Bolo de chocolate intenso

Eu ia falar sobre os eventos das últimas semanas, que me mantiveram afastadas desse blog… Mas aí pensei que seria melhor oferecer um bolo de chocolate. Eu sou aquela amiga que, quando passa um tempo ausente, prepara um bolo pra se desculpar. E como faz umas semanas que quero compartilhar essa receita com vocês, ó, toma um bolinho aqui:)

A origem desse bolo precisa ser explicada. Nigella Lawson, uma autora de livros de culinária inglesa, é famosa por usar quilos de manteiga e litros de creme de leite nas suas receitas, além de pedaços de animais em quase tudo que faz. Está a muitas léguas de ser uma pessoa antiespecista. Mas ela tem algumas (pouquíssimas) receitas vegetais e o “dark and sumptuous chocolate cake” é uma delas. Um dia vou contar por que adoro Nigella, apesar da sua obsessão em cozinhar animais, mas é história pra outro dia.

Usei a receita dela como base, mas alterei algumas coisas e o resultado superou minhas expectativas. Não que as minhas expectativas em matéria de bolo sejam altas (bolo não é a minha praia), mas todas as pessoas que comeram o meu bolo (crianças e pessoas adultas, quase nenhuma vegana) aprovaram. LEvei esse bolo pra uma das oficinas de educação popular pra crianças, que nosso coletivo organiza aos sábados, e a briga pelas últimas migalhas foi grande. 

Bolo de chocolate intenso

Esse é um bolo de chocolate simplérrimo de fazer e que fica pronto em minutos, mas que impressiona as papilas. Usei uma receita de Nigella Lawson como base e fiz algumas modificações pra ficar do jeito que eu queria.

1 ½ xíc. de farinha de trigo

3/4 xíc. de cacau em pó (100%)

1 col. de chá de fermento

Pitada de sal

1 ½ xícara de açúcar (branco, demerara ou de coco)

1 ½ xícara de café quente 

6 col. de sopa de óleo (de coco ou outro)

1 ½ xíc. de chocolate picado (entre 50% e 70% de cacau, dependendo do seu gosto)

Pre-aqueça o forno a 180 graus. Unte (com óleo) e enfarinhe uma forma de bolo média (ou use cacau em pó no lugar da farinha) e reserve.

Misture os 4 primeiros ingredientes. Eu gosto de peneirar a farinha e o cacau, porque sempre rola uns grumos indesejados, mas é uma etapa opcional. 

Em outro recipiente misture o café quente com o açúcar e o óleo. Mexa bem pra dissolver o açúcar (e o óleo, se estiver usando óleo de coco). Despeje essa mistura sobre os ingredientes secos (farinha + cacau + fermento + sal) e, com um batedor de arame, vá mexendo até tudo ficar homogêneo. Acrescente metade do chocolate picado, dê uma última misturada (como a massa vai estar morna, é normal o chocolate começar a derreter e se misturar com a massa) e transfira a massa pra forma untada/enfarinhada.

Asse até passar o teste do palito (insira um palito ou uma faca no centro do bolo: ela deve sair limpa). Aqui em casa leva uns 20 minutos, mas tudo vai depender do tamanho da sua forma (quanto maior, mais baixo será o bolo, logo vai assar um pouco mais rápido) e, principalmente, do seu forno. 

Quando o bolo estiver assado, retire do forno e espalhe a outra metade de chocolate picado por cima. O calor do bolo vai derreter o chocolate. Use as costas de uma colher pra espalhar o chocolate derretido de maneira uniforme e espere esfriar antes de degustar. Depois de frio o chocolate vai ficar quase firme novamente e formar uma casquinha sobre o bolo. Alguns pedaços do chocolate dentro do bolo, que não se misturaram com a massa, endurecem e aqui e acolá você acha um “chip” na sua fatia de bolo. É uma delícia o contraste de textura do chocolate com o bolo fofinho. 

Tofu com berinjela e pimentão

Minha mãe era uma mestra em fazer render a mistura. Ela juntava vegetais à pequena porção de animal disponível, fazendo o conteúdo da panela triplicar de volume, pra poder alimentar todas as bocas ao redor dela. 

Tenho opinões fortes (impopulares?) sobre trazer a noção de mistura pra alimentação vegetal e escrevi sobre elas nesse post. Mas, assim como minha mãe e muita gente que cresceu empobrecida, carrego comigo a prática de “fazer render a mistura”.

A dica é simples e útil pra quem quer utilizar ingredientes especiais sem gastar o salário do mês numa refeição. (AVISO: Não precisa de ingrediente raro e gringo pra cozinhar pratos vegetais deliciosos. Mas é divertido expandir nossos horizontes gastronômicos de vez em quando, se o bolso permitir.)

Eu misturo o ingrediente mais caro da minha lista de compras (tofu defumado, cogumelo, tempeh) com outro(s) baratinho(s). Assim consigo fazer pratos incrementados, variar o cardápio, ao mesmo tempo em que faço a receita render bem mais. 

A história da receita de hoje é a seguinte. Domingo é dia de ir na feira pegar as frutas e verduras de descarte e distribuir entre as famílias vulneráveis da nossa comunidade. Essa é uma das atividades que faço com o coletivo anarquista do qual faço parte aqui na periferia de Paris. No final do dia, compartilhamos entre nós o que sobrou e domingo passado voltei pra casa com, entre outras, uma berinjela e dois pimentões amarelos. Como eles já estavam com algumas partes estragadas, era preciso cozinhá-los imediatamente (corto as partes estragadas e consumo o resto do vegetal). Fiz uma espécie de ratatouille, mas sem abobrinha, usando a última cebola da cozinha, mais um resto de molho de tomate caseiro do dia anterior. 

No dia seguinte desejei tofu mexido, mas ao invés de fazer minha receita tradicional, misturei o danado à mistura de berinjela que eu tinha preparado na véspera. Ficou tão bom que tirei uma foto pra vir compartilhar com vocês aqui.

Tofu não é caro onde moro e faço questão de dizer que só compro tofu francês, feito com soja orgânica cultivada aqui, mesmo. Mas como boa parte do que comemos em casa vem de descarte, ou seja, me custa zero dinheiro, ele acaba sendo um dos ítens mais caros que entram na minha geladeira, pois compro tofu em uma loja de produtos orgânicos em Paris. Se também for o seu caso, lembre do conhecimento prático dos pobres e misture esse alimento com vegetais que são baratos no seu território. Além de fazer sua refeição render muito mais, você vai criar pratos mais completos, variados e talvez, como aconteceu comigo aqui, tão gostosos que você vai querer anotar a receita pra lembrar de fazer de novo no futuro.

Tofu com berinjela e pimentão

Bom pra rechear pastel, panqueca, torta, empadão, sanduíche e o que mais quiser. Quanto às medidas, siga o seu coração.

Berinjela 

Pimentão (melhor se for vermelho ou amarelo, que são mais suaves. Mas como eles custam um rim, pode usar o verde ou deixar esse ingrediente de fora ou usar mais tomate)

Cebola

Tomate

Alho

Tofu 

Óleo ou azeite

Molho de soja

Pimenta preta

Ervas (opcional)

Corte a berinjela em cubos pequenos e frite ligeiramente em um pouco de óleo/azeite. Junte o pimentão e a cebola picados e refogue até a cebola dourar um pouco. Junte tomate picado, tempere com sal, cubra (não precisa acrescentar água!) e deixe cozinhar em fogo baixo até a berinjela ficar bem macia e o tomate ter se desintegrado e se transformado em molho. 

Em outra frigideira, aqueça um pouco de óleo e refogue o tofu esmigalhado (use as mãos pra esmigalhar o tofu diretamente em cima da frigideira). Cozinhe mexendo de vez em quando até secar um pouco e ficar com alguns pontos dourados. Tempere com molho de soja a gosto, mexa bem e junte a mistura de berinjela e tomate. O ideal é que a mistura se torne um molho encorpado, mais ou menos metade tofu, metade legumes. Prove, corrija o sal e junte sua erva preferida, fresca ou seca (orégano, manjerona e manjericão casam bem aqui). 

Não existe comida “vegana”

Essa reflexão surgiu do lado de cá da tela há um certo tempo. E leitoras atentivas desse blog já devem ter percebido que mencionei isso algumas vezes nos posts dos últimos meses. Acho que foi no ano passado que decidi parar de usar o termo “comida vegana” pra descrever comida de origem vegetal. Mas foi o episódio do chocolate oferecido por uma amiga francesa que fez com que eu compreendesse que chegou a hora de escrever sobre o assunto.

Aconteceu meses atrás. A amiga, que não é vegana, me deu “um chocolate vegano” de presente. Era um chocolate com coco (leite e açúcar de coco, além de coco seco), mas tinha um selo “Vegano” na embalagem. “Provei com a minha irmã, mas não gostamos de chocolate vegano”, ela disse. Respondi: “Você não gostou de chocolate com coco. Chocolate ‘vegano’ é qualquer chocolate sem leite de mamífera” e ela insistiu: “É vegano, sim! Tá escrito na embalagem.” O selo fez com que minha amiga visse aquilo como “chocolate vegano”, não como o chocolate com coco que ele era, e quando percebeu que não gostava, ela não declarou: “Não gosto de chocolate com coco”, mas sim: “Não gosto de chocolate vegano”. 

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Dá certo de qualquer jeito

Sabe como eu sempre digo que comida de panela é de Humanas e comida de forno (bolo, torta, biscoito) é de Exatas? Ou seja, que pra fazer comida de panela não precisa medir ingredientes com precisão, enquanto comida de forno exige mais rigor, caso contrário não dá certo (quem já fez bolo solado sabe do que estou falando). Esses biscoitos vieram jogar na minha cara que isso nem sempre é verdade. 

Era uma bela tarde de primavera no Hemisfério Norte e os passarinhos cantavam no meu jardim. Bateu um desejo de biscoito, pra acompanhar o chá da tarde. Eu tinha poucos ingredientes na dispensa e resolvi, ousadia suprema, não seguir receita nenhuma e misturar o que fui encontrando pelo caminho, deixando a textura da mistura guiar as proporções. Poucos minutos depois eu tinha um punhado de biscoitos quentinhos e deliciosos. Repeti a experiência várias vezes nos últimos meses, sempre decidida a não medir nada e mudando um pouco os ingredientes a cada fornada, e todas as vezes fui recompensada com biscoitos saborosos. 

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Biodiversidade e produtos vegetais ultraprocessados


Essa semana a ocupação que também serve de base pro nosso coletivo anarco recebeu caixas e mais caixas de hambúrguer vegetal que iriam pro descarte. Falei sobre comida de descarte, e como isso alimenta não só as camaradas do coletivo, mas também as pessoas ao nosso redor, nesse post. Além da comida que pegamos regularmente (frutas e verduras da feira, todo tipo de alimento transformado que pegamos do descarte de supermercados) duas vezes por semana, de vez em quando uma montanha de alguma coisa que acabaria no lixo chega até nós. Umas semanas atrás foram 2 toneladas (sim, literalmente) de cogumelo orgânico congelado. Semana passada foram centenas de quilos de hambúrgueres vegetais, também congelados. Eram hambúrgueres feitos de proteína de soja com beterraba, temperos e alguns aditivos. Provei pela primeira vez ontem e o sabor é tão ruim que agora não sei o que fazer com o enorme saco de hambúrguer no congelador. 


Enquanto eu tentava tragar o intragável (pra que o jantar não acabasse no lixo), me vi pensando, mais uma vez, na obsessão geral com hambúrgueres vegetais e no mantra do veganismo liberal (“Quanto mais produtos veganos industrializados, melhor pros animais.”). Já escrevi longamente sobre como essa visão liberal do veganismo vai contra os objetivos do movimento antiespecista nesse post e nesse post . Mas hoje eu queria chamar a sua atenção pra algo que é frequentemente ignorado nessa discussão: a questão da biodiversidade.

Moqueca de caju, arroz da terra, feijão verde, farofa de couve e bolinho de macaxeira
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Comida como ferramenta de ‘conversão’

Durante os primeiros anos de veganismo, acreditei que oferecer pratos veganos deliciosos pras pessoas ao meu redor seria a porta de entrada delas pra causa animal. Talvez eu tenha sentido essa responsabilidade ainda mais forte porque cozinho profissionalmente. Então não perdia nenhuma oportunidade (aniversários, reuniões de família) de passar horas (às vezes dias) preparando menus, comprando ingredientes e cozinhando pra impressionar as não-veganas. Nos jantares onde cada convidada leva um prato, eu levava 4 e era sempre a mais cansada, a que trabalhava mais, a que gastava mais com ingredientes… As pessoas comiam minha comida, sim, e adoravam. Porém minhas preparações vegetais dividiam espaço nos seus pratos com animais e seus derivados. Nunca ninguém deixou de comer o animal assado, ou a sobremesa entupida de leite condensado, porque tinha pratos veganos deliciosos na mesa.

Quiche de cogumelo e espinafre, usando esse método
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Reabilitar a fava

Gosto de me dar missões difíceis. Como, por exemplo, reabilitar a fava. Poucos alimentos do reino vegetal são tão mal-amados e mal-afamados como a fava. Eu já defendi publicamente o quiabo e o maxixe. Um dia volto pra falar de jiló, que também aprecio. Mas hoje, vamos falar sobre ela, a rainha dos feijões.

Eu poderia falar das propriedades nutricionais da fava, mas não é o propósito do meu trabalho. Minha ambição é fazer você se apaixonar pela comida que vem da terra porque ela é deliciosa e porque ela conta a historia do nosso povo e nos conecta ao nosso território. E é justamente no meu território, o Nordeste, que o apreço pela fava ainda resiste. Mas até lá as coisas mudaram e esse alimento tão nutritivo e saboroso se tornou comida de antigos e de pobres. Triste isso de ver a que ponto a comida que vem da terra é constantemente categorizada como “comida de pobre” (coisa “de rico” é consumir animais) e em seguida desprezada. O próximo passo é parar de cultivar esse alimento, já que ninguém mais quer comê-lo e aos poucos vamos perdendo biodiversidade no campo e variedade na mesa. E deixando pra trás a nossa cultura alimentar. Não somos mais o povo que come fava, somos o povo que come frango congelado e, pra quem tem mais dinheiro na conta, sushi de salmão geneticamente modificado e alimentado com soja transgênica, vinda da monocultura, da grilagem de terras e manchada com sangue indígena.  

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Sabemos construir também. E plantar.

No último dia em que eu estive na ocupação dos Jardins Operários de Aubervillers teve uma reunião do coletivo de defesa dos jardins.  Eu saí da reunião frustrada pela maneira como a pauta principal da reunião tinha sido conduzida e, principalmente, pelas dificuldades constantes que enfrentamos quando construímos uma luta com um grupo de pessoas vindas de horizontes tão diferentes. Eu viajaria pro Brasil dali a dois dias e ao me despedir das camaradas pedia a todas que seguissem resistindo, pois eu queria ver a ocupação de pé quando voltasse. Foi a última vez que eu vi aquela terra coberta de árvores, legumes e frutas.

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Creme de tapioca e coco com abacaxi caramelizado

É verdade que na cozinha as coisas mais simples podem ser as mais difíceis de fazer. Tapioca, por exemplo, é uma delas. Depois que você aprende, se torna a coisa mais natural do mundo, mas até chegar nesse ponto você vai precisar suar um pouco. Repare que se a receita for extremamente simples (no caso da tapioca, com apenas um ingrediente), cada detalhe faz diferença. Nessa categoria de receitas, é mais sobre técnica. E prática é tudo que você precisa pra dominar a técnica. Infelizmente essa parte (a prática) não pode ser terceirizada.

Já a receita de hoje faz parte de uma categoria diferente. Sim, leva tapioca. Não a comida de café da manhã à base de goma fresca (ou polvilho hidratado) e feita na frigideira, mas sim os pequenos grãos irregulares de polvilho que também chamamos de “tapioca” (veja a foto mais abaixo). E também tem uma lista de ingredientes enxuta, com apenas três elementos (no máximo 4). Mas a parte complicada dessa receita foi encontrar as proporções exatas e o modo de preparo pra atingir a textura que eu procurava. E a boa notícia é que quem fez a parte difícil desse trabalho foi essa que te escreve, logo você não terá que fazer esforço nenhum.

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Maxixada

Há muitos anos declamei aqui o meu amor por maxixe na forma de pirão. Maxixe é um legume um pouco esquecido e que aparece mais em feiras do que em supermercados (mais um motivo pra não frequentar supermercados). O pirão ainda é um dos meus pratos preferidos, mas descobri recentemente (graças à minha irmã Lu) que maxixe com leite de coco também é um desbunde!

Repare que tudo com leite de coco fica melhor. Repare também que a receita do que a gente começou a chamar de “maxixada” (tradução: maxixe no coco) lá em casa é mais uma versão da fórmula “legumes + leite de coco + coentro”. Que você use banana da terra ou caju (e chame de “moqueca”), quiabo ou maxixe, os ingredientes da base e o preparo são os mesmos. Mas apesar de compartilhar os elementos, o resultado final é sempre distinto, já que o ingrediente principal muda. E digo mais. Se estamos repetindo essa fórmula, mudando somente o ingrediente principal, é por uma razão: é sempre uma delícia!

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Os últimos dois meses

Voltei. Leva sempre alguns dias pra que eu possa chegar completamente. O que me lembrou agora daquela cena do filme “O homem que enganou o diabo”, quando o diabo quer aparecer pro herói do filme e ameaça dizendo: “Eu vou cair”, aí o herói responde: “Então caia!” e o diabo começa a cair, do teto, aos pedaços… primeiro um braço, depois uma perna. Nisso o herói perde paciência e diz: “Caia logo todo!” Essa sou eu, chegando aos pedaços e perdendo paciência, querendo chegar logo toda, inteira, de uma vez. Mas não dá pra apressar essas coisas. Tem a mudança de fuso horário, sim, mas é algo muito mais complexo. No momento o corpo parece estar aqui, mas a cabeça está tardando a chegar.

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Ela pode ficar ainda melhor

Estou escrevendo essas linhas diretamente do aeroporto de Guarulhos, onde espero a conexão que me levará de volta pra casa, em Paris. A estada natalense acabou e antes de fazer um post mais detalhado sobre os dois meses que passei em terras potiguares, aqui vai a continuação do último post. Sabe aquela tapioca com coco deliciosa que ensinei? Ela pode ficar ainda melhor. Seguem as explicações.

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Tapioca com coco

Quantas tapiocas posso comer antes de voltar pra França? Volto pra casa daqui a alguns dias e quando o momento de ir embora se aproxima minha obsessão com comida tradicional, aquela que cresce por aqui e que faz parte da minha cultura alimentar, só aumenta. Tenho que comer todos os mamões e mangas que passar pela minha frente. Cuscuz com leite de coco toda noite. Pãozinho de macaxeira no lanche. E tapioca, muita tapioca!

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Escritos pra lembrar que estamos no mês da visibilidade lésbica

Agosto é o mês da visibilidade lésbica no Brasil e todo ano eu escrevia um post sobre o tema no Instagram. Mas o Instagram desativou a minha conta por lá (entenda o ocorrido aqui), então o post desse ano será aqui. E olha que feliz: escrever no blog significa que quem decide o número de caracteres sou eu e poderei publicar um texto do tamanho que o coração mandar. Como eu já escrevi bastante sobre vivência lésbica, lesbofobia e a alegria de ser lésbica por lá, e que esse material foi deletado junto com a minha conta, resolvi trazer uma parte pra cá. Seria uma pena perder as conversas que tivemos por lá e que tocou e fez refletir muita gente. Então você vai encontrar aqui reflexões e relatos pessoais que postei nos stories, textos curtos que estavam no feed mais alguns parágrafos inéditos.

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Macaco

A estrada que vai pro povoado onde o meu pai mora, no Sertão potiguar, passa por algumas das cidades com os melhores nomes que conheço. Tem “Cachoeira do Sapo” e, logo depois, “Caiçara do Rio do Vento”, que é o nome de cidade mais poético que já ouvi (embora um rio do vento é um rio que secou e isso, no Sertão, é drama, não poesia). Quando eu era criança misturava os nomes dessas duas cidades e durante anos pensei que tinha uma “Cachoeira do Rio do Vento”. Lembro de imaginar como devia ser lindo uma cachoeira onde, ao invés de água, caía vento. Aqui no RN tem também outro nome de cidade ótimo: “Santo Antônio do Salto da Onça”. Diz meu pai que o salto que essa onça deu foi tão incrível que passou a ser o nome da cidade, embora oficialmente o lugar se chame apenas “Santo Antônio”. 

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Querida pessoa vegetariana que gostaria de se tornar vegana um dia

Você, amiga vegetariana, que diz concordar com os princípios do veganismo e que tem condições materiais de escolher o que come, mas ainda “come algo com queijo quando não encontra opções veganas”. Seja na rua, no restaurante, nas festas de família, nas viagens, na casa das amigas… Muitas vezes até mesmo na própria casa. Chega mais que eu gostaria de ter uma conversa com você. 

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Pela canjica e pela nossa cultura alimentar

Canjica é um daqueles pratos que causam confusão. O que eu, e minhas conterrâneas potiguares, chamamos de canjica é conhecido como “curau” em outras regiões. Já o que a galera dessas outras regiões chama de “canjica” eu chamo de “mungunzá”. Vivendo em um país do tamanho de um continente, essas variações lexicais são mais que normais. Eu chamo canjica, você chama curau, ela chama de mingau de milho e tá tudo bem.

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Guisado cubano

Minha irmã caçula, Lu, já apareceu nesse blog várias vezes. Na verdade, quem aparece são as receitas dela. O bolo de laranja dela mudou a vida de muita gente que acreditava que tinha alguma incapacidade genética pra fazer bolos. E convenceu outro tanto de que é possível fazer bolo fofinho sem ovo. Tem também o hummus cubano, que ela me ensinou ano passado e que eu compartilho desde então com todas as pessoas que cruzam o meu caminho. Sucesso absoluto de público e de crítica.

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Almoços

É uma história que aconteceu há muitos anos, mas nunca esqueci. Eu estava no Sertão, visitando uma tia. Eu tinha me tornado vegana há pouco tempo e comer na casa de familiares ainda causava uma certa tensão. Não do meu lado, mas do lado da família, que não sabia mais o que cozinhar pra mim. Eu repetia que bastava fazer o de sempre: feijão, arroz, macaxeira, tapioca, cuscuz, batata doce… Sempre repito que o Nordeste é o melhor lugar do mundo pra ser vegana, pois a base da nossa cultura alimentar é vegetal. Mas lá estava eu, na cozinha da tia, na hora do almoço, depois dela ter me dito, mais uma vez, que não sabia o que cozinhar pra mim. Ela tinha preparado feijão verde, arroz, batata doce e macaxeira cozidas, salada crua e maxixe. Também tinha preparado uma galinha. Quando terminei de encher o meu prato, que estava abarrotado de comida e lindamente colorido, minha tia olhou pra ele com cara de tristeza, suspirou e disse: “Achou alguma coisa pra colocar no prato, minha filha?” 

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