Veganismo e feminismo

Em 2020 fui convidada pelo podcast Sapataria pra participar de um episódio sobre veganismo. Foi durante o mês da visibilidade lésbica e tive a honra de dividir o episódio com mais duas lésbicas veganas que admiro: Carla Candace e Luciene Santos. O post de hoje é a transcrição da minha fala, que tratou sobre feminismo e veganismo. São pautas centrais na minha militância e fazia tempos que eu pensava em abordar esses temas, expondo suas conexões, aqui. Mas recomendo muito que você não pare nessa leitura e escute o episódio inteiro (Especial Mês da Visibilidade: Veganismo), pois Carla e Luciene falaram coisas extremamente importantes, que não abordei aqui.

Desde o início do movimento feminista as mulheres já faziam essa relação entre a luta por emancipação feminina e o consumo de animais não humanos. As feministas europeias do final do século 19 já questionavam o consumo de carne porque, segundo elas, o preparo de animais exigia muito mais tempo de trabalho, enquanto cozinhar vegetais era mais rápido, fazendo com que a mulher passasse menos tempo na cozinha e tivesse mais tempo livre pra participar da vida política (lembrando que na época muitas delas abatiam com as próprias mãos e limpavam antes de cozinha-los). E os paralelos entre a dominação das mulheres e a dominação dos animais não humanos logo foram identificados. E é por aqui que eu gostaria de começar.

Pra entender o que veganismo e feminismo tem em comum acredito que é importante entender primeiro o que a opressão das mulheres tem a ver com a opressão de animais não-humanos, o que o sexismo tem em comum com o especismo. “Especismo”, pra quem não conhece o termo, é a discriminação e opressão baseada na espécie, assim como “racismo” é a discriminação baseada na raça, sexismo no sexo, etc. 

E o especismo e o sexismo têm uma base comum: a dominação do homem sobre o que é visto como vulnerável/mais fraco. No primeiro caso, sobre o animal não-humano e, no segundo caso, sobre a mulher. Como mulheres também podem ser especistas e se beneficiam do especismo, a coisa fica menos visível, mas vou tentar explicar aqui começando com uma história pessoal.

Quando eu tinha 12 anos um tio meu comprou uma casa com piscina. Foi a primeira vez (e até hoje única) que alguém da minha família teve uma piscina e o resultado foi que a família inteira invadia a casa do tio nos fins de semana. Durante as férias de verão vieram até familiares de outras cidades e o pobre do meu tio não teve sossego durante meses (até vender a casa). Mas o fato é que naquele verão, o verão dos meus 12 anos, eu passei muito tempo na piscina e um dos meus primos, um dos familiares que tinha vindo de longe pra aproveitar a piscina, sempre fazia um comentário específico quando me via de biquíni. Esse primo é uns 20 anos mais velho, então se eu tinha 12 anos ele tinha 32. Sempre que eu passava na frente dele de biquíni ele repetia, bem alto pra todo mundo ouvir, que eu estava “só o filé”. Meu corpo estava começando a mudar, meus peitos tinham começado a crescer, minha bunda também, e eu me lembro de ter ficado chocada com os comentários dele (tanto que hoje, 26 anos depois, eu ainda lembro perfeitamente do acontecido). O fato dele ter repetido, várias vezes, que eu estava “só o filé” ao mesmo tempo que preparava o churrasco, enquanto manipulava um filé de vaca, só aumentava o meu desconforto. 

Que mulher nunca se sentiu tratada “como um pedaço de carne” por um homem? Não é por acaso que a palavra escolhida pelo meu primo pra dizer que meu corpo estava mudando e que por isso eu estava pronta pra ser consumida, figurativamente, por um homem é a mesma usada pra falar de um pedaço de outra fêmea, a vaca, essa consumida no sentido literal. Não é por acaso que homens dizem “comi tal mulher” pra falar que fez sexo com ela. 

Então tem esse primeiro ponto em comum: a objetificação. O corpo da mulher é objetificado, assim como o corpo do animal não humano é objetificado.

Objetificação é o processo pelo qual a subjetividade e interesses de alguém são suprimidos e esse alguém, a vida desse alguém ou o corpo desse alguém, passa a existir apenas pro benefício de outro alguém. Mulheres são espancadas, estupradas e assassinadas por serem vistas como objetos pra satisfazer o prazer dos homens. Não como sujeitos conscientes com aspirações e desejos próprios. 

E o animal não humano também é objetificado seguindo essa lógica. Não são considerados como sujeitos que existem por razões próprias, mas como objetos que estão ali pra servir os interesses dos humanos, “dar” leite, ovos. O homem come a mulher pra satisfazer seu prazer sexual e come a vaca, literalmente, pra satisfazer seu prazer gustativo. 

Se o sexismo diz que o homem é superior à mulher, o especismo diz que o humano é superior ao não humano e essa suposta superioridade justifica discriminação, opressão e violência em ambos os casos. 

Quando você objetifica corpos eles se tornam coisas que servem pra um propósito específico.

O patriarcado diz que o homem é superior à mulher, então elas existem pros homens. O especismo diz que o humano é superior ao não humano, então animais não humanos existem pros humanos. Objetificar seres é a primeira etapa pra naturalizar e justificar a violência contra seus corpos.

Vou citar aqui uma feminista negra e vegana estadunidense, chamada Afh Ko: 

“O que é ainda mais assustador é que a vulnerabilidade percebida dos animais é usada como justificativa implícita para os abusos. Em outras palavras, porque os animais não podem lutar e resistir, nos dar ou negar consentimento, ou se organizar em oposição, nós, como seres humanos, sentimos que podemos fazer o que quisermos com eles, geralmente, sob o pretexto de “cuidar” dos seus interesses.”

Então já dá pra ver o quanto a lógica por trás da opressão das mulheres e dos animais não humanos é a mesma. (Eu vou repetir sempre “animais não humanos” porque é extremamente comum pensar que humanos não são animais, o que já é o primeiro passo pra que a ideologia de dominação do não humano se instale. Parece que somos algo diferente dos animais, que tem os animais, a natureza, e os humanos. Somos animais e somos natureza, e acho importante repetir isso sempre).

O segundo ponto em comum entre a opressão sofrida por mulheres e por animais não humanos é a violência sexuada. No complexo industrial especista, a violência imposta aos animais não humanos é diferente de acordo com o sexo deles. Fêmeas são ainda mais exploradas e torturadas do que machos, como vemos na produção de ovos e leite: a capacidade de reprodução dita o controle dos corpos dos animais. Vacas e porcas são continuamente estupradas, no processo de inseminação artificial, e quando seus corpos já não aguentam mais se reproduzir, depois de uma vida de tortura, elas são mortas e seus corpos terminam de ser consumidos. 

Talvez isso choque algumas feministas, mas consumir corpos de fêmeas de outras espécies, que foram violentadas e estupradas, deveria ser um problema pra nós, que lutamos contra a cultura do estupro. 

E tem mais um ponto em comum entre o sexismo e o especismo, talvez o mais difícil de observar sozinha, mas ao mesmo tempo o mais explícito de todos. 

Violência contra animais não humanos acaba gerando violência direta contra humanos, principalmente os mais vulneráveis: mulheres e crianças. Tem uma correlação entre essas duas violências. Tanto que o abuso de animais é um dos indicadores que o FBI usa pra avaliar um futuro comportamento violento. De acordo com a American Humane Association em 88% das casas onde tinha abuso de crianças, também tinha abuso de animais não humanos.

Em 2009 foi publicado um estudo, feito por 3 pesquisadoras nos EUA, sobre a correlação entre o trabalho nos abatedouros e o aumento de crimes. O nome do artigo, em Inglês, pra quem quiser procurar depois, é “Slaughtehouses and increased crime rates”. Foram vários anos de pesquisa em mais de 400 municípios e mesmo levando em conta as variáveis geralmente associadas ao aumento de criminalidade (como desemprego, pobreza, comunidades desorganizadas), quando um abatedouro se instala em uma cidade a taxa de crimes aumenta, mesmo de crimes graves, como assassinato. E, o que não é uma surpresa, a violência doméstica, estupros e agressões sexuais contra mulheres aumentam de maneira vertiginosa sempre que os homens da comunidade vão trabalhar em um abatedouro. Se você está pensando que talvez isso tenha a ver com a alienação produzida pelo trabalho industrial, saiba que o estudo investigou isso e nenhuma outra indústria produz o mesmo efeito de aumento de violência visto no trabalho em abatedouros.

A conclusão do estudo é exatamente o que tentei explicar aqui. Citando o estudo: “A maioria desses crimes é cometida contra aqueles e aquelas com menos poder e nós interpretamos isso como a evidência de que o trabalho feito em abatedouros pode se transformar em violência contra grupos com menos poder, como mulheres e crianças.” 

O sistema de dominação que produz o sexismo funciona de acordo com a mesma lógica que o especismo. Animais são objetificados, deixam de ser sujeitos que existem por razões próprias e passam a ser objetos que existem pro nosso prazer. E as fêmeas não humanas são torturadas e estupradas porque queremos os frutos do seu sistema reprodutor (o leite e os ovos) e quando elas não nos servem mais, são abatidas e seus corpos são consumidos. E se isso não é suficiente pra gente, que é feminista, questionar o especismo, a correlação entre violência contra animais não humanos e violência contra humanos, principalmente mulheres e crianças, deveria ser o argumento final pra gente decidir levar nossa solidariedade política aos animais não humanos, parando de dar apoio material e financeiro pro sistema de dominação e exploração conhecido como especismo. Em outras palavras, nos tornando veganas, se isso estiver dentro das nossas possibilidades materiais. 

Palavras como “cachorra”, “cadela”, “piranha”, “galinha” e “vaca” são são frequentemente usadas pra xingar mulheres. Mulheres são comparadas com animais, são animalizadas. Pro patriarcado, que exerce sua dominação sobre os mais vulneráveis, isso justifica a nossa opressão. Enquanto o especismo existir, o sexismo vai existir. Em outras palavras, enquanto a violência e a discriminação baseada na espécie for normalizada, a discriminação e violência contra mulheres vai continuar existindo. Por isso acredito que a luta feminista deve ser antiespecista e inversamente. 

Depois que ela se foi

Ontem eu estava limpando meu computador, que não para de me enviar mensagens dizendo que não tem mais espaço pra nada por aqui, quando achei essa foto feita há exatamente um ano.

Eu sempre tive medo de cachorros. Um velho trauma de infância, nada grave, mas suficiente pra ter me feito temer aproximação com cães durante quase toda a minha vida. Até que Nina entrou pra família. A história de como ela chegou até nós é bonita, então vou contar.

Meu irmão caçula é bombeiro. Um dia teve a seguinte ocorrência no trabalho dele: dois cães ferozes tocando terror em algum lugar da cidade. Ele foi lá, junto com seus colegas de trabalho, e os “cães ferozes” em questão eram dois Golden Retriever inofensivos. Meu irmão levou os dois pra casa e colocou anúncios por todos os lados procurando as pessoas humanas responsáveis por eles, pois aquele casal de Golden com certeza tinha escapado de um lar. Levou algum tempo até encontrar as pessoas humanas responsáveis pelas pessoas caninas e nesse ínterim minha família alimentou, cuidou e, como era de se esperar, se afeiçoou pelos cães. Quando eles finalmente voltaram pra casa deles, não antes de um momento de desconfiança por parte da minha família (“E se essas pessoas não forem as verdadeiras responsáveis pelos cães?”), ficou um vazio grande em casa. Pula pra alguns meses depois. Escutamos alguém chamar no portão (não tínhamos campainha). Era o casal de humanos responsáveis pelo casal de Golden, com um filhote nos braços. Uma maneira de agradecer meu irmão por ter encontrado e cuidado dos cães até que eles pudessem voltar pra casa. Foi assim que Nina entrou na nossa vida.

O meu medo de cachorros já estava sob controle, graças a uma outra pessoa canina que fez parte da família por alguns anos, mas eu ainda não conseguia relaxar totalmente. Não confiava ainda que aquela boca cheia de dentes não iria me morder se eu fizesse um gesto brusco ou que fosse interpretado como uma agressão. Nina era a doçura incarnada num corpo de cadela. Vi crianças pequenas colocarem a mão (no caso de bebês, o braço) na boca dela, durante as brincadeiras, e ela ficava imóvel, pra não correr o risco de machucá-las. Pela primeira vez eu confiava num cachorro (na verdade, cadela). Eu conseguia me deitar no chão, do lado dela, abraçá-la e beijá-la sem o mínimo medo de ser mordida. Ela conseguiu me cativar e me fez superar completamente o meu trauma de infância. Depois da chegada de Nina consegui perder o medo de todos os cachorros e minha relação com a comunidade canina se transformou completamente. Nina me fez amar cachorros.

Sempre quis escrever sobre ela aqui no blog e me dói só estar fazendo isso agora, quando sou obrigada a usar o passado pra falar dela. Nina se foi dois dias antes do natal.

Na última vez que estive na casa da minha família, no Brasil, notamos que ela estava com um caroço no ombro esquerdo. Pouco tempo depois o câncer foi confirmado. Minha sobrinha Lenita, que é veterinária e era a humana responsável por Nina, junto com meu irmão, fez o possível pra salvá-la. Tentou todos os tratamentos e remédios e seguia obstinada a curá-la, mesmo considerando amputar uma pata, até chegar no ponto em que os veterinários da clínica onde Nina estava internada tiveram que chamar minha sobrinha pra conversar e convencê-la de que a batalha tinha sido perdida. Nina já estava com as quatro patas paralisadas há alguns dias e sofrendo muito. Nunca passei por isso, então posso apenas imaginar a dor da minha sobrinha quando teve que tomar a decisão de colocar um fim ao sofrimento de alguém que ela amava tanto.

Nina morreu em casa, cercada pelas pessoas humanas, canina e felinas que compõem a nossa família. A família dela. Minha sobrinha a trouxe do hospital de manhã cedo e ela passou as últimas horas comendo coisas que ela não poderia comer em tempos normais e recebendo carinho das parentes de diferentes espécies. Eu sempre pergunto às pessoas o que elas escolheriam como última refeição, se soubessem que morreriam dali a pouco. Pela primeira vez eu sei exatamente o que uma pessoa que eu amo comeu na sua última refeição. Nina comeu uma torrada (“Com queijo de manteiga!”, explicou a minha sobrinha) e chocotone. Como todo mundo sabe, chocolate é nocivo pra cães e ela nunca tinha provado até então. Nina adorou chocolate, apesar de, por causa do seu estado de saúde, só ter conseguido comer um pouquinho do que foi oferecido. Liguei pra minha sobrinha e pude me despedir de Nina numa chamada de vídeo. No final da manhã minha sobrinha e meu irmão colocaram ela no colo, o resto da família, todas as espécies misturas, se juntaram ao redor e Nina partiu. Ela morreu com dignidade e cercada de amor, depois de ter lutado contra o câncer durante vários meses.

As cinzas dela estão numa caixa na sala, esperando pra serem jogadas na praia onde ela passou tantos momentos felizes. Nina adorava praia. Em julho do ano passado minha irmã Lu e eu alugamos uma casa de praia pra passar uns dias com a família. Nina viveu dias de alegria intensa ali. Ela passava o dia inteiro do lado de fora, olhando o mar e levando vento na cara. Tanto que meu irmão, o humano dela, precisou improvisar um abrigo pra que ela não ficasse o dia inteiro embaixo do sol. A alegria dela era uma coisa linda de se ver. Quando voltamos da praia ela caiu numa tristeza profunda. Achávamos que era saudade da praia, depressão por ter voltado pra uma casa na cidade, sem quintal, longe do mar que ela tanto amava. Mas aquilo durou dias e dias… Até que descobrimos o caroço. Não era tristeza, era a doença já tomando conta do corpo dela.

Uma das minhas maiores felicidades, e alento, é saber que proporcionamos os dias mais felizes da vida dela pouco antes dela adoecer.

Mês que vem estarei em Natal novamente e apreendo o momento em que entrarei na casa familiar pela primeira vez desde que ela se foi. A casa sem ela deve parecer enorme. Chico, o outro cachorro que faz parte da família, ainda está perdido. Levanta, procura ela pela casa, se deita, se levanta novamente, procura mais uma vez… Sinto que, pelo menos nos primeiros dias, é isso que vai acontecer comigo.

3 de janeiro

Eu não sei como foi o ano pra vocês, mas 2021 me deixou sentindo como se eu tivesse caído de um caminhão em movimento. Detalhe: a queda foi no meio de um cruzamento movimentado, então nem deu tempo de parar e conferir se estava tudo bem. Já tive que levantar, bater a poeira da bunda e correr pra não ser atropelada. Porque apesar dos meus pedidos encarecidos, 2022 não quis esperar e já está aqui. Eu não estou pronta, mas bora lá.

Em 2021 a situação de saúde da minha mãe, que tem Alzheimer, piorou e estive no Brasil duas vezes. Foram muitas horas com uma máscara FFP2 na cara, atravessando o oceano de cá pra lá e de lá pra cá. Quarentenas em cada ponto de chegada. E impossibilidade de visitar as amizades e familiares que moram em outras cidades. Daqui a um mês estarei no Brasil novamente, mas fico, mais uma vez, só em Natal. Dependendo da situação, quem sabe chego até Recife? 

Também tentei, sem sucesso, voltar a trabalhar em restaurantes de maneira regular. No fundo eu não queria, mas como minha principal atividade profissional (os tours políticos em Paris) foram cancelados desde o início da pandemia, minha situação financeira acabou me empurrando de volta pra esse caminho. Mas a maioria dos restaurantes veganos por aqui seguem atravessando dificuldades financeiras, ligadas à crise sanitária e econômica, e tá difícil pra todo mundo. Tenho algumas ideias de como voltar a ganhar o suficiente pra pagar os boletos (que são em Euros, miséria!), mas conto outro dia.

Mas teve muito amor esse ano. Depois de alguns anos sendo uma pessoa não-monogâmica, mas que só se relacionava com uma pessoa (eu brincava que era “não-monogâmica não-praticante”), eu me apaixonei novamente. Sempre tenho vontade de rir de quem acha que pessoas não-monogâmicas estão sempre namorando 5 pessoas ao mesmo tempo. Eu passo anos só com uma pessoa e nunca me aconteceu de me relacionar com mais de duas mulheres ao mesmo tempo. Mas isso é conversa pra outro dia. 

Foi o ano que o Instagram resolveu que eu não era mais bem-vinda por lá e desativou a minha conta. Eu já tinha planejado sair dessa rede no final do ano, então não foi algo tão dramático. As únicas coisas que me entristeceram nessa história foi não ter podido me despedir da galera que me seguia por lá e também ter perdido todo o meu conteúdo. Em 8 anos de Instagram eu produzi mais de 2000 posts e tem fotos que nem tenho mais. Mas olha, minha vida é tão melhor agora que não uso nenhuma rede social (nem IG, nem FB, nem Twitter, nem TikTok)! Infelizmente perdi muita gente que acompanhava o meu trabalho por lá e que não me lê aqui no blog. E teve o pessoal que deixou de apoiar o meu trabalho no Apoia-se. Entendo. E tudo isso está fora do meu controle, então segue a vida. Ainda tenho planos de fazer um vídeo ou texto sobre o que mudou por aqui desde de que não tenho mais o Tamagochi chamado Instagram pra alimentar de 3 em 3 horas, mas isso é conversa pra outro dia.

Sabe o que mais aconteceu em 2021? Fiz 40 anos. Parece uma idade tão séria. É agora que começa a crise de meia idade? “Meia idade”! Até escrever isso é estranho. Quer dizer que já vivi metade da minha vida e que à partir de agora terei vivido mais dias do que os que me restam pra viver? Eu fiz uma coisa bem bacana pra comemorar o meu aniversário, mas isso também é conversa pra outro dia. 

Passei o natal, que eu não comemoro, mas que compartilho com prazer quando estou em família, no interior da França, na casa do meu sogro. Foi tranquilo, respeitando as restrições relacionadas à pandemia de Covid, e aconchegante. Fiz essas fotos durante os dias que passamos por lá, quando praticamente não saímos de casa. Mas teve afeto da família, champanhe, conversas ao redor da mesa, livros interessantes e um fogo na lareira. E muita comida boa. Nas fotos acima tem o meu ceviche de cogumelo, abacate e toranja e uma versão simplificada – sem tapioca- dessa sobremesa.

Espero que o final do ano tenha oferecido um pouco de repouso pra vocês também. E me despeço com uma pergunta: o que vocês gostariam de ver mais por aqui em 2022? Algumas sugestões, que misturam vontades minhas com pedidos de vocês:

1- Lesbianismo, vida lésbica, luta LGBT+

2- Não-monogamia (já falei sobre isso nesse episódio do podcast Outras Mamas)

3- Militância, como se organizar, veganismo popular

4- Receitas, receitas pra estudantes, receitas pra congelar

5- Outros (fazer a gentileza de especificar 😉

Feliz ano novo pra nós. 

Um dia de militância

Em março fiz um post mostrando com a militância pode adquirir formas diversas, ao alcance de todo mundo, e pra ficar bem didático relatei as tarefas que fiz durante um fim de semana. Dias atrás repeti o exercício, mas compartilhando minhas tarefas, em um único dia, no grupo Papacapim do Telegram (é um grupo exclusivo pras pessoas que apoiam o meu trabalho lá no Apoia-se). 

Como fazer nascer o desejo de militar nas pessoas é uma das minhas missões, e como também gosto de mostrar o que acontece desse lado da tela quando não estou cozinhando e escrevendo aqui, vim compartilhar esse dia de militância com vocês.

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A fórmula do arroz de forno

Eu acredito cada vez menos em receitas e mais em “fórmulas”. Já compartilhei a fórmula da sopa e da salada-refeição aqui, mas como a gente não ganha amigues com salada (quem viu os Simpsons vai entender), hoje vim falar de uma fórmula quase mágica que vai limpar sua geladeira, produzir uma refeição nutritiva em pouco tempo e impressionar as gatinhas (e amigues). 

Não é segredo nessa internet que eu não sou a fã mais entusiasmada de arroz. Já me recomendaram inclusive procurar ajuda psicológica por causa disso (ah, as coisas estranhas que me escreviam no IG…). A verdade é que acho o bichinho sem graça. Não por acaso eu adoro risotto e arroz de forno, pois são versões “com graça” desse cereal. Quando misturo arroz com legumes e um molho, a cuíca muda o tom.

Como falei, não se trata exatamente de uma receita, mas de uma fórmula. Não se deixe intimidar pelo número de frases nas instruções. O processo é extremamente simples e juro que você só vai precisar ler tudo uma única vez. Ao entender o princípio, nunca mais será necessário voltar aqui pra seguir as instruções. E esse é um dos objetivos principais do meu trabalho no blog: ensinar a cozinhar de uma maneira emancipatória e incentivar a autonomia alimentar de vocês. 

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Pra se organizar e fortalecer o movimento

Hoje a pauta é: como fortalecer o veganismo popular e se organizar dentro do movimento vegano. Bora lá. 

Vocês sabiam que nos dias 27 e 28 de novembro aconteceu o segundo ENUVA, o Encontro Nacional da União Vegana de Ativismo? Foi todo on-line (a pandemia nos obrigou) e gratuito, reuniu pessoas de diferentes países e renovou nossa esperança. Bem no espírito da UVA. Se você perdeu as mesas/conversas, ou se viu e quer rever, tá tudo no nosso canal do YouTube

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O que não dizer pras mães

Acabo de voltar do aeroporto, onde fui deixar minha amiga Mariana, que estava me visitando aqui em Paris. Ela é a minha amiga mais antiga, além da primeira lá de Natal a vir me visitar aqui na França e essa foi a razão do meu sumiço aqui do blog nas últimas duas semanas. Eu estava levando ela pra conhecer Paris, mas também compartilhando um pouco da minha vida aqui. Logo no primeiro dia levei a bichinha pra uma ocupação, onde eu tinha uma reunião pra escrever (a muitas mãos) um livreto sobre antiespecismo e luta decolonial com um coletivo antispecista e anarquista aqui da periferia. À partir daí foi só aventuras! 

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Bolo de chocolate intenso

Eu ia falar sobre os eventos das últimas semanas, que me mantiveram afastadas desse blog… Mas aí pensei que seria melhor oferecer um bolo de chocolate. Eu sou aquela amiga que, quando passa um tempo ausente, prepara um bolo pra se desculpar. E como faz umas semanas que quero compartilhar essa receita com vocês, ó, toma um bolinho aqui:)

A origem desse bolo precisa ser explicada. Nigella Lawson, uma autora de livros de culinária inglesa, é famosa por usar quilos de manteiga e litros de creme de leite nas suas receitas, além de pedaços de animais em quase tudo que faz. Está a muitas léguas de ser uma pessoa antiespecista. Mas ela tem algumas (pouquíssimas) receitas vegetais e o “dark and sumptuous chocolate cake” é uma delas. Um dia vou contar por que adoro Nigella, apesar da sua obsessão em cozinhar animais, mas é história pra outro dia.

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Tofu com berinjela e pimentão

Minha mãe era uma mestra em fazer render a mistura. Ela juntava vegetais à pequena porção de animal disponível, fazendo o conteúdo da panela triplicar de volume, pra poder alimentar todas as bocas ao redor dela. 

Tenho opinões fortes (impopulares?) sobre trazer a noção de mistura pra alimentação vegetal e escrevi sobre elas nesse post. Mas, assim como minha mãe e muita gente que cresceu empobrecida, carrego comigo a prática de “fazer render a mistura”.

A dica é simples e útil pra quem quer utilizar ingredientes especiais sem gastar o salário do mês numa refeição. (AVISO: Não precisa de ingrediente raro e gringo pra cozinhar pratos vegetais deliciosos. Mas é divertido expandir nossos horizontes gastronômicos de vez em quando, se o bolso permitir.)

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Não existe comida “vegana”

Essa reflexão surgiu do lado de cá da tela há um certo tempo. E leitoras atentivas desse blog já devem ter percebido que mencionei isso algumas vezes nos posts dos últimos meses. Acho que foi no ano passado que decidi parar de usar o termo “comida vegana” pra descrever comida de origem vegetal. Mas foi o episódio do chocolate oferecido por uma amiga francesa que fez com que eu compreendesse que chegou a hora de escrever sobre o assunto.

Aconteceu meses atrás. A amiga, que não é vegana, me deu “um chocolate vegano” de presente. Era um chocolate com coco (leite e açúcar de coco, além de coco seco), mas tinha um selo “Vegano” na embalagem. “Provei com a minha irmã, mas não gostamos de chocolate vegano”, ela disse. Respondi: “Você não gostou de chocolate com coco. Chocolate ‘vegano’ é qualquer chocolate sem leite de mamífera” e ela insistiu: “É vegano, sim! Tá escrito na embalagem.” O selo fez com que minha amiga visse aquilo como “chocolate vegano”, não como o chocolate com coco que ele era, e quando percebeu que não gostava, ela não declarou: “Não gosto de chocolate com coco”, mas sim: “Não gosto de chocolate vegano”. 

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Dá certo de qualquer jeito

Sabe como eu sempre digo que comida de panela é de Humanas e comida de forno (bolo, torta, biscoito) é de Exatas? Ou seja, que pra fazer comida de panela não precisa medir ingredientes com precisão, enquanto comida de forno exige mais rigor, caso contrário não dá certo (quem já fez bolo solado sabe do que estou falando). Esses biscoitos vieram jogar na minha cara que isso nem sempre é verdade. 

Era uma bela tarde de primavera no Hemisfério Norte e os passarinhos cantavam no meu jardim. Bateu um desejo de biscoito, pra acompanhar o chá da tarde. Eu tinha poucos ingredientes na dispensa e resolvi, ousadia suprema, não seguir receita nenhuma e misturar o que fui encontrando pelo caminho, deixando a textura da mistura guiar as proporções. Poucos minutos depois eu tinha um punhado de biscoitos quentinhos e deliciosos. Repeti a experiência várias vezes nos últimos meses, sempre decidida a não medir nada e mudando um pouco os ingredientes a cada fornada, e todas as vezes fui recompensada com biscoitos saborosos. 

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Biodiversidade e produtos vegetais ultraprocessados


Essa semana a ocupação que também serve de base pro nosso coletivo anarco recebeu caixas e mais caixas de hambúrguer vegetal que iriam pro descarte. Falei sobre comida de descarte, e como isso alimenta não só as camaradas do coletivo, mas também as pessoas ao nosso redor, nesse post. Além da comida que pegamos regularmente (frutas e verduras da feira, todo tipo de alimento transformado que pegamos do descarte de supermercados) duas vezes por semana, de vez em quando uma montanha de alguma coisa que acabaria no lixo chega até nós. Umas semanas atrás foram 2 toneladas (sim, literalmente) de cogumelo orgânico congelado. Semana passada foram centenas de quilos de hambúrgueres vegetais, também congelados. Eram hambúrgueres feitos de proteína de soja com beterraba, temperos e alguns aditivos. Provei pela primeira vez ontem e o sabor é tão ruim que agora não sei o que fazer com o enorme saco de hambúrguer no congelador. 


Enquanto eu tentava tragar o intragável (pra que o jantar não acabasse no lixo), me vi pensando, mais uma vez, na obsessão geral com hambúrgueres vegetais e no mantra do veganismo liberal (“Quanto mais produtos veganos industrializados, melhor pros animais.”). Já escrevi longamente sobre como essa visão liberal do veganismo vai contra os objetivos do movimento antiespecista nesse post e nesse post . Mas hoje eu queria chamar a sua atenção pra algo que é frequentemente ignorado nessa discussão: a questão da biodiversidade.

Moqueca de caju, arroz da terra, feijão verde, farofa de couve e bolinho de macaxeira
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Comida como ferramenta de ‘conversão’

Durante os primeiros anos de veganismo, acreditei que oferecer pratos veganos deliciosos pras pessoas ao meu redor seria a porta de entrada delas pra causa animal. Talvez eu tenha sentido essa responsabilidade ainda mais forte porque cozinho profissionalmente. Então não perdia nenhuma oportunidade (aniversários, reuniões de família) de passar horas (às vezes dias) preparando menus, comprando ingredientes e cozinhando pra impressionar as não-veganas. Nos jantares onde cada convidada leva um prato, eu levava 4 e era sempre a mais cansada, a que trabalhava mais, a que gastava mais com ingredientes… As pessoas comiam minha comida, sim, e adoravam. Porém minhas preparações vegetais dividiam espaço nos seus pratos com animais e seus derivados. Nunca ninguém deixou de comer o animal assado, ou a sobremesa entupida de leite condensado, porque tinha pratos veganos deliciosos na mesa.

Quiche de cogumelo e espinafre, usando esse método
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Reabilitar a fava

Gosto de me dar missões difíceis. Como, por exemplo, reabilitar a fava. Poucos alimentos do reino vegetal são tão mal-amados e mal-afamados como a fava. Eu já defendi publicamente o quiabo e o maxixe. Um dia volto pra falar de jiló, que também aprecio. Mas hoje, vamos falar sobre ela, a rainha dos feijões.

Eu poderia falar das propriedades nutricionais da fava, mas não é o propósito do meu trabalho. Minha ambição é fazer você se apaixonar pela comida que vem da terra porque ela é deliciosa e porque ela conta a historia do nosso povo e nos conecta ao nosso território. E é justamente no meu território, o Nordeste, que o apreço pela fava ainda resiste. Mas até lá as coisas mudaram e esse alimento tão nutritivo e saboroso se tornou comida de antigos e de pobres. Triste isso de ver a que ponto a comida que vem da terra é constantemente categorizada como “comida de pobre” (coisa “de rico” é consumir animais) e em seguida desprezada. O próximo passo é parar de cultivar esse alimento, já que ninguém mais quer comê-lo e aos poucos vamos perdendo biodiversidade no campo e variedade na mesa. E deixando pra trás a nossa cultura alimentar. Não somos mais o povo que come fava, somos o povo que come frango congelado e, pra quem tem mais dinheiro na conta, sushi de salmão geneticamente modificado e alimentado com soja transgênica, vinda da monocultura, da grilagem de terras e manchada com sangue indígena.  

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Sabemos construir também. E plantar.

No último dia em que eu estive na ocupação dos Jardins Operários de Aubervillers teve uma reunião do coletivo de defesa dos jardins.  Eu saí da reunião frustrada pela maneira como a pauta principal da reunião tinha sido conduzida e, principalmente, pelas dificuldades constantes que enfrentamos quando construímos uma luta com um grupo de pessoas vindas de horizontes tão diferentes. Eu viajaria pro Brasil dali a dois dias e ao me despedir das camaradas pedia a todas que seguissem resistindo, pois eu queria ver a ocupação de pé quando voltasse. Foi a última vez que eu vi aquela terra coberta de árvores, legumes e frutas.

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Creme de tapioca e coco com abacaxi caramelizado

É verdade que na cozinha as coisas mais simples podem ser as mais difíceis de fazer. Tapioca, por exemplo, é uma delas. Depois que você aprende, se torna a coisa mais natural do mundo, mas até chegar nesse ponto você vai precisar suar um pouco. Repare que se a receita for extremamente simples (no caso da tapioca, com apenas um ingrediente), cada detalhe faz diferença. Nessa categoria de receitas, é mais sobre técnica. E prática é tudo que você precisa pra dominar a técnica. Infelizmente essa parte (a prática) não pode ser terceirizada.

Já a receita de hoje faz parte de uma categoria diferente. Sim, leva tapioca. Não a comida de café da manhã à base de goma fresca (ou polvilho hidratado) e feita na frigideira, mas sim os pequenos grãos irregulares de polvilho que também chamamos de “tapioca” (veja a foto mais abaixo). E também tem uma lista de ingredientes enxuta, com apenas três elementos (no máximo 4). Mas a parte complicada dessa receita foi encontrar as proporções exatas e o modo de preparo pra atingir a textura que eu procurava. E a boa notícia é que quem fez a parte difícil desse trabalho foi essa que te escreve, logo você não terá que fazer esforço nenhum.

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Maxixada

Há muitos anos declamei aqui o meu amor por maxixe na forma de pirão. Maxixe é um legume um pouco esquecido e que aparece mais em feiras do que em supermercados (mais um motivo pra não frequentar supermercados). O pirão ainda é um dos meus pratos preferidos, mas descobri recentemente (graças à minha irmã Lu) que maxixe com leite de coco também é um desbunde!

Repare que tudo com leite de coco fica melhor. Repare também que a receita do que a gente começou a chamar de “maxixada” (tradução: maxixe no coco) lá em casa é mais uma versão da fórmula “legumes + leite de coco + coentro”. Que você use banana da terra ou caju (e chame de “moqueca”), quiabo ou maxixe, os ingredientes da base e o preparo são os mesmos. Mas apesar de compartilhar os elementos, o resultado final é sempre distinto, já que o ingrediente principal muda. E digo mais. Se estamos repetindo essa fórmula, mudando somente o ingrediente principal, é por uma razão: é sempre uma delícia!

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Os últimos dois meses

Voltei. Leva sempre alguns dias pra que eu possa chegar completamente. O que me lembrou agora daquela cena do filme “O homem que enganou o diabo”, quando o diabo quer aparecer pro herói do filme e ameaça dizendo: “Eu vou cair”, aí o herói responde: “Então caia!” e o diabo começa a cair, do teto, aos pedaços… primeiro um braço, depois uma perna. Nisso o herói perde paciência e diz: “Caia logo todo!” Essa sou eu, chegando aos pedaços e perdendo paciência, querendo chegar logo toda, inteira, de uma vez. Mas não dá pra apressar essas coisas. Tem a mudança de fuso horário, sim, mas é algo muito mais complexo. No momento o corpo parece estar aqui, mas a cabeça está tardando a chegar.

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