No baile das frutas, o pobre caju provavelmente ficaria sozinho num canto, sem receber convites pra dançar. Junto com a jaca, outra fruta impopular (talvez os dois dançassem juntos, inclusive, sob o olhar de desprezo de dona banana e seu morango, as mais populares do baile). Pouca gente gosta do bichinho. Mas quem gosta, gosta muito.

Eu faço parte das pessoas que gostam muito de caju e acho o perfume dele inebriante. A pouca popularidade do moço vem do fato do caju ter um sabor adstringente, provavelmente o menos apreciado de todos. O sabor adstringente é levemente amargo e, ao mesmo tempo, provoca uma sensação de ressecamento. O famoso “amarra a boca” que a gente sente quando come uma banana verde. Geralmente as pessoas sentem o adstringente do caju primeiro e já o rejeitam. Uma pena, pois depois que as papilas se acostumam com isso vem as outras notas, muito agradáveis.

No Nordeste as pessoas usam caju em pratos saldados há tempos. A carne de caju é um ingrediente que já era conhecido e apreciado muito antes da alimentação vegetariana e do veganismo se popularizarem. Mas, apesar de ser nordestina, eu só fui comer carne de caju depois de ter me tornado vegana. Antes tarde do que nunca.

Tem muitas técnicas pra preparar carne de caju. Tem quem esprema todo o sumo do caju, depois lave o bagaço com bastante água, até retirar todo o sabor. Tem quem congele o caju antes, pra facilitar o processo da retirada do sumo (sai com mais facilidade depois de descongelado). Mas eu, que gosto de caju, acho uma pena manipular a carne dessa fruta até aniquilar todo sabor e sobrar apenas a fibra lavada e insípida. Sim, vai pegar o gosto dos outros ingredientes depois, mas eu acho que se você odeia tanto caju a ponto de querer exterminar o sabor dele, é melhor usar outro ingrediente, não? Também acho que esse tipo de preparação, principalmente quando a carne é lavada embaixo da torneira, deixa a carne de caju com uma textura desagradável, fibrosa demais. E a suculência do caju é uma dádiva, na minha opinião. 

Gosto de usar a carne de caju pra fazer moqueca e preparo o caju de maneira que boa parte do sumo seja retirado, pra que o excesso de doçura não interfira no sabor do prato, mas deixo um pouco pra que a carne permaneça tenra e com um pouco do sabor original. Só o suficiente pra incrementar a gostosura da moqueca.

“Mas eu não gosto de caju!” Tem tantas possibilidades pra moqueca vegetal… Melhor que massacrar o pobrezinho pra retirar todo o sabor dele, que tal fazer outra receita? 

Moqueca de caju

Na foto eu fiz uma moqueca de caju com cará, pois tinha umas fatias de cará cozido na geladeira há alguns dias e elas precisavam ser comidas naquele dia. Ficou bacana, apesar da cor ter ficado turva. Prefiro apreciar o caju sozinho, mas fica a ideia de fazer moqueca só com cará um dia…

4-6 cajus (dependendo do tamanho)

1 cebola (branca ou roxa)

3 tomates maduros

1 pimentão verde

2-3 dentes de alho

1 L de leite de coco fresco (receita aqui)

Um punhado de coentro 

Sal e pimenta do reino a gosto

Azeite de dendê (tradicional, mas eu sempre faço sem)

Comece preparando o caju. Tem várias técnicas e a minha é assim. Corto o caju em 4 ou 6 pedaços (no sentido longitudinal), dependendo do tamanho. Espremo com as mãos, sobre uma peneira, guardando o sumo pra ser consumido depois. Aperto bem, um punhado por vez. Quando termino de espremer tudo recolho o sumo (eu bebo depois), coloco todos os pedaços na peneira e salgo. Deixo escorrendo mais um pouco e tomando sal enquanto preparo os outros ingredientes.

Corte a cebola e o tomate em rodelas médias. Corte o pimentão em fatias ou rodelas. Pique o alho. 

Numa panela grande, de preferência com o fundo grosso, aqueça um pouco de óleo (ou azeite ou dendê) e doure o caju. Quando ele estiver dourado dos dois lados jogue o alho picado por cima e refogue por alguns segundos. Em seguida distribua a cebola, o pimentão e os tomates sobre o caju (no dia que usei cará, foi nesse momento que coloquei as fatias de cará cozido) e cubra tudo com leite de coco. Talvez você não precise do litro inteiro, mas é melhor sobrar do que faltar. Tempere com sal e pimenta do reino a gosto.

Quando começar a ferver, baixe o fogo e deixe cozinhar, com a tampa atravessada (sem tampar completamente), até o líquido reduzir e encorpar um pouco. Vai talhar levemente, resultado da ação do caju (que é ácido) sobre o leite de coco, mas isso não altera em nada o sabor do prato. 

Desligue o fogo e junte o coentro picado e o dendê, se tiver usando. Prove e corrija o sal, se necessário. Rende umas 6 porções.