A primeira parte foi sobre comida, a segunda será sobre todo o resto: passeios, parques, museus, LGBTs e um pequeno parênteses consumista.

Alugamos uma casa exatamente na interseção dos bairros Noe Valley, Castro e Mission e foi muito feliz, pois eles acabaram sendo os meus preferidos na cidade. Nessa área você praticamente só vê casas, as ruas são tranquilas e as pessoas parecem estarem todas de férias, tamanho o relaxamento delas.

Se estiver em dúvida sobre onde ficar hospedada, Mission é o mais central e animado. Noe Valley, por ser quase exclusivamente residencial, é mais calmo. Já o Castro é bem animado na rua principal, porém mais tranquilo nas outras partes. Na minha primeira noite fiquei em um hotel no Financial District, a parte mais moderna da cidade. Tem um mar de gente apressada nas ruas (a concentração de escritórios por lá é grande), é bem turística e cheia de arranha-céus e Starbucks. Como essa não é a minha vibe, não gostei nem um pouco da experiência.

 

Pra passear, um dos lugares que mais gostei foi o Dolores Park. É um parque relativamente pequeno, em Mission, e fica apinhado de gente nos fins de semana de sol. Na parte superior do parque você consegue ver a linha de prédios do Financial District, então coloque sua toalha de piquenique lá em cima pra aproveitar melhor a vista. A primeira vez que estive lá era domingo e fiquei impressionada com a quantidade de homens de sunga num dos cantos do parque. Dias depois, lendo um guia alternativo da cidade, descobri que esse cantinho do Dolores Park é conhecido como “gay beach”(ou “fairy prairie”, já que tem mais grama do que areia e o único mar que você vai ver é o mar de gente). Se homem é a sua praia, vá lá lavar a vista que os rapazes são bem bonitos.

Mas nem só de gay reluzindo de protetor solar vive o Dolores. O parque reune os mais variados tipos de pessoas (e cachorros) e cada canto tem um apelido. Tem a área das famílias, a das lésbicas (bem menor que a gay beach, infelizmente), a “hipster hill” (o nome explica tudo), a parte das pessoas que gostam de jogar objetos voadores (bola, peteca, boomerang) umas nas outras, a do pessoal que vem fazer exercícios, um cantinho onde está sempre rolando uma rave… Fiquei fascinada com o lugar. Nunca vi uma mistura tão grande em um lugar tão pequeno, todo mundo em paz, curtindo o dia, piquenicando, apertando um e compartilhando coisas. As mais diversas coisas. Se você é sensível ao aroma de maconha, evite esse parque. Mas como SF quase toda tem cheiro de maconha (mais explicações abaixo), nesse caso é melhor você evitar a cidade como um todo. Pras interessadas, um amigo nosso passou uma dica. Se você quiser comprar maconha em SF, Dolores Park é o lugar. Basta chegar no parque, ficar em pé virando a cabeça de um lado pro outro que em poucos segundos o vendedor chega oferecendo a mercadoria. Ele descobriu isso por acaso, na primeira vez que foi ao parque, quando se levantou pra ver se a amiga com quem ele tinha marcado encontro estava por ali e o vendedor interpretou aquele gesto como “procurando maconha” ao invés de “procurando amiga”. Fica a dica.

Falando em maconha, uma das coisas que mais me impressionou foi o cheiro da erva por todos os lados. A Califórnia foi o primeiro estado nos EUA a legalizar o uso medicinal da maconha, em 1996.  Ou seja, sua médica pode prescrever maconha pra você se julgar que ela vai aliviar os sintomas de alguma condição física ou mental que você tenha. Uma lei foi aprovada recentemente legalizando também o uso recreativo da maconha, mas se entendi direito ela só entrará em vigor em 2018. Mas isso não impede o pessoal de SF de fumar tudo até a última ponta pelas ruas, parques… Cheguei à conclusão que essa é provavelmente a razão  do pessoal ser tão relaxado por lá.

E já que o assunto é erva, sabiam que o nome do povoado que deu origem à cidade de SF era Yerba Buena? Achei que o nome original não deveria ter mudado e faria ainda mais sentido hoje. Yerba Buena também é o nome de um dos dois museus que visitei durante a viagem. Eu queria ter ido ao famoso MOMA, mas custava um braço e quando arte é tão absurdamente inacessível ao público mais modesto, fico chateada ao ponto de perder a vontade de ir. Descobri que tem um dia onde os museus são gratuitos, geralmente na primeira terça do mês e se coincidir com a sua visita à cidade, aproveite. Mas dê uma olhada no site do museu que você quer visitar pra confirmar, pois alguns são gratuitos em outros dias. O MOMA tem seu próprio sistema de dias gratuitos, mas é possível checar qual será o próximo no site do museu. Mas voltemos ao Yerba Buena. Fui na primeira terça do mês e entrei de graça. Adorei o museu e o jardim, que faz parte do museu e fica sempre aberto ao público. No dia da minha visita tinha uma exposição incrível e nela descobri a história de Medillín, na Colombia. A cidade, que já foi a mais violenta do mundo, passou por uma transformação urbana que desencadeou uma transformação social gigante e hoje é um modelo de criação de espaços públicos que facilitam a troca cultural, política e de conhecimentos. As exposições mudam frequentemente, como em todo museu, mas tem sempre coisas interessantes por la, então recomendo muito a visita.

LGBT

O outro museu que visitei foi o GLBT Museum, no Castro. Esse museu conta a história da comunidade LGBT (não entendi porque no nome do museu o G vem antes do L) em São Francisco. Acho muito importante conhecer a nossa história e ver a luta por direitos da minha comunidade me inspira e me dá força pra continuar lutando. Foram muitas conquistas, mas ainda falta muito a ser conquistado e, como o contexto atual nos mostra, essas conquistas podem nos ser retiradas a qualquer momento. O museu é bem pequeno, mas tem bastante material pra ler, além de alguns vídeos e áudios. O que mais me emocionou foi um áudio de Harvey Milk, ativista por direitos LGBT e político de SF, o primeiro abertamente gay a ser eleito na Califórnia, em 1977. Ele tinha recebido ameaças de morte, pois se um político gay incomoda muita gente em 2017, imagine o tipo de discriminação que ele sofreu nos anos 70! Então ele gravou uma mensagem que deveria ser lida somente no caso dele ser assassinado e não consegui conter as lágrimas. Harvey Milk foi assassinado pouco tempo depois e o assassino, que também matou o prefeito de SF no mesmo dia, recebeu uma pena leve pois o advogado que o defendia alegou que ele “tinha comido muita junk-food no dia e não podia ser responsabilizado pelos seus atos”. Milk ainda é um ícone e uma inspiração pra comunidade LGBT de SF e do mundo

Se você viu o filme “Milk” (ótimo filme!), com Sean Penn interpretando Harvey Milk, ou se viu a série “When we rise”, criada pelo mesmo roteirista e dirigida por Gus Van Sant (a melhor série LGBT que já vi, porque conta a história da nossa luta por direitos, baseada na vida de ativistas reais, mas também as interseções com o feminismo e o movimento negro) o Castro é um lugar mítico. À partir dos anos 60 esse bairro acolheu uma comunidade LGBT enorme, que lutou ativamente por direitos durante décadas e foi o palco de uma tragédia humana, a epidemia de HIV/AIds nos anos 80, que levou a vida de um terço dos seus membros.

Andar pela rua principal do Castro (Castro St), que continua sendo um dos maiores símbolos de ativismo LGBT no mundo, foi muito emocionante pra mim. Tem até uma calçada da fama LGBT lá! Milk tinha uma loja de fotografia nessa rua e hoje um centro/loja da Human Rights Campaign, uma associação que luta por direitos LGBT, funciona no mesmo lugar. Essa rua é cheia de bares, cafés e abriga o cinema com o letreiro icônico. Infelizmente os bares são muito mais Gs do que Ls e são pouquíssimos os lugares frequentados por uma maioria lésbica. O lugar que mais gostei na rua foi a livraria Dog eared Books, que tem uma seção LGBT imensa, como era de se esperar, mas também toda uma parte dedicada a livros com temáticas LGBT e feminista pra crianças! Fui algumas vezes lá e confesso que folheei mais livros pra crianças do que pra adultas.

Passeios

Cheguei em SF com planos de fazer grandes passeios pelas florestas da região, mas, como expliquei na primeira parte desse guia, decidimos simplificar nossos programas e ficar pela cidade, mesmo. Posso recomendar a caminhada no parque Golden Gate, que oferece uma vista linda da famosa ponte e até um pedaço de praia pra você fazer seu piquenique (foi o que fizemos). E se você curtir andar de barco, recomendo pegar o ferry no centro (San Francisco Ferry Building) e ir pra Sausalito. É um cidade pequena na baía em frente à SF, logo à direita da Golden Bridge. Além de ser gostoso passear de ferry, você vai ter uma vista linda da ponte (ida e volta) e de SF e Alcatraz (volta). Sausalito é um charme, mas não tem muita coisa pra fazer por lá além de admirar a paisagem. Leve seu piquenique, sente nos jardins que beiram o mar e relaxe enquanto espera o ferry que te levará de volta. Vocé pode ver o preço e os horários do ferry, nos dois sentidos, nesse site.

Se você estiver com tempo, vale a pena visitar Oakland, onde a cena vegana também é vibrante. O restaurante Millenium, que apareceu na parte gastronômica do guia, fica lá e é fácil ir de uma cidade pra outra com transportes públicos. Além dos vários restaurantes veganos da cidade (mais uma vez, Happy Cow é a sua melhor amiga pra encontrar endereços veganos), tem um centro comunitário muito bacana chamado Omni Commons. Se ativismo te interessa, dê uma olhada no site pra ver se vai ter algum evento interessante durante sua viagem. Eu pude assistir à uma palestra com uma ativista LGBT russa que falou das dificuldades de fazer ativismo LGBT no país dela. Descobri que a situação era ainda pior do que tinha imaginado, mas conectar com outras ativistas é sempre uma inspiração. Também participamos do protesto do primeiro de maio em Oakland, junto com a comunidade de imigrantes, principalmente latinas, e nativa. Fiquei muito feliz em ver a Palestina incluída na pauta do dia (ninguém é livre até que todas sejamos livres!) e conheci algumas ativistas da pequena comunidade palestina local.

Parênteses consumista

Por questões éticas eu compro quase toda a roupa que uso de segunda mão (menos roupa íntima, de banho e meias). Então as únicas lojas de roupa que recomendarei nesse blog são lojas de caridade (Exército da Salvação, Liga contra o câncer, Emmaüs etc), pois são as únicas que frequento. SF tem algumas muito boas e se você procurar com paciência vai encontrar algumas peças de ótima qualidade, por um precinho modesto.  E se você está procurando o uniforme lésbico, nossa amada camisa xadrez, você encontrará as mais macias e confortáveis por lá. Raciocine aqui comigo. Além do povo nos states adorar camisa xadrez, outra lésbica já usou aquela peça, amaciando ainda mais o tecido. Segundo minha amiga Camila a camisa xadrez foi sequestrada pelos hipsters (e segundo uma seguidora minha no IG, isso é roupa de São João, mesmo), mas nada tema, amiga lésbica. Nós usávamos camisa xadrez antes dos hipters aparecerem e continuaremos vestindo nossas camisas xadrez quando eles entrarem em extinção. Achei as lojas mais interessantes no Mission e basta fazer um google “thrift shop mission district” (“thrift shop” significa “loja que vende roupas e objetos de segunda mão pra arrecadar fundos pra algum tipo de organização de caridade”) que você acha até um mapa com todas elas. Não confundir “thrift shop” com “vintage shop”, que é a versão chique e cara da loja de segunda mão. Mas se você procura por roupas vintage, com certeza também vai achar várias lojas do tipo em SF.

Outro lugar bacana pra comprar roupa é na loja da Human Rights Campaign que citei acima (na Castro St). Como expliquei, só compro roupa de segunda mão, mas essa loja vende camisetas lindas, super macias e com mensagens LGBT e todo o lucro vai pra organização, que luta pelos nossos direitos. Li as etiquetas das roupas antes de comprar e as que trouxe pra casa tinham sido fabricadas nos EUA, aumentando as chances das costureiras terem condições justas e dignas de trabalho (quando comparamos com as condições das trabalhadoras nos “sweatshops” dos países da Ásia).

Tenho outra recomendação de loja, mas sei que não será pra todo mundo. SF abriga um dos primeiros sex shops feministas que se tem notícia, Good Vibrations, que abriu em 1977. Conversei um pouco com a vendedora, que tinha muito orgulho fazer parte da equipe e que me contou que elas estavam comemorando os 40 anos da loja. Além de sex toys, lingerie e literatura erótica, o local oferece workshops práticos, aulas de educação sexual e de sexo seguro. Os sex toys são incríveis, das melhores marcas do mundo, fabricados realmente pensando no prazer da mulher, de todas as orientações sexuais, sozinha ou acompanhada. Claro que os preços são salgadinhos, mas escute essa pessoa que já vendeu sex toys e que já foi proprietária e usou vários tipos diferentes. Melhor investir em um sex toy de qualidade, recarregável, que vai durar muitos anos e que é mais ecológico (fuja dos toys que usam pilhas) do que comprar algo barato que terá um desempenho inferior e uma vida útil curta, o que além de acabar custando mais (se você substituí-lo por outro), também vai aumentar a sua pegada ecológica.

Algumas dicas

Pra terminar esse guia, algumas dicas práticas. SF é extremamente cara, então as dicas que gostaria de compartilhar aqui são todas sobre como economizar. Se você ganhou na loto antes de ir pra lá, fique à vontade pra não ler os próximos parágrafos. Pra todas as outras pessoas, aqui vão as recomendações.

Primeiro: compre comida no supermercado e coma em casa e/ou faça piqueniques ao invés de fazer todas as refeições em restaurantes. Segundo: tente se locomover o máximo possível a pé.  Na verdade sempre faço isso porque é a maneira que mais gosto de explorar cidades quando viajo, mas tem a vantagem de ser a maneira mais econômica de viajar também. Como SF é bem grande, programe as visitas por bairros pra poder fazer uma parte das visitas do dia a pé. E não esqueça de procurar os parques mais bacanas na região antes de sair de casa, pra já saber onde você estenderá a toalha de piquenique e organizar as visitas em função disso. Se cozinhar não for uma opção, nos supermercados você encontra comida vegana pronta. É mais caro do que cozinhar em casa, mas ainda sai mais barato do que comer em restaurantes.

Pra cozinhar em casa você vai precisar, obviamente, de uma casa. Essa é a minha terceira dica: alugue uma casa (Airbnb, por exemplo). Hotéis são geralmente mais caros e não oferecem a possibilidade de cozinhar no local. Se você estiver viajando sozinha, talvez um albergue com cozinha comunitária seja a opção mais barata, mas como viajei acompanhada não posso confirmar isso. E não esqueça de procurar os dias de entrada gratuita nos museus que quiser visitar (veja o site do museu), pois talvez você esteja por lá exatamente nesse dia. Uma última coisinha. Os tickets de transporte público são válidos por 90 minutos a partir do momento em que foi comprado (ou que você passou na catraca). Então se você precisar pegar dois ônibus e um bonde pra chegar em um determinado lugar, só precisa de um ticket, com a condição de fazer o trajeto em até 90 minutos. Eu não entendi isso no início e usava um ticket diferente cada vez que subia no ônibus e acabei desperdiçando algumas passagens. A hora do primeiro embarque fica marcada no ticket, então você sempre vai saber até quando pode usar o mesmo.

Se SF fosse um cheiro: maconha. Por onde andei, lá estava ela. Eu tenho zero problema com quem fuma e acho o cheirinho até bom. Fumaça de cigarro e gente bêbada me incomodam muito, muito mais. Principalmente gente bêbada. Porém o parque inteiro pode estar fumando maconha do meu lado que eu nem tchuiu. Mas se você se incomoda profundamente com isso, se prepare psicologicamente, pois o aroma da erva está praticamente por todos os lados.

Se SF fosse um sabor.. Difícil de escolher só um, pois a cidade ficou associada na minha memória gustativa com a salsa de tomate assada do Papalote, o maravilhoso pão com fermento natural, o kombucha com gengibre que eu comprava de litro no supermercado, mas, acima de tudo, com os queijos veganos que comi por lá. Principalmente o defumado da Miyoko’s Creamery.

Se SF fosse uma música, minha escolha é bem óbvia: “San Francisco”, cantada por Scott Mackenzie. Assim que avisei à família em Natal que estava indo pra SF meu irmão respondeu: “make sure to wear some flowers in your hair”. Aí não deu outra: passei onze dias cantarolando a música pela cidade e até coloquei umas flores no cabelo e gravei um vídeo cantando a música pra ele, porque sou uma irmã que gosta de passar essas vergonhas.

 *Essa última foto é de um lugar incrível, o ” Women’s building“, o primeiro centro comunitário de mulheres da cidade, criado em 1979. O prédio em si é lindo, coberto com pinturas de mulheres de todos os tipos e o centro oferece todos os tipos de ferramentas pra ajudar mulheres a “criar uma vida melhor pra elas próprias, suas famílias e sua comunidade”. Quem viu Sense8 talvez vai reconhecer o lugar, pois foi lá que Nomi se escondeu durante alguns episódios.

No final de abril viajamos em lua de mel pela segunda vez. Dessa vez o destino foi São Francisco/EUA. A primeira lua de mel, anos atrás, foi na Irlanda e ainda sonho em voltar lá.

Anne sempre quis visitar São Francisco e apesar dos EUA nunca terem estado na minha lista de destinações sonhadas, SF era a única cidade de lá que me interessava. Ela sempre existiu na minha imaginação como um lugar alternativo, tolerante e totalmente diferente do resto do país. Minha irmã caçula, que morou dois anos nos EUA e visitou várias cidades lá, me falou que era exatamente isso. E o momento era perfeito. Anne já estava nos EUA, em uma turnê de um mês apresentando o último projeto dela sobre Gaza, Obliterated Families, e o final da turnê coincidia com o final do meu trabalho com os tours políticos/ativistas na Palestina. Decidimos então nos encontrar em SF, eu vindo da Palestina (com uma passagem por Paris) e ela de Seattle.

A cidade superou todas as minhas expectativas e vivemos momentos incríveis, visitamos lugares lindos, conhecemos pessoas que me tocaram profundamente, participamos de um grande protesto, junto com a comunidade de imigrantes, contra a política racista e islamofóbica de Trump, encontramos ativistas que lutam por justiça social e comemos muitíssimo bem. A receita de uma lua de mel perfeita na opinião de duas ativistas veganas.

Como acontece sempre que visito uma cidade pela primeira vez, decidi reunir minhas experiências em um Guia Vegano. Um aviso pra quem nunca leu um dos meus guias veganos antes: o que você vai ver aqui está longe de ser um guia turístico completo da cidade. O objetivo principal dessa série é descrever a cena vegana local e compartilhar meus lugares preferidos, além de uma ou outra experiência marcante que vivi por lá. É um relato pessoal, diferente do formato tradicional de guia turístico e reflete a maneira como viajo.

E falando na maneira como viajo, queria compartilhar algo antes de começar a descrever a comida deliciosa que experimentei em SF.  Eu não sou aquela viajante que programa uma maratona de visitas a cada dia, nem gosto de bater ponto em todos os lugares turísticos da cidade que estou visitando. Pra minha grande felicidade casei com uma viajante igual a mim. E dessa vez nosso ritmo ficou ainda mais lento, pois precisávamos de descanso depois de meses de trabalho intenso. No final adorei viajar de uma maneira totalmente relaxada, curtindo sem pressa cada instante e optando por programas mais singelos (caminhadas no bairro, piqueniques nos parques, manhãs tranquilas com fartos cafés na cozinha da casa que alugamos…). Eu me dizia sempre que não queria explorar tudo de uma vez pra deixar algumas surpresas pra próxima visita à cidade. Não sei se um dia terei a oportunidade de voltar à SF, mas mesmo se isso não acontecer ter adotado essa postura mental acalmou algo dentro de mim e me fez aproveitar a viagem ainda mais.

Pra esse post não ficar muito longo, dividi o guia em duas partes. A primeira terá foco na comida vegana e a segunda parte será dedicada aos lugares mais bacanas que visitei e terá algumas dicas práticas.

Comida vem primeiro, claro, porque descobrir novos sabores é a parte que mais gosto nas viagens. SF é um paraíso gastronômico, mas diferente da maioria da cidades consideradas como tal, pessoas veganas também tem acesso a esse paraíso. A California, principalmente o norte do estado, onde fica SF, é famosa por ser um ninho de pessoas alternativas, com opniões políticas mais progressistas do que o resto do país. O fato de abrigar uma grande comunidade vegetariana há décadas moldou profundamente a paisagem gastronômica da cidade, com uma oferta vegetal extremamente variada e que vai agradar todos os gostos. Tem sucos verdes extraídos a frio, comida japonesa zen, tigelas macrobióticas, fast-food, junk-food, comida mexicana de rua, culinária mexicana mais refinada, restaurantes gastronômicos que merecem estrelas do Michelin (quando vamos ter um guia Michelin vegano?), feiras de produtores orgânicos, supermercados populares com vasta oferta vegana, supermercados-templos de comida orgânica e vegana…Com tantas opções é fácil se aperrear tentando provar o máximo de pratos possível, mas olha a ansiedade da viajante voltando!

Como sempre, aconselho você dar uma olhada no site Happy Cow, onde é possível ver a lista detalhada de todos os restaurantes veganos, vegetarianos e simpatizantes da cidade. Cheguei com uma lista grande, mas acabei visitando menos lugares do que imaginei. Fica pra próxima. Deixei de lado os planos de provar tudo e acabei voltando pra comer novamente em vários lugares, coisa que eu não lembro de ter feito antes durante uma viagem. Também cozinhei bastante em casa, principalmente à noite. Abaixo você encontrará os meus lugares preferidos. Já vou me desculpando pela qualidade das fotos, mas fiz todas com o meu telefone e a luz dentro de restaurantes não é a melhor pra fazer fotografia. Visitem os sites dos restaurantes pra ver fotos que realmente fazem justiça às delícias servidas lá.

Millennium

Vou começar com o ponto alto da viagem. Eu ouvi falar desse restaurante vegano anos atrás e eu já tinha vontade de comer lá muito antes de decidir viajar pra SF. Então a primeira coisa que fiz quando cheguei na cidade foi reservar uma mesa lá. O restaurante é concorrido, por isso a reserva é essencial. Já o brunch no domingo é mais tranquilo, mas pra você não correr o risco de ir parar lá e ficar sem mesa, eu aconselho reservar do mesmo jeito. Jantamos no Millennium e a comida era tão saborosa quanto eu tinha imaginado. Cada prato tinha sido preparado com maestria, tanto na combinação de sabores e texturas quanto na apresentação. É raro ter uma experiência gastronômica em um restaurante quando se é vegana, pois a culinária vegetal ainda está debutando no mundo da alta gastronomia, então vale muito a pena comer lá. Os preços refletem a qualidade dos pratos, mas não são tão mais elevados do que o que você pagaria por um sanduíche em um dos cafés descolados da cidade. Dica: se seu orçamento está bem apertado, vá ao restaurante no horário de almoço e peça o menu do dia. Fica bem mais em conta. Gostamos tanto que voltamos pro brunch no domingo e foi ainda melhor! O serviço é muito simpático, o local é agradável e tem kombucha na torneira (na cozinha dos meus sonhos tem uma torneira de kombucha).

 

Gracias Madre

Um charmoso restaurante mexicano e vegano. O casal por trás do Gracias Madre é o mesmo dos  Cafes Gratitude, também veganos. Provei alguns pratos quando estive lá e uns estavam deliciosos, outros apenas ok. Mesmo assim gostei muito da experiência e recomendo o lugar pra quem quer degustar uma culinária mexicana que vai além do burrito, preparada somente com ingredientes vegetais. Não deixe de provar o bolo de chocolate com sorvete de coco.

Houve uma polêmica grande ano passado relacionada com esses restaurantes e acho que não posso não tratar do assunto aqui. As pessoas que criaram o Cafe Gratitude e Gracias Madre assumiram publicamente que tinham voltado a consumir animais, depois de décadas de veganismo. Pra piorar ainda mais começaram a criar vacas pra consumo no sítio onde parte dos vegetais dos restaurantes é cultivada. Por causa disso uma parte da comunidade vegana decidiu boicotar os restaurantes. Se alguém aqui se interessar pela minha opinião, lá vai. Sempre me parte o coração ver pessoas veganas voltarem a comer animais. O que acontece na cabeça delas pra fazer com que voltem a comer quem por anos era visto como amigo, não comida, me intriga profundamente. Mas sejamos honestas. Sempre que você descobre que abriu um restaurante vegano na sua cidade, ou ouve falar de um café vegano na cidade que você vai visitar, você procura se informar antes se a proprietária é vegana e só come lá se a resposta for afirmativa? Infelizmente ainda existem poucos restaurantes veganos mundo afora e muitos deles pertencem à pessoas onívoras. Eu mesma trabalhei em um restaurante vegano em Londres cujo proprietário era onívoro. O número de pessoas veganas no mundo está crescendo e vamos ver cada vez mais restaurantes veganos pipocar por aí. Não necessariamente porque veganas adoram abrir restaurantes, mas porque se existe um mercado, existe a possibilidade de lucrar e pessoas onívoras vão querer investir nisso. Se eu souber que as pessoas por trás de um determinado restaurante vegano também são veganas, vou apoiar com mais alegria ainda. Mas se eu descobrir que a dona desse ou daquele restaurante vegano come animais, eu ainda assim vou ficar feliz por ela estar oferecendo comida vegana pra nós quando poderia ter decidido abrir um restaurante que serve animais, causando mais sofrimento e injustiça no mundo.

Papalote

E falando em comida mexicana, esse restaurante (que serve animais) oferece várias opções veganas. Dizem que você encontra o melhor burrito de SF lá e eu acredito que seja verdade. Além de burritos tem tacos e saladas, e você pode pedir praticamente todos os ítens em versão 100% vegetal. Funciona assim: a base dos pratos (tortilla, tacos, dois tipos de arroz, três tipos de feijão) é totalmente vegana, assim como uma parte dos molhos (guacamole, salsa). Aí cada pessoa acrescenta o recheio que preferir, que pode ser um animal ou tofu marinado com anchiote (um molho mexicano), vegetais grelhados, chorizo de soja… As porções são gigantes, os preços são camaradas e a salsa de tomate assado é tão incrível que tive vontade de beber no copo. Tão bom que comi lá três vezes.

Cha-Ya

Restaurante japonês zen, que serve comida tradicional de templo. O menu, 100% vegano, tem mais de 40 opções. Comida de templo é preparada usando métodos simples e poucos temperos, o que os paladares acostumados com sabores fortes podem achar “sem gosto”.Mas muitos dos pratos são mais temperados, justamente pra agradar a um número maior de pessoas. Eu gostei de tudo que provei e almoçamos lá duas vezes.

New tree

Um café que serve animais, mas oferece opções veganas deliciosas. Tudo orgânico e “fair trade”. Tem sanduíches, wraps, saladas, sopas (a sopa do dia é sempre vegana), sobremesas, cookies (alguns veganos e sem glúten), leite vegetal pro seu cappuccino, papa de aveia (cozida na água, com frutas secas e castanhas). Bom pro café da manhã e almoço. O “tempeh burger”, feito tempeh, cogumelos, missô e tomate seco foi um dos melhores que já comi na vida! Menção especial pro maravilhoso mousse de chocolate vegano, feito com abacate, cacau, agave e leite de amêndoas. O local também é uma loja de chocolates e fiquei surpresa ao descobrir que o chocolate quente da casa é sempre vegano (e voluptuosamente delicioso!).

 

Golden Era

Passei na frente desse restaurante por acaso e que surpresa feliz! Totalmente vegano, ele serve comida vietnamita, chinesa, tailandesa e indiana e tem um cardápio tão grande que vai ser difícil escolher. Rolinhos (com papel de arroz ou do tipo frito), saladas, wraps, pratos à base de arroz, sopas, panquecas vietnamitas… Os rolinhos primavera (recheados com tofu e vegetais crus) servido com molho de amendoim estavam divinos!

Supermercados

Como alugamos uma casa em SF eu tive acesso à uma cozinha equipada e preparei várias refeições em casa. Porque muitas vezes faltava disposição pra sair pra comer à noite, mas principalmente porque SF é uma cidade muito cara e fazer todas as suas refeições em restaurantes vai esvaziar a sua carteira em uma velocidade impressionante. E além da economia, eu acabo me cansando de comida de restaurante e sentindo vontade de comer algo preparado por mim, do jeitinho que eu gosto. Claro que o fato de SF ter uma abundância de vegetais incríveis e oferecer produtos veganos de alta qualidade, como ravioli recheado com ricota de amêndoas, não só facilitou a preparação de refeições em casa, como me inspirou bastante.  Os dois supermercados abaixo possuem vários endereços pela cidade, então procure na internet qual o mais perto de onde você estiver hospedada.

Whole Foods

O templo da comida orgânica nos EUA, onde você encontra tudo que sempre quis comer em um lugar só. Vou logo avisando que os preços são bem elevados e se você se empolgar muito vai ter que empenhar um rim pra pagar a conta. Se eu morasse nos EUA provavelmente não entraria nunca nessa rede de supermercados, mas tinha um Whole Foods pertinho da casa que alugamos e quando estou de férias, pagar mais caro pela facilidade e praticidade pode valer a pena. Principalmente quando o supermercado caro em questão está lotados das coisas veganas mais deliciosas do pedaço! Eu olhava as prateleiras e parecia que eu estava vendo celebridades! Os queijos vegetais que eu tinha visto em sites e revistas estavam todos lá, piscando pra mim. Encontrei, e levei pra casa, os queijos maravilhosos e a manteiga (fermentada, feita de maneira tradicional) da Miyoko’s Creamery e os queijos igualmente maravilhosos da Kite Hill. Fazia muito tempo que eu queria provar os dois e gente, gente…O que é aquilo? Valeu a pena gastar todos os meus tostões lá. Também recomendo os ravioli recheados com ricota de amêndoa, da Kite Hill, que mencionei acima. Eles estão junto com as outras massas frescas, na parte refrigerada.

Trader Joe’s

Um supermercado mais popular que Whole Foods, com preços mais acessíveis. Apesar de não ter os queijos-celebridades, tem muitos produtos veganos. Acabo de descobrir que os queijos da Miyoko’s Creamery são vendidos lá também.

Não posso terminar a parte comestível desse guia sem falar que SF é famosa pelo pão com fermento natural (“levain” ou, em Inglês “sourdough”).  Reza a lenda que os micróbios que povoam a região de SF são especiais, por isso o pão de lá é tão bom. Lenda ou não, o pão é realmente incrível, com um crosta brilhosa e crocante e com um miolo denso e agradavelmente azedo, como todo bom pão feito com fermento natural. O “San Francisco sourdough” é o tradicional, mas você também encontra pães mais elaborados, também feitos com uma longa fermentação natural: com farinhas de cereais diferentes, com sementes, com frutas secas… Provei um com figos e nozes que era de cair da cadeira! Eu comprava pão no bairro onde estava hospedada, mas as padarias mais famosas da cidade são Boudin Bakery e, claro, Tartine. Apesar das várias recomendações que recebi, acabei não visitando nem uma nem outra. Se filas gigantescas não te assustam, vai lá.

Se você for à Berkeley, uma cidade vizinha, aproveite pra passar pela Vegan Republic, uma loja totalmente vegana que usa o lucro pra patrocinar um santuário de animais. Lá você também encontra os queijos Miyoko’s Creamery e Kite Hill, além de vários livros de culinária vegetal. Eu tive a sorte de passar por lá e adorei a loja.

E se café é a sua praia, o templo do café em SF se chama Blue Bottle. Passei em frente, achei o povo tão hipster e o lugar tão moderno, com umas engenhocas de café tão diferentes que, apesar de café ser muito a minha praia, deduzi que eu precisava fazer um curso pra pedir café ali e fui embora. Dias depois me deparei com um lugar que servia o café Blue Bottle e pedi um porque eu precisava provar aquilo. Achei com gosto de café, mas o que danado eu estava esperando? Se a sua pessoa for mais hipster que a minha, vai lá.

(A segunda parte desse guia aparecerá em breve.)

Uns anos atrás eu entrevistei minha amiga Bárbara Bastos, que mora em Recife, como parte de uma mini série sobre alimentação saudável pra crianças. Se você ainda não leu as entrevistas, recomendo muitíssimo. Elas oferecem a perspectiva de três mulheres que se alimentam de maneiras diferentes (onívora/macrobiótica, vegetariana e vegana), com estilos de vida variados e que moram em cidades (países!) diferentes, mas que têm uma coisa em comum: decidiram oferecer uma alimentação integral e natural pros seus filhos. Se você acha que é impossível criar uma criança sem ‘danoninhos’, achocolatados, queijos processados, sucos de caixinha e biscoitos entupidos de açúcar e produtos químicos, as explicações delas farão você mudar de opinião. Elas mostram com exemplos concretos que é totalmente possível e que o impacto na saúde da criança é tão grande que faz a mudança valer muito a pena, apesar das dificuldades. Pra ler as entrevistas clique aqui, aqui e aqui.

Mas hoje eu gostaria de dar a palavra a Mateus, o filho de Bárbara. Ano passado passei alguns meses no Brasil e fui várias vezes a Recife. Na minha última visita entrevistei Mateus em um restaurante japonês, enquanto nos fartávamos com um rodízio totalmente vegano (Recife tem dessas maravilhas). Ele é vegano e apaixonado pela causa animal. Bárbara me contou que um dia ele voltou da escola muito triste porque tinha descoberto que um amiguinho tomava o leite de Bombom. Bombom é um bezerro, o personagem principal do livro infantil “Bezerro escritor”, de Igor Colares. O livro, lindamente ilustrado, explica como Bombom foi separado da mãe pra que as pessoas pudessem ficar com o seu leite.

Tiago, pai de Mateus e também um amigo querido, me contou que ele vez ou outra quer fazer açōes diretas de libertação animal. “Ele quer derrubar a cerca das fazendas, devolver os ovos pras galinhas…Recentemente a mãe de uma criança da escola dele nos disse que a filha não quer mais comer ovo porque Mateus disse que o ovo é da galinha. A gente já teve algumas dificuldades com relação a isso. Falamos pra ele que não adianta fazer certas coisas, pois isso não vai resolver o problema. A gente fala ‘Olha, vão colocar a cerca de novo. A gente precisa que as pessoas entendam, se conscientizem.’ Conversamos sobre isso dele falar com as outras crianças e sempre explicamos que não é pra ele criticar ou dizer que elas estão erradas, porque assim as crianças acabam ficando com raiva dele. O que ele pode fazer é tentar recorrer à sensibilidade que elas têm com relação aos animais. Crianças gostam dos animais. A gente tenta deixar claro pra ele que por mais que ele tente convencer as pessoas a mudarem, e não somos contra isso, vai ter pessoas que não vão se importar, que não vão mudar e a gente não vai deixar de ser amigo dessas pessoas porque elas não são veganas como ele.”

Conheço Mateus há anos, mas ele tem o hábito engraçado de me chamar sempre pelo meu nome e sobrenome juntos. Ele me cumprimenta dizendo “Oi, Sandra Guimarães” e se despede com “Tchau, Sandra Guimarães”. Em outubro participei do Veg Jampa, o primeiro festival vegano de João Pessoa e dei uma oficina de culinária ensinando a fazer nhoque com pesto. Como é o prato preferido de Mateus ele se empolgou e pediu pra ser meu assistente. Foi a primeira vez que dei uma oficina acompanhada. E por uma criança! Foi muito lindo e guardo uma lembrança preciosa desse dia.

Com vocês Mateus, o menino de sete anos com as preferências gastronômicas mais variadas e sofisticadas que conheço e que me ensinou uma verdade profunda de uma maneira tão óbvia que ficou gravada no meu coração pra sempre.

 

Mateus, eu vou gravar a conversa no meu telefone. Tudo bem?

Por que você vai gravar a voz?

Pra não esquecer. Aí quando eu chegar em casa eu escuto e digito no computador. Entendeu? Vamos lá. Qual o seu nome?

Mateus.

Quantos anos você tem?

Seis. (Hoje ele tem sete)

Você tem irmã ou irmão ?

Daqui a pouco eu vou ter porque a minha mãe tá grávida. (Olívia, a irmã de Mateus, nasceu em maio.)

O que você mais gosta de estudar na escola?

Matemática.

Qual é o seu prato preferido?

Comida japonesa.

Qualquer uma?

Uhum. Menos gyosa. E rolinho primavera. Essas coisas que eu não gosto.

Você sabe cozinhar alguma coisa?

Sei. Esfirra de za’atar.

Esfirra de za’atar? Você precisa fazer pra mim um dia.

(silêncio)

Mas Mateus seu prato preferido não era nhoque com pesto?

(Mateus me mostrou dois dedos)

É o segundo preferido?

A comida japonesa é a segunda preferida.

Comida árabe você gosta também, né?

Adoro.

Esfirra de za’atar, hummus, falafel…

Eu sei disso.

Por que você é vegano?

Porque eu quero.

Sua família é vegana?

Uhum. Bom, só o meu pai e a minha mãe.

Faz muito tempo que você é vegano?

Não.

Não faz muito tempo?

Faz.

Quantos anos?

Sete. Desde que eu nasci. (Na verdade Mateus nasceu vegetariano, de mãe vegetariana. Até os dois anos ele consumiu alguns poucos derivados de animais, principalmente queijo, mas nunca tomou leite de vaca. O único leite que tomou foi o da própria mãe, até os dois anos. A alimentação dele se tornou totalmente vegana aos dois anos, quando Bárbara se tornou vegana. Mas claro que ele não lembra dessa época da vida dele.)

O que você faz quando vai pra uma festa de aniversário e não tem comida vegana?

(silêncio) Eu não com nada.

Mas você come em casa antes?

Uhum.

Leva comida de casa?

Às vezes.

Você tem amigos ou amigas veganas? Da sua idade?

Não.

Só adultos, né?

Uhum. Você…

Que conselho você pode dar pra uma criança que quer ser vegana, mas não sabe o que fazer?

É só perguntar os ingredientes da comida pra ver se é vegana.

É isso que você faz quando vai comer fora?

Uhum.

Você gosta de ser vegano?

Adoro.

Por que?

Porque assim nasce mais animais. E quanto mais vida, melhor.

Você já sofreu bullying por ser vegano? Já te disseram coisas como: “Você vai ficar doente”?

Não.

Nunca?

Nunca.

Sempre te respeitaram.

Uhum.

E os seus amigos perguntam pra você: “Por que você não toma leite?”, etc?

Não.

Você tem uns amigos muito bacanas. Qual o nome do seu melhor amigo ou melhor amiga?

Tenho vários.

Você leva bolo vegano pra escola às vezes, né? Todo mundo gosta?

Uhum. Quando tem aniversário na minha escola minha mãe faz bolo. Ela fez dois bolos pro aniversário na minha escola. Eu não ajudei ela a fazer os bolos. Ela fez um de chocolate e eu não lembro o sabor do outro bolo.

Você tem algum recado pras pessoas que lêem o Papacapim?

Uhum. Se você virar vegano não se esqueça de ouvir esses conselhos que eu disse na entrevista com Sandra Guimarães.

 

Quando mostrei a entrevista pra Tiago, pai de Mateus, ele me explicou melhor essa história dos bolos veganos na escola. Perguntei se podia compartilhar aqui no blog porque é uma lição extremamente importante.

“Mateus mudou de escola esse ano. Ele estava falando dos bolos na escola anterior, onde ele estudou até o ano passado. Ele saiu do jardim e está na escola fundamental, ainda numa escola Waldorf. Sobre o bolo na escola, foi bem complicado. O ritual de aniversário das escolas Waldorf é a coisa mais linda que existe. É uma cerimônia onde os pais participam, a história da criança é contada e os amiguinhos são escolhidos pra ajudar. É muito bonito, mesmo. E ele participava do ritual, mas não comia o bolo depois porque não era vegano. Então a gente conversou com as pessoas da escola. No começo foi muito difícil porque achavam que a gente queria impor o veganismo a eles. Aí a gente se ofereceu pra fazer os bolos a preço de custo pras famílias que quisessem. Mateus ficava muito triste por não participar e também tinha um coleguinha dele intolerante à lactose, então explicamos que o mais inclusivo seria que o bolo fosse vegano. No começo não tivemos sucesso nenhum, mas Mateus ficou vários anos na escola e isso foi mudando. Quando ele saiu da escola basicamente 70% dos bolos de aniversário, das comemorações, eram veganos. E além de nós fazermos alguns bolos, algumas famílias pediam receitas pra nós e faziam bolos veganos em casa. Elas ficavam felizes da vida por Mateus também poder participar da comemoração. Na escola que ele está agora a professora é vegana e ele ama isso. E o melhor amigo dele, que veio da antiga escola, já foi lacto-vegetariano e agora está voltando a ser vegetariano e está super ativista com Mateus.”

Se você decidir parar de fazer parte do sistema de exploração e crueldade contra animais e se tornar vegana aparecerão várias dificuldades no seu caminho. Porque vivemos numa sociedade carnista e recusar seus valores ou criticar o sistema é uma ameaça à sua existência. Então você terá duas opções. A primeira é decidir que é muito trabalhoso viver de acordo com a sua ética o tempo todo e aceitar passar por cima dela “pra não causar transtorno/constrangimento” ou “pra facilitar a vida”. Nesse caso você voltará a patrocinar uma indústria cruel e a normalizar os hábitos carnistas. Mas essa não é a sua única opção. Você pode ter uma atitude completamente diferente e decidir que sua ética não é negociável.  Você pode lutar pra mudar o status quo, aceitando que vai ter um período de desconforto e dificuldades até que a mudança aconteça. Sei que muita gente acha o preço desse desconforto alto demais, mais alto do que o custo moral de passar por cima da própria ética. Mas se você aceitar o desconforto como um preço pequeno pra ser a mudança que você quer ver no mundo você terá a alegria de saber que participou ativamente da construção de uma nova realidade, mais inclusiva e com mais compaixão. Além de facilitar a sua vida de verdade a longo termo, você terá aberto o caminho pras veganas que virão depois. Por isso achei o exemplo de Tiago e Bárbara tão inspirador. A próxima criança vegana, ou intolerante à lactose, que entrar na escola de Mateus encontrará um ambiente bem mais receptível e acolhedor e com certeza será mais fácil pra ela participar das comemorações e comer os bolos de aniversário com as coleguinhas. Além, claro, de ter sensibilizado as mães e os pais das outras crianças e o pessoal que trabalha na escola ao veganismo. E é assim que a gente faz a sociedade evoluir.

No dia que entrevistei Mateus tinha um grupo grande de adultos ao redor da mesa. Mateus era a única criança. O assunto era comida e não lembro como chegamos lá, mas em um momento as palavras “comida vegana” e “comida não vegana” foram pronunciadas. Mateus declarou: “Só existe comida vegana.” Explicações se faziam necessárias, então ele acrescentou, do alto dos seus (na época) seis anos: “Só existe comida vegana. Se não for vegana, não é comida.”

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Deixo vocês com a sabedoria de Mateus. E com esse vídeo lindo onde ele ensina a fazer um “Bolo vulcão de limão” (vegano, obviamente). Aproveite e veja os outros vídeos de Cecília, que também é de Recife e tem um canal cheio de receitas incríveis chamado “Bora Veganizar” .