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Continuo em Berlim, mudando de casa em média a cada três dias, me sentindo um macaquinho pulando de galho em galho. Só que de bicicleta e com uma mochila nas costas. Quando eu conseguir achar um apartamento que corresponda aos nossos critérios de busca vou beijar o chão, que nem o papa fazia.

Como minha vida está uma bagunça, está difícil manter o formato dos meus posts (história + receita), pois não ando cozinhando muito em casa. O post de hoje será diferente e picotado, como o momento que estou atravessando.

Descobri, uns meses atrás, o maravilhoso mundo dos podcasts. Sempre chego atrasada nessas coisas envolvendo tecnologia, porque geralmente elas não me interessam, aí nunca faço o esforço de ver como funcionam. Vim descobrir que Siri morava no meu celular, que me acompanha há dois anos, dia desses, graças à minha amiga Camila. Mas quando perguntei: “Siri, você é sionista?” e ela respondeu: “Eu não gosto muito dessas categorias arbitrárias.”, me dei conta que não tinha diálogo entre nós e mandei ela de volta pra sei lá que cyber-apartamento ela mora. Mas aí fiquei curiosa e trouxe ela de volta pra perguntar: “Siri, onde você mora?” e ela respondeu: “Eu moro na esquina da imaginação com a realidade.” Fiquei meio cabreira com a resposta. Perguntei se ela existia e ela respondeu: “Desculpe, Sandra, eu fui aconselhada a não discutir o meu estado existencial.” Caraca! Como ela sabia que era eu? Mandei ela de volta pra hibernação rapidinho porque Siri me dá medo.

Mas eu estava falando de podcasts. Estou encantada com as possibilidades de aprendizado. Lavar a louça e organizar coisas se tornou não somente um prazer imenso, mas também um momento pra me educar. Coloco os fones nos ouvidos, ponho um podcast pra tocar e digo: “Com licença, vou ali me instruir” e meia hora depois a cozinha está um brinco e eu estou mais sabida. Viajar também se tornou uma atividade prazerosa. Me refiro à parte da viagem que corresponde ao deslocamento de um ponto a outro, com todos os ônibus/metrôs, tempo de espera em aeroportos, filas de imigração, todas essa coisas chatíssimas que acontecem antes de você chegar no seu destino e começar a se divertir. Viajar de ônibus e trem? Delícia! Pra uma pessoa que viaja muito, mudou a minha vida. Mês passado fiz uma viagem longa (Paris-São Francisco) e fiquei quase 12 horas no ar a cada trecho e graças aos podcasts que eu tinha baixado antes de embarcar, nem vi o tempo passar e ainda desci do avião muito mais instruída do que a pessoa que eu era quando embarquei.

Pra quem ficou interessada, aqui vai a lista dos podcasts que escuto com mais frequência no momento: Philosophy Bites (o primeiro que descobri, dois anos atrás, quando eu nem sabia que era um podcast, e até hoje é o meu preferido), Which Side (anarquista e vegano), The Guilty Feminist (hilário!), Feminist Current, BBC Radio Food Programme, Intercepted (podcast do site independente de notícias “The Intercept”), London School of Economics: Public lectures (palestras sobre temas variados com grandes nomes da Academia), RSA Events (palestras e debates) e TED Talks (palestras incríveis sobre basicamente tudo). Todos em Inglês. Recentemente uma seguidora do meu IG recomendou dois em Português e fiquei muito, muito feliz: Salvo Melhor Juízo e AntiCast. Quem quiser recomendar seus preferidos nos comentários, fique à vontade.

E falando em recomendações, vou aproveitar a deixa pra recomendar dois filmes que vi no avião, durante a viagem citada acima. O primeiro, “Eu, Daniel Blake”, de Ken Loach, eu queria ver há meses. Foi um dos filmes que mais me tocaram na vida e provavelmente o que mais me fez chorar.  Eu estava chorando tão descontroladamente que decidi ver um filme de animação francês, “Minha vida de abobrinha”, logo depois, imaginando que ia me alegrar. Só que ele também era triste, mas belíssimo, aí chorei horrores de novo. Recomendo demais esses filmes, mas não um depois do outro, muito menos dentro de um avião com uma ruma de gente ao seu redor.

Comprei, enfim, um coletor menstrual. Mais um trem que peguei atrasada e que gostaria de ter pegado antes. Ainda estou no período de adaptação e pedi conselhos às minhas seguidoras no IG. Nunca imaginei que tantas pessoas responderiam. Foi lindo ler as dicas de tantas mulheres, a maioria nem sequer me conhece pessoalmente, sobre um assunto feminino tão íntimo. Me senti conectada com minhas irmãs que sangram e fazendo parte de uma grande sororidade.

Na busca por apartamento aqui em Berlim um amigo enviou um anúncio que um conhecido tinha postado no FB de um quarto livre em uma casa com várias pessoas. Até aí tudo tranquilo, dividir apartamento com muitas pessoas é bem comum em Berlim. Só que o anúncio dizia: “Só tem pessoas brancas morando aqui e gostaríamos de incluir mais diversidade no nosso lar, por isso estamos procurando uma pessoa de cor pra se juntar à nós.” O incômodo que senti ao ler aquelas linhas foi imediato. Fiquei de bobeira com a atitude do pessoal. A minha presença era desejada ali simplesmente pra fazer com que a casa e as pessoas que nela moram se tornassem mais “alternativas/cool” e me senti tokenizada. Pra quem não sabe o que é “tokenizar”, transcrevo aqui a conversa que tive com minha amiga Cibele sobre o anúncio. Cibele é uma das pessoas que mais admiro e explicou bem direitinho o que essa palavra significa, além de traduzir o meu sentimento de desconforto.  “Alguém pode argumentar que eles só agiram de acordo com a lógica das “cotas”. Só que não. “Cotas” são pra garantir a grupos sociais desprivilegiados o acesso à estruturas de poder como a universidade, que foram negadas historicamente a eles. Esse tipo de convite não visa a corrigir nenhuma diferença de privilégios, só visa a garantir a um grupo privilegiado que ele não vai ser acusado por esse privilégio. É só por um interesse deles, não das pessoas “de cor” (que é uma expressão que boa parte do movimento negro rejeita). Isso é tokenização. Privilegiados se protegendo de serem denunciados por esse privilégio sob o álibi de terem sido inclusivos.”

(Nota explicativa que talvez se faça necessária: apesar de ser considerada branca no Brasil e em muitas partes do mundo, na Europa eu sou vista como “latina”, logo “não-branca”. Aproveito pra informar ao povo do Brasil que nós não somos ocidentais. Quando vejo jornalistas se referindo à nós como “ocidentais” na mídia, de novo e de novo, me dá vontade de rir. “Ocidente” é um termo econômico, não geográfico, e significa: Europa, EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Foi uma surpresa pra mim também descobrir que “Ocidente” significa “país de primeiro mundo”, não “país onde os olhos das pessoas são arredondados”, como eu pensava até me mudar pra França, aos 20 anos. Pois é. Apesar de todo mundo aí achar que mora no Ocidente e que eu sou branca, esses são conceitos relativos que não são verdadeiros por aqui.)

E pra terminar, ver a situação no Brasil de tão longe, sem poder me juntar aos protestos, é agoniante. Fora Temer! Diretas já! Tudo isso acontecendo e eu aqui na praça, dando milho aos pombos.

Vou ali escutar mais um podcast enquanto como o resto da maravilhosa fritada de repolho e cogumelo, feita com farinha de grão de bico, que fiz pro almoço. (Receita no próximo post.)

*As fotos que aparecem nesse post foram feitas na ocupa/comunidade-anarquista-no-bosque onde eu morei semana passada. Foi uma experiência e tanto!

Chegue em Berlim há uma semana. Vim tentar morar aqui. Digo “tentar” porque morar é uma ação que exige compromisso e ainda não sei se posso me comprometer com essa cidade. Ou se a cidade vai querer se comprometer comigo. Espero que sim, pois estou cansada de arrastar minha mala mundo afora e ficaria muito feliz em me aquietar um tempo. Cultivar ervas na janela, essas coisas.

Por que Berlim? Porque começa com a letra “b” e até hoje só moramos juntas, Anne e eu, em cidades que começam com “b”: Belém (Palestina), Bruxelas, Beirute. A razão verdadeira da mudança não é muito mais convincente, então fiquemos com essa.

Estou me sentindo uma alma penada, tanto por estar vagando pela cidade sem sentir que pertenço ao lugar (por enquanto!) quanto pelo fato de ter que mudar de casa a cada três dias, pois ainda não encontramos um lugar pra chamar de nosso e estamos contando com a solidariedade e generosidade das amigas que nos oferecem teto provisório.

Volto em breve, com informações mais interessantes e uma receita muito boa.

(Foto do brunch do café da esquina, onde 90% do bufê é vegano. Sim, até os croissants!)

Escrevi no primeiro dia do ano que eu tinha casado e prometi falar mais sobre o assunto, e compartilhar fotos, em um outro post. Cá estou pra cumprir a promessa.

Quando criei esse blog, exatos sete anos atrás, eu queria compartilhar mais que receitas. Queria colocar pedaços da minha vida aqui pra mostrar que pessoas veganas não são muito diferente das outras e que não é nada esotérico ter um estilo de vida sem crueldade. Quase imediatamente senti a mesma responsabilidade com relação à outra comunidade da qual faço parte, a comunidade LGBTQ. Falar abertamente da minha orientação sexual aqui no blog é extremamente importante pra mim, pois nós, LGBTQs, precisamos de visibilidade. Se sentir representada na literatura, cinema, mídia, internet, política e todos os aspectos da vida civil importa e muito. Então gosto de pensar que o blog me dá a oportunidade, além de desmistificar a culinária vegetal, de fazer minha contribuição nesse sentido.

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Anne e eu estamos juntas há mais de oito anos e assinamos os documentos de união estável seis anos atrás, no consulado francês em Jerusalém. Na época casamento era um direito ao qual não tínhamos acesso, então nos pareceu natural chamar a união estável de casamento. Fizemos um brunch pra celebrar a união e viajamos em lua-de-mel pra Irlanda. Os anos se passaram e descobrimos que a união estável não nos dava os mesmos direitos que o casamento, logo não nos protegia da discriminação anti-imigrante institucionalizada (principalmente na Europa), o que é algo muito importante quando cada metade do casal vem de um continente diferente e que vocês estão sempre mudando de país.

Eu nunca fui uma dessas pessoas que sonhava com casamento. Anne se sentia do mesmo jeito. Mas fico irritada com pessoas dizendo que casais homossexuais não deveriam lutar pelo direito de participar de “uma instituição falida”. Ou, pior, quando dizem que queremos imitar casais heterossexuais. Primeiro porque ninguém pode me dizer pelo que lutar. Luto pelo que é importante pra mim e se não é pra você, ao invés de criticar a minha luta, vá procurar a causa que toca o seu coração. Mas principalmente porque é uma questão de direitos iguais. Não acho que todas as pessoas devem se casar, mas isso tem que ser uma escolha pessoal. E pra que seja uma escolha, a lei tem que nos dar essa opção. Pra quem não sabe, isso se tornou possível em 2013, tanto no Brasil quanto na França. Pelo menos por enquanto, pois com a situação política atual nos dois países, principalmente no Brasil pós golpe, nenhum direito está a salvo de ataques.

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Na família de Anne, contrariamente à minha, casamento é algo enorme. As cerimônias são pomposas e seguidas de banquetes. Precisamos convencer a parentada que não queríamos festa e que a cerimônia seria informal. A gente escolheu inclusive não trocar alianças e nosso anelar esquerdo continua pelado. Na França casamento acontece na prefeitura e é celebrado pela prefeita/vice. Não tem madrinhas/padrinhos de casamento, só testemunhas (que estão igualmente presentes na igreja, caso tenha também uma cerimônia religiosa). Claire, a irmã caçula de Anne, foi a testemunha dela. Emilie, uma prima de Anne, foi a minha. Ambas significam muito pra nós. Não fizemos de propósito, mas quando me dei conta que seríamos quatro mulheres (feministas!) participando da cerimônia fiquei muito feliz. Provavelmente foi inconscientemente de propósito…

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Optamos por não fazer festa porque é o que mais combina conosco, mas também porque minha família, que mora no Brasil, não estaria presente e não seria justo. Mas logo nos demos conta que a família francesa queria muito assistir à cerimônia e já que estariam todas e todos ali, convidamos o pessoal pra fazer um brinde conosco na casa do meu sogro. Quando insistiram em nos dar presentes explicamos que não temos casa e não teríamos como transporta-los conosco de país em país nessa nossa vida nômade. Então pedimos que quem quisesse oferecer algo pras recém-casadas, que fosse na forma de dinheiro pra uma lua-de-mel (nossa segunda!). Cobrimos uma caixinha de papelão com papel kraft, escrevemos nossos nomes em cima e foi lá que depositaram nossos presentes. A família foi generosa e acabamos levantando mais dinheiro do que o necessário pra viajar pra onde queremos. E quando a vida nos dá mais do que precisamos, acredito que é uma sugestão pra dividir com quem está mais necessitada. Então decidimos doar uma parte do nosso presente de casamento e esse gesto pequeno nos encheu de felicidade.

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A cerimônia foi muito especial pra nós porque foi o tio de Anne, que é vice prefeito, que nos casou. Bernard, que também é o pai de Emilie, minha testemunha, passou seis meses escrevendo o discurso lindo que ele leu pra nós e foi muito emocionante. O bom de ter uma cerimônia íntima, só com pessoas muito próximas e realizada por um tio é que cada indivíduo presente nos conhecia bem e estava sinceramente feliz por estar ali celebrando o nosso amor. Tinha quatro gerações naquela sala e a pessoa mais velha da família e a mais jovem estavam conosco. E como foi tudo muito simples e em casa, ninguém precisou comprar roupa nova. Pode parecer bobagem, mas eu não teria gostado de saber que fiz as pessoas terem gastos pra ir ao meu casamento.

Usei uma calça que comprei em um bazar de roupa usada em Paris, anos atrás, e uma blusa da minha irmã caçula, pois queria senti-la presente de alguma maneira naquele dia. E usei, pela primeira vez, o sapato da Insecta Shoes (uma marca brasileira de sapatos veganos feitos com material reciclado) que Márcia, uma leitora do blog, me deu de presente ano passado. Um dia recebi um email dela dizendo: “Muitas vezes, tarde da noite leio os seus posts, depois de um dia cheio de desesperança e notícias ruins, e vejo nas suas palavras e nas suas imagens um mundo onde o ser humano, apesar do sofrimento, não está só, que há pessoas iluminadas que se importam com as outras pessoas e então sinto meu coração aquecido porque, apesar de haver o mal, há pessoas, muitas delas, que ajudam de alguma forma com o que podem dar de si mesmas.” Ela disse que queria me agradecer de alguma maneira e me deu os sapatos. Sempre que olhava pra eles pensava em Márcia e em como somos responsáveis uns pelos outros (e incluo aqui todos os seres) nesse planeta. Foi muito especial ter usado sapatos tão carregados de significado positivo naquele dia. Anne colocou um bottom no blazer que dizia: “Racismo e injustiça existem quando pessoas boas não fazem nada” porque ela achou importante se manter ativista mesmo durante o casamento. Ela nunca me deixa esquecer porque escolho ela, dia após dia, pra me acompanhar nessa aventura que se chama vida.

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Escolhemos alguns dos nossos petiscos preferidos pra acompanhar o brinde. Nada muito sofisticado: pastas pra comer com pão ou legumes crus, samossas com tofu, manga e gengibre, nhoque no palito, chips de couve… Todas as receitas criada ou adaptadas por mim. Apesar de sermos as únicas veganas da família, ninguém reclamou da comida ser inteiramente vegetal, muito pelo contrário. Era uma escolha óbvia e a família fez questão de me dizer que estava tudo delicioso. Surpreendi uma tia-avó, que está beirando os 90, exclamando que se a comida fosse sempre gostosa daquele jeito ela podia muito bem ser vegana. Enquanto degustava os petiscos, um tio me contou que depois de ter participado de um jantar que fiz alguns anos atrás ele passou a ver comida vegana como algo que pode se tão gourmet et delicioso quanto comida tradicional. “No quesito sabor e prazer, comida vegana não fica devendo nada”, ele me falou.

Minhas três cunhadas nos ajudaram a preparar a comida e fizemos quase tudo na véspera. No dia do casamento Emilie se juntou à sororidade pra preparar os últimos pratos. Pedi à uma tia e à madrinha de Anne pra trazerem algo doce pra completar o buffet. A mãe de Anne morreu quando ela ainda era adolescente, mas Hélène, irmã da mãe de Anne, e Annie, que era a melhor amiga dela (e casou com um dos seus irmãos), ocupam na minha vida e no meu coração o lugar que minha sogra teria ocupado. Comida é a minha linguagem do amor e essas duas mulheres incríveis compartilham essa linguagem comigo. Por isso era muito importante pra mim ter um pouco do amor delas na mesa.

Fizemos alguns petiscos especialmente pras crianças e um ponche sem alcool pra elas. Também preparamos uma sopa (jerimum com gengibre e leite de coco) imaginando que as pessoas que ficariam até mais tarde acabariam sentindo fome novamente. Foi sugestão das minhas cunhadas e preciso dizer que foi uma ideia brilhante. Ter uma sopa pronta, esperando pra ser esquentada e servida, foi um presente pra lá de reconfortante no final de um dia tão intenso. E sopa é minha comida preferida, então foi uma maneira perfeita de encerrar as comemorações.

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Optamos por não fazer aquelas fotos tradicionais de casamento, pois acho entediante ficar posando pra foto e não tem nada a ver com o nosso estilo. Pedimos pra família fazer algumas fotos, com suas câmeras ou telefones, e no final recolhemos tudo. Claro que muitas fotos ficaram fora de foco ou com enquadramento ruim. Outras ficaram hilárias. Mas eu adorei, pois elas traduzem perfeitamente aquele dia: espontâneo, relaxado, informal… Uma bagunça feliz e transbordante de amor.

Emilie, as irmãs e o irmão de Anne, mais a esposa dele, se juntaram pra nos oferecer um presente fantástico: uma diária em um hotel 5 estrelas, com spa e direito a um jantar vegano criado pelo chef do restaurante do hotel, especialmente pra nós. No dia seguinte ao casamento tomamos café com a família e pegamos a estrada pra Vichy, a cidade onde ficava o hotel. Além da massagem, sauna, piscina de água mineral e do jantar sublime, foi maravilhoso ter esse tempo só pra nós duas, depois de ter tido tanta gente ao nosso redor o tempo todo por vários dias.

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Sei que meu relato é o de uma pessoa homossexual que tem muita sorte. Nossas famílias nos aceitam plenamente. Hélène, que já passou dos sessenta, nos confessou alguns dias depois do casamento que fazia questão de contar pra todo mundo que a sobrinha tinha casado com um mulher e acrescentou: “Eu tenho muito orgulho de vocês!” As outras tias e tios tiveram uma reação parecida. Uma tia-avó de mais de oitenta anos me puxou pelo braço na prefeitura e disse: “Minha filha, quem você ama só diz respeito a você mesma e ninguém tem o direito de opinar sobre isso.” Um primo veio me contar o favor que eu estava fazendo em entrar pra família porque até então só tinha casais héteros e estava mais que na hora de incluir um pouco de diversidade naquele grupo. Os filhos desse primo (4 e 2 anos) estavam felizes por demais de ir ao casamento e ele explicou que era o primeiro casamento deles e que há meses eles conversavam, cheios de animação, sobre o assunto. A avó de Anne assistiu à cerimônia na prefeitura e participou do brinde. Ela tem a saúde frágil por conta dos quase cem anos que viveu, mas as filhas fizeram questão de ir busca-la no asilo-hospital onde ela mora. Ela nos beijou tantas vezes, sorriu muito e apertou minha mão tão forte que não consegui controlar as lágrimas. Foi o único momento em que chorei naquele dia. Até o prefeito nos felicitou quando demos entrada no pedido de casamento, dizendo que sempre defendeu o direito ao casamento pra todas as pessoas e que a mudança na lei deveria ter acontecido há muito mais tempo. Ele também nos disse que tinha orgulho de ver acontecer um casamento entre mulheres na prefeitura dele (o primeiro casamento do tipo ali).

Mas isso não deveria ser “sorte”, deveria ser a experiência de todas as pessoas celebrando esse tipo de união. Ser aceita pela família, pela sociedade e ter seu casamento validado e festejado é um direito de todas.

A única coisa da qual me arrependi foi de não ter feito algumas fotos com a minha câmera, pra lembrar dos pequenos detalhes. Como os origamis que minha cunhada Claire fez (cisnes, estrelas, pinheiros) pra decorar a mesa. E os buquês que Céline, minha outra cunhada, fez com as folhas e galhos colhidos ao redor da casa. Mas claro que os detalhes importantes ficaram gravados na minha memória. São coisinhas miúdas, mas sempre que penso nelas abro um sorriso. Como quando Emilie me contou que tinha colocado o seu vestido preferido especialmente pra nós e eu tive certeza que não poderia ter escolhido uma testemunha melhor (ela chorou de emoção no dia que perguntei se ela aceitava ser minha testemunha). Quando me contaram que o tio de Anne que nos leva pra colher cogumelos no bosque, famoso por ser a pessoa mais casmurra da família, tinha sido visto chorando durante a cerimônia (como fui perder isso?). Poucos minutos antes ele tinha me dito, dentro de um abraço: “Você é uma das minhas sobrinhas preferidas.” O fato que as duas irmãs de Anne tenham decidido usar um kefieh (lenço tradicional palestino) pra nos acompanhar. Decidimos usar kefiehs naquele dia pra homenagear a Palestina, país onde nos conhecemos. O abraço a quatro, nós duas e nossas testemunhas, logo antes da cerimônia, embaixo do carvalho do jardim, a árvore preferida de Anne. A maneira como o dia terminou, com a família jogando baralho na mesa da sala de jantar, de peruca e com outros acessórios carnavalescos, fazendo piadas e tomando sopa. Eu olhei mais uma vez aquelas pessoas que nunca me ofereceram outra coisa além de amor e aceitação e senti uma imensa gratidão. Por estar onde estou hoje. Por ter casado com uma pessoa que eu admiro tanto. Por ter tanto amor na minha vida. E desejei o mesmo pra todas as outras pessoas.

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Então demos mais esse passo juntas e o nosso casal continua não-convencional. Quero aproveitar o ensejo pra falar de outra coisa importante na minha vida. Eu já mencionei isso, casualmente, em alguns posts, mas não sei se ficou claro pra todas então pensei que um coming out se fazia necessário. Eu sou poli (de “poliamorosa”), o que significa que não sou adepta da monogamia. E já que estou passando na sua tela pra destruir os valores da família tradicional cristã (cof, cof) com fotos do meu casamento lésbico, aproveito pra informar que tenho uma namorada e que ela tem um lugar muito importante na minha vida.

Já tive relações monogâmicas, já tive relações abertas e alguns anos atrás chegamos à conclusão, Anne e eu, que o poliamor era o modelo de relação que mais nos correspondia. Fazia tempo que queria falar sobre isso aqui, pois já estabelecemos que gosto de desmistificar conceitos nesse blog. Esse post me pareceu a oportunidade perfeita porque o assunto dele é amor. E depois de ter visto o frisson causado por Jout Jout quando ela contou que tinha uma relação aberta com o ex namorado, seguido de comentários infelizes e desrespeitosos, percebi o quanto é necessário que mais pessoas poli se assumam publicamente pra ver se a turma monogâmica pára de dar chilique quando vê alguém adotando um modelo diferente.

Percebi que quando explico que sou poli as pessoas têm uma reação idêntica à quando digo que sou vegana. “Você é vegana? Nunca poderia ser vegana (adoro carne/queijo/ovo etc).” “Você é poli? Nunca poderia ter um relacionamento aberto (teria ciúme etc)!” Então deixa eu esclarecer isso de uma vez por todas. Quando eu faço uma escolha de vida é porque eu pensei com meus botões, matutei, estudei todas as opções disponíveis e cheguei à conclusão que era o melhor pra mim. Pra mim! Euzita! Moi! Vamos parar de supor imediatamente que a coleguinha quer que você mude e vamos aceitar que ela está simplesmente compartilhando as escolhas dela. Porque modelo de relacionamento é uma questão de escolha pessoal e cada qual escolhe o que é melhor pra si.

Vamos celebrar o amor, em todas as suas variações, a família, em todas as suas composições e os relacionamentos que nos fazem felizes, lembrando que não existe um só modelo possível. E aceitar que a coleguinha na sua frente decidiu não forçar o coração a caber no modelo pré-estabelecido usado pela maioria e procurou o modelo personalizado que melhor acolhe o coração dela. Sem ficar na defensiva, sem julga-la e sem precisar explicar que isso não daria certo pra você. Porque ela não acha o seu modelo monogâmico errado, de maneira nenhuma, nem espera que você adote o poliamor só porque ela escreveu esse post. (Mas confesso que espero do fundo do coração que você seja vegana um dia.)

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(As taças de champanhe com nossos nomes gravados foi presente de casamento da prefeitura!)