Gosto de pensar que sou uma pessoa modesta. Recebo elogios de bom grado, mas não saio por aí “contando vantagem”, como a gente diz na minha terra (se você precisa de tradução, essa expressão significa “fazendo elogios, não merecidos, a si mesma”). Mas de vez em quando eu desenvolvo uma receita que me faz inchar de orgulho. Mais ainda quando não se trata de uma receita propriamente dita, o que envolve vários ingredientes, muitos testes e muita louça pra lavar antes de chegar na versão final, a que compartilho aqui no blog. Isso é um trabalho que necessita criatividade, obviamente, mas é o resultado de 90% de transpiração e 10% de inspiração, como dizem que disse Einstein. Agora, quando a “receita” em questão é uma ideia que brotou na minha cabeça, puf!, que necessita apenas 2 ingredientes e que deu certo de primeira, aí eu não consigo conter o entusiasmo (se você estivesse do meu lado nesse momento me veria dando um discreto beijinho no ombro).

Essa empolgação toda por um pedaço de pão? Sim, mas eu dei uma recalibrada nesse pedaço de pão e agora ele é um lanche/café da manhã completinho, com o mínimo de esforço e pouco dinheiro. Explico.

Lembra do meu grãomelete? A mistura de base (farinha de grão de bico + água) não para de me surpreender. Passei a usar pra fazer tortilla (sempre um sucesso), quiche (ainda não publiquei a receita), molho de macarrão (sim, sim!) e rabanada (tanto doce quanto salgada, a minha preferida). E a ideia nasceu dessa última. Na verdade se trata de uma variação da rabanada salgada, mas simplificada e com um resultado final diferente.

É bem simples: você pega a massa do grãomelete, espalha em um prato pequeno e depois gruda um pedaço de pão nela (só de um lado). Aí é só fritar em um pouco de óleo/azeite. Você vai obter, cara leitora, um pão na chapa coberto com uma camada ligeiramente crocante de grãomelete. Sim, você pode fazer um grãomelete e depois servir dentro de um pão. Eu faço isso com frequência e adoro. Porém se trata de uma daquelas fórmulas mágicas onde a soma das partes é superior aos elementos do início. Quando o grãomelete cozinha junto com o pão na frigideira parece que é algo diferente de um pão com grãomelete. Por que? Mistério. Mas te desafio a tentar em casa e descobrir por si própria.

E, por outra razão misteriosa, essa versão me agrada ainda mais do que a rabanada (que é extremamente similar à essa receita). A única diferença é o método de preparo, o que produz um resultado interessante. A integridade do pão é respeitada (na rabanada ele deixa de ser pão e se transforma em rabanada) e o contraste de textura (o pão macio com a capinha crocante do grãomelete) é ao mesmo tempo delicioso e reconfortante. Talvez porque cresci comendo mais pão com queijo derretido na chapa do que rabanada (na verdade só fui comer rabanada depois de vegana), essa versão tem um gostinho bom de nostalgia pra mim.

A essa altura você já sabe que cereal + leguminosa forma uma proteína vegetal completa, né? Então esse lanchinho/café da manhã composto por pão (cereal) e grãomelete (grão de bico é uma leguminosa), combina lindamente na boca e do ponto de vista nutricional também. Então é uma atualização melhorada (em todos os sentidos) do pão na chapa com manteiga (ou margarina/azeite). E sabe como estou chamando essa lindeza? Taí mais um motivo pra estar me achando hoje, pois o nome é perfeito: grão na chapa! GRÃO NA CHAPA!!!

Esqueça o pão na chapa. Meu grão na chapa chegou pra animar seu carnaval. Seu ano. Seus lanches de agora em diante. De nada.

Grão na chapa

Essa receita pode ser adaptada de muitas maneiras. Dá pra juntar os temperos e ervas que você quiser na massa e fazer um lanche ainda mais saboroso. Importante: a massa do grãomelete deve ser preparada na véspera, então é preciso um pouco de planejamento aqui. Mas faça como eu: prepare uma boa quantidade de massa pra grãomelete e, depois de repousar uma noite em temperatura ambiente, guarde na geladeira pra depois. Assim você vai poder preparar essa e outras receitas em um piscar de olhos.

Massa de grãomelete

-Farinha de grão de bico (as boas são finas como farinha de trigo. Se for do tipo granulada, o resultado é muito inferior. Esfregue entre os dedos: se sentir uns grãozinhos, não vai rolar)
-Água

Dissolva a farinha de grão de bico em um pouquinho de água, batendo vigorosamente com a colher pra não sobrar nenhuma bolinha de farinha seca. Depois de ter obtido uma massa espessa e lisa, junte água suficiente pra atingir uma textura cremosa e quase líquida. Deixe repousar em temperatura ambiente, em recipiente fechado, por uma noite. No dia seguinte transfira a massa pra geladeira. Pronto, agora você pode preparar grãomelete, tortilla e grão na chapa a qualquer momento. A massa se conserva vários dias na geladeira. Não esqueça de colocar sal na hora de preparar.

Pra fazer o grão na chapa

Massa de grãomelete
Sal
Pão (baguete ou francês são ideias, mas use o que tiver)
Temperos (opcional)

Corte o pão francês ao meio (eu usei baguete porque na França não tem pão francês!!!!). Coloque um pouco da massa de grãomelete (que deve estar mais pra líquida- junte um pouco de água se ela tiver endurecido na geladeira, o que vai acontecer) em um prato e tempere com sal. Se quiser usar temperos (como alho picado, pimenta do reino, páprica defumada, cebola desidratada, ervas frescas ou secas…) essa é a hora.

Esquente um pouco de óleo/azeite em uma frigideira (anti-aderente, senão vai grudar). Mergulhe cada metade de pão francês na massa de grãomelete (o lado cortado pra baixo), deixe alguns segundos em contato com o líquido, pro pão absorver uma quantidade boa, e depois transfira (sempre o lado cortado pra baixo) pra frigideira. Cozinhe em fogo médio até ficar bem dourado e ligeiramente crocante (não precisa cozinhar do outro lado, obviamente). Sirva imediatamente.

É um desbunde puro, com café, mas nada te impede de incrementar ainda mais seu grão na chapa e servir com um patê/molho/guacamole/caponata/legumes refogados ou tomates crus, bem maduros, picados regados com um fio de azeite.

Em setembro confessei aqui no blog a minha recente história de amor com a farofa e compartilhei a receita da minha farofa mais popular.

Mas isso não é exatamente verdade. Sim, minha farofa de banana e couve é extremamente popular na minha família, mas um dia fiz uma versão ligeiramente modificada dessa receita e o sucesso foi ainda maior. Chamei essa obra-prima comestível de “farofa rica”.

Como toda farofa, se trata mais de um conceito do que de uma receita. E o que é o conceito de farofa rica, você pergunta? É usar os restos de comida que estão de bobeira na geladeira, principalmente aqueles em quantidade tão pequena que não dá pra alimentar nem uma pessoa sozinha, misturar com farinha em uma frigideira quente e criar um prato tão saboroso e cheio de ingredientes que o único adjetivo que me veio à cabeça pra qualificar minha criação foi “rica”. Eu vejo muito a palavra “rica” ser acoplada à uma receita quando se trata de encarecer a conta de ingredientes. Ou seja, juntar ingredientes caros e sempre de origem animal (queijo, bacon, creme etc). Então minha farofa rica é pura subversão, já que se trata de um prato popular que foi preparado com sobras de alimentos e esses alimentos são todos vegetais.

Farofa rica

Como expliquei acima, se trata mais de um conceito do que de uma receita. Use essa lista de ingredientes como guia, pois dá uma farofa realmente arretada, mas substitua o que estiver faltando pelo que encontrar na sua geladeira. Feijão macaça (feijão de corda) é ideal aqui, pois além de muito saboroso ele se mantém intacto depois do cozimento e não dá caldo grosso, fazendo com que seja muito simples separar os grãos do caldo. Mas imagino que grão de bico cumpra o mesmo papel aqui, pras pessoas que tem acesso a esse ingrediente.

2-3 cs de óleo
1 cebola, picada
2-3 dentes de alho, picados
2 bananas, picadas (maduras, mas não muito)
1 x de feijão macaça (sem caldo)
1 – 1,5x de farinha de mandioca fina, peneirada
Um punhado de coentro, picado
Sal e pimenta do reino a gosto

Em uma frigideira grande e, de preferência, com o fundo grosso, aqueça o óleo e doure a cebola. Junte o alho, deixe fritar por alguns segundos e acrescente a banana picada, o feijão macaça e, aos poucos, a farinha. Vá mexendo com uma colher de pau, delicadamente pra não esmagar a banana, e juntando farinha, sobre um fogo baixo, até atingir a consistência desejada. Eu gosto de farofa úmida, então uso 1x de farinha, mas se você gostar de farofa mais seca, use mais.

Desligue o fogo e acrescente o coentro. Tempere com sal e pimenta do reino, prove e corrija o tempero, se necessário. Sirva imediatamente.

Rende de 4 a 6 porções, dependendo da intensidade do seu amor por farofa.

Lembram dos tours político-veganos em Paris? Em 2020 eles voltarão com força total. Até criei uma página aqui no blog pra explicar melhor a proposta. Convido as pessoas interessadas a darem uma olhada lá pra entender melhor a proposta desse projeto.

Foram dois grupos em dezembro de 2019 e a experiência foi muito bacana. Os primeiros tours aconteceram em 2018 e o foco foi exclusivamente na gastronomia vegetal. Mas, apesar de ter sido uma delícia passar uma semana comendo e falando de comida (quem não gostaria de ter férias assim?), eu queria expandir a proposta pra incluir mais política no roteiro. Não só política ligada à luta antiespecista, mas falar também dos movimentos sociais de hoje e do passado e do histórico de luta e insurreição de Paris, já que a cidade foi palco de tantas revoluções e levantes.

Então depois de muitas pesquisas e estudo, em 2019 o roteiro foi completamente transformado e agora inclui muita informação histórica sobre a resistência na cidade, com um foco especial na luta feminista, além de visitas aos lugares emblemáticos da Paris revolucionária. Claro que ainda comemos muito bem do primeiro ao último dia. E como a cena vegetal só aumenta na capital francesa, a parte gastronômica do tour está cada vez melhor.

Os próximos tours acontecerão em março, abril e maio (datas na página sobre os tours) e as inscrições estão abertas. Pessoas interessadas devem escrever pra esse email: tourspapacapim@gmail.com