A última entrevista da série de alimentação saudável pra crianças é com a minha amiga Bárbara, que assim como Ingrid, a primeira mãe que compartilhou dicas aqui com a gente, entrou na minha vida através do blog. Bárbara Bastos é professora universitária e doutoranda e mora em Recife com o marido e o filho de 4 anos. Fiquei hospedada duas vezes na casa deles (na segunda vez levei minha irmã, que durante uma tarde se transformou na melhor amiga do pequeno Mateus) e pude ver pela primeira vez uma família vegana de perto. Juro que me senti como se tivesse vendo unicórnios!

Bárbara tem muitas coisas interessantes pra compartilhar com pais que buscam uma alimentação saudável pra crianças, mas também pra quem gostaria de oferecer um regime 100% vegetal pros filhos e todos aqueles que ainda têm dúvidas de que isso é possível (ou saudável, responsável etc.). E além de dividir um pouco da sua sabedoria e compaixão conosco, ela cita Krishnamurti, que é um dos meus heróis, o que fez com que ela ganhasse muitos pontos com a dona desse blog.

Como é a alimentação na sua casa e, mais especificamente, do seu filho? Descreva o que o seu filho come no dia a dia e o que ele não come nunca.

No dia-a-dia fazemos quase todas as refeições em casa. Eu e meu marido somos professores/doutorandos, então quando não estamos em sala de aula geralmente estamos trabalhando em casa, pesquisando, escrevendo e preparando aulas. Isso torna tudo mais fácil, já que assim podemos comer boa parte das refeições com ingredientes orgânicos, integrais, preparadas no mesmo dia, de forma equilibrada e de acordo com nosso gosto.

Meu filho tem uma clara preferência pelo almoço e o jantar, quando ele costuma comer um cereal + leguminosa + hortaliças. Como bom nordestino, adora uma farofa, mas às vezes parece ser a reencarnação de um palestino, pois adora tabule, homus, babaghanoush, pão com azeite e zaatar, falafel… Tanto a convivência com João Asfora quanto seu blog acabaram nos deixando todos apaixonados por essa deliciosa culinária. No café da manhã ele geralmente come algo como uma tapioca com azeite, ou pão com zaatar ou geléia, ou aveia dormida… Nos lanches ele come frutas variadas e algum carboidrato, como inhame, macaxeira, milho cozido, tapioca, etc.

Ele, assim como toda a família, não come nunca carnes (ele nunca comeu), e derivados estamos no processo de eliminar 100%. Ainda acontece ocasionalmente de darem pra ele algum bolo ou biscoito com ingrediente de origem animal, mas estamos conversando pra zerar. Da minha mão ele só recebe alimentos veganos há quase 2 anos (desde que eu virei vegana). Quando virei vegana ainda não sabia se conseguiria que meu filho acompanhasse minha alimentação, já que festinhas de aniversário são um grande desafio (vê-lo recusar o bolo do parabéns é de doer), mas aos poucos estamos encontrando formas de lidar com essas situações. Ele já conhece o problema dos ovos e leites, e quando vê um prato que costuma contê-los, ele mesmo pergunta se tem e quando ouve um sim ele recusa. Ele ainda não sabe o que é carne, semana passada descobri que ele sabe apenas que é algo que outras pessoas comem mas nós não, mas estou preferindo não contar toda a história pra ele agora.

Quando e como você decidiu dar uma alimentação saudável pro seu filho? Conte um pouco da sua história com a alimentação: quem ou o que te inspirou no início, como foi a transição (de alimentação convencional pra alimentação natural/vegana)…

Eu sempre tive uma alimentação razoável, com mais refeições feitas em casa, poucos industrializados, pouca fritura, poucos refrigerantes, etc., mas comendo todo tipo de carnes e derivados. Há cerca de 10 anos, num exame periódico do trabalho,  descobri que meu colesterol estava alto, e a partir daí passei a me preocupar mais com minha alimentação. Passei a lanchar entre as refeições, comer mais no café da manhã, comer mais frutas, menos açúcar, etc.

A questão dos animais na alimentação só chamou minha atenção quando comecei a tomar conhecimento dos impactos ambientais da pecuária, eu era sócia do Greenpeace na época (2007), e embora a ONG não enfatizasse isso, em fóruns de internet muitas pessoas questionavam esse ambientalismo que não falava do consumo de carnes. Na mesma época algumas pessoas me falaram do filme “A carne é fraca”, do Instituto Nina Rosa, e quando eu terminei de assistir, decidi “tentar” parar de comer carne. Durante um ano fiquei sem comer nenhuma carne exceto peixe, que na época me parecia menos danoso para o meio ambiente e pra minha saúde. O problema do sofrimento dos animais ainda não tinha me tocado de verdade, embora eu reconhecesse toda a violência inerente ao processo. Com o tempo fui ficando com aversão a peixe, e no final de 2008 decidi parar também.

Alguns meses depois, fiquei grávida, e comecei a sentir vontade de deixar de comer derivados de animais. Depois de ser desencorajada por todos (inclusive uma nutricionista “vegetariana”) adiei essa mudança. Depois que meu filho nasceu, ao amamentá-lo, passei a ver o leite com outros olhos, não mais como um alimento qualquer, mas como um alimento que cada mamífera produz para seu próprio filhote, e que não temos o direito de roubá-lo e transformá-lo em um produto. Fui reduzindo cada vez mais meu consumo de leite e queijo, esse último com mais dificuldade, tanto pela praticidade de ter muitas opções de lanche pra comer fora de casa, quanto pelo vício mesmo.

No final de 2010 foi criado o Grupo de Recife da SVB e eu fui assistir à 1ª palestra que foi realizada. Conheci algumas pessoas do grupo, e resolvi me engajar no ativismo vegetariano. Alguns meses depois a fundadora e coordenadora do grupo se mudou para sua cidade de origem, e eu fui eleita coordenadora. Uma coisa interessante do ativismo é que ele funciona pra quem o pratica também, pois eu fui me conscientizando cada vez mais sobre a relação dos humanos com os outros animais, até que um dia, depois de exibir o filme “Terráqueos” num evento, decidi que a partir daquele dia assumiria o veganismo em minha vida. Ter conhecido outros veganos foi fundamental para eu me sentir segura nessa mudança, pois decidir viver de forma diferente de todo mundo não é fácil.

Apesar de não ser ainda vegana na época que meu filho nasceu, meu plano era dar uma alimentação vegetariana estrita pra ele. Eu o amamentei exclusivamente até os 6 meses de idade, e comecei a introdução de alimentos sem nada de origem animal, mantendo a amamentação até mais de 2 anos. Mas aprendi que se não quisermos que o filho coma algum alimento, não podemos comê-lo também, ao menos não na presença dele. Foi assim que ele comeu queijo pela primeira vez, viu alguém comendo, pediu, e em pouco tempo já estava viciado. Sim, assustadoramente viciado, e com pouco mais de 1 ano já descobriu onde ficava na geladeira e ia lá procurar, em alguns momentos recusando outros alimentos porque queria comer só isso, mesmo com a gente restringindo o consumo, sem nem mesmo oferecer a ele… Após alguns meses e alguns episódios de alergia respiratória, a pediatra nos disse que o consumo de queijo poderia ser um dos fatores que estava piorando o quadro, então resolvemos limitar mais esse consumo, até que alguns meses depois paramos de comprar queijo. Ele nunca mais teve nenhuma crise de alergia…

Eu pesquisei muito sobre a introdução de alimentos e tive como principais fontes o guia de alimentação para crianças até 2 anos, do Ministério da Saúde, e os artigos do Dr. Eric Slywitch sobre nutrição infantil. Foi um período muito divertido, Mateus sempre adorou comer, e era muito bom ver ele curtindo cada comida nova que conhecia. O “grupo virtual de amamentação” também me ajudou muito (na época no Orkut, atualmente estão no facebook), lá há muitas dicas sobre como conduzir uma gradual substituição da amamentação por alimentos sólidos, sem desmamar completamente até depois dos 2 anos (que é a recomendação da OMS e do MS). Eu fiz muita coisa diferente da maioria das pessoas com quem convivo, como introduzir primeiro cereais e legumes cozidos (ao invés de frutas), não dar suco de fruta antes de 1 ano de idade (até hoje ele toma pouco suco e muita água), não introduzi nenhum tipo de leite (nem vegetal), além de ter evitado ou adiado ao máximo a introdução de quaisquer alimentos industrializados na dieta dele. Nesse período procuramos mudar algumas coisas na alimentação de toda a família, passamos a comprar hortaliças na feira orgânica, reduzimos muito o consumo de açúcar e de industrializados de maneira geral.

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Você vê os benefícios dessa alimentação na saúde do seu filho? 

Sim, ele tem uma imunidade incrível, adoece pouco e quando adoece fica bom muito rápido, costuma ter sintomas menos fortes que outras pessoas ao redor que pegam as mesmas viroses. As taxas dele são todas normais pra uma criança da idade dele, e o crescimento dele está absolutamente normal também. Sei que muitos problemas de saúde apresentados por crianças dessa idade são relacionados ao consumo de leite de vaca (problemas respiratórios, gases, diarreias, etc.), que as pessoas tratam como essencial para crianças, quando além de não ser, ainda é muito nocivo.

Quais os maiores obstáculos/críticas que você enfrentou, e ainda enfrenta, nessa jornada? 

A minha maior dificuldade é lidar com a incompreensão de algumas pessoas. Eu fico impressionada como mesmo quem conhece muito pouco sobre nutrição fica defendendo como lei os hábitos adquiridos pelo senso comum. Incomoda-me bastante também ver como é difícil para muitos entenderem que para os vegetarianos, mesmo se os alimentos de origem animal oferecessem a melhor nutrição possível, ainda assim eles não seriam uma opção para nós, por consideramos os direitos dos animais como fator inviolável na escolha alimentar (e outras). A pior crítica que já recebi foi que meu filho ia ter sérias deficiências nutricionais, e não adiantou eu dizer que tinha pesquisado, que tinha acompanhamento médico e nutricional, eu estava errada e ponto final.

Como você lida com situações sociais em que tem menos controle sobre o que o seu filho come?

Temos sorte de termos encontrado uma escola maravilhosa, que segue a Pedagogia Waldorf e incentiva e privilegia o uso de alimentos orgânicos, naturais e integrais. O lanche é coletivo, então não há crianças levando guloseimas para lanchar.

Quando vamos a festas varia muito como fazemos com a alimentação. Alguns amigos e parentes muito gentis se preocupam em oferecer alguns pratos veganos para que possamos participar da refeição, mas quando não tem nada, ou comemos antes de ir, ou depois de voltar, ou levamos algum prato. A regra de ouro é nunca chegar com fome nas festas. Em viagens é mais complicado, meu filho dificilmente aceita um prato que ele nunca comeu antes, principalmente num lugar estranho, então procuramos lugares que tenham opções mais familiares pra ele. Acabamos comendo mais lanches industrializados (como cookies e bolachas), mas como é um período limitado não vejo muito problema.

O que mais te ajudou (e ainda ajuda) a superar as dificuldades? 

Os amigos da SVB (Recife e nacional) sempre foram minha maior ajuda, tanto afetiva quanto com informações também. Os livros e o site do Dr. Eric sempre foram uma referência fundamental pra mim e por participar da SVB tive o enorme privilégio de conhecê-lo pessoalmente e assistir várias aulas, em que pude tirar dúvidas e aprofundar conhecimentos sobre nutrição vegetariana.

A pediatra de Mateus é também homeopata e antroposófica, com uma mente super aberta e sempre me apoiou nas escolhas alimentares dele.

E claro, seu blog foi e é minha maior fonte de informações sobre culinária vegana, além de ser um grande exemplo de como conviver harmoniosamente nesse mundo onívoro.

Qual a sua motivação pra continuar nesse caminho? O que faz com que você continue longe da facilidade que a alimentação convencional e onívora oferece? 

Atualmente considero o veganismo não como uma opção, mas como uma obrigação moral perante os animais não-humanos, assim como nossa obrigação moral de não praticar outras modalidades de discriminação, de raça, gênero, ou credo. Quando passo por situações em que tenho me sinto mais deslocada, repito como um mantra a frase de Krishnamurti: “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente”…

Que dicas você daria pros pais que gostariam de oferecer uma alimentação natural e saudável pros filhos, mas têm medo de ser trabalhoso demais, caro demais, inviável, ou simplesmente da criança rejeitar?

A comida mais barata e mais saudável é sem dúvida a feita em casa (ao menos onde moro). É mais barata também porque quando é bem planejada, ajuda a evitar doenças e se economiza na farmácia. Claro que é mais trabalhoso preparar o que se come, mas deveríamos repensar esse modelo de vida em que não temos tempo quase nenhum para ficar em casa, curtindo a companhia dos nossos familiares em atividades básicas do dia-a-dia como cozinhar. É muito mais saudável “perder tempo” cozinhando do que comer qualquer coisa e ir perder tempo passeando num shopping.

Participar do preparo das refeições é a melhor forma das crianças se interessarem pelos alimentos. Mateus tem muito mais vontade de comer algo que ele ajudou a preparar do que algo que apareceu pronto na frente dele. Isso faz com que o ato de comer deixe de ser uma obrigação e seja o ápice de uma grande brincadeira. E cozinhar não precisa ser muito trabalhoso, com um pouco de planejamento pode se ter alguns ingredientes congelados (como feijões, grão-de-bico, ervilha, etc.) que agilizam muito o preparo de uma refeição. Um macarrão integral com grão-de-bico, molho de tomate e legumes assados no forno podem formar um almoço rápido, nutritivo e delicioso. Pratos únicos com leguminosa+cereal+verduras são bem práticos, como risotos e saladas. Algumas noções básicas sobre preparo e temperos fazem toda a diferença, transformando pratos aparentemente sem graça.

Eu acredito que o que mais atrapalha a aceitação de alimentos saudáveis são as comidas industrializadas, cheias de aromatizantes, açúcar e sal. O excesso de estímulos gustativos faz a comida mais natural parecer sem gosto, logo é importantíssimo evitar ao máximo esses “produtos comestíveis”, principalmente até o 2 anos, que é uma fase muito importante na formação das preferências.

Outro ponto fundamental é que as crianças aprendem primeiro pelo exemplo, logo não adianta querer que elas tenham uma alimentação saudável se os adultos se alimentam mal. Foi depois de me ver me deliciando com sua receita de couve-flor assada que Mateus resolveu experimentar, e isso abriu caminho para ele experimentar e começar a comer várias outras verduras. E é necessário persistir, oferecer sempre, ressaltar características que a criança aprecia (se é adocicado, crocante, se parece com algo que a criança já conhece e gosta, etc.).

Quais são os desafios de criar uma criança vegana? 

Eu tenho muita sorte de ter um filho que gosta de comer e tem um ótimo apetite. Eu vejo como tantas mães e pais sofrem com isso e embora não seja sempre fácil, não tenho do que reclamar.

Sem dúvida nenhuma o maior desafio é como manter um bom relacionamento com quem não entende nossas escolhas. E muitas vezes, quando tentamos explicar, as pessoas não querem escutar e não querem entender. Muitas vezes é difícil aceitar que tantas pessoas escolhem deliberadamente não pensar sobre a consequência de seus atos e para se legitimarem nesse comportamento, optam por ridicularizar ou criticar quem decidiu fazer diferente. E quando temos filhos os questionamentos aumentam muito, é como se o veganismo fosse uma “loucura” que não deveríamos “impor” aos filhos…

O jeito é redobrar a paciência e ter muita sensibilidade para saber quando argumentar, quando mudar de assunto ou quando simplesmente se calar. O que não adianta é querer brigar com o mundo, afinal dependemos das outras pessoas para que a situação dos animais mude. Mas isso não é um desafio apenas para veganos, mas para qualquer ativista. As pessoas gostam de desqualificar uma causa se os ativistas dela não tiverem um comportamento exemplar, mas nós somos tão humanos e imperfeitos como qualquer um. Ter assumido uma postura mais ética em algum comportamento não nos transforma em santos, somos apenas pessoas comuns tentando causar menos sofrimento a outros seres.

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Espero que vocês tenham gostado dessa mini série de posts tanto quanto eu. Me sinto privilegiada por conhecer pessoas tão incríveis como Ingrid, Suzy e Bárbara e tenho certeza que elas vão continuar inspirando muita gente.

 *As fotos que ilustram esse artigo são de Lamartiny Santos. Elas foram feitas durante o aniversário de 4 anos de Mateus. Bárbara contou que foi o segundo aniversário com comida totalmente vegana dele e que foi um sucesso total (aprovada por vegs e onívoros!).