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Faz 8 anos que publiquei aqui a receita do chucrute que faço regularmente em casa. De tanto fermentar legumes acabei simplificando a técnica, então vim aqui vou postar as instruções atualizadas.

Chucrute (repolho lacto-fermentado)

-Escolha um recipiente de vidro com tampa e lave bem.
-Corte repolho (qualquer cor) em tiras fininhas. A quantidade de repolho vai depender do tamanho do seu recipiente, pois ele tem que ficar cheio até a borda.
-Salgue generosamente (mais sal do que você usaria normalmente pra temperar essa quantidade de legume).
-Coloque o repolho salgado no recipiente escolhido. Vá colocando e compactando com as mãos. Quando achar que não cabe mais repolho, aperte bem e coloque mais um pouco. Tem que ficar bem cheio.
-Preencha o espaço que sobrou com água fria. O repolho tem que ficar submerso, pois o que ficar exposto ao ar pode apodrecer.
-Tampe bem e deixe em temperatura ambiente até fermentar. Isso pode levar 2 dias ou semanas, dependendo da temperatura da sua casa. Está pronto quando tiver com bolhinhas de ar, cheiro e sabor levemente ácidos (só provando pra saber).
-Depois de pronto guarde na geladeira. Se conserva por várias semanas no frio (tem quem pegue o pote pra se servir e deixe ele na mesa por horas antes de lembrar de colocar de volta na geladeira. Não seja essa pessoa!).
-Essa técnica funciona com rabanete, cenoura, beterraba… Mas se tiver usando outro legume, gosto de misturar com uma parte de repolho (pelo menos 1/4). Por alguma razão esotérica bactérias adoram repolho e sempre fermenta mais rápido e melhor quando ele está presente.
-Consuma o chucrute cru (se cozinhar, as bactérias vão morrer) nas saladas (pode misturar com qualquer tipo de salada, dá certo com tudo).

*Sobre “lacto-fermentação”. O “lacto” aqui não tem nada a ver com leite. Esse tipo de fermentação produz ácido lático, por isso dizemos que é repolho lacto-fermentado.

*Eu já tinha comido uma parte do chucrute nas fotos, por isso o recipiente não está cheio. Na primeira foto o pote menor, à direita, é rabanete fermentado com um pouco de repolho. Uso um pouco do líquido do chucrute pronto pra fermentar outros legumes, se não tiver repolho em casa. Isso leva uma colônia de bactérias pra dentro do pote e facilita a fermentação.

Respondendo as dúvidas mais frequentes:

Depois de ter deixado um tempo em temperatura ambiente meu repolho subiu e não está mais coberto por água. Será que mofou?

Essa é a dúvida que mais recebo, mas isso poderia ser facilmente evitado escolhendo o recipiente de acordo com a quantidade de repolho. Como falei nas instruções, tem que ficar bem cheio e compactado. Mesmo assim a camada superior pode subir e ficar fora da salmoura. Nesse caso basta apertar com as costas de uma colher limpa e colocar um pouquinho mais de água. Se mesmo assim ficou uma parte exposta, que adquiriu uma cor diferente do resto no final da fermentação, basta descartar essa camada superior. O resto ainda vai estar bom pra ser consumido.

Como sei quando está fermentado?

O tempo de fermentação varia de acordo com a temperatura do lugar onde o chucrute for colocado pra fermentar. Não tenha medo de provar durante o processo: quando estiver ligeiramente ácido e mole (como se tivesse cozido), tá pronto. Tem quem goste de um sabor suave e vai parar a fermentação logo quando surgir as primeiras bolhinhas no líquido (recomendo, se for a primeira vez que consumir chucrute). Eu adoro chucrute, e fermentados em geral, e deixo fermentar bastante pra ficar com o sabor mais ácido.

Será que usei sal suficiente?

O sal é essencial pra afastar bactérias ruins e garantir uma fermentação saudável. Salgo no olho, jogando o dobro do que usaria se fosse consumir aquele repolho na hora. Mas se você precisa de medidas e números, lá vai: use 1/2 colher de sopa de sal pra cada 1/2 kg de repolho. Mesma coisa se tiver usando outros legumes.

Esqueci meu chucrute umas semanas na geladeira e agora não sei se ele estragou. Como saber se ainda posso come-lo?

Observando, cheirando e provando. Como tudo na cozinha, você vai ter que desenvolver uma intuição culinária. Não dá pra pedir a resposta pra alguém do outro lado do mundo sempre que tiver uma dúvida se a comida na geladeira estragou. Não é má vontade minha, não! Só quem está ali, de frente pra comida em questão, pode saber. Então primeiro observe: tem mofo? a cor está estranha? a textura está gosmenta? Se a resposta for “sim” pra qualquer uma das perguntas, estragou. Se respondeu “não” à todas elas, vamos pro passo seguinte: aproxime o recipiente do nariz e cheire. O cheiro está diferente? é desagradável? Se não, vamos pro teste final: coloque um pouquinho na boca e prove. Ainda está com sabor agradável? era o sabor que tinha antes? Se a resposta for afirmativa, seu chucrute ainda está ótimo. Pode comer sem medo.

E sobre medo, não tenha medo de cheirar e provar a comida se quiser saber se ela está passada. Mesmo se estiver, você não vai morrer se colocar um tiquinho na boca pra testar. Na pior das hipóteses a gente sente imediatamente que apodreceu e cospe (embora o nariz seja o primeiro a indicar o apodrecimento, evitando que comida podre vá parar na nossa boca). Vivemos uma época estranha onde as pessoas preferem deixar perguntas no Instagram de desconhecidas morando do outro lado do oceano pra saber se a comida na geladeira delas está estragada, quando uma cheirada rápida resolveria o mistério em 2 segundos. Mas eu não culpo quem me faz essas perguntas. O agroalimentar, e seus produtos ultraprocessados com data de validade, colocaram na cabeça das pessoas que comida tem dia e hora determinada pra estragar e precisamos confiar em outras pessoas (ou na indústria) pra nos dizer quando podemos ou não comer determinado alimento. O que me leva a outra observação que me choca profundamente. O pessoal se caga de medo de provar um tiquinho de comida que ficou mais tempo do que devia na geladeira, como se tivesse um risco de morte súbita nisso, mas consome, por anos, ultraprocessados entupidos de químicos e agrotóxicos. Observação importante: me refiro aqui a comida vegetal, obviamente. Comer animais e os produtos extraídos dos seus corpos depois de estragados é realmente uma atividade perigosa, que pode ser letal. Corpos mortos se decompõem e atrai bactérias perigosas pra nós. Então não vá comer pedaços de animais mortos estragados ou leite de mamíferos azedo e depois dizer que eu falei que tudo bem. Aliás aproveito pra lembrar que eu não acho tudo bem consumir animais nem produtos extraídos dos seus corpos mesmo se não estiverem estragados.

Que tempos difíceis estamos atravessando, não é? Mas além de não me sentir pronta pra falar sobre a pandemia que nos colocou em quarentena na maior parte do mundo, estimo que já tem gente demais falando sobre isso no momento. Então me permita te distrair por alguns minutos com leite de amendoim.

Veja. Não tem nada muito original em leite de amendoim. Pelo menos se você for vegana. Se for vegana e nordestina, então, provavelmente você já faz leite de amendoim há anos. Mas deixa eu contar como eu faço leite de amendoim, pois é uma técnica ridiculamente fácil e que quebra o galho nas viagens. Preparada?

Sabe pasta de amendoim? Essa que entrou na moda desde que o pessoal da maromba descobriu que amendoim é muito rico em proteína? Então. Pega ela e mistura com água. TADÁ! Leite de amendoim.

Se você já faz isso há tempos, perdoe minha lentidão em descobrir essa utilização genial da pasta de amendoim. Um leite vegetal barato, pronto em segundos e que você pode preparar em qualquer lugar (na rua, na chuva, na fazenda… ou dentro da barraca no acampamento). Eu uso o liquidificador pra deixar tudo homogêneo, mas se não tiver um por perto, você vai precisar de um pouco mais de força no braço e paciência, pra bater tudo com uma colher, mas dá certo do mesmo jeito. E daí se ficar uns carocinhos de pasta de amendoim sem dissolver, né? Francamente, tem tanta coisa mais importante acontecendo no mundo.

E o que fazemos com leite de amendoim, você pergunta? Tanta coisa… Começando por colocar no café. Confie, fica uma delícia. Depois você coloca na papa de aveia, nas vitaminas de frutas (com banana fica uma perfeição), nos pratos salgados (quando fervido esse leite engrossa e vira um creme). Obviamente o sabor de amendoim é marcante e estará presente no produto final, então lembre disso quando cozinhar com esse leite.

Porque essa receita não é uma, resolvi acompanha-la de algo um tantinho mais elaborado. Um chocolate quente com leite de amendoim que ando fazendo com frequência aqui em casa. E que, por ser ultra simples, você também vai poder fazer num piscar de olhos, quando bater aquela vontade de algo gostoso e doce no meio da tarde (ou tarde da noite).

Então é isso, camarada. Fique em casa, se puder, e isso também vai passar.

Leite de amendoim em segundos

Uso água morna e um liquidificador pra mistura ficar homogênea em segundos. Se não tiver um, bata na mão, acrescentando água morna aos pouquinhos, até dissolver tudo. Use uma pasta de amendoim sem nenhum outro ingrediente (leia o rótulo), o que nem sempre é tarefa fácil em tempos de pasta de amendoim com whey e não sei mais o quê (marketing pra galera da maromba). Dá pra ver na foto acima que minha pasta de amendoim é bem cremosa, mas se a sua for compacta, não tem problema, funciona igualzinho.

2 cs de pasta de amendoim (pura, sem açúcar)
500ml de água morna (quase quente)

Bata tudo no liquidificador por alguns segundos, até ficar homogêneo. Guarde em recipiente tampado. Se conserva alguns dias na geladeira.

Chocolate quente de liquidificador – com leite de amendoim

Eu uso cacau 100% (que é sem açúcar, já que, como o nome indica, é 100% cacau), mas você pode usar 70% ou 50%, se preferir, que nesse caso já vem com açúcar. Uso chocolate 70%, porque é o que sempre tenho em casa, mas aqui também você pode adaptar de acordo com seu gosto (ou conteúdo da despensa). A medida aqui é uma xícara padrão (236ml), porque esse chocolate é bem rico e você não precisa de uma quantidade grande pra ficar satisfeita.

1x de leite de amendoim (receita acima)
1/2cs de cacau em pó
1 pedaço de chocolate (uso 2 quadrados de uma barra de 100g)
Algo pra adoçar, se quiser (açúcar, melado, açúcar de coco)
Canela (opcional)

Aqueça o leite até ficar bem quente (mas não deixe ferver, pois não queremos derreter o liquidificador!). Jogue no liquidificador e acrescente o cacau em pó mais o chocolate (quebrado em pedaços menores) e o adoçante escolhido, se estiver usando (comece com uma quantidade pequena). Tampe bem (líquido quente, cuidado!) e bata por alguns segundos, até o chocolate derreter completamente. Prove e corrija o doce, se necessário. Sirva polvilhado com canela, se quiser. Rende 1 porção

Uns meses atrás publiquei uma série de stories no meu Instagram (os jovens não leem mais blogs, infelizmente) sobre a tendência dentro do movimento vegano de eleger algumas vozes como mais legítimas pra “definir o que é vegano” do que outras e considerar a posição de grandes ONGs internacionais como “oficial”, classificando as visões diferentes como “opinião pessoal”.

É um debate que precisa ser feito, então vim trazer a conversa pra esse espaço também.

No Instagram falei que o que provocou essa reflexão foi um vídeo que vi por acaso no Youtube, mas repito que não se trata de um ataque pessoal à pessoa que fez o vídeo. O que vou escrever aqui diz respeito exclusivamente às ideias expostas naquele vídeo, pois eu já as vi reproduzidas algumas vezes e elas são extremamente problemáticas. O próprio autor do vídeo repetiu esse discurso recentemente pra justificar por que, segundo ele, o fato do recém lançado sanduíche vegetal da rede de lanchonetes Subway ser fabricado pela Seara (do grupo JBS, maior processadora de carne do mundo) não deve ser visto como um problema pela comunidade vegana. As razões seriam as seguintes:

1- “As principais ONGs veganas, como a PETA (EUA) e a Vegan Society (Inglaterra), assim como os principais ativistas do movimento, como Gary Yourofsky (EUA), James Aspey (Austrália) e Earthling Ed (Inglaterra) apoiam essas empresas (como a JBS), logo essa é a POSIÇÃO OFICIAL do veganismo e o que diverge disso é OPINIÃO PESSOAL.”

2- “O debate ‘boicote de empresa X produtos’ só existe no Brasil e nem chega a ser uma questão lá fora. A prova? As mesmas ONGs veganas e ativistas citados acima defendem o boicote de produtos, não de empresas.”

Talvez eu deva começar explicando o que entendo por veganismo liberal antes de debater essas ideias. Estou me referindo a um pensamento motivado pela ideologia liberal (no sentido econômico) que foca exclusivamente nas escolhas pessoais, ignorando a natureza do sistema opressor dentro do qual fazemos essas escolhas. Uma visão do ativismo que se traduz em “mude sua vida, não o sistema”. Logo, essa corrente do veganismo acredita que temos que trabalhar dentro dos limites que o capitalismo nos impõem, por isso não considera grandes corporações que exploram animais como inimigas da emancipação animal que devem ser combatidas (através do boicote, por exemplo), mas como parceiras que devem ser acolhidas. No nível de ONGs isso se traduz por apoio ao produtos e até trabalho de consultoria e desenvolvimento de produtos junto à empresas, como foi o caso do hambúrguer vegetal da Seara. No nível de ativistas isso vai desde aplaudir o fato do capitalismo se apropriar da pauta vegana (como declarar em suas redes sociais que “A revolução vegana chegou!” porque a JBS lançou um linha de produtos ultraprocessados à base de vegetais) até, em alguns casos, fazer publicidades pagas pra promover os produtos dessa empresas capitalistas que exploram animais. Um caso famoso que aconteceu ano passado foi o da linha “vegana” de produtos de higiene pessoal da Unilever, que foi lançada com muito alvoroço e contou com a participação (paga, mas nem sempre declarada) de várias influencers veganas brasileiras.

Então passemos à análise das ideias que expus mais acima.

Sobre 1:
Quando você escolhe dar exemplos apenas de liberais, claro que você vai chegar a um consenso que traduz a posição liberal.

Falar que “se a PETA (People for Ethical Treatment of Animals, ONG estadonisiense) considera que X é vegano, então é vegano” é problemático demais. Eu não sei vocês, mas a PETA, essa mesma que fez campanhas publicitárias extremamente sexistas, onde mulheres são objetificadas supostamente pra promover direitos animais, não é um modelo de ética pra mim.

E o que dizer de citar Gary Yourofsky como exemplo de “um dos maiores ativistas veganos”? Esse cara é uma desgraça pro movimento vegano! Ele se autoproclama misantropo, é racista, sexista, acusa defensores de direitos humanos de serem “hipócritas” e vive batendo palmas pra Israel, um estado colonizador que pratica apartheid e limpeza étnica contra o povo palestino e disse coisas como:

“Os seres humanos são a escória da Terra. Não me importo com judeus ou palestinos, nem com a estúpida e infantil batalha por um pedaço de terra abandonada por Deus no deserto. Eu me preocupo com os animais, que são os únicos seres oprimidos, escravizados e atormentados neste planeta. O sofrimento humano é uma piada.” (fonte)

Na infame carta que ele publicou no Facebook em 2017 pra anunciar que estava se retirando do ativismo ele escreveu:

“Eu disse que palestinos eram o grupo de pessoas mais loucas no planeta. Não é verdade e eu retiro o que disse. A comunidade vegana desculpista-pacifista-interseccionalista é de longe o grupo mais louco de todos! Depois deles tem TODOS os não-veganos “oprimidos” humanos (negros, mulheres, LGBT, palestinos, judeus, hispânicos, etc) e os ativistas de direitos humanos não-veganos, porque eles orgulhosamente apoiam o estupro, o roubo de bebês, a escravidão e assassinato de animais(…) E tem mais, se esses hipócritas por acaso se tornarem veganos, eles simplesmente se transformam no primeiro grupo, o grupo dos lunáticos ‘humanos primeiro animais por último’.”

Eu só posso imaginar que as pessoas veganas que continuam citando Gary Yourofksky não conhecem o caráter dele, porque pensar que tem gente que sabe, mas continua tendo ele como exemplo de ativista vegano me dá ânsia de vomito.

E se alguém tiver o despautério de sugerir que devemos “focar nos que nos une” com relação à essa pessoa eu confesso que terei muita dificuldade em não responder com uma voadora! Se você acredita que todo ativismo vegano é válido porque “estamos do mesmo lado” ou que “se discorda, faça o seu e não critique os outros veganos” deixa eu te falar uma coisa.

Quando Gary Yourofsky diz “os animais são os únicos seres oprimidos, escravizados e atormentados neste planeta. O sofrimento humano é uma piada” ou que “mulheres, pessoas negras, LGBTs não só fingem que são oprimidas como são o segundo grupo mais louco da Terra (perdendo apenas pras veganas interseccionais)”, você realmente acredita que essa pessoa está do mesmo lado que você? Pois eu sou mulher e lésbica e se ele acha que minha opressão e sofrimento são “uma piada” ele não está do meu lado. Está contra mim.

E você realmente acha que ele está fazendo um grande trabalho pela libertação animal e precisamos apenas “focar no que nos une”? O que você acha que as mulheres, pessoas negras, LGBTs vão achar do veganismo se a comunidade vegana continuar elegendo como porta-voz, citando e recomendando o trabalho de uma pessoa que defende que sofrimento humano é piada e que não existe opressão humana? Sério que você acha que ele está fazendo um bom trabalho pros animais? Ele está alienando grupos oprimidos e afastando muitas pessoas, a maioria delas, na verdade, do veganismo. E, infelizmente, os animais não vão poder se libertar sozinhos, eles dependem de humanos pra fazer essa luta.

Como a gente vai expandir e fortalecer o movimento vegano, o que é imprescindível pra conseguirmos emancipação animal, sem a maior parte das pessoas? Achar que Gary Yourofsky é um ativista que deve ser ouvido (e citado/recomendado) faz sentido apenas se você acreditar que o movimento vegano deve ser composto apenas por ativistas brancos e um punhadinho de influenciadoras, quase todos homens e todos liberais, e ninguém mais. O triste é que pro veganismo liberal essa galera que citei acima são realmente os verdadeiros heróis do veganismo. Por isso essas vozes são tidas como autoridade dentro do movimento e todas as outras são ignoradas, distorcidas ou silenciadas.

No vídeo que mencionei no início desse artigo foi dito que a Vegan Society “inventou o veganismo”. Gente, isso é absurdo! Donald Watson, o inglês que fundou a Vegan Society, cunhou a PALAVRA “vegan”! Ele não inventou o veganismo, coisíssima nenhuma. Afirmar isso apaga a existência de todas as pessoas que vieram antes dele, principalmente fora do Ocidente e que já estavam, de uma maneira ou de outra, na luta antiespecista. Então vamos repetir juntas: Donald Watson cunhou o termo VEGAN em 1944, usando a primeira e a última sílaba de “vegetarian”. O posicionamento político antiespecista e sua prática (se abster de produtos de origem animal) já existia.

“Chegou a hora de separar opinião pessoal do que é regra no veganismo” disse o autor do vídeo em um artigo mais recente.

Imaginando que existe uma cartilha de regras no veganismo (não existe), quem decretou que elas seriam ditadas por ONGs estadunidenses e inglesas, junto com os ativistas veganos homens com mais visibilidade? Eles estão todos de acordo porque são todos liberais, não porque é a posição oficial do veganismo. Não existe um Órgão Supremo Vegano, composto por homens e ONGs liberais do Norte Global, assinando decretos, baseados no que eles pensam, que afirmam que toda pessoa vegana do mundo tem que aceitar esses decretos como a posição real oficial global do veganismo e tudo que diverge disso é “opinião pessoal”.

O movimento vegano está em disputa e o fato das vozes mais ouvidas serem as liberais traduz simplesmente o fato dessas pessoas terem mais holofotes virados pra elas. Por que? Oras, sabemos que a mensagem “precisamos acolher empresas especistas / o capitalismo é parceiro da libertação animal” é muito mais palatável, menos ameaçadora e rentável, por isso ganha mais destaque. O crescimento do veganismo liberal não é de maneira alguma prova de que essa vertente é a mais eficaz/estratégica. Isso significa apenas que o capitalismo conseguiu cooptar mais essa pauta radical, justamente porque ela estava se tornando uma ameaça, e está se usando disso pra não perder poder nem ter que parar de explorar e lucrar com a exploração (animal, humana, da Terra).

O fato da PETA ter um posicionamento liberal e adotar o veganismo de mercado não significa que todas as pessoas ou ONGs nos EUA concordam com isso. O Food Empowerment Project, só pra citar um exemplo, é uma ONG vegana criada por mulheres latinas e tem um posicionamento político que está no extremo oposto do que a PETA diz. Não só criticam o veganismo liberal e sua colaboração com empresas especistas, como incluem a libertação humana e a luta anticapitalista nas suas pautas.

Sobre 2:
Sempre me diverte a galera que mora no Brasil dizer “esse debate ‘boicote de empresas X produtos’ só existe no Brasil, lá fora nem é uma questão”. Baseado em que dizem isso? Baseado na posição de ONGs e ativistas liberais, mais uma vez. Pois bem, eu moro fora do Brasil há18 anos e posso garantir que tanto na Europa, quanto América do Norte quando Oriente Médio (não tenho vivência nem contato com ativistas no resto do mundo) as opiniões são divergentes. Se uma pessoa palestina, por exemplo, olhar o movimento vegano brasileiro de fora e formar uma opinião escutando apenas o que as influenciadoras e ONGs veganas liberais dizem ela vai chegar à conclusão que no Brasil esse debate não existe, pois todo mundo concorda que devemos praticar um boicote parcial, apenas de produtos, e abraçar/fazer publicidade pra empresas especistas quando elas lançam produtos vegetarianos. Mas isso está longe da verdade.

Aqui na França, onde moro atualmente, as ONGs veganas de maior destaque tem posições liberais. Mas quando vou à festivais veganos, encontros veganos, etc, converso com as pessoas e muitas tem uma opinião completamente diferente. Recentemente entrei em contato com alguns grupos antiespecistas franceses que são fundamentalmente anticapitalistas.

Então falar que “lá fora esse debate não é uma questão” não é verdade. Se você tinha essa impressão é porque só está ouvindo vozes estrangeiras liberais, mas o movimento vegano anticapitalista fora do Brasil é muito forte.

O movimento antiespecista organizado ainda é muito jovem no Brasil e está em plena disputa. É saudável trazer considerações novas, questionar, duvidar, discordar… E, principalmente, o caminho que o movimento antiespecista deve tomar no Brasil tem que refletir a nossa realidade, nosso contexto político e social. O que funciona na Europa não necessariamente vai funcionar no Brasil e nossa luta precisa ser contextualizada, senão não será eficaz. Temos que enfrentar desafios que são únicos ao nosso país e só nós, que fazemos parte dessa realidade, sabemos que estratégias são relevantes e fazem sentido no Brasil. Não os ativistas e ONGs gringas.

Sério que vamos aceitar como “posição oficial” o que os liberais gringos acham do veganismo? Pois eu sou a favor da construção de um veganismo contextualizado, um veganismo latino-americano que respeita a nossa cultura e traça estratégias que façam sentido nos nossos territórios.

Considerações finais

Grandes ONGs veganas, ativistas do Norte Global e influenciadoras veganas não representam a autoridade máxima cuja palavra deve ser vista como “posição oficial” sobre questões ligadas ao movimento antiespecista, enquanto o posicionamento de todas as outras pessoas e organizações deve ser visto apenas como “opinião pessoal”.

Precisamos ouvir vozes marginalizadas (veganas no Sul Global, no movimento afrovegano no Brasil e nos EUA, etc) e levar em consideração o que organizações e ativistas veganas anticapitalistas tem a dizer. Nós também fazemos parte do movimento antiespecista!

A UVA (União Vegana de Ativismo) foi criada em 2018 e já conta com 16 coletivos veganos anticapitalistas espalhados pelo Brasil. Nós defendemos o boicote de empresas exploradoras de animais, que desde o início do movimento vegano organizado foi tido como uma das ferramentas de luta mais importantes. Uma parte importante do movimento vegano brasileiro (e no mundo) segue acreditando que qualquer ação ou tática que fortaleça o sistema que lucra com a exploração especista é contrária aos interesses dos animais.

O movimento vegano está em disputa e não para de evoluir. Ele não é o mesmo de 1944, quando Donald Watson criou a Vegan Society. E mais importante do que adotar, sem análise crítica, o que ONGs e ativistas veganas liberais nos EUA e Europa consideram como estratégia mais eficaz pra disseminar o veganismo, precisamos contextualizar a luta antiespecista e procurar estratégias que façam sentido e tenham impacto na nossa realidade socio-política.

Perguntar “tal produto vegetal de tal empresa especista pode ser considerado vegano?” deveria ser irrelevante. Precisamos parar de agir como se o veganismo se resumisse a um modo de consumo. O veganismo é a prática, o caminho pra derrubar o especismo, não o objetivo. A verdadeira pergunta deveria ser “que atitudes fazem o movimento antiespecista ter avanços concretos e nos colocam um passo à frente na luta pelo fim da exploração animal?” E, sinceramente, não vejo como continuar fortalecendo o capitalismo, o sistema econômico que produziu a exploração animal nas proporções absurdas que vemos hoje, pode ajudar na luta por libertação animal.

E, caso ainda não esteja claro pra todo mundo, nós, que vemos o veganismo como um projeto ético-político (não como um modo de consumo), NÃO condenamos o consumo individual de produtos de grandes empresas especistas! Ninguém aqui perde tempo tentando “tirar carteira de vegana de ninguém” por consumir produtos vegetarianos da Nestlé ou Unilever, nem mesmo da JBS. Isso não passa de uma tentativa do veganismo liberal de descreditar o veganismo popular. Nós criticamos o incentivo ao consumo desses produtos, pela parte de ONGs e influenciadoras veganas, assim como o mito de que a maior processadora de carnes do mundo, a JBS, é uma aliada dos animais.

Não, ONGs e ativistas liberais não ditam as regras do veganismo. Até porque se essas forem as “regras”, nosso movimento tem poucas chances de alcançar seu objetivo final: libertação animal. O movimento vegano é construído por quem faz parte dele, todas as pessoas que fazem parte dele. Controlar a narrativa dentro do movimento e deslegitimar toda opinião contrária é algo que veganos liberais fazem há anos. E não é surpresa nenhuma que as pessoas fazendo isso sejam justamente aquelas que estão acostumadas a ocupar uma posição dominante na nossa sociedade desigual (homens, brancos, classe superior).

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