Algumas semanas atrás passei uma semana na minha praia preferida do litoral potiguar. Anne e eu temos uma tradição. Sempre que ela vem ao Brasil nós visitamos a mesma praia, Baía Formosa, que descobrimos na primeira vez que ela veio aqui. É um lugar tranquilo que se mantém protegido do turismo de massa, o extremo oposto da vizinha, a internacionalmente famosa praia de Pipa. Nós não gostamos de lugares cheios de gente e com forte apelo comercial e Baía Formosa é um vilarejo de pescadores, cercado pela Mata Estrela (reserva de mata Atlântica), um lugar lindo e mais interessado em eco-turismo do que em balada.

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O único problema é que, justamente por ser um vilarejo de pescadores, bem autêntico com apenas um punhadinho de pousadas, as opções de comida vegana na cidade são extremamente limitadas. Na verdade elas se resumem a macaxeira frita e água de coco. E essa é uma situação comum em praias. Sempre achei que o lugar mais difícil pra ser vegana é em uma praia brasileira (não sei como é a situação nas praias dos outros países). Por isso há tempos venho planejando escrever um pequeno guia de sobrevivência pra pessoas veganas na praia.

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Dica 1: Traga reforço pro café da manhã

Começar o dia com uma refeição caprichada é, pra mim, essencial. Primeiro porque você provavelmente vai fazer atividades que exigem muita energia do seu corpo (da última vez que estivemos em Baía Formosa andávamos 8km por dia, na areia fofa da praia). Segundo porque café da manhã é minha refeição preferida e sem prazer gastronômico sinto que ficou faltando uma parte importante nas minhas férias. Mas infelizmente café da manhã pra uma vegana é um desafio na maioria das pousadas e hotéis por onde passei. Porém esse problema é fácil de ser resolvido: com alguns ingredientes na bolsa você consegue transformar radicalmente essa refeição, a partir do que o local oferece no buffet.

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Sempre tem frutas e sucos frescos, então é por aqui que começo. Tiro aveia em flocos (muitas vezes já tem no buffet), chia e castanhas do Pará da bolsa e salpico generosamente nas frutas. Se você estiver pelo Nordeste, o cuscuz vai estar sempre presente. Prefiro alimentos mais nutritivos e o milho do cuscuz é sempre transgênico, o que prefiro evitar, mas muitas vezes é a única opção salgada vegana disponível. Acho pão francês intragável e evito glúten no dia-a-dia, mas também é uma opção vegana que encontramos sempre. Melhorei meu cuscuz com chia e sarraceno (cru), mais uma chuva de levedura de cerveja maltada (levedura nutricional), que trouxe da França (uma delícia, mas longe de ser indispensável). Levei hummus de casa e ele completou a refeição, com muita proteína, cálcio, gordura boa e sabor. Também levei um patê de tofu com ervas (comprei pronto) pra variar o acompanhamento.

O que levar na bolsa pra remediar o café da manha da pousada: sementes (chia, linhaça, sarraceno) e castanhas (de caju, do Pará, amêndoas, amendoim) pra servir sobre frutas ou cuscuz. Uma pastinha, de preferência rica em proteínas, pra passar na tapioca/pão e acompanhar o cuscuz/macaxeira/batata doce (que você vai guardar no frigobar do quarto). Adoro hummus, mas você pode levar um patê de tofu (comprado feito ou caseiro) ou o seu patê preferido. Aqui no blog tem várias receitas pra te inspirar. Se não puder levar nenhuma pasta, uma garrafinha de azeite quebra um galhão (pra regar a macaxeira, a tapioca…).

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Dica 2: Alugue um chalé com cozinha ou peça pra usar a cozinha da pousada

Nas primeira vezes que fomos à Baía Formosa nos alimentamos de coco e macaxeira durante dias e fomos dormir algumas noites com a barriga vazia. Ano passado pedi pra usar a cozinha da pousada, mas como isso me foi negado, levei algumas comidas prontas de casa, mais muitos lanchinho e reforços pro café da manhã e guardei tudo no frigobar do quarto. Comemos tudo frio, mas pelo menos não passamos fome.

Esse ano pedi novamente pra usar a cozinha da pousada, explicando mais uma vez que eu e minha esposa éramos veganas e que era praticamente impossível comer nos (poucos) restaurantes da cidade. Não foi muito fácil convencer o proprietário da pousada (“É uma escolha de vocês serem macrobióticas!” “Somos veganas”, repeti), mas como já era a quarta vez que nós ficávamos hospedadas lá e eu insisti muito, ele acabou concordando. E esse detalhe, que pode parecer pequeno, mudou radicalmente a nossa experiência praiana.

Planejei refeições ultra simples e nutritivas, trouxe uma feirinha na mala e nunca comemos tão bem numa praia. A chave aqui é planejamento: pense em refeições que só precisam de uma panela pra serem preparadas, que ficam prontas em pouco tempo. Fazer porções grandes significa já ter parte da próxima refeição pronta. Mais uma dica: leve temperos inteligentes que farão economia no tempo de preparo. Por exemplo, levei uma mistura de cebola, alho, tomate e salsinha desidratados e isso substituiu a tradicional cebola+alho frescos picados e refogados. O mais importante pra mim era ter uma refeição gostosa, rápida e nutritiva na mesa, não criar receitas gourmets. Ervas desidratadas, temperos secos (pimenta do reino, cúrcuma ou o que mais você gostar), sal e azeite também não podem ficar de fora (e ocupam pouco espaço na mala).

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Naquela semana, além do que já citei acima, levei 1kg de feijão verde, macarrão integral, um jerimum pequeno (do sítio do meu pai), um potinho com tomate seco em pasta, algas em flocos do tipo dulse, farinha de grão de bico (pra fazer omelete) e dois burgers de soja e legumes (comprado pronto). Também levei bolachas de arroz integral, cookies integrais (um de café, outro de coco e castanha do Pará), geleia de cupuaçu, chocolate amargo e castanha de caju pros lanches. A feira completa está na foto acima. Detalhe: fomos pra praia de ônibus. Se você for de carro, vai poder levar mais comida. No meu caso tive que usar a criatividade pra fazer almoços e jantares pra duas pessoas, por cinco dias, com os poucos ingredientes que pude levar.

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Não é garantia você conseguir autorização pra usar a cozinha da pousada (se a pousada tiver restaurante que serve também almoço e jantar, esqueça. O pessoal não vai querer você atrapalhando o trabalho deles.), mas não custa tentar. Uma opção ainda melhor é alugar um chalé/apartamento com cozinha. Aí é só levar a feira de casa e se fartar.

Importante: lembre de levar uma faca pequena afiada e uma táboa de legumes, pois além de não ser garantia você encontrar esses dois itens na pousada (aconteceu comigo e foi um suplício descascar um jerimum na mão, sem o apoio de uma táboa e com uma faca meio cega), se tiverem, provavelmente usam pra cortar animais.

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Dica 3- Coco é vida!

Ainda mais pra pessoas veganas na praia. Nunca visitei uma praia por aqui que não tivesse coco e além de hidratar o corpo e refrescar, a polpa do coco, que nós chamamos carinhosamente de “lama” (não tem nada pejorativo nisso, nordestinos amam lama de coco e esse termo não passa de um regionalismo) é um alimento maravilhoso. Ela é cheia de nutrientes e gordura boa, que vai te alimentar e dar saciedade. É um dos melhores lanches que conheço e ainda vai te custar zero reais (afinal você já pagou pela água). Pode parecer óbvio pras pessoas da minha região, mas cansei de ver pessoas descartando o coco depois de tomar a água. Algo tão delicioso e nutritivo não deveria acabar no lixo. E se você tomar a água de mais de um coco de uma vez e não quiser comer toda a lama ali, leve pra comer mais tarde na pousada. Isso se torna possível se você lever um recipiente pequeno vazio na sua bolsa de praia.

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Dica 4- Pergunte

Não se contente de constatar que não tem nada vegano na mesa e sentar com o prato vazio sem dizer nada. No primeiro dia na pousada percebi que eu só poderia comer cuscuz e frutas. Então perguntei à cozinheira se tinha tapioca. Ela disse que não, mas que tinha ovo, queijo, salsicha, bolo… Expliquei que não comia nada daquilo e quando ela perguntou de volta “E você come o quê?” respondi com as opções que poderiam ser encontradas por lá: tapioca, macaxeira, inhame, batata doce, cará. Pois não é que na manhã seguinte fui presenteada com tapioca com coco e macaxeira cozida? Claro que suas expectativas devem se manter dentro das possibilidades locais. Em casa, de manhã, também como omelete de grão de bico, hummus, tofu mexido, queijo de castanha, vitaminas de frutas com leite de coco… mas sabia que isso não seria possível por lá. Sempre pergunto por opções veganas em todos os restaurantes, hotéis, pousadas por onde passo, mesmo tendo certeza absoluta que não tem nada 100% vegetal no lugar. Mas só o fato de perguntar e fazer sugestões (dentro das possibilidades locais) já é um tipo de ativismo. Você estará informando que existe um público vegano e que nós também gostaríamos de comer ali. Talvez não tenha nada pra você na hora, mas a próxima vegana que passar por lá pode ser recebida melhor.

Vou ficar por aqui, mas tenho um pedido. Pessoas veganas lendo esse blog, se tiverem mais dicas, compartilhem nos comentários. E pra terminar, um visitante que apareceu na nossa varanda em Baía Formosa trazendo uma mensagem. “Fora Temer!” e “Fora Trump!”, ele disse.

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