem veneno chegue em todas as mesas, a gente vai se contentar de substituir ultraprocessados animais por ultraprocessados vegetais, vindos da monocultura, cheios de agrotóxicos, que adoecem a população e destroem ecossistemas do mesmíssimo jeito? Mesmo se libertação animal é a única pauta importante pra você, me responda: como uma população doente vai poder lutar pelos animais? Só quem defende um movimento por libertação animal onde os únicos protagonistas são um punhadinho de ONGs e pessoas da elite negociando com o agroalimentar, pra substituir ultraprocessados animais por similares vegetais “pra democratizar o veganismo”, aceitaria isso. Pior, consideraria isso uma estratégia eficaz. Nem preciso dizer que esse grupo de “heróis veganos”, a galera que fecha com o capital, segue comendo seu alimento fresco e orgânico, né?

Se eu chamo a vertente do veganismo que defendo de “veganismo popular” é justamente porque acredito que o veganismo é um projeto ético-político que só vingará se for construído com o povo.

Nosso movimento é político, sim, e tem um potencial revolucionário enorme. Já pensou o que aconteceria se todo mundo boicotasse a JBS, Sadia, Perdigão, Nestlé, Unilever etc e passasse a comprar o seu alimento nas feiras da reforma agrária? Diretamente da agricultura familiar? Já pensou a galera toda fortalecendo o pequeno agricultor que planta sem veneno, a assentada da reforma agrária que pratica agroecologia, ao invés de continuar dependente dos produtos cheios de agrotóxico, vindos da monocultura, com exploração animal, com trabalho escravo do agroalimentar? Imagine o impacto que isso teria na sociedade!

A crítica de Paola só desandou quando ela disse: “Quem quer algo com gosto de carne, que coma carne!”, ignorando o fato que não comer animais é uma escolha ética, não uma preferência gastronômica. Mas nenhuma surpresa aqui. Ela vai continuar defendendo o especismo, pois ganha a vida cozinhando animais, ou seja, lucrando com a exploração animal.

A solução desses chefs preocupados com meio ambiente, mas que continuam defendendo o especismo, não é acessível pro povo. Como disse minha amiga Juliana Couto (do blog Vegana Prática), se ela (e outras chefs estrelas) “comem vacas que tomam banho de ofurô e bebem matchá, isso é algo impossível de ser reproduzido na escala mundial”. Essa é uma questão importante e que dá muito pano pra manga, por isso acho que merece ser discutida outro dia.

Porém tirando isso, achei as críticas dela extremamente válidas. Escutei a mesma crítica vinda de outros chefs famosos (no Brasil e aqui na Europa) e, o que me deixou realmente triste, de guardiãs de sementes crioulas na Palestina e pessoas que trabalham com agroecologia mundo afora. Quando essas pessoas criticam o veganismo dizendo que “comer produtos ultraprocessados, à base de soja e monocultura, não é uma boa solução” e que se a alternativa for essa, elas preferem “comer carne orgânica e galinhas criadas no quintal” isso significa duas coisas nas quais deveríamos estar prestando muita atenção:

1- Que o “veganismo de mercado”, essa tendência do veganismo liberal de fechar com o capital (agroalimentar) em nome de um suporto “avanço pros animais”, não só não diminui a exploração animal (olha aí a Mantiqueira dizendo que vai aumentar a produção de ovos logo depois de ter lançado o seu “ovo vegano”), como dá uma ideia completamente errada do que é uma alimentação vegana, o que acaba afastando e colocando contra a gente pessoas que tem tudo pra ser nossas aliadas. O veganismo liberal causa muito mais danos à causa do que ajuda.

2- Que temos um trabalho de informação muito importante pela frente se quisermos ver a exploração animal começar a diminuir.

Imagina se, ao ouvir a palavra “veganismo”, o povo associasse o nosso movimento ao fortalecimento da agricultura familiar, apoio à reforma agrária, agroecologia, fim do latifúndio, da grilagem de terras indígenas e da monocultura, solidariedade aos povos indígenas, luta contra a bancada do boi, por soberania e autonomia alimentar? Despertaríamos a simpatia e o apoio de quem está lutando pra construir um novo modelo de mundo com justiça pra todas, onde a emancipação animal realmente teria chances de acontecer. Isso sim seria ver a revolução vegana avançar, construindo as bases pra uma sociedade sem especismo.

Seria bem mais difícil dizer mentiras como: “Acha que ser vegano é melhor pro meio ambiente? Estão acabando com a Amazônia pra plantar soja pra fazer comida vegana”, como o chef Alex Atala disse tempos atrás. Seria bem mais difícil justificar o especismo dos que não querem mudar sua alimentação (porque lucram com a exploração animal, como esses chefs, ou por puro comodismo) alegando que a alternativa vegana é pior, pois significa “ultraprocessados e monocultura”.

Enquanto isso o veganismo liberal, que mede seu sucesso em número de produtos ultraprocessados vegetais nas prateleiras dos supermercados, prefere se aliar a corporações capitalistas que querem cooptar nossa luta e pagar de vegan-friendly, sem no entanto reduzir a exploração animal que praticam. Com excessão das ditas corporações todo mundo perde com essa estratégia. Principalmente os animais.

Depois de publicar essas reflexões no meu Instagram, algumas pessoas levantaram a questão de Paola estar claramente se referindo ao hambúrguer do Futuro, feito por uma start up brasileira, enquanto a minha crítica tinha sido direcionada às gigantes da exploração animal como a JBS, Sadia, Nestlé e Unilever.

Embora eu reconheça que essa empresa brasileira não se aproxime nem de longe do nível de destruição praticada pelas gigantes do agroalimentar, a crítica exposta nesse texto continua válida. O coração da reflexão desse texto é sobre o fato da produção de ultraprocessados à base de plantas (feitos por multinacionais ou startups) buscarem manter a nossa dependência do agroalimentar, que existe em parceria com o agronegócio.

Porque autonomia alimentar não dá lucro, não é mesmo? Não rende prêmio de inovação e empreendorismo, enquanto desenvolver e vender um produto ultraprocessado, sim, como falou minha amiga, sempre certeira, Juliana Couto. Então a lógica por trás, embora numa escala e com impactos negativos bem menores, é a mesma.

Tem gente que se obstina a dizer que estou defendendo um purismo no veganismo, que julgo negativamente quem gosta de hambúrguer de plantas que imita o sabor de animais porque me acho mais vegana que todas as veganas e que pretendo caçar a carteira de vegana da coleguinha. Não sou ingênua a ponto de pensar que é problema de compreensão: essas pessoas defendem produtos vegetais ultraprocessados simplesmente porque ganham dinheiro pra promover o consumo dos mesmos. Mas pra quem ainda não se convenceu que minha posição não é essa, vou desanuviar pra você.

Não critico, muito menos condeno, a pessoa que gosta desses produtos. Não acho que se você comer um hambúrguer vegetal que imita carne animal você estará boicotando o movimento vegano e merece ser expulsa do grupo. De maneira alguma. Quer comer isso? Se joga, amiga. Está aqui a mulher que não vai te julgar. E, já que chegamos nesse ponto, melhor comer o hambúrguer do Futuro do que o da JSB. Mas se num dia de corre você acabou comprando um ultraprocessados de uma grande corporação, garanto que o mundo continuará girando.

Minha crítica, como sempre, vai à crença de que isso (ultraprocessados vegetais de multinacionais nos supermercados) é uma revolução vegana que está diminuindo o sofrimento e exploração animal no mundo. E foi aí que achei bem bacana um tweet de Paola, exatamente o que deixava a entender que ela tinha comido o hambúrguer do Futuro.

“É a mesma indústria…quer falar de alimentação do futuro, falemos. Mas ultraprocessados sabor carne tem no mercado desde 1960…ou antes. Mudou nada.”

Sim, comida ultraprocessada imitação não é uma ideia do futuro porcaria nenhuma! Tem miojo de “galinha” sem um grama de galinha, só saborizantes artificiais, nas prateleiras do supermercado há bastante tempo, por exemplo. Sabe o que é a comida do futuro, na minha opinião? Comida agroecológica. Vegetais frescos e sem veneno preparados na cozinha e saboreados à mesa, com tempo.

“Ah, mas quem tem acesso à essa comida? Pelo menos o ultraprocessado ‘vegano’ da Unilever/Nestlé/JBS vai chegar em muito mais lugares!”

De novo esse argumento raso. Sim, nem todo mundo tem acesso à comida agroecológica hoje, mas ao invés de ver isso como motivo pra aceitar a porcaria que multinacionais querem nos fazer engolir, pra mim isso é a razão pra levantar e lutar pra mudar o sistema. Eu defendo o que eu quero ver multiplicado.

Estamos num momento de colapso climático e mudar o sistema é a nossa única chance de sobrevivência. Acreditar que defender o sistema capitalista porque “os animais não podem esperar o fim desse sistema pra que aí então a gente comece a lutar por eles” é prova de uma ignorância tremenda ou, mais provavelmente, de interesses econômicos por trás, que são antagônicos à libertação animal. Temos poucos anos pra mudar de sistema se quisermos ter uma chance de continuar existindo na Terra. E não seremos apenas nós que vamos desaparecer: os outros animais também (já vivemos um período de extinção em massa, com de 150 à 200 espécies entrando em extinção por dia!).

E é aí que o veganismo popular, anticapitalista, que luta por reforma agrária, contra o latifúndio e defende a agroecologia e a soberania alimentar contribuirá imensamente na construção de um novo modelo de sociedade. Com justiça pra animais humanos, animais não-humanos e natureza, e que também é o único modelo que nos daria a possibilidade de continuar vivendo na Terra.

Gosto de pensar que sou uma pessoa modesta. Recebo elogios de bom grado, mas não saio por aí “contando vantagem”, como a gente diz na minha terra (se você precisa de tradução, essa expressão significa “fazendo elogios, não merecidos, a si mesma”). Mas de vez em quando eu desenvolvo uma receita que me faz inchar de orgulho. Mais ainda quando não se trata de uma receita propriamente dita, o que envolve vários ingredientes, muitos testes e muita louça pra lavar antes de chegar na versão final, a que compartilho aqui no blog. Isso é um trabalho que necessita criatividade, obviamente, mas é o resultado de 90% de transpiração e 10% de inspiração, como dizem que disse Einstein. Agora, quando a “receita” em questão é uma ideia que brotou na minha cabeça, puf!, que necessita apenas 2 ingredientes e que deu certo de primeira, aí eu não consigo conter o entusiasmo (se você estivesse do meu lado nesse momento me veria dando um discreto beijinho no ombro).

Essa empolgação toda por um pedaço de pão? Sim, mas eu dei uma recalibrada nesse pedaço de pão e agora ele é um lanche/café da manhã completinho, com o mínimo de esforço e pouco dinheiro. Explico.

Lembra do meu grãomelete? A mistura de base (farinha de grão de bico + água) não para de me surpreender. Passei a usar pra fazer tortilla (sempre um sucesso), quiche (ainda não publiquei a receita), molho de macarrão (sim, sim!) e rabanada (tanto doce quanto salgada, a minha preferida). E a ideia nasceu dessa última. Na verdade se trata de uma variação da rabanada salgada, mas simplificada e com um resultado final diferente.

É bem simples: você pega a massa do grãomelete, espalha em um prato pequeno e depois gruda um pedaço de pão nela (só de um lado). Aí é só fritar em um pouco de óleo/azeite. Você vai obter, cara leitora, um pão na chapa coberto com uma camada ligeiramente crocante de grãomelete. Sim, você pode fazer um grãomelete e depois servir dentro de um pão. Eu faço isso com frequência e adoro. Porém se trata de uma daquelas fórmulas mágicas onde a soma das partes é superior aos elementos do início. Quando o grãomelete cozinha junto com o pão na frigideira parece que é algo diferente de um pão com grãomelete. Por que? Mistério. Mas te desafio a tentar em casa e descobrir por si própria.

E, por outra razão misteriosa, essa versão me agrada ainda mais do que a rabanada (que é extremamente similar à essa receita). A única diferença é o método de preparo, o que produz um resultado interessante. A integridade do pão é respeitada (na rabanada ele deixa de ser pão e se transforma em rabanada) e o contraste de textura (o pão macio com a capinha crocante do grãomelete) é ao mesmo tempo delicioso e reconfortante. Talvez porque cresci comendo mais pão com queijo derretido na chapa do que rabanada (na verdade só fui comer rabanada depois de vegana), essa versão tem um gostinho bom de nostalgia pra mim.

A essa altura você já sabe que cereal + leguminosa forma uma proteína vegetal completa, né? Então esse lanchinho/café da manhã composto por pão (cereal) e grãomelete (grão de bico é uma leguminosa), combina lindamente na boca e do ponto de vista nutricional também. Então é uma atualização melhorada (em todos os sentidos) do pão na chapa com manteiga (ou margarina/azeite). E sabe como estou chamando essa lindeza? Taí mais um motivo pra estar me achando hoje, pois o nome é perfeito: grão na chapa! GRÃO NA CHAPA!!!

Esqueça o pão na chapa. Meu grão na chapa chegou pra animar seu carnaval. Seu ano. Seus lanches de agora em diante. De nada.

Grão na chapa

Essa receita pode ser adaptada de muitas maneiras. Dá pra juntar os temperos e ervas que você quiser na massa e fazer um lanche ainda mais saboroso. Importante: a massa do grãomelete deve ser preparada na véspera, então é preciso um pouco de planejamento aqui. Mas faça como eu: prepare uma boa quantidade de massa pra grãomelete e, depois de repousar uma noite em temperatura ambiente, guarde na geladeira pra depois. Assim você vai poder preparar essa e outras receitas em um piscar de olhos.

Massa de grãomelete

-Farinha de grão de bico (as boas são finas como farinha de trigo. Se for do tipo granulada, o resultado é muito inferior. Esfregue entre os dedos: se sentir uns grãozinhos, não vai rolar)
-Água

Dissolva a farinha de grão de bico em um pouquinho de água, batendo vigorosamente com a colher pra não sobrar nenhuma bolinha de farinha seca. Depois de ter obtido uma massa espessa e lisa, junte água suficiente pra atingir uma textura cremosa e quase líquida. Deixe repousar em temperatura ambiente, em recipiente fechado, por uma noite. No dia seguinte transfira a massa pra geladeira. Pronto, agora você pode preparar grãomelete, tortilla e grão na chapa a qualquer momento. A massa se conserva vários dias na geladeira. Não esqueça de colocar sal na hora de preparar.

Pra fazer o grão na chapa

Massa de grãomelete
Sal
Pão (baguete ou francês são ideias, mas use o que tiver)
Temperos (opcional)

Corte o pão francês ao meio (eu usei baguete porque na França não tem pão francês!!!!). Coloque um pouco da massa de grãomelete (que deve estar mais pra líquida- junte um pouco de água se ela tiver endurecido na geladeira, o que vai acontecer) em um prato e tempere com sal. Se quiser usar temperos (como alho picado, pimenta do reino, páprica defumada, cebola desidratada, ervas frescas ou secas…) essa é a hora.

Esquente um pouco de óleo/azeite em uma frigideira (anti-aderente, senão vai grudar). Mergulhe cada metade de pão francês na massa de grãomelete (o lado cortado pra baixo), deixe alguns segundos em contato com o líquido, pro pão absorver uma quantidade boa, e depois transfira (sempre o lado cortado pra baixo) pra frigideira. Cozinhe em fogo médio até ficar bem dourado e ligeiramente crocante (não precisa cozinhar do outro lado, obviamente). Sirva imediatamente.

É um desbunde puro, com café, mas nada te impede de incrementar ainda mais seu grão na chapa e servir com um patê/molho/guacamole/caponata/legumes refogados ou tomates crus, bem maduros, picados regados com um fio de azeite.

Em setembro confessei aqui no blog a minha recente história de amor com a farofa e compartilhei a receita da minha farofa mais popular.

Mas isso não é exatamente verdade. Sim, minha farofa de banana e couve é extremamente popular na minha família, mas um dia fiz uma versão ligeiramente modificada dessa receita e o sucesso foi ainda maior. Chamei essa obra-prima comestível de “farofa rica”.

Como toda farofa, se trata mais de um conceito do que de uma receita. E o que é o conceito de farofa rica, você pergunta? É usar os restos de comida que estão de bobeira na geladeira, principalmente aqueles em quantidade tão pequena que não dá pra alimentar nem uma pessoa sozinha, misturar com farinha em uma frigideira quente e criar um prato tão saboroso e cheio de ingredientes que o único adjetivo que me veio à cabeça pra qualificar minha criação foi “rica”. Eu vejo muito a palavra “rica” ser acoplada à uma receita quando se trata de encarecer a conta de ingredientes. Ou seja, juntar ingredientes caros e sempre de origem animal (queijo, bacon, creme etc). Então minha farofa rica é pura subversão, já que se trata de um prato popular que foi preparado com sobras de alimentos e esses alimentos são todos vegetais.

Farofa rica

Como expliquei acima, se trata mais de um conceito do que de uma receita. Use essa lista de ingredientes como guia, pois dá uma farofa realmente arretada, mas substitua o que estiver faltando pelo que encontrar na sua geladeira. Feijão macaça (feijão de corda) é ideal aqui, pois além de muito saboroso ele se mantém intacto depois do cozimento e não dá caldo grosso, fazendo com que seja muito simples separar os grãos do caldo. Mas imagino que grão de bico cumpra o mesmo papel aqui, pras pessoas que tem acesso a esse ingrediente.

2-3 cs de óleo
1 cebola, picada
2-3 dentes de alho, picados
2 bananas, picadas (maduras, mas não muito)
1 x de feijão macaça (sem caldo)
1 – 1,5x de farinha de mandioca fina, peneirada
Um punhado de coentro, picado
Sal e pimenta do reino a gosto

Em uma frigideira grande e, de preferência, com o fundo grosso, aqueça o óleo e doure a cebola. Junte o alho, deixe fritar por alguns segundos e acrescente a banana picada, o feijão macaça e, aos poucos, a farinha. Vá mexendo com uma colher de pau, delicadamente pra não esmagar a banana, e juntando farinha, sobre um fogo baixo, até atingir a consistência desejada. Eu gosto de farofa úmida, então uso 1x de farinha, mas se você gostar de farofa mais seca, use mais.

Desligue o fogo e acrescente o coentro. Tempere com sal e pimenta do reino, prove e corrija o tempero, se necessário. Sirva imediatamente.

Rende de 4 a 6 porções, dependendo da intensidade do seu amor por farofa.