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Há muitos anos me faço essa pergunta e depois de muita pesquisa e reflexão acabei descobrindo que a resposta é complexa.

Em 2014 o Human Research Council fez um estudo com ex vegetarianas/veganas (vou escrever “vegs”, pra encurtar) pra tentar entender por que pessoas abandonam o vegetarianismo/veganismo. O estudo foi encomendado pra tentar entender esse fato alarmante: 84% das pessoas que se tornaram vegs voltam a comer animais. É essencial entender as razões por trás disso se quisermos construir um movimento antiespecista eficaz. Foram 11 mil ex vegs entrevistadas e a lista de razões que as fizeram deixar de ser vegs é longa, mas as principais são de ordem social. A razão principal (apontada por 84% das entrevistadas) foi “não participar ativamente de grupos vegs”, seguido de “não gostar de ser visto como diferente por ter dieta veg” (63%), “não ver vegetarianismo/veganismo como parte da identidade” (58%) e “não ter interações suficientes com outras vegs” (49%).

O estudo também confirmou algo que eu já tinha descoberto de maneira empírica: 33% das ex vegs voltaram a comer animais depois de começar um relacionamento com uma não-veg.

Tem um argumento usado pra despolitizar o veganismo que diz que o “veganismo radical”, que segue boicotando empresas especistas, faz as pessoas abandonarem o veganismo, mas isso não se confirmou. A verdade é que quem se torna veg, mas não faz parte de uma comunidade veg, pode se sentir tão isolada e diferente que acaba voltando a comer animais. Somos seres sociais e se for preciso escolher entre viver nossa ética ou pertencer à uma comunidade, a maioria de nós escolherá a segunda opção.

Tá, vimos os motivos que levam pessoas a deixarem de ser vegs, mas será que os motivos que as levaram a se tornar vegs também importam aqui? Sim! 58% das ex vegs se tornaram vegs pela saúde, enquanto somente 27% o fizeram pelos animais. Quando a motivação é saúde, a pessoa tende a abandonar o veganismo com mais facilidade: se aparecer outra “dieta” que seja vista como mais saudável, se ela não sentir os “benefícios” que prometeram que ela sentiria adotando o veganismo…

Resumindo. Pessoas deixam de ser veganas principalmente porque 1-entraram no veganismo por razões não-éticas, 2-não tinham uma comunidade vegana (amigas, familiares) pra apoiá-las e 3-ter uma prática que sai da norma era um peso pra elas. O custo social de ser vegana (ser vista como diferente, ser chamada de “difícil” nos almoços de família, ser alvo de piada carnista) parece alto demais quando as motivações não são de ordem ética.

Isso nos dá pistas de como construir um movimento vegano eficaz, mas antes de traçar estratégias, é preciso dar um passo pra trás e analizar isso dentro de um contexto mais amplo.

Como alguém pode voltar a participar ativamente da opressão animal depois de ter entendido que é possível não compactuar com ela? Não vim aqui culpabilisar ninguém, só oferecer uma reflexão pra tentar entender por que pessoas abandonam o veganismo, mesmo quando elas têm todas as condições de seguirem veganas.

Apesar de ter começado esse texto explicando as razões que, segundo as pessoas entrevistadas no estudo citado acima, as levaram a abandonar o veganismo, é preciso ir além e não se contentar em individualizar esse debate.

O especismo é a ideologia que discrimina e oprime com base na espécie e isso é o resultado de uma força social organizada. Tudo na nossa sociedade facilita e incentiva a exploração animal: propaganda de carne por todos os lados, oferta de produtos animais em todos os locais, médicos e nutricionistas afirmando que é essencial comer animais pra ter saúde. Os interesses econômicos por trás do hábito de comer animais e seus derivados são gigantes. Ir contra essa força é uma prática constante que pode ter um custo social alto demais pra certas pessoas. Afinal, ser vegana é, de certa forma, entrar num grupo minoritário e navegar um mundo que, estruturalmente organizado de maneira especista, não foi feito pra acolher e levar em consideração as necessidades de veganas.

E é aqui que entra nossa missão: construir um movimento organizado e forte, capaz de mexer na estrutura especista, enquanto, ao mesmo tempo, lutamos por transformações mais imediatas pra, de um lado, acabar com a exploração animal onde já é possível e, por outro lado, retirar os obstáculos que impedem as pessoas de adotarem o veganismo e facilitar a vida de quem já é vegana. Trabalhar pra ter merenda vegetal nas escolas e opção vegetal no restaurante universitário são alguns exemplos.

E se ex-veganas resolverem voltar pro movimento, vamos garantir que elas serão bem recebidas:)

PS Bora parar de glorificar celebridades veganas? Aí já evita o desgaste quando elas anunciarem (surpresa!) que não são mais veganas.

Dia 4/07 aconteceu a Parada Política do Orgulho LGBT+ em Paris. A Parada política existe justamente pra protestar contra a Parada oficial, patrocinada por bancos e cartões de crédito, que transformou esse dia tão importante, onde ocupamos as ruas pra honrar a memória das que lutaram antes de nós e continuamos a luta por direitos LGBT+, em uma festa despolitizada pra celebrar o pink money.

A Parada política desse ano teve dois temas principais: a luta antirracista e o impacto do corona na vida das pessoas LGBT+ precarizadas. Ela foi organizada por dezenas de coletivos e organizações LGBT+ locais, algumas que constroem esse luta há décadas. Sem carro de som, sem os balões e banners dos patrocinadores (sem patrocinadores), sem celebridades, mas com percussões e, principalmente, com nossas vozes gritando alto e forte pelas ruas de Paris: “Não tem ‘orgulho’ sem migrantes indocumentadas”, “Não tem ‘orgulho’ sem as deficientes”, “Basta dessa sociedade que não respeita as trans, as sapatonas e as racializadas”, “Todo mundo detesta a polícia”, “Nosso orgulho não está à venda” ,“Nosso orgulho é político”, “Queremos libertação LGBT, não capitalismo rosa”, “Sem justiça, não há paz!” e “Vidas negras importam”.

E já que um dos temas centrais da parada desse ano foi a luta antirracista, era muito importante que um grupo de pessoas LBGT+ não-brancas liderasse a marcha. Eu digo “não-brancas” aqui porque na França a questão racial é mais complexa do que no Brasil, no sentido de que além do racismo contra a população negra, tem o racismo contra as populações árabe e Rom, muitas vezes ainda mais estigmatizadas. Eu já falei sobre isso no post sobre a luta contra a islamofobia, mas vale repetir. Na França uma pessoa negra é 6x mais suscetível de ser parada pela polícia na rua do que uma pessoa branca. Já uma pessoa árabe é 8x mais suscetível de ser parada pela polícia do que uma pessoa branca.

Foi incrível fazer parte desse bloco e caminhar do lado de tantas pessoas LGBT+ racializadas. Sempre que alguma pessoa branca entrava no bloco, alguém avisava que ali era um espaço pra pessoas racializadas e a pessoa branca ia se juntar às milhares de outras pessoas caminhando atrás do bloco. Menos, adivinha, alguns homens brancos que se recusaram a respeitar o pedido da galera e ficaram a dois dedos de agredir fisicamente as pessoas do bloco, enquanto repetiam o o famigerado: “Somos todos iguais! Não precisa dividir o movimento!” Claro, homem branco, somos tão iguais que você se recusa a respeitar o desejo de pessoas não-brancas de ter um espaço só pra elas, mesmo por apenas algumas horas, e quer impor sua presença em todos os espaços, porque quem manda no mundo é você, né?

Eu caminhei a maior parte do tempo no bloco das LGBT+ racizadas, enquanto Anne, que é branca, estava fazendo fotos na parte de trás. Sim, eu estava lá. Sei que no Brasil eu sou considerada “branca”, mas na Europa eu sou “latina” e “latina” não é branca.

Sempre que digo isso pra brasileiras a galera arregala os olhos. “Como assim, você não é branca?” E como eu acabei de ler um artigo extremamente interessante sobre o processo de racialização (ou etnicização), vim conversar com vocês sobre isso.

Aqui na França o termo “racializada” é o mais utilizado pra falar de uma pessoa não-branca (o equivalente do “people of colour” em Inglês). É importante entender como o processo de racialização opera pra entender o racismo (não só anti pessoas negras, mas também anti árabe, anti Rom, etc).

Uma pessoa racializada é “uma pessoa que pertence, de uma maneira real ou suposta, a um dos grupos que passou por um processo de racialização. A racialização é um processo político, social e mental de alteridade. Observe que ‘raças’ e o que chamamos de grupos ‘raciais’ ou ‘étnicos’ costumam ser uma mistura de gêneros, como por exemplo muçulmanos ou judeus (religião), negros (cor da pele), árabe (idioma) ou asiático (continente). O termo ‘racializado’ destaca o caráter socialmente construído das diferenças e sua essencialização. Ele enfatiza que a raça não é objetiva nem biológica, mas que é uma ideia construída que serve pra representar, categorizar e excluir o ‘outro’. ” Alexandra Pierre, militante feminista negra.

Ou seja, é o processo de construir um “outro” que é diferente (de diversas formas) do “padrão” do grupo dominante. E sim, amigas brasileiras, nós, da América do Sul, somos o ‘outro’ do francês.

Antes de prosseguir quero deixar registrado que não estou dizendo que na França eu, como “latina”, sofro o mesmo tipo de discriminação e opressão que pessoas negras ou árabes sofrem. Estou apenas frisando que no contexto francês eu não sou vista, nem tratada, como uma pessoa branca. Mas sabemos que tem hierarquias dentro desse processo de racização e cada grupo racizado será oprimido de maneiras diferentes.

Obviamente reconheço perfeitamente que no Brasil eu sou branca e sempre tive acesso a todas as facilidades reservadas às pessoas brancas. Se a Parada política fosse no Brasil, eu não entraria no bloco de pessoa não-brancas alegando que “na França eu não sou branca”. Nunca faria isso! Estou apenas dizendo que uma pessoa como eu, vinda do Brasil e com a pele clara, mas não exatamente branca de olhos claros, ocupa lugares diferentes de acordo com o país em que está. Na Palestina a galera me lia como branca. Na Turquia também. Na maior parte da Europa, não. E, o mais curioso de tudo, em certos casos fui lida como branca aqui na França e já explico como essa “mágica” aconteceu.

Eu descobri que não era branca aos 20 anos, quando me mudei pra Paris. Eu era babá de duas crianças francesas (uma irmã e um irmão) e fiquei muito próxima delas, que cuidei durante os 6 anos que morei aqui como universitária. Como a mãe e o pai das crianças trabalhavam muito, eu acabava indo a todos os eventos das crianças. Por isso quando a menina começou a fazer aula de dança e teve o primeiro espetáculo, eu fui. Eu era a única babá ali, todas as pessoas presentes eram mães das crianças (não lembro de ter visto nenhum pai). Então quando a professora de dança, no final da apresentação, falou sobre o progresso de cada criança com sua mãe respectiva, mas não veio falar comigo, deduzi que ela tinha captado que eu não era a mãe da menina (aos 20 anos eu tinha cara de 12) e não me interessaria pelo assunto.

No caminho de volta pra casa a menina, vou chamar de M., falou o seguinte. “Sandra, você acha que a professora não falou com você porque você não é branca?” Eu fiquei olhando pra ela com a boca aberta. Como?

M. não falou isso com indignação, parecia algo bem óbvio pra ela. Aos 6 anos ela já tinha entendido que no mundo as pessoas eram brancas (como ela) e tratadas com respeito, ou não-brancas (como eu) e podiam ser ignoradas. Não sei qual das duas informações me chocou mais no momento. O fato de ter descoberto que eu não era branca, depois de ter vivido minha vida inteira até ali acreditando que eu era, ou o fato de uma criança de 6 anos ter se dado conta do racismo, mas parecer ter normalizado aquilo ao ponto de não se indignar se uma pessoa que ela gostava fosse ignorada por não ser branca. (Ainda acredito que a professora não falou comigo porque eu não era a mãe de M. , mas o fato da menina ter me feito aquela pergunta mostra como ela me percebia de maneira diferente das pessoas brancas.)

Anos mais tarde eu estava conversando sobre quem era branca e quem não era com o menino, que vou chamar de L. Ele, que tinha a pele mais bronzeada do que a minha, dizia que era branco, mas eu, não. Eu coloquei o braço do lado do dele, que era vários tons mais escuro do que o meu, pra ver como ele ia explicar aquilo. Ele ficou desconcertado, sem saber como explicar o fenômeno, e no final gaguejou que ele era branco porque era francês e eu não era porque vinha do Brasil. Pra L. a branquitude tinha a ver com a nacionalidade. O Brasil era um país de não-brancas, então não fazia diferença se minha pele era bem mais clara do que a dele. Não é a cor da pele que fazia de mim uma não-branca, era a minha nacionalidade.

Parênteses pra explicar que uma pessoa nascida no Brasil, mas loura ou ruiva e de olhos claros, será lida como branca aqui na França. A ascendência europeia dela é imediatamente identificada, o que faz com que ela não seja racializada. Ela não é o ‘outro’, é parte do universal (o europeu). Então talvez seja importante dizer que não é apenas o fato de nascer no Brasil (ou na América do Sul) que faz de uma brasileira uma pessoa não branca na França. Não é a conexão com o país em si (geográfica) e sim com os povos nativos daquele país.

Já que vim trazer verdades pra ajudar na reflexão anti-colonial, abro outro parênteses pra explicar que o Brasil não é Ocidente. Sim, você leu certo. Sei que é comum se falar no Brasil “porque no Ocidente isso, a visão ocidental aquilo” sempre se incluindo nesse grupo, mas não, coleguinha, não somos ocidentais. “Ocidente” faz referência a uma organização colonial do mundo. Significa o Norte Global: a Europa, embora não toda a Europa, América do Norte (EUA e Canadá) e Austrália e Nova Zelândia (embora esses países estejam no Hemisfério Sul). Trocando em miúdos, Ocidente é o lugar de onde saíram os colonizadores e as ex colônias mais prósperas e brancas.

Embora tenham me perguntado muitas vezes aqui se minha pele clara vinha de uma ascendência europeia, fica evidente olhando pra minha cara que não tenho só europeus como antepassados, o que me classifica imediatamente na categoria do “outro”. O quão branca uma pessoa brasileira precisa ser pra ser considerada branca na França também? Como Alexandra Pierre explicou, o conceito de ‘raça’ é subjetivo, mas sabemos que 1- indivíduos com cabelos e olhos claros (não estou falando de cabelo pintado, obviamente) serão lidos sempre como brancos e 2- indivíduos de pele negra serão sempre lidos como não brancos. Mas entre esses dois polos tem muitas variações.

E é justamente por isso que já fui lida como branca aqui. Tenho uma história engraçada que ilustra perfeitamente isso.

Muitas luas atrás, quando eu ainda era universitária em Paris, entrei numa farmácia pra comprar um protetor solar. O farmacêutico, muito solícito, perguntou se eu precisava de ajuda. Eu disse “Tô procurando um protetor solar.” Veja, Francês é minha segunda língua e meu sotaque é discreto. Tão discreto que quando troco frases curtas, ele pode passar desapercebido. O farmacêutico achou que eu era francesa e disse: “Como você tem a pele branca, eu aconselho esse protetor aqui” e me deu um bem alto. Continuei a conversa com ele e falei que tinha que tomar cuidado com o sol porque, por ser brasileira, minha pele já tinha sofrido muito com ele. Ele me olhou desconcertado e falou: “Você é brasileira?” E imediatamente pegou o protetor 50 que ele tinha proposto e me ofereceu um mais baixo, dizendo: “Então esse aqui já tá ótimo pra você.”

O farmacêutico tinha achado que eu era branca porque deduziu que eu era francesa. Mas bastou ele descobrir minha origem brasileira pra imediatamente me classificar em um grupo diferente. Em outras palavras, me racializar.

Já um tio-avô de Anne, ao me conhecer, ficou o jantar inteiro me encarando com aquela cara de Nazaré confusa. Até que ele não se aguentou e perguntou: “Não é comum ter brasileiras com a pele leitosa como a sua, né?” Minha pele era leitosa, não “branca”, porque na cabeça dele não era possível ser brasileira e branca. (Não que eu faça questão de ser lida como branca aqui na França ou em qualquer lugar. Entro no bloco de pessoas racializadas e sinto que essa é a minha turma.)

E teve todas as vezes que me falaram “Ah, mas você é branca demais pra ser brasileira”, como se fosse elogio ser branca e algo ruim ser brasileira. Ou quando me olham desconfiados (geralmente homens) e dizem: “Você não tem o tipo da brasileira.” Não vou nem explicar o que isso significa porque todo mundo entendeu, né?

A discriminação com “latinas” se manifesta de maneiras mais sutis, mas aí se junta com a questão do sexismo e pode ser extremamente violento. Tem essa ideia de que mulheres latinas são “calientes”, querem fazer sexo com qualquer homem que aparecer pelo caminho, são necessariamente heterossexuais e se mudam pra Europa com o único objetivo de encontrar um marido europeu.

No meu primeiro ano de faculdade na Sorbonne um professor, que era também o diretor do curso, apontou pra mim e mais duas outras estudantes, uma mexicana e outra venezuelana, e falou pra turma inteirou ouvir: “Por que vocês estão se dando o trabalho de conseguir um diploma? É muito melhor arrumar um marido francês, aí vocês não precisam se preocupar com mais nada.”

A visão ocidental/colonialista que os “brancos” tem de nós mudou pouco desde a invasão europeia: somos menos inteligentes, menos sérios (no sentido “confiável”), o Brasil é um lugar de atraso…

Um médico francês me perguntou se era tranquilo ir pro Brasil e levar seu bebê com ele. As palavras exatas dele foram: “Se meu bebê adoecer, é fácil encontrar um médico pra consultá-lo?”

As crianças também imaginam o Brasil como um lugar exótico e uma menina me perguntou se tinha prédios e carros no Brasil. Perguntei onde ela imaginava que a gente morava. “Em árvores!” Ela também me disse que sonhava em se mudar pro Brasil pra poder usar biquini todos os dias, o tempo todo, em todos os lugares.

Uma outra pessoa francesa me perguntou onde eu tinha estudado. Falei “graduação nessa faculdade aqui, início de mestrado nessa outra ali”. Como comecei o mestrado em Linguística na universidade mais prestigiosa da França, quando ela me ouviu pronunciar esse nome ela me interrompeu e disse: “Não, não pode ser. Você deve estar se confundindo de universidade.”

Como postei esse texto primeiro sob forma de uma série de stories no Instagram, muitas pessoas me escreveram depois pra contar que viveram experiências parecidas quando foram morar fora do Brasil. É estranho quando seu lugar no mundo muda de uma hora pra outra, principalmente se você passar de um lugar privilegiado (branca no Brasil) pra um lugar subalterno na hierarquia social do país novo. Mas eu achei a experiência de passar a ser vista como o “outro” como uma baita oportunidade de reflexão, de questionamentos e de amadurecimento.

Lembro de um livro de Isabel Allende, acho que “Paula”, onde ela conta que a nora era racista no Chile. Aí quando ela foi morar nos EUA, deixou de ser vista como “branca” e passou a ser “latina”, o que fez com que ela desconstruísse o racismo que a acompanhava há tanto tempo.

Não estou dizendo que é preciso sair do Brasil pra deixar de ser racista (dá pra fazer esse trabalho aí), nem que toda pessoa que mudou de país e deixou de ser vista como branca vai necessariamente se tornar uma pessoa anti-racista em casa. É muito mais complexo.

O artigo que li hoje, e que mencionei no início desse post, foi escrito por Ariella Aïcha Azoulay e foi publicado na última edição da revista The Funambulist. Azoulay é uma escritora nascida em Israel, em uma família árabe-judia da Argélia. Ela se mudou pros EUA em 2012 e é professora na Brown University. O último livro dela se chama “Unlearning Imperialism”.

O artigo que me fez pensar em escrever essa série de stories é uma crítica ao mito do termo “Judeo-Cristão”, ou “tradição judaico-cristã”. Como judia, ela está longe de esquecer que durante a maior parta da História o povo judeu não foi considerado branco, independente do país de origem e da cor da pele e olhos, o que custou a vida de milhões de indivíduos.

Como falei no início do texto, racialização não é necessariamente sobre a cor da pela, mas sobre um processo político, social e mental de alteridade. É sobre criar um “outro”. Grupos que hoje são brancos já foram historicamente não-brancos. Irlandeses, tanto com relação ao Reino Unido como quando migraram pros EUA, são um exemplo. Judeus constituem outro grupo “embranquecido”. E é esse processo de embranquecimento, que veio acompanhado da invenção do termo “judeu-cristão”, como se esses dois grupos tivessem experiências compartilhadas, que ela critica no artigo. Vou traduzir alguns trechos aqui.

“O termo ‘judaico-cristianismo’ é uma das mais recentes iterações da prática imperial de assimilação, que foi materializada em um Estado-nação com interesses Cristãos-europeus chamado Israel.”

Azoulay explica como na Argélia colonizada a França tratava de maneira diferente os e as argelinas judias e criaram escolas francesas pra elas, num longo processo de “embranquecimento” cujo objetivo era ensinar argelinas judias a não mais se verem como árabes. Qual o interesse da França em fazer isso? Se trata de uma velha prática colonial, dividir pra melhor controlar. À partir do momento em que judeus/judias argelinas passaram a acreditar que eram diferente de argelinas muçulmanas, que estavam mais próximas dos colonizadores brancos do que da comunidade da qual tinham feito parte até ali, elas passaram a discriminar argelinas muçulmanas. Algumas décadas depois da invasão da Argélia pela França, argelinas judias ganharam a nacionalidade francesa, prova de que o processo “embranquecimento” tinha sido completado com sucesso. Nas palavras de Azoulay:

“Com a conquista da Argélia pelos franceses os judeus foram colocados à parte dos árabes e foram transformados em ‘problema’. Forçados a se livrar de tudo que os identificava como indígenas, pra que algumas décadas mais tarde o regime colonial pudesse recompensá-los pelos sues esforços com o ‘presente’ da cidadania francesa.

Em Israel, pra onde meu pai imigrou em 1949, ele pode tirar vantagem da barganha imperial da II guerra mundial, já que sua cidadania francesa -dada aos judeus argelinos em 1870- significava que ele podia se passar por um judeu europeu (ou seja, branco), e ser assimilado, ao custo de esquecer que era árabe.

O Estado de Israel não só foi criado com ferramentas imperiais (colonização, partilha, deportação, formato de Estado-nação), ele também replicou a dominação de europeus brancos de origem judia, que transformaram sua maneira de ser judeu na única maneira de ser judeu – uma maneira Judeo-cristã. Nesse projeto, europeus de origem judia tiveram que ser embranquecidos (…) Pra se tornarem brancos, judeus europeus precisavam de outros judeus pra serem os seus judeus não-brancos. É nisso que repousa o coração do Estado imperial.

O presente da Palestina foi dado como recompensa pelo embranquecimento dos judeus. A criação do Estado de Israel e a imposição de um sistema de cidadania diferente transformou o ser árabe em ameaça. A proximidade temporal entre a invenção do termo Judeu-cristão (1945) e a criação do Estado judeu (1948) não é coincidência.”

Eu falei sobre o processo de se descobrir não branca na França, quando no Brasil sou lida com branca. O processo descrito por Azoulay aqui é o inverso e numa dimensão muito mais ampla. Ela fala do embranquecimento de um grupo historicamente considerado não-branco (judeus) e de como isso só pode acontecer se outro grupo de não-brancos for criado. É uma dança das cadeiras da alteridade: judeus europeus adquirem status de brancos, às custas de judeus árabes, que se tornam os judeus não-brancos dos judeus europeus brancos. E os judeus árabes? Passam a tentar a todo custo se aproximar da branquitude oferecida aos judeus europeus, negando o ser árabe e tentando se assimilar à maneira única de ser judeu (branco e europeu). O árabe agora se transforma em ameaça, como ela explica no artigo.

Israel é um país extremamente racista onde judeus europeus estão no topo da hierarquia, seguidos por judeus árabes e, no degrau mais baixo, estão os judeus negros (etíopes). Mas Israel se acha um país branco e ocidental. Eu sempre achei risível o fato de Israel participar do campeonato europeu de futebol, ou do Eurovision (o “The Voice” europeu), como se esse país do Oriente Médio fizesse parte da Europa.

E o que dizer dessa notícia do jornal israelense Haaretz?

“Israel ocupa o terceiro lugar em maior taxa de contaminação diária entre países europeus, diz a OMS” O memo avisando que Israel saiu do Oriente Médio e migrou pra Europa chegou aí? Porque aqui não recebemos nada.

Ter descoberto que sou uma pessoa racializada no contexto francês abriu uma janela de reflexão dentro de mim que nunca mais se fechou. Precisei entender o processo político, social e mental de racialização, a construção do ‘outro’, pra começar a descontruir o racismo dentro de mim. Pra entender que aceitar que certos grupos sejam o meu “outro” significa ser cúmplice da dominação e violência exercidas contra ele. E também que nunca estarei a salvo de receber uma dose desse mesmo veneno: eu também sou o “outro” de certos grupos dominantes.

No início isso me desestabilizou. Mas foi um caminho sem volta pra reflexão permanente. Sei que continuarei sendo lida como branca no Brasil e em certos lugares fora dele também. Mas hoje não tenho mais desejo nenhum de provar que não sou o ‘outro’ do francês, como eu pude fazer assim que me mudei pra cá.

Gostaria de compartilhar mais alguns trechos do artigo de Ariella Aïcha Azoulay, pois temos muito o que aprender com ele.

“Ao contrário de muitos judeus de países árabes que foram forçados a viver em campos de passagem e usados ​​como escudos humanos para invadir cidades palestinas, meu pai se ofereceu para se juntar ao exército judeu e foi para Israel por vontade própria em 1949, após ter sido enganado pela propaganda sionista que o fez acreditar que a guerra contra os nazistas para salvar judeus na Europa continuava na Palestina, agora contra os árabes. Quase tudo que os imigrantes árabes trouxeram com eles para Israel foi rejeitado e ridicularizado. Eles foram incentivados a esquecer seus hábitos, heranças culturais, boa parte de sua comida e música (…) A lógica imperial depende da interrupção da memória intergeracional: os pais morrem e os filhos esquecem. Utilizada contra os palestinos, essa lógica pressupõe que eles esquecerão a Palestina. Utilizada contra judeus-árabes, significava que nós cresceríamos e nos tornaríamos ‘israelenses’, purgados das memórias árabe-judaicas, alienados da cultura palestina e aprendendo a ver os palestinos como inimigos.

O Estado de Israel é responsável pela destruição de séculos da vida judaica na África. Também é responsável pela destruição da cultura judaica árabe entre aqueles que migraram para Israel. Israel forneceu aos imigrantes novas memórias e novas origens, que apagavam os judeus da África.

Mas escolho desaprender o imperialismo: desaprendendo Israel e reconhecendo a existência da Palestina em seu lugar, desaprendendo a identidade israelense fabricada e recuperando a identidade judeu-árabe, desaprendendo o apagamento dos judeus da África que vê este mundo como algo que desapareceu, desaprendendo “Judaico-cristão” como termo fixo e, recentemente, rejeitando (embora neste caso eu não tivesse nada a desaprender) a feminilidade branca oferecida a mim como “judia” em troca de ser legível em um mundo em que judeu-árabe, judeu-palestino ou judeu-argelino eram identidades ilegíveis. Não vou aceitar essa barganha.”

Esse é o centro da minha reflexão aqui. Sobre essa “barganha” colonialista que é oferecida a alguns indivíduos no Brasil. Sobre a construção de uma nova subjetividade branca subalterna, que um leitor dos stories no Instagram colocou assim: “Podemos aplicá-la no processo de racialização no Brasil. Considere os ‘combos: ‘pretos x pardos’, pele mais clara x pele menos clara, nortistas/nordestinos x sudestinos/sulistas, centro x periferia…”

Assim, o grupo do qual faço parte (brasileira de pela clara, nas não visualmente europeia, ou seja, que não tem cabelos e olhos claros) entra nessa nova classe branca, mas subalterna ao brancos de cabelos e olhos claros, aprendendo a me entender como um grupo distinto e superior às brasileiras negras e indígenas, que se tornam o meu “outro”, o meu não-branco. Pessoas brasileiras de pele clara passaram a acreditar que têm mais em comum com colonizadores europeus do que com outros grupos de brasileiras (exatamente o processo que aconteceu na Argélia colonizada). Aí chegam na Europa e entram em choque quando descobrem que sua “branquitude” só existe no Brasil e que aqui ela é a não-branca, a racializada do povo francês.

Sabe Bacurau e o casal paulista/carioca que acha que é branco e vira motivo de piada pros estadunidenses? Exatamente isso.

Assim como A. A. Azoulay em seu artigo brilhante, também recuso essa “barganha” colonialista. Servimos os interesses de quem quando acreditamos que somos “brancas” e “ocidentais”?

Fica aqui o convite pra se aventurar por esse caminho e refletir sobre todos esses “outros” (negro, indígena, nordestino, periférico), artificialmente construídos. Pra não se deixar mais iludir por esse “presente” de branquitude/ocidentalização que pode ser oferecido pra algumas de nós. Está na hora de desaprender o colonialismo.

Adoro ler e apesar de não dedicar o tempo que gostaria à leitura durante o dia, dou cabo de uma modesta pilha de livros mensalmente, pois só consigo dormir depois de ler por pelo menos uma hora na cama. A pessoa que estiver dividindo a cama comigo que lute pra dormir com o barulho das páginas sendo viradas (bem discretamente, juro).

Um dos últimos livros que li me marcou muito, tanto que vim aqui fazer umas observações sobre sobre ele. Porque isso abre janelas pra reflexões importantes.

O livro em questão é “A peste”, de Albert Camus. Recomendo demais, não porque estamos vivendo uma pandemia no momento (o que durante a quarentena aqui na França fez muita gente tirar esse livro da estante), mas pelo contexto político. O livro foi publicado em 1947, então falar que estou dando spoiler não se aplica aqui, concorda? A peste de Camus é uma alegoria pro fascismo. Sim, a história é sobre uma cidade que vê a peste (bulbônica) chegar, se instalar e levar uma parte considerável da população. Mas é tudo um simbolismo pra alertar sobre o perigo do fascismo. Quem ler vai entender.

Sobre a peste em si (e aí saio do campo figurativo), tem uma passagem que me lembrou muito a atitude ecofascista de algumas pessoas diante do corona. Aquela galera que acha que a morte das pessoas mais precarizadas e vulneráveis na nossa sociedade é “limpeza espiritual”. Gostaria que essa galera explicasse o princípio dessa “limpeza planetária 2020” que leva os indivíduos mais sofridos e poupa aqueles que mais exploram e destroem o planeta, exatamente como sempre aconteceu. No livro, o padre da cidade prega durante a missa algo bem parecido com o que vimos umas pessoas escrevendo nas redes sociais (“estão morrendo da peste/corona? Tão vibrando negativo, amores!”) e a resposta do doutor pra essa atitude é perfeita. (Leiam o livro ; )

Mas não é sobre isso que quero falar aqui. (Sou a rainha das preliminares em conversas). Lembra que eu disse que a leitura desse livro me fez refletir sobre algumas coisas (além do fascismo)?

A primeira é que a história acontece em Oran, na Argélia. A Argélia foi invadida pela França em 1830 e a colonização só acabou em 1962, depois de muita luta e resistência do povo argelino. Mas o livro é de 1947 e a Argélia da época era uma colônia francesa. Aliás, Camus é um francês que nasceu na Argélia ocupada. O narrador conta que a cidade tem 200 mil habitantes e sabe quantos árabes tem no livro? Zero. E não estou falando somente dos personagens principais: nem a vendedora de tabaco, nem o entregador de jornais, nem o zelador do prédio, ninguém é argelino. O livro pinta um retrato exato do que era a Argélia colonizada: segregação total. Provavelmente muitos dos pacientes do doutor (o personagem principal) são árabes. Mas nenhum tem nome nem história, logo são totalmente invisíveis. Todos os personagens com nome e com história são franceses. A população nativa de Oran, de toda a Argélia, é fantasma. Sem nome, sem história, sem menção sequer da sua existência.

Isso foi ainda mais chocante pra mim porque li “A peste” enquanto lia um livro sobre Frantz Fanon e o contraste entre a luta por autodeterminação do povo argelino e a descrição do que ainda hoje os franceses chamam de “Argélia francesa” me fez perder o sono algumas noites.

Vou abrir um parênteses aqui pra contar um causo pessoal. Uns anos atrás, quando eu morava em Bruxelas, fui contratada pra ser intérprete de uma professora brasileira durante uma conferência. Eu dividia o trabalho com um português, pois a tradução era simultânea e na orelha e isso é um trabalho muito cansativo pra fazer sozinha durante horas a fio. E lá estava eu, traduzindo o que uma professora belga estava dizendo pra professora brasileira, discretamente pra não incomodar as outras pessoas ouvindo a conferência. E de repente, enquanto reclamava que a China estava tomando todo o mercado europeu e que por isso a Bélgica precisava se unir aos EUA em acordos econômicos, ela solta essa pérola: “Precisamos fazer alguma coisa! A gente já perdeu a África!”

Eu sou muito profissional, mas naquele momento não consegui me manter neutra e traduzir a fala da criatura. Eu engasguei e emiti um leve grito de horror ao mesmo tempo. Imediatamente me desculpei com a professora brasileira, explicando que traduziria essa infâmia no final da fala da professora colonialista. Sim, coleguinhas, tem uma galera grande aqui na Europa que acha que “perdeu a África”. Porque a África era deles, obviamente.

Agora voltando pro livro “A peste” e a segunda (e derradeira) reflexão. Além de não ter árabe, mesmo a história acontecendo no meio da Argélia, sabe o que também não tem no livro? Mulheres. Na verdade algumas mulheres passam pelas páginas, mas apesar de terem nome elas praticamente não falam e não fazem nada de interessante. Tem a esposa do doutor, que viaja logo no começo do livro pra tratar de uma doença grave. Tem a mãe do doutor, que vem cuidar do filho na ausência da nora. E tem a noiva de um personagem, que ficou em Paris e só é mencionada. Elas não tem substância, não tem interesses, são como as “mulheres de Atenas” de Chico Buarque (“Elas não tem gosto ou vontade, nem defeito nem qualidade….”). Aliás quando um amigo fala das qualidades da mãe do doutor é pra exaltar o quanto ela é “apagada”. Sim, várias vezes ele faz esse “elogio”, dizendo que era exatamente o que ele mais apreciava na própria mãe.

Já imaginaram o contrário? Um livro onde todas as personagens são mulheres, mas não num contexto íntimo, mas sim no nível de uma cidade de 200 mil habitantes! Imagina um livro onde as médicas, jornalistas, estudantes, prefeita, funcionárias da prefeitura, policiais…todas fossem mulheres? Ia causar, no mínimo, estranhamento. Provavelmente a autora (porque o livro seria escrito por uma mulher, obviamente) seria duramente criticada.

“Claro que não, Sandra, estamos em outra época! Não é mais 1947, hoje seria de boa.”

Aí que você se engana, camarada. Ano passado saiu um filme maravilhoso, no meu top 5 de melhores filmes da vida, chamado “Retrato da jovem em chamas”.

Um filme francês, de uma diretora mulher, contando a história de uma pintora que vai pintar o retrato de uma jovem, na casa dela, e se apaixona por ela. A história acontece no século 18, no interior da França. Como a jovem mora sozinha com a mãe e uma doméstica e o filme acontece quase todo dentro da casa e adivinha? Só tem mulheres no filme. Veja, não estamos falando aqui de uma história com muitos personagens, dentro de uma cidade de 200 mil habitantes (como no livro A peste). Estamos falando de um história muito mais íntima que acontece no espaço doméstico. E foi de boa? Nada! A diretora, Céline Sciamma, foi duramente criticada pela escolha de fazer um filme apenas com mulheres.

Durante a turnê de divulgação perguntavam, num tom ofendido ou acusador, “por que escolher fazer um filme militante/feminista?” Porque se tem uma coisa que o patriarcado nos ensinou foi que histórias de homens é algo “neutro”, “universal”. Já histórias de mulheres é militante.

Lembra aquela coisa de que se a opinião é de direita é “neutra”, mas se for assumidamente de esquerda é “política, ideológica”. Ou seja, é “neutro” quando segue o roteiro escrito por quem? Por quem? HOMENS! Geralmente brancos e héteros. Tudo que sai desse roteiro é “militante, feminista, tomou partido, é nicho” etc.

Eu critiquei a falta de mulheres no livro de Camus, mas isso é verdade na maioria dos livros, principalmente os “grandes clássicos”. Idem pros filmes. Você conhece o teste Bechdel? Pois siga lendo que você vai dormir mais sabida hoje.

Alison Bechdel é uma autora que eu adoro. Ela está por trás da HQ “Dykes to watch out for”, que segue as aventuras de um grupo de amigas lésbicas de 1983 à 2008.

Numa tirinha de 1985 Ginger, uma das personagens, explica que tem uma regra na hora de escolher filmes. Ela só assiste a filmes que:
1- tenham pelo menos duas mulheres que
2- conversam uma com a outra
3- sobre algum assunto que não seja homem.

Alison Bechtel não tinha a intenção de criar um teste, mas por causa dessa tirinha feministas começaram a usar esses critérios pra expor o papel absurdo das mulheres em filmes. Elas estão ali pra decorar, pra ser o objeto de desejo de um homem, mas raramente tem protagonismo. Óbvio que tem os filmes protagonizados por mulheres (e glória à deusa o número é cada vez maior), mas pense aí nos filmes “clássicos” ou mesmo qualquer filme que você viu ultimamente. Quando comecei a analisar, uns 10 anos atrás, poucos passavam o teste. Faça o exercício, lembrando dos seus filmes preferidos, e veja por você mesma.

Destacando aqui que esse teste, que nunca quis ser um, não determina se um filme é feminista ou não, como algumas pessoas pensam. Sinceramente, achar que o fato de ter duas mulheres, que conversam uma vez sobre algo que não seja homem é suficiente pra dizer que um filme é feminista é um insulto!

Mais tarde o primeiro critério ficou mais elaborado. Agora um filme, pra passar o teste Bechdel, tem que ter 2 mulheres com nome e profissão e elas tem que praticar a profissão no filme (além dos critérios 2 e 3).

Se você é homem e está me lendo, pare e pense. Como você se sentiria se todos os “grandes livros” e “filmes clássicos” contassem apenas histórias de mulheres? Se os homens entrassem ali apenas pra ser o objeto de desejo das mulheres e/ou servir as mulheres da trama (ter uma “natureza apagada”, como a mãe do doutor no livro de Camus)?

É assim que me senti lendo “A peste”. E o pior é que nós, mulheres, estamos tão acostumadas a não ter lugar nos livros e filmes, a achar que a narrativa masculina, as histórias do ponto de vista do homem são “universais” que na maior parte do tempo nem percebemos isso. Falei com duas amigas francesas que adoram Camus sobre o meu desconforto por não ter mulheres no livro e ambas disseram que tinham lido o livro mais de uma vez e não tinham reparado isso.

E olha que nem entrei no apagamento de quem não se encaixa na binaridade que descrevi nessa conversa.

Lendo “A peste” me ocorreu o seguinte pensamento. Se um extraterrestre que nunca pisou na Terra tivesse acesso aos nossos livros e filmes, que imagem ele teria da sociedade humana? Provavelmente algo como “homens vivem aventuras, paixões, fazem descobertas, salvam países e até a Terra inteira, se o apocalipse bater na porta. Já mulheres…” Não vou nem terminar a frase pois se você leu até aqui vai completar o raciocínio sozinha. Isso não condiz com a realidade e precisamos de livros e filmes que contem histórias à partir de olhares que não sejam de homens, porque achar que a narrativa masculina basta, achar que ela é “universal” é um tremendo absurdo. E totalmente machista.