Percebi recentemente que pudim de chia pode ser uma decepção pra algumas pessoas, principalmente pessoas que cresceram no Brasil e que associam a palavra “pudim” com uma sobremesa ultra doce e gordurosa. Então deixa eu começar explicando que o “pudim” aqui faz referência à consistência dessa preparação, um creme levemente gelatinoso, não àquela sobremesa feita com leite condensado e ovos, tão apreciada pelo nosso povo. Uma coisa não podia estar mais longe da outra.

Tirando da mesa as expectativas que o nome sugere, o que sobra? Uma preparação leve, rica em fibras e ômega 3, porque a essa altura do campeonato todo mundo e o seu cachorro já sabem que chia é uma excelente fonte de ômega 3. Se é novidade pra você, leia esse post que escrevi em 2011, quando a chia ainda era novidade no Brasil. Ele é perfeito pra ser degustado no lanche ou no café da manhã. E se você fizer a versão com chocolate, ele pode virar sobremesa.

Como a semente de chia em si não tem muito sabor, o pudim feito com ela está mais pra um iogurte do que pra uma sobremesa. Claro que iogurte é um alimento fermentado e tem probióticos, o que esse pudim não tem, mas estou me referindo à maneira como vemos e degustamos essa preparação. Ele pode ser servido com granola, frutas frescas e pode ser batido com outros ingredientes (antes de juntar a chia) pra ficar mais gostoso e interessante. Depois que você dominar a técnica de preparo, as variações são infinitas.

Meu leite preferido pra fazer pudim de chia é o de coco, que faço em casa (receita aqui). Se quiser um pudim mais cremoso e saboroso, bata o leite de coco (ou o leite que estiver usando) no liquidificador com 1 colher de sopa de óleo de coco derretido antes de misturar com a chia. O frio da geladeira vai agir no óleo de coco, que é uma gordura saturada e se solidifica em temperaturas baixas, e deixar o pudim mais encorpado. Isso é especialmente importante se você estiver usando um leite leve e pobre em gordura, como o de arroz ou aveia.

Pra transformar o pudim de chia em algo mais interessante e gostoso, minhas dicas são: além do leite + chia 1- acrescente uma fonte de gordura boa (óleo de coco, pasta de amendoim, pasta de amêndoa, tahina) pra dar cremosidade; 2-“tempere” com especiarias (canela, cardamomo, gengibre, baunilha) ou com cacau e 3-sirva com frutas frescas. Assim não só o sabor fica muito melhor, mas você terá um lanche completo, com fibras, proteína e gordura boa (incluindo o ômega 3 da chia). E como o pudim de chia é uma daquelas receitas que devem ser preparadas no dia anterior e se conserva vários dias na geladeira, você pode preparar uma quantidade maior e degustar durante a semana, variando as frutas do acompanhamento.

Abaixo a receita de base e duas das minhas variações preferidas. O objetivo é servir de inspiração, então sinta-se livre pra substituir os ingredientes e criar variações.

Pudim de chia básico

Como líquido você pode usar o seu leite vegetal preferido ou até mesmo suco de uva integral. Como chia tem um sabor neutro, use um leite que você goste, pois esse será o sabor que você vai sentir no final. Usei as medidas padrões aqui pra não ter confusão (xícara e colher de sopa medidoras). As proporções indicadas abaixo produzem um pudim na consistência que eu gosto, mas se você preferir um pudim mais ou menos encorpado, adapte a quantidade de chia.

1x de líquido (240ml)

3cs de chia

Açúcar de coco, melado, agave ou o seu adoçante preferido, se necessário

Misture a chia com o leite vegetal e, se necessário, adoce como preferir. O segredo pro pudim ficar cremoso e homogêneo, sem aglomerações de chia, é misturar bem a chia com o líquido e mexer novamente a cada minuto por uns 5-10 minutos. Não é complicado, basta deixar o pudim do seu lado enquanto você faz um café, ou prepara o jantar e dar uma mexidinha de vez em quando, até ele ficar encorpado e as sementes tiverem aumentado de volume. Depois é só cobrir e transferir pra geladeira. Não se preocupe que a chia vai continuar absorvendo o líquido e a mistura vai ficar mais encorpada no dia seguinte. Por isso os resultados são melhores se você preparar o pudim na noite anterior.

*Obviamente suco de uva integral não precisa ser adoçado e dependendo do leite vegetal usado (coco e arroz, por exemplo, são naturalmente adocicados) e da maneira como você quiser comer o pudim (puro ou acompanhado com frutas frescas), talvez você não sinta necessidade de adoçar.

*Você pode juntar um punhado de frutas secas (passas, abacaxi, figos ou damascos picados) ao seu pudim, no momento em que misturar a chia com o leite, pra adoçar naturalmente a mistura. No dia seguinte as frutas estarão hidratadas e suculentas.

 

Pudim de chia com cacau e pasta de amendoim

Usei tâmaras do tipo medjouls, que são macias, suculentas e grandes. Se você usar outro tipo de tâmara vai precisar aumentar a quantidade e provavelmente deixar de molho na água quente por alguns minutos antes de triturar pra facilitar o trabalho do liquidificador. Você pode usar passas no lugar das tâmaras, açúcar de coco ou melado. Use a quantidade que for preciso pra que fique doce o suficiente pro seu paladar. Dica: você vai acrescentar a chia, que não é adoçada, ao líquido, então se você gosta de preparações mais doces, deixe o líquido um tiquinho mais doce do que você gostaria pra compensar o acréscimo da chia mais tarde. Você pode usar pasta de amêndoas ou de avelã no lugar da pasta de amendoim.

1x de leite vegetal (usei de espelta, mas pode ser coco caseiro, arroz, amêndoa, aveia, soja…)

1cs de cacau em pó (puro, sem açúcar)

1cs de pasta de amendoim (pura, não adoçada)

2 tâmaras

3cs de chia

Nibs de cacau (opcional)

Bata o leite, cacau, pasta de amendoim e tâmara no liquidificador até a tâmara se desfazer totalmente. Transfira pra um recipiente com tampa e misture a chia como indicado na receita acima. Cubra e leve à geladeira por uma noite. Sirva polvilhado com nibs de cacau. Rende 2 porções comportadas. Se conserva alguns dias na geladeira. Também fica uma delícia acompanhado de rodelas de banana.

Pudim de chia com mirtilo, coco e cardamomo

Mirtilo com coco e cardamomo é uma mistura celestial! É o meu pudim de chia preferido do momento. Se você não tiver mirtilos, pode usar morangos bem maduros, que também vão muito bem com coco e cardamomo. Mamão ou banana são igualmente deliciosos no lugar dos mirtilos.

1x de leite de coco fresco 

1cs de óleo de coco virgem

1x de mirtilos (ou uma das frutas sugeridas acima)

1/3cc de cardamomo em pó

4cs de chia

Bata todos os ingredientes, com exceção da chia, no liquidificador até ficar homogêneo. Transfira pra um recipiente com tampa, junte a chia e misture seguindo as instruções da receita de base. Cubra e leve à geladeira por uma noite. Sirva com mais mirtilos ou bananas em rodelas. Rende 2 porções.  Se conserva alguns dias na geladeira.

“O sarraceno mudou a minha vida!” Eu declarei isso no IG dias desses e outras pessoas vieram me dizer a mesma coisa. Não entendo como um alimento tão maravilhoso, versátil e nutritivo não é mais popular. Mas tenho certeza que é só uma questão de tempo. Por isso vim aqui dar a minha contribuição pra fazer isso acontecer.

Olá. Você tem um minuto pra ouvir a palavra do sarraceno?

A primeira coisa que gostaria de esclarecer sobre ele é que o nome “trigo sarraceno” (também chamado de “trigo mourisco”) confunde muita gente e faz com que pessoas que evitam glúten o rejeitem imediatamente. Ele não é um tipo de trigo de maneira nenhuma nem tem glúten, por isso estou lançando uma campanha pra chama-lo somente de “sarraceno” e acabar com essa confusão. Segunda informação importante: sarraceno não é um cereal, como arroz, trigo e cevada. É a semente de uma planta da família do ruibarbo. Mas como essa semente contém carboidratos complexos, ela pode ser chamada de pseudo-cereal. Sarraceno é rico em fibras, minerais, principalmente manganês e magnésio e é uma proteína vegetal completa (contém todos os aminoácidos essenciais). Se você gosta de números, lá vai. (ND significa “necessidades diárias)

1 xícara de sarraceno cru (170g) contém:

22,5g de proteína completa
17g de fibra
2,3mg de manganês (111% ND)
393mg de magnésio (98% ND)
1,9mg de cobre (93% ND)
3,7mg de ferro (21% ND)
590mg de fósforo (59% ND)
782mg de potássio (22% ND)
4,1mg de zinco (27% ND)

Isso tudo com apenas 5,8g de gordura (ainda em 170g de sarraceno cru). Fonte: tabela de nutrientes da USDA (Associação Dietética dos Estados Unidos).

E as notícias boas não param por aí. O sarraceno é uma planta rústica o que significa que não exige muito trabalho pra ser plantado e pode ser cultivado em terrenos pobres e ácidos. De ciclo curto, em menos de 100 dias toda a produção está pronta pra ser colhida, o que permite realizar até três cultivos por ano. Pode ser usado como cobertura do solo, pois apresenta crescimento rápido e um grande volume de massa verde. E pra ficar tudo ainda mais lindo, ainda não foi descoberta nenhuma doença ou praga que prejudique a plantação, o que significa que não há necessidade de uso de herbicidas nem pesticidas.

Pelo que li, o cultivo no Brasil é feito principalmente pra exportação, mas acredito que isso se explique pelo fato de poucas pessoas brasileiras conhecerem e consumirem o sarraceno. Vou repetir: isso precisa mudar. Ele é ecológico, nutritivo e vai fazer um bem danado às pessoas que vivem de agricultura no nosso país. Mas, você deve estar se perguntando, ele é gostoso?

Como não temos o costume de comer sarraceno no Brasil, talvez o sabor característico dele seja uma surpresa pro seu paladar. Ele tem um sabor marcante, principalmente quando cozido, mas depois de ter provado algumas vezes é capaz de você se apaixonar por ele. Não é à toa que em vários países do mundo ele faz parte da alimentação de base. Ele é muito apreciado na Europa do leste, no Japão ele é usado pra fazer o macarrão sobá e na França os crepes tradicionais da Bretanha, chamados de “galettes”, são feitos com farinha de sarraceno.

Conheci o sarraceno justamente graças às galettes francesas, muitos anos atrás. Em seguida descobri o macarrão “sobá” japonês. Então durante durante muito tempo achei que essas eram as únicas maneiras de utilisa-lo: transformando a farinha em outra coisa. Comprei farinha de sarraceno uma vez, mas nunca fiquei satisfeita com as preparações que ela rendeu na minha cozinha. Até que um dia resolvi comprar os grãos e foi aí que ele mudou a minha vida.

Sarraceno tem uma casca muito dura, impossível de ser retirada em casa. Aqui na Europa encontro sarraceno lindamente descascado e intacto (veja a primeira foto desse post). Esse processo é feito por  uma máquina especialmente criada pra isso, pois a forma de pirâmide das sementes faz com que seja necessário um descascador diferente do utilizado pra cereais, que têm uma forma alongada. Já no Brasil sempre encontro sarraceno mal descascado (uma parte dele vem ainda com casca) e com muitas das sementes quebradas. Sementes quebradas não me incomodam, pois a única vantagem de ter sementes  intactas é que elas podem ser germinadas, coisa que eu nunca fiz. Mas quando parte das sementes vem com a casca é menos agradável pra consumo. Mais uma vez, precisamos aumentar a demanda por sarraceno e tenho certeza que assim os produtores nacionais investirão em máquinas que descasquem as sementes de maneira satisfatória. Mesmo assim é possível utilizar o sarraceno como é vendido hoje no Brasil. Um conselho: converse com as pessoas da loja onde você estiver comprando e sugira que elas peçam pros fornecedores usarem uma maneira mais eficaz de descasca-lo, pra deixar a clientela mais feliz.

Quando comecei a comprar as sementes (inteiras, descascadas) ao invés da farinha de sarraceno, as possibilidades de consumo se multiplicaram na minha frente. Eu não sou muito fã do sarraceno cozido, pois a textura ligeiramente pegajosa não me agrada. Então pensei: “Já que é uma semente, acho que posso consumi-lo cru.” Dei uma olhada na internet só pra confirmar o que minha intuição estava me dizendo e foi nesse momento que ele entrou de vez na minha cozinha e mudou a minha vida.

Como consumir sarraceno

A maneira mais simples é polvilhar as sementes (cruas, não precisa deixar de molho) onde você quiser.  Eu gosto de colocar por cima de frutas frescas em pedaços ou amassadas e de vitaminas mais encorpadas (que precisam de colher pra serem degustadas).  Você também pode colocar um punhado de sarraceno no liquidificador e bater com a sua vitamina. Quando estou no Brasil sempre coloco sarraceno no cuscuz (cozido, já no prato), pra aumentar o valor nutricional desse alimento que é uma parte importante da alimentação no Nordeste, mas que é bem pobre em nutrientes. Também adoro misturar sarraceno com flocos de aveia na minha aveia dormida. As sementes ficam mais macias depois de uma noite no líquido, sem no entanto ficarem pegajosas como quando cozidas. Outro motivo pra consumir as sementes cruas: como expliquei acima, o sabor é mais suave do que na versão cozida. Então aconselho você a começar introduzindo o sarraceno cru na sua alimentação e só depois se aventurar em pratos onde ele seja cozido.

Fotos acima: 1-mamão com polpa de coco verde batida com água de coco, mais chia e sarraceno; 2- creme de mamão, abacate e leite de coco, mais chia hidratada no leite de coco, sarraceno, nibs de cacau e castanha do Pará; 3- cuscuz com chia, sarraceno e hummus; 4-chia e aveia dormida, creme de abacate -abacate batido com banana congelada e leite de coco- sarraceno e nibs de cacau; 5- aveia dormida com sarraceno, mirtilos e manteiga de coco (em farelo porque a temperatura estava fria).

E você pode triturar as sementes cruas e secas e fazer sua própria farinha. O resultado é mais saboroso, além de mais barato, do que comprar farinha de sarraceno, que sempre tem um gostinho rançoso pro meu paladar (talvez por que o sarraceno foi moído meses atrás). O sabor do sarraceno combina maravilhosamente bem com chocolate, então vejo lindas possibilidades de bolo e cookies por aqui. E, claro, é com a farinha que você vai fazer os melhores crepes do mundo, as tais galettes francesas. Deliciosos, nutritivos e naturalmente sem glúten. Mas a receita desse crepe fica pro próximo post.

Três meses depois de ter me mudado pra Berlim, ainda não encontrei um lar permanente. Atualmente estou em um apartamento lindo, mas que alugamos por apenas algumas semanas, enquanto o proprietário curte as férias na Tailândia. Além das mudanças constantes dificultarem o  desenvolvimento de uma rotina, indispensável pro meu bem estar e pro meu trabalho, essa instabilidade me faz sentir como se eu ainda não tivesse chegado de verdade. Parece que estou suspendida por algum fio invisível e só colocarei os pés no chão quando tiver um cantinho pra chamar de meu. Por isso ainda me parece que cheguei antes de ontem.

Outra razão importante pra voltar a ter um endereço fixo é poder retribuir a hospitalidade que recebi durante esses três anos em que estive nômade. Eu não imaginava que isso me faria tanta falta até ter perdido a possibilidade de hospedar amigas de passagem. Eu adoro receber pessoas em casa e gosto mais ainda de poder ajudar pessoas queridas a fazer economia com hotel. Porque a hospitalidade das minhas amigas fizeram toda a diferença pra mim nos últimos anos e é triste não poder retribuir isso.

Eu morei seis anos em um kitinet de apenas 14 metros quadrados em Paris, a maior parte do tempo com uma ex namorada brasileira. E apesar de ser o lar mais minúsculo que já vi, hospedamos várias amigas (por uma noite, alguns dias e até durante um mês inteiro!). Quando lembro disso acho loucura, mas aos vinte e poucos anos eu não precisava de longos períodos sozinha, como é o caso hoje. Na Palestina aconteceu a mesma coisa, só que dessa vez em uma casa bem maior. Hospedamos tantas pessoas, cozinhei jantares pra tanta gente de passagem durante os cinco anos que morei em Belém que até hoje eu encontro pessoas pelo mundo que me dizem: “Eu jantei na sua casa em Belém, lembra?” Pra minha vergonha, muitas vezes eu não lembro. Era gente demais. E mesmo durante o curto ano em que morei em Bruxelas consegui hospedar oito pessoas amigas (cada uma de uma vez), vindas de países diferente.

Sinto falta disso. De escolher o cobertor mais quentinho pra visita. De encher a geladeira de gostosuras pro café da manhã. De preparar jantares caprichados pras hóspedes. Meu prazer é tão grande que Anne vive dizendo que eu deveria fazer uma espécie de airbnb/pousada vegana. Olha aí, mais uma razão pra ter endereço fixo.

Enquanto isso não acontece vou agradecendo a hospitalidade das pessoas que me acolheram aqui em Berlim com comida. Decidi que sempre que alguém me emprestar sua casa, o que aconteceu várias vezes nos últimos meses, vou deixar um prato pronto na geladeira esperando por ela na volta. E atualmente o meu preferido é um ensopado de grão de bico com damasco seco que Peter, um amigo estadunidense, preparou especialmente pra nós na casa dele em Berkeley, na Califórnia.

Estivemos em São Francisco em maio, em (segunda) lua de mel, mas também a trabalho. Anne tinha uma exposição programada em Oakland, mais uma conferência em Berkeley (as duas cidades são vizinhas de São Francisco), junto com Ala e Michal, que produziram o projeto Obliterated Families com ela. Peter e o marido, Ilan, que é israelense, fazem parte de um grupo de solidariedade com a Palestina e ficaram sabendo dos eventos através do grupo. Eles ofereceram hospedagem pra Ala e Michal, fizeram um jantar pra nós e Peter nos ajudou a montar a exposição. A generosidade e bondade dessas duas pessoas, que tínhamos acabado de conhecer, me emocionaram. Conversei muito com Peter e descobrimos que temos muitas coisas em comum. Graças a esse encontro, a tarde que passamos fazendo furos na parece da galeria pra suspender as fotos foi extremamente prazerosa. A casa de Peter e Ilan parecia saída de um conto de fadas. Eles construíram praticamente tudo com as próprias mãos e o jardim, gigante, principalmente comparado com o tamanho da casinha de boneca deles, me deixou de boca aberta. Lá eles plantam vários legumes e frutas e tem até um ofurô aquecido com lenha (feito por eles, claro). Falamos sobre a Palestina, sobre o choque de ter visto Trump ser eleito, conhecemos o melhor amigo de Peter e sua esposa, francesa (nunca conheci tantas pessoas tão lindas de uma só vez), ajudei Ilan a colher verduras e flores (comestíveis) que ele transformou em salada… Peter tinha prometido preparar um prato de grão de bico (que ele chama assim, mesmo, “a garbanzo dish”), descoberto em um velho livro de receitas, que ele prepara regularmente, principalmente quando tem convidadas vegetarianas/veganas, há anos.

Mas pouco antes de ir pra mesa nos demos conta que estávamos atrasadas pro nosso próximo encontro, com um casal amigo de Gaza. Passamos tanto tempo conversando no jardim que perdemos a hora e não seria possível jantar com Peter e Ilan. Ao invés de se ofender com a desfeita, Peter disse que deveríamos partir com o prato que ele tinha preparado, pra ser compartilhado com Jihad e Lara, o amigo e a amiga de Gaza. Peter e Ilan conhecem e gostam muito de Jihad e Lara, então ficaram felizes com a possibilidade de alimentar mais duas pessoas queridas com o ” prato de grão de bico”. Partimos com o grão de bico numa mão e a salada do jardim na outra.

Jihad e Lara ainda não tinham jantado e ficaram extremamente felizes com o presente comestível. Colocaram os pratos na mesa, junto com um pouco de hummus e azeitonas que encontraram na geladeira e nos deliciamos com o quitute de Peter, que, descobri, era um cozinheiro de mão cheia. Depois da segunda garfada Jihad declarou: “Como é bom comer uma refeição caseira.” A vida desse casal, que tem vinte e poucos anos, não está fácil. Estão tentando conseguir asilo nos EUA e é um processo demorado e caro, pois você não tem a autorização pra trabalhar enquanto espera a resposta. Me dei conta que, pra fazer economias, esse casal amigo não devia se alimentar muito bem e deviam sentir muita saudade da comida de suas mães, que ficaram em Gaza. No final das contas tinha sido ótimo levar a deliciosa comida de Peter pra lá e foi uma noite especial da qual nunca vou esquecer. Comida tem esse poder de unir pessoas, reconfortar, oferecer nutrição e carinho de dentro pra fora. E enquanto comemos comungamos com as pessoas sentadas na mesa e acontece uma conexão energética linda. Nós quatro, uma palestina, um palestino, uma francesa e uma brasileira, com histórias de vida tão diferentes, degustando aquela comida deliciosa, preparada por um estadunidense e um israelense, também vindos de horizontes completamente diferentes. Unidas pela generosidade de pessoas que tínhamos acabado de conhecer. Unidas por um prato de grão de bico.

Gostaria que as pessoas que acham que ser vegana nos priva desses momentos sociais, onde a comida é o elo que nos une, pudessem entender que isso está longe de ser verdade. Em nenhum momento dos meus dez anos de veganismo o fato de ter recusado o consumo do corpo e secreções de animais me tornou anti-social. E conheço muitas veganas que vivem exatamente a mesma coisa. Achar que todas as pessoas, mesmo as que você acabou de conhecer, se ofenderão se você disser que é vegana é algo mais presente na sua cabeça do que na realidade. Talvez algumas se ofendam, mas isso diz mais sobre a intolerância delas do que sobre a sua ética. Porém o que vejo com muito mais frequência são pessoas querendo que você passe um bom momento com elas ao redor da mesa e por isso se dispõem a fazer o possível pra te agradar. E quando elas conseguem preparar um prato vegetal que faz sucesso, a alegria de ter recebido bem a convidada vegana é um presente do qual elas teriam sido privadas se você tivesse deduzido, sem consulta-las, que  elas não seriam capazes de respeitar o seu veganismo. Vamos deixar a condescendência de lado e parar de achar que as pessoas não são capazes de entender sua escolha de se alimentar sem crueldade, sem nem ao menos ter dado à elas a possibilidade de reagir. Muitas pessoas vão te surpreender de maneira positiva se você der uma chance pra elas.

Lembro de tudo isso quando cozinho esse grão de bico, que já fiz várias vezes desde que cheguei na Alemanha. Claro que depois daquele jantar memorável escrevi pra Peter pedindo a receita. E como é crime guardar comida boa pra si e não compartilhar com as coleguinhas, aqui vai a receita do grão de bico que entrou pra minha história, como tantos outros pratos que me marcaram pela carga emocional que eles representam.

 

O grão de bico com damasco de Peter

Fiz pequenas adaptações na receita, por diferentes razões. Peter usa mais azeite que eu, mas prefiro pratos menos gordurosos. Também diminuí a quantidade de damasco seco, porque sei que é um ingrediente caro. Anne até prefere assim, pois ela acha que com mais damascos o prato fica muito ácido. Na minha versão uso um pouco de canela, porque ela realça muito tomate e damasco (algo que aprendi com a culinária marroquina). A receita original usa caldo de legumes, mas como é difícil achar um que seja natural, optei por usar a água de cozimento do grão de bico, que também acrescenta mais uma camada de sabor ao prato, embora mais discreta. Nunca jogo a água de cozimento do grão de bico fora e uso no lugar de caldo de legumes em sopas e ensopados. O damasco faz toda a diferença nessa receita e se você não tiver acesso a esse ingrediente, ao invés de me perguntar “como posso substituir o damasco?” sugiro que escolha outra receita de grão de bico nos arquivos. Como grão de bico catalão , amassado de grão de bico ou harira.  Essas três receitas também são fantásticas!

2 x de grão de bico cozido (reserve o caldo)

1 cebola picada

2-4 dentes de alho picados

2x de tomates bem maduros picados

1/3x de damascos secos picados

1 cc de cominho em pó

1/2cc de canela em pó

2 punhados de coentro ou salsinha, ou uma mistura dos dois, picados

Sal e pimenta do reino a gosto

1/3x de azeite

2x do caldo de grão de bico (a água onde ele foi cozinhado)

 

Em uma panela média aqueça o azeite e doure a cebola. Junte o alho e refogue por mais alguns segundos. Acrescente o grão de bico (sem o caldo), o damasco, o tomate, cominho, canela e tempere com sal e pimenta do reino. Cozinhe em fogo baixo, coberto, até o tomate se desintegrar. Cubra com 1x do caldo de grão de bico, aumente o fogo e quando começar a ferver abaixe o fogo novamente e deixe cozinhar por aproximadamente 20-30 minutos. O molho deve ficar encorpado e suculento, então dependendo do tomate utilizado talvez você precise acrescentar mais uma xícara do caldo de grão de bico. Peter gosta de cozinhar esse prato no fogo baixíssimo por um longo período (quase duas horas!) e se você estiver com tempo sobrando, aconselho fazer a mesma coisa, acrescentando mais caldo de grão de bico aos poucos, pro prato não ficar seco. A diferença no sabor é nítida quando o cozimento é lento. Prove e corrija o sal e a pimenta. Desligue o fogo e só então junte o coentro e/ou salsinha. Sirva acompanhado de arroz ou o cereal que preferir. Rende aproximadamente 4 porções.