Semana passada eu estava no interior da França, descansando e visitando a família francesa. Cozinhei coisas simples, porque nessa época do ano os vegetais são tão suculentos que eles não precisam de preparações nem temperos elaborados. E também porque estou aprendendo (finalmente!) que durante as férias é melhor passar menos tempo na cozinha e mais tempo com as pessoas que importam. Então fui visitar entes queridos e seus jardins luxuriantes. E numa dessas visitas me deparei com um imenso canteiro de urtigas. Fazia muito tempo que eu queria cozinhar urtigas (até então eu só tinha bebido o chá feito com a planta desidratada), então não hesitei um segundo: pedi luvas de jardinagem e um cesto à dona do jardim e comecei imediatamente a colheita. E porque gosto de viver perigosamente, eu estava calçada com minhas fieis Havaianas (escapei ilesa, mas não tentem fazer isso em casa).

Se você está com as duas sobrancelhas levantadas e a boca aberta desde que leu ‘cozinhar urtigas’, você não está sozinho/a. Postei a foto do meu cesto repleto de urtigas recém colhidas no Instagram do blog e as reações foram parecidas. Embora seja um ingrediente tradicional da culinária de alguns lugares do mundo (mas mesmo nesses países o uso desse ingrediente tem se tornado cada vez mais raro), nunca ouvi falar de pratos com urtiga quando morava no Brasil e só vim descobrir que elas são comestíveis uns anos atrás.  Acontece que depois de cozidas a malvadeza desaparece completamente. E nem precisa cozinhar muito: entre 30 segundos e 1 minuto na água fervente e voilà! Sua urtiga se torna tão inofensiva quanto uma folha de alface. Quem diria, não é?

IMG_20140823_143110

Se vocês forem como o meu pai vão querer me perguntar: “Minha filha, tem retorno comer urtiga?” Por que cargas d’água comer uma planta tão perigosa quando podemos comer, por exemplo, couve, agrião ou espinafre sem correr o risco de nos machucarmos? Não vou detalhar as propriedades medicinais da urtiga (que são várias, mas esse blog é sobre comida), mas duas coisas me interessam aqui. Primeiro: urtigas têm uma quantidade pra lá de interessante de ferro. Segundo (e, pra mim, mais importante): urtigas são uma delícia. E ainda tem uma razão bônus: vocês vão se sentir o máximo comendo algo que até então consideravam perigoso. (“Mãe, pai, olha eu comendo urtiga!”)

133A8649

Agora imagino que vocês estejam curiosos pra saber que gosto tem as danadas. Urtiga têm um sabor intenso, verde e marcante. Se você não é fã de folhas verdes e prefere vegetais de sabor suave, com certeza não vai gostar dela.  Mas se suas papilas, assim como as minhas, adoram uma aventura, pode procurar o canteiro de urtigas mais próximo (não esqueça as luvas!) pois você precisa experimentar essa receita. Nesse pesto a intensidade das urtigas é suavizada pelas castanhas de caju e o azeite e o resultado é um molho muito saboroso e bem mais comportado do que o gosto da planta sozinha. Servi esse pesto pra vários onívoros, com paladares mais ou menos aventureiros, e todos aprovaram. Sucesso garantido!

E antes que vocês saiam catando urtigas (imagino que vocês estão doidos pra fazer isso agora), duas dicas importantes. Escolham urtigas jovens, pois os caules são mais tenros (escolham as menores e sem flores). E ao invés de levar pra casa plantas que crescem na rua, perto da poluição de carros (e xixis de animais quadrúpedes e/ou bípedes), façam sua colheita em jardins domésticos. Suas plantas serão mais limpinhas e o dono do jardim vai provavelmente agradecer o serviço (e achar você pirado/a quando descobrir seus planos de comer as urtigas dele).

 133A8656

Pesto de urtiga

Nada tema, urtigas se tornam totalmente inofensivas depois de passarem por uma panela de água fervente. Se você nunca cozinhou com urtigas, pode confiar: basta tomar alguns cuidados básicos quando estiver manipulando as folhas cruas (SEMPRE use luvas) e você será recompensado/a com um vegetal pra lá de original e muito nutritivo. O missô é minha arma secreta pra realçar o sabor de pestos (ele cumpre a mesma função do parmesão), então não deixe de fora.

Urtigas do jardim (o equivalente a um escorredor de macarrão de urtigas frescas, aproximadamente 2x depois de cozidas)

1/2x de castanha de caju

1 dente de alho pequeno, ou a gosto

1cc de missô escuro

1cs de suco de limão espremido na hora

1/3x de azeite

Pimenta do reino a gosto

Aviso importante: ao manipular urtigas cruas use luvas (de jardinagem ou dessas pra lavar louça). E tome cuidado pras folhas não entrarem em contato com a pele que estiver exposta (braços).

Despeje as urtigas em um escorredor de macarrão e lave bem (basta passar algumas vezes embaixo da torneira ligada). Encha uma panela grande com água e leve ao fogo. Quando começar a ferver despeje as urtigas, cubra a panela e deixe ferver por um minuto. Pronto, agora os super poderes malignos da urtiga foram suprimidos e elas se tornaram inofensivas. Pode manipular com as mãos nuas e transformar esse vegetal em pesto. Não deixe de colocar uma folhinha cozida na boca pra descobrir o sabor que ela tem e se sentir super durona/durão (HÁ! Tô comendo urtiga!!!). E não esqueça de chamar testemunhas pra ver a proeza.

Escorra a urtiga cozida e esprema bem entre as mãos pra retirar o excesso de água. Triture a urtiga cozida/escorrida com todos os outros ingredientes no liquidificador (ou multiprocessador) até obter uma pasta densa. Não precisa triturar totalmente as castanhas, alguns pedacinhos inteiros são bem-vindos e deixam a textura mais interessante. Prove e ajuste o tempero de acordo com o seu gosto (talvez você queira mais limão, ou mais alho…). Geralmente missô é bem salgado, mas talvez você ache necessário acrescentar uma pitada de sal ao seu pesto. Sirva com macarrão, batatas (cozidas ou assadas) ou com pão. Rende aproximadamente 1 1/2 x. Conserve na geladeira, em um recipiente bem fechado, por alguns dias.