De amor e revolta

Outro dia eu encontrei esse texto, que escrevi há uns dois anos pra postar no meu perfil no Instagram, hoje defunto. Está mais atual do que nunca e veja que eu estava tentando fazer a minha raiva caber nos poucos caracteres permitidos nas legendas do Instagram…

Nosso sistema político e econômico é estruturalmente injusto: ele foi criado pra ser assim. Não é um erro de cálculo que pode ser consertado com uma versão “consciente” ou “verde”. Exploração (humana, não-humana e da terra) está no DNA do capitalismo. Desigualdade social é a condição pra que ele exista, beneficiando o 1% enquanto os outros 99% são esmagados. Na sua lógica irracional de expansão infinita e lucro acima de tudo/todos o capitalismo destrói as condições pra que a vida, como conhecemos hoje, continue existindo. Sair do capitalismo é uma questão de sobrevivência.

Diante dessa urgência sentir raiva é uma reação natural. Desconfio de quem demoniza a raiva e prega o “vamos amar a todos em qualquer circunstância / você é a única responsável pelo que sente, então escolha sentimentos bons”. Esse discurso serve dois propósitos. 1- Controlar a narrativa e taxar de radical, enraivado e irracional quem milita por uma mudança sistêmica e não se contenta com migalhas na forma de reformas superficiais. Só eles, que fecham com o capital e vendem seus princípios, tem uma postura “sensata”. Nós somos, na melhor das hipóteses, ingênuas, na pior, impedimos o suposto avanço que eles estão negociando por nós. 2- Suprimir nossa revolta e nos manter dóceis e obedientes, sendo exploradas e massacradas enquanto internamente cultivamos o amor e a compaixão pelos nossos opressores. Assim o sistema injusto se mantém protegido.

Só quem se beneficia da desigualdade social não tem motivos pra estar com raiva. Não, eu não mando coraçãozinho pra quem explora trabalhadores até que eles caiam de exaustão, enquanto sua fortuna se multiplica. Não faço parceria com quem abre fogo contra camponeses e grila território indígena pra expandir seu latifúndio. Não dialogo com quem mata milhões de animais por ano. Pra essas pessoas só tenho um recado: estamos em guerra.

E a minha raiva não vem de uma suposta falta de evolução espiritual ou de estratégia. Ela vem do amor. Amor pelo povo, tão sofrido. Pelos animais, assassinados aos bilhões todo ano. Amor pela natureza, que grita socorro. Amor pela justiça. 

Com amor, revolta e ira, sigo na luta.  

(Tradução pro cartaz na foto acima: “Fichado, com raiva, sem grana, mas fascista, não! Estamos aqui.” Veja que em francês essas palavras são bem próximas.)

Macarronada com berinjela e casca de banana

Eu acredito que as pessoas cozinham errado com casca de banana. Sabe esse negócio de usar casca de banana na culinária (“carne de casca de banana”, como algumas pessoas falam)? A ideia de reduzir o desperdício é ótima. A vontade de expandir a categoria de “carnes vegetais” também. Pra quem ainda tem apego pela ideia de “mistura”, parece ser uma opção extremamente acessível, afinal se trata de transformar algo que iria pro lixo em prato principal. Mas é exatamente aqui que a coisa desanda, na minha opinião. 

Sou a favor de usar todas as partes comestíveis dos vegetais. Mas quando essas partes comestíveis não são muito apetitosas, como é o caso da casca da banana, devemos colocar isso em prática de maneira inteligente. A lição aqui é algo que vi minha mãe fazer durante toda a minha infância: usar um ingrediente barato pra aumentar o volume do prato. O erro, ao meu ver, é achar que “carne de casca de banana” pode ser o ingrediente principal, ou que pode ser usada sozinha como recheios. Seria incrível se a casca da banana fosse, além de barata (na verdade, gratuita, já que ela acabaria no lixo), deliciosa. Mas sejamos honestas aqui: ela não é e vai precisar da ajuda de vários outros ingredientes pra se tornar interessante.

Estamos atravessando tempos difíceis e a fome está batendo na porte de milhões de pessoas no Brasil. Saber usar a totalidade dos vegetais, da casca à semente, é uma competência que precisa ser adquirida. E isso significa aprender que em muitos casos as partes que costumam ser descartadas dos vegetais são tão deliciosas, ou mais, do que a parte que costumamos comer (o talo do brócolis, as folhas da couve-flor…), e que podem inclusive ser consumidas sozinhas e apreciadas pelo seu sabor. Enquanto que em outros casos devemos aceitar que a maior contribuição da parte que seria descartada será a de “aumentar o pouco” (casca de banana, presente!).

Tudo isso pra dizer que na última vez que estive em Natal fiz uma macarronada que tinha casca de banana como um dos ingredientes e ficou supimpa. “A casca de banana deixou a receita supimpa?”, a pessoa que ainda acredita no potencial gustativo da casca de banana pergunta. Não e afirmo, sem medo de fazer inimizades no campo das empolgadas da “carne de casca”, que a receita teria ficado igualmente supimpa sem ela. A contribuição dela foi, como expliquei acima, aumentar o pouco. No caso, o pouco era a berinjela. 

Comecei falando de receitas pra enfrentar tempos de carestia e sei que alguns olhos vão revirar ao ver que tem castanha na receita, um ingrediente caro. Berinjela também não é o legume mais acessível em todos os lugares do Brasil. Sem falar que visto o preço do gás, usar o forno se tornou algo impensável pra muita gente no momento. Mas se você não puder fazer esse prato do jeitinho que eu explico aqui, espero que pelo menos a receita te ensine a preparar casca de banana e sirva de inspiração pra futuras comidas que sairão do sua cozinha. 

Macarronada com berinjela e casca de banana

Essa é mais uma daquelas receitas sem medidas, porque cozinha de panela e do dia-a-dia não precisa de medidas exatas pra dar certo. Use seu paladar, e o que estiver disponível, como guia que não tem erro. Pode usar casca de banana madura ou verde, caso você tenha cozinhado banana verde pra fazer biomassa, por exemplo. 

Casca de banana (qualquer banana – usei casca de banana da terra que eu tinha cozinhado pro café da manhã), picada miúdo

Cebola, picada

Tomates bem maduros, picados

Berinjela, em cubos pequenos

Alho, picado/amassado

Castanha de caju (qualquer tipo)

Molho de soja (shoyu)

Óleo ou azeite

Temperos: páprica defumada, pimenta preta, orégano desidratado

Sal 

Macarrão (usei conchas, mas qualquer um serve)

Cubra as castanhas de caju com água quente e deixe descansando enquanto prepara a receita.

Em uma panela pequena, despeje óleo (ou azeite) suficiente pra cobrir o fundo e frite a casca até ficar marrom-dourado. Tempere com bastante molho de soja e páprica defumada, se tiver, e reserve.

Em outra panela, maior, refogue a cebola em um pouco de óleo. Junte o alho e a berinjela, tempere com sal, refogue mais alguns segundos, baixe o fogo e deixe cozinhar, coberto, até a berinjela ficar macia. Não precisa acrescentar água, basta manter o fogo baixo, a panela coberta e mexer com uma colher de pau de vez em quando. Junte o tomate picado em quantidade (aproximadamente quatro vezes o volume da berinjela), junte mais um pouco de sal e deixe cozinhar, sempre coberto, até o tomate se desintegrar e se tornar um molho espesso. Junte a casca da banana frita, a pimenta preta e o orégano, prove e corrija o sal, se necessário. Capriche no tempero e deixe os sabores bem intensos, pois ainda vamos acrescentar creme de castanha e macarrão aqui.

Ferva uma quantidade grande de água salgada pra cozinhar o macarrão e enquanto espera ela ferver, finalize o molho.

Bata as castanhas (que ficaram descansando na água fervente) no liquidificador com água suficiente (a mesma) pra formar um creme ralo. Comece com pouca água e vá acrescentando mais até atingir a consistência de um leite espesso. Esse creme de castanha engrossa no calor, então não se preocupe se parecer ralo demais agora. Despeje o creme de castanha no molho de tomate-berinjela-casca de banana, misture bem e corrija o sal (vai precisar de mais depois de acrescentar as castanhas). A proporção de creme de castanha pra molho de tomate fica por sua conta, mas eu diria que o creme deve representar mais ou menos um terço do volume total.

Cozinhe o macarrão, mas escorra antes de ficar completamente cozido (80%, eu diria), já que ele ainda vai pro forno e vai continuar o cozimento lá. Misture o macarrão com o molho, coloque numa forma e leve ao forno quente pra terminar de cozinhar e gratinar um pouco (coloque no modo “grill”, se seu forno tiver essa opção). 

Retire do forno e deixe descansar alguns minutos antes de servir.

Como cozinhar pra semana inteira

A minha linguagem do amor primária é “palavras de afirmação” (eu convido todo mundo na minha vida a fazer o teste e te incentivo a fazê-lo também). Mas a segunda é “atos de serviço” e é aqui que entra a minha maneira preferida de mostrar amor por alguém: cozinhando. Eu cozinho quando quero levar reconforto pra alguém sofrendo de males do corpo ou da alma, pra aliviar a dor de um pé na bunda, pra alegrar alguém no final de um dia longo e exaustivo, pra conquistar o coração da mulher que decidiu habitar os meus pensamentos… E ontem passei a tarde cozinhando pra uma camarada de coletivo que torceu o tornozelo e está acamada há dias. 

Nosso coletivo é um apoio imenso pra nós. Se nos chamamos “Brigadas de Solidariedade Popular”, seria uma contradição ser solidária com a comunidade aqui, mas não praticar a solidariedade entre nós. Então enquanto escrevo essas linhas, Anne está na casa da camarada machucada fazendo faxina (além de ter levado toda a comida que cozinhei ontem). Mais cedo outro camarada do coletivo foi na feira pegar frutas e verduras frescas e depois foi deixar na casa dela. E hoje à noite outro camarada vai passar pra levar a cachorra que vive com ela pra passear. E isso se repete todos os dias. Criamos até um grupo Telegram pra organizar o apoio entre nós (quem vai passar pra passear com a cachorra, quem vai passar pra descer o lixo, etc).

E já que eu ia passar horas na cozinha, aproveitei pra fazer porções grandes de tudo e agora temos comida pra semana inteira aqui em casa também. Aí lembrei que há anos prometi explicar aqui no blog como cozinhar pra semana. Minha experiência como chef a domicílio me transformou numa ninja da preparação alimentar. Hoje consigo fazer comida pra toda a semana (almoço e jantar) em 3 ou 4 horas, dependendo da complexidade dos pratos. Isso incluindo a limpeza da cozinha depois! 

Se você não cozinha regularmente, quatro horas cozinhando direto pode parecer muito, mas  deixa eu explicar essa conta. Se você divide isso pelo número de refeições preparadas e depois subtrai todo o tempo lavando louça que você vai economizar durante a semana (quando a comida já está pronta, você suja muito menos louça pra esquentá-la. Menos ainda se você usar o microondas), a coisa fica mais interessante. Aí eu te peço pra pensar na sensação maravilhosa de chegar em casa cansada, depois de 11 hora de trabalho, mais dois metrôs (minha rotina atual), abrir a geladeira e se deparar com comida gostosa, caseira e prontinha pra ser degustada. Tudo que a separa do seu estômago são os minutinhos que vai levar pra esquentá-la. E se pensarmos na economia de gás e na redução de desperdício que cozinhar tudo de uma vez proporciona, você se dá conta que faz muito sentido cozinhar assim, principalmente durante a semana. Tem sempre a opção de pedir comida pronta, verdade. Mas além de menos saudável (nada supera comida caseira), isso custa um rim. 

Agora que você já se convenceu que essa maneira de cozinhar só tem vantagens, deixa eu explicar como faço. 

Tem duas maneiras de proceder. A primeira é fazer uma lista de pratos que você gosta de comer e depois criar uma lista de compras com os ingredientes necessários pra preparar os ditos pratos. É assim que faço quando trabalho como chef a domicílio e posso fazer outro post no futuro detalhando isso. Mas quando cozinho em casa geralmente parto do que já tenho e crio o cardápio em função do que está disponível na geladeira e no armário. Claro que se você fizer isso no final do mês, com uma despensa vazia, suas opções serão bem limitadas (mas nada é impossível e volto aqui outro dia pra falar disso). Idealmente você vai fazer isso depois de ter feito compras ou, no mínimo, quando ainda tiver uma pequena variedade de vegetais frescos na geladeira e ingredientes secos na despensa. Então vou contar como fiz ontem, passo a passo, e você pega o que for útil e adapta o resto pra funcionar na sua cozinha. 

1- Eu abro a despensa, a geladeira e o congelador e vejo o que tem disponível e o que precisa ser preparado em prioridade (porque já está passando do ponto). Pra realmente “ver”, coloco tudo em cima da mesa/bancada (no meu caso, fogão apagado e pia, porque minha cozinha é muito mal equipada). 

2- Separo por categorias: cereais, leguminosas, vegetais frescos, condimentos e restos. “Restos” pode tanto ser o resto da refeição de ontem quanto um grão de bico cozido que dormia na geladeira, esperando pra ser usado.

3- Pra ter refeições nutritivas, variadas e, muito importante, que encham a pança, incluo leguminosas em todos os pratos. Imagine que se você estivesse construindo uma casa, as leguminosas seriam os tijolos, enquanto cereais seriam o cimento e as verduras, o reboco. Então escolho duas ou três leguminosas pra ser a base do cardápio da semana. Pra simplificar, pode ser só uma. Um feijão, por exemplo. Basta mudar os acompanhamentos. Lembre de deixar as leguminosas de molho no dia anterior. (Eu não lembrei e fiz assim mesmo, na pressão. É menos digesto? Com certeza! Mas a outra opção era ficar sem leguminosas e isso, na verdade, não é uma opção.)

(Se você perdeu essa aula, leguminosas são feijão, lentilha, tofu, tempeh, ervilha, grão de bico e fava. Cereais são: arroz, macarrão, cevada, milho… Pra conhecer a fórmula da saciedade, leia esse post.)

4-Vou combinando as verduras e os cereais disponíveis com as leguminosas e ideias de receitas vão aparecendo na minha mente. Escrevo a lista de pratos (com os ingredientes principais) num papel, pra ir me guiando enquanto cozinho. Mas isso é só um ponto de partida. Ontem mudei de ideia algumas vezes durante a maratona na cozinha e acabei preparando coisas que não estavam na lista inicial e deixando outras de fora. Também não usei tudo que achei na despensa.

5- À partir daqui já começo a cozinhar, mas deixo algumas dicas pra quem tem menos experiência com panelas. Selecionou as receitas? Separe os ingredientes por receita, pra facilitar seu trabalho (assim vai mais rápido) e não esquecer aquela cenoura que precisava ser usada hoje e que ficou escondida atrás do escorredor de pratos. 

6- Aproveite ao máximo seu fogão combinando coisas que não precisam da sua atenção pra cozinhar e coisas que precisam de uma colher de pau mexendo sempre. Enquanto o grão de bico cozinhava eu refoguei várias coisas e coloquei as batatas doces pra assar. Quando tirei as batatas doces já coloquei o macarrão pra gratinar, pra aproveitar que o forno já estava quente.

7- MUITO IMPORTANTE: vá lavando a louça conforme a pia for enchendo. Pra evitar a montanha de louça suja no final e, se você tiver poucas panelas, como eu, porque não vai dar pra continuar sem fazer isso. Sem falar que, por ter uma cozinha pequena, logo fico sem espaço pra fazer nada se não for lavando a louça por etapas. Aliás, adquira o hábito de ir limpando tudo conforme for sujando (mesa, bancada).

Quando trabalho na casa de clientes faço a “mise en place” de tudo antes e as coisas fluem e tudo vai mais rápido. Explicações sobre “mise en place” outro dia, o post de hoje é só pra começar a conversa sobre essa maneira de cozinhar.

Na minha despensa tinha alguns feijões, grão de bico, lentilha, arroz, cevada, milho em lata, macarrão, uma caixinha de creme de leite de soja (que comprei pra experimentar meses atrás), pasta de castanha (de descarte. A ocupação que serve de base pro nosso coletivo recebeu caixas e mais caixas de pasta de castanha vencida de apenas uma semana!)… Na geladeira tinha alguns legumes tristes (de descarte), vários restinhos (arroz com cenoura, cogumelo com creme de castanha…), além de tempeh (de descarte, vencido há alguns dias), tofu defumado (idem) e um queijo feta (de soja) que chegou no lugar onde eu trabalho com a embalagem rasgada e eu trouxe pra casa. Como agora tem uma horta no nosso quintal, também tinha ervas frescas (hortelã, salsinha, coentro e manjericão) e couve. 

Eu acabei preparando:

-Chili com tempeh (feijão vermelho com a mistura típica mexicana de temperos)

-Lentilha com tofu defumado e batata doce assada

-Salada de cevada com tomate, pepino, feta (de soja) e hortelã

-Sopa de aveia (com creme de leite de soja)

-Macarrão gratinado, com molho de castanha e couve (mais o resto do cogumelo  com creme)

-Grão de bico com tomate e tahina (mais um resto de berinjela grelhada)

-Mexidão de arroz com todos os restos de legumes (e até uma metade de grãomelete) que achei na geladeira, no congelador (resto de ervilha) e na despensa (proteína de soja temperada que tive que testar pro trabalho)

-Bonus: bolinhas de passas, coco e limão (fiz essa receita, mas na forma de bolinha e sem gergelim)

-Bonus 2 (que não apareceu nas fotos): hummus suficiente pros cafés da manhã/lanches da semana.

Preparei quatro porções de quase tudo, com exceção do macarrão gratinado (fiz seis porções) . Uma porção de cada prato (duas do gratinado) foi pra camarada que não pode cozinhar no momento e o resto vai alimentar Anne e eu durante os próximos dias. Se estivesse cozinhando só pra minha casa, teria feito menos pratos, três ou, no máximo, quatro, e repetiria durante a semana. Mas eu queria fazer um mimo pra camarada doente, então fiz uma variedade maior. Cozinhei alguns dos ingredientes que entrariam nas receitas em quantidades maiores e guardei no congelador (grão de bico e cevada). Semana que vem eles entrarão como “restos” e, por já estarem preparados, vão diminuir meu tempo de trabalho. 

Respostas pras futuras perguntas

“E se eu quiser comer outra coisa durante a semana?”

Seguinte. Se você tiver grana pra pedir comida pronta, talvez o “não estou com vontade de comer isso hoje” apareça. Mas se você, que chegou cansada do trabalho/faculdade/militância, tiver que preparar outra coisa no lugar, garanto que a refeição prontinha te esperando na geladeira vai te parecer a coisa mais apetitosa do mundo. Mas vale a pena falar o óbvio: escolha receitas que você gosta. Não adianta nada fazer três pratos com lentilha se você não gosta de lentilha.

Como saber se terei vontade de comer, daqui a cinco dias, o que preparei hoje?”

Leia a resposta acima. Mas se quiser ter mais liberdade pra preparar refeições de acordo com seus desejos diários recomendo cozinhar, não pratos, mas ingredientes. Prepare um feijão (sem tempero), um cereal, alguns legumes assados, um molho gostoso e vá misturando isso com verduras frescas durante a semana, de acordo com suas vontades. 

Tive uma semana caótica, as coisas não saíram como planejado e acabei comendo fora várias vezes. Cheguei no final da semana e ainda tem vários pratos não consumidos na geladeira.”

Congele tudo e coma semana que vem, ou quando precisar.

“Sou nova na cozinha e não sei improvisar receitas simplesmente olhando pra um quilo de feijão, um tomate e um resto de arroz.”

Reconheço que essa técnica é avançada e se você está começando a cozinhar agora, provavelmente não vai conseguir improvisar vários pratos diferentes somente olhando pro que tem na despensa. Pra quem é debutante, o método “fazer lista de pratos, depois fazer a lista de compras” funciona melhor. Como falei, volto aqui outro dia pra explicar essa técnica em detalhes.

Últimas dicas

-Uma despensa minimamente estocada é o ponto de partida pra cozinhar dessa maneira. Uma gordura pra cozinhar (óleo ou azeite), sal e pimenta preta, pelo menos uma erva desidratada (orégano é a mais versátil) e cebola e alho são a base pra mim.

-Pense em pratos únicos. Eu adoro o almoço brasileiro, mas ter feijão+arroz+verdura cozida+salada+uma mistura todo dia significa muito tempo na cozinha. Na Europa, de onde estou escrevendo essas linhas, é mais comum ter pratos únicos, que combinam vários ingredientes e que reduzem o tempo de trabalho, além da quantidade de louça suja. Aqui no blog tem várias receitas de pratos únicos pra te inspirar.

Enquanto terminava de escrever esse post, recebi uma mensagem da camarada que está com o tornozelo torcido. Ela me agradeceu muito pela comida e disse que há dias só se alimentava de hummus e pão, por não conseguir ficar em pé tempo suficiente pra preparar uma refeição. “E tudo parece delicioso!” A melhor parte de cozinhar, na minha opinião, é levar alegria, amor e acalento pra barriga das pessoas que importam pra mim. E me incluo nessa lista de pessoas que importam pra miim.

Beba a minha terra

Quando a busca por pertencimento passa por ervas selvagens ou a história de refugiadas palestinas conectando-se às suas terras ancestrais por meio de um xícara de chá de ervas.

Para refugiados e refugiadas palestinas, o chá de ervas representa mais, muito mais, do que uma mistura de plantas e água quente. Elas bebem o “Balad”, a terra ancestral da qual foram expulsas. Elas bebem as lembranças da infância, as canções e as histórias das gerações que vieram antes delas. Elas bebem as colinas e vales proibidos que aparecem nos olhos úmidos de suas avós. E no caso de Sidra* e sua família, também bebem o suor, a ansiedade e o sorriso cauteloso de um camponês que atravessa muros, fronteiras e o poder colonial que entrincheira o povo palestino para trazer-lhes um pedaço daquela terra proibida, presente em um punhado de ervas.

Tudo começou no dia em que Sidra, uma refugiada palestina da terceira geração, me disse que tinha encontrado salsinha do seu povoado natal na feira, mas que não tinha podido trazer a erva para casa porque ela era mais cara do que as ervas cultivadas localmente e não cabia no seu orçamento.

Conheci Sidra que mora em um dos 19 campos de refugiados da Cisjordânia1 ocupada, quando me mudei para a Palestina em 2008. Criamos juntas um projeto para mulheres refugiadas, colaboramos durante alguns anos e nos tornamos amigas. Seus avôs e avós foram expulsas de seu povoado natal por milícias sionistas em 1948. A maior parte das terras desse povoado foi colonizada por residentes do recém-criado Estado de Israel, mas uma área permanece inabitada e as ruínas de algumas casas de pedra, antigo lar das habitantes nativas, são testemunhas da vibrante comunidade que um dia viveu naquele lugar. A salsinha que Sidra tinha visto na feira vinha das plantações próximas da colônia israelense que fica no topo das terras antes habitadas pela sua família. Lembro da dor na sua voz quando ela anunciou: “Não consigo nem sequer comprar as ervas que crescem nas nossas terras.”

Sidra cresceu ouvindo as histórias de sua avó materna. Histórias que descreviam o que a anciã considerava como lar. Um lugar onde as uvas tinham um sabor que não podia ser comparado a nada que crescia perto do campo de refugiados onde elas moram. Onde os pepinos tinham um gosto e cheiro deliciosos, enquanto os vendidos na feira local eram insípidos e inodoros. A avó falava das amendoeiras, dos pés de damascos e das oliveiras no pomar familiar e do quanto ela sentia falta de seus frutos. Por isso Sidra sonhava, desde muito pequena, em comer aquelas frutas e verduras. Ela nunca conseguiu visitar o povoado de seus avôs e avós, apesar do lugar estar a apenas 30 km de distância de onde ela mora hoje. Um muro de concreto, construído por Israel, bem como soldados israelenses e postos de controle militar, separam os dois lugares. Mas esses não são os únicos obstáculos entre Sidra e a terra de sua família. Como acontece com qualquer pessoa palestina da Cisjordânia ou da Faixa de Gaza ocupadas, ela precisa de uma autorização israelense2 para cruzar a Linha Verde (fronteira entre Israel e a Cisjordânia, reconhecida pela comunidade internacional), um documento que não é fácil de obter. Aquela salsa que ela não pôde comprar era o mais perto que ela conseguiria chegar de sua terra natal. Uma passagem comestível que a levaria, através do paladar, até lá.

Depois da minha conversa com Sidra sobre a salsinha comecei a perceber que essa saudade de frutas, legumes e ervas que crescem no lado proibido da Linha Verde era um fio condutor que unia palestinos e palestinas desenraizadas. Isso ficou evidente durante as entrevistas que fiz mais tarde com sobreviventes da Nakba, a “catástrofe” de 1948, quando as milícias sionistas expulsaram dois terços do povo palestino da Palestina histórica, que se tornaria em seguida o maior grupo de refugiados e refugiadas no mundo. Estes palestinos e palestinas eram adolescentes ou jovens adultas durante a Nakba. Sempre que eu lhes perguntava como era a vida em suas cidades e vilarejos de origem, elas falavam sobre a comida que crescia na terra e sobre o quanto elas sentiram falta dela.

Isso passou a me intrigar. Refugiados e refugiadas palestinas que vivem na Cisjordânia ocupada ainda têm acesso ao tipo de alimento que comiam em seus povoados de origem. A Palestina histórica é um território pequeno e você encontra mais ou menos os mesmos produtos alimentares onde quer que vá. Apesar de acreditar na sinceridade da avó de Sidra e das outras sobreviventes da Nakba com quem conversei quando elas elogiavam o sabor superior de qualquer coisa que crescia em suas terras, acho pouco provável que as frutas e legumes colhidos a apenas alguns quilômetros de distância de onde vivem hoje sejam significativamente superiores em termos gustativos. 

Os métodos agrícolas modernos, com suas sementes híbridas e agrotóxicos, empurrados para as agricultoras palestinas pelo agronegócio israelense ao longo dos anos, são provavelmente os verdadeiros culpados pela falta de sabor dos vegetais vendidos nos mercados palestinos hoje. É importante acrescentar aqui que muitas agricultoras e agricultores nunca pararam de usar sementes crioulas e ainda cultivam a terra da maneira tradicional, por isso é possível encontrar vegetais incrivelmente saborosos na maioria das cidades e povoados palestinos. Então comecei a desconfiar que, no fundo, não era exatamente do sabor dos vegetais que as sobreviventes da Nakba sentiam falta, mas sim de algo muito mais profundo.

Como antiespecista, me chamou a atenção o fato de as refugiadas que entrevistei nunca falaram sobre os alimentos de origem animal que comiam em seus vilarejos e povoados de origem. Por não estarem fisicamente conectados à terra, como é o caso das plantas, animais são atravessadores entre a comedora humana e o território. O mais perto que você pode chegar de comer uma terra sem realmente colocá-la na boca é comendo os vegetais que crescem nela. Para as sobreviventes da Nakba, alimentos vegetais representavam a conexão perdida com sua terra de origem. E era isso que as refugiadas palestinas nascidas no exílio desejavam: sentir o gosto do pertencimento.

Alguns anos atrás eu fui almoçar na casa de Sidra, no campo de refugiados em Belém, como eu fazia com frequência. Depois dos cumprimentos e beijos da chegada, ela disse que queria me mostrar algo. Sidra me levou para o pequeno pátio atrás de sua casa e apontou para uma bandeja de metal redonda, onde ervas de um verde pálido secavam. Vendo meu olhar de incompreensão, ela disse com uma voz cheia de alegria:

“São ervas do meu povoado!”

Enquanto preparava o chá com um punhado dessas ervas aromáticas, chamadas ‘corniyeh’ em Árabe, ela explicou como as obteve.

“Tem esse homem que vem ao campo de refugiados de vez em quando e vende corniyeh, za’atar3 e sálvia de nossos povoados em 48 (48 é o nome que palestinos e palestinas usam para se referirem às suas terras ancestrais, terras que hoje são consideradas parte do Estado de Israel, em referência ao ano em que a colonização sionista começou). Eu o conheci quando era criança. Minha avó estava conversando com uma vizinha na rua e de repente ela disse ‘Estou sentindo o cheiro do meu povoado!’ Alguns segundos depois ele apareceu na esquina da rua, empurrando um carrinho cheio de ervas frescas do nosso povoado.”

No dia em que descobri que havia um palestino levando ervas selvagens para refugiadas palestinas, ervas que tinham crescido em seus povoados de origem, também aprendi a visitar um lugar sem sair do sofá. Sidra colocou uma xícara da infusão feita com as ervas da aldeia de suas avós na minha mão e disse: “Esta é a minha terra. Beba a minha terra.”

Sidra também falou sobre como era importante que seus filhos e filhas consumissem essas ervas. “Minhas crianças não gostam de beber chá de sálvia, mas é bom para o estômago, então quando eles têm dor de estômago eu faço chá de sálvia. Elas sempre reclamam do sabor se estou usando sálvia normal, mas quando a sálvia é do nosso povoado eu aviso, então elas bebem o chá felizes. ”

Demorou anos até que eu finalmente pudesse encontrar o vendedor de ervas. Nunca sabemos quando ele vai aparecer e, por fazer um trabalho extremamente arriscado – ele foi detido por soldados israelenses e colocado na prisão várias vezes – ele pode desaparecer por meses. Além disso, por razões compreensíveis, ele estava relutante em falar com uma estrangeira. Cruzar a Linha Verde sem autorização não era a única lei israelense ele estava quebrando.

Em 1977, o Ministério do Meio Ambiente de Israel listou za’atar, sálvia e akoub4 como “espécies protegidas” pela lei. A justificativa foi que essas plantas estavam ameaçadas de extinção. Como resultado, tornou-se crime colher, possuir ou comercializar essas plantas e muitos palestinos e palestinas foram indiciadas e condenadas por não respeito a essa lei. A proibição de colher essas plantas não se baseia em uma base factual confiável. Qualquer pessoa que tenha visitar a Palestina pode observar que za’atar e sálvia crescem abundantemente pelas colinas. Por isso em 2019 a organização Adalah – Centro Legal de Direitos de minorias Árabes em Israel – entrou com uma ação na justiça israelense para exigir a descriminalização da colheita de za’atar, sálvia e akoub e o fim da perseguição a coletores e coletoras de ervas palestinas. Em resposta, as autoridades israelense declararam que “iriam rever as leis de proibição para permitir a colheita para o uso pessoal”.

Proibir palestinas de acessar alguns dos ingredientes mais importantes da sua culinária é mais uma tentativa israelense de destruir a identidade palestina, atacando sua cultura alimentar e abrindo caminho para a limpeza étnica contínua do povo palestino. Como a escritora palestina Mariam Bargouti disse: “Nós, palestinos e palestinas, não estamos sendo expulsas de nossas cidades e terras ancestrais apenas por meio de demolições de habitações, colônias ilegais, revogações arbitrárias de residência ou balas. Nós também estamos sendo expulsas pela impossibilidade, fruto de um esforço sistemático, de exercer nosso modo de vida próprio dentro do nosso próprio país.”

Foi quando fiquei sabendo do que acontecia em Al-Araqib que pude ter a dimensão da importância do za’atar para o povo palestino. Al-Araqib é um vilarejo beduíno palestino no deserto do Naqab, tristemente famoso por ter sido destruído mais de 170 vezes pelas autoridades israelenses desde 2010. Enquanto as escavadeiras israelenses demoliam, mais uma vez, habitações e tanques de água, as pessoas que fazem parte dessa comunidade cantavam: “Permaneceremos / Permaneceremos / Enquanto houver za’atar e azeitona.” 

Colher za’atar selvagem é um ato de resistência, assim como beber erva-mate em 1616, quando o governador do Paraguai proibiu seu consumo, descrevendo-o como um vício. Que força, eu me pergunto, reside nessas ervas para obrigar os colonos a bani-las e a tratá-las como uma ameaça à segurança?

Ciente do risco que aquele palestino corria para realizar um ato de resistência tão carregado de simbolismo, eu seguia decidida a conhecer o “traficante de ervas”, como passei a me referir a ele. Até que em uma manhã de primavera em 2019 Sidra me ligou dizendo que não só o vendedor de ervas tinha sido libertado da prisão israelense, mas que ele estava no campo de refugiados naquele momento e tinha finalmente concordado em falar comigo. Corri para a casa da minha amiga, onde tive que esperar algumas horas, com uma ansiedade que as muitas xícaras de chá oferecidas por ela não conseguia aliviar, até que ele terminasse de vender a carga de ervas daquele dia.

Ele finalmente apareceu acompanhado por um de seus filhos, os últimos ramos de cornyieh no fundo de seu carrinho. Depois do café e da baklava, doce típico recheado com nozes ou amêndoas, oferecidos por Sidra, ele aceitou responder as minhas perguntas.

“Comecei a fazer esse trabalho com meu pai, no início dos anos 80, quando era muito mais fácil cruzar a Linha Verde. Eu não sou a única pessoa trazendo ervas selvagens de aldeias palestinas despovoadas em 48 para seus habitantes originais, agora morando em campos de refugiados. O exército israelense me prendeu algumas vezes, sim. Da última vez, eles invadiram minha casa durante a noite e atiraram no meu filho”. O filho dele levantou a camisa e nos mostrou as cicatrizes.

“Naquela noite fui preso com outro filho meu, que ainda está na prisão. Eu continuo fazendo esse trabalho porque conseguir um emprego é muito difícil na Palestina. Tenho poucas opções. É colhendo e vendendo essas ervas que consigo colocar comida na mesa da minha família. ”

Seu filho tirou o telefone do bolso e nos mostrou fotos dos povoados onde eles colhem ervas. A família da minha amiga nunca tinha visto fotos dopovoado de origem dos seus avôs e avós e foi um momento de muita emoção. “Você poderia nos enviar essas fotos, por favor? ” pediu o marido de Sidra.

Esperei anos por este encontro e confesso que imaginei que seria algo mais espetacular, com histórias sobre caminhos complicados para chegar às aldeias destruídas e maneiras astutas de evitar ser pego por soldados israelenses. Mas na minha frente estava um camponês humilde que, além de conduzir o arriscado negócio de ervas, também cultivava um pequeno pedaço de terra ao lado de sua casa, apesar de todas as restrições ao acesso à água, impostas pelo governo israelense às agricultoras e agricultores palestinos. Ele não via heroísmo nenhum em suas ações.

“Você não tem medo de continuar atravessando a fronteira depois de ter sido preso tantas vezes? ” perguntei. Ele se contentou em balançar negativamente a cabeça e seu filho, se dirigindo a mim pela primeira vez, acrescentou: “É a nossa terra. Por que deveríamos ter medo de andar na nossa própria terra? ”

Quando eu disse a Sidra que gostaria de escrever sobre a história do vendedor de ervas, ela quis compartilhar comigo algo extraordinário que aconteceu há muitos anos. Um dia a avó de Sidra foi visitar seu filho, um combatente da liberdade (pessoa que participa da resistência armada à colonização israelense da Palestina) servindo uma pena de 30 anos em uma prisão israelense. Essas visitas só são possíveis com uma autorização israelense e a logística é controlada pelo exército. As pessoas palestinas indo visitar seus familiares presos se reúnem em um posto de controle militar israelense e um ônibus especial as leva diretamente para a prisão, no deserto do Naqab, dentro da Linha Verde. Elas não podem ir a nenhum outro lugar do lado de lá da fronteira e o ônibus nem sequer tem autorização para parar no caminho. Mas naquele dia o ônibus onde se encontrava a avó de Sidra quebrou enquanto voltava da prisão e o motorista foi obrigado a parar em uma movimentada estrada israelense, que passa do lado de uma floresta. As passageiras, quase todas mulheres e idosas, desceram do ônibus para esperar do lado de fora enquanto o motorista tentava consertar o motor. A avó de Sidra reconheceu o lugar onde tinham parado: “Estamos perto do meu povoado”, ela disse às outras mulheres. Então algo extraordinário aconteceu. As mulheres, lideradas pela avó de Sidra, começaram a caminhar na direção da floresta, enquanto o motorista gritava, desesperado: “Voltem! Você não têm autorização para pisar aí! ” Ignorando os gritos do motorista e a lei imposta pelo poder colonial, elas atravessaram a floresta e caminharam até o povoado palestina despovoado em 1948, que elas não tinham visitado desde então. Chegando lá elas sentaram-se sob as árvores, ao lado das ruínas das casas, e choraram. E, claro, elas não foram embora sem antes colher as ervas silvestres que nascem ali, que elas carregaram consigo de volta ao campo de refugiados.

Epílogo

Depois do encontro com o vendedor de ervas visitei o povoado da família de Sidra. Como estrangeira, posso cruzar a Linha Verde sempre que quiser e, graças a um aplicativo desenvolvido por palestinas residentes em Israel, consegui encontrar sua localização exata. Depois de caminhar um pouco pelo local avistei as ruínas de algumas casas de pedra e um poço. Todo o resto tinha sido destruído, mas as oliveiras e as amendoeiras ainda estavam lá. Sentei-me debaixo de uma árvore, assim como a avó de Sidra tinha feito, e liguei para a minha amiga.

“Minha querida, adivinha onde estou?” perguntei.

Sidra não teve dificuldades em adivinhar e perguntou, brincando, se eu tinha encontrado a casa da sua avó. Sem surpresa, ela encerrou a conversa com um pedido: ”Por favor, colha za’atar ou qualquer outra erva que você encontrar aí e traga para mim.” E foi o que fiz. Escondi um enorme buquê de za’atar e alguns ramos de sálvia na minha mochila e no caminho de volta, enquanto atravessava um posto de controle militar israelense, não pude deixar de rir do fato de que eu também tinha passado a traficar ervas.

Za’atar.

*Os nomes foram modificados no artigo.

1- “Cisjordânia” faz referência à parte da Palestina histórica que fica entre a Jordânia e o que é conhecido hoje como Israel. A Cisjordânia é lar de mais de 3 milhões de palestinos e palestinas, das quais quase 900 mil são refugiadas (de acordo com a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Médio). A população palestina na Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental vive sob o controle total do exercito israelense, num regime de ocupação militar, desde 1967. 

2- Pessoas palestinas vivendo na Cisjordânia e na Faixa de Gaza precisam de uma autorização do governo israelense para entrar no resto da Palestina histórica. Essa autorização não é fácil de conseguir, por isso muitas pessoas palestinas nunca saíram dos enclaves onde estão confinados pela colonização israelense. 

3- Za’atar é uma erva da família do orégano (Origanum syriacum), que é a alma da culinária palestina (e dos países vizinhos). 

4- O nome botânico dessa planta é gundelia. Ela cresce de maneira selvagem nas montanhas e no início do ano palestinas colhem o akoub jovem, que é considerado uma iguaria na culinária palestina. Seu sabor delicado lembra aspargos e alcachofra. 

(Escrevi esse texto como parte do projeto Baladi, que documenta iniciativas palestinas de resistência ao colonialismo israelense através da agricultura. Baladi é um projeto multimídia, feito por uma equipe de 4 pessoas: Anne Paq, fotógrafa francesa, Craig Redmond, cinegrafista britânico, Ahmad Al-Bazz, fotógrafo palestino e Sandra Guimarães, escritora – no caso, eu mesma;) O texto foi publicado em setembro de 2021 nos Cadernos do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares (Obha), da Fiocruz, mas eu queria muito que ele fizesse parte do blog também.)

Panquecas de milho e grão de bico

É domingo e eu não vou tomar muito o tempo de vocês.

Sabe meu grãomelete fermentado? Quando estou no Brasil e quero variar os prazeres, ou comer algo diferente no lanche, mas que seja prático e rápido, misturo um pouco de fubá na massa já fermentada, deixo hidratando um momento (ou, melhor ainda, de um dia pro outro) e faço panquecas de milho e grão de bico. Dá pra comer pura, acompanhada de um recheio salgado ou doce, e é uma delícia.

Se vocé não sabe o que é grãomelete, é como chamo o “omelete” feito com farinha de grão de bico e água. As instruções de como fazer essa receita coringa da culinária vegetal, e do por que e como fermentar seu grãomelete, estão nesse post.

Respondendo as futuras perguntas:

1-“Quanto de fubá?” O quanto quiser. Vai no olho, mesmo. Claro que se você colocar demais, a massa vai ficar super compacta e isso nós não queremos. “O que nós queremos?”, você pergunta então. Uma massa mais espessa que a do grãomelete, mas ainda bem fluida. E quanto mais fubá, mais crocante e mais intenso o sabor de milho.

2- “Tem que juntar o fubá antes ou depois de fermentar?” As duas coisas funcionam. Gosto de já misturar o fubá com a farinha de grão de bico (e a água) à noite, deixar fermentando de um dia pro outro e usar no dia seguinte. Mas quando acho uma massa de grãomelete já fermentada na geladeira, misturo um pouco de fubá, junto mais um bocadinho de água e deixo hidratando pelo menos por 20 minutos (quando mais tempo, melhor, pois ficará mais macio). Depois é só esquentar um pouco de óleo ou azeite numa frigideira, de preferência antiaderente, espalhar a massa em uma camada fina e fazer panquequinhas ou uma panqueca maior.

3- “Dá pra fazer com farinha de milho no lugar do fubá?” Só uso fubá flocado (o que chamamos de “flocão”), que é pré-cozido e fica macio em pouco tempo, por isso dá pra misturar, deixar repousar 20 minutos e já cozinhar. Mas dá pra usar farinha de milho também. Quanto mais fina a farinha, melhor. E nesse caso realmente recomendo misturar a farinha de milho com a farinha de grão de bico na véspera.

Sobre temperos. Sal é essencial (mesmo se pensar em comer sua panqueca com um recheio doce). Pimenta preta, ervas desidratadas ou frescas, cebola em pó (ou flocos), cominho… Tudo dá certo (talvez não ao mesmo tempo). Use a combinação de ervas e especiarias que você gostar que não tem erro.

Sobre líquidos. Água é bom. Leite de coco fresco é ainda melhor. Fica um desbunde. Não tem leite de coco fresco? Usa um leite de coco industrializado de boa qualidade, diluído com um pouco d’água. Nesse caso o sabor de coco ficará mais forte (com o leite fresco ele é imperceptível), mas isso nem sempre é algo indesejável.

Bom domingo e força pra quem vai levantar cedo pra pegar no pesado amanhã (presente!).

Onde o meu coração se sente em casa

Ontem foi o aniversário de 74 anos da Nakba (catástrofe” em Árabe), a triste data que lembra o momento em que 2/3 da população palestina foi expulsa de suas terras e se tornou refugiada. Quando a maior parte da Palestina histórica foi ocupada e colonizada. Mas eu não queria falar sobre isso hoje. Gostaria de trazer um post dos arquivos Papacapim que é muito pessoal e fala sobre Jerusalém, a minha cidade preferida no mundo. A que me fez me apaixonar pela Palestina, sua comida, seu povo e sua cultura. O lugar onde, quando meus pés tocam a terra, minhas narinas sentem o cheiro do pão com gergelim assado dentro dos muros da cidade antiga, e meus olhos encontram as pedras douradas das construções históricas, meu coração se sente em casa.

Me apaixonar não estava nos meus planos

Mês passado fez seis anos que cheguei na Palestina de mala e cuia, decidida a morar na terra santa. Ainda lembro perfeitamente desse dia. Na verdade lembro perfeitamente, com minúcia de detalhes, dos dias que antecederam minha chegada também. E Jerusalém está no coração desses eventos. Já contei pra vocês como fui parar na Palestina? Então procurem um assento confortável e uma caneca de chá que lá vem história.

A primeira vez que coloquei os pés em Jerusalém foi no final de 2007. Fazia alguns anos que a vontade de visitar a Palestina me acompanhava. Culpa de um episódio aparentemente banal. Um dia eu estava no aeroporto, indo de Paris pra Budapeste, e percebi que não tinha levado nada pra ler durante a viagem. Passei pelo quiosque de livros e encontrei uma revista de antropologia que tinha dedicado uma edição inteira à Palestina. História, política, conflito, muro, ocupação, tudo o que eu sempre quis saber sobre o assunto estava ali. Até hoje penso onde estaria e como seria minha vida se eu não tivesse encontrado aquela revista. Tudo que eu não teria vivido, todas as pessoas que eu não teria conhecido… Nunca se sabe qual pequeno detalhe vai mudar a trajetória da sua existência.

A leitura daquela revista me deixou em estado de choque durante meses. Eu perdi noites e mais noites de sono pensando nos palestinos, na ocupação israelense e em como a ignorância nos faz ser cúmplices de tantas injustiças mundo afora. E uma vontade irresistível de visitar a Palestina se instalou no meu peito.

Anos depois estava eu mais uma vez no aeroporto em Paris, dessa vez indo passar três semanas na Palestina e em Israel. Estava indo fazer um trabalho voluntário de duas semanas em Belém, depois passaria uma semana visitando algumas cidades israelenses, porque eu queria conhecer os dois lados do muro. Na fila do check in conversei com um senhor palestino de Nazaré. Ele contou que estava indo visitar a família, eu expliquei que estava indo fazer um trabalho voluntário na Palestina. O senhor arregalou os olhos e disse: “Minha filha, não diga isso no aeroporto, senão você terá problemas com a imigração israelense”. Eu tinha lido depoimentos de pessoas que tinham tido dificuldades pra sair do aeroporto porque disseram que iam visitar a Palestina, mas tinha decidido não mentir. Culpa da minha mãe.

Quando eu era pequena minha mãe contou uma história que aconteceu ali mesmo, na terra santa. Ela disse que depois do nascimento de Jesus, Maria, José e o filho recém nascido precisaram fugir de Belém porque o rei malvado (Herodes) tinha ordenado que todos os meninos da região fossem assassinados. Ele estava com medo de perder o trono pro bebê que tinha acabado de nascer. Maria escondeu Jesus num pote (seco!) e subiram os três na carroça rumo à Nazaré. No caminho uma patrulha romana parou a carroça e perguntou à Maria: “O que tem dentro desse pote?”. Maria sabia que se o filho fosse descoberto seria imediatamente assassinado, então perguntou a Deus o que fazer. Deus falou no ouvido dela: “Passe com a verdade.” Então Maria obedeceu e disse: “Dentro do pote tem um menino”. Os soldados romanos caíram na risada e disseram: “Se tivesse um menino aí você nunca nos contaria, pois sabe muito bem que estamos matando todos os meninos da região.” E eles passaram sem problemas.

Eu sabia perfeitamente que minha mãe contava aquilo pra que eu nunca mentisse pra ela, mas não sei por que cargas d’água me senti toda iluminada naquele dia e decidi que já que eu estava indo pra Belém, eu ia passar com a verdade no aeroporto. Acontece que a moça da imigração israelense não reagiu como os soldados romanos da história da minha mãe. Quando eu disse que estava indo visitar Belém ela fechou a cara e declarou: ‘Eu não quero você em Israel’. E antes que eu pudesse responder que depois de ter sido acolhida com tanta hostilidade eu é que não queria mais e que por favor me deixasse passar que eu trataria de ficar só na Palestina, policiais tomaram meu passaporte e me levaram pra uma salinha onde fui interrogada por várias pessoas, durante duas horas. Entre uma pergunta e outra (perguntaram o nome do meu pai mais de vinte vezes e como eles nunca pareciam convencidos, eu também comecei a duvidar. Será que era aquele mesmo o nome do meu pai?) minha mente ia de ‘nem cheguei e já vão me deportar?’ pra ‘mas que crime eu cometi, gente?’ pra ‘vão me deportar agora’ pra ‘mas eu não fiz nada de errado’ etc. Parece que o nome disso é tortura psicológica.

Essa foi a primeira de muitas experiências traumáticas naquele aeroporto. Eu ainda não sabia, mas aquela estava longe de ser a pior. Hoje eu sei que tem situações onde passar com a verdade NÃO é uma boa ideia e se o próprio Jesus tentasse cruzar o checkpoint de Belém hoje ele seria impedido (um palestino barbudo disposto a morrer como mártir?! HÁ!). Quando finalmente me liberaram fui procurar minha mala e qual não foi a minha surpresa quando vi o senhor palestino sentadinho do lado da esteira. Ele tinha ficado me esperando aquele tempo todo. Quando me viu falou: “Minha filha, fiquei com medo de não te deixarem passar. Já estava perdendo a esperança.” Ele me mostrou onde pegar a van que me levaria pra Jerusalém e me deu o telefone da família em Nazaré, caso eu precisasse de alguma coisa. Nas horas mais difíceis da minha vida sempre apareceu uma alma boa pra oferecer reconforto.

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Desci da van uma hora depois, em frente ao portão de Damasco, uma das entradas da cidade antiga de Jerusalém. A combinação avião + experiência traumática no aeroporto + van tinha me deixado tonta, mas quando olhei pra muralha que cerca a cidade antiga e me vi no meio da agitação que é essa parte da cidade meu coração disparou. Dois segundos depois eu estava apaixonada pela cidade. Eu tinha ido parar ali pra descobrir outra realidade e pra mostrar solidariedade a um povo. Me apaixonar não estava nos meus planos.

Três semanas depois, pouco antes de voltar pra Paris, eu sentei naquela muralha e, com a cidade antiga aos meus pés, descobri que a partir daquele momento a vida na França não fazia mais sentido. Jerusalém foi a cidade que me fez ficar na Palestina. Apesar de sempre ter morado em Belém, que fica a poucos quilômetros ao sul, os momentos mais felizes e mais difíceis dos cinco anos que morei lá aconteceram em Jerusalém. Pensei em deixar a Palestina algumas vezes e, coincidentemente (ou não), sempre mudei de ideia em Jerusalém.

Os ativistas estrangeiros que conheci na Palestina escapavam pra Tel Aviv quando queriam férias da loucura que é viver sob ocupação militar. Bares, festas, praia e o clima mais livre e menos religioso da cidade atraem muita gente. Eu nunca gostei de Tel Aviv e quando queria respirar outros ares atravessava o checkpoint de Belém e subia no ônibus que me levava de volta ao portão de Damasco, onde tudo começou. Estranhamente a atmosfera carregada de religião (ou melhor, de religiões, no plural) nunca me oprimiu. Preciso dizer que nunca me aventurei no bairro judeu ultra ortodoxo da cidade e minhas andanças se resumiam à cidade antiga, Salahadim Street e, mais raramente, Jaffa Street, na parte ocidental. Eu evitava a parte ocidental da cidade que além de ser menos charmosa, abriga o Ministério do Interior, onde eu ia renovar o visto todos os anos e onde me ofereceram algumas das piores horas da minha estada na região. Até hoje sinto vibrações negativas quando passo pela área. O meu coração estava no caos e na overdose de cores e sabores de Jerusalém Oriental, especialmente na cidade antiga.

Lá fiz alguns dos amigos mais queridos que tenho hoje e tive a honra de desfrutar da imensa generosidade deles, o que salvou a minha vida uma vez. Lá eu provei comidas memoráveis, incluindo o melhor hummus do mundo (tem muita controvérsia sobre esse assunto). Lá eu abri meu coração várias vezes e deixei a camada mais profunda do meu ser respirar o ar fresco. As pedras da cidade são sedosas, desgastadas pelo tempo e eu gostava de andar pelas ruas com o braço levemente esticado, acariciando-as com as pontas dos dedos. Jerusalém pra mim é dourada, tem cheiro de terra seca, pedra e alecrim e tem gosto de suco fresco de romã e kayek, o pão típico da cidade, salpicado de gergelim.

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Na Via Dolorosa tem um prédio que funciona como pousada pra peregrinos e onde o teto abriga um terraço. De lá dá pra ver o Santo Sepulcro, a mesquita Al-Aqsa e boa parte da cidade antiga. Fui lá pela primeira vez em 2007, guiada por uma amiga alemã. Voltei inúmeras vezes, sozinha e acompanhada, mas sempre que me deparava com aquela vista meu coração disparava. Exatamente como na primeira vez que coloquei os pés na cidade. E cada vez que eu ia lá me apaixonava novamente por aquele lugar. Apesar de abrigar tanta loucura e injustiças, Jerusalém continua sendo a minha cidade preferida no mundo e ainda penso nela quase todos os dias.

(Texto originalmente postado aqui, no dia 07/03/2014.)

*Na quarta foto está meu querido amigo Nader, que tinha uma loja de joias e bijuterias na cidade antiga de Jerusalém. A solidariedade e generosidade de Nader fizeram toda a diferença em alguns momentos chaves da minha estada na Palestina. Ele morreu alguns anos atrás, de um enfarto, e ver essa foto hoje me encheu de emoção.

Só pela subversão

Continuando a série “requentando posts antigos porque esse blog tem mais de 12 anos e a maior parte das pessoas me lendo agora não tem ideia das coisas bacanas que já postei aqui”, vou seguir no tema “Palestina” porque, como expliquei no último post, em breve será mais um triste aniversário da ocupação israelense naquelas terras. Gostaria que a Palestina não aparecesse na timeline de vocês apenas quando a violência da colonização israelense chega em picos tão elevados que volta a ser manchete. E sobre os posts que escrevi na Palestina, o de hoje é, até hoje, o que mais deu o que falar na história do blog.

Mas de dez anos depois, ainda tem gente comentando esse post. Já encontrei até gente que estudou ele na faculdade!! Não sei que professora levou meu texto pras suas estudantes (em que curso?), mas agradeço de coração. A história de hoje foi só uma das aventuras lindas que vivi, ou testemunhei, por lá, mas segue sendo um dos meus posts preferidos do Papacapim, no top 5. Foi a primeira vez que escrevi sobre a Palestina no blog e como o retorno das leitoras foi extremamente positivo, à partir daí passei a falar regularmente da luta do povo palestino aqui. Esse post foi um marco e um divisor de águas pro blog.

Desde que me mudei pra cá vi coisas extraordinárias acontecerem. Poderia escrever um livro (um dia, quem sabe), mas me contento, por hora, de escrever um post.

Alguns dias atrás minha grande amiga Johanna, que mora em Tel Aviv, ligou dizendo que tinha um amigo israelense precisando da minha ajuda e que era urgente. Ela não tinha tempo pra explicar, mas ele podia contar tudo direitinho. Fiquei surpresa, mas disse: “Pois não, pode falar pra ele me telefonar”. E fiquei matutando sobre esse pedido estranho. Por que cargas d’água um rapaz que não me conhecia precisava de minha ajuda? Conhecendo os amigos ativistas de Johanna, torci pra que não fosse algo ilegal, mesmo sabendo que meu espírito subversivo se deixaria convencer de qualquer coisa. Só confessei isso porque minha mãe não lê o blog e se lesse não entenderia, pois ela não sabe o que significa “subversivo”.

Poucos minutos depois o telefone tocou e essa foi a história que o amigo de Johanna me contou. Esse israelense judeu de Jerusalém, que chamarei de O., tinha um namorado palestino muçulmano, que chamarei de F.. Os dois se conheceram pela internet e namoram há algum tempo. Vou abrir um pequeno parênteses pra fazer algo que jurei nunca fazer aqui no blog: falar da ocupação israelense na Palestina.  Misturar comida com política pode dar indigestão, mas dessa vez não posso evitar.

Os territórios palestinos estão hoje divididos entre a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental, todos sob ocupação e controle militar total israelense desde 1967. Um palestino de Belém (Cisjordânia) não pode entrar em Jerusalém Oriental, a menos que tenha uma autorização do governo israelense e é proibido de entrar em Israel. Israel também proíbe os civis israelenses de entrar nos territórios palestinos, ou seja,  nem O. pode visitar o namorado na Palestina, nem F. pode visitar O. em Jerusalém. O. entrou várias vezes (de maneira ilegal) na Palestina e sempre ficava hospedado na casa de F. A família de F. não tem nada contra os israelenses (como disse mais acima, é o próprio governo israelense que proíbe seus cidadãos de entrarem na Palestina, não os palestinos) e sempre receberam O. de braços abertos. Isso, claro, porque não sabem que ele é o namorado de F., eles acreditam que ele é só mais um amigo. A sociedade palestina ainda é extremamente conservadora e homossexualidade é um tema tabu por aqui. Já a família israelense de O. aceita o fato dele ser gay sem problemas, mas não sabe que O. tem um namorado palestino. Ser homossexual é algo tolerável, mas namorar o “inimigo” seria considerado uma alta traição na família dele. No dia anterior O. tinha pedido o carro dos pais emprestado, entrado (ilegalmente) na Cisjordânia e levado o namorado palestino pra Jerusalém (ilegalmente). Os dois acabaram sendo presos na mesma noite e por um milagre F. foi solto depois de apenas algumas horas de interrogatório. Palestinos que entram ilegalmente em Jerusalém ou em Israel podem ficar vários meses na cadeia israelense. Depois do ocorrido os pais de F. ficaram com medo de hospedar O., pois a poucos metros da casa tem duas torres militares israelenses e os soldados estão sempre rondando as terras da família. Se eles suspeitarem que tem um israelense na casa, toda a família pode ser acusada de ter “sequestrado” um israelense e será presa (não, infelizmente não é piada). Depois que F. foi detido em Jerusalém os soldados aparecem com mais frequência e a família teme pela segurança de seus membros. Por isso pediram que O. não viesse mais ali, para o seu próprio bem e para o bem de toda a família. Então naquele momento eles estavam na rua, precisando conversar pra resolver essa situação e querendo passar um pouco de tempo juntos, já que talvez essa fosse a última vez que eles se encontrariam. Entendi então por que O. precisava da minha ajuda e fiz o que qualquer pessoa com um pouco de sentimento e um muito de irresponsabilidade teria feito no meu lugar: convidei os dois pra passar a noite aqui em casa.

Eles chegaram por volta das sete da noite e eu ofereci chá, jantar, orelhas, conselhos e o colchão de hóspedes. Eles me contaram como se conheceram, o pesadelo da noite anterior, passada em uma delegacia de Jerusalém e como se sentiam perdidos. O., o israelense, faz teatro por paixão e faxinas pra pagar o aluguel. F., o palestino, é professor de Inglês em uma escola secundária, mas fez questão de dizer que O. ganha mais fazendo faxina do que ele ensinando.  Eles são dois dos rapazes mais doces que já tive o prazer de conhecer. Depois do jantar deixei os dois deitados (espremidos seria o termo adequado) no meu colchãozinho que já é pequeno pra uma pessoa sozinha, imagine então pra dois rapagões de mais de 1.80m. Antes de subir pro meu quarto passei pela sala pra dar boa noite e vi os dois abraçados naquele colchão estreito, conversando baixinho e sorrindo. Deitada na minha cama pensei nos riscos que nós três estávamos correndo (que não vou citar aqui porque imagina se minha mãe decide ler o blog!), mas o que predominava era a esperança que crescia no meu peito. Apesar de todos os check points, do muro, da propaganda e estratégias desenvolvidas pra que esses dois povos nunca se encontrem, pois é mais fácil justificar a necessidade de uma ocupação se o povo que ocupa não conhece o povo ocupado, apesar de todos esses obstáculos eles conseguem se encontrar. E se apaixonar. Israel e Palestina estavam se amando na minha sala. Ainda era possível ter esperanças.

Eles foram embora na manhã seguinte, cada um pra um lado diferente da fronteira. Depois de agradeceram a hospitalidade pela décima vez eu respondi “Imagina! Eu tenho que ajudar o meu povo”. Mas sei que mesmo se eu não fizesse parte desse “povo” eu teria ajudado os rapazes da mesma maneira. Só pela subversão.

Salada de funcho, toranja e tâmaras

Detesto publicar receitas que só pouca gente pode fazer, mas essa foi a salada que servi durante o jantar quando O. e F. estavam aqui e desde então ela me faz pensar neles. Funcho, também conhecido com erva-doce,  é um vegetal engraçado e com gosto de anis (veja foto acima). Toranja é uma laranja maior e mais amarga. Nessa receita ela pode ser substituída por laranja, mas gosto do amargor da toranja junto com a doçura das tâmaras. Essa receita também serve pra explicar como cortar gomos de laranja/toranja sem pele e sem sementes pra usar em saladas (ou tortas), então entre uma história, uma técnica e uma receita, todo mundo vai achar algo interessante nesse post.

1 funcho médio (erva-doce)
1 toranja (ou 2 laranjas pequenas)
1 tâmara
Azeite, sal e pimenta do reino

Corte o funcho em fatias finíssimas, depois pique bem miudinho. Corte a toranja, ou as laranjas, como mostrado nas fotos abaixo e misture com o funcho picado. Esprema a “carcaça” da toranja (com a mão) sobre a salada. Corte a tâmara em pedaços bem pequenos e junte à mistura funcho/toranja. Regue com um fio de azeite, tempere com uma pitada generosa de sal e pimenta do reino a gosto. Se quiser, decore com as folhinhas verdes do funcho. Rende 2-3 porções.

Corte uma fatia do topo e da base da fruta, expondo a polpa.
Retire a casca das laterais da fruta, seguindo seu contorno arredondado (você vai precisar de uma faca afiadíssima).
Toranja pelada.
Corte fatias da fruta, liberando os gomos. A pele branca funciona como paredes,  separando os gomos, e a faca deve passar o mais próximo possível delas.
Gomos sem pele e sem sementes (retire-as com os dedos) e a “carcaça” da fruta do lado.

(Texto publicado originalmente aqui, no dia 15/02/2012. F e O já não estão mais juntos há alguns anos.)

Sobre resistência

Porque hoje é um dia difícil aqui na França e o risco do domingo terminar com a eleição de uma neofascista como a próxima presidente do país é grande…

Porque comecei um trabalho novo no início do mês e desde então tenho jornadas de trabalho de 10h30 e já não consigo mais manter o antigo ritmo de posts aqui…

Porque estamos atravessando mais uma onda de crimes do colonialismo israelense na Palestina (apesar da violência colonial nunca dar trégua pro povo palestino, só quando ela atinge picos altos a mídia se interessa e isso vira notícia)…

Porque o pessoal que chegou no blog nos últimos tempos não costuma ler os posts antigos e tem muito material interessante, emocionante e inspirador nos arquivos do Papacapim e acho uma pena que ele não chegue a mais pessoas…

Gostaria de repostar a história de três amigas palestinas, que postei separadamente anos atrás, numa série que chamei de “Histórias Palestinas”. Peguem um café, um chá, se instalem confortavelmente no sofá, respirem fundo e se preparem pra revolta, a emoção e, espero, a inspiração que vocês sentirão ao longo dos próximos parágrafos. Estamos atravessando tempos difíceis, mas não podemos abandonar a luta. Sempre que o desespero quer tomar conta de mim lembro das pessoas palestinas, que seguem resistindo apesar de tudo. Se elas ainda estão de pé, lutando, quem sou eu pra baixar os braços e me deixar invadir pela desesperança?

Khoulud, de véu rosa, com a mãe, a avó e duas filhas. Foto Anne Paq.

Khoulud Ayyad tem 32 anos e mora no campo de refugiados de Aida, na região de Belém, com seu marido Ayman e quatro filhos. Sua família é de Ras Abu Ammar, um vilarejo que fica a 14 quilômetros de Jerusalém. Os 719 habitantes de Ras Abu Ammar foram expulsos pelas tropas do recém-criado estado de Israel no dia 21 de outubro de 1948 e o vilarejo foi completamente destruído. Conheci Khoulud em um centro cultural no campo de Aida assim que me mudei pra cá. Trabalhamos um tempo juntas e logo nos tornamos amigas. Ela é uma das pessoas mais fortes que já encontrei e sua história merece ser contada.

“A vida no campo de refugiados nunca foi fácil, mas lembro de um período, quando eu era criança, que as coisas eram ainda piores. Durante a primeira intifada (entre 1987 e 1993) os soldados israelenses entravam no campo o tempo todo e muitas pessoas foram assassinadas. Todo mundo tinha medo de sair de casa e levar um tiro. Lembro que um dia, eu devia ter uns 8 anos, vi dois jovens correndo no campo. Pensei que os soldados estavam os perseguindo então abri a porta de casa e comecei a agitar os braços, chamando eles pra se esconderem ali. Quando meu avô viu a cena me colocou pra dentro e fechou a porta imediatamente. Depois explicou que aqueles jovens não eram palestinos fugindo de soldados israelenses e sim soldados israelenses a paisana correndo atrás de palestinos. Durante a primeira intifada muitos soldados entraram nos campos e nas cidades à paisana pra prender palestinos e ainda continuam fazendo isso.

A adolescência, e as formas de mulher, chegaram muito rápido pra mim e aos 12 anos recebi minha primeira proposta de casamento. A situação econômica era muito difícil e as pessoas se casavam mais jovens do que hoje em dia. Na mesma época um vizinho que era muito próximo da nossa família estava pensando em se casar e quando minha avó disse que eu tinha recebido uma proposta, ele perguntou se também podia pedir minha mão a meu pai. Esse vizinho  era  quinze anos mais velho do que eu e tinha me pegado no colo quando eu era bebê. Desde criancinha eu nutria uma paixão secreta por ele e quando falaram pra eu escolher um dos dois pretendentes eu não hesitei um segundo! Ayman foi preso pela polícia israelense pouco tempo depois e eu tive que esperar ele sair da cadeia pra fazer a festa de noivado. Como eu era jovem demais, esperamos dois anos antes de casar.

As pessoas sentem pena de mim por eu ter me casado aos 14 anos, mas a verdade é que eu casei com o homem que amava e nunca tive nenhum arrependimento. Eu era a melhor aluna da sala, mas depois do casamento abandonei a escola. Eu tinha que cuidar do meu marido, da nossa casa e também dos meus sogros. Por causa da ocupação militar israelense a economia estava parada e depois de ter sido preso várias vezes pelos israelenses Ayman não conseguia arrumar emprego. Aos 15 anos me tornei mãe de gêmeas. Minha mãe, que tinha me tido aos 14 anos, foi avó aos 29! Poucos meses depois, uma das gêmeas morreu e comecei a me sentir muito triste. Eu via minhas colegas de escola passar em frente à minha casa e me olhar com um ar de superioridade, como se elas valessem mais do que eu. Eu sentia falta da escola, dos meus pais, do tempo em que eu ainda podia brincar de boneca e não tinha tantas responsabilidades.  

Alguns anos mais tarde tive meu segundo filho, seguido do terceiro. Meu marido continuava desempregado e nós morávamos, com nossos três filhos, em um pequeno cômodo nos fundos da casa dos meus sogros. Tentei voltar a estudar sozinha algumas vezes, mas as obrigações, a pressão da família e o cansaço sempre me faziam desistir. Quando meu marido finalmente conseguiu um emprego fixo, como motorista de ônibus, começamos a economizar dinheiro pra construir nossa casinha, em cima da casa dos pais deles. Embora feliz pelo meu marido, eu me sentia muito deprimida, enterrada cada vez mais nas obrigações domésticas. De tanto ver o olhar de desprezo das minhas antigas colegas de escola acabei me convencendo de que eu não tinha valor nenhum.

Khoulud é uma ótima cozinheira e sempre nos convida pra degustar seus quitutes. Nessa foto ela está com Anne, Celine (irmã de Anne) e o marido.

No dia em que nos mudamos pra nossa nova casa, que era pequena, mas que pelo menos tinha um quarto, sala, cozinha e banheiro, me debrucei na janela e fiquei olhando a rua lá embaixo. Eu tinha 24 anos e ainda sonhava em terminar meus estudos, mas meu sonho parecia cada vez mais distante. Ayman veio pro meu lado e vendo minha tristeza disse: ‘Quero que você volte a estudar. Vai ser difícil, as pessoas vão falar que é tarde demais, que você deveria estar em casa cuidando dos filhos, mas eu quero que você ignore todos os comentários que elas possam fazer e siga em frente. Eu te darei todo o apoio que você precisar.’ No dia seguinte, dez anos depois de ter abandonado a escola, eu voltei a estudar. Fazia tanto tempo que eu não pegava em um lápis que tive dificuldades pra escrever no início. Comecei um supletivo intensivo, que me permitiria terminar o ginásio e o segundo grau em apenas um ano, e estudava o tempo todo pra recuperar o tempo perdido. Começaram a falar muito de mim, como meu marido tinha previsto, mas isso não me atingia mais. Ayman estava do meu lado e eu não ia deixar mais nada impedir meus planos de se realizarem.

Poucos dias antes das provas de final de ano (“taugihi”, equivalente do  nosso vestibular) meu cunhado Ali foi assassinado por um soldado israelense.  Naquele dia os soldados tinham cercado o campo e atiravam pra todos os lados. Ali foi prestar socorro a alguns feridos que estavam na rua quando um soldado o viu e atirou pra matar. Meu marido e toda a sua família ficaram devastados e de repente, no meio de tanta dor, injustiça e revolta, terminar meus estudos parecia algo tão sem importância. Eu segui em frente, mas sem a convicção do começo do ano. Ninguém mais acreditava que eu seria capaz de completar o supletivo e no dia seguinte às provas finais meus parentes começaram a me visitar pra dizer que eu não deveria ficar triste quando recebesse os resultados, que eu tinha me esforçado, mas esse negócio de estudar já não era mais pra mim. Qual não foi a surpresa deles quando cheguei em casa com um papel da escola dizendo não somente que eu tinha passado nas provas, mas que minhas notas tinham sido as melhores de toda a Cisjordânia naquele ano! Eu não cabia em mim de felicidade e dois jornais de Belém publicaram artigos sobre minha proeza. (Khoulud guarda até hoje os jornais e me mostrou um deles onde tinha escrito: ‘Depois de dez anos sem estudar, uma mulher do campo de Aida passa em primeiro lugar no taugihi’). Graças às minhas excelentes notas a Universidade Americana de Jenine (no norte da Cisjordânia) me ofereceu uma bolsa de estudos. Como eu não queria ficar longe da minha família, tive que recusar a oferta. Felizmente a Universidade de Belém também me ofereceu uma bolsa de estudos e pude realizar o maior sonho da minha vida: fazer faculdade.

Comecei a estudar Língua e Literatura Inglesa e assim que terminei o curso consegui um emprego de professora. Eu estava grávida do meu quarto filho quando duas amigas francesas, Anne e Caroline, que conheciam minha vontade de aprender, me perguntaram se eu gostaria de fazer um mestrado. Respondi que sim, mas que meu salário de professora, mesmo junto com o salário de motorista de Ayman, não me permitia ir tão longe (na Palestina só existem universidades particulares e o custo de um curso superior ou mestrado são bastante elevados). Elas me ajudaram a preparar uma carta onde eu contava minha história, que enviamos em seguida à algumas ONGs européias que financiam a educação de mulheres em países pobres. No dia que dei a luz à minha caçula, recebi o telefonema de uma associação belga dizendo que eles estavam dispostos a custear meu mestrado.

Khoulud segurando o seu diploma de mestrado. Foto Anne Paq.

Os anos de mestrado foram os mais difíceis da minha vida. Eu trabalhava das 8 às 14 horas e como a escola fica em um vilarejo um pouco distante de Belém, eu saía de casa às seis e meia da manhã e só voltava depois das três da tarde.  Minha mãe cuidava do bebê enquanto eu trabalhava e na volta da escola eu passava pela casa dela pra pegá-lo. Chegando em casa eu tinha que preparar comida pras crianças, ajudá-las a fazer a lição, limpar a casa… tudo em poucas horas. Às cinco da tarde Ayman chegava do trabalho e eu saía pra universidade, onde eu ia três vezes por semana pra assistir às aulas do mestrado. Eu voltava pra casa de noite e depois de dar banho no bebê, fazer o jantar e colocar as crianças pra dormir eu tinha que preparar a aula dos meus alunos e estudar pro mestrado. Eu só ia dormir às duas da manhã e no dia seguinte me levantava às cinco pra preparar o café das crianças, deixar as grandes na escola e o bebê na casa de minha mãe, antes de ir pro centro de Belém pegar o ônibus que me levaria pro trabalho. Às vezes, por causa dos check points (barragens militares israelenses dentro dos territórios palestinos, onde os soldados controlam a identidade dos palestinos e decidem quem pode ou não passar), a viagem que podia ser feita em poucos minutos levava mais de uma hora. Eu só tinha um dia de folga por semana e aproveitava pra fazer pesquisas e escrever minha dissertação. Até hoje quando penso no meu mestrado me pergunto como consegui ir até o final. Se antes de ter começado alguém me dissesse que eu teria que enfrentar tudo aquilo, eu teria dito que nunca seria capaz de passar por cima dessas dificuldades. Mas consegui. Quando recebi meu diploma de mestrado ano passado Ayman fez uma grande festa e chamou toda a família. Ele trouxe um bolo imenso, com minha foto colada na cobertura e tudo, enquadrou meu diploma e pregou na parede da sala. Ele estava tão orgulhoso de mim! Ayman nunca fez faculdade e hoje me olha cheio de admiração.

Com o marido e Sheraze, a filha caçula. Foto: Anne Paq.

Nossa vida mudou muito. A ocupação israelense continua e os check points aumentam a cada ano. O muro construído por Israel passa ao lado do campo e roubou mais um pedaço das nossas terras. Ainda não temos o direito de entrar em Jerusalém. O exército ainda invade o campo semanalmente. Perdi a conta do número de vezes que os soldados entraram na minha casa no meio da noite, nos colocaram pra fora e nos deixaram esperando no frio, às vezes embaixo de chuva, durante horas, sem razão nenhuma. É sempre mais difícil quando você tem crianças pequenas e é obrigada a tirá-las da cama porque os soldados estão gritando no seu ouvido e quebrando os seus móveis. Numa noite muito fria fiquei com tanta pena de colocar meus filhos, tão pequenininhos, na rua que disse aos soldados que não ia sair de casa coisa nenhuma, mas eles nos obrigaram a sair e fiquei horas em pé, com o bebê nos braços e os outros chorando agarrados às minhas pernas, sentindo a dor terrível que é não poder proteger os próprios filhos. Nossos dias são tão duros e de noite não temos o direito de colocar a cabeça no travesseiro e descansar porque os soldados israelenses invadem nossa casa, nosso quarto, nosso sono…  E depois eles dizem que somos nós os terroristas! Mas a gente continua lutando. Graças aos nossos esforços, reformamos nossa casa e pudemos comprar móveis melhores. Continuo trabalhando como professora de Inglês e Ayman ainda é motorista de ônibus. Nossa caçula vai fazer quatro anos em breve e já posso pensar no meu próximo objetivo: fazer doutorado. Só falta encontrar uma organização que queira me ajudar a realizar mais esse sonho.”

Khoulud sempre me recebeu, independente do quão cansada e ocupada estivesse, com um grande sorriso no rosto e um copo de chá na mão. Nos conhecemos há quatro anos e nunca, nunca escutei ela reclamar, somente agradecer as oportunidades que a vida ofereceu e o apoio incondicional do seu marido. Sua determinação me inspira e minha admiração por ela é imensa. Vi várias pessoas ficarem impressionadíssimas com a escolha de vida que fiz, ter deixado pra trás um mestrado em Paris pra ir morar na Palestina e trabalhar em um campo de refugiados, declarando que sou muito corajosa. Quando isso acontece eu agradeço o elogio, embora sinta que não o mereço, mas só consigo pensar em uma coisa: “Ah, se vocês conhecessem Khoulud…”

(Texto originalmente publicado aqui, no dia 24 de maio de 2012)

Campo de refugiados de Deheisha. Foto Anne Paq.

Eu fiz amizade com Mustafa assim que me mudei pra cá, quatro anos atrás. Ele trabalha como fisioterapeuta e é meu tradutor voluntário no projeto no campo de Aida. Acabei conhecendo toda a família de Mustafa e fiquei muito próxima da esposa dele, Draguitsa. Ele estudou fisioterapia na Iugoslávia, onde conheceu Draguitsa, que vem da Bósnia. Eles se casaram na Europa, tiveram seu primeiro filho por lá e Mustafa voltou pra casa, acompanhado de sua pequena família, quase vinte anos atrás. Ambos falam Inglês perfeitamente e tive o prazer de ser convidada pra almoçar na casa deles várias vezes (Draguitsa é uma excelente cozinheira). Aos poucos fui descobrindo a história de Mustafa. Ele me contou como perdeu o emprego em Jerusalém depois de ter recusado se tornar um espião pro governo israelense. Ofereceram muito dinheiro em troca de informações sobre os seus pacientes palestinos. Ele se recusou a trair seu povo e como punição perdeu o direito de entrar em Jerusalém. Todo palestino precisa de uma permissão dada pelo governo israelense pra entrar em Jerusalém e Mustafa nunca mais conseguirá uma. Desde então ele trabalha como funcionário temporário, sem contrato oficial, pra UNRWA (agência da ONU que trata das questões relacionadas com os refugiados palestinos), mas somente na região de Belém. Draguitsa foi obrigada a esperar 15 anos antes de obter um visto de residência. Tudo aqui é controlado pelo governo israelense e durante todos esses anos eles recusaram seu pedido de residência na Palestina. Draguitsa, morando ilegalmente em Belém, corria o risco de ser expulsa do país a qualquer momento e ficou todos esses anos sem visitar a família na Bósnia. Um dia a administração israelense telefonou pra sua casa. Ela se encheu de esperança achando que a funcionária do outro lado da linha anunciaria a legalização da sua situação, mas a única coisa que ela disse à Draguitsa foi “Você casou com o homem errado”. “Errado” porque desde que se recusou a espionar contra o seu povo Mustafa entrou pra lista negra do governo israelense. Em uma das visitas à casa de Mustafa encontrei o seu pai. Mustafa me contou um pouco sobre a vida dele e como na época eu escrevia pro, hoje defunto, Jornal da Fotografia de Natal resolvi dedicar um artigo a esse senhor. Voltei lá alguns dias depois e entrevistei Mohamad, o pai de Mustafa. A história que ele me contou dois anos atrás é a que eu gostaria de contar pra vocês hoje.

Mustafa (à direita) com o pai, Mohamad, e o filho caçula, Aissa. Três gerações de refugiados.

Meu nome é Mohamad Alafandi, tenho 76 anos e moro no campo de refugiados de Deheisha, na região de Belém. Nasci em Dayr Aban, a 21 km de Jerusalém, no que então ainda era a Palestina. Minha cidade resistiu enquanto pôde à invasão sionista, o que custou a vida de quarenta habitantes. A gente só tinha dois fuzis e os homens se revezavam pra defender nossas casas. Mas o exército sionista era muito mais bem equipado. No dia 18 de outubro de 1948 os soldados do recém-criado estado de Israel invadiram minha cidade e obrigaram a população a partir sem poder carregar absolutamente nada, abandonando nossas terras, casas, animais e pertences, deixando toda a nossa sua vida para trás. Eu tinha 14 anos quando isso aconteceu. Meu pai não suportou tão duro golpe e sofreu um derrame que o deixou paralisado. Fui obrigado a carregar meu pai nas costas durante todo o tempo em que caminhamos. Minha família errou durante um ano e meio, andando de cidade em cidade procurando um lugar para viver. Meu pai morreu um ano depois de ter sido expulso de sua cidade natal e eu, como filho mais velho, tive que tomar conta da minha mãe e dos meus irmãos. Acabamos chegando em Deheisha, um dos inúmeros campos criados pela ONU. Esses campos, organizados como solução temporária ao problema dos refugiados palestinos, não passavam de gigantescas aglomerações de tendas de lona. As famílias tiveram que suportar a fome, a falta de água, a neve no inverno e o calor sufocante no verão. Apesar das condições extremamente difíceis, os refugiados permaneceram nos campos, pois, assim como a minha família, eles não tinham para aonde ir. 

Eu tenho sete filhos homens. Eu e todos os meus filhos passamos pelas cadeias israelenses. Um dos meus filhos foi preso quando tinha apenas quatorze anos e ficou quatro anos na cadeia. Até hoje ninguém sabe que crime ele cometeu, nunca houve acusação formal. Meu filho caçula está preso há dezoito anos. Ele foi condenado a trinta anos de prisão por ter se defendido de um ataque de colonos israelenses. Meus outros filhos foram presos porque estavam no lugar errado, na hora errada. Eu fui preso duas vezes. Em 1984 visitei as ruinas de Dayr Aban. Estava colhendo ervas, para levar para casa como recordação da minha antiga cidade, quando a polícia israelense chegou. Primeiro os policiais me espancaram, depois me levaram pra cadeia, pois segundo eles eu não tinha permissão pra estar naquele lugar. Alguns anos mais tarde, soldados israelenses invadiram minha casa em Deheisha e agrediram meus netos. Tentei proteger os meninos e fui parar na cadeia pela segunda vez. Quatro dos meus netos já foram presos, sempre por motivos semelhantes aos que levaram meus filhos pra cadeia (estar no lugar errado, na hora errada). Um deles perdeu a mão ainda criança por causa de uma granada lançada pelos soldados israelenses, durante uma das inúmeras invasões ao campo. Outro neto meu socorria um vizinho ferido pelos soldados israelenses quando foi baleado no ombro. O menino tinha quatorze anos e perdeu os movimentos do braço. Há dois anos meu neto Kussai foi a Belém cortar o cabelo com os amigos. No caminho eles passaram por um jipe militar israelense, que abriu fogo contra o grupo ferindo várias pessoas e matando Kussai. Os soldados usaram um tipo especial de bala que explode no interior do corpo, fazendo com que as chances de sobrevivência sejam zero. Meu neto tinha dezesseis anos.

Mas eu não perdi as esperanças. (Mohamad faz um movimento com a mão na direção dos netos, os filhos de Mustafa, que brincam do lado) Acredito nas crianças. Eu estou velho e cansado, mas elas vão crescer, lutar pelo nosso país e todos voltarão a ser livres, longe dos campos de refugiados e da crueldade da ocupação israelense. Tenho fé que vou terminar minha vida em paz e serei enterrado na terra que pertenceu aos meus antepassados.

Assim como os outros milhões de refugiados palestinos, Mohamad Alafandi ainda guarda a chave e a escritura da casa que um dia foi sua. Antes de ir embora ele disse “Por favor, conte essa história no seu país. As pessoas precisam saber o que estão fazendo com a gente.” Como expliquei mais acima, Mohamad Alafandi me contou sua história dois anos atrás. Hoje ele está com 78 anos e já não pode mais visitar seu filho caçula na cadeia. Eu quis começar a série de posts sobre os palestinos contando a história de Mohamad por uma razão. Sua saúde está cada vez mais frágil e meu querido amigo Mustafa, que cuida do pai, assim como seu pai cuidou do avô, anda muito abatido. Mohamad está se despedindo desse mundo e a situação só fez piorar nos últimos dois anos. Ele não vai poder ver sua terra (Dayr Aban foi destruída e uma cidade israelense foi construída sobre as ruínas), nem ser enterrado lá. Mas enquanto a vida ainda sopra em seus pulmões eu vou fazer o que ele me pediu e contar sua história ao maior número de pessoas que eu puder.

(Texto originalmente publicado no dia 25 de abril de 2012. O pai de Mustafa, Mohamad, faleceu alguns anos atrás e foi enterrado no campo de refugiados.)

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Conheci Tareq na ONG palestina onde eu trabalhei durante meus dois primeiros anos aqui. Ele participava do grupo de teatro e me ajudou a organizar atividades físicas pros meus “alunos” uma vez por semana e a montar uma peça com as crianças do grupo, ensinando a importância de escovar os dentes. Nossa amizade foi crescendo com o tempo e também me tornei muito próxima da esposa dele, Sara. Ele é professor de tecnologia em uma escola secundária, ela é tradutora e juntos eles formam um dos poucos casais que conheço aqui que desafiaram a tradição e se casaram por amor (geralmente os casamentos são organizados pelas famílias).

Tareq tem dois filhos e mora com a família no campo de refugiados de Al Arroub, 15km ao sul de Belém. Um campo que tem apenas 0,24km², mas que abriga mais de 10 mil pessoas (fonte ONU). A situação desse campo é ainda mais difícil do que nos campos onde trabalho aqui em Belém. Ele foi construído em 1949 ao longo da estrada 60, que liga Belém à Hebron, mas nas últimas décadas essa região da Cisjordânia foi invadida por colônias ilegais israelenses e hoje os colonos usam a estrada 60, junto com os palestinos, pra se locomover entre elas (algumas estradas que cortam a Cisjordânia são exclusivas pros colonos israelenses, uma das razões pra afirmar que a ocupação israelense também é um sistema de apartheid). Com a desculpa de proteger os colonos que passam pela estrada, o campo é totalmente controlado pelo exército israelense. Existem duas entradas: uma fechada com blocos de concreto (colocados ali pelo exército) e que só pode ser utilizada por pedestres e outra, a entrada pros carros, fechada por um portão controlado pelos soldados. Uma cerca metálica coberta de arame farpado cria uma barreira física entre as primeiras casas do campo e a estrada. Duas torres militares, uma na frente de cada entrada, e dezenas de soldados armados até os dentes completam a “segurança”. Entrar em Al Arroub é sempre penoso e não sei se um dia me acostumarei com as cenas que vemos por lá, como soldados instalados na entrada do campo, apontando suas metralhadoras pras crianças jogando bola na rua.

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Tareq segurando Watan, seu o primeiro filho, na maternidade.

Nos últimos cinco anos eu acompanhei as mudanças na vida de Tareq e Sara: as várias casas por onde eles passaram, o novo emprego de Sara (que começou a trabalhar como tradutora com os Médicos sem Fronteiras), o nascimento dos meninos, a morte do pai de Tareq, as aventuras dele tentando sair da Palestina…  Tareq deixou de ser um amigo e se tornou um irmão. E é com muita honra que eu apresento pra vocês hoje o meu irmão palestino, uma das pessoas mais generosas e gentis que eu tive a sorte de conhecer.

“Meus pais nasceram em Iraq Al-Manshya, um cidadezinha no litoral da Palestina histórica, entre Jafa e Gaza.  Meu pai era agricultor e junto com a família cultivava laranjas e outras frutas cítricas. Em 1948, quando as tropas sionistas invadiram nosso vilarejo, meu pai tinha 20 anos. Fazia já algum tempo que as notícias de expulsões e massacres de palestinos por soldados sionistas chegavam por lá e algumas pessoas tinham abandonado suas casas com medo do que iria acontecer quando a vez de Iraq Al-Manshya chegasse. Toda a população recebeu ordem de ir embora, mas muitas pessoas se recusaram a abandonar suas terras. Os que tentaram ficar foram executados e meu pai perdeu muitos amigos e um irmão. A família do meu pai foi pra Hebron (no sul da Cisjordânia). Quando eles chegaram lá, os habitantes da cidade se compadeceram com o triste destino dos refugiados e os acolheram em suas casas. Alguns meses depois eles escutaram que a ONU estava reagrupando o pessoal em campos de refugiados, na espera do retorno. Foi assim que a família da minha mãe, que também é de Iraq Al-Manshya, e a do meu pai vieram parar em Al Arroub. Um dia, em uma viagem organizada pela escola, fomos à Jafa ver o mar (a antiga cidade de Jafa foi anexada à Tel Aviv). No caminho eu vi uma placa indicando Qiryat Gat, a cidade israelense construída sobre as ruinas da nossa cidade, e pedi ao motorista pra passar por lá. Quando vi aquelas pessoas, que moram hoje nas terras que um dia pertenceram ao meu pai, olhando pra mim como se eu fosse um estrangeiro que não tinha direito nenhum de estar ali meu sangue ferveu e a revolta tomou conta de mim. O professor que tinha organizado a viagem sabia que minha família vinha dali e quando viu o meu estado ficou com pena de mim e disse ao motorista pra dar meia volta.

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Tareq, Watan e Sara.

Eu nasci em Belém, pois é lá que fica a maternidade mais próxima do campo. Minha infância em Al Arroub foi marcada pela presença constante do exército israelense. Toda criança sonha em ser um super herói e fazer coisas incríveis. Quando eu era pequeno lembro que todas as crianças do campo sonhavam em ter super poderes pra lutar contra os soldados israelenses. Eles estavam sempre por perto, batendo nas pessoas, prendendo nossos familiares, jogando gás lacrimogênio em quem passava pela rua, atirando na gente… Então eu e meus amigos jogávamos pedras nos soldados. Na nossa ingenuidade achávamos que podíamos defender o campo com pedras. Pedras contra metralhadoras. Pedras contra jipes blindados. Crianças contra soldados armados até os dentes. Mas a gente não tinha medo nenhum, aquilo tinha se tornado um jogo. Lembro que um dia, eu tinha seis anos, eu estava jogando pedras nos soldados do outro lado da rua e quando me abaixei pra pegar mais pedras vi um coturno. Levantei a cabeça e vi um soldado olhando brabo pra mim. Corri com todas as minhas forças e entrei feito um foguete em casa. Troquei imediatamente de roupa e sentei na sala com o ar mais inocente do mundo. O soldado me seguiu, claro, e entrou gritando na minha casa. Meus pais tinham saído e eu estava só com uma das minhas irmãs. O soldado disse que ia me prender porque eu estava jogando pedras. Eu, com a minha melhor cara de santo, disse: ‘Eu? Eu estava aqui dormindo, olha só, ainda estou de pijamas!’ (risos) Mas o soldado me reconheceu – era o dono do coturno- e me levou pra base militar que eles tinham instalado na entrada do campo. Ele me colocou sentado no chão, na frente da base, embaixo do sol quente durante horas. Eu estava com muita sede e calor, mas não podia sair de lá. O soldado que me prendeu proibiu os outros de me darem água, mas não me importei pois era Ramadan e eu estava fazendo o jejum (durante o mês do Ramadan muçulmanos não comem nem bebem nada, nem água, entre o nascer e o pôr do sol). Meus pais não queriam que eu jejuasse, pois eu ainda era muito pequeno, mas quis dar uma de forte e disse que naquele ano eu ia tentar. Mais tarde um soldado ficou com pena de mim, um garotinho de seis anos sentado naquele asfalto quente, e me ofereceu água. Eu disse que não queria porque estava fazendo o jejum do Ramadan. O soldado que me prendeu escutou isso e imediatamente mudou de ideia com relação à água: ele veio correndo, tomou a garrafa das mãos do outro soldado e me obrigou a beber. Eu travei os dentes, mas ele empurrou a garrafa com tanta violência que machucou minha boca, então tive beber a água. Fiquei cinco horas ali, até que uma tia minha apareceu–meus pais ainda não tinham voltado pra casa- e conseguiu convencer os soldados a me liberar. Durante minha infância fui levado pra base militar várias vezes. Às vezes me pegavam na rua, às vezes vinham me pegar dentro de casa… Apanhei muito dos soldados, mas esse episódio ficou profundamente gravado na minha memória, pois corria um boato que os colonos levavam as crianças do campo pras colônias e as matavam. Era um boato infundado, mas aos seis anos essa história me assombrava. Naquele dia, enquanto eu esperava ser liberado, sentado no asfalto quente, um carro cheio de colonos parou em frente à base e eles começaram a discutir em Hebraico com os soldados. Pensei que minha hora tinha chegado e que os colonos me levariam embora e me matariam. Ainda não consegui esquecer o terror que senti naquele dia.

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Entrada do campo Al Arroub.

A pior lembrança que tenho da minha infância aconteceu nesse mesmo ano. Um dia eu estava brincando em frente à casa dos meus pais com outros meninos da minha idade. Mais longe tinha um grupo de rapazes jogando pedras nos soldados que, pela milionésima vez, invadiam o campo. Um deles veio correndo na nossa direção, fugindo dos soldados. Mas atrás do meu grupinho tinha um sniper (atirador de elite do exército) e quando o rapaz estava a poucos metros de mim o soldado atirou na testa dele e ele caiu morto nos meus pés. Eu tinha seis anos, mas essa imagem continua muito viva na minha mente.

Ser adolescente em um campo de refugiados é difícil. Não tem nada pra fazer e o campo estava sempre cercado de soldados. Pra me divertir eu jogava futebol com os amigos, às vezes íamos passear em Belém e só. Um dia, eu tinha 17 anos, eu estava na entrada do campo, quando avistei um amigo do meu tio do outro lado da estrada, esperando o ônibus. Começamos a conversar, cada um de um lado da estrada. Ele pedia notícias do meu tio, que não via há tempos, quando de repente um colono israelense puxou o carro pra cima do amigo do meu tio, jogando o corpo dele longe. Infelizmente esse tipo de acontecimento não é raro por aqui. Vários habitantes do campo perderam a vida dessa maneira, sendo atropelados –de propósito- ou baleados por colonos. O exército, sempre presente, nunca prende os colonos assassinos e na maioria das vezes invade o campo e coloca a população sob toque de recolher, punindo a gente, as vítimas, ao invés de fazer justiça. Nunca vou esquecer o rosto do colono que matou o amigo do meu tio. Lembro do rosto dele, do cabelo, mas o que mais me marcou foi a expressão que ele tinha: ele estava transfigurado pelo ódio. O amigo do meu tio morreu na hora e o seu assassino nunca foi julgado.

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Rua principal do campo.

Eu frequentei a escola da UNRWA (agência da ONU que cuida dos refugiados palestinos) aqui do campo e fui fazer o segundo grau em Beit Umar, uma cidade vizinha. Na época não tinha segundo grau aqui, hoje já tem. Durante toda a minha adolescência sonhei em entrar pra Universidade de Belém. É provavelmente a melhor universidade da Cisjordânia, então imagina a minha alegria quando consegui me matricular lá. Aos 18 anos comecei a estudar fisioterapia. No primeiro dia de aula eu não cabia em mim de alegria: meu sonho tinha se realizado! Cheguei em casa feliz da vida, mas essa felicidade durou pouco. Durante a noite dezenas de soldados invadiram minha casa pra me prender. Eu estava dormindo e demorei um pouco pra entender aquela algazarra. Meus pais, meus irmãos, todos tentaram impedir os soldados de me levarem, mas fui arrancado da cama, vendado, algemado e jogado dentro de um veículo militar. Não me deixaram nem trocar de roupa e fui de pijamas. Dentro do jipe fui espancado pelos soldados e eu, algemado e vendado, nem podia proteger o meu corpo. O comandante me perguntou: ‘Se eu tirar suas algemas você vai bater em mim?’ Respondi: ‘Tire minhas algumas e você descobre’, o que fez com que os soldados me batessem com mais força ainda. Não senti medo, só raiva, muita raiva. Eu me perguntava por que aquilo estava acontecendo. Eu não jogava pedras desde criança, era um universitário, o que eu tinha feito de errado? Só depois entendi a razão da minha prisão. Um jovem do campo tinha sido preso um dia antes enquanto jogava pedras nos soldados e durante o interrogatório os soldados falaram que ele só sairia dali se desse os nomes de todos os jovens que estavam jogando pedras naquele dia. O medo fez com que ele dissesse os nomes de vários rapazes que ele conhecia e, falta de sorte, ele lembrou de mim nessa hora.

Primeiro me levaram pra uma base militar perto da colônia que fica aqui perto e me colocaram imediatamente em uma cela. Só dois dias depois comecei a ser interrogado. Durante o interrogatório me falaram que o rapaz tinha assinado uma declaração que me condenava. Meus crimes? Jogar pedras nos soldados, pichar muros, colocar bandeiras palestinas nas casas do campo e participar do grêmio estudantil. Eu disse que aquilo tudo era mentira e me recusei a assinar o papel que dizia que eu era culpado. Fui interrogado novamente no dia seguinte e como eu me recusava a ‘colaborar’ fui torturado durante horas. Eu estava cansado, machucado e faminto, mas o fato de estar falando a verdade me dava forças pra continuar me recusando a assinar a tal declaração. Falei: ’Tudo que eu tinha pra dizer eu já disse e vocês podem me bater o quanto quiser, a verdade não vai mudar’. Então, como punição pela insolência, me colocaram na ‘louca’. É assim que a gente chama um cubículo que serve de cela, com 1m de altura por um 1 m de largura. Não dá pra ficar em pé, nem pra deitar no chão. Não tem janela e a luz forte fica acesa 24h por dia, nos impedindo de dormir. Tem também um alto falante e uma câmera. Quando os soldados viam que eu estava adormecendo eles ligavam o alto falante no volume máximo e eu acordava assustado. Eu só podia ir ao banheiro uma vez por dia, no resto do tempo tinha que usar o penico que ficava dentro da cela e que empestava o ar. Por isso a gente chama essa cela de ‘a louca’, porque quem passa por ela acaba endoidando. Eu fiquei 21 dias lá dentro.

Depois me transferiram pra uma prisão em Israel, perto de Jafa, um lugar temido por todos, pois lá você passa por interrogatórios constantes e os soldados são extremamente violentos. Fiquei mais de um mês por lá e, dois meses depois de ter sido preso, fui julgado por uma corte militar. Fui declarado culpado de tudo e condenado a 10 meses de prisão. Os dois meses que passei preso antes da condenação não foram deduzidos da minha pena e no final fiquei um ano inteiro preso. Fui transferido pra uma cadeia no norte da Cisjordânia, entre Jenine e Nazaré. Lá fiz amizade com prisioneiros mais velhos, aprendi muito sobre a situação dos prisioneiros palestinos e comecei a me interessar por política. Um dia encontrei o jovem do campo que tinha me delatado. Quando me viu ele começou a tremer de medo, achando que eu ia bater nele. Eu disse: ‘Fique tranquilo rapaz, eu não te quero mal nenhum. Quem sabe se, no seu lugar, eu não teria feito a mesma coisa?’

Quando terminei de cumprir minha pena tive que passar pela sala de um comandante, que assinaria a minha liberação. No momento em que fui preso eu era um jovem feliz por estar ingressando a faculdade, de cabelos longos. Na prisão eu cortei o cabelo, deixei a barba crescer e meu rosto ficou muito marcado. O comandante olhou pra minha foto no dia que fui preso e pra minha cara e perguntou: ‘Esse aqui na foto é você, mesmo? Jovem, cabeludo, sorridente?’ Expliquei que antes de ser preso nunca tinha me interessado por política nem sobre resistência, mas que graças à prisão eu tinha feito um curso completo e que agora ia ser muito mais ativo na defesa do meu país. A prisão faz isso com a gente. É tanta injustiça, tanta violência que mesmo o jovem mais inconsequente fica com desejo de se tornar um militante e lutar contra o sistema brutal da ocupação israelense.

No dia em que saí da prisão um soldado me levou de jipe até o check point mais próximo. Quando ele abriu a porta eu quase não acreditei. Nem conseguia sair do jipe e perguntei hesitante: ‘Posso ir, mesmo?’ Saí andando e o sentimento que me invadiu ao ver pessoas rindo, árvores, a estrada… nem sei como descrever com palavras. Eu só descobri o valor de poder andar livremente quando perdi a minha liberdade. Do outro lado do check point meus amigos me esperavam. Eu disse pra minha família que não precisava ir me pegar, que eu ia chegar com os amigos. Que alegria senti dentro daquele carro, me aproximando cada vez mais da minha família. Mas foi difícil voltar à vida normal. Meu corpo estava de volta a Al Arroub, mas minha mente levou três meses pra sair da prisão. Na primeira noite que passei em casa eu acordei às seis da manhã e sentei na cama esperando ser contado. Na prisão os guardas contam os prisioneiros três vezes por dias, às seis da manhã, no meio do dia e à noite. Fiquei esperando alguns minutos, sentado na escuridão do meu quarto, quando percebi que os guardas não viriam porque eu estava em casa. Que alívio!

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Pintura na parede de uma casa do campo.

Além de ter perdido uma ano da minha vida na prisão, perdi o direito de estudar o curso que eu tinha escolhido. Quando comecei fisioterapia era o primeiro ano do curso na faculdade e eles decidiram esperar essa primeira turma se formar antes de abrir outra. Ou seja, eu teria que esperar três anos pra poder estudar fisioterapia novamente. Acabei mudando de curso e estudando química. A segunda intifada começou quando eu estava na faculdade. Naquela época sair do campo se tornou muito difícil, pois tinha sempre toques de recolher e pegar a estrada que liga o campo à Belém tinha se tornado muito perigoso. Então pra poder ir às aulas eu ia do campo até Belém a pé, evitando as estradas e passando pelas colinas, o que tornava o percurso muito mais longo. Entre a ida e a volta eu andava quase 50 km por dia, por dentro do mato, me escondendo dos soldados, mas eu não queria interromper meus estudos novamente. Consegui me formar e hoje eu sou professor na escola secundária da UNRWA no campo, a mesma onde estudei.

Um dia fiz um curso de Inglês em Ramala (cidade no norte da Cisjordânia) e a professora, uma jovem recém diplomada, me encantou imediatamente. Comecei a namorar Sara logo depois e nunca mais nos separamos. Um ano depois do casamento nasceu o nosso primeiro filho. Eu escolhi chama-lo ‘Watan’, que significa ‘pátria’ em Árabe. Anos depois fui à Jordânia e quando atravessei a fronteira (controlada pelos israelenses) o soldado que verificava minha identidade perguntou: ‘Por que o seu filho se chama Watan?’ O serviço de informação israelense é extremamente eficaz e eles sabem absolutamente tudo sobre nós: o que estudamos, onde trabalhamos, nome e apelido dos nossos filhos… Somos vigiados e controlados 24h por dia, 365 dias por ano. Respondi: ‘Porque assim eu tenho, enfim, uma pátria!’

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Aniversário de Tareq ano passado (com Watan, eu e duas amigas belgas).

Depois de ter passado pela prisão israelense ficamos fichados durante anos, sem poder sair da Cisjordânia. Eu ia até a fronteira (sempre a fronteira com a Jordânia, já que essa é a única porta de saída pros palestinos), os soldados colocavam o número da minha identidade no computador e pronto: minha passagem pela prisão aparecia e eles se recusavam a me deixar passar. A única maneira de saber se seu nome saiu da lista é tentando atravessar a fronteira, então eu voltava, de novo e de novo. Numa dessas vezes eu estava tentando ir pra Itália, pois tinha ganhado uma bolsa de estudos lá. Mais tarde ganhei outra bolsa de estudos, dessa vez pra Grécia. Quantas oportunidades perdidas! Ou melhor, quantas oportunidades me foram roubadas! Depois de formado recebi uma ótima proposta de trabalho no Catar e mais uma vez tive que engolir o NÃO dos soldados, que me impediram de sair do território. Esperei quase dez anos pra poder sair da Palestina. Ao todo foram doze tentativas frustradas. Passei um ano na prisão e mais dez anos preso dentro do meu próprio país.

Hoje o meu nome foi retirado, enfim, do sistema e pude sair do território duas vezes. Na primeira vez fui visitar uns parentes na Jordânia. Na segunda, fui participar de uma turnê de teatro na Europa. Eu sou professor, mas minha verdadeira paixão é o teatro. Participei de uma peça montada pelo centro cultural do campo de Aida (em Belém) e conseguimos financiamento pra sair em turnê no verão de 2011. Fomos pra França, Luxemburgo e Bélgica. Depois de ter visitado esses países as injustiças que sofremos aqui me pareceram ainda maiores.

Apesar de hoje poder sair da Cisjordânia, continuo sem poder entrar em Jerusalém. Todo palestino da Cisjordânia precisa de uma autorização de Israel pra entrar em Jerusalém e, como eu passei pela prisão, é praticamente impossível obter uma autorização. Meses atrás eu dei entrada no visto pros EUA, pois pretendo visitar um primo que mora lá e ver se é uma boa ideia morar um tempo nesse país. Enviei os documentos através de uma agência, mas o visto deve ser retirado pessoalmente no consulado. Como meu pedido de autorização pra ir à Jerusalém foi negado, como todas as outras vezes, dei um jeito de entrar ilegalmente na cidade. Recebi o visto e pra voltar pra casa peguei o ônibus que liga Jerusalém à Belém. Na volta os ônibus nunca são controlados no check point (os soldados estão mais preocupados com quem quer entrar em Jerusalém, não com quem quer entrar na Cisjordânia), mas eu estava muito sem sorte naquele dia. Não é que pararam o ônibus na volta? Quando viram que eu não tinha permissão pra ter entrado em Jerusalém os soldados me obrigaram a descer do ônibus e lá fui eu ser interrogado novamente. Um soldado ordenou que eu assinasse um papel dizendo que eu tinha entrado ilegalmente em Israel. Eu disse: “Não entrei em Israel. Jerusalém faz parte da Palestina ocupada, um fato reconhecido pela comunidade internacional.” O soldado ficou furioso e disse ‘Vou te mostrar agora o que é a Palestina ocupada’ e me trancou em um cubículo minúsculo que eles têm em todos os check points pra prender pessoas. Sem janelas, só uma porta. Fiquei algumas horas em pé lá dentro, mais uma vez sendo punido por ter ousado falar a verdade. Finalmente me deixaram ir embora com a condição que eu assinasse um documento dizendo que eu não ia fazer pedidos de autorização pra entrar em Jerusalém durante seis meses. Assinei rindo, pois isso não faz diferença nenhuma pra mim: eu nunca consigo autorização, mesmo!

Ano passado nasceu Yemen, nosso segundo menino. Eu assisti o parto dos meus dois filhos e mesmo sendo a segunda vez, ainda assim me emocionei muito e chorei quando segurei Yemen nos braços. Viver em Al Arroub continua tão perigoso e revoltante quanto quando eu era criança. Os soldados continuam aqui, atirando, prendendo, jogando gás lacrimogêneo. Sara sofre de asma e várias vezes durante a gravidez foi obrigada a atravessar nuvens de gás lacrimogêneo pra entrar em casa. Watan vai fazer quatro anos mês que vem, mas ele já sabe o que significa exército, soldado, tiros. Quando ele vê alguém triste pergunta: ‘Atiraram em você?’ Hoje é ele que sonha em ter super poderes pra poder lutar contra a ocupação. Outro dia ele me disse que queria ser Ben10 (personagem de um desenho animado muito popular entre os meninos) pra expulsar os soldados do campo.

(perguntei: ‘Tareq, quais são os seus sonhos hoje?’)

Quero voltar pra minha terra. Eu moro nesse campo de refugiados, mas o meu lugar é em Iraq Al-Manshya. Mas sonho? Hoje eu não sonho mais pra mim, sonho pros meus meninos. Penso em tudo que eu não pude realizar na vida e desejo que meus filhos não passem pelas mesmas injustiças. Gostaria que eles crescessem sem medo, sem o perigo constante de ser vítima de crimes que nunca serão punidos. Gostaria de comprar uma bicicleta pra eles. Quando menino eu sonhava em ter uma bicicleta, mas isso nunca se realizou. (Nesse momento o rosto de Tareq se ilumina e ele abre um largo sorriso). Sabe, eu sempre quis ter uma filha…”

yemen e tareq
Em outubro nasceu Ahmad, o segundo filho de Tareq e Sara.

Ontem eu visitei Tareq e Sara em Al Arroub e aproveitei pra fazer essa entrevista. Quando eu cheguei no campo vi várias viaturas do exército israelense e dezenas de soldados barrando a entrada. Mesmo se a presença deles por lá é constante, eu nunca tinha visto tantos reunidos.. Cheguei na casa dos meus amigos na hora do almoço e enquanto me instalava entre a mãe e uma das cunhadas de Tareq, que estavam visitando o meu amigo, perguntei se ele sabia o que estava acontecendo. Ele ligou imediatamente pra um amigo que mora perto da entrada do campo e segundos depois nos deu a notícia que quatro palestinos tinham acabado de ser baleados. Um carro de colonos (ou de policiais israelenses à paisana, isso ainda não está claro) que passava pela estrada abriu fogo contra um grupo de pessoas que se encontrava na frente do campo. Uma estudante de 21 anos foi baleada na cabeça e mais três pessoas tiveram ferimentos leves. A moça estava no hospital em um estado crítico.

Depois do almoço sentamos pra conversar ao redor do chá e do café e pude fazer algumas perguntas a Tareq. Eu já conhecia bem a história dele, mas pela primeira vez ouvi meu amigo falar sobre a infância e os horrores que ele viu e sofreu. No meio da entrevista ele recebeu um telefonema dizendo que a moça não resistiu aos ferimentos e morreu. Ela morava em Belém, mas estudava na faculdade de agronomia em frente ao campo. A notícia se espalhou rápido e pouco tempo depois recebi um telefonema de Anne, que está atualmente trabalhando em Gaza, dizendo pra eu voltar pra casa imediatamente, antes que escurecesse, pois a situação em Al Arroub estava ficando muito perigosa (os sites de notícias aqui são muito eficientes e graças a Twitter podemos saber o que está acontecendo em todas as cidades e campos da Palestina, minuto após minuto).

Nossa conversa me fez perder a noção do tempo e quando levantei pra ir embora já era noite. Tareq sempre me acompanha até a entrada do campo e espera a van comigo, mas eu fiquei com medo dele ser preso ou ferido pelos soldados se saísse de casa. Como mulher eu corro menos riscos e se por acaso algum soldado tivesse a ideia de me prender, meu passaporte estrangeiro garantiria a minha liberação rápida, mas pra Tareq a história seria bem diferente. Insisti pra ele ficar em casa, mas meu amigo nunca me deixaria atravessar o campo sozinha, à noite, com dezenas de soldados escondidos pelos cantos. Apressamos o passo, mas não podíamos correr (seria considerado suspeito e poderíamos receber uma granada de gás lacrimogêneo, ou coisa pior) e o campo estava mergulhado na escuridão, as ruas desertas cheirando a gás lacrimogêneo. A entrada do campo estava coberta com as granadas de gás que tinham explodido há pouco. Felizmente a van que vai pra Belém já estava lá e assim que entrei o motorista partiu.

Poucos minutos depois Tareq me ligou: “Você não vai acreditar, mas assim que a van saiu o exército invadiu o campo. Foi tanto gás, balas e uma chuva de pedras dos moradores tentando impedir a invasão que eu pensei que a terceira intifada tinha começado!” Tareq consegue manter o humor em qualquer situação. Milagrosamente ele tinha chegado em casa ileso, mas não pude não me sentir culpada por ter exposto o meu amigo ao perigo. Vim o caminho todo pensando nas histórias que Tareq tinha me contado, sentindo o peito doer de tristeza. De repente lembrei que ainda não tinha pagado o motorista da van e quando estendi a mão com o dinheiro ele disse: “Seu amigo pagou sua passagem enquanto você subia.” Esse é Tareq. O campo sendo invadido pelo exército, pessoas sendo assassinadas com balas na cabeça e ainda assim ele consegue lembrar de ser cavalheiro.

(Texto originalmente publicado no dia 24 de janeiro de 2013. Hoje Tareq mora nos EUA, pra onde ele conseguiu imigrar com Sara e as crianças. E pra grande alegria dele, alguns anos atrás ele se tornou pai de uma menina.)

A feijoada vegetal que você sempre quis

Seria mais acertado se o título desse post fosse “a feijoada vegetal que eu sempre quis”. Mas se você é uma pessoa que, como eu, adora feijoada, provavelmente você também queria muito essa receita.  

Veja, feijoada “vegana” tem muitas por aí. (Escrevo “vegana” entre aspas porque acredito que apenas pessoas são veganas, comida é “vegetal”.) Provei inúmeras feijoadas vegetais desde que me tornei vegana mas nenhuma era o que eu procurava. Teve feijoadas com verduras (pra mim o nome disso é sopa de feijão), com as caríssimas linguiças vegetais industrializadas (quase sempre acho esses sabores artificiais demais) e as que incluem ingredientes bacanas -tofu, cogumelos- mas sem o sabor marcante e característico de uma boa feijoada. Eu cresci comendo a feijoada de uma pessoa próxima da família que era um desbunde, então meus critérios de avaliação são altos. 

Uma palavrinha sobre a tendência a atolar verduras (cenoura, batata, tomate) na feijoada “vegana”. Parece que a cabeça de algumas pessoas buga quando elas cozinham versões vegetais de comida tradicionalmente feita com animais. Algo como “se é pra ser vegana, deixa eu colocar uma ruma de vegetais nada a ver aqui porque vegana gosta de verdura, né?” Vejo isso principalmente quando uma pessoa não-vegana cozinha pra pessoas veganas. Sim, gostamos muito de verduras, mas feijoada é um prato que tem um padrão de sabor e textura definidos e mexer nisso a transforma, não numa feijoada “vegana”, mas sim em outro prato (sopa de feijão, como já disse).

Talvez você faça parte do grupo de pessoas que não gostava muito daquela orgia de carnes no feijão antes mesmo de se tornar vegana e fique feliz com uma “feijoada” (sim, eu julgo) composta por feijão preto e verduras. Tranquilo, é direito seu. Porém a minha receita é pro pessoal que gostava da feijoada tradicional, do sabor defumado intenso e da mistura de texturas firmes/moles/elásticas junto com o feijão. E se você se encaixa nesse grupo provavelmente se decepcionou muitas vezes procurando essa combinação mágica nas feijoadas vegetais servidas por aí. Suas penas acabaram, compa.

Mas antes de passar pra receita, uma palavrinha sobre embutidos vegetais (salsicha, linguiça). Muita gente usa esses ítens nas suas receitas de feijoada vegetal e, mais uma vez, se isso te deixa feliz, está aqui a mulher que não vai te criticar. Eu, particularmente, tenho dois problemas com esses produtos. O primeiro é, como já mencionei acima, uma questão de sabor, pois acho tudo com gosto artificial demais pro meu paladar e, algumas vezes, uma textura meio estranha também. O segundo é a acessibilidade: esses produtos custam um rim e são difíceis de encontrar. Até o adorado tofu defumado, presença garantida de tantas feijoadas vegetais, cujo sabor me agrada imenso, é muito mais caro que a versão não-defumada.

A minha receita reúne todos os elementos característicos de uma boa feijoada com a vantagem extra de usar ingredientes mais fáceis de encontrar e mais baratos também. E leva zero ultraprocessados! Uso berinjelas, tofu comum e shimeji, que juntos formam um dos trios mais delicioso do mundo vegetal. Preparo metade das berinjelas como na receita de Dona Laura, cortadas em palitos e depois levemente fritas, e elas se transformam em carnes vegetais suculentas dentro do feijão. A outra metade é assada na chama do fogão, como na receita de muta’bal, e é daí que vem o sabor defumado intenso e característico de feijoada. Tive essa ideia um dia quando estava tentando dar o sabor defumado a um prato, mas não tinha nem fumaça líquida nem tofu defumado. Trago boas novas: você não precisa nem de um nem de outro e pode usar esse truque pra defumar qualquer receita, sem passar por ingredientes processados, caros ou difíceis de achar. O tofu entra aqui pra dar enriquecer a variedade de texturas, assim como o shimeji, que também cumpre a função de acrescentar mais uma camada de complexidade (e de umami) ao sabor do prato. Cogumelos são as verdadeiras carnes vegetais.

Talvez você veja o modo de preparo e ache que minha receita é trabalhosa demais. Vou argumentar que feijoada é um prato pra ser degustado em ocasiões especiais, não é algo que fazemos no dia a dia. E você sempre pode fazer uma quantidade grande e congelar a metade pra degustar outro dia. Duas feijoadas pelo trabalho de uma!

Minha feijoada 

Como já é costume aqui, não tem medidas exatas. Os ingredientes aparecem em ordem decrescente, ou seja, do usado em maior quantidade ao usado em menor quantidade. Pra simplificar mais ainda guarde essa informação em mente: no final tem que ficar, idealmente,  metade feijão, metade “recheios”. Se você perdeu a noção e acabou preparando recheio demais, guarde uma parte pra usar em outro prato. Importante: do momento em que coloca o feijão de molho ao momento de degustar a feijoada, você vai precisar de 3 dias. Se planeje em função disso.

Feijão preto

Berinjelas

Cebolas

Tofu

Cogumelo shimeji (tem que ser esse)

Óleo/azeite

Shoyu (molho de soja)

Louro

Sal e pimenta preta 

Dia 1

Deixe o feijão preto de molho (pelo menos 12 horas). 

Dia 2

Descarte a água da demolha, cubra o feijão com água limpa, junte uma ou duas folhas de louro (dependendo da quantidade de feijão que você estiver cozinhando), uma pitada generosa de sal e cozinhe na pressão até ficar macio. Reserve.

Enquanto isso prepare os outros ingredientes. Dica: você também pode preparar os outros ingredientes no dia 1 e reservar tudo na geladeira pra ser usado no dia seguinte, quando cozinhar o feijão.

Você vai preparar a berinjela de duas maneiras, então vamos supor que esteja usando 4 berinjelas médias. Prepare 2 berinjelas como nessa receita. Clique no link pra ver os detalhes, mas aqui vai um resumão: corte as berinjelas em palitos bem finos, salgue generosamente, deixe descansar pelo menos meia hora num escorredor de macarrão dentro de um recipiente maior (pra soltar parte do líquido), depois esprema bem entre as mãos (pra retirar o máximo de líquido) e frite em um pouco de óleo/azeite, mexendo algumas vezes, até ficar bem dourada. Reserve.

As outras 2 berinjelas (se tiver usando 4 ao todo) você vai assar diretamente na chama do fogão, como ensinei nessa receita. Resumão: coloque as berinjelas (inteiras, sem descascar) diretamente sobre a chama, virando pra assar de todos os lados, até ficar carbonizada (não tenha medo, tem que queimar por fora, mesmo). Retire do fogo, corte ao meio no sentido do comprimento e retire a polpa assada com uma colher. Reserve.

Corte os cogumelos shimeji em pedaços médios-pequenos (deixe os mais miúdos inteiros). Aqueça um pouco de óleo/azeite em uma frigideira grande e jogue os cogumelos dentro. Salgue e deixe cozinhar, mexendo de vez em quando, até ficar levemente dourado. Reserve.

Corte as cebolas em 4, no sentido da altura. Não subestime esse ingrediente humilde, elas são muito importantes na receita. Então se tiver fazendo 1/2kg de feijão, use 4 cebolas médias. Numa panela média aqueça óleo/azeite suficiente pra formar uma camada fina no fundo. Doure os pedaços de cebola em fogo médio, sem mexer, até dourar. Vire os pedaços e deixe dourar do outro lado. É importante que elas fiquem bem douradas, quase caramelizadas, então tenha paciência. Pessoas pacientes serão recompensadas. Reserve.

Corte o tofu em cubos médios/pequenos e doure em um pouco de óleo. Tempere com bastante shoyu e reserve. 

Chegou a hora de juntar tudo. Coloque as cebolas caramelizadas (as camadas vão se soltar, é normal), o tofu, o cogumelo, a berinjela em palitos e a polpa de berinjela assada dentro do feijão cozido. Feche a pressão e leve ao fogo só até começar a apitar. Desligue imediatamente o fogo e deixe a pressão sair naturalmente. 

Você pode degustar a feijoada nesse ponto, mas deixa eu te dizer que se você conseguir esperar até o dia seguinte ela vai ficar duas vezes mais gostosa. Prometo. Vale a pena esperar. Se você terminou de preparar a feijoada à noite, pode deixar em temperatura ambiente pra ser degustada no almoço do dia seguinte. Se preparou de manhã/tarde, ferva novamente à noite (sem colocar a pressão) pra que ela não azede enquanto você dorme. Você também pode optar por não ferver de novo e colocá-la pra dormir na geladeira (depois de fria), se sua panela couber dentro. Se quiser congelar uma parte da sua feijoada pra ser degustada outro dia, já pode. 

Dia 3

Ferva a feijoada novamente em fogo brando, até começar a aparecer bolhas pequenas, antes de degustá-la no almoço do dia seguinte.

Não esqueça os acompanhamentos: couve refogada, arroz, farofa e laranja (e, no nosso caso, batata doce cozida 😉

Uma crepioca pra minha mãe

Quando eu estava em Natal, cuidando da minha mãe, frequentemente me perguntava o que podia fazer pra variar o lanche dela. Minha mãe, que tem Alzheimer, acabou desenvolvendo fortes preferências gastronômicas, um eufemismo pra dizer que ela gosta de comer sempre as mesmas coisas. No café da manhã ela gosta de Aveia dormida com chia, no leite de coco, servida com banana e mamão. Feijão (de preferência não o preto, pois ela tomou implicância com toda comida escura: ela acha que é algo podre e acaba jogando fora do prato) com arroz e algum legume cozido (jerimum é um dos preferidos dela). E um tubérculo cozido (macaxeira, inhame ou batata doce) com ovo no jantar (de vez em quando rola um cuscuz no coco com ovo). Toda noite eu fazia um ovo mexido pra ela e minha sobrinha ameaçava me filmar e me expor nas redes sociais (“Olha aí Sandra Guimarães, que se diz vegana, preparando ovo!”). Felizmente não uso redes sociais.

Eu não preparo produtos vindos da exploração animal pra ninguém, o que é uma simples questão de coerência com a minha prática de solidariedade política com os animais (também conhecida como “veganismo”). Mas faço uma exceção pra minha mãe, que não tem mais condições de preparar a própria comida. Não é incoerência, é aceitar as contradições que nós, veganas, temos que enfrentar ao viver em uma sociedade especista. Felizmente minha mãe tem uma alimentação ovo-vegetariana no dia-a-dia. Ela nunca gostou de carnes animais (só come peixe, raramente) e é intolerante à lactose, então o seu ovo diário é, na maior parte do tempo, a única coisa que ela come que não vem da terra.

Voltando pro cardápio diário da minha mãe, o lanche é a única refeição que dá pra inovar um pouco. Geralmente ela come frutas (ela adora), seja em pedaços ou na forma de vitamina (no leite de coco, sempre), mas de vez em quando fazemos algo diferente. Minha irmã do meio me contou que quando é ela que está cuidando da minha mãe à tarde, ela faz crepioca pro lanche. Se a moda da crepioca não chegou até você, deixa eu explicar.

O nome é a mistura de crepe + tapioca, e se trata de ovo batido ao qual se acrescenta um pouco de goma pra tapioca e depois se cozinha na frigideira, como se fosse um crepe. Eu me perguntei se dava pra fazer algo parecido com a massa de grãomelete, já que ele se comporta de maneira bem próxima ao ovo de galinha (estou falando em termos culinários, não necessariamente de sabor). Como sempre tem massa de grãomelete pronta na geladeira (depois de fermentar em temperatura ambiente por uma noite), testei minha ideia imediatamente e tenho a satisfação de anunciar que deu muito certo.

Se você fizer a massa fininha e não deixar secar muito na frigideira, ela ficará macia e flexível e você vai poder recheá-la depois com o que quiser, exatamente como um crepe. Mas com a vantagem de ser mais nutritivo (afinal, tem grão de bico dentro) e não ter glúten, caso isso seja algo a evitar pra você. Se você deixar sua crepioca mais espessa, usar um tico mais de óleo (lembre que grão de bico, ao contrário do ovo, praticamente não tem gordura) e deixar dourar bem, ela fica levemente crocante nas bordas e com uma textura que lembra pão de queijo (aquele “puxa” delicioso) no centro. E você pode temperar com ervas, verduras (desidratadas ou frescas) e o que mais quiser pra deixar sua crepioca ainda mais saborosa. Pra mim foi um verdadeiro achado! As possibilidades da culinária vegetal são praticamente infinitas e ainda estamos no começo dessa jornada.

Se minha mãe gostou? Ela adorou! Tive que fazer a crepioca dela bem molinha (fogo baixo, quase nenhum óleo pra não ficar crocante) e cortar em pedaços, pois minha mãe deixou de usar dentadura, por razões de saúde, no início do ano. Isso significa que ela não conta com a ajuda dos dentes pra mastigar e a comida dela tem que ser cremosa, amassada com um garfo (o que fazemos no almoço) ou cozida até ficar bem macia (o que fazemos com os tubérculos). Fiz crepioca duas vezes pra ela, e nas duas vezes ela comeu tudo com gosto.

Que seja pra alimentar você mesma, ou alguém que você ama, faça essa receita em casa. É sempre bom expandir nosso repertório culinário, ainda mais quando se trata de algo tão simples, rápido e versátil. E gostoso, claro.

Crepioca – versão vegetal

Mais uma receita que não tem medida. Se você acabou de chegar nesse blog, vá se acostumando. Autonomia na cozinha, a gente vê por aqui. Você vai ter que começar no dia anterior, misturando a farinha de grão de bico com água, como na receita de grãomelete. Mas depois que tiver essa massa pronta na geladeira, você estará sempre a poucos minutos de degustar uma crepioca. Usei goma fresca, porque sempre tem esse ingrediente na casa da minha mãe, mas talvez dê certo com polvilho doce. Quem testar aí, volta pra contar.

Massa pra grãomelete, preparada na véspera (farinha de grão de bico + água. Veja como fazer aqui)

Goma fresca (pra fazer tapioca)

Azeite ou óleo

Sal a gosto

Misture a quantidade desejada de massa pra grãomelete (dependendo de quantas bocas você quer alimentar) com um pouco de goma fresca (não precisa ser peneirada, pode ser um torrão de goma também, já que ela vai se desmanchar na massa). Da primeira vez usei uma proporção metade/metade, mas na segunda usei mais massa de grãomelete do que goma (talvez numa proporção 2/3 pra 1/3) e achei bom também. Então qualquer coisa entre 1/3 e metade de goma, em volume, dá certo.

Tempere com sal a gosto. Aqui você também pode acrescentar ervas frescas ou desidratadas e temperos. Uma vez usei uma mistura de cebola, alho e tomate desidratados, salsinha e páprica e ficou ótimo! Use sua imaginação… ou só um pouco de sal, mesmo. Junte mais um pouquinho de água, se a mistura ficou muito espessa. Você quer que a massa seja um líquido levemente cremoso, como na foto acima.

Aqueça um pouco de azeite/óleo em uma frigideira antiaderente e espalhe uma camada fina da massa. Deixe cozinhar coberto (pra cozinhar um pouco no próprio vapor), por alguns minutos, até a parte superior secar. Vire e deixe cozinhar mais uns instantes do outro lado, sem cobrir. Se quiser que fique crocante nas bordas, faça uma camada um pouco mais grossa (não exagere, caso contrário ficará cru no meio), use um pouco mais de azeite/óleo e aumente o fogo no final do cozimento, até que fique dourado.

Deguste pura, com uma pasta da sua preferência ou recheada, como um crepe.

Os últimos dias

Volto pra França daqui a alguns dias e tenho muita coisa pra contar sobre a passagem pelo Brasil. As duas últimas semanas foram cheias de encontros e projetos com potencial de fazer grandes transformações mas será necessário algum tempo antes de conseguir compartilhar tudo. Os dias aqui em Natal seguem cheios de tarefas, a principal sendo cuidar da minha mãe, e por isso me sinto exausta em permanência. Tô aqui economizando forças pra segurar as pontas até o momento do embarque e como a longa travessia entre Natal e minha casa, em Paris, levará quase 24 horas, com certeza vou precisar de uns dias de descanso quando chegar do outro lado. Então hoje deixo vocês com alguns momentos de alegria que vivi entre Natal, São Paulo e Recife, antes de voltar à nossa programação normal de receitas e reflexões.

O bolo dos meus sonhos

Meu problema com bolos é que, na maioria das vezes, quando coloco um pedaço na boca, minhas papilas detectam um engrolado de farinha de trigo, açúcar e óleo (o que realmente eles são) e não consigo achar isso gostoso. Sei que essa é uma das minhas muitas opiniões impopulares mas bolos não entram na categoria “comida” pra mim. É guloseima, e tudo bem comer guloseimas… se elas te trazem prazer. O negócio é que essa guloseima aí não me traz prazer. 

Veja que, no meu trabalho, eu já defendi a posição de que tentar fazer bolos “saudáveis” é meio absurdo. Bolo é só pra ser gostoso, mesmo, e apreciado com moderação. “Saudável” é um prato de feijão com arroz e couve. Já coloquei abobrinha em um bolo, delicioso, por sinal! Mas não fiz isso pra deixar o danado mais saudável. Se trata de uma receita interessante pra aproveitar um excesso de abobrinha que tenha na geladeira e a textura do bolo realmente é melhorada pelo acréscimo desse vegetal. 

Então não acho que eu deva fazer o esforço de desenvolver bolos “saudáveis” e “nutritivos” pra que se tornem interessantes pra mim. Eu simplesmente deixo os bolos pra quem gosta deles e vou bater meu prato de feijão e comer frutas frescas, feliz da vida. Mais uma vez: não porque fruta é saudável mas porque troco qualquer sobremesa por fruta.

E falando em fruta, os únicos bolos tradicionais (entenda: que usam uma mistura de farinha de trigo, açúcar e óleo) que eu gosto, embora um pedaço pequeno seja o suficiente pra me deixar satisfeita, são o bolo de laranja e, principalmente, o de maracujá que minha irmã Lu e eu fazemos. 

O bolo de hoje está em outra categoria pra mim. Não leva farinha de trigo (de nenhum tipo, na verdade), só tem um tico de óleo e muito menos açúcar do que você espera encontrar em uma receita de bolo. Bolo de macaxeira é uma tradição aqui no Nordeste e sempre foi o meu preferido. Feito com macaxeira inteira (ralada) e coco fresco, quando como bolo de macaxeira tenho a impressão de comer comida e comida muito gostosa!

Uma das minhas cunhadas é famosa na família por fazer o melhor bolo de macaxeira de todos. Mas a receita dela leva ovo e quando me tornei vegana deixei de comer o bolo dela. A pessoa que faz o segundo melhor bolo de macaxeira que já comi, uma amiga da família que mora no Sertão, sempre fez seu bolo sem ingredientes de origem animal. Então quando o veganismo entrou na minha vida, essa amiga passou a ser a minha fornecedora de bolos de macaxeira e ela ainda me manda bolos de presente quando estou em terras potiguares. Eu até pedi a receita dela, mas nunca consegui fazer algo tão bom quanto ela. Até que ano passado minha cunhada, triste por eu não comer mais o bolo de macaxeira dela, disse que ia tentar fazer sem ovos também. Eu fiquei feliz demais porque sabia que, sendo ela a melhor fazedora de bolo de macaxeira que eu conheço, o bolo de macaxeira vegetal dos meus sonhos tinha que sair da cozinha dela. E ela realmente não me decepcionou!

Pedi a receita à minha cunhada, pra ter certeza que dava pra reproduzir os mesmos resultados em outras cozinhas, e depois de ter feito duas adaptações, ela está pronta pra ser compartilhada. As mudanças que fiz foram: 1-deixar de fora o fermento, já que esse não é um bolo fofo, não cresce no forno e o fermente é desnecessário e 2- substituí o coco ralado desidratado por coco ralado fresco, em maior volume, porque era o que eu tinha mas também porque minha intuição culinária me falou pra seguir esse caminho. Alterou ligeiramente a textura e sabor do bolo mas fiquei ainda mais feliz com o resultado. E minha irmã mais velha, outra grande apreciadora de bolo de macaxeira, declarou que eu tinha conseguido fazer um bolo ainda mais delicioso do que o bolo original da minha cunhada. Não me surpreendeu, já que o ovo não tem motivo pra entrar nesse bolo (como eu disse, ele não cresce e a macaxeira – rica em fécula- é mais que suficiente pra dar liga), e ainda vem, com seu cheiro forte, tentar ofuscar o brilho da macaxeira. E ter acrescentado coco fresco, e não desidratado, só aumentou a gostosura: coco e macaxeira foram feitos um pra outra (mais uma prova disso nessa tapioca com coco). 

Mas ter ouvido que ultrapassei minha mestra de bolo de macaxeira, isso sim me surpreendeu.

Bolo de macaxeira com coco

Essa é a receita da minha cunhada, com pequenas modificações minhas. Esse bolo é cremoso, cheiroso e o sabor é uma perfeição. É o meu preferido da vida! Ele fica muito mais delicado com leite de coco fresco. Se você só puder usar leite de coco industrializado, se joga mas saiba que nesse caso o sabor de coco será muito mais pronunciado, comprometendo o protagonismo da macaxeira. Se você gosta de bolo de macaxeira, experimente também o meu bolo de carimã com goiabada. Esse bolo não tem o excesso de açúcar que se espera encontrar em um bolo. Você pode dobrar a quantidade de açúcar, se quiser um bolo mais tradicionalmente doce, mas eu te pergunto: por que fazer isso, compa????? Açúcar deveria ser tempero e não o ingrediente principal.

2,5 xíc. de macaxeira, crua e ralada fina – descascar antes de ralar, obviamente (macaxeira = mandioca = aipim)

1,5 xíc. de coco fresco ralado (aquele usado pra fazer leite de coco)

1 xíc. de leite de coco (fresco e concentrado -use menos água do que o usual)

1/2 xíc. de açúcar (qualquer um)

2 col. de sopa de óleo (usei de coco)

Pitada generosa de sal (com quatro dedos)

Misture tudo com uma colher de pau. 

Unte uma forma pequena com óleo (gosto das formas com buraco no meio) e polvilhe com bastante farinha de mandioca (pode usar farinha de trigo ou coco ralado desidratado, daqueles de pacote). Despeje a massa na forma e leve pra assar em forno médio (não precisa pré-aquecer) até ficar bem dourado nos lados e levemente dourado em cima. No nosso forno, que é bem quente, leva 1h20, mas pode precisar de mais tempo. Compare com a foto abaixo pra saber se ele está pronto. Resista a tentação de colocar o forno no máximo, pra acelerar o processo, pois seu bolo vai queimar por fora antes que a macaxeira cozinhe por dentro.

Deixe esfriar na forma antes de desenformar. Esse bolo é bem cremoso recém-saído do forno, e fica mais firme (embora ainda cremoso) no dia seguinte. 

Observações importantes:

-Se você gosta de bolo de macaxeira cremoso, como eu, é importante que a macaxeira seja ralada bem fina. Eu usei o processador, com a lâmina de ralar em cima mais a lâmina “S” embaixo, pra ficar bem fininho (e ralar tudo em um piscar de olhos). Se você só tiver um ralo grosso, dá certo também. Porém preciso avisar que a textura vai ficar um pouco mais rústica e o bolo, ligeiramente menos úmido. Veja a textura da massa crua na foto abaixo pra ter uma ideia do que chamo de macaxeira “ralada fina”.

-Essa receita faz um bolo pequeno por uma razão importante: bolo de macaxeira tem vida curta. Menos de 48 horas depois de feito ele estraga. Dica: sabemos que está estragado quando o cheiro fica levemente ácido e o bolo “puxa fio” quando cortado. Pelo menos é o que acontece aqui no calor do Nordeste. Sim, você pode deixar na geladeira e talvez ele dure mais um dia se refrigerado mas a consistência muda (fica duro e meio áspero) e acho menos gostoso. Então acho que a solução é fazer um bolo pequeno, mesmo, pra não correr o risco de ter disperdício. 

Creme fermentado de amendoim

A tarefa de descolonizar a alimentação se torna mais importante pra mim a cada dia que passa. Ao ponto de ser hoje um dos pilares principais da minha militância antiespecista e a minha maior inspiração na cozinha. Por isso que a receita de hoje é um verdadeiro tesouro! 

Lembra quando eu falei sobre nós sermos o povo do amendoim? Agora imagine se essa leguminosa (sim, é da família do feijão) pudesse se transformar em algo cremoso e nutritivo, barato e delicioso, pra usar em todos os lugares que você usaria um, digamos, requeijão? Se ao invés de usar um produto ultraprocessado (quase sempre), vindo da exploração e sofrimento animal (sempre) e que é uma das principais marcas da colonização dos nossos hábitos alimentares (as vacas foram levadas pro Brasil pelos invasores europeus durante a colonização) a gente acompanhasse nossas tapiocas matinais com um creme delicioso feito com o amado amendoim?

Fruta-pão cozida, quiabada, tapioca com creme fermentando de amendoim e café com leite de coco
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Farofa d’água

Estou aproveitando que minha mãe está tirando um cochilo pra compartilhar essa receita com vocês, então serei breve. (A vida de quem tem māe idosa e doente em casa é assim: só posso trabalhar aqui no blog nos intervalos do outro trabalho, o de cuidadora.)

Conhecem farofa d’água? É bem popular aqui no RN, mas pesquisei rapidamente e descobri que ela é apreciada em outros estados do Nordeste.

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Chuchu com tucupi preto

Eu já defendi o chuchu nessa receita de tostada. Se você é uma das pessoas que daria o troféu do vegetal mais sem graça ao chuchu, recomendo que faça a receita de tostada, que leva tomate e manjericão, pra começar a mudar sua opinião sobre esse legume tão injustiçado. Por que injustiçado? Porque, como eu já repeti muitas vezes por aqui, “não existe vegetal ruim, você que não está preparando direito” (frase do maravilhoso Ruan Félix). Mas se quiser ir um pouco mais longe na expansão do seu horizonte culinário, chega mais. 

Cresci comendo chuchu refogado, feito pela minha mãe. Na minha casa começamos a cozinhar cedo e logo era eu a encarregada dos legumes refogados do almoço, que durante muito tempo variavam entre batata e chuchu. Pra mim chuchu refogado tem gosto de casa e reconforto. 

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E também tem maracujá

Estou mais uma vez em terras potiguares. É o meu terceiro dia aqui e meu corpo ainda não se acostumou com a temperatura do nosso verão. O choque térmico foi grande e lembrarei de evitar, no futuro, passar do inverno francês pro verão brasileiro. Mas o motivo das minhas vindas ao Brasil terem se tornado mais frequentes é porque preciso cuidar da minha mãe, então passei a planejar essas viagens de acordo com as necessidades daqui e as possibilidades de lá, não com o período do ano em que a temperatura é mais agradável.

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Feijão acebolado

Feijão é bom. Feijão é a base da alimentação da vegana. Feijão é a proteína do proletariado. Feijão (leguminosas em geral) é a solução pra que comer animais se torne obsoleto. E tem mais.

-Ele fixa nitrogênio no solo. Plantado em rotação melhora o rendimento das outras culturas e diminui a necessidade de fertilizantes.

-Pra produzir 1kg de lentilhas são necessários 1250 L de água. Pra produzir 1kg de carne de frango: 4325 L. 1kg de carne de vaca: 13 mil L (fonte: FAO)

-Ele absorve carbono, reduzindo o efeito estufa.

-É rico em proteínas de qualidade, de fácil digestão, pobre em gordura e cheio de fibras.

-Essas fibras controlam o nível de açúcar no sangue, apesar dele ser rico em carboidratos, dando sensação de saciedade por mais tempo (ótimo parceiro pra diabéticas).

-É a proteína mais acessível economicamente. Em períodos de crise, quando a população não consegue mais comprar animais, o feijão continua no prato. Junto com o fiel arroz, é uma proteína completa, com todos os aminoácidos essenciais.

-É o alimento que pode tratar ao mesmo tempo a subnutrição e os problemas de saúde ligados a dietas pobres. É um guerreiro na luta contra a fome e a fome oculta.

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O povo da paçoquita

Não era a minha intenção. Eu só queria testar uma ideia. Levar um agrado comestível pro grupo de apoio entre militantes que acabamos de criar aqui. Preparar um lanchinho pras crianças que frequentam a oficina do domingo, organizada pelo meu coletivo. Mas sabe o que aconteceu? Descobri algo que talvez, talvez mude sua vida. 

Aconteceu assim. Eu estava lendo um blog de comida que sigo há mais de uma década e achei uma receita de biscoito de amendoim. Ela me intrigou. A receita usa ovo e no próprio texto a autora explica que dá pra substituí-lo por uma mistura de linhaça triturada e água (ela até chama isso de “ovo de linhaça”). Decidi fazer a receita sem tentar substituir o ovo, por duas razões.

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Veganismo e feminismo

Em 2020 fui convidada pelo podcast Sapataria pra participar de um episódio sobre veganismo. Foi durante o mês da visibilidade lésbica e tive a honra de dividir o episódio com mais duas lésbicas veganas que admiro: Carla Candace e Luciene Santos. O post de hoje é a transcrição da minha fala, que tratou sobre feminismo e veganismo. São pautas centrais na minha militância e fazia tempos que eu pensava em abordar esses temas, expondo suas conexões, aqui. Mas recomendo muito que você não pare nessa leitura e escute o episódio inteiro (Especial Mês da Visibilidade: Veganismo), pois Carla e Luciene falaram coisas extremamente importantes, que não abordei aqui.

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Depois que ela se foi

Ontem eu estava limpando meu computador, que não para de me enviar mensagens dizendo que não tem mais espaço pra nada por aqui, quando achei essa foto feita há exatamente um ano.

Eu sempre tive medo de cachorros. Um velho trauma de infância, nada grave, mas suficiente pra ter me feito temer aproximação com cães durante quase toda a minha vida. Até que Nina entrou pra família. A história de como ela chegou até nós é bonita, então vou contar.

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