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Em pouco mais de um mês tivemos três grandes eventos veganos aqui em Paris. Se não me engano os três maiores do ano. Estive nos três, porque quero descobrir como o movimento vegano está se organizando aqui. Me tornei vegana quando ainda morava em Paris, em 2007, mas na época veganismo na França era algo praticamente desconhecido e não tinha eventos nem encontros veganos na capital.

Os três eventos foram bem diferentes entre si, mas não muito diferente do que vemos no Brasil: algumas palestras, muita comida e um grande foco no consumo vegano. O primeiro evento queria “mostrar o estilo de vida vegano de uma maneira positiva”, com música e muita comida, num parque da cidade. O segundo era um pouco mais militante (no próprio panfleto de divulgação tinha escrito “evento militante”), menor e com foco nas palestras com temas políticos como “desobediência civil” e “como politizar o veganismo”. O terceiro, e maior de todos, era totalmente consumista. Os dois primeiros eram gratuitos, mas o terceiro, dedicado exclusivamente ao consumo vegano de produtos alimentícios transformados, além de moda e cosméticos, era pago. A entrada custava 12 euros. Me recuso a pagar pra entrar em um evento desse tipo, mas uma amiga que estava trabalhando lá conseguiu uma entrada gratuita pra mim.

E por que eu queria ir a esse evento? Porque tinha uma palestra com o seguinte tema: “O business vegano salvará o mundo?” Sim, “business” (“negócio”) escrito em Inglês. A descrição da palestra era: “A economia do vegetal está em plena explosão. As prateleiras estão abarrotadas de produtos vegetarianos e veganos. Mas devemos, no entanto, comemorar a implicação de grandes grupos (Danone, Mac Donald’s) no desenvolvimento desses produtos? É possível adotar uma abordagem que faz com que business e veganismo sejam compatíveis: o altruísmo eficaz?”

Contrariando o que dizem por aí, eu não tenho um “ativismo fechado” nem me acho detentora da verdade absoluta. Por isso eu fui lá colocar minhas convicções à prova e escutar o que as duas pessoas palestrando tinham pra me dizer sobre o “ativismo de mercado”. Estaria eu enganada sobre a luta anticapitalista e o negócio, digo, o business vegano seria a solução pra salvar o mundo? Eu precisava descobrir.

Se informar sobre diferentes estratégias de luta, identificar seus limites e fazer críticas são atitudes extremamente importantes pra fortalecer nosso movimento e fazer avançar o debate antiespecista. Não caia nessa de que criticar quem está no seu campo é necessariamente errado porque “o inimigo é outro”. Um movimento incapaz de fazer autocrítica está fadado ao fracasso. Acredito que somos pessoas adultas aqui, capazes de debater, formular argumentos e defender nossas ideias. Se uma parte da galera do nosso campo repete que toda crítica é contra-produtiva porque devemos focar nos que nos une e ignorar se eles fazem algo que prejudica o movimento, isso significa que, na falta de argumento sensato, estão tentando silenciar quem coloca suas estratégias pra debate. Mas o movimento vegano está em construção e nossas estratégias devem ser debatidas, sim. Os animais agradecem.

Mas talvez você precise antes de uma explicação sobre esse tal de “altruísmo eficaz”. Não sou expert nas origens do movimento, mas vou resumir em poucas linhas. O altruísmo eficaz deriva diretamente do utilitarismo. O utilitarismo é um tipo de ética normativa segundo a qual uma ação é moralmente correta se tende a promover a felicidade e condenável se tende a produzir a infelicidade. Parece óbvio, né? Aí entra o cálculo.

De acordo com o utilitarismo a moralidade de um ato é calculada, ela não é determinada a partir de princípios diante de um valor intrínseco. Este cálculo leva em conta as consequências do ato sobre o bem-estar do maior número de pessoas.

Na prática dá isso aqui. Conhece o famoso experimento de pensamento conhecido como “o dilema do bonde”? Um bonde está fora de controle em uma estrada. Em seu caminho, cinco pessoas amarradas na pista por um filósofo malvado. Felizmente, é possível apertar um botão que encaminhará o bonde para um percurso diferente, mas ali, por desgraça, se encontra outra pessoa também atada. Deveria apertar-se o botão?

Se você respondeu que é moralmente justificável matar intencionalmente uma pessoa inocente pra salvar a vida de outras cinco pessoas inocentes, você fez um cálculo utilitarista. (Não se sinta culpada, a maioria das pessoas responde que apertaria o botão.)

Mas os cálculos utilitaristas ficam mais complexos à medida que desenvolvemos esse raciocínio. Imagine agora que uma pessoa vai ao hospital porque quebrou o braço. Naquele hospital 5 pacientes esperam transplantes de órgão e morrerão se o transplante não for feito nas próximas horas. O médico deve matar o paciente do braço quebrado pra retirar seus órgãos e salvar os outros 5 pacientes? O cálculo é o mesmo do exercício anterior: matar uma pessoa inocente pra salvar 5 outras pessoas inocentes, mas nesse caso nos damos conta que a moral é algo muito mais complexo do que cálculos frios e impessoais.

Voltemos agora ao altruísmo eficaz. A ideia, como expliquei, veio do utilitarismo: escolher ações que tenham o maior impacto positivo. No site do Centro de Altruísmo eficaz podemos ler:

“O altruísmo eficaz procura responder uma pergunta simples: como podemos usar nossos recursos para ajudar da melhor maneira os outros? Em vez de apenas fazer o que parece certo, usamos evidências e análises cuidadosas para encontrar as melhores causas para se dedicar.”

O altruísmo eficaz te encoraja a ajudar o próximo, mas não de qualquer maneira. A ideia é que essa ajuda seja ditada pelo cálculo do “maior impacto positivo possível.” Então esse movimento, que nasceu nos EUA, prega que é mais “altruísta” ser um grande empresário capitalista, acumular muito dinheiro e em seguida doar esse dinheiro pra organizações que lutam contra a fome no continente africano, por exemplo.

Não precisa ir muito longe pra enxergar o problema aqui. O fato do milionário ter explorado um número enorme de pessoas pra acumular a fortuna que tem hoje e ter contribuído pra destruição do planeta nesse processo é deliberadamente ignorado. A única coisa que importa aqui é que ele doe milhões pra ONGs que vão ajudar… essas mesmas pessoas que tiveram a vida destruída pelo capitalismo.

O altruísmo eficaz se nega a entender o funcionamento do sistema econômico em vigor no mundo, o capitalismo, que acumula riquezas na base da exploração, e não reconhece que as desigualdades sociais são produzidas pelo próprio capitalismo. Não luta por justiça, apenas prega uma maior acumulação de riquezas (ignorando a desigualdade e miséria que isso provoca), pra que depois os ricos do Norte possam lavar a consciência fazendo doações pros miseráveis do Sul. Agora é possível justificar e até incentivar a exploração dos trabalhadores e da Terra porque assim você, amigo capitalista, vai “ajudar o maior número de pessoas possível”. E vemos aqui, senhoras e senhores, uma nova incarnação do imperialismo. Palmas pra mente astuta que inventou esse movimento.

Se você ainda não entendeu como o altruísmo eficaz se relaciona com o veganismo liberal, que prega um ativismo de mercado, continue lendo que as coisas vão ficar transparentes daqui a pouco.

Voltemos pra palestra “O business vegano vai salvar o mundo?”. O evento vegano que organizou essa palestra se chama Veggie World, acontece em 12 cidades diferentes todos os anos (de Bruxelas à Hong Kong) e é organizado pela ProVeg. A ProVeg é a organização criada por Melanie Joy, autora de “Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas”, e se descreve como (copiei do site) “uma organização internacional líder em conscientização alimentar”. Nada mais lógico que um evento promovido por uma organização de conscientização alimentar tenha como foco o consumo vegano, não a libertação animal. Aliás o panfleto de divulgação do evento dizia isso: “O maior salão do modo de vida vegano”. E a programação do evento ia nesse sentido, com oficinas de culinária e conversas sobre nutrição “plant-based”.

A palestra que vi foi dada por duas pessoas que trabalham na Associação Vegetariana Francesa (AVF) e são responsáveis pelo “V-label”, o selo vegano da AVF, comprado por empresas que querem ter o selo em seus produtos vegetais. Achou suspeito que pessoas que ganham dinheiro vendendo selo vegano pra grandes corporações façam palestra tentando convencer o público de que grandes corporações vão salvar o mundo? Imagina, amiga radical, isso não passa de uma coincidência inocente! Deixe de ativismo fechado e continue lendo pra descobrir o que essas bravas pessoas tem pra nos ensinar.

Eu, aprendiz dedicada do altruísmo eficaz e militante vegana disposta a dar uma chance ao ativismo de mercado, levei um caderninho pra anotar tudo, sentei na frente e escutei com muita atenção. Deixa eu compartilhar algumas coisas que foram ditas naquela manhã de domingo.

“O business vegano é o nosso trabalho.

Foi com essa frase que o palestrante abriu a palestra. Poxa, ele não está me ajudando. Eu aqui tentando defender que o fato dele pagar seus boletos vendendo selo vegano pra grandes corporações não tem nada a ver com isso dele estar ali defendendo as ditas corporações e ele já começa admitindo que o trabalho dele é o tal do business. Mas pelo menos o rapaz é honesto. Não chegou se apresentando como militante antiespecista, nem como ativista pelos animais, nem disse que o trabalho dele era acabar com a exploração animal.

“A AVF existe pra acompanhar o público numa transição vegetariana e vegana.”

Parece que as associações vegetarianas aqui e aí estão alinhadas nesse ponto: a divulgação da dieta vegetal, não o compromisso com a luta por emancipação animal. “Mas Sandra, deixa de implicância! Se as pessoas adotarem a dieta vegetal estarão salvando os animais! Então essas organizações estão trabalhando pra abolir a exploração animal, sim!” Não necessariamente. Falei sobre a diferença entre expansão do mercado vegano e libertação animal nesse post.

“Quando começamos a nos interessar por produtos veganos tivemos que começar definindo o que era um produto vegano. Uma maçã era um produto vegano? Uma pera? Decidimos focar unicamente em 1-produtos transformados, 2-com certificado vegano e 3-vendidos em grandes supermercados. Então não era sobre o consumo de maçã e pera, mas sim sobre o mercado vegano.”

Veja que interessante. A dita “expansão do mercado vegano”, que o veganismo liberal associa à “expansão do veganismo e vitória pros animais”, é medida apenas em número de produtos transformados, ou seja, industrializados e processados, que compraram o selo vegano e que são vendidos em grandes supermercados, como o Carrefour. Por que será que a maçã não interessa essa galera? Seria talvez porque maçã não precisa de um selo vegano pra atestar sua veganicidade? O que é uma pena, pois se a população passar a consumir mais frutas e verduras, mais leguminosas e cereais integrais (todos alimentos vegetais), isso diminuiria não só a exploração animal, mas melhoraria também a saúde das pessoas e geraria menos impacto ecológico. Produtos processados e produzidos por grandes corporações, mesmo à base de vegetais, vem de monoculturas cheias de agrotóxicos que envenenam o solo, a água, a fauna e as pessoas.

“Mas Sandra, como ficariam nossos camaradas que pagam seus boletos vendendo selo vegano pras grandes corporações? As organizações veganas que produzem esses selos? As veganas que desenvolvem esses tais produtos pras grandes corporações? As ativistas que fazem publicidade desses produtos no Instagram? Olha só quanta gente ia perder dinheiro!” Eita, é mesmo. Coitadas. Mas, espera! Veganismo não era sobre um compromisso com a luta antiespecista? Um engajamento com o fim da exploração animal? Olha só que esquecida que sou! O rapaz deixou bem claro no início da palestra que os motivos dele eram diferentes. O trabalho dele é com o business vegano, não com a libertação animal. Estou confundindo as categorias de veganos, perdão.

“Queremos sensibilizar as crianças a um outro tipo de consumo o mais cedo possível.

Ele estava falando sobre os programas do tipo “segunda sem carne” nas escolas. Acho muito importante oferecer refeições vegetais às crianças na escola e sei que aqui na França é um combate difícil. Toda iniciativa pra aumentar a oferta de vegetais pras crianças tem o meu apoio. Mas o que me chocou profundamente na declaração do rapaz foi, mais uma vez, o motivo por trás da ação. Não, o objetivo não é sensibilizar as crianças à questão animal, mas sim “a outro tipo de consumo”.

O veganismo liberal e o ativismo de mercado reduzem as pessoa a meros consumidores.“Quando você compra um produto vegano de uma grande empresa você está dizendo ‘eu existo’” – diz a vegana liberal. Então quem não consome esses produtos não existe? A oposição entre veganismo político/popular e veganismo liberal/pragmático não é apenas uma questão de divergência de estratégias. Nós denunciamos a mercantilização do veganismo e essa desumanização das pessoas, que são vistas apenas como consumidores. Assim o valor delas, e a eficácia do seu ativismo, são medidos pela régua do consumo de produtos processados produzidos por grandes corporações.

O veganismo liberal/estratégico é totalmente insensível à questão de classe, ao fato da maioria das pessoas não terem acesso a esses produtos certificados e de que a classe trabalhadora tem pouquíssima escolha na hora de se alimentar.

“Queremos um outro sistema, sem sofrimento animal. Mas não podemos fazer isso sem a ajuda das grandes empresas. Por isso precisamos buscar um diálogo com elas, que são capazes de fazer uma mudança mais radical.”

As mesmas grandes empresas que exploram e matam animais aos bilhões? Sim! Elas são nossas aliadas, meu povo! Aliás, de acordo com os palestrantes, são as únicas capazes de mudar o sistema. Inclusive em um dos slides que mostraram durante a palestra tinha escrito que elas eram as verdadeiras heroínas dessa mudança. Nós somos meras consumidoras, lembra? E entre as corporações heroínas, salvado o mundo, e nós, existindo e fazendo a diferença unicamente através do consumo dos seus produtos, existe o quê? O veganismo liberal, claro! Pra “acompanhar as empresas nessa transição”, vender selos veganos, fazer publicidade no Instagram (os infames publiposts que muitas vezes nem são sinalizados) e nos dizer que criticar esse modelo, muito mais interessado em ganhos financeiros do que em avanço na luta por libertação animal, é uma perda de tempo porque # devemos focar no que nos une e porque # estamos do mesmo lado. Desculpa aí, mas quando uma vegana diz que prefere dialogar com empresas que produzem carne do que com uma parte do movimento vegano ela própria declarou não estar do mesmo lado que eu. Se as aliadas dessa pessoa (e do veganismo liberal) são empresas que assassinam animais e lucram com o sofrimento animal e humano e a destruição da Terra, não estamos do mesmo lado, porque os aliados dela são os meus inimigos. E os inimigos dos animais.

“Investir em educar as pessoas tem um custo muito alto comparado ao impacto obtido. Se a oferta nas prateleiras mudar, as pessoas vão comprar produtos vegetais e não haverá mais trabalho a ser feito.

O altruísmo eficaz permeou toda a palestra, como você já deve ter percebido. Falaram muito em “custo-benefício” das ações e em sempre privilegiar ações que pudessem ter “o maior impacto no menor tempo”. Os parâmetros desses cálculos não foram explicados e isso expõe a fraqueza dos argumentos defendendo o veganismo liberal/estratégico. Muito se fala de “ações de muito mais impacto”, mas a maneira usada pra chegar nos números exibidos com orgulho nos sites das organizações é, no mínimo, duvidosa. Muitas vezes são coisas que não podem ser medidas de maneira concreta, como a “potencial redução de sofrimento de X animais após nossa ação de panfletagem em lugar Y”. Um amigo meu, que fez parte brevemente de uma dessas organizações, me contou que calculavam que a cada X panfletos “go vegan” distribuídos na rua X animais tinham sido salvos. E que por isso os voluntários são instruídos a não conversarem com as pessoas a quem entregam panfletos, pois isso é tempo perdido que poderia estar sendo usado pra entregar mais panfletos e salvar mais animais. Como eles sabem quantos panfletos são necessários pra salvar a vida de um animal é um mistério pra mim.

Mas deixa eu voltar pra declaração acima. O que me incomoda profundamente aqui (e veja que eu me incomodei com frequência durante a palestra) é o paternalismo desse tipo de ativismo. Promover autonomia alimentar e educação antiespecista pra que as pessoas 1- tenham a possibilidade de escolher o que comer e 2- possam fazer escolhas informadas? Não, isso levaria muito tempo! O estratégico e eficaz é escolher PELAS pessoas! Não dialogar com elas, seja na hora de entregar panfletos ou de substituir produtos ultraprocessados carnistas por versões vegetais nas prateleiras dos grandes supermercados. Eficaz, mesmo, é decidir o que elas comerão junto com as grandes corporações. É um tipo de ativismo extremamente elitista, paternalista e que busca manter a dependência das grandes empresas do agro-alimentar, indo contra a promoção da autonomia do povo. Porque as heroínas são as corporações, lembra? E o veganismo liberal, que negocia com elas e as acompanha nessa missão, obviamente. Se essa atitude que despreza e ignora o povo, que se acha no direito de escolher por ele e negociar com empresas que matam animais em seu nome não te incomoda, eu não sei o que dizer.

Num momento de urgência climática, onde militantes do mundo inteiro tomaram as ruas pra pedir “mude o sistema, não o clima”, é um absurdo o veganismo liberal decidir ir na contra-mão e defender o sistema afirmando: “Basta mudar a lista de ingredientes dos produtos, fazer ultraprocessados vegetais e deixar todo o resto como está”! E fazer isso alegando que é mais eficaz? Faz sentido pra você achar que eficaz mesmo é manter o sistema que está destruindo as condições de vida no planeta? Os animais que serão “potencialmente salvos” graças aos produtos das nossas heroínas, as grandes corporações, vão morar aonde mesmo? Em que planeta eles viverão quando nossas heroínas tiverem acabado de destruir a possibilidade de viver nesse aqui?

“Os consumidores não precisarão ser convencidos, está ali, na prateleira.”

Os palestrantes insistiram que bastava colocar produtos veganos nas prateleiras dos grandes supermercados pras pessoas passarem a consumir automaticamente esses produtos. “Muitos vão comprar o produto sem perceber que é vegetal!” disseram. Talvez algumas pessoas levem pra casa o produto enganadas e gostem. Talvez algumas comprem uma vez, pra experimentar, e na compra seguinte voltem pro consumo de produtos animais. Mas muita gente não vai comprar nunca esses produtos, justamente porque são carnistas.

O meu sogro é um bom exemplo disso. Ele é um francês típico, extremamente carnista, que mora numa cidade do interior onde o supermercado mais próximo é um Carrefour gigante. Ele escutou várias conversas sobre a questão animal, mas apesar de conviver com veganas há anos, continua totalmente fechado ao veganismo. Ano após ano eu frequento o Carrefour perto da casa dele e fico espantada com o aumento dos produtos processados e ultraprocessados à base de vegetais nas prateleiras. A oferta é realmente enorme. Não só o meu sogro nunca comprou um produto sequer desse tipo, como nas vezes que algum apareceu na mesa dele (porque eu comprei) ele ou não se interessou em provar, ou provou, achou gostoso ou ruim, mas mesmo quando achou muito gostoso nunca incluiu o produto testado e aprovado na sua lista de compras.

Se essa estratégia não é garantia de sucesso aqui na França, um país no centro do capitalismo, onde os produtos ultraprocessados da Danone, Nestlé e Unilever já custam praticamente o mesmo preço que o produto similar animal e são encontrados até em cidadezinhas com 5 mil habitantes (como é o caso do meu sogro), imagina então num país como o Brasil, que está na periferia do capitalismo, onde esses produtos não chegam na maior parte da população e onde só uma minoria tem grana pra gastar com eles? E será que o povo brasileiro realmente quer mais ultraprocessados, mesmo se for de origem vegetal?

Importar estratégias de ativismo dos gringos, que não são garantia de sucesso nem mesmo na Europa e nos EUA, pro nosso Sul global não faz o menor sentido. Nosso contexto político e econômico é totalmente diferente e nosso ativismo deveria ser pautado nas necessidades e possibilidades reais locais. Se defendemos o projeto de veganismo popular é porque sabemos que incluir o povo nessa luta não é “passar o humano na frente do animal na fila dos direitos”. É porque os animais não são capazes de se emanciparem sozinhos, daí a absoluta necessidade de incluir o povo nessa luta. E só o povo é capaz de determinar as estratégias de luta que fazem sentido no contexto onde estão inseridos. Essa é a divergência fundamental entre o veganismo popular e o veganismo liberal/estratégico. O primeiro acredita que o povo será o protagonista da luta por emancipação animal e que por isso mesmo essa luta só será vitoriosa se trouxer emancipação humana, e da Terra, também. O segundo ignora o povo e negocia em seu nome com o capital, pois as verdadeiras heroínas dessa história são…as grandes corporações capitalistas.

Uma última crítica à palestra “O business vegano vai salvar o mundo?”. Tirando uma breve menção ao sofrimento animal (no momento em que foi dito “Queremos um outro sistema, sem sofrimento animal”) o animal não esteve presente em nenhum momento. Assim, o “referente ausente”, tão discutido por Carol J. Adams no livro “A política sexual da carne”, permanece ausente. Vemos as ONGs de defesa dos animais adotarem cada vez mais o termo “plant-based”, desaconselharem fortemente o uso da palavra “vegana” e evitar ao máximo falar do animal pelo qual dizemos lutar. Isso é assustador. Como ganhar uma luta sem nunca dizer por quem estamos lutando?

Agora deixa eu terminar com a pérola que foi repetida 3 vezes (eu contei) durante a palestra:

“Não se perguntem ‘é ético?’. Se perguntem ‘é eficaz?’”

Tenho duas histórias pra ilustrar essa máxima do altruísmo eficaz e, por tabela, do veganismo liberal/estratégico.

Sabe o amigo que participou brevemente da organização que conta o número de animais salvos de acordo com o número de panfletos distribuídos? Então, durante o treinamento o funcionário encarregado de treinar novos voluntários perguntou ao meu amigo: “Se alguém te oferecer 50 mil reais pra você comer carne, você comeria?” Juro que não estou inventando isso. O meu amigo falou que não iria responder porque aquilo era uma falsa pergunta, mas o rapaz insistiu. Então ele disse: “Claro que não!”. Aí o rapaz falou: “A resposta certa é ‘sim’, porque depois de comer a carne você pode usar os 50 mil pra salvar muitos animais.”

A segunda história me foi contada por um amigo britânico, militante antiespecista e anticapitalista há mais de 30 anos. Foi ele quem primeiro me chamou a atenção pro altruísmo eficaz e pra sua influência em certos grupos veganos. Ele percebeu que nos últimos anos, à medida que as ONGs veganas se tornavam mais e mais neoliberais, as conferências internacionais de direitos animais se tornavam cada vez mais bem-estaristas. Sempre usando o argumento utilitarista de “dar preferências à ações que terão maior impacto em termos de números de animais alcançados”. Foi assim que campanhas por gaiolas maiores ou galinhas poedeiras criadas fora de gaiolas se tornaram parte do “ativismo vegano”, por exemplo, coisa impensável dentro do movimento abolicionista até uns anos atrás.

Ele voltou da última conferência de direitos animais, realizada na Polônia, em estado de choque. Um dos convidados, um ativista vegano, deu uma palestra sobre seu projeto em Taiwan. Ele tinha passado anos procurando um projeto onde ele teria o maior impacto possível na redução do sofrimento animal e acabou descobrindo que em Taiwan tinha enormes fazendas de criação de peixes, amontoados aos milhares em tanques pequenos demais pro volume de animais vivendo ali. Ele pensou: “Bingo! É aqui que posso ter o maior impacto possível!” Então nosso bravo vegano dedicou seus recursos pra…. desenvolver um motor que oxigena a água dos tanques. Agora os peixes, que continuam explorados, torturados, amontoados aos milhares e assassinados pra acabar no prato dos humanos, conseguem respirar melhor durante sua curta e triste vida. Isso, de acordo com o moço altruísta eficaz, tem um impacto quantitativo muito maior, e imediato, na redução do sofrimento animal do que qualquer outra iniciativa. Como investir em educação antiespecista ou incentivar a produção de verduras no local, por exemplo.

Pois é, amiguinha. Chegamos no ponto onde pessoas do movimento que em teoria deveria lutar por emancipação animal elegem como aliada a indústria que os tortura e mata, onde pessoas que trabalham em organizações que se dispõem a salvar animais de abatedouros acham que faz sentido comer animais pra salva-los e onde ativistas veganos bem intencionados acreditam que aumentar o oxigênio das fazendas de criação de peixes é a estratégia mais eficaz pra reduzir o sofrimento deles.

PS Surpreenderia alguém se eu disser que no final da palestra um dos palestrantes fez propaganda do app que ele desenvolveu que te diz se o produto na prateleira do supermercado é vegano? Produtos processados veganos é realmente o business do camarada.

PS 2 Isso me surpreendeu: a palestra durou 1 hora e não teve tempo pra que o público fizesse perguntas no final. Percebeu como está virando lugar-comum ter uma abordagem totalmente neoliberal do veganismo, pregando que isso é o mais estratégico a ser feito, não abrir espaço pra debate e depois silenciar quem tenta criticar esse modelo?

PS 3 E como disse Leila, que acompanha o meu trabalho no Instagram: “A solução não passa pelo capitalismo. Ela o derruba.”

(Tradução da foto de abertura do post: “Sair do capitalismo é uma questão de sobrevivência”. Fiz essa foto durante a ocupação organizada pelo grupo Extention Rebellion, aqui em Paris, no início do mês.)

Lembram do tour gastronômico que organizei em Paris ano passado? Agora que voltei a morar aqui, esse projeto vai fazer parte das minhas atividades profissionais regulares. A ideia é fazer tours organizados duas vezes por ano (no inverno e na primavera), mas quem estiver de passagem pela cidade fora dessas datas terá a possibilidade de me contratar por um dia (ou mais) em um tour privê.

Meus tours não são convencionais nem tem apelo turístico. Não acompanho ninguém na visita da Torre Eiffel (mas posso te informar qual metrô pegar pra chegar lá), nem ao Museu do Louvre (não precisa de guia pra admirar obras de arte), mas te levo pra comer a melhor comida (vegana) da capital, ofereço explicações sobre a gastronomia francesa e como está se dando a vegetalização dessa culinária (complexo!), conto o que descobri sobre o movimento vegano francês e te levo pra passear pelos meus lugares preferidos, sempre dando o contexto político e de luta dos lugares.

Outra coisa importante: não trabalho pra uma agência de turismo, então não organizo a parte aérea nem reservo hospedagem pras participantes do tour. É uma viagem independente, cada pessoa se vira pra chegar em Paris e o tour só começa quando nos encontramos no primeiro dia.

Os próximos tours acontecerão em dezembro. Tem um grupo do 3 ao 7/12 e um segundo grupo do 24 ao 28/12. São sei participantes em cada grupo e ainda tem algumas vagas, então se você ficou interessada, peço que envie um email pra tourspapacapim@gmail.com (Não passo informações nos comentários, nem adianta perguntar.)

E se a proposta do tour privê te apeteceu, me escreve (também por email) pra gente discutir essa possibilidade. Não precisa ser vegana pra participar do tour, mas saiba que é um tour vegano, logo, não tem comida de origem animal no programa.

Estou escrevendo essas linhas no interior da França, onde vim visitar meu sogro. Domingo fomos colher cogumelos no bosque da família e demos tanta sorte na busca que nos fartamos de cogumelo durante três dias! Aí começo a sonhar em organizar um tour aqui no interior, no outono, pra colher cogumelos e ter o prazer de degustar essa iguaria fresca, recém saída do bosque… Quem sabe um dia.

Estava na rua resolvendo coisas e voltando pra casa decidi passar pelo mercado de produtos orgânicos que fica no caminho, já que a geladeira estava vazia. Acontece que eu só tinha 15 euros na bolsa, o que aqui não é grande coisa. Comprar comida pra semana, pra duas pessoas, com um orçamento tão limitado seria um exercício interessante de economia doméstica. A verdade é que não tenho trabalho remunerado no momento e preciso mesmo manter as despesas sob controle. Mas a Pollyanna que mora em mim viu aquilo como uma oportunidade pra ser mais criativa na cozinha.

Saí do mercado com 1 jerimum pequeno, 1 repolho branco, 2 alhos-porós, 1 molho de salsinha, 1 lata de feijão branco e 1 pedaço de tempeh (valor da compra: 13 euros). Poderia ter comprado muito mais comida em um supermercado comum, mas comprar vegetais orgânicos é uma prioridade aqui em casa. Como comprar comida produzida localmente e limitar os industrializados também são prioridades nossas, as compras acabam ficando mais baratas. Se kiwi (da Nova Zelândia), manga (do Brasil) e hambúrguer vegetal ultraprocessado fizessem parte das compras, por exemplo, a conta seria muito mais alta.

Isso limita a variedade de verduras e frutas que entra na minha cozinha, certo, mas pra mim não faz sentido morar em Paris e me alimentar com vegetais que atravessaram o mundo de avião pra chegar na minha mesa. Seria difícil comer exclusivamente o que foi produzido na região onde moro, mas tento comprar apenas comida cultivada na França ou, no máximo, nos países vizinhos. Ênfase no verbo “tentar”, já que por aqui não se planta café nem a maioria das especiarias que uso, por exemplo. Porém a França tem uma diversidade grande de climas e produz muitas hortaliças, frutas (principalmente na primavera/verão), mas também arroz, leguminosas, trigo, aveia, soja, sarraceno, cogumelos… Dá pra se virar bem comendo localmente. Mas voltemos às compras.

Se você pensou que não dava pra alimentar duas pessoas por uma semana com apenas os ingredientes citados acima, você pensou certo. Eles se juntaram às comidas que já estavam em casa. Veja. Mesmo quando a gente acha que não tem mais nada na despensa, ainda tem algumas coisas. Se você tem uma cozinha ativa, ou seja, se cozinha regularmente, provavelmente sempre vai ter alguns ítens de base no armário, além de alguns condimentos frescos (cebola, alho) e temperos (especiarias, ervas desidratadas, molho shoyu).

Então eu sabia que ia encontrar na cozinha: lentilha, um pouco de arroz, um pacote de macarrão, feijão macaça (trouxe do Brasil), aveia em flocos, farinha de grão de bico, farinha de mandioca (também trouxe do Brasil), além dos sobreviventes das compras da semana anterior (2 batatas, 1 batata doce e 3 maçãs), um punhado de nozes (também está na época aqui), os condimentos de base (cebola, alho, 1 pedaço de gengibre, 1 limão, especiarias, sal com ervas -uso pra fazer sopa) e uma caixinha de leite de coco orgânico deixado por Camille, a pessoa que morava no apartamento antes de nós.

Leite de coco é algo que uso muito no Brasil, mas raramente entra no meu carrinho de compras aqui, justamente por vir de longe. Então quando tenho acesso a ele uso com parcimônia, em pratos especiais. Aquela pequena caixinha de leite de coco (250ml) se transformou no molho de um curry e deu cremosidade à uma sopa de jerimum. Se você quiser fazer economias na cozinha, sem abrir mão do prazer, use ingredientes especiais (entenda: raros e caros na sua região) pra enriquecer receitas, não como o elemento principal do prato.

Se eu tiver ingredientes secos de base, como cereais (arroz, macarrão, aveia) e leguminosas (lentilha, farinha de grão de bico), além de azeite e temperos, eu consigo preparar um cardápio bem variado com apenas alguns legumes frescos, como foi o caso aqui.

Antes de contar o que cozinhei naquela semana, deixa eu explicar uma coisa sobre produtos processados. Eu falei que ultraprocessados raramente entram aqui em casa, mas derivados da soja aparecem na nossa alimentação com frequência. Estou me referindo a molho shoyu, tofu e tempeh e, mais raramente, iogurte de soja. Os produtos que compro são orgânicos e feitos com soja não-transgênica cultivada na França e transformada aqui mesmo. Quando estou na casa da minha família, em Natal, nunca como tempeh nem iogurte de soja, mas adapto minha alimentação ao que tem disponível nos lugares onde moro. Não encontro feijão francês com facilidade (na verdade só produzem um tipo de fava aqui), então acabo consumindo tofu e tempeh pra variar as leguminosas, senão fica só na lentilha verde e ervilha (as outras leguminosas cultivadas aqui).

Não quer consumir soja? Não acha soja orgânica por aí? Não tem tempeh (meu alimento à base de soja preferido, feito somente com soja fermentada) na sua cidade? Sem problemas. Ninguém precisa comer soja nem tempeh pra ter uma alimentação vegetal nutritiva, completa, variada e barata. Adapte o seu cardápio aos alimentos da sua região (e ao seu paladar).

Concretamente, como foi minha semana de refeições com os ingredientes da lista acima? Pra me ajudar a bolar um cardápio usando tudo (e nada mais, pois a ideia era me virar com o que já tinha aqui, sem fazer novas compras) tem uma coisa que me ajuda muito: escrever a lista de tudo que tenho na cozinha. Quando trabalho como chef particular, faço o contrário: monto o cardápio primeiro, depois faço a lista dos ingredientes necessários pra prepara-lo. Mas ter feito isso durante alguns anos me ensinou a raciocinar nas duas direções. Então primeiro fiz a lista dos ingredientes disponíveis (compras + o que já tinha em casa), depois fui elaborando pratos utilizando os ítens da lista. Além de garantir que usarei tudo, evitando desperdício, isso ajuda naqueles dias que você chega em casa no final do dia, cansada, e não consegue pensar em nada pra cozinhar. Ter a lista de pratos que podem sair da sua geladeira ajuda demais nesses momentos de falta de criatividade.

A primeira coisa que fiz quando cheguei em casa foi cortar o repolho pra fazer repolho fermentado (chucrute). Me sinto melhor comendo alimentos fermentados diariamente e repolho fermentado é a maneira mais barata de incluir probióticos na sua alimentação. Sem falar que ele é rico em vitamina C, o que é muito importante durante o outono/inverno aqui, quando tem poucas frutas disponíveis e quase não como saladas cruas (tem meses que as únicas verduras locais na feira são batata e jerimum). Sobrou um pouco de repolho picado (não coube na jarra onde deixei o chucrute fermentando), então guardei num potinho, na geladeira, pra ser usado mais tarde.

Depois coloquei a lentilha e o feijão macaça de molho (pra serem cozinhados no dia seguinte). Também preparei a mistura pra grãomelete (farinha de grão de bico + água) porque ela tem que ser preparada na véspera, sempre. Faço uma quantidade grande (suficiente pra fazer 4 grãomeletes) e deixo na geladeira. Assim posso preparar um grãomelete sempre que quiser e ter uma refeição nutritiva que levou poucos minutos pra ficar pronta.

Lembra que fiz uma lista com os pratos que poderia preparar com o que tinha na cozinha? Isso também serve de guia pra que eu cozinhe as coisas mais antigas primeiro, como os vegetais que sobraram da semana anterior. Então naquela mesma noite usei as batatas e a batata doce no jantar. No dia seguinte cozinhei a lentilha e o feijão macaça e guardei na geladeira pra ser comido durante a semana.

Outra dica importante: faça porções dobradas. Assim seu almoço ou jantar do dia seguinte estará garantido.

No fim das contas consegui preparar comida suficiente pra 6 dias (6 almoços + 6 jantares), pra duas pessoas, usando somente o que você vê na foto de abertura desse post. Os pratos que preparei foram:

-Curry de batata e batata doce com tempeh + arroz (2 refeições)
-Ensopado de feijão branco com alho poró e salsinha
-Sopa de jerimum com coco e gengibre (2 refeições, mais uma porção)
-Mudjadara (2 refeições)
-Feijão macaça com cebola e farinha
-Salada de lentilha com nozes
-Macarrão com grãomelete picado
-Sopa de aveia (com alho poró)
-Feijão macaça com repolho, maçã e salsinha

Eu moro com Anne, minha esposa, então quando digo “2 refeições” quero dizer que preparei 4 porções. Se você mora sozinha, meu curry de batata doce, por exemplo, teria te alimentado 4 vezes. Não faço mais que 4 porções de um prato porque não quero comer a mesma coisa 3 dias seguidos, mas se algum ingrediente estiver perto de estragar e eu precisar preparar uma quantidade maior de uma vez, congelo o excesso em porções menores. Isso faz a gente economizar ainda mais tempo na cozinha, mas infelizmente atualmente tenho um congelador minúsculo e não posso congelar muita coisa.

Sim, as refeições são muito simples e sou adepta do prato único. Quando estou no Brasil adoro fazer pratos coloridos com feijão, verduras cozidas, salada crua e frutas, mas cozinhar desse jeito exige mais tempo (e ingredientes), então simplifico meu dia-a-dia ao máximo fazendo pratos únicos. Sempre como aveia (geralmente com maçã) no café da manhã durante a semana, e pão nos fins de semana, então não falta cereal na minha alimentação. Pra garantir todos os aminoácidos e ter uma proteína vegetal completa, o importante é comer pelo menos uma leguminosa e um cereal durante o dia, não precisa ser na mesma refeição. E como naquela semana não teve salada crua, compensei comendo meu repolho fermentado em praticamente todas as refeições (vitamina C garantida).

Adoro comer e quero comer bem sempre. Mas como não quero passar horas na cozinha todos os dias, preparando algo elaborado pra cada refeição, sigo uma fórmula que funciona bem (pra mim!). Se eu fizer um prato especial na semana (nesse caso, o curry com tempeh), mais uma sopa que eu adoro, eu consigo comer algo bem simples (feijão macaça com farinha ou lentilha com nozes) nos outros dias e ficar feliz mesmo assim.

Tendo em vista que devo ter gastado, ao todo, uns 25 euros (os 13 das compras + o que já tinha comprado antes), pra alimentar duas pessoas por 6 dias, somente com comida orgânica, acho que meu exercício de economia doméstica foi um sucesso! Quero ver alguém ainda ousar dizer que é muito caro ser vegana.

Mas, mais uma vez, a ideia desse post é mostrar como preparo a comida da semana, gastando pouco dinheiro e passando pouco tempo na cozinha, na esperança que essas informações te ajudem a se alimentar melhor e a cozinhar de maneira mais prática. Você pega o que for útil e ignora o que não te servir.

Posso resumir as informações nesse post assim:

1- Tenha sempre uma base de cereais, leguminosas e condimentos na despensa. Geralmente compro esses ítens uma vez por mês.
2-Escolha frutas e verduras de estação: é mais barato, mais gostoso e mais ecológico.
3-Quando chegar em casa com as compras, anote os ingredientes que tem na cozinha naquele momento e use essa informação pra fazer uma lista de pratos que você pode preparar com eles. Deixe a lista na porta da geladeira.
4-Cozinhe porções dobradas pra garantir pelo menos uma refeição extra no dia seguinte, sem esforço suplementar.
5- De vez em quando faça porções triplicadas e congele uma parte. Naqueles dias que você não tem tempo pra nada, você vai ficar muito grata a si mesma quando encontrar uma refeição prontinha no congelador.
6- Use ingredientes especiais (aqueles que vem de longe e custam caro) como incremento nos seus pratos, não como o elemento principal.
7- Se quiser reduzir consideravelmente seu tempo na cozinha, pense em preparar pratos únicos. Bônus: menos louça pra lavar depois, logo, menos tempo ainda passado na cozinha.

Dá pra cozinhar de maneira inteligente e ter refeições gostosas e equilibradas todos os dias, com pouco esforço e sem gastar muito. Sim, pedir um sanduíche por telefone sempre exigirá menos esforço SEU (entenda que várias pessoas – a cozinheira da lanchonete e o entregador que trouxe sua comida de bicicleta- fizeram o esforço por você e foram explorados no processo). Mas é muito mais caro, e menos saudável (pra você e pros trabalhadores explorados nesse processo), do que cozinhar em casa. Lanchonetes, e a grande maioria dos restaurantes, cozinham pra ganhar dinheiro, não pra te nutrir. E é tão libertador ter autonomia alimentar!