Tem um gato dormindo colado a mim, dois cachorros aos meus pés e uma mama, a minha, fazendo palavras cruzadas do meu lado. As duas humanas estão esperando a fornada que pão de queijo vegano que está no forno ficar pronta pra devorar tudo com café. E enquanto minha mãe me pede pela terceira vez hoje pra verificar se a espinhela dela caiu (só quem é do interior do Nordeste conhece essa doença misteriosa e o método extremamente científico pra diagnostica-la. E a cura, claro) penso: “Que delícia estar em casa.”

Cheguei em Pindorama há duas semanas e por enquanto estive me escondendo em Natal, minha cidade natal, comendo meu peso em tapioca, fazendo leite de coco e medindo a espinhela da minha mãe. Mas a partir da semana que vem volto ao trabalho e estou muito empolgada com o que me espera por aqui. Estava com vontade de fazer mais atividades no Brasil (oficinas, aulas, palestras, retiros gastronômicos) por isso decidi ficar aqui até dezembro. Vou avisando sobre os eventos à medida que eles forem confirmados e quem quiser organizar algo especial é só entrar em contato comigo (papacapimveg@gmail.com).

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Semana que vem estarei em Recife, participando de um seminário sobre a Palestina e cozinhando um jantar árabe no restaurante Papaya Verde. Os dois eventos serão muito especiais e quem estiver por lá não deve perder.

Fazia anos, muitos anos que eu não sentia isso: dor de barriga porque comi um bolo quente. Acho que a última vez deve ter sido uns 25 anos atrás.

Estou no interior da França agora e acontece que meus sobrinhos franco-alemães me pediam há dias pra eu fazer um bolo vegano com eles. Os meninos, que têm 10, 7 e 4 anos, acham fascinante eu ser chef e mais ainda eu ser chef vegana. Eles querem cozinhar comigo o tempo todo e sempre que entro na cozinha um dos três aparece (às vezes os três ao mesmo tempo) perguntando se pode fazer alguma coisa pra me ajudar. Fiz massa à carbonara com Ben, milk-shake de morango e amendoim e, no dia seguinte, de banana com chocolate com Noé, essa salada e arroz “chinês” com Léo, rabanada salgada com os três…

Mas desde o primeiro dia eles me pediam um bolo de chocolate (“Um bolo vegano, titia Sandra!”, eles sempre fazem questão de insistir no “vegano”). Na última vez que estive em Berlim a mãe deles, minha concunhada alemã, me mostrou um bolo lindo e perfumado feito no dia anterior e que ela queria veganizar pra nós. Dei umas dicas de como substituir os ovos, único ingrediente de origem animal na receita original e pedi a receita pra testar na minha cozinha. Acabei esquecendo de anotar a receita, mas não esqueci do aroma delicioso daquele bolo. E fiquei intrigada com o ingrediente principal: quase meio quilo de abobrinha.

Os meninos pediram um bolo de chocolate, com recheio de creme de morango e cobertura de chocolate, mas ontem à noite enquanto eu discutia do projeto com minha concunhada ela pediu pra eu fazer o famoso bolo de abobrinha em versão vegana. Eu disse que as crianças iam ficar decepcionadas, mas ela insistiu que elas ficariam feliz com qualquer tipo de bolo. Mesmo assim sugeri colocar chocolate picado na massa e ela, uma grande chocólatra, aprovou com entusiasmo.

Hoje à tarde fui pra cozinha testar nossas ideias combinadas e imediatamente apareceu um par de mãos de 10 e outro de 4 anos pra me ajudar. Adoro cozinhar com crianças e percebi, depois de ter passado uma semana na cozinha com esses pequenos, que eles devoram com prazer tudo que ajudaram a preparar. Ben até declarou que o nosso macarrão à carbonara vegano era o seu prato preferido de todos os tempos (mesmo se o pai dele faz carbonara com bacon/creme/ovo pra ele regularmente).

Fizemos o bolo intrigante com várias adaptações, porque não resisti a tentação de melhorar a receita, e depois que coloquei no forno me perguntei se aquilo ia dar certo. Tive que me ausentar e deixei minha concunhada com a missão de tirar o bolo do forno. Voltei menos de uma hora depois e encontrei os três meninos, junto com os adultos da casa, se jogando em cima do bolo quente. Perguntei se o bolo tinha ficado bom e eles me responderam de boca cheia que o bolo tinha ficado delicioso. Não resisti e me juntei à tropa. E foi assim que acabei com dor de barriga. Em pouco tempo só o pedaço nas fotos aqui tinha sobrado pra contar a história.

A abobrinha deixa o bolo incrivelmente macio e tenro, mas o sabor dela, que não é dos mais pronunciados, desaparece sem deixar rastros. Juro. Ninguém precisa saber que tem legume ali. Minhas mudanças na receita original foram: usei mais amêndoas em pó e menos farinha, menos açúcar, troquei o óleo de canola por coco (muito melhor em bolos e em todo o resto, na minha opinião), acrescentei chocolate picado à massa e substituí os ovos por chia hidratada. O resultado final é um bolo com muitas fibras, perfumado e delicioso. Minha concunhada disse que o bolo continua perfeito até três dias depois de assado, mas isso eu não vou poder  confirmar porque o nosso bolo não vai sobreviver as próximas horas.

Só posso dizer que a dor de barriga valeu a pena.

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Bolo de abobrinha só que ninguém precisa saber

Não digam pra ninguém que tem abobrinha nesse bolo e garanto que ninguém vai adivinhar. Como minha tolerância pra doce é limitada, usei somente 2/3 da quantidade de açúcar da receita original, mas use a quantidade toda se quiser um bolo com um sabor mais tradicional.

Secos:

300g farinha de trigo

200g de amêndoas em pó

300g de açúcar (usei 200g) – bom se for demerara, melhor ainda se for de coco

2cc de fermento

1/2cc sal

3cc canela em pó

100g de chocolate (60%-70% de cacau), picado

Molhados:

1cc extrato de baunilha

3cs de chia, inteira (ou linhaça triturada)

250ml de óleo de coco (ou outro óleo neutro), em estado líquido

400g de abobrinha italiana (‘courgette’ em Portugal), descascada e ralada no ralo fino

Óleo de coco e farinha pra untar/enfarinhar a forma

Aqueça o forno a 200 graus.

Misture a chia (ou linhaça) com 9 colheres de sopa de água e deixe hidratar enquanto prepara os outros ingredientes (lembre de mexer de vez em quando pra que hidrate de maneira uniforme).

Em um recipiente grande misture todos os ingredientes secos. À parte misture todos os ingredientes molhados, incluindo a chia hidratada. Lembre de deixar o óleo de coco em temperatura ambiente por algumas horas, se o clima estiver quente, ou esquentar um pouco no banho-maria pra que ele fique completamente líquido. Despeje os ingredientes molhados sobre os secos e, usando uma colher de pau, misture bem.

Idealmente use duas formas retangulares pequenas pra assar o bolo, pois assim ele fica com uma casquinha crocante irresistível. Mas se não tiver esse tipo de material, use uma forma média de qualquer formato. Unte a(s) forma(s) com óleo de coco e enfarinhe e despeje a massa. Leve ao forno pré-aquecido e asse entre até que uma faca inserida no meio do bolo saia limpa. A potência dos fornos domésticos varia bastante e dependendo da forma (ou das formas) utilizadas o tempo de cozimento vai variar, por isso só o teste da faca pode te ajudar pra saber se o bolo está cozido. Faça o primeiro teste 30 minutos depois de colocar o bolo no forno.

Deixe esfriar completamente antes de servir se não quiser ter dor de barriga.

Algumas semanas atrás eu fui visitar Anne em Berlim, onde ela está morando atualmente. Eu estive na cidade alguns anos atrás, também durante o verão, e adorei. Até escrevi um Guia Vegano da cidade. As opções veganas aumentaram ainda mais desde a primeira vez que estive lá e o guia merece uma segunda parte. Berlim é sem dúvida a capital vegana da Europa. É incrível ver como veganismo é algo comum e bem aceito por lá. Comi em vários restaurantes veganos, mas também em restaurantes tradicionais, pois é comum ter opções veganas em praticamente todos os lugares. Você pode sair pra comer com suas amigas onívoras e ter a certeza que vão encontrar facilmente um lugar que vai deixar a barriga de todo mundo satisfeita.

Mas por enquanto vou me contentar em compartilhar alguns momentos da viagem, então esse guia será visual, mas com algumas recomendações no final do post pra quem estiver de passagem na cidade, incluindo onde  quiser provar um super brunch vegano.

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Esse queijo vegano incrível (à base de castanha de caju, fermentado e curado de maneira artesanal) veio de Nova York, da queijaria vegana Dr Cow.

A sexta e sétima fotos foram feitas na creperia vegana Let it be, que também recomendo.

Outro lugar que recomendo é o restaurante/café Charlie’s Vega Food and Coffee. Achei por acaso e fui comer lá por simples curiosidade, mas a comida me surpreendeu. Muito, muito boa! Comi um pãozinho de farinha de arroz no vapor, recheado com legumes e cogumelos que minha amiga Nozomi, que é japonesa, disse se chamar yasai-man. Era tão bom que imediatamente depois de devora-lo pedi outro. Também provei uma sopa de ervilha, hortelã e coco  incrivelmente perfumada, um ragu de cogumelos, coco e capim santo (os sabores do local são inspirados da culinária asiática) e um bolo de chocolate e pera delicioso. (fotos 10 e 11)

O restaurante que serve o melhor brunch vegano que já degustei (fora de casa) se chama Koops e Anne também jantou lá no seu aniversário, acompanhada da irmã vegetariana e do irmão onívoro e da cunhada onívora e todos saíram de lá impressionados com a qualidade da comida. (fotos 12 e 13). E do ladinho do restaurante tem uma sorveteria vegana (foto 14).

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E acreditam que encontrei uma leitora de longa data do blog no aeroporto indo pra Berlim no mesmo voo? Inês é portuguesa e também mora em Londres. Ela é cantora, mas nunca tive a oportunidade de vê-la cantar aqui. Tive que ir até Berlim pra ver a linda no palco e foi mágico.

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