Eu me tornei vegana dez anos atrás, em Paris. A cidade luz foi meu lar durante 6 anos, onde fiz toda a faculdade e um pedaço do mestrado (sou formada em Linguística). Não era fácil ser vegana por lá naquela época e pouca gente sabia o que a palavra significava. Mas minhas razões eram profundas e morar na terra do queijo e do croissant (com manteiga) não me impediu de alinhar as minhas escolhas alimentares com os meus valores, mesmo se o único lugar onde eu podia comer era na minha própria cozinha. Nunca eu imaginaria que dez anos depois o veganismo faria parte da paisagem gastronômica parisiense. Mas o que eu imaginava ainda menos era que um dia eu iria organizar tours gastronômicos na cidade que tanto torceu o nariz pro meu veganismo.

 

 

Queridas leitoras, vim anunciar algo que estou preparando, com muito carinho, há alguns meses. Em maio de 2018 vou guiar um pequeno grupo de brasileiras numa viagem gastronômica-cultural-ativista em Paris. Durante cinco dias descobriremos a cena vegana da cidade, os restaurantes, cafés, brasseries, mercearias, supermercados, lojas de cosméticos, chocolateria, queijaria…tudo  100% vegetal. Quero levar o grupo pra conhecer meus lugares preferidos na cidade, fazer piqueniques em jardins floridos e às margens do rio Sena, visitar feiras e mercados e comer todo o queijo e croissant que couber no estômago. Sim, porque na Paris de hoje nós, veganas, também somos convidadas pro banquete. E além dos passeios e das degustações vai ter muita conversa e explicações sobre gastronomia vegetal, ativismo por direitos animais e o futuro do movimento vegano. Você terá a oportunidade de perguntar tudo que sempre quis saber sobre veganismo, enquanto come a melhor baguete do mundo.

 

Pra ficar tudo perfeito o grupo ficará hospedado em um hotel único, “ecológico, militante e acessível”, como o local se descreve. O hotel se preocupa com economia de energia (lâmpadas de baixo consumo, painéis solares) e de água (torneiras, chuveiros e descargas equipados com redutores de vazão), com redução de embalagens (não utiliza nenhuma porção individual, nem no café da manhã nem nos produtos de higiene), os produtos utilizados na limpeza são biodegradáveis, os sabonetes e xampus oferecidos são naturais e não foram testados em animais, o café da manhã é orgânico e o hotel oferece bicicletas (de grátis!) pras hóspedes. Foram semanas de procura, mas encontrei um hotel que tem tudo a ver com a proposta do tour. E qual não foi a minha surpresa quando descobri que o lugar é a sede da Sea Shepherd na França!

Serão cinco dias inesquecíveis e estou empolgadíssima com esse projeto. O grupo só terá 7 pessoas e algumas vagas já estão ocupadas, então as interessadas devem entrar em contato comigo por email o mais rapidamente possível. Só darei as informações completas, incluindo valores, por email, então corre lá. Mas já vou adiantando que:

-O tour acontecerá entre os dias 15 e 19 de maio de 2018. Talvez tenha um segundo grupo do 22 ao 26 de maio, mas ainda não foi confirmado.

-Não precisa falar Francês (nem Inglês) pra participar do tour.

-Eu não sou uma agência de viagem e esse é um tour independente e alternativo, exatamente como os tours que organizo na Palestina. O que significa que você terá que comprar suas passagens, fazer seguro de viagem e reservar o hotel sozinha. O tour começa e termina em Paris.

-Como essa não é uma viagem turística tradicional, aconselho que as participantes fiquem uns dias a mais pra visitar os pontos turísticos, principalmente se essa for a primeira visita à Paris.

-Não precisa ser vegana pra participar, mas tudo que comeremos durante o tour será vegano. Pessoas não veganas que quiserem comer animais e suas secreções durante a viagem terão que fazer isso sem a minha companhia (depois do tour? na calada da madrugada?).

-Não precisa ser brasileira, mas tem que ser lusófona.

-Vamos caminhar muito, pois essa é a melhor maneira de conhecer Paris. Por isso é importante estar em boas condições físicas.

-Só cobrarei pelos meus serviços de guia, então as participantes são livres pra gastar o quanto quiser a cada dia nos restaurantes, mercados, lojas etc.  Foi o esquema que me pareceu o mais justo, pra que cada pessoa gaste exatamente o que couber no orçamento.

-Casais e pessoas de todos os gêneros são bem-vindas.

-Escrevam pra papacapimveg@gmail.com e garanto responder todas as perguntas que me fizerem por lá.

 Sigam essa baguete e coisas muito boas acontecerão.

 

Não sei como isso aconteceu, mas estamos em outubro. A impressão que tenho é que eu vinha andando na rua em julho, topei, me levantei e era outubro. Estou convencida que o tempo em Berlim passa mais rápido do que no resto do mundo.

Finalmente tenho residência nessa cidade. Só por alguns meses, mas pra quem passou tantos meses pulando de um apartamento pra outro, parece uma pequena eternidade. No final das contas passei 4 meses procurando um apartamento…que vou alugar por 5 meses. Tudo bem, eu tenho outros planos a partir de fevereiro, longe de Berlim.

Agora que não preciso fazer e desfazer malas a cada cinco dias, acredito que o tempo vai voltar ao seu ritmo normal. Esse mês está cheio de coisas boas desse lado da tela e mal posso esperar pra compartilhar tudo com vocês. Aguardem. E enquanto esperam as novidades, aceitam chips de couve?

Couve é provavelmente a minha verdura preferida e eu sempre gastava uma pequena fortuna comprado esses chips em lojas de produtos orgânicos. Já repararam que é preciso empenhar um rim pra sair da loja com um pacotinho? Até que minha concunhada alemã me ensinou a faze-los em casa e a receita não podia ser mais simples. Os chips caros que mencionei acima são geralmente desidratados, não assados. Isso explica o preço na etiqueta. Mas acho a versão assada/desidratada no forno tão gostosa quanto. Umas vão dizer que couve desidratada tem todos os seus nutrientes preservados, mas eu respondo que quase ninguém tem desidratador em casa.

Tenho um carinho todo especial por essa receita, pois a primeira vez que fizemos juntas, minha concunhada e eu, foi no meu casamento, ano passado. Passei a noite inteira comendo chips de couve e achando tudo lindo, explodindo de gratidão. Agora sempre que como me lembro daquele dia especial.

Vou ali me preparar pra novas aventuras e deixo vocês com os chips e o outono em Berlim.

 

Chips de couve

Eu uso couve crespa, pois é a única que encontro aqui em Berlim, mas você pode usar qualquer tipo de couve.

Folhas de couve

Azeite

Sal a gosto

Aqueça o forno à 120 graus. O objetivo é desidratar as folhas e como elas são delicadas, uma temperatura mais alta vai queima-las.

Lave e seque bem as folhas de couve. Com uma faca, retire os talos e guarde pra usar em outra receita (na sopa ou no suco verde, por exemplo). Rasgue as folhas em pedaços médios/pequenos. Em um recipiente grande o suficiente pra acolher todas as folhas, regue com umas gotas de azeite e tempere com uma pitada de sal. Massageie pra distribuir o azeite de maneira uniforme. Use pouco azeite, só o suficiente pra que todos os pedaços tenham um pouquinho dos dois lados. O objetivo não é deixar as folhas nadando no azeite! Uso aproximadamente 1 colher de chá pra 4 folhas de couve crespa, mas como as folhas de couve lisa podem ser maiores,  adapte a quantidade de azeite, se necessário. Um conselho: use menos do que você achar necessário, pois depois de desidratadas as folhas reduzem muito e o que parecia pouco na folha fresca, se torna demais na folha seca.

Espalhe as folhas levemente besuntadas em uma placa de metal (importante! Não tive sucesso com formas de vidro), deixando um pouco de espaço entre elas. Se você colocar muitas folhas de uma vez elas não vão desidratar como devem antes de queimarem. Coloque no forno por 15-20 minutos, aproximadamente, mas dê uma olhada no final dos primeiros dez minutos só pra ter certeza que elas não estão queimando. Reparei que fornos podem ser extremamente temperamentais (hahahaha!), alguns esquentam mais de um lado do que do outro (nesse caso será preciso dar uma mexida nos seus chips pra eles desidratarem de maneira uniforme) e não posso garantir com precisão em quanto tempo seus chips ficarão prontos. O teste (extremamente sofisticado, atenção!) é o seguinte: abra o forno, pegue um chip e prove. Ele deve estar totalmente crocante.

Assim que ficarem prontos retire seus chips do forno (não deixe eles esfriando lá dentro) e deixe esfriar completamente antes de transferi-los pra um recipiente com tampa. Guarde bem fechado, em temperatura ambiente. Se conserva por vários dias, mas garanto que eles não vão durar mais de algumas horas.

Umas semanas atrás escrevi esse post sobre sarraceno, uma das melhores descobertas gastronômicas que fiz na vida (obrigada, veganismo, por ter expandido tanto os meus horizontes gastronômicos) e prometi a receita dos meus famosos crepes de sarraceno. Vou começar dizendo que essa receita não foi uma invenção minha, longe disso. Crepe de sarraceno é um prato típico da Bretanha, região no Noroeste da França. Lá eles são chamados de “galettes au blé noir” (“galettes de trigo negro”, como o sarraceno também é conhecido em Francês) ou simplesmente “galettes Bretonnes”.

Não me recordo se já conhecia essa delícia na minha vida pre-vegana, mas lembro que alguns anos atrás peguei um pacote de galettes prontas (sem recheio) num supermercado francês e me surpreendi ao perceber que a receita era naturalmente vegana. Na França você não vai colocar as palavras “tradicional” e “vegana” juntas com frequência e é um mistério que um dos raríssimos pratos típicos 100% vegetal venha da Bretanha, região famosa pelo queijo e creme e por colocar manteiga em absolutamente tudo. Tem até um bolo típico de lá que é praticamente manteiga e açúcar com duas pitadas de farinha, um tal de “kouign aman” (nunca comi, mas quem provou me disse que o estômago reclamou bastante depois de ser forçado a digerir tanta gordura saturada de uma vez).

Infelizmente o fato das galettes serem naturalmente veganas não significa que você, amiga vegana, vai poder entrar em qualquer creperia bretã e poder degustar uma. Não podemos esquecer que estamos falando da Bretanha (e da França) e que todos os recheios servidos por lá são à base de animais e suas secreções. A última vez que estive nessa região foi em 2013. Anne e eu entramos em todas as creperias da cidade onde estávamos hospedadas (Saint Malo, uma cidadezinha linda no litoral) e não encontramos uma só galette com recheio vegano. Como diz a minha mama, nem uma pra fazer um chá! O jeito foi comprar as galettes sozinhas e preparar recheios em casa. Aliás naquela viagem criei um recheio com algas frescas, mais um alimento típico da região, que ficou registrado nas nossas papilas, mas isso é outra história.

Voltemos à galette. A receita não poderia ser mais simples. Só tem dois ingredientes (três, se você contar o sal) e exige apenas um liquidificador e uma frigideira. Bem mais em conta que uma viagem à França. Como interroguei todas as cozinheiras e cozinheiros das creperias em Saint Malo, na esperança de achar um recheio feito com plantas, acabei encontrando um que concordou em me dar a sua receita e descobri exatamente como é feito por lá.  E por ser uma alma boa (e modesta) vim aqui compartilhar o segredo com vocês. O pessoal na Bretanha usa farinha de sarraceno, mas além de ser um produto difícil de encontrar, acho o sabor da farinha inferior quando comparado ao sarraceno em grãos. Minha teoria é que provavelmente os grãos pra fazer aquela farinha tenham sido moídos meses atrás e foram ficando rançosos. Não posso garantir que minha teoria tem fundamento, talvez eu tenha simplesmente comprado um saco de farinha velha anos atrás, mas o importante é que não só é possível fazer crepes de sarraceno com os grãos inteiros descascados, como o sabor fica, na minha opinião, ligeiramente superior.

O segredo que o cozinheiro bretão compartilhou comigo foi o seguinte: prepare a massa no dia anterior e deixe fermentando em temperatura ambiente. As bacterias que moram no ar vão entrar na massa, fermenta-la levemente e ela vai ficar mais aerada e com um sabor mais complexo. Eu já esqueci a massa por 48h e ela fermentou bastante e ficou bifásica, com um líquido claro na parte superior e uma massa mais densa na parte inferior. Eu não gosto de desperdício e não tenho medo de fermentar loucamente minha comida, então fiz os crepes apesar do cheiro forte da massa e ficou uma delícia. O sabor ficou bem intenso (não espalha, mas me lembrou camarão seco), o que não vai agradar todo mundo e preciso avisar que não posso me responsabilizar pelos resultados. Se você quiser brincar com as bactérias da sua cozinha e comer o resultado, será por sua conta e risco.

Eu fiz uma oficina de receitas francesas ano passado em Recife e ensinei a fazer esses crepes. Mas como precisava fazer a massa e preparar os crepes imediatamente, o que significava que não podia deixar a massa repousando por 12 horas, usei um atalho. Acrescentar um pouquinho de vinagre de maçã (não pasteurizado) dá uma certa leveza à massa e acrescenta uma pontinha de acidez, o que aconteceria durante o processo de fermentação. Você pode fazer isso numa emergência, mas o método de preparação natural produz resultados melhores.

Então aqui está a receita das deliciosas galettes bretãs, ou crepes de sarraceno. Quem leu o post sobre sarraceno sabe que ele não tem glúten e é uma proteína vegetal completa, então acho esses crepes muito melhores do que os tradicionais feitos com farinha de trigo. Muitas pessoa me perguntam como fazer crepes sem ovos e leite e embora eu tenha postado a minha receita aqui, acho que muito mais interessante do que veganizar crepes convencionais é troca-los por crepes de sarraceno.

 Crepes de sarraceno (galettes bretãs – sem glúten)

Não espere o mesmo sabor de crepes feitos com farinha de trigo. Esses aqui têm um gosto mais forte, com notas ligeiramente amargas, típico do sarraceno. Quem nunca provou pode estranhar um pouco, mas garanto que depois do segundo crepe você terá sido conquistada.

1x de sarraceno em grãos (cru, descascado)

3x de água

Pitada generosa de sal

Bata o sarraceno com a água e o sal no liquidificador até virar uma mistura bem lisa (esfregue um pouco entre os dedos pra testar). Transfira a massa pra um recipiente (de preferência de vidro), cubra com um pano de prato limpo e deixe em temperatura ambiente por 12 horas. Eu faço à noite pra comer no almoço do dia seguinte, ou de manhã pra comer no jantar. A massa vai fermentar ligeiramente (um processo natural, não precisa acrescentar nada) e o sabor e a textura ficarão ainda melhores.

Depois de período de  descanso/fermentação esquente uma frigideira anti-aderente (importante! Se a sua frigideira não for anti-aderente e seu crepe não der certo, não me culpe, pois eu te avisei) com algumas gotas de azeite. Despeje um pouco de massa no centro e imediatamente vire a frigideira em um movimento circular pra massa escorrer pros lados. O crepe deve ficar finíssimo e você pode usar as costas de uma colher pra terminar de espalhar a massa. Deixe cozinhar em fogo médio e assim que descolar, vire o crepe pra cozinhar do outro lado. Uma espátula fina e plana é a sua melhor amiga na hora de virar crepes sem rasga-los. Se o primeiro não sair perfeito, não se preocupe. Dizem que o primeiro crepe nunca dá certo, mesmo. Coma esse crepe como consolo enquanto faz o segundo. Você merece. Repita a operação até ter usado toda a massa, colocando algumas gotinhas de azeite na frigideira antes de cozinhar cada crepe. Eu consigo fazer 6 crepes médios (e fininhos) com essa receita, mas esse número pode variar dependendo do tamanho da sua frigideira e da espessura dos seus crepes.

Recheie como preferir e sirva, de preferência acompanhado de uma salada verde. Você pode dobrar os crepes como uma tapioca, ou tentar a maneira tradicional bretã, como nas fotos acima. Pra isso coloque o recheio no centro do crepe e dobre a parte direita e esquerda do crepe por cima do recheio.  Em seguida dobre a parte superior e inferior da mesma maneira, formando um quadrado, mas deixando uma parte do recheio exposta no meio. Nas fotos acima recheei os crepes com berinjela e cogumelo salteados, cubos de tofu defumado e queijo de castanha.

A massa crua pode ser guardada na geladeira por uns dois dias, em recipiente fechado. Os crepes prontos podem ser guardados na geladeira pelo mesmo tempo. Esquente na frigideira (com umas gotinhas de azeite ou não) antes de degustar. Eles ficarão mais crocantes, mas igualmente deliciosos.

Sugestões de recheios

Espinafre com creme

Cogumelo com creme (refogue cogumelos e use o creme da receita acima)

Tofu mexido com tomate e manjericão

Patê de tofu, tomate seco e ervas

A berinjela de dona Laura

Requeiju + legumes refogados

Hummus, tomate e rúcula

Qualquer pasta que você gostar, mais legumes crus ou refogados

Banana caramelizada e chocolate derretido