O quarto e o quinto tour Papacapim na Palestina aconteceram em fevereiro e março. Mais uma experiência transformadora, pras pessoas que participam do tour e pra mim mesma. As participantes terminam o tour meio sequeladas ou, como disse meu amigo Rogério, “acordadas”! Reviver, de novo e de novo, a montanha russa de emoções provocadas pelas atividades do tour e explicar, de novo e de novo, a injustiça e violações dos direitos humanos cometidas pela ocupação israelense na Palestina é doloroso pra mim. Claro que a dor que sentimos não pode nunca, nem de longe, ser comparada à dor vivida pelo povo palestino, mas não deixa de ser uma vivência difícil pra nós. Planejar esses tours exige meses de trabalho, muitas horas respondendo emails e tirando dúvidas de pessoas interessadas em participar, semanas coordenando as atividades com as pessoas palestinas que nos guiam e participam da programação… No final das contas acompanhar os grupos durante 11 dias é a menor parte do trabalho, mas é a parte que provoca um esgotamento físico e emocional que me obriga a ficar de cama por alguns dias depois de cada tour.

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Apesar disso tudo, esse é o trabalho mais gratificante dentre todos os trabalhos que faço. Poder sensibilizar pessoas sobre uma questão tão importante, poder levar solidariedade às palestinas que lutam incansavelmente por justiça, apoiar a economia local, que está sendo estrangulada pela ocupação, tudo isso não tem preço.  Também considero o trabalho mais importante que realizo no terreno dos direitos humanos, que é uma parte enorme do meu ativismo.

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A programação muda um pouco a cada ano, dependendo da disponibilidade das pessoas palestinas que me ajudam a realizar esse projeto, da época do ano e dos eventos acontecendo por aqui durante a viagem. Além das atividades que sempre fazem parte do programa, pois são essenciais pra compreender o que acontece aqui, como a visita do campo de refugiados de Aida, onde os grupos ficam hospedados, o tour político da região de Belém (muro, colônias ilegais, estradas, sistema de apartheid), tour de Hebron (colônias e checkpoints dentro da cidade), cidade antiga de Belém e Jerusalém, tem também palestras com organizações de direitos humanos palestinas que oferecem apoio legal a prisioneiros políticos (Addameer) e refugiados (Badil), palestra com a única organização local de direitos animais, que faz um trabalho interseccional e também trabalha com direitos humanos (Palestinian Animal League), visita à Universidade Al Quds e conversa com estudantes e professoras…

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E tantas outras coisas, tantos encontros com pessoas incríveis que estão resistindo e lutando de maneira tão corajosa. Como meu amigo Marwan, que ajuda agricultores a replantar oliveiras e reconstruir casas demolidas pelo governo israelense. Baha, que organiza tours políticos incríveis pra ativistas. Minha querida amiga Draguista, que coordena um projeto de mulheres bordadeiras no campo de refugiados de Deheisha. Sahar, que luta pela desmilitarização da sociedade israelense. Tali, outra amiga israelense, que promove a campanha BDS. Fatima, diretora do projeto de mulheres Beit Al Karama, em Nablus e Islam, diretora do projeto de mulheres Noor, no campo de refugiados de Aida.

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Tem também a parte mais turística, pois descobrir as belezas naturais da Palestina é um dos objetivos do tour. Como a trilha de seis horas no deserto de Jericó e visita dessa que é a cidade mais antiga do mundo que nunca deixou de ser habitada, mergulho no mar morto, o monastério de Mar Saba, no deserto da Judeia. Teve também uma tarde no hammam (banho turco), com direito a sauna e massagem, um tour gastronômico em Nablus, aula de culinária tradicional com um projeto de empoderamento de mulheres… E falando em comida, teve a parte comestível do tour.

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O lado gastronômico do tour é muito importante por dois motivos. Primeiro porque faz parte da minha missão divulgar as delícias da culínaria tradicional palestina. Uma das ferramentas da limpeza étnica que Israel vem fazendo contra a população palestina desde que foi criado na maior parte da Palestina histórica, em 1948, é apagar ou se apropriar da cultura desse povo. Podemos ver isso claramente com a culinária. Quantas vezes ouvi pessoas dizendo que hummus e falafel são israelenses, quando a verdade é que povos árabes já comiam essas duas preparações muito antes de 1948. Segundo porque é comum pessoas veganas sofrerem com falta de opção de comida vegetal e gostosa quando viajam e eu queria que esse tour fosse exatamente o contrário.

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Não vou mentir, essa viagem é extremamente dura pro emocional da gente. Comida é uma maneira de não só se conectar com a cultura local e voltar a ter aquelas experiências gastronômicas inesquecíveis que tínhamos quando viajávamos na nossa época pré-vegana, mas também serve de reconforto no meio de toda a injustiça que presenciamos. Minha amiga Camila, que participou do tour de março e que adora comida tanto quanto eu, falou que todo dia passava da tristeza à alegria justamente por causa dessa combinação na nossa programação diária. A comida era uma tentativa de curar um pouco a dor que nossa alma sentia.

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Pra quem mandou email perguntando quando serão as próximas viagens gostaria de explicar que esse tour é um projeto especial que faço somente quando condições favoráveis se reúnem. Nunca sei quando será o próximo, nem mesmo se haverá mais algum tour no futuro. Uma coisa é certa, esses foram os únicos tours de 2017. Nessa minha vida de nômade só consigo planejar um ano por vez e 2018 ainda é um mistério pra mim. Mas se acontecer mais algum tour ano que vem, será provavelmente no segundo semestre. Quem quiser colocar seu nome na lista de pessoas interessadas, e ser avisada de primeira mão, antes do anúncio do tour aparecer aqui no blog, basta enviar um email pra papacapimveg@gmail.com. Mas não prometo nada.

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Termino agradecendo a participação de cada pessoa que me deu a honra de sua presença no tour. Obrigada por terem se interessado pela Palestina, por terem vindo até aqui mostrar a solidariedade de vocês e por terem confiado em mim e acreditado no meu trabalho. E aqui vai a missão pós-tour que dou a todas as participantes: compartilhem o que viram e viveram aqui com o máximo de pessoas possível, sejam ativistas por justiça na Palestina da maneira que melhor couber no estilo de vida que levam e sejam a voz das palestinas que vocês encontraram aqui, presas na máquina cruel e injusta da ocupação militar israelense, na comunidade de vocês.