Em julho eu contei que tinha voltado a entrevistar pessoas veganas, algo que comecei muitos anos atrás, aqui no blog. Mas dessa vez faço apenas três perguntas e entrevisto somente pessoas que não são brasileiras, pois o objetivo é mostrar que o veganismo lá fora segue forte como movimento político, apesar do veganismo liberal de ONGs e influenciadoras tentar nos convencer do contrário.

A entrevistada de hoje é Ahlam, uma palestina incrível que está construindo o movimento antiespecista e feminista na Palestina, enquanto segue resistindo a colonização de seus territórios e lutando pela autodeterminação do seu povo. Sim, é possível ser vegana e se importar com mais de uma causa! Não só possível, como coerente com a luta antiespecista.

O que é veganismo?

O veganismo é dizer NÃO à opressão em sua forma menos notada: especismo. Quando penso em veganismo, penso em justiça. Justiça pra todas as almas esmagadas, privadas de qualquer meio de se defender, exceto através da nossa voz.

Por que você se tornou vegana?

Sempre me peguei pensando no que fazemos aos animais enquanto eu refletia, falava ou escrevia sobre outras causas, principalmente o feminismo. A comparação era tão evidente e chocante. Nós discriminamos uns aos outros com base no gênero, religião, cor, status social, etc. e discriminamos animais com base no fato deles não serem humanos. Como uma mulher que vive sob ocupação militar (israelense) e em uma sociedade patriarcal, as camadas de opressão e discriminação que sofri abriram meu coração, de muitas maneiras, pra ver a opressão que outros animais humanos e não humanos sofrem na Palestina e no mundo em geral.

Anos antes de me tornar vegana, escrevi um artigo expressando minha raiva pelo linchamento de um jovem, membro de uma minoria religiosa no Egito, por uma multidão de extremistas. Concluí que linchamentos, um castigo cruel e uma maneira de intimidar um grupo, só iriam parar quando nós parássemos de lidar com a matança de pessoas como uma parte normal da vida, algo inevitável em guerras e conflitos. Foi então que me dei conta que a matança de pessoas não terá fim enquanto a matança de animais continuar. Porque quando você mata um animal, você normaliza o ato de matar.

Hoje eu lembro de muitos momentos veganos que experimentei ao longo dos anos, como quando fui forçada a dar uma mordida na carne de Misho, o cordeiro que criamos desde o nascimento. Eu não consegui engolir. Isso foi há oito anos e foi a última vez que coloquei carne de cordeiro na boca. Outro momento vegano, três anos atrás, foi quando estava preparando ovos caipiras e encontrei sangue dentro de um deles. Tinha um pinto começando a se formar ali. Eu não podia mais ignorar aquilo e me tornei vegana logo depois.

Como derrubar o especismo?

Com educação. Nosso sistema educacional é especista, da mesma forma que é sexista e classista. As aulas de ciências são terrivelmente especistas. Afirmam, por exemplo, que animais fazerem parte da cadeia alimentar, que humanos devem comer não-humanos. E reforçam o mito de que se não comermos animais, eles vão superpovoar a Terra, comer todas as plantas e nós morreremos de fome. Sem falar nas aulas de religião onde o mito de que “os animais foram criados pro nosso uso” é repetido de várias maneiras.

Transformar o sistema educacional é o objetivo. Envolver crianças e jovens em atividades intersetoriais é o caminho a ser seguido.

A história de hoje é sobre:
-racismo
-veganismo
-leis que dizem proteger animais, mas que na verdade buscam marginalizar ainda mais minorias sociais
-como um país idolatrado pela comunidade vegana por ser o lar da maior comunidade veg no mundo está abandonando o vegetarianismo
-como nesse mesmo país, que tem reputação de ser um templo de não-violência, uma parte da população está linchando uma minoria social em nome da “proteção das vacas”
-e o que isso tem a ver com todo o resto.

(Resposta: é uma grande lição pra nós, no movimento vegano brasileiro, sobre estratégias de luta antiespecista que funcionam e estratégias que são um desastre anunciado.)

Muitas luas atrás escutei um podcast (The Vegan Vangard) com Rama Ganesan, uma ativista vegana indiana, falando sobre as consequências da lei de 2015 que proíbe o abate e o consumo de carne de vaca na Índia. Essa lei veio como uma emenda de uma lei dos anos 70 que proibia o abate de vacas e bezerros (não o consumo) pelo Estado, mas que cada estado (com “e” minúsculo) era livre pra adotar ou não. A emenda proposta pelo governo, liderado pelo partido nacionalista hindu BJP (Bharatiya Janata Party), defendia uma proibição a nível nacional, tanto do abate como do consumo e possessão de carne de vaca. Quem desrespeitasse a lei podia ser presa (até 5 anos de prisão) ou pagaria uma multa de US$ 150, ou os dois.

Parece uma medida de proteção animal incrível? Esses indianos do BJP merecem aplausos por defenderem com tanto afinco a vida das vacas em seu país? Antes de pular pra essas conclusões, siga lendo que tem muito caroço nesse angu.

Como indiana e hindu, Rama Ganesan explicou que a lei não tinha nada a ver com a defesa da vaca, que é sagrada na Índia. O que descobri ouvindo aquele podcast me deixou de queixo caído e desde então penso em escrever sobre o assunto. Aí umas semanas atrás duas coisas aconteceram. Recebi a revista “The funambulist” (uma das minhas preferidas) desse bimestre e vi que Rama tinha escrito um artigo sobre o mesmo tema, com algumas informações adicionais. E, logo depois, a cozinheira, palhaça e maravilhosa Thallita Flor sofreu ataques racistas por parte da comunidade vegana por se opor ao projeto de lei que visa criminalizar abate de animais em rituais de religiões de matriz africana.

Eu já falei sobre o assunto no Instagram, mas se você não me segue lá, deixa eu colar o texto aqui:

Como anti-especista luto pra que ninguém mais se ache no direito de matar animais, independente do motivo. Mas enquanto existir abatedouros, enquanto continuar sendo socialmente aceitável comprar animais mortos no supermercado e comer animais assados no almoço, a criminalização do ato de matar e comer animais somente pelo povo de santo não terá o meu apoio. Essa seletividade visa unicamente punir praticantes de religiões de matriz africana, em sua maioria negras, não diminuir o sofrimento animal.

Que fique bem claro que não estou defendendo o abate religioso. Estou dizendo que essa fantasia de proteção animal não passa da continuação da longa história de racismo e perseguição ao povo negro no Brasil e a tudo que lhe é associado.

Não se iluda. Você não estará “salvando a vida de muitos animais” ao defender esse tipo de lei. Estará apenas ajudando a reforçar a intolerância religiosa e o racismo. O povo de santo provavelmente continuará fazendo seus rituais, o que vai mudar é que ele será criminalizado por fazer exatamente a mesma coisa que a grande maioria da população brasileira faz em toda tranquilidade: matar (ou pagar pra matar) e comer animais.
Não caia no conto do “Primeiro focamos na proibição desse tipo de abate, depois proibiremos todos os outros.” Não, isso não vai de maneira alguma facilitar uma futura proibição do abate kosher e halal (extremamente lucrativos), não vai impedir a pecuária de continuar abatendo bilhões de animais, pois tem muito interesse econômico aí.

E antes de dizer que estou “colocando os humanos na frente dos animais” já vou avisando que a libertação animal não será conquistada em cima da opressão de outros grupos. Não estou colocando um grupo na frente do outro, estou sendo coerente, pois o meu compromisso é com a luta anti-opressão, toda e qualquer opressão. ⠀

Hoje gostaria de propor uma reflexão mais profunda, construída com a ajuda do exemplo indiano.

O que está por trás da lei indiana que proíbe o abate de vacas, o consumo e a possessão de carne de vaca? Primeiro é preciso entender o contexto e pra explicar isso vou usar aqui o que aprendi com Rama Ganesan, além das pesquisas que fiz pra escrever esse texto e da minha (curta) experiência na Índia. Vou simplificar muita coisa, mas é importante conhecer alguns elementos de base pra compreender a questão.

80% da Índia é Hindu, mas muita gente ignora que os 20% restantes representam uma imensa diversidade de religiões: Jainismo, Sikhismo, Budismo, Cristianismo, Zorastrismo e Islã. Essa última é a segunda religião mais popular na Índia, abraçada por mais de 14% da população.

A vaca é sagrada na religião Hinduísta (explicações necessárias sobre isso mais na frente) e desde que passou a liderar o governo, o BJP vem impondo uma agenda nacionalista Hinduísta, afirmando que essa é a religião nacional (a Índia é um Estado laico). A proibição de consumo de carne de vaca vai de encontro às crenças religiosas da população Hindu (informações sobre isso também aparecerão nesse texto), mas vai contra as práticas alimentares da maioria das outras religiões, além de destruir a fonte de rende de pessoas muçulmanas, que tradicionalmente comercializam carne de vaca (possuem açougues, abatedouros) e que formam o segundo maior grupo religioso do país. Mas não é tudo.

Outro grupo, esse ainda mais marginalizado do que a população muçulmana no país, também se alimenta de carne de vaca: Dalits (pejorativamente conhecidos como “intocáveis”). Aqui se faz necessária uma aula rápida sobre castas (bem simplificada, só pra todo mundo poder acompanhar a reflexão proposta nesse texto).

Os Vedas, textos sagrados que serviram de base pro Hinduísmo, descrevem um sistema de divisão hierárquica da sociedade em quatro classes, as castas. No topo da hierarquia estão os Brâmanes (sacerdotes/letrados), em seguida vem os Xátrias (guerreiros), depois os Vaixás (comerciantes) e, por último, os Sudras (camponeses). Ficou uma galera grande de fora, os “sem casta”, também conhecidos como “intocáveis”, porque as outras castas não deveriam nem tocar nesse pessoal. Essas pessoas, que preferem (obviamente) serem chamadas de Dalits, vivem à margem da sociedade (Dalits se organizam e lutam contra sua opressão há tempos) e fazem os trabalhos mais insalubres, que são vistos como “impuros”: limpar esgotos, trabalhar em curtumes, limpar as ruas… Outra comunidade que ficou de fora do sistema de castas são os Adivasis, o povo da floresta.

E o que isso tudo tem a ver com a lei que proíbe abate e consumo de carne de vaca? Dalits, assim como muçulmanas, comem carne da vaca. Enquanto as castas superiores tem acesso a outros alimentos, como laticínios, Dalits foram historicamente marginalizados e são forçados a comer o que está disponível, sem poder escolher, e muitas vezes isso significa comer carne ou miúdos de vaca.

Aí entra a lei defendida pelo BJP. Além de privar pessoas muçulmanas de sua fonte de renda (como expliquei, muitas delas comercializam carne, não só de vaca), ela marginaliza ainda mais essas duas comunidades já extremamente marginalizadas na Índia: muçulmanas e Dalits. E quem ganha com isso? Os animais?

Reza a lenda que Hindus são vegetarianos (lacto-vegetarianos) e, como 80 % da população indiana é Hindu, também reza a lenda que a Índia é uma nação vegetariana. Vi a informação de que mais de 50% da população é vegetariana diversas vezes e eu mesma repeti isso em conversas e palestras. Então qual não foi minha surpresa quando descobri que mais de 70% da população indiana come animais!

Um estudo de 2014 feito pelo Office of Registrar General & Census Commissioner, uma espécie de IBGE local, mostrou que 71% das pessoas na Índia não são vegetarianas. E esse número pode ser bem mais alto, já que comer animais ainda é visto como socialmente inaceitável (pra Hindus) e muita gente come animais no privado, mas se diz vegetariana no público.

As razões pro abandono do vegetarianismo na Índia são diversas, como mostra esse artigo de 2018 (“O caso de amor secreto da Índia vegetariana com frango”):

“Além das variações culturais e de religião, vários fatores-chave influenciaram a mudança na direção do consumo de carne na Índia. Como aumento da urbanização, aumento da renda disponível, globalização e influencias de outras culturas. Várias pessoas nas grandes zonas urbanas estão abraçando o consumismo como sinal de ascenção social e a carne é amplamente considerada como um símbolo de status.”

Sim, eu também fiquei decepcionada. Jurava que tinha muito mais vegetarianas na Índia. Mas vale lembrar que mesmo assim a Índia segue sendo um dos países que menos consome animais no mundo. Apesar de 71% das pessoas lá comerem animais, a quantidade é bem pequena comparada com o que vemos no Brasil, por exemplo. Em 2019 a média de consumo de carne (frango e vaca) por pessoa na Índia foi menos de 3kg. Já no Brasil, no mesmo ano, se comeu quase 80kg de carne (todos os tipos) por pessoa.

Descobrir que a Índia não era a nação vegetariana que eu imaginava foi uma surpresa. Mas o choque mesmo estava por vir. Pois não é que além de ser o maior produtor de laticínios do mundo, o país também é um dos maiores exportadores de carne de gado do mundo? Em 2015 a Índia passava inclusive na frente do Brasil como maior exportadora de carne de gado do mundo. Mas a vaca não era sagrada???

Rama Ganesan, explica:

“Mesmo para os hindus, comer ou não comer carne animal tem mais a ver com pureza e poluição (do corpo) do que com alguma preocupação com a vida animal e em grande parte se correlaciona com uma estrutura de classe social conhecida como castas. Especificamente, são os brâmanes e outras castas superiores que devem se abster de carne para preservar sua pureza e superioridade moral sobre as outras castas e grupos sem casta, incluindo os Dalits. Portanto, a ideia de que a Índia está particularmente preocupada com o bem-estar animal é uma fabricação, uma narrativa criada e vendida pelo grupo dominante para estrangeiros.

Em vez de qualquer preocupação com animais, vacas ou outros, a proibição da carne bovina faz parte do projeto nacionalista “Hindutva” para reforçar a identidade do Estado como uma nação hindu. A função do Hindutva é estabelecer a hegemonia dos hindus e do modo de vida hindu sobre as ideologias concorrentes, especificamente o Islã.

O atual governo na Índia, liderado pelo Partido Bharatya Janata, determinou que o abate de vacas é ilegal na maior parte do país porque, aparentemente, a religião hindu considera a vaca um animal sagrado. Olhando rapidamente, isso parece estar associado a uma posição de defesa dos direitos animais, mas não precisamos ir muito longe para encontrar evidências de que o animal não é o que motiva essas políticas. A Índia é o maior produtor de leite – uma indústria cruel que insemina vacas à força, separa os bezerros recém-nascidos de suas mães e mata os dois quando é conveniente. Mas como as castas privilegiadas são consumidoras ávidas de laticínios, esta forma de exploração e crueldade é ignorada. Além disso, a Índia continua sendo um dos principais países exportadores de carne bovina e couro (…) A proibição visa Dalits, muçulmanas e outras pessoas marginalizadas que costumam comer ou comercializar carne bovina. Nenhuma fonte alternativa de renda ou nutrição foi fornecida para os milhões que dependem da indústria do abate. A proibição trouxe à tona a animosidade de longa data (entre hindus e muçulmanos) e as pessoas decidiram fazer justiça com as próprias mãos. Os “vigias das vacas” e o linchamento daqueles que comem carne bovina aumentaram e os perpetradores muitas vezes não são punidos.”

E é aqui que a história, que já era triste, se torna assustadora. Além de perder sua fonte de renda e nutrição, pessoas marginalizadas, principalmente muçulmanas, foram linchadas por “comerem carne de vaca”. Entre 2015 e 2019 grupos de “vigilância de vacas” mataram pelo menos 44 pessoas.

“Um dia de junho, no final do Ramadã, dois jovens irmãos muçulmanos, em visita a Delhi para comprar roupas novas para Eid, embarcaram em um trem para voltar para casa, a três horas de distância. No trem, eles se envolveram em uma desavença sobre o assento com outros passageiros, que se transformou em uma discussão sobre a religião deles. Os outros passageiros zombaram dos meninos, chamando-os de “comedores de carne de vaca” e puxaram suas barbas, disse um dos irmãos mais tarde. Ate que as facas apareceram. No momento em que o trem passou pelo vilarejo dos meninos, o ataque estava em andamento. Junaid Khan, de quinze anos, foi atirado para fora do vagão uma estação depois da parada onde ele e o irmão deveriam descer; ele havia sido esfaqueado várias vezes e mais tarde foi declarado morto no Hospital Civil em Palwal.” Fonte

Além das mortes, segundo um relatório divulgado pela Human Rights Watch (HRW) pelo menos 280 pessoas ficaram feridas em mais de 100 ataques em 20 estados indianos entre maio de 2015 e dezembro de 2018:

“Os crimes visam principalmente as minorias e ficam impunes devido ao apoio da aplicação da lei (que proíbe o abate e consumo de carne de vaca) e do partido governante (BJP), que estimula campanhas violentas de “vigilância” contra o consumo de carne bovina e pessoas envolvidas no comércio de gado. As vítimas também são das comunidades Dalit (anteriormente conhecidas como “intocáveis”) e Adivasi (indígenas) da Índia.”

O ativista de direitos humanos Harsh Mander disse ao The Guardian que muitas das mortes foram filmadas e compartilhadas. “Este aspecto ‘performativo’ da violência lembra, para mim, os linchamentos de afro-americanos nos Estados Unidos como forma de mostrar o status ao qual uma comunidade foi reduzida.”

As tensões e violências contra comunidades marginalizadas na Índia não nasceram com a lei que proíbe o abate e o consumo de carne de vaca, elas são bem mais antigas. Mas o que eu quis mostrar aqui é como um grupo dominante pode usar uma lei, que aparentemente parece querer proteger animais, pra reforçar a opressão de grupos sociais marginalizados e avançar seu projeto hegemônico, incitando (direta ou indiretamente) violência contra pessoas que têm práticas culturais e religiosas diferentes das práticas do grupo dominante. Enquanto isso a opressão de animais não-humanos por grupos dominantes segue a todo vapor e só é considerado “inaceitável” aquilo que é praticado por grupos sociais marginalizados.

Deu pra perceber onde estou querendo chegar, né?

Na Índia, uma lei que proíbe o abate e consumo de vacas, algo que só é praticado por minorias sociais, ou seja muçulmanas, dalits (“intocáveis”) e advasis (indígenas) é islamofóbica e racista. É muita hipocrisia ser o maior produtor de laticínios e um dos maiores exportadores de carne de gado e de couro do mundo, mas punir quem comercializa ou consome carne de vaca pra sobreviver.

É a mesma hipocrisia e oportunismo que aparecem sempre que falam em fazer uma lei pra “proibir o abate ritual em religiões de matriz africana no Brasil”. Nosso país é hoje o maior exportador de carne do mundo e um dos maiores produtores de laticínios. Se a motivação por trás desse tipo de lei fosse proteger a vida de animais não-humanos, o alvo seria a pecuária, o agronegócio, os abatedouros gigantescos da JBS, não os terreiros.

Não estou afirmando que se tivéssemos uma lei dessas o Brasil ia ver o mesmo fenômeno que está acontecendo na Índia e pessoas negras que praticam uma religião de matriz africana seriam linchadas. Mas não é impossível. Dá pra imaginar muito bem a formação de grupos de “vigilância anti-sacrifício”, que se reuniriam na frente de terreiros e gritariam violências pra quem estivesse tentando praticar seus rituais lá dentro. Ou coisa pior. Enquanto isso a indústria da carne seguiria tranquilamente, quebrando recordes de número de animais abatidos, trimestre após trimestre.

Thallita Flor foi atacada porque as pessoas confundem “se opor à uma lei porque ela é racista”, além de ineficaz quando se trata de diminuir o número de animais mortos, com “apoiar o sacrifício de animais” porque, como várias pessoas me disseram nos comentários do meu post sobre o assunto, “é praticado por um grupo oprimido”.

Se você me leu até aqui, espero que seja capaz de completar o raciocínio sozinha, mas se ainda assim não deu pra entender, lá vai. Não é sobre “defender sacrifício animal porque vem de um grupo historicamente oprimido”. Precisamos sair desse veganismo que não enxerga pra além de um palmo diante do nariz, dar um passo pra trás e analisar o contexto TODO. Se trata de reconhecer que essa lei causaria mais discriminação, mais violência contra um grupo oprimido, enquanto falharia totalmente em “proteger” e “salvar vidas” animais. Temos um exemplo muito concreto que confirma isso: a Índia.

Então deixa eu terminar com mais uma fala de Rama Ganesan:

“É importante que o veganismo não seja misturado com as proibições de consumo de carne propostas pela direita, (…) nem com práticas discriminatórias que colocam os animais acima dos humanos. Não é assim que alcançaremos a libertação total. Como movimento anti-opressão, o veganismo precisa refletir seu objetivo em suas táticas. É contraproducente recorrer a métodos coercitivos para alcançar libertação animal às custas da libertação humana. Em segundo lugar, esses métodos não funcionam, eles apenas provocam reações negativas por parte daqueles que são discriminados e dos seus aliados. Por fim, como vimos, a proibição de abate e consumo de carne bovina nem sequer protege as vacas de serem abatidas ou exploradas.”

Por causa da lei que proíbe o consumo de carne de vaca, várias pessoas Dalits que não tinham o hábito de comer carne disseram ter passado a comer carne de vaca, em reação à essa lei discriminatória. Olha onde as coisas podem parar.

Mas deixa eu terminar com algo positivo, ainda parte do artigo “Veganismo deve ser anticastas”, que Rama Ganesan escreveu na revista “The funambulist”:

“Uma tensão desconfortável entre minha luta antiespecista e minha solidariedade com o movimento anticastas permanece. (…) Dias atrás ouvi esta estatística do professor universitário Dr. Balmurli Natrajan: atualmente, um terço dos Brâmanes são comedores de carne e um terço dos Dalits são vegetarianos. (..) Isso me dá esperança de que possamos separar o casteísmo (discriminação baseada na casta) do vegetarianismo, para mostrar que se importar com humanos e com animais não humanos são coisas que podem andar juntas, o que é muito natural.”

Links de alguns artigos que me ajudaram a escrever esse texto:

https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/07/india-modi-beef-lynching-muslim-partition/533739/
https://theconversation.com/is-lynching-the-new-normal-in-india-80415
https://www.abc.net.au/news/2019-02-20/india-cow-protection-groups-have-killed-over-44-people-report/10830902
https://www.hrw.org/report/2019/02/18/violent-cow-protection-india/vigilante-groups-attack-minorities#
https://data.oecd.org/agroutput/meat-consumption.htm
https://qz.com/india/1387151/vegetarian-indias-secret-love-affair-with-chicken/

Pensei em fazer um breve apurado da minha vida no momento, como eu costumava fazer quando esse blog era uma mistura de caderno de receitas e diário de bordo. Era gostoso conversar por aqui, mas acabei afastando o conteúdo pessoal desse espaço porque, aos poucos, minhas leitoras e leitores forma migrando pro Instagram, outras chegaram por lá e nunca vieram pro blog. E, apesar de reclamar regularmente sobre isso, acabei seguindo o movimento e aparecendo mais por lá do que por aqui. Grande erro. Então vim anunciar a volta daquela que não foi.

Mês passado fez um ano que me mudei Paris. Na verdade, pra periferia norte de Paris, colada à capital, mas que pertence a um universo totalmente diferente. Minha cidade é a segunda mais pobre da França, mas se eu atravessar algumas ruas, chego na cidade mais rica do país (Paris). O contraste nunca deixa de me impressionar.

Esse ano entrei prum coletivo local, as Brigadas de Solidariedade Popular. Nos formamos no início da pandemia, pra responder à urgência da situação, que deixou muitas famílias da nossa periferia na rua, sem ter o que comer. Mas desde o início combinamos que nosso trabalho iria além da crise sanitária-alimentar e continuamos organizando ações dos mais variados tipos aqui: acompanhamento de refugiados menores de idade, apoio material ao abrigo de mulheres do bairro (todas estrangeiras, a maioria indocumentada), feiras gratuitas regulares pras famílias mais vulneráveis (comida que coletamos no mercado, doada por feirantes), distribuição de kits de higiene pras pessoas refugiadas que dormem na rua (e acampam na margem do canal do lado da minha casa)…Além da participação em outras lutas que estão acontecendo no nosso território, pois a ideia é construir a solidariedade na base. Tem a luta dos trabalhadores migrantes indocumentados, que ocupam uma fábrica abandonada aqui perto, a luta pra salvar os jardins operários, uma horta comunitária criada em 1935, atualmente ameaçada de destruição pelo projeto de piscina olímpica (as Olimpíadas de 2024 serão em Paris e, como sempre, está sendo uma desculpa pra gentrificar a periferia e expulsar os “indesejáveis” do caminho), coletivos de habitantes se organizando pra ocupar as terras que estão nas mãos da especulação imobiliária e plantar comida pra população, aumentando a segurança alimentar da periferia… Com tudo isso acontecendo, a militância está ocupando a maior parte do meu tempo, mas quando me mudei pra cá eu tinha colocado como prioridade me envolver nas lutas locais, então estou muito feliz de poder me juntar a tanta gente bacana resistindo e construindo alternativas.

Enquanto isso um toque de recolher (das 21h as 6h) foi decretado na região (Paris e cidades vizinhas), porque os casos de covid-19 voltaram a aumentar de maneira vertiginosa. E enquanto a segunda onda da pandemia chega aqui, já tem rumores que vai ter lockdown novamente, à partir da semana que vem. O inverno será longo.

Me resta o refúgio da cozinha. Apesar de ter uma cozinha micro, sem janela e sem fogo (tenho placas de indução ao invés de um fogão a gás e não tenho forno), é pra onde corro quando a realidade ao meu redor se torna dolorida demais. Sei que pra muita gente a cozinha é o último lugar pra onde se vai em momentos difíceis, mas pra mim sempre foi meu lugar preferido. Nigella Lawson disse uma vez que gostaria que a cozinha não fosse um lugar de onde escapamos, mas sim um lugar pra onde escapamos e eu não poderia concordar mais com ela.

E nesses momentos de cozinhar pra acalentar a alma, tenho feito esse prato que consegue a proeza de juntar os sabores do meu Nordeste e da Palestina, ao mesmo tempo em que usa os legumes da estação (é outono aqui). É um prato extremamente simples, o que me convêm perfeitamente quando procuro a cozinha pra relaxar. Claro que o sabor e nutrição que ele oferece complementam o meu bem-estar geral e é como um grande abraço de dentro pra fora. Essa é minha ideia de comida afetiva, que alimenta e reconforta.

Acho que 2020 está precisando de mais pratos assim.

Legumes de outono com molho de tahina

Esses legumes aparecem no outono aqui, mas estão disponíveis quase o ano inteiro no Nordeste, então sinta-se livre pra mudar o nome dessa receita. As quantidades são aproximadas, só pra dar uma ideia, mas elas importam pouco. Adapte de acordo com o que você tiver na geladeira ou com o seu gosto. Como sempre, a melhor tahina é fluida e clara (feita com gergelim descascado). A combinação de tahina e grão de bico foi feita no paraíso, mas se você não tiver tahina pode usar pasta de amendoim. Obviamente o sabor será outro e só recomendo pra quem adora amendoim.

3-4 xíc de repolho, cortado fino
2 xíc de jerimum (abóbora), em cubos pequenos
1-2 xíc de grão de bico cozido (reserve a água do cozimento)
Azeite ou óleo
Coentro a gosto (ou salsinha)
Sal e pimenta do reino a gosto

Molho de tahina
4 col. sopa de tahina (ou tahine, pasta de gergelim)
2 col. sopa de suco de limão
Água até dar o ponto
Molho de pimenta a gosto (só pra quem gosta!)
Páprica defumada a gosto (opcional)

Em uma frigideira grande (com tampa) aqueça um pouco de azeite (ou óleo) e refogue o repolho, temperado com algumas pitadas de sal. Deixe cozinhar (sem água!) coberto, mexendo de vez em quando, até ficar macio e levemente dourado. Junte o jerimum, mais algumas pitadas de sal, e cubra tudo com a água do cozimento do grão de bico (ou água). Atenção! Se você cozinhou o grão de bico com sal (o que aconselho), deixe pra salgar o prato no final, se necessário. Talvez nem precise. Tampe e deixe cozinhar até o jerimum amolecer, acrescentando mais líquido (água do cozimento do grão de bico ou água), se necessário. Quando o jerimum estiver bem macio e o líquido tiver evaporado completamente, junte o grão de bico cozido e pimenta do reino a gosto, mexa pra esquentar e desligue o fogo.

Prepare o molho misturando a tahina como o suco de limão e vá acrescentando água aos poucos, uma colher por vez, até atingir a consistência de um creme fluido. Junte o molho de pimenta e a páprica defumada, se estiver usando, mais uma pitada generosa de sal, prove e corrija o tempero, se necessário. Se você gosta de pimenta, tahina + pimenta vai te encantar. Se picante não for a sua praia, use só a páprica (doce) defumada, que realça bastante o prato. O sabor defumado me lembra a fogueira que aquece as noites frias do outono, então, na falta de lareira, tenho usado esse ingrediente em tudo.

Despeje o molho de tahina sobre os legumes, distribua o coentro picado por cima e sirva imediatamente. Pode servir como prato único ou acompanhado de arroz. Rende 2 porções. (Também é uma delícia frio, com pão.)