Alguns meses atrás Tel Aviv foi palco do que foi chamada de “a maior marcha de direitos animais da História“. Acredita-se que Israel tenha a maior população vegana do mundo e o país é frequentemente descrito como “a capital vegana do mundo” e “a terra prometida dos veganos” . Minhas amigas israelenses me disseram que o movimento vegano começou, vários anos atrás, como parte integrante da luta por justiça e contra todos os tipos de opressão, incluindo a ocupação e a colonização israelense da Palestina. Muitas veganas israelenses ainda militam contra a ocupação, mas essa conexão não está presente no discurso vegano dominante, onde conciliar veganismo e sionismo não parece ser um problema. Então eu não fiquei surpresa quando um amigo palestino me contou que um amigo dele, um palestino de 48, se juntou à marcha, mas decidiu ir embora pouco depois por causa dos comentários racistas que os ativistas israelenses estavam fazendo. É importante mencionar que um grande número de palestinos de 48 (palestinos que não foram expulsos de suas terras pelas forças sionistas durante a criação de Israel em 1948, contrariamente ao que aconteceu com dois terços da população da Palestina histórica da época, e que vivem no que hoje é Israel) são veganos ou vegetarianos. Na verdade, de acordo com um artigo de 2015 publicado no jornal israelense Haaretz, enquanto 3% da população judia israelense é vegana e 7% é vegetariana, a comunidade palestina de 48 conta com 6% de vegana(o)s e 11% de vegetariana(o)s.

Voltando à marcha por direitos animais em Tel Aviv, o que me surpreendeu na verdade foi ver a grande maioria da comunidade vegana brasileira, com poucas exceções,  aplaudindo o evento e, em um ou dois casos, louvando Israel por ser um país tão progressista. Nada foi dito sobre a ocupação e a colonização da Palestina por esse país. E quando alguém tentava chamar a atenção pra isso a reação que vi com mais freqüência foi: “Será que não podemos nos concentrar nos animais e ficar felizes com a grande vitória que essa marcha representa? O veganismo está se tornando cada vez mais popular e devemos comemorar isso.”

Então quando uma leitora do meu blog respondeu à minha crítica com o seguinte comentário: “Será que apoiar Israel quer dizer necessariamente ser contra a Palestina? É possível apoiar um povo sem bater palmas pra todas as decisões políticas deles. Até porque dificilmente a política de um estado representa o povo que o faz”, senti que tinha chegado o momento de escrever sobre essa questão. Mas ao invés de simplesmente compartilhar meus pensamentos pensei que seria mais interessante pedir às minhas amigas veganas israelenses pra falar sobre o crescimento do veganismo em Israel, vegan-washing e a resposta que elas dariam à minha leitora.

Preciso deixar claro que o objetivo deste artigo não é oferecer uma visão abrangente do movimento vegano em Israel. Nos próximos parágrafos procuro, com a ajuda das minhas amigas israelenses veganas, responder a pergunta feita pela minha leitora e ao mesmo tempo alertar sobre os perigos de separar a libertação animal da libertação humana, descrevendo o exemplo mais evidente desse fenômeno que encontrei até então.

“Obviamente o governo não é o povo, mas ao mesmo tempo, na minha opinião, você não pode separar política radical (anti-capitalismo e anti-colonialismo) da libertação animal, especialmente quando o rápido crescimento do movimento de libertação animal em Israel é auxiliado pelo fato de ter se separado da política de esquerda e de facto estar se associando às posições políticas extremamente racistas do governo israelense. Tudo isso sem mencionar o fato do governo israelense estar usando a popularidade do veganismo em Israel pra se colocar como um estado progressista liberal. “Dan

Na verdade o tipo de veganismo que faz sucesso em Israel não é muito diferente do veganismo que está se tornando popular no resto do mundo. Um veganismo que não só é desconectado de outras lutas, mas cuja razão do seu sucesso crescente é exatamente se definir como apolítico. Então por que escrever sobre a ausência da luta contra opressão humana dentro do movimento vegano israelense quando vemos exatamente o mesmo problema em outros lugares?

“O governo israelense e, infelizmente, uma parte significativa do movimento de direitos animais em Israel estão conscientemente usando o veganismo pra melhorar a imagem de Israel no mundo (o que chamamos de “vegan-washing”). O objetivo é distrair a atenção do público com relação aos crimes israelenses, associando Israel com coisas positivas. O governo israelense está fazendo um grande esforço nesse sentido e seguir nessa direção significa ajudar o governo israelense a fazer com que a opressão do povo palestino continue.” Kobi

“Como vegana, que acredita que todos os seres merecem viver em liberdade e como uma israelense que resiste à ocupação e ao racismo do governo israelense, é frustrante ouvir as pessoas concluírem que Israel é um paraíso de justiça, direitos e compaixão , já que isso não poderia estar mais longe da verdade. Das 15 mil pessoas que protestaram em Tel Aviv a maioria é, foi, ou será, soldado no exército de Israel, que é uma força de ocupação que controla a vida de milhões de palestina(o)s. Por essa razão muitas das pessoas naquele protesto estão participando diretamente da opressão da população palestina. Na verdade todas as pessoas israelenses, inclusive eu, se não resistirem ativamente estão participando ou se beneficiando de algum modo da ocupação. É importante saber que mesmo com um grande número de vegana(o)s Israel ainda é um dos países com o maior consumo de carne per capita, especialmente aves. Além disso, como parte das políticas de livre comércio e com o apoio do governo, dezenas de milhares de animais são enviados a Israel do exterior, principalmente da Austrália, pra serem abatidos aqui. Poder comprar produtos veganos em quase qualquer supermercado é um resultado do mercado capitalista, não um reflexo da compaixão da sociedade israelense. Nas comunidades veganas também fala-se muito sobre o exército israelense ter se tornado “vegan friendly”, o que significa que os soldados israelenses podem obter comida e equipamentos veganos, como botas de couro sintético. Soldados israelenses podem usar suas botas “sem crueldade” nas barragens militares e quando atiraram em manifestações, declaradas ilegais simplesmente porque o povo palestino não tem o direito básico de protestar. Eles podem usar suas botas enquanto planejam e realizam outro ataque mortal em Gaza. Eles podem usar suas botas ao pilotar aviões e pressionar um botão pra matar milhares de pessoas. Citando Ayeal Gross “Em Tel Aviv, hoje, é muito mais fácil encontrar alimentos cuja preparação não envolveu a exploração de animais do que encontrar alimentos cuja produção não implicou a opressão e o desenraizamento de outros seres humanos”. Gross aponta o absurdo presente no discurso do movimento vegano em Israel. O fenômeno social recente do aumento do veganismo em Israel mostra que é mais fácil pra israelenses abandonar a convenção de que ‘comer animais é normal e necessário’, do que abandonar a convenção de que a ocupação e a opressão de outras pessoas é normal e necessário. Se uma ocupação como essa pode continuar por tanto tempo, isso significa necessariamente que a maioria do povo israelense não considera o povo palestino como seres humanos iguais, com os mesmos direitos à vida, à dignidade e à liberdade.” Haidi

Então duas coisas devem ser levadas em consideração aqui. Em primeiro lugar, as pessoas que protestaram por direitos animais em Tel Aviv são as mesmas que ocupam militarmente a Palestina, já que praticamente todas as pessoas naquela marcha fazem ou farão parte do exército israelense. Portanto não se trata apenas de uma comunidade vegana que não se interessa por direitos humanos, se trata de pessoas veganas que participam ativamente da opressão e crimes cometidos contra a população palestina há décadas e, como Dan disse, se associam às posições políticas extremamente racistas do governo israelense.

Em segundo lugar, e repito aqui a explicação de Kobi: “o governo israelense e, infelizmente, uma parte significativa do movimento dos direitos dos animais em Israel está conscientemente usando o movimento dos direitos dos animais para melhorar a imagem de Israel no mundo”. Até onde sei, nenhum outro país está usando o veganismo como ferramenta de propaganda pra distrair a atenção dos crimes que comete.

O programa Birthright é um exemplo de como o governo israelense explora o veganismo e o usa a serviço do colonialismo. “Birthright Israel” (“birthright” significa “direito de nascimento”) é um programa que foi criado em 1999 e já enviou mais de 500 mil jovens judeus em uma viagem gratuita de dez dias a Israel. Qualquer pessoa judia, de qualquer país do mundo, pode ter acesso a essa viagem gratuita, cujo objetivo é “fortalecer a identidade judaica e a conexão com o estado judeu” e se optar por imigrar pra Israel obtém a cidadania automática. Recentemente uma versão vegana do “Birthright Israel” foi adicionada ao programa, chamada Israel pra Vegans. Podemos ler no site do programa: “Você é vegan? Você se preocupa com direitos animais? Israel pra Vegans é pra você! Esta jornada espiritualmente edificante e fisicamente libertadora (…) oferece a oportunidade de encontrar jovens israelenses entusiasmados e líderes mundiais da cena vegana e vegetariana judia. Você também descobrirá os avanços únicos que a ‘start up nation’ ofereceu a essas comunidades no mundo inteiro. Tel Aviv é uma líder mundial em veganismo! Venha descobrir. ”

O uso do veganismo pra melhorar a reputação internacional de Israel e distrair a atenção pública de seus crimes foi levado ao extremo pelo autor israelense Eyal Megged, que publicou um artigo no jornal Haaretz em 2013 chamado “Apoie Netanyahu nos direitos animais e ainda por cima ajude Israel”. Nele podemos ler: “(…) a paz com os árabes não vai acontecer, então por que Livni (na época ministra da justiça) e Netanyahu (primeiro-ministro) não trocam seus esforços inúteis de conversas com os palestinos por um objetivo que realmente nos tornaria uma luz pras outras nações? Por que não se tornar os campeões do progresso em uma questão que as pessoas evoluídas do mundo levam a sério? ”

Acabar com a ocupação ilegal e a colonização da Palestina? Não precisa! Podemos substituir o “processo de paz” e a luta por justiça por direitos animais, por exemplo.

O exército israelense, como Haidi mencionou, também usa o veganismo pra melhorar sua imagem, reforçando o mito, criado pelo próprio, de “exército mais moral do mundo”. Soldado(a)s vegano(a)s recebem refeições veganas, botas de couro sintético e boinas sem lã, o que mais uma vez foi visto por uma grande parte da comunidade vegana internacional como sinal de avanço moral e uma vitória pros animais. Os crimes que esses soldados veganos provavelmente cometerão contra humanos, calçados com as botas “sem crueldade” foram, mais uma vez, ignorados. (Curiosamente dessa vez até a exploração de animais não-humanos ficou de fora da crítica: enquanto anunciava seu cardápio vegano, o exército israelense utilizava cachorros pra atacar a população palestina.)

(Fotos retiradas da página FB do exército israelense. “IDF” é a siga em Inglês de “Forças de Defesa Israelenses”. Notem que os posters estão em Inglês, o que revela que o público alvo dessa campanha não é o povo israelense – os futuros soldados.)

“Eu não entendo por que alguém apoiaria Israel, independentemente da Palestina. Estamos falando de um país que aprova o abate de milhões de animais todos os anos. Um país que aprova leis torturantes pra importar e exportar animais através de caminhos muito longos e difíceis … Israel não é um país que se posicionou contra testes em animais , nunca se posicionou contra o tráfico ou o abate de animais. O fato que Israel pode ser percebido como um país que é a favor do veganismo é mais uma vez um uso muito cínico das crenças de certas pessoas, muito parecido com a instrumentalização da luta LGBT, que você conhece muito bem. O fato que algumas pessoas tem razões profundas pra promover o veganismo e Israel vê isso como mais uma oportunidade pra se promover como um país liberal e aberto, enquanto na verdade aprova e apoia continuamente a tortura, o abate e o tráfico de animais, é muito cínico. Saber que esse é o mesmo país que não só viola direito animais, mas que também viola direitos humanos faz com que seja uma pílula ainda mais amarga de engolir “Chaska

Chaska chamou a atenção pra algo muito importante, mas que pouca gente sabe. Israel é o 4º maior consumidor de carne do mundo, com mais de 86 kg de carne per capita por ano e é, de longe, o maior consumidor de aves do mundo, com 57 kg de aves per capita por ano em 2015. A experimentação animal em Israel aumentou em 51% em 2016 e metade dos testes em animais envolve a máxima dor permitida. Quase todos os animais são mortos no final dos testes. Portanto não só o movimento vegano em Israel está sendo usado pra distrair a atenção internacional dos terríveis crimes que este país comete como, ao examinar mais de perto a realidade local, descobrimos que as reivindicações de “paraíso vegano” estão longe de ser verdade. Ou só são verdadeiras pros humanos jantando nos badalados restaurantes veganos de Tel Aviv, não pros animais não-humanos, que continuam sendo torturados e abatidos ali do lado.

Tali, outra amiga vegana israelense, trabalha para “Boycott from Within“, um grupo israelense que apoia a campanha BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) e frequentemente conversamos sobre vegan-washing. Depois do infame show dos Pretenders em Israel, Tali e os outros ativistas de Boycott from Within escreveram uma carta aberta pra Chrissie Hyde e acho que vale a pena compartilhar algumas partes aqui, pois mostra mais uma vez o tipo de problema que surge quando não entendemos o veganismo como parte de uma luta mais ampla por justiça.

(Um pouco de contexto: Chrissie Hynde, vocalista dos Pretenders e ativista vegana, optou por ignorar os pedidos de boicote, alegando que os argumentos pra aderir ao BDS não eram “convincentes”, se apresentou em Israel vestindo uma camiseta de direitos animais israelense, agitou uma bandeira israelense gigante no palco e dedicou uma música pras ativistas veganas israelenses e outra – “I’ll stand by you” – pras vacas.)

“Como uma defensora da libertação animal em um momento em que meu próprio governo executa crianças, mulheres e homens nas ruas, a decisão de Chrissie Hynde de ignorar a luta indígena palestina a serviço das políticas genocidas de Israel, vestindo uma camiseta de libertação animal, é como receber duas bofetadas no rosto. Enquanto veganas israelenses comemoravam seu ativismo com os Pretenders, veganas palestinas lutam contra o colonialismo de Israel. E as vacas? Uma música foi dedicada a elas, bem longe das lucrativas fazendas de laticínios e abatedouros de Israel. Os Pretenders receberam cartas pedindo para boicotar Israel através das mídias sociais. A decisão de ignorar os apelos foi suficientemente insensível, mas carregar a bandeira de Israel – um país que detém milhões de palestinas sob um bloqueio que está estrangulando a população, pratica uma ocupação militar insuportável e cujo primeiro-ministro aplaude os esquemas genocidas dos parlamentares – é apoiar um genocídio .”

Uns meses atrás tive uma conversa com a mesma leitora que deixou o comentário que inspirou esta publicação. Ela me falou sobre um amigo vegano que estava visitando Israel e publicando fotos, em suas mídias sociais, da incrível cena vegana local. Mais uma vez, nem uma palavra sobre a ocupação. Na verdade ele foi ainda mais longe, reproduzindo a apropriação da cultura e gastronomia palestina feita por Israel. Ele publicou a foto do hummus degustado em um famoso restaurante palestino de Jerusalém, Abu Shukri, e acompanhou a legenda com a bandeira de Israel. Minha leitora pediu recomendações de restaurantes veganos em Israel pro amigo e quando expliquei que achava a posição dele extremamente problemática ela discordou e concluiu a conversa com “mas há questões que são caras pra cada um, entendo.” Perdi as contas das vezes em que fui acusada de ter “escolhido um lado”, implicando que os crimes cometidos pelo governo israelense, fatos extremamente bem documentados pela ONU e várias organizações de defesa de direitos humanos, são invenções, culpa da minha “posição tendenciosa”. Sempre respondo que sim, escolhi um lado, o lado da justiça, mas dessa vez resolvi perguntar a Tali se ela também achava problemático visitar Israel como turista e ignorar os crimes cometidos por este país contra o povo palestino.

“Claro que é problemático! É exatamente isso que falamos quando nos referimos ao vegan-washing da ocupação militar israelense na Palestina. Israel está literalmente às margens de exterminar um povo inteiro e você elogia o país por ter boas opções de comida vegana? O mínimo que essa pessoa poderia ter feito seria ter chamado a atenção do seu público pras palestinas incríveis que defendem os direitos animais que, ao contrário de nós, não têm o privilégio de poder ignorar o apartheid de Israel “.

Aproveito pra apresentar algumas dessas palestinas incríveis que defendem os direitos animais. E recomendo esse artigo pra você ver a perspectiva palestina do assunto tratado nesse post.

Também contei a Tali que quando as pessoas tentaram apontar essa incoerência ele as bloqueou em suas mídias sociais. A resposta dela foi: “Apartheid é quando você bloqueia as pessoas na vida real”. Quando expliquei que, por terem sofrido mais um golpe de Estado em 2016, brasileiras se apressam em dizer “o governo israelense não representa o povo israelense”, porque é quase sempre verdade no nosso país, ela veio com esta resposta brilhante: “Não, não representa e é por isso que devemos derrubar esse governo. Esse argumento incentiva o boicote, não o contrário. Se o governo não representa as pessoas, ele deve ser derrubado. Se as pessoas sob esse regime não conseguem derruba-lo, qualquer assistência a elas é um ato humanista profundamente solidário”.

O movimento vegano como é visto pelas correntes dominantes atuais se resume ao que você coloca no carrinho de compras e não há interesse em destruir sistemas de opressão nem em praticar a solidariedade com outras lutas. Assim o amigo da leitora, que gostou tanto de Israel que retornou ao país poucos meses depois, admite que “escolhe o destino pela disponibilidade de comida vegana” e “Tel Aviv talvez seja hoje a cidade mais vegan-friendly do planeta. E é exatamente por isso que estou de férias por aqui.” Não parece problemático pra muitas pessoas veganas passar as férias em um país que está colonizando e ocupando outro país e, como Tali disse, exterminando a sua população nativa, executando crianças, mulheres e homens nas ruas simplesmente porque, gente, existem ótimos restaurantes veganos lá! 

Escolher nosso próximo destino gastronômico é um privilégio. Achar que privilégios devem passar na frente dos direitos alheios é uma atitude de pessoas que tem tantos privilégios que podem se dar o luxo de ignorar a opressão sofrida por outros grupos. Pessoas que têm o privilégio de dizer, como o amigo da minha leitora escreveu em um post, “não vejo fronteiras nem muros”. O palestino que gostaria de comer o hummus de Abu Shukri em Jerusalém (ou que precisa ir ao hospital do outro lado do muro) sabe muito bem que pra ele o muro sempre estará visível e o impedirá de entrar nessa parte do seu próprio país, que está há décadas nas mãos dos colonizadores. Publicar uma foto desse hummus palestino acompanhado de uma bandeira israelense é ajudar o governo israelense a, como escreveu Ben White, “apagar a memória e a identidade do povo palestino.”

Conversei com uma amiga israelense, também vegana, que foi ao show dos Pretenders e à marcha por direitos animais em Tel Aviv e ela levantou a seguinte questão: “Como todo tipo de ativismo é problemático, por que não podemos ficar felizes com os aspectos positivos do movimento?” Ela comparou isso com ir a um protesto contra a ocupação na Palestina e depois compartilhar uma refeição com ativistas palestina(o)s onde animais são servidos. Uma amiga dos EUA, ativista por direitos humanos e animais, quis dizer algumas coisas sobre isso.

“Ela julga pessoas palestinas por comer animais quando o país dela as impede de obter alimentos através de sanções, destrói suas oliveiras, dispara contra elas quando tentam colher frutas e verduras de sua própria terra na ‘fronteira’, roubam sua água, roubam a terra que elas poderiam usar para cultivar plantas pra se alimentarem … Que arrogância criticar as palestinas por comerem animais quando Israel é um dos maiores consumidores de carne do planeta e palestinas têm uma dieta principalmente baseada em plantas. Na verdade uma das razões de Israel ‘precisar’ roubar tanta terra e a água das palestinas é devido ao seu vício de consumir carne. Há séculos colonizadores dizem aos povos indígenas que o modo de vida deles é superior e que o modo de vida dos povos indígenas é ‘bárbaro’. Palestinas não serão receptivas a israelenses dizendo que elas devem se tornar veganas. Isso precisa vir de outras palestinas e a única maneira disso acontecer é criando um movimento de libertação animal onde palestinas se sentirão bem-vindas, o que significa SEM SIONISTAS “.

E falando da colonização da terra palestina e do roubo de recursos naturais, grande parte da produção de alimentos veganos israelenses acontece nas colônias ilegais dentro dos territórios palestinos (terras palestinas confiscadas por Israel e colonizadas, violando o direito internacional), que é onde uma grande parte de agricultura israelense acontece. É precisamente por isso que Ayel Gross disse que em Tel Aviv é muito mais fácil encontrar alimentos livres de exploração animal do que alimentos livres da “opressão e desenraizamento de outros seres humanos”.

Alguns anos atrás a rádio BBC fez um programa sobre “guerreiros veganos do exército israelense”, onde escutamos que pra uma soldada vegana “respeitar a dieta dela é tão importante que se o exército não pudesse oferecer condições que não prejudicassem criaturas vivas ela poderia não ter se alistado em uma unidade de combate”. Como explicar que alguém que se tornou vegana por não querer prejudicar nenhuma criatura viva não veja incoerência em se alistar em uma unidade de combate do exército israelense? O veganismo é visto aqui como uma “dieta” e participar ativamente da opressão e extermínio de outros humanos não entra em conflito com o veganismo dela, contanto que seu prato esteja livre de animais não humanos.

Erica Weiss, uma antropóloga da Universidade de Tel Aviv, escreveu um artigo esclarecedor sobre a retirada dos direitos humanos do discurso vegano israelense chamado “There are no chickens in suicide vest” (“Não existe frango em colete explosivo”). No texto, publicado em 2016 no Journal of the Royal Anthropological Institute, ela relata as dezenas de entrevistas feitas com vegana(o)s israelenses, principalmente as que adotaram o veganismo nos últimos anos e só militam por direitos animais. As pessoas entrevistadas disseram mais ou menos a mesma coisa pra explicar porque não apoiam direitos humanos quando os humanos em questão são palestinos.

“Eles ensinam seus filhos a nos odiar e eles tentam nos matar. Então nos defendemos! Se os animais se organizassem e ensinassem seus filhos a nos odiar e a tentar nos matar eu sentiria o mesmo. Mas até hoje não vi galinhas com coletes explosivos e os foguetes que vem de Gaza contra nós não são lançados pelas cabras nem pelos camelos que vivem lá. ”

“Eu acho que direitos humanos é uma idéia muito bonita. Mas, basicamente, hoje isso é usado apenas pelos europeus e pelos árabes pra criticar Israel. Eles não sabem como é aqui. Pensam que são vítimas inocentes, mas estamos lidando com terroristas (…) Meu filho está servindo o exército agora nos territórios e as coisas que ele nos conta quando volta pra casa nos finais de semana, você não ia acreditar. Mesmo uma criança não é realmente uma criança lá. Até as crianças às vezes são terroristas. ”

A visão dominante entre as pessoas veganas entrevistas é de que enquanto animais são necessariamente inocentes, por isso devem ser protegidos, pessoas palestinas são necessariamente culpadas, mesmo crianças, por isso todo ataque a elas é justificável.

Um reflexo dessa mentalidade extremamente racista e desumanizante pode ser visto no número alarmante de crianças palestinas presas todos os anos pelo exército israelense. De acordo com Addameer, uma organização de defesa de prisioneiros políticos palestinos, esse número dobrou nos últimos três anos. Em dezembro de 2017 350 crianças palestinas estavam nas cadeias israelenses e desde o ano 2000 mais de 12 mil crianças palestinas foram presas pelo governo israelense. 75% dessas crianças disseram ter sofrido abusos, físicos e psicológicos, durante o tempo em que ficaram presas. A prisioneira mais jovem tinha apenas 12 anos e crianças ainda mais jovens são detidas e interrogadas, sem a presença dos pais. Algumas com apenas 6 ou 5 anos de idade. Essas crianças são acusadas de participar de protestos (como Haidi explicou, Israel não reconhece o direito de protesto ao povo palestino, logo todo protesto, marcha ou reunião pública é considerado ilegal) e jogar pedras, cuja pena máxima chega a 20 anos de prisão. Isso se você for palestina, obviamente. No regime de Apartheid imposto ao povo palestino, a população de colonos israelenses vivendo dentro dos territórios tem acesso às leis e tribunais civis, completamente diferentes das leis militares que regem a vida das palestinas que moram na mesma área geográfica. Nesse relatório feito pela UNICEF sobre os maus tratos sofridos por crianças palestinas prisioneiras do governo israelense podemos ler: “Em nenhum outro país crianças são sistematicamente julgadas por tribunais militares juvenis que, por definição, não atendem as condições necessárias para garantir o respeito de seus direitos.” A violação quotidiana da Convenção internacional sobre os direitos das crianças por Israel, país signatário, deveria causar revolta e indignação entre israelenses. Mas como as violações acontecem contra crianças palestinas, elas são vistas como “necessárias” e, consequentemente, justas. Afinal, como a entrevistada acima disse “uma criança não é realmente uma criança lá”, não se trata de “vítimas inocentes” e sim de “terroristas”.

Em uma entrevista feita pela Al Jazeera outra amiga israelense vegana explicou: “É ok ser racista em Israel. Está ok dizer: ‘Sim, judeus são melhores’. A legitimidade do racismo é parcialmente baseada no que é o sionismo. É um movimento nacionalista do povo judeu – é, por definição, preferir judeus sobre não-judeus.”

A jornalista Abby Martin quis saber o que pessoas israelenses comuns, que não estão no governo nem moram em uma das colônias ilegais, pensam sobre palestina(o)s. Um jovem disse que Israel deve “carpet-bomb them” (que significa algo como “cobri-los com um tapete de bombas”) porque “não podemos confiar nos árabes. Judeus têm o direito de odiar os árabes. Não vejo nenhuma razão pra nos impedir de odia-los. Eu não estou nem aí pra nenhum deles”. Uma moça muito jovem disse: “Precisamos matar os árabes” e caiu na risada junto com a amiga. O nível de racismo das respostas é assustador e a reportagem inteira pode ser vista aqui.

O processo de desumanização de certos grupos nos permite racionalizar e justificar o uso da violência contra eles. Esse é um fato bastante conhecido. Mas ver vegana(o)s fazerem o trabalho extremamente necessário de reconhecer animais não-humanos como pessoas marginalizadas que merecem direitos, enquanto continuam negando certos grupos de humanos os direitos mais elementares, como o direito à vida e o direito de viver em liberdade, é difícil de digerir. Isso prova que o veganismo sozinho não é “a maior evolução moral da humanidade”, como muitas veganas que fazem parte do movimento dominante gostam de repetir.

“Será que apoiar Israel quer dizer necessariamente ser contra a Palestina?” O governo não é o povo, mas ambos compartilham pontos de vista semelhantes sobre o tratamento que o povo palestino deve receber e sobre o valor de uma vida palestina. Durante os bombardeios israelenses à Gaza em 2014, que mataram 2200 palestinina(o)s, das quais mais de 500 crianças, um pesquisa mostrou que 95% dos israelenses judeus apoiavam os ataques. Vale a pena repetir o que Heidi falou acima: “Se uma ocupação como essa pode continuar por tanto tempo, isso significa necessariamente que a maioria do povo israelense não considera o povo palestino como seres humanos iguais, com os mesmos direitos à vida, à dignidade e à liberdade.” As vozes israelenses dissidentes são poucas e como me contaram, com tristeza, as amigas entrevistadas nesse texto elas estão se tornando cada vez mais raras.

Antes de aplaudir uma suposta vitória pros animais é essencial fazer uma análise crítica do contexto onde ela aconteceu pra não cair em armadilhas como o vegan-washing israelense e acabar apoiando, sem se dar conta, um governo genocida que usa a luta por direitos animais pra melhorar a própria imagem e encobrir a violência contra grupos de humanos. Tudo isso enquanto continua hipocritamente explorando e assassinando animais. Aplaudir as iniciativas veganas em Israel sem contextualiza-las, sem mencionar que muitas das pessoas naquele protesto estão participando diretamente da opressão da população palestina e sem se opor explicitamente aos crimes cometidos contra o povo palestino é um desserviço a todas as lutas, incluindo a causa animal.

O preço moral que pagamos quando separamos as lutas é reproduzir, reforçar e fazer com que outras opressões durem. “O veganismo não é um substituto pros direitos humanos”, escreveu Ayel Gross no artigo mencionado por Haidi. O que é igualmente verdade no sentido contrário.

*Meu imenso obrigada a leitora que me inspirou pra escrever esse post tão importante.

*Foto de abertura (soldados israelenses ameaçam pessoas palestinas durante o velório do ativista Bassel Al Araj, assassinado pelos soldados israelenses) da minha querida amiga Tati, que escreveu sobre a Palestina aqui.

Isso explica o silêncio por aqui. Estava fermentando a revolução. Faz uns meses que estou trabalhando em um projeto incrível (Cashewbert), criado por um rapaz muito bacana, Anderson, que acontece de ser brasileiro, ajudando a desenvolver queijos veganos que usam as técnicas e as bactérias da queijaria tradicional. As últimas semanas foram intensas, pois estávamos nos preparando pra abertura da primeira queijaria vegana de Berlim. Kojiterie abriu sexta passada e fica na Hohenstaufenstraße, 39 (Berlim). Por enquanto só funciona às sextas e sábados. Se dez anos atrás me dissessem que um dia existiriam queijarias veganas (já tem algumas mundo afora) e que eu faria queijos veganos em Berlim… eu provavelmente teria tido a mesma reação tive agora, uma mistura de encantamento com empolgação com esperança. O futuro é verde, meu povo (de planta e de mofo), e está ficando cada vez mais delicioso.

 

Estou passando por aqui hoje pra dar sinal de vida e fazer vocês salivarem com nossos queijos, mas também pra fazer alguns anúncios.

Os tours político-ativista-veganos na Palestina de 2018 acontecerão em março. Serão dois grupos, o primeiro do 1 ao 11/03 e o segundo do 16 ao 26/03. Como já tinha uma lista de espera pros próximos tours, quase todos os lugares foram ocupados. Só tem um lugar disponível no segundo grupo e se você quiser se juntar à nós peço que entre em contanto por email (papacapimveg@gmail.com). Não dou informações sobre os tours nos comentários, só por email. Essa vaga vai desaparecer rapidinho, então se você se interessou, se apresse em me escrever.

Em maio acontecerão os tours gastro-veganos em Paris e os dois grupos estão completos. Como o interesse foi grande, estou pensando em abrir um terceiro tour no segundo semestre de 2018 e quem quiser receber mais informações e entrar pra lista de espera deve me mandar um email. Ainda não sei onde estarei no segundo semestre de 2018, mas se voltar a morar em Berlim adoraria fazer tours gastro-vegano-políticos por aqui também. Eu não tinha planejado fazer esse tipo de trabalho, mas percebi que é um dos projetos que mais me trazem alegria e onde posso combinar várias das minhas paixões e talentos: ativismo, direitos humanos, direitos animais, gastronomia vegetal, viagens e transmissão de conhecimentos e experiências. Além de conhecer pessoas incríveis que acabaram se tornando grandes amigas. Tanto amigas minhas quanto amigas entre si, o que me emociona muito. Juntas estamos criando a comunidade ativista da qual quero fazer parte, que reconhece que o veganismo é parte de uma luta muito maior contra todo tipo de opressão e por justiça pra todos os seres, humanos e não-humanos. E juntas vamos fermentando a revolução, um queijo de castanha por aqui, um pão au levain por ali e muito chucrute no meio.

E falando em fomentar, digo, fermentar a revolução, acabo de confirmar minha próxima visita à Pindorama. Estarei em terras tupiniquins (e potiguaras, tupinambás, cayetés, guaranis etc) de junho à agosto e comecei a organizar minha agenda tropical. Já tem eventos programados (palestras e oficinas de culinária) em Natal, Recife e Brasília, mas ainda cabem mais algumas visitas. Se quiser que eu fomente/fermente a revolução na sua cidade me manda um email que talvez dê certo eu chegar aí com minhas bactérias e ideias. E quem não quer comer queijo vegano, se organizar e fazer parte desse futuro com compaixão e justiça pra todas?

As ameixas estavam se estragando no cesto das frutas. Anne comprou dois quilos (promoção de fim de feira) e elas já chegaram em casa maduras demais. Expliquei que nunca daríamos conta de comer tudo a tempo, mesmo assim comemos todas as que pudemos nos dois dias que seguiram. Tem essas regras de economia doméstica, como “comprar uma quantidade grande de uma fruta que já está madura demais e que não pode ser congelada não é economia, mesmo se for uma promoção, porque vai se estragar antes que você possa comer tudo”, que quem não cozinha com frequência geralmente ignora. Eu compro banana madura demais (ou frutas vermelhas) pra congelar e colocar nas vitaminas, mas ainda não me animei pra colocar ameixa fresca na minha vitamina. Isso foi na terça e hoje, sexta, um terço das ameixas que não tinham sido devoradas estavam apodrecendo e eu precisava agir.

Foi depois do café da manhã. Excepcionalmente teve Camembert e queijo azul. Comecei recentemente uma colaboração com um projeto aqui em Berlim de queijos veganos artesanais, que usa técnicas da queijaria tradicional. Estou aprendendo muito e ainda tenho o privilégio de testar os queijos e trazer alguns pra casa pra serem testados em Anne e em quem mais passar pela minha casa. Então hoje tomei um café da manhã de rainha, com minha amada papa de aveia (com chia e óleo de coco), pão de fermentação natural, café dos Zapatistas, mais Camembert e queijo azul. Depois teve um segundo café da manhã lá pelas onze, com mais camembert, mais café e um omelete (grãomelete). As britânicas chamam essa refeição de “evelenses”, que é uma pausa às onze da manhã pra tomar um café ou chá acompanhado de uma coisinha pra mastigar. Tem povo mais fofo que os brits? Digo, quando não estão colonizando e oprimindo o resto do mundo, obviamente.

Então lá estava eu e a esposa que compra fruta madura demais em grandes quantidades degustando o café das onze (minha tradução de “elevenses”), mais bem servida que a rainha Beth e tive vontade de dar minha gargalhada de bruxa. “HAHAHAHAHAHA! Disseram que eu nunca mais ia comer omelete e Camembert!” Eu e meus inimigos imaginários… Digo inimigos no masculino porque são homens. Nenhuma mulher é minha inimiga, são todas minhas manas. (Com excessão talvez de Thatcher, uma brit que não era nada fofa, mas ela já morreu, então é irrelevante.) Mas voltemos à minha cozinha hoje de manhã, onde se encontravam eu, a esposa, o café das onze, o Camembert de castanha, o riso de bruxa e a visão das ameixas apodrecendo. Levantei da mesa decidida a dar um destino às pobres frutas.

Primeiro pensei em fazer uma compota, pra comer com minha papa de aveia matinal. Tudo a ver com o outono! Cortei as ameixas que ainda podiam ser salvas ao meio, retirei o caroço, cobri com suco de maçã integral (outro alimento que precisava de um destino, pois eu geralmente não bebo sucos de frutas e a garrafa tinha sido trazida por um amigo) e coloquei no fogo. Eu cozinho e faço trabalhos domésticos escutando podcasts e atualmente o meu preferido se chama “The vegan option”. Escutei dois episódios sobre pessoas que nasceram e cresceram veganas e foi extremamente instrutivo. Uma das pessoas entrevistadas, filho de pessoas veganas e atualmente criando duas crianças veganas, explicou que nunca se sentiu mal por não comer o que as outras crianças comiam, pelo contrário. Ele disse que ficava com pena das outras crianças, que não sabiam que aquilo que elas comiam eram animais e se sentia “empoderado por poder fazer escolhas conscientes”. Um dia ele contou pra um amiguinho que salsicha era na verdade porco e a mãe do amiguinho foi reclamar com a mãe dele dizendo: “Não quero que seu filho conte essas coisas pro meu filho.” A mãe dele respondeu: “Meu filho falou a verdade e eu não vou ensinar meu filho a mentir.” E enquanto eu escutava o podcast (inglês) e mexia a compota de ameixas me veio a ideia de transformar aquilo num chutney. “Chutney” significa uma variedade de molhos na Índia, mas o tipo de chutney que eu queria fazer é uma especialidade anglo-indiana, um tipo de geleia de fruta agridoce. A receita é mais ou menos essa: Império Britânico + apropriação cultural + molho indiano + muito açúcar e vinagre = chutney. Mas eu tento descolonizar o meu chutney fazendo uma versão sem açúcar e sem vinagre e com muitas especiarias.

Então comecei a cortar cebola e escolher especiarias quando me ocorreu que eu nunca tinha postado uma receita de chutney no blog e que essa era a oportunidade perfeita. Pra publicar a receita eu precisava de medidas precisas, algo que não existe quando cozinho em casa. Fiquei olhando as ameixas borbulhando na panela e tentando visualizar quantas xícaras seria aquilo quando vi o montinho de caroços de ameixa na pia e resolvi conta-los. 26 caroços. 26 ameixas. A quantidade de ameixas da receita teria que ser em unidades.

O aroma do chutney perfumou o apartamento e pra mim poucas coisas são mais prazeirosas do que passar horas criando delícias e escutando podcasts na minha mini-cozinha, onde sentada à mesa eu consigo mexer as panelas no fogão, abrir a mini-geladeira e alcançar as prateleiras, tudo sem me levantar. Nem esperei o chutney esfriar e provei com um pedaço de Camembert, porque chutney com queijo é uma dupla que adoro. Ficou delicioso, uma combinação de sabores perfeita pro frio e chuva do outono em Berlim.

Depois do almoço, que foi um prato suculento de feijão branco, brócolis, berinjela defumada e tahina com muita salsinha, sentei pra escrever a receita enquanto ela ainda estava fresquinha na minha memória.

Eram quase cinco da tarde quando Anne me propôs uma xícara de chá. Earl Grey ainda por cima! Meu trabalho de descolonização ainda deixa muito a desejar.

Logo depois o sol resolveu dar as caras, no fim de um dia inteiro de chuva. Quando isso acontece por aqui nessa época do ano você se sente na obrigação de largar tudo que estiver fazendo e correr pra rua, porque talvez você só veja novamente um pedaço de céu azul dali a seis meses. Coloquei algumas camadas de roupa suplementares e fui passear pelo meu quarteirão. Me mudei pra esse apartamento algumas semanas atrás e ainda estou descobrindo a vizinhança. No passeio de hoje visitei uma mercearia sem embalagens (você leva seus potes e sacos de casa, tudo é vendido a granel) e me empolguei pra diminuir consideravelmente a quantidade de lixo que produzo. Mas o tesouro mesmo foi uma livraria anarquista, a poucos metros da minha casa. Meus olhos brilharam e me perguntei como não tinha visto o lugar antes. Eu simpatizo muito com o anarco-sindicalismo, mas não tenho muitas amigas com quem discutir a revolução aqui em Berlim. Entrei e precisei de vários segundos pra conseguir enxergar alguma coisa no meio da nuvem de fumaça. “A revolução não será televisionada, mas será fumada”, pensei com meus botões. Perguntei se tinha livros em Inglês , com um leve receio de ser chamada de imperialista, e tinha! Em várias línguas, inclusive. Trouxe Frantz Fanon pra casa, porque minhas intenções de descolonizar a mente são sérias.

Cheguei em casa e o chutney me chamou lá da cozinha. E lá se foi mais um pedaço de Camembert (a emoção de ter, depois de dez anos de veganismo, um camembert vegano na geladeira faz isso com a pessoa) com uma colherada do meu chutney super saboroso numa fatia de pão, folheando Fanon. E no meu celular as amigas de uma recém independente Catalunha me mandavam notícias. Catalunya Lliure!

 

Chutney de ameixa e especiarias

Eu gostaria de dar a quantidade de ameixas em gramas, mas tive que contar as unidades (explicações no texto acima). Se você tiver uma a mais ou uma a menos não vai fazer diferença. Uma pitada generosa pra mim tem 4 dedos (pegue a especiaria em questão com quatro dedos, não dois). Eu acho a doçura das ameixas e do suco de maçã suficiente, mas tradicionalmente chutney é feito com açúcar. Sinta-se livre pra colocar açúcar (de qualquer tipo) até atingir a doçura ideal pra você. Mas lembre-se que isso é um chutney, não uma geleia, então não exagere. Update: Acabo de me dar conta que as ameixas que encontro aqui são de uma variedade bem pequena, talvez tenham apenas 1/3 do tamanho das ameixas encontradas no Brasil. Misericórdia! Quase dou a receita de um desastre pra vocês.

 

8-9 ameixas frescas maduras, partidas ao meio e sem o caroço (usei 26 de uma variedade bem pequena – explicações acima)

1 cebola grande, picada

1cc cheia de alho picado (3-4 dentes)

2cs de azeite

Suco de maçã suficiente pra cobrir as ameixas (natural, sem açúcar)

1cc de canela em pó

6-8 favos de cardamomo (ou 1/3cc de cardamomo em pó)

Uma pitada generosa de cada: pimenta do reino, cúrcuma, semente de coentro, cominho

Sal a gosto (coloco uma pitada generosa)

1-2cs de açúcar, opcional (melhor se for mascavo ou de coco)

Em uma panela média/grande, com o fundo grosso (importante! senão seu chutney vai queimar), aqueça o azeite e doure a cebola. Junte o alho e deixe cozinhar por mais alguns segundos. Junte as ameixas (cortadas e sem o caroço) e cubra tudo com suco de maçã. Junte só o suficiente pra cobrir as ameixas, pois elas vão soltar bastante líquido durante o cozimento. Quando começar a ferver baixe o fogo e deixe cozinhar, sem tampa, até metade do líquido ter evaporado. Junte as especiarias (abra os favos de cardamomo e use só as sementes), o sal (e o açúcar, se estiver usando) e continue cozinhando até o chutney engrossar, mexendo de vez em quando com uma colher de pau. Pra saber se está pronto, raspe o fundo da panela com a colher de pau. Se o traço feito pela colher de pau não voltar a ser coberto pelo chutney imediatamente, está pronto. Se minha explicação te parecer esotérica demais, veja se seu chutney atingiu uma consistência espessa, quase uma geleia e pronto. Prove e corrija o sal ou açúcar, se necessário. Se você nunca provou chutney saiba que o objetivo é atingir uma mistura equilibrada de doce, salgado e ligeiramente ácido (a acidez vem naturalmente das ameixas e do suco de maçã).

Coloque em um pote de vidro e espere esfriar completamente antes de transferir pra geladeira. Se conserva pelo menos uma semana na geladeira. Rende aproximadamente 2 1/2 xícaras. Deguste seu chutney com queijos, burgers, croquetes ou simplesmente com pão. Você provavelmente não vai conseguir comer tudo em uma semana, então faça como eu e dê uma parte de presente pras amigas.