Outro dia uma moça me enviou uma mensagem pelo Instagram dizendo “Acompanho você desde os 11 anos, quando virei vegetariana. Estou com 21 anos agora e vegana há 5 anos.” Além da alegria proporcionada por esse momento Xuxa, me emocionei em saber que tem pessoas que acompanham meu trabalho há dez anos. Quanta honra!

Sim, esse blog completou 10 anos em fevereiro. Já contei como tudo começou?

Eu era vegana há 3 anos e morava na Palestina há 2. Na época minha vida se dividia entre o trabalho voluntário com o grupo de mulheres, no campo de refugiados, a militância (participar de ações de resistência, junto ao povo palestino) e meu projeto de “restaurante em casa”, que acontecia 2 vezes por mês. O trabalho com as mulheres era focado na culinária (falei dele aqui e aqui) e como eu desenvolvia receitas pros jantares que eu dava em casa (era assim que eu conseguia ganhar uns trocados por lá), eu passava a maior parte da semana escolhendo vegetais na feira e cozinhando.

Foi então que Anne sugeriu criar um blog de receitas. Ela achava minha comida maravilhosa e dizia que seria uma pena não compartilhar meus conhecimentos em culinária vegetal com mais pessoas. Embora eu tivesse achado a ideia bacana, eu sempre deixava pra depois. No fundo eu me perguntava se minhas receitas eram realmente dignas de serem publicadas, mas o fato de ter poucos blogs sobre culinária vegetal em Português (estou falando de 2009) acabou me convencendo que mesmo se minhas receitas não impressionassem tanto fora de casa, eu tinha uma contribuição a fazer pra comunidade vegana.

Até que veio essa noite de fevereiro de 2010, quando estava sozinha em casa (Anne tinha viajado pra Gaza, a trabalho) e a insônia me impedia de dormir. Fui pra sala, abri o computador e criei o blog.

E lá se foram dez anos! No início eu só postava receitas, sempre acompanhadas da história por trás delas. Eu tinha tanta receita no meu repertório que chegava a postar três por semana! Nesse época um amigo francês, que morava na Palestina, me perguntou como eu fazia pra inventar três receitas por semana, já que ele tinha inventado, no máximo, duas receitas durante a vida inteira. A verdade é que as ideias fervilhavam na minha cabeça e eu praticamente inventava uma receita nova por dia! Uma combinação muito feliz de fatores produzia isso. Por um lado eu estava cercada de ingredientes frescos e deliciosos (eu morava a poucos metros da feira, onde agricultoras vendiam diretamente seus produtos) e estava descobrindo uma culinária vibrante, a palestina, que vê o vegetal com tanto interesse, e o trata com tanto carinho, que os ingredientes animais. E que o devora com tanto prazer quanto! Por outro lado eu passei os primeiros anos do meu veganismo mergulhada em receitas, tanto as que eu inventava quanto as que eu via em sites estrangeiros e testava/adaptava na minha cozinha. Acho que toda vegana passou por essa fase. Quando você se torna vegana descobre que tem que reaprender a cozinhar tudo! Como se faz bolo sem ovos? Como se faz pratos cremosos sem creme?

Hoje, no meu décimo terceiro ano de veganismo, tenho um repertório extremamente vasto de receitas pra todas as ocasiões e a culinária vegetal passou a ser a coisa mais fácil, automática e descomplicada do mundo. Isso não significa que parei de desenvolver receitas. Mas como em qualquer outro aprendizado, o início requer mais atenção e esforço. Até que chega um ponto em que você já não precisa mais fazer esforço e as coisas fluem. Aprender a cozinhar (vegetal) é como aprender uma nova língua. Começa dando um certo trabalho, até que você fica fluente. Isso é algo que eu gostaria que as pessoas que dizem “ah, mas dá muito trabalho cozinhar comida vegana” entendessem.

Mas voltemos ao nascimento do Papacapim. Eu morava na Palestina e logo senti que era absurdo falar só de receitas enquanto, ao meu redor, as violações de direitos humanos se multiplicavam, o colonialismo avançava e a ocupação militar israelense se tornava cada vez mais brutal.

O primeiro post dessa nova linha editorial foi “Só pela subversão” e até hoje pessoas vem falar comigo depois das palestras que dou no Brasil pra contar a que ponto elas se sentiram tocadas por essa história.

Pra minha surpresa, misturar outras lutas sociais ao veganismo não fez com que leitoras saíssem correndo alegando indigestão, muito pelo contrário. Tenho muito orgulho de dizer que além de ter ensinado muitas pessoas a cozinhar, ter inspirado outras mais a se tornarem veganas, contribuí com a politização delas, principalmente sobre a luta palestina.

E o que dizer das pessoas que entraram na minha vida graças ao Papacapim e que se tornaram grandes amigas? Foram muitos convites pra dar palestras, muitas oficinas de culinária e a grande felicidade de participar da construção do movimento vegano no Brasil.

Os tempos mudaram e a era dourada dos blogs foi ficando pra trás à medida que redes sociais passaram a ocupar cada vez mais espaço nas nossas vidas. No início eu concentrava o meu trabalho aqui no blog (receitas, dicas de culinária, reflexões sobre veganismo e outras lutas) e usava o Instagram como um “por trás das cortinas”. O conteúdo era mais pessoal por lá: viagens, coisas que eu estava lendo ou comendo… Depois minhas leitoras aqui foram migrando pra lá, outras foram chegando sem nunca ter lido o blog e depois de alguns anos de resistência acabei levando o conteúdo que produzo aqui pro Instagram também. Isso significa que o trabalho dobrou, mas também que e a comunidade Papacapim está ainda maior.

O blog me acompanhou em todas as aventuras que vivi nos últimos dez anos. Escrevi posts da Palestina, claro, mas também de Bruxelas, de Londres, de Beirute, de Berlim, do Brasil e agora de Paris. E em cada lugar as receitas ganharam cores locais, as histórias refletiam minhas experiências convivendo com outras culturas… Abri o coração e perdi a conta de quantas mulheres fizeram a mesma coisa comigo, via email, carta ou pessoalmente.

O Papacapim representa uma parte muito importante da minha vida e muita gente me chama de “Sandra Papacapim”. Outro dia um amigo me contou que um amigo dele, tentando lembrar do meu nome, disse: “Aquela menina que tem um sobrenome bem diferente”.

Essa semana eu fiz algo que me pediam pra fazer há anos: uma campanha de financiamento coletivo. Eu tenho muita dificuldade pra pedir ajuda, o que explica minha hesitação por tanto tempo. Se antes eu me perguntava se minhas receitas interessariam alguém, hoje eu me pergunto se alguém estaria disposta a apoiar financeiramente o meu trabalho. Ainda mais em uma época tão difícil quanto essa que estamos atravessando agora.

Mas promover a construção do veganismo popular e criar pontes entre a luta por libertação animal e os outros movimentos sociais nunca me pareceu tão urgente. Se esse blog nasceu apenas como um espaço pra compartilhar conhecimentos culinários e ajudar quem estava pensando em ser tornar vegana, hoje eu vejo que a sua missão principal se tornou reafirmar o caráter político do movimento vegano, disputar o movimento com quem defende uma visão liberal, capitalista e excludente de veganismo e fortalecer nossa luta buscando alianças com outros movimentos e lutadoras, pra além da comunidade vegana. E pra continuar fazendo isso e ir mais longe, eu preciso de ajuda.

Quem quiser contribuir, clica aqui apoia.se/papacapimveganismopopular pra ir pra página da campanha. Se você não puder oferecer um apoio financeiro, saiba que divulgar o meu trabalho também é uma ajuda preciosa.

E pra comemorar, uma receita. Porque não tem melhor maneira de comemorar algo do que ao redor de comida boa e que não causou sofrimento em outros seres nem explorou quem a produziu.

Feijão macaça (fradinho) é um dos meus preferidos. Como ele dá caldo ralo (um caldo que eu adoro! Inclusive, recomendo usa-lo nessa receita), gosto de usar os grãos em saladas. Na verdade nem chamo isso de salada, é só a maneira como preparamos esse tipo de feijão na minha família: com tomate, cebola ou cebolinha e bastante coentro.

No Sertão é tradicional adicionar manteiga da terra (manteiga de garrafa) e muita gente por lá acha que é a única maneira de deixar ele gostoso. Mas, olha que notícia boa, descobri que feijão macaça gosta mesmo é de gordura, não necessariamente da gordura que vem da exploração de uma vaca lactante. Então um azeite gostoso aqui faz maravilhas! E se você tiver a sorte de ter óleo de babaçu por perto, essa é uma receita perfeita pra usar essa iguaria.

Feijão macaça como lá em casa


No RN, de onde venho, chamamos esse feijão de macaça. Outros nomes usados Brasil afora: fradinho ou feijão de corda. As medidas são aproximadas, pois faço tudo no olho. Adapte de acordo com seu gosto. Prefiro usar cebolinha aqui, por ter um sabor mais suave. Quando não tenho, uso um pouquinho de cebola comum. Porém só recomendo pra quem gosta de cebola crua. Se esse não for o seu caso e você não tiver cebolinha, melhor deixar as duas de fora e fazer esse prato só com os outros ingredientes.

3x de feijão macaça/fradinho cozido com sal (só os grãos)
1 tomate
Algumas cebolinhas (ou um pedaço de cebola)
1-2 pimentas de cheiro (opcional, só use se gostar)
Um punhado de coentro
Azeite, limão, sal e pimenta do reino a gosto

É importante que o feijão seja temperado quente, pra que ele absorva bem os temperos e fique saboroso. Então cozinhe o feijão com sal e deixe descansando dentro da panela fechada, no caldo, enquanto prepara os outros ingredientes.

Pique o tomate, a cebolinha (a parte verde e branca), a pimenta de cheiro e o coentro e coloque tudo no recipiente em que for servir. Se estiver usando cebola crua, pique um pedaço, de acordo com seu gosto, o mais miúdo possível.

Coloque o feijão cozido ainda quente (só os grãos) sobre o tomate/cebolinha/pimenta de cheiro/coentro picados. Regue generosamente com azeite, tempere com uma pitada de sal, pimenta do reino e suco de limão a gosto (comece espremendo meio limão). Misture bem, prove e corrija o tempero. Escute seu paladar e junte mais um bocadinho de azeite, limão ou pimenta, se desejar.

*A foto de abertura desse post foi feita numa feira da agricultura familiar na Palestina, poucos meses depois de ter criado o blog.

Adoro ler e apesar de não dedicar o tempo que gostaria à leitura durante o dia, dou cabo de uma modesta pilha de livros mensalmente, pois só consigo dormir depois de ler por pelo menos uma hora na cama. A pessoa que estiver dividindo a cama comigo que lute pra dormir com o barulho das páginas sendo viradas (bem discretamente, juro).

Um dos últimos livros que li me marcou muito, tanto que vim aqui fazer umas observações sobre sobre ele. Porque isso abre janelas pra reflexões importantes.

O livro em questão é “A peste”, de Albert Camus. Recomendo demais, não porque estamos vivendo uma pandemia no momento (o que durante a quarentena aqui na França fez muita gente tirar esse livro da estante), mas pelo contexto político. O livro foi publicado em 1947, então falar que estou dando spoiler não se aplica aqui, concorda? A peste de Camus é uma alegoria pro fascismo. Sim, a história é sobre uma cidade que vê a peste (bulbônica) chegar, se instalar e levar uma parte considerável da população. Mas é tudo um simbolismo pra alertar sobre o perigo do fascismo. Quem ler vai entender.

Sobre a peste em si (e aí saio do campo figurativo), tem uma passagem que me lembrou muito a atitude ecofascista de algumas pessoas diante do corona. Aquela galera que acha que a morte das pessoas mais precarizadas e vulneráveis na nossa sociedade é “limpeza espiritual”. Gostaria que essa galera explicasse o princípio dessa “limpeza planetária 2020” que leva os indivíduos mais sofridos e poupa aqueles que mais exploram e destroem o planeta, exatamente como sempre aconteceu. No livro, o padre da cidade prega durante a missa algo bem parecido com o que vimos umas pessoas escrevendo nas redes sociais (“estão morrendo da peste/corona? Tão vibrando negativo, amores!”) e a resposta do doutor pra essa atitude é perfeita. (Leiam o livro ; )

Mas não é sobre isso que quero falar aqui. (Sou a rainha das preliminares em conversas). Lembra que eu disse que a leitura desse livro me fez refletir sobre algumas coisas (além do fascismo)?

A primeira é que a história acontece em Oran, na Argélia. A Argélia foi invadida pela França em 1830 e a colonização só acabou em 1962, depois de muita luta e resistência do povo argelino. Mas o livro é de 1947 e a Argélia da época era uma colônia francesa. Aliás, Camus é um francês que nasceu na Argélia ocupada. O narrador conta que a cidade tem 200 mil habitantes e sabe quantos árabes tem no livro? Zero. E não estou falando somente dos personagens principais: nem a vendedora de tabaco, nem o entregador de jornais, nem o zelador do prédio, ninguém é argelino. O livro pinta um retrato exato do que era a Argélia colonizada: segregação total. Provavelmente muitos dos pacientes do doutor (o personagem principal) são árabes. Mas nenhum tem nome nem história, logo são totalmente invisíveis. Todos os personagens com nome e com história são franceses. A população nativa de Oran, de toda a Argélia, é fantasma. Sem nome, sem história, sem menção sequer da sua existência.

Isso foi ainda mais chocante pra mim porque li “A peste” enquanto lia um livro sobre Frantz Fanon e o contraste entre a luta por autodeterminação do povo argelino e a descrição do que ainda hoje os franceses chamam de “Argélia francesa” me fez perder o sono algumas noites.

Vou abrir um parênteses aqui pra contar um causo pessoal. Uns anos atrás, quando eu morava em Bruxelas, fui contratada pra ser intérprete de uma professora brasileira durante uma conferência. Eu dividia o trabalho com um português, pois a tradução era simultânea e na orelha e isso é um trabalho muito cansativo pra fazer sozinha durante horas a fio. E lá estava eu, traduzindo o que uma professora belga estava dizendo pra professora brasileira, discretamente pra não incomodar as outras pessoas ouvindo a conferência. E de repente, enquanto reclamava que a China estava tomando todo o mercado europeu e que por isso a Bélgica precisava se unir aos EUA em acordos econômicos, ela solta essa pérola: “Precisamos fazer alguma coisa! A gente já perdeu a África!”

Eu sou muito profissional, mas naquele momento não consegui me manter neutra e traduzir a fala da criatura. Eu engasguei e emiti um leve grito de horror ao mesmo tempo. Imediatamente me desculpei com a professora brasileira, explicando que traduziria essa infâmia no final da fala da professora colonialista. Sim, coleguinhas, tem uma galera grande aqui na Europa que acha que “perdeu a África”. Porque a África era deles, obviamente.

Agora voltando pro livro “A peste” e a segunda (e derradeira) reflexão. Além de não ter árabe, mesmo a história acontecendo no meio da Argélia, sabe o que também não tem no livro? Mulheres. Na verdade algumas mulheres passam pelas páginas, mas apesar de terem nome elas praticamente não falam e não fazem nada de interessante. Tem a esposa do doutor, que viaja logo no começo do livro pra tratar de uma doença grave. Tem a mãe do doutor, que vem cuidar do filho na ausência da nora. E tem a noiva de um personagem, que ficou em Paris e só é mencionada. Elas não tem substância, não tem interesses, são como as “mulheres de Atenas” de Chico Buarque (“Elas não tem gosto ou vontade, nem defeito nem qualidade….”). Aliás quando um amigo fala das qualidades da mãe do doutor é pra exaltar o quanto ela é “apagada”. Sim, várias vezes ele faz esse “elogio”, dizendo que era exatamente o que ele mais apreciava na própria mãe.

Já imaginaram o contrário? Um livro onde todas as personagens são mulheres, mas não num contexto íntimo, mas sim no nível de uma cidade de 200 mil habitantes! Imagina um livro onde as médicas, jornalistas, estudantes, prefeita, funcionárias da prefeitura, policiais…todas fossem mulheres? Ia causar, no mínimo, estranhamento. Provavelmente a autora (porque o livro seria escrito por uma mulher, obviamente) seria duramente criticada.

“Claro que não, Sandra, estamos em outra época! Não é mais 1947, hoje seria de boa.”

Aí que você se engana, camarada. Ano passado saiu um filme maravilhoso, no meu top 5 de melhores filmes da vida, chamado “Retrato da jovem em chamas”.

Um filme francês, de uma diretora mulher, contando a história de uma pintora que vai pintar o retrato de uma jovem, na casa dela, e se apaixona por ela. A história acontece no século 18, no interior da França. Como a jovem mora sozinha com a mãe e uma doméstica e o filme acontece quase todo dentro da casa e adivinha? Só tem mulheres no filme. Veja, não estamos falando aqui de uma história com muitos personagens, dentro de uma cidade de 200 mil habitantes (como no livro A peste). Estamos falando de um história muito mais íntima que acontece no espaço doméstico. E foi de boa? Nada! A diretora, Céline Sciamma, foi duramente criticada pela escolha de fazer um filme apenas com mulheres.

Durante a turnê de divulgação perguntavam, num tom ofendido ou acusador, “por que escolher fazer um filme militante/feminista?” Porque se tem uma coisa que o patriarcado nos ensinou foi que histórias de homens é algo “neutro”, “universal”. Já histórias de mulheres é militante.

Lembra aquela coisa de que se a opinião é de direita é “neutra”, mas se for assumidamente de esquerda é “política, ideológica”. Ou seja, é “neutro” quando segue o roteiro escrito por quem? Por quem? HOMENS! Geralmente brancos e héteros. Tudo que sai desse roteiro é “militante, feminista, tomou partido, é nicho” etc.

Eu critiquei a falta de mulheres no livro de Camus, mas isso é verdade na maioria dos livros, principalmente os “grandes clássicos”. Idem pros filmes. Você conhece o teste Bechdel? Pois siga lendo que você vai dormir mais sabida hoje.

Alison Bechdel é uma autora que eu adoro. Ela está por trás da HQ “Dykes to watch out for”, que segue as aventuras de um grupo de amigas lésbicas de 1983 à 2008.

Numa tirinha de 1985 Ginger, uma das personagens, explica que tem uma regra na hora de escolher filmes. Ela só assiste a filmes que:
1- tenham pelo menos duas mulheres que
2- conversam uma com a outra
3- sobre algum assunto que não seja homem.

Alison Bechtel não tinha a intenção de criar um teste, mas por causa dessa tirinha feministas começaram a usar esses critérios pra expor o papel absurdo das mulheres em filmes. Elas estão ali pra decorar, pra ser o objeto de desejo de um homem, mas raramente tem protagonismo. Óbvio que tem os filmes protagonizados por mulheres (e glória à deusa o número é cada vez maior), mas pense aí nos filmes “clássicos” ou mesmo qualquer filme que você viu ultimamente. Quando comecei a analisar, uns 10 anos atrás, poucos passavam o teste. Faça o exercício, lembrando dos seus filmes preferidos, e veja por você mesma.

Destacando aqui que esse teste, que nunca quis ser um, não determina se um filme é feminista ou não, como algumas pessoas pensam. Sinceramente, achar que o fato de ter duas mulheres, que conversam uma vez sobre algo que não seja homem é suficiente pra dizer que um filme é feminista é um insulto!

Mais tarde o primeiro critério ficou mais elaborado. Agora um filme, pra passar o teste Bechdel, tem que ter 2 mulheres com nome e profissão e elas tem que praticar a profissão no filme (além dos critérios 2 e 3).

Se você é homem e está me lendo, pare e pense. Como você se sentiria se todos os “grandes livros” e “filmes clássicos” contassem apenas histórias de mulheres? Se os homens entrassem ali apenas pra ser o objeto de desejo das mulheres e/ou servir as mulheres da trama (ter uma “natureza apagada”, como a mãe do doutor no livro de Camus)?

É assim que me senti lendo “A peste”. E o pior é que nós, mulheres, estamos tão acostumadas a não ter lugar nos livros e filmes, a achar que a narrativa masculina, as histórias do ponto de vista do homem são “universais” que na maior parte do tempo nem percebemos isso. Falei com duas amigas francesas que adoram Camus sobre o meu desconforto por não ter mulheres no livro e ambas disseram que tinham lido o livro mais de uma vez e não tinham reparado isso.

E olha que nem entrei no apagamento de quem não se encaixa na binaridade que descrevi nessa conversa.

Lendo “A peste” me ocorreu o seguinte pensamento. Se um extraterrestre que nunca pisou na Terra tivesse acesso aos nossos livros e filmes, que imagem ele teria da sociedade humana? Provavelmente algo como “homens vivem aventuras, paixões, fazem descobertas, salvam países e até a Terra inteira, se o apocalipse bater na porta. Já mulheres…” Não vou nem terminar a frase pois se você leu até aqui vai completar o raciocínio sozinha. Isso não condiz com a realidade e precisamos de livros e filmes que contem histórias à partir de olhares que não sejam de homens, porque achar que a narrativa masculina basta, achar que ela é “universal” é um tremendo absurdo. E totalmente machista.

Dias atrás eu estava comendo as primeiras cerejas do ano e lembrei de um causo que aconteceu comigo há mais de 15 anos. Isso me fez refletir sobre algumas coisas, que se juntaram à uma reflexão que nasceu quando eu trabalhava numa queijaria vegetal em Berlim e passava meus dias entre bactérias e leveduras. (Comida também alimenta o pensamento.)

Eu era universitária e estava na cozinha da minha kitnet cobrindo de leite condensado um punhado de cerejas frescas no fundo de uma tijela. A francesa assistindo à cena perguntou horrorizada: “Qual o sentido de fazer isso?” Coloquei a latinha açucarada na mesa e olhei com pena pra moça. Tadinha, ela não sabia que tudo ficava muito melhor com leite condensado.

Quando cheguei na França, no ano da graça de 2002, fiquei impressionada com as sobremesas e doces vendidos nas confeitarias: era tudo lindo, mas nada, pra mim, tão gostoso quanto os doces brasileiros. Lembro de um dia estar acompanhada de uma amizade brasileira de passagem pela cidade, parar na frente da vitrine de uma confeitaria, apontar pros doces e comentar: “Lindos, né? Mas só tem beleza, o sabor passou bem longe.”

Eu notei de cara que o nível de açúcar nos doces era mais baixo do que no Brasil, mas não era exatamente isso que me incomodava (ou pelo menos era o que eu pensava). O “problema” dos doces franceses, na opinião da Sandra de 20 anos, era que nada, absolutamente nada, levava LEITE CONDENSADO. Na verdade a maioria das francesas nem conhecia esse produto e eu comprava as latinhas em mercearias de produtos “africanos”. As aspas estão aqui porque a maior parte dos tais “produtos africanos” não vinha do continente africano. Muitos eram apenas produtos de gigantes europeias que o agroalimentar empurrava no povo africano, da mesma maneira que empurram “danoninhos” e “leite ninho” no povo sul-americano. Nem lembro como descobri isso, mas era lá também que eu comprava o leite em pó da marca do capeta, aliás outro produto que o povo francês não utiliza nunca. Leite em pó aqui só os especiais pra bebês.

Então na minha kitnet parisiense sempre tinha leite em pó e condensado. Eu colocava o primeiro, religiosamente, no café, e o segundo em todas as sobremesas que eu preparava em casa que, na minha opinião, eram muito superiores aos doces das confeitarias espalhadas pela cidade.

Mas será que leite condensado, um concentrado de açúcar e gordura saturada, realmente deixa tudo mais gostoso? Veja, uma lata (395g) tem nada menos que 217g de açúcar e 31,6g de gordura. Na próxima vez que você segurar uma lata de leite condensado visualise isso aqui: mais da metade (55%) é açúcar. Tem mais açúcar do que leite no “leite condensado”.

Sabe como esse produto é feito (industrialmente)? Leite é, basicamente, água, gordura, proteína e açúcar (lactose). Através de um processo de evaporação, 60% da água presente no leite é eliminada, o que concentra a gordura, a proteína e a lactose no líquido que sobrou. Aí juntam (muito) açúcar e (pasmem!) mais lactose. Só ver a lista de ingredientes da latinha com a moça estampada. Isso explica algumas coisas importantes.

Sabemos que açúcar é uma substância altamente viciante. Tem estudos que mostram que ele vicia tanto quanto ópio e causa dependência mais rápido do que crack. Mas a verdade é que nem precisa ler esses estudos pra perceber a que ponto muitas pessoas são viciadas em doces, onde além da dependência emocional existem sintomas físicos também (mau humor e dores de cabeça quando ficam um tempo sem comer doce, por exemplo). Mas além do açúcar, o leite condensado vem com muita gordura.

Nosso cérebro é programado pra preferir alimentos ricos em açúcar e gordura, pois a programação aconteceu numa época remota (pense nas cavernas) em que tinha pouca comida disponível e um punhado de calorias a mais determinava quem sobreviveria pra ver o dia seguinte. É muito recente na História que humanos tenham uma abundância de alimentos à disposição e possam escolher o que comer. Lembrando aqui que isso não impede que boa parte da humanidade durma com a barriga vazia e que, de acordo com a FAO, 25 mil pessoas morram de fome por dia no mundo.

Os hipermercados podem ser modernos, a comida ultraprocessada em fábricas-laboratórios, mas a humana enchendo o carrinho ali conta com a mesma programação cerebral que sua antepassada das cavernas, pois essas coisas levam um tempo enorme pra mudar, e será guiada pelos mesmos instintos que garantiram a sobrevivência da espécie: mais calorias significa maior chance de sobreviver, pois amanhã talvez precisaremos passar o dia fugindo dos predadores, sem tempo pra parar e procurar comida.

Pausa pra dizer que OBVIAMENTE nem tudo é determinado pelos nossos instintos primitivos e é totalmente possível comprar comida na feira, encher sua geladeira somente de hortaliças, frutas, cereais e grãos e ser muito feliz. A historinha sobre a mulher das cavernas no hipermercado é só pra explicar por que somos naturalmente atraídas pelo sabor doce (uma fruta doce agrada mais o paladar geral do que uma fruta ácida) e por gordura (basta ver a tara da galera por fritura, queijo, creme…). Mas de maneira alguma isso significa que todo mundo é assim (eu não gosto nem de doce nem de fritura, olha aí), nem que é impossível aprender a gostar de verduras e hortaliças, nem que seu vício por açúcar é incurável. Como todo vício, tem cura, sim.

Mas voltemos ao leite condensado. Além da montanha de açúcar e da abundância de gordura, esse produto é um concentrado de lactose, mais um tipo de açúcar. Essa dose dupla de açúcar o deixa ainda mais viciante. Mas não é tudo. Deixa eu contar uma coisa que descobri nas minhas pesquisas sobre leite.

Leite de mamíferas tem uma proteína chamada caseína. Ao ser ingerida, a caseína se quebra e se transforma em casomorfina, um tipo de… opioide! E por que a natureza colocaria uma substância viciante no leite que uma mãe produz pro seu bebê, você pergunta? Saca só a sabedoria da natureza. O bezerro (lembre que leite é produzido pra ele, não pra ser evaporado, açucarado, vendido em latinhas e consumido por humanos) precisa do leite pra sobreviver, crescer e se tornar adulto. O que aconteceria se ele desse a primeira mamada, cuspisse tudo na cara da vaca sua mãe e declarasse que já ia direto pastar grama? O corpo dele não teria acesso aos nutrientes necessários pra atravessar a infância e o bezerro provavelmente não sobreviveria. O mesmo é válido pra todos os filhotes mamíferos, incluindo o humano. E lembre que a natureza quer muito que os filhotes sobrevivam, pra garantir a continuação das espécies, por isso ela deixou o leite materno um tantinho narcótico, com todo o respeito às mamíferas amamentando seus bebês. Assim fica garantido que o bebê não vai rejeitar o peito da mãe e vai crescer fortinho (óbvio que pra tudo nesse mundo tem excessão e provavelmente uns bebês rejeitaram o peito, mas isso não é regra).

(Não foram vozes na minha cabeça que me disseram isso tudo, aprendi sobre o poder viciante do leite com um médico estadunidense chamado Neal Barnard, um dos fundadores do Physicians Committee for Responsible Medicine – tradução: Comitê de médicos por uma medicina responsável.)

E por que estou falando de narcose e dependência no meio de uma conversa sobre leite condensado? Porque o leite, que a natureza fabricou um tantinho viciante pra garantir a sobrevivência dos filhotes mamíferos, é tranquilo em sua forma natural e adaptado pra cada filhote específico. A caseína, aquela mesma que se transforma em um tipo de opioide (casomorfina) representa de 20 à 45% da proteína no leite humano, mas é nada menos que 80% da proteína no leite de vaca, porque as necessidades de um filhote humano são diferentes das necessidades de um bezerro. E lembra que o leite condensado teve 60% da água evaporada, fazendo com que a proteína (que é principalmente caseína) ficasse ainda mais concentrada? Então o que acontece quando 1- a concentração de caseína de um determinado produto é obscena e 2- ele é consumido em grandes quantidades por mamíferos de outra espécie, que passaram muito da idade de serem chamados de filhotes? Aí, coleguinha, temos a bomba viciante que responde pelo nome de leite condensado.

Voltando às cerejas que a Sandra de 20 e poucos anos estava afogando em leite condensado. A francesa provou a preparação e não se convenceu que o líquido açucarado viscoso tinha “deixado tudo mais gostoso”. Na verdade ela nem entendia por que eu pensava que precisava melhorar o sabor das cerejas, que pra ela já estava perfeito.

Isso mostra como a adoração por leite condensado não é algo dado. Não, objetivamente falando, ele não é a coisa mais deliciosa do mundo. Idem pro amado-idolatrado-salve-salve “leite ninho”. “Mas Sandra, você não acabou de dizer que a composição do leite condensado faz com que ele seja uma armadilha pras nossas papilas?” Sei que parece que estou contradizendo todo o meu argumento sobre a periculosidade do leite condensado, mas deixa eu explicar melhor.

Nosso paladar (preferências em matéria de comida) é construído de acordo com o que colocamos à disposição das nossas papilas. Assim, francesas adoram queijo em estado de decomposição avançado, por exemplo, enquanto outras culturas acham isso um nojo. Quem cresce comendo sobremesas entupidas de leite condensado vai moldar seu paladar pra achar isso o supra sumo da deliciosidade. A francesa cresceu comendo tortas de frutas, as mesmas que eu achava insípidas (e pensava secretamente que uma boa dose de leite condensado por cima seria a solução). Ela tinha outro padrão gustativo. Mas, sendo humana, ela também adorava gordura e açúcar. Basta ver a devoção das francesas por queijos e patês ultra gordurosos feito com vísceras animais (foie gras). Explica também o hábito francês, estranhíssimo pra mim, de comer morangos mergulhados no açúcar (enquanto no Brasil ele será servido afogado em leite condensado). A apreciação por gordura e açúcar é universal, a forma dos produtos que cada cultura coloca nesse pedestal é que difere.

E claro que o agroalimentar sabe há bastante tempo da nossa preferência por doce e gordura e usa esse conhecimento pra criar substâncias comestíveis altamente viciantes.

O leite condensado foi desenvolvido como forma de preservar o leite, numa época em que não existia refrigeração. Depois foi usado como alimento pra soldados durante guerras (começando na Secessão, nos EUA), sempre se aproveitando dessa característica: ele pode ser conservado por anos em temperatura ambiente. Esse produto poderia ter parado de ser produzido depois da chegada das geladeiras domésticas, mas sabe como a indústria capitalista funciona: se dá pra lucrar com algo, criaremos uma demanda por ele. Aí a dona Moça começou a espalhar fake news, dizendo que o leite da sua latinha era ótimo pra crianças e bebês.

Recado pras fiéis da igreja “Mercado”, seguidoras da “lei da oferta e da procura”. Veja como na maior parte do tempo nós, consumidoras, não decidimos o que será produzido pelo agroalimentar e nos será empurrado goela abaixo. Sabe a lógica do veganismo capitalista (“quanto mais produtos veganos de grandes empresas comprarmos, mais produtos veganos elas produzirão e aos poucos elas pararão de fabricar produtos de origem animal”)? É lorota! Não tinha mais soldados pra consumir as latinhas? Sem problemas! Criaremos uma nova demanda! Assim apareceu uma campanha publicitária agressiva pra colocar na cabeça das mães que leite condensado era uma ótima alternativa ao leite materno e criar um novo grupo de consumidoras pra esse produto! Sim, esse mesmo que tem mais da metade da lata de açúcar era vendido como substituto pro leite materno e várias pessoas que me acompanham no Instagram escreveram contando que a mãe, pai e avós beberam leite condensado na mamadeira!

Outra leitora comentou que “uma geração foi criada mamando leite condensado, literalmente. Essa bomba de açúcar deixava os bebês nocauteados pela ação do açúcar e tendo que digerir a bomba de gordura. Enquanto isso o leite materno não ‘dopava’ os bebês, seguia nutritivo, mas de fácil digestão. Ou seja, o bebê precisava mamar mais. Estava criado o mito do leite fraco leite/pouco que arruína a amamentação até hoje.”

Mas como a lógica capitalista é crescimento infinito, logo o mercado foi expandido e vieram os livrinhos com receitas de sobremesas usando leite condensado, distribuídos com as latinhas, propagandas em revistas, etc e hoje nos encontramos nesse ponto onde, apesar de não ter mais gente colocando leite condensado nas mamadeiras de seus bebês (espero), brasileiras associam sobremesas gostosas a leite condensado e pessoas, crianças e adultas, são viciadas no dito cujo. E acham que escolheram livremente adorar esse produto, que qualquer papila vai concordar que é um verdadeiro néctar dos deuses! Tudo fabricado.

Então, aqui vai minha primeira reflexão.

Nosso paladar é construído de acordo com os alimentos que entram em contato com ele e isso conta cada vez mais com um grande empurrão do agroalimentar e seus produtos fabricados de maneira a lucrar o máximo com a nossa preferência natural por gordura e açúcar. A sobremesa que a brasileira acha D-E-L-I-C-I-O-S-A pode ser um purgante pra uma francesa e vice-versa (vou ficar só com essas duas culturas pra simplificar, mas saiba que tem culturas que gostam ainda mais de açúcar que a nossa). É interessante se perguntar sempre: quem lucra com minhas preferências gastronômicas?

Eu precisei me tornar vegana e abandonar laticínios pra entender a francesa que compartilhou as cerejas comigo naquele dia. Hoje acho que leite condensado, justamente por ser uma bomba de açúcar com uma boa dose de gordura, mascara o sabor dos alimentos. Mas é algo que você só descobre depois de parar de entupir sua salada de frutas de leite condensado. Frutas tem sabores tão diversos e delicados, é realmente um insulto afoga-las em açúcar e gordura. Mas se seu paladar for viciado em açúcar vai ser muito difícil concordar comigo.

O que me leva à segunda reflexão.

Hoje vejo a montanha de receitas de leite condensado vegano na internet e o desespero pra encontrar o leite condensado idêntico ao de vaca e percebo que deixamos de consumir os corpos de outros animais e as substâncias produzidas por eles, mas raramente questionamos o padrão de consumo alimentar imposto pela indústria que lucra com a exploração e morte de animais. Eu também cresci achando que comida era algo dado: todo mundo fazia igual, por isso nunca me passou pela cabeça perguntar se podia ser de outro jeito. Então entrei no veganismo procurando “versões veganas” de tudo que eu tinha costume de comer antes de me tornar vegana.

A obsessão com “leite condensado vegano” (ou “brigadeiro vegano”) merece uns minutinhos da nossa atenção. Tem muitas receitas por aí, muito debate na comunidade vegana pra saber qual versão é a melhor, qual é a mais parecida com a original. Quando a autora de uma receita quer te convencer que ela (a receita) é boa, mesmo, declara que sua versão ou é “idêntica” ou é “melhor” que o leite condensado original.

Primeiro que nenhum leite condensado vegetal será igual porque 1-leite de vaca tem composição e sabor diferentes de leites vegetais 2-nenhum leite condensado vegetal tem as substâncias entorpecentes (a caseína que se transforma em casomorfina dentro do nosso corpo). Apesar de continuar sendo uma bomba de açúcar (logo, vicia o paladar), nunca teremos esse efeito narcótico com leite condensado vegetal, logo ele nunca será tão viciante quanto a versão original. É esse poder viciante que, infelizmente, confundimos com “delicioso”.

Mas o miolo da questão pra mim é: por que nos esforçamos tanto pra reproduzir um produto criado pelo agroalimentar, cujo único interesse é colonizar nossas papilas e lucrar com a nossa preferência natural por açúcar e gordura, foda-se se adoecermos no processo? Por que nós, veganas, procuramos desesperadamente reproduzir um produto que mascara o sabor dos alimentos, mantendo nosso paladar condicionado a apreciar sabores artificiais (nada na natureza, em sua forma natural, tem uma concentração de açúcar tão alta como o leite condensado)? Não estaríamos perdendo a oportunidade de liberar nossas papilas do padrão de sabor da indústria, descolonizar nossa alimentação e aprender a apreciar o sabor das frutas em toda a sua delicada complexidade?

Se você leu até aqui e ainda lembra do começo desse texto provavelmente deve estar pensando: “Mas e as reflexões do tempo que ela fazia queijo vegetal em Berlim? O que isso tem a ver com todo o resto?”

Tudo que eu disse sobre o leite condensado pode ser aplicado ao queijo. Apesar de ter um nascimento diferente (não foi a indústria de alimentos que o criou e sim pessoas que criavam animais em pequena escala), ele também foi criado como uma forma, bem mais antiga, de preservar o leite e faze-lo durar. E o resultado também é um produto com concentração de gordura ainda mais elevada do que na versão natural (leite líquido). Porém no caso do queijo não é o açúcar que agrava o poder viciante. Além de não ter açúcar acrescentado na receita, boa parte da lactose (açúcar natural do leite) é digerida pelas bactérias durante a fermentação (o que não significa que não sobra nada ali, como pessoas alérgicas à lactose podem confirmar ao comerem queijo). Mas lembra da caseína, aquela que se transforma, no corpo, em um tipo de opioide? Queijo tem quantidades ainda mais obscenas de caseína do que leite condensado porque é ainda mais concentrado. Entenda, no processo de fabricação do queijo mais água foi descartada: começamos com algo líquido, o leite, e terminamos com algo semi ou totalmente sólido, o queijo. É preciso pelo menos 10 litros de leite pra produzir 1kg de queijo firme. Por isso o poder viciante do queijo é tão alto. Se ainda não ficou evidente, deixa eu confirmar que “casomorfina” não tem esse nome por acaso: ela tem efeito similar ao da morfina.

E tem mais um ingrediente chave aqui. Quando comecei a trabalhar em uma queijaria (vegetal) e estudar sobre fabricação de queijo descobri o quanto de sal se usa nesse produto. Sal é essencial aqui, tanto pra conservar o produto quanto pra afastar as bactérias ruins. Não dá pra fazer um queijo curado sem sal, leveduras e mofo nada apetitosos tomariam conta dele. E sabemos que sal também vicia o paladar. Então queijo é uma bomba de gordura e sódio, com um concentração gigante de caseína. Outra receita perfeita pra criar dependência, o que vemos quando tanta gente declara: “Eu não poderia ser vegana nunca, pois não posso viver sem queijo!”

E por que as reflexões sobre leite condensado me levaram a pensar em queijo? Porque nós, na comunidade vegana, também temos uma obsessão em recriar “queijos veganos idênticos aos animais”. Vou ser apedrejada em praça pública aqui, mas lá vai.

Será que é realmente interessante usar tanto do nosso tempo tentando reproduzir produtos criados pra responder uma necessidade bem específica (conservar o leite de vaca numa época em que não existia refrigeração e que a oferta de alimentos frescos durante o inverno era bem reduzida), que tem um perfil nutricional tão desequilibrado (bomba de açúcar no caso do leite condensado, bomba de gordura e sódio no caso do queijo), que causa dependência na galera ao ponto de empurrar alimentos muito mais interessantes pra fora do prato, deixando nossa alimentação repetitiva e restrita? Se muitas veganas fazem coro dizendo que depois de terem veganizado passaram a se alimentar de forma muito mais variada, é exatamente por isso! Carnistas gostam de pensar que “comem de tudo” (e ovo-lacto-vegetarianas “de quase tudo”), enquanto a alimentação vegetal seria limitada. Mas na maior parte do tempo elas não “comem de tudo”, elas “comem do mesmo”. Só ver o protagonismo que laticínios tem na sua alimentação.

E olha que quem tá dizendo isso é alguém que passou 2 anos trabalhando com queijo vegetal, tentando quebrar o código dos queijos animais pra reproduzi-los em versão sem exploração animal.

Curiosamente foi quando comecei a fazer queijos vegetais tão bons quantos os queijos animais que eu comia antes que esses questionamentos começaram a me invadir. À partir do momento em que essas maravilhas fermentadas fixaram residência na minha geladeira eu passei a querer comer aquilo em todas as refeições. Exatamente o que eu fazia antes de me tornar vegana. O que me mostrou que mesmo sem caseína, a concentração de gordura e sal também eram capazes de me fazer desejar comer queijo vegetal todos os dias. O poder viciante de queijos vegetais é muito menor, mas não deixa de ser um alimento manipulado pra concentrar gordura e proteína, além do sal, e lembre que nosso cérebro é programado pra preferir alimentos ricos em calorias (herança das cavernas). Por isso quando dei por mim estava abrindo a geladeira e escolhendo o queijo, ignorando todos os outros alimentos ali dentro, com muito mais frequência do que gostaria.

Semana passada fui colher cerejas no jardim da tia de Anne, no interior da França. Não fui uma coletora muito eficaz, já que colocava duas cerejas no cesto e uma na boca. Mas que experiência linda! Eu nunca tinha comido cerejas diretamente do pé e, consciente do privilégio daquele momento, degustei cada uma devagar, agradecendo a cerejeira pelo presente. Sei que se tornou um clichê exaltar o sabor de alimentos naturais, mas eu preciso dizer que realmente estava estragando minhas cerejas quando as afogava em leite condensado. Elas são perfeitas como são.

PS Enquanto colhia as cerejas da tia, que se chama Hélène, ela deu a seguinte instrução: “Não colha as cerejas que estão pra fora da cerca. Essas aí eu gostaria de deixar pras crianças e adultos que passarem pela rua.” Por mais tias compartilhando os frutos do seu jardim com desconhecidas e menos tempo gasto tentando reproduzir, em versão vegana, os produtos viciantes daquela capeta que começa com N.