Muitas luas atrás eu comecei uma série de entrevistas com pessoas veganas. Recentemente resolvi dar continuidade à série, mas com versões mais curtas, publicadas no meu perfil no Instagram. Também decidi que iria entrevistar (por enquanto) apenas pessoas não-brasileiras, pra mostrar as cores do movimento vegano no exterior. O veganismo liberal das ONGs e celebridades de Instagram acaba dando uma ideia falsa do veganismo e eu queria mostrar como o movimento é diverso e construído por pessoas que entendem o veganismo como uma extensão lógica da luta anti-opressão. Existe um esforço em propagar o mito de que fora do Brasil o movimento vegano é homogêneo e todo liberal. Nos países onde morei (França, Palestina, Inglaterra, Alemanha, Líbano e Bélgica) pude constatar que isso não podia estar mais longe da realidade. Então pensei em trazer as vozes de algumas militantes antiespecistas do exterior pra que vocês vejam por si mesmas.

Como essa série foi pensada pra ser compartilhada no Instagram, onde os caracteres são limitados, faço apenas três perguntas: 1- O que é veganismo? 2-Por que você se tornou vegana? 3-Como derrubar o especismo?

Mas quando pedi ao meu querido amigo Craig pra responder essas perguntas, ele me enviou um texto longo demais pra ser publicado no Instragram, mas interessante demais pra não ser compartilhado. Então a solução foi postar uma versão bem curta no Instagram e publicar a versão integral aqui.

Craig é britânico, um dos maiores militantes antiespecistas que conheço e vegano há mais de 30 anos.

O que é veganismo?

Pra mim, o veganismo tem a ver com a capacidade, usando do meu privilégio, de me desligar um pouco de um sistema de exploração. Existem inúmeras maneiras pelas quais animais humanos e não humanos são explorados neste mundo e eu sinto que se nós, como indivíduos, pudermos fazer algo para impedir que um dano seja causado, removendo nosso apoio físico ou financeiro a esse sistema, então isso se torna um imperativo moral.

Veganismo -boicotar produtos vindos da exploração animal, seja o alimento que comemos ou bebemos, ou as roupas que vestimos- é apenas parte da solução, definitivamente não é a única coisa que podemos ou devemos fazer. Nós, que somos capazes de viver uma vida vegana, pessoas que têm o privilégio de escolher o que consomem, precisamos fazê-lo. Como podemos continuar a participar de um sistema que gera sofrimento se nós temos a capacidade de sair dele? “Por que ser cruel quando você pode ser gentil?”, como um amigo disse uma vez.

Acredito firmemente que veganismo não é uma dieta, é um ato político, um ato de solidariedade com animais não-humanos. É um ato político de boicote análogo à campanha pra boicotar produtos israelenses por causa da ocupação da Palestina, ou ao boicote aos produtos sul-africanos em apoio àqueles e àquelas que viviam sob o regime de apartheid naquele país.

E o veganismo certamente não é o mesmo que “plant-based”, que não passa de uma escolha dietética sem substância que pode mudar a qualquer momento. Isso significa que ser vegana é mais do que apenas evitar produtos de origem animal, é estar ciente de como tudo o que consumimos é produzido: considerando as pessoas que cultivam, colhem, produzem os alimentos, o impacto ambiental dessa produção e consumo, etc.

Ser vegana definitivamente não é sobre ser ‘perfeita’, o que é impossível. Eu vivo em uma sociedade capitalista, onde a maioria das coisas que faço têm um efeito prejudicial sobre outros animais (humanos e não-humanos) e pro meio ambiente. Pra mim é sobre estar ciente desses danos e aprender o que posso fazer para reduzi-los ou eliminá-los o máximo possível. A conscientização é o primeiro passo pra criar mudanças.

Por que você se tornou vegano?

No início da adolescência comecei a militar por direitos humanos e descobri como todas as questões de exploração estão interconectadas. Eu cresci na Inglaterra e na época a mídia estava cheia de imagens angustiantes de pessoas passando fome na Etiópia. Eu já quase não comia carne, porque a ideia de que animais eram mortos pra que eu os comesse não me agradava, e uma vez que tomei consciência do impacto das dietas ocidentais centradas em carne na vida das pessoas no Sul Global parar de comer carne por completo era o única opção possível para mim.

Eu li livros sobre soberania alimentar e fiquei horrorizado ao descobrir que enquanto populações inteiras passavam fome, seus países cultivavam grãos pra serem exportados e alimentar animais de criação no Norte Global. A causa de tanta pobreza e fome não era um excesso de pessoas no mundo nem uma escassez de comida, era o capitalismo, que depende da distribuição desigual de recursos pra existir. Tornar-se vegetariano quase não foi uma escolha, foi uma necessidade.

Naquela época eu não conhecia nenhuma pessoa vegana, mas quando me tornei ativo no movimento por direitos animais o veganismo foi o próximo passo lógico.

Ter me tornado vegano na adolescência, mais de 30 anos atrás, fez com que eu tivesse que aprender a cozinhar. Na época havia poucos alimentos processados veganos disponíveis, geralmente encontrados apenas em lojas especializadas de alimentos saudáveis. Isso foi realmente benéfico. Comecei a usar ingredientes dos quais nunca tinha ouvido falar (muitas leguminosas) e experimentar receitas (principalmente asiáticas). Venho de uma família da classe trabalhadora, meu pai e minha mãe tinham vários empregos ao mesmo tempo, muitas vezes trabalhando também durante a noite. Por isso comíamos muitas refeições processadas, rápidas de preparar e à base de carne. Aprender a cozinhar sem acesso a uma montanha de ingredientes processados fez com que eu passasse a comer de maneira mais saudável do que antes de me tornar vegano.

O veganismo amplamente promovido atualmente, que passa por aumentar a oferta de ultraprocessados nada saudáveis que imitam as opções de baixa qualidade comidas por pessoas não-veganas, apoiando multinacionais que prejudicam animais, pessoas e meio ambiente não faz parte do veganismo no qual acredito. Ocasionalmente gosto de comer um ultraprocessado vegano, mas ter sido vegano por tanto tempo sem acesso a esses produtos definitivamente fez com que eu aprendesse a me alimentar de uma maneira mais saudável.

Como derrubar o especismo?

Só podemos acabar com o especismo reconhecendo que a luta por libertação animal não pode ser separada da luta pela libertação de todos os seres, humanos ou não-humanos.

Grande parte da população mundial já tem uma dieta quase toda vegetal, não por escolha, mas por falta de escolha (a pobreza econômica que limita o acesso a alimentos). Nas próximas décadas provavelmente veremos mais pessoas nos países mais ricos, onde hoje o consumo de produtos de origem animal é elevado, se tornarem veganas. Não necessariamente por preocupação com os animais, mas por causa da crescente conscientização dos danos causados por produtos de origem animal ao meio ambiente e à saúde das pessoas. A produção de carne e laticínios está literalmente nos matando e destruindo o planeta.

No entanto, precisamos garantir que os direitos dos animais não-humanos sejam uma pauta central nessa mudança. Promover o veganismo como um ‘estilo de vida’, como ‘ alimentação plant-based’, fazer campanhas incentivando o tal do “part time vegan” (“parcialmente vegana”) ou apenas relacionar o veganismo à crise climática não vai acabar com o especismo.

Discussões recentes sobre a crise climática, particularmente graças a Greta Thunberg, e a atual pandemia COVID-19 revelaram que não podemos continuar vivendo da mesma maneira destrutiva que muitos de nós (principalmente no Norte Global) vivemos. Acabar com o especismo é essencial pros seres humanos, mas não devemos acabar com práticas prejudiciais apenas porque nos afeta diretamente. Seria egoísta.

Também precisamos reconhecer que grande parte da população mundial não tem os mesmos privilégios que muitas de nós, no movimento dos direitos dos animais, temos. Principalmente ocidentais. A maioria das pessoas não tem acesso ao leque de opções que está à nossa disposição na hora de escolher o que comer. Mesmo no Norte Global há uma enorme desigualdade no que diz respeito ao acesso à comida, principalmente quando se trata de pessoas racializadas. Além de mudar nossa atitude para com animais não-humanos, é preciso mudar nossa atitude com outros humanos.

“Somente através de uma luta anti-opressão consistente o veganismo poderá crescer e deixar de ser o movimento marginal que é atualmente. Pessoas veganas devem se conscientizar, aprender e se envolver com a luta pelos direitos humanos pra elevar os direitos não-humanos. Ser consistente com a luta anti-opressão dentro do nosso movimento não significa retirar os não-humanos do centro do seu próprio movimento. Significa criar um ambiente onde as comunidades marginalizadas não sejam mais oprimidas e alienadas pelas ações do movimento. ”
Julia Feliz Brueck, Veganism in an Oppressive World.

*Craig não gosta de exibir sua cara na internet, por isso a “arte” na foto 😉

Dia 4/07 aconteceu a Parada Política do Orgulho LGBT+ em Paris. A Parada política existe justamente pra protestar contra a Parada oficial, patrocinada por bancos e cartões de crédito, que transformou esse dia tão importante, onde ocupamos as ruas pra honrar a memória das que lutaram antes de nós e continuamos a luta por direitos LGBT+, em uma festa despolitizada pra celebrar o pink money.

A Parada política desse ano teve dois temas principais: a luta antirracista e o impacto do corona na vida das pessoas LGBT+ precarizadas. Ela foi organizada por dezenas de coletivos e organizações LGBT+ locais, algumas que constroem esse luta há décadas. Sem carro de som, sem os balões e banners dos patrocinadores (sem patrocinadores), sem celebridades, mas com percussões e, principalmente, com nossas vozes gritando alto e forte pelas ruas de Paris: “Não tem ‘orgulho’ sem migrantes indocumentadas”, “Não tem ‘orgulho’ sem as deficientes”, “Basta dessa sociedade que não respeita as trans, as sapatonas e as racializadas”, “Todo mundo detesta a polícia”, “Nosso orgulho não está à venda” ,“Nosso orgulho é político”, “Queremos libertação LGBT, não capitalismo rosa”, “Sem justiça, não há paz!” e “Vidas negras importam”.

E já que um dos temas centrais da parada desse ano foi a luta antirracista, era muito importante que um grupo de pessoas LBGT+ não-brancas liderasse a marcha. Eu digo “não-brancas” aqui porque na França a questão racial é mais complexa do que no Brasil, no sentido de que além do racismo contra a população negra, tem o racismo contra as populações árabe e Rom, muitas vezes ainda mais estigmatizadas. Eu já falei sobre isso no post sobre a luta contra a islamofobia, mas vale repetir. Na França uma pessoa negra é 6x mais suscetível de ser parada pela polícia na rua do que uma pessoa branca. Já uma pessoa árabe é 8x mais suscetível de ser parada pela polícia do que uma pessoa branca.

Foi incrível fazer parte desse bloco e caminhar do lado de tantas pessoas LGBT+ racializadas. Sempre que alguma pessoa branca entrava no bloco, alguém avisava que ali era um espaço pra pessoas racializadas e a pessoa branca ia se juntar às milhares de outras pessoas caminhando atrás do bloco. Menos, adivinha, alguns homens brancos que se recusaram a respeitar o pedido da galera e ficaram a dois dedos de agredir fisicamente as pessoas do bloco, enquanto repetiam o o famigerado: “Somos todos iguais! Não precisa dividir o movimento!” Claro, homem branco, somos tão iguais que você se recusa a respeitar o desejo de pessoas não-brancas de ter um espaço só pra elas, mesmo por apenas algumas horas, e quer impor sua presença em todos os espaços, porque quem manda no mundo é você, né?

Eu caminhei a maior parte do tempo no bloco das LGBT+ racizadas, enquanto Anne, que é branca, estava fazendo fotos na parte de trás. Sim, eu estava lá. Sei que no Brasil eu sou considerada “branca”, mas na Europa eu sou “latina” e “latina” não é branca.

Sempre que digo isso pra brasileiras a galera arregala os olhos. “Como assim, você não é branca?” E como eu acabei de ler um artigo extremamente interessante sobre o processo de racialização (ou etnicização), vim conversar com vocês sobre isso.

Aqui na França o termo “racializada” é o mais utilizado pra falar de uma pessoa não-branca (o equivalente do “people of colour” em Inglês). É importante entender como o processo de racialização opera pra entender o racismo (não só anti pessoas negras, mas também anti árabe, anti Rom, etc).

Uma pessoa racializada é “uma pessoa que pertence, de uma maneira real ou suposta, a um dos grupos que passou por um processo de racialização. A racialização é um processo político, social e mental de alteridade. Observe que ‘raças’ e o que chamamos de grupos ‘raciais’ ou ‘étnicos’ costumam ser uma mistura de gêneros, como por exemplo muçulmanos ou judeus (religião), negros (cor da pele), árabe (idioma) ou asiático (continente). O termo ‘racializado’ destaca o caráter socialmente construído das diferenças e sua essencialização. Ele enfatiza que a raça não é objetiva nem biológica, mas que é uma ideia construída que serve pra representar, categorizar e excluir o ‘outro’. ” Alexandra Pierre, militante feminista negra.

Ou seja, é o processo de construir um “outro” que é diferente (de diversas formas) do “padrão” do grupo dominante. E sim, amigas brasileiras, nós, da América do Sul, somos o ‘outro’ do francês.

Antes de prosseguir quero deixar registrado que não estou dizendo que na França eu, como “latina”, sofro o mesmo tipo de discriminação e opressão que pessoas negras ou árabes sofrem. Estou apenas frisando que no contexto francês eu não sou vista, nem tratada, como uma pessoa branca. Mas sabemos que tem hierarquias dentro desse processo de racização e cada grupo racizado será oprimido de maneiras diferentes.

Obviamente reconheço perfeitamente que no Brasil eu sou branca e sempre tive acesso a todas as facilidades reservadas às pessoas brancas. Se a Parada política fosse no Brasil, eu não entraria no bloco de pessoa não-brancas alegando que “na França eu não sou branca”. Nunca faria isso! Estou apenas dizendo que uma pessoa como eu, vinda do Brasil e com a pele clara, mas não exatamente branca de olhos claros, ocupa lugares diferentes de acordo com o país em que está. Na Palestina a galera me lia como branca. Na Turquia também. Na maior parte da Europa, não. E, o mais curioso de tudo, em certos casos fui lida como branca aqui na França e já explico como essa “mágica” aconteceu.

Eu descobri que não era branca aos 20 anos, quando me mudei pra Paris. Eu era babá de duas crianças francesas (uma irmã e um irmão) e fiquei muito próxima delas, que cuidei durante os 6 anos que morei aqui como universitária. Como a mãe e o pai das crianças trabalhavam muito, eu acabava indo a todos os eventos das crianças. Por isso quando a menina começou a fazer aula de dança e teve o primeiro espetáculo, eu fui. Eu era a única babá ali, todas as pessoas presentes eram mães das crianças (não lembro de ter visto nenhum pai). Então quando a professora de dança, no final da apresentação, falou sobre o progresso de cada criança com sua mãe respectiva, mas não veio falar comigo, deduzi que ela tinha captado que eu não era a mãe da menina (aos 20 anos eu tinha cara de 12) e não me interessaria pelo assunto.

No caminho de volta pra casa a menina, vou chamar de M., falou o seguinte. “Sandra, você acha que a professora não falou com você porque você não é branca?” Eu fiquei olhando pra ela com a boca aberta. Como?

M. não falou isso com indignação, parecia algo bem óbvio pra ela. Aos 6 anos ela já tinha entendido que no mundo as pessoas eram brancas (como ela) e tratadas com respeito, ou não-brancas (como eu) e podiam ser ignoradas. Não sei qual das duas informações me chocou mais no momento. O fato de ter descoberto que eu não era branca, depois de ter vivido minha vida inteira até ali acreditando que eu era, ou o fato de uma criança de 6 anos ter se dado conta do racismo, mas parecer ter normalizado aquilo ao ponto de não se indignar se uma pessoa que ela gostava fosse ignorada por não ser branca. (Ainda acredito que a professora não falou comigo porque eu não era a mãe de M. , mas o fato da menina ter me feito aquela pergunta mostra como ela me percebia de maneira diferente das pessoas brancas.)

Anos mais tarde eu estava conversando sobre quem era branca e quem não era com o menino, que vou chamar de L. Ele, que tinha a pele mais bronzeada do que a minha, dizia que era branco, mas eu, não. Eu coloquei o braço do lado do dele, que era vários tons mais escuro do que o meu, pra ver como ele ia explicar aquilo. Ele ficou desconcertado, sem saber como explicar o fenômeno, e no final gaguejou que ele era branco porque era francês e eu não era porque vinha do Brasil. Pra L. a branquitude tinha a ver com a nacionalidade. O Brasil era um país de não-brancas, então não fazia diferença se minha pele era bem mais clara do que a dele. Não é a cor da pele que fazia de mim uma não-branca, era a minha nacionalidade.

Parênteses pra explicar que uma pessoa nascida no Brasil, mas loura ou ruiva e de olhos claros, será lida como branca aqui na França. A ascendência europeia dela é imediatamente identificada, o que faz com que ela não seja racializada. Ela não é o ‘outro’, é parte do universal (o europeu). Então talvez seja importante dizer que não é apenas o fato de nascer no Brasil (ou na América do Sul) que faz de uma brasileira uma pessoa não branca na França. Não é a conexão com o país em si (geográfica) e sim com os povos nativos daquele país.

Já que vim trazer verdades pra ajudar na reflexão anti-colonial, abro outro parênteses pra explicar que o Brasil não é Ocidente. Sim, você leu certo. Sei que é comum se falar no Brasil “porque no Ocidente isso, a visão ocidental aquilo” sempre se incluindo nesse grupo, mas não, coleguinha, não somos ocidentais. “Ocidente” faz referência a uma organização colonial do mundo. Significa o Norte Global: a Europa, embora não toda a Europa, América do Norte (EUA e Canadá) e Austrália e Nova Zelândia (embora esses países estejam no Hemisfério Sul). Trocando em miúdos, Ocidente é o lugar de onde saíram os colonizadores e as ex colônias mais prósperas e brancas.

Embora tenham me perguntado muitas vezes aqui se minha pele clara vinha de uma ascendência europeia, fica evidente olhando pra minha cara que não tenho só europeus como antepassados, o que me classifica imediatamente na categoria do “outro”. O quão branca uma pessoa brasileira precisa ser pra ser considerada branca na França também? Como Alexandra Pierre explicou, o conceito de ‘raça’ é subjetivo, mas sabemos que 1- indivíduos com cabelos e olhos claros (não estou falando de cabelo pintado, obviamente) serão lidos sempre como brancos e 2- indivíduos de pele negra serão sempre lidos como não brancos. Mas entre esses dois polos tem muitas variações.

E é justamente por isso que já fui lida como branca aqui. Tenho uma história engraçada que ilustra perfeitamente isso.

Muitas luas atrás, quando eu ainda era universitária em Paris, entrei numa farmácia pra comprar um protetor solar. O farmacêutico, muito solícito, perguntou se eu precisava de ajuda. Eu disse “Tô procurando um protetor solar.” Veja, Francês é minha segunda língua e meu sotaque é discreto. Tão discreto que quando troco frases curtas, ele pode passar desapercebido. O farmacêutico achou que eu era francesa e disse: “Como você tem a pele branca, eu aconselho esse protetor aqui” e me deu um bem alto. Continuei a conversa com ele e falei que tinha que tomar cuidado com o sol porque, por ser brasileira, minha pele já tinha sofrido muito com ele. Ele me olhou desconcertado e falou: “Você é brasileira?” E imediatamente pegou o protetor 50 que ele tinha proposto e me ofereceu um mais baixo, dizendo: “Então esse aqui já tá ótimo pra você.”

O farmacêutico tinha achado que eu era branca porque deduziu que eu era francesa. Mas bastou ele descobrir minha origem brasileira pra imediatamente me classificar em um grupo diferente. Em outras palavras, me racializar.

Já um tio-avô de Anne, ao me conhecer, ficou o jantar inteiro me encarando com aquela cara de Nazaré confusa. Até que ele não se aguentou e perguntou: “Não é comum ter brasileiras com a pele leitosa como a sua, né?” Minha pele era leitosa, não “branca”, porque na cabeça dele não era possível ser brasileira e branca. (Não que eu faça questão de ser lida como branca aqui na França ou em qualquer lugar. Entro no bloco de pessoas racializadas e sinto que essa é a minha turma.)

E teve todas as vezes que me falaram “Ah, mas você é branca demais pra ser brasileira”, como se fosse elogio ser branca e algo ruim ser brasileira. Ou quando me olham desconfiados (geralmente homens) e dizem: “Você não tem o tipo da brasileira.” Não vou nem explicar o que isso significa porque todo mundo entendeu, né?

A discriminação com “latinas” se manifesta de maneiras mais sutis, mas aí se junta com a questão do sexismo e pode ser extremamente violento. Tem essa ideia de que mulheres latinas são “calientes”, querem fazer sexo com qualquer homem que aparecer pelo caminho, são necessariamente heterossexuais e se mudam pra Europa com o único objetivo de encontrar um marido europeu.

No meu primeiro ano de faculdade na Sorbonne um professor, que era também o diretor do curso, apontou pra mim e mais duas outras estudantes, uma mexicana e outra venezuelana, e falou pra turma inteirou ouvir: “Por que vocês estão se dando o trabalho de conseguir um diploma? É muito melhor arrumar um marido francês, aí vocês não precisam se preocupar com mais nada.”

A visão ocidental/colonialista que os “brancos” tem de nós mudou pouco desde a invasão europeia: somos menos inteligentes, menos sérios (no sentido “confiável”), o Brasil é um lugar de atraso…

Um médico francês me perguntou se era tranquilo ir pro Brasil e levar seu bebê com ele. As palavras exatas dele foram: “Se meu bebê adoecer, é fácil encontrar um médico pra consultá-lo?”

As crianças também imaginam o Brasil como um lugar exótico e uma menina me perguntou se tinha prédios e carros no Brasil. Perguntei onde ela imaginava que a gente morava. “Em árvores!” Ela também me disse que sonhava em se mudar pro Brasil pra poder usar biquini todos os dias, o tempo todo, em todos os lugares.

Uma outra pessoa francesa me perguntou onde eu tinha estudado. Falei “graduação nessa faculdade aqui, início de mestrado nessa outra ali”. Como comecei o mestrado em Linguística na universidade mais prestigiosa da França, quando ela me ouviu pronunciar esse nome ela me interrompeu e disse: “Não, não pode ser. Você deve estar se confundindo de universidade.”

Como postei esse texto primeiro sob forma de uma série de stories no Instagram, muitas pessoas me escreveram depois pra contar que viveram experiências parecidas quando foram morar fora do Brasil. É estranho quando seu lugar no mundo muda de uma hora pra outra, principalmente se você passar de um lugar privilegiado (branca no Brasil) pra um lugar subalterno na hierarquia social do país novo. Mas eu achei a experiência de passar a ser vista como o “outro” como uma baita oportunidade de reflexão, de questionamentos e de amadurecimento.

Lembro de um livro de Isabel Allende, acho que “Paula”, onde ela conta que a nora era racista no Chile. Aí quando ela foi morar nos EUA, deixou de ser vista como “branca” e passou a ser “latina”, o que fez com que ela desconstruísse o racismo que a acompanhava há tanto tempo.

Não estou dizendo que é preciso sair do Brasil pra deixar de ser racista (dá pra fazer esse trabalho aí), nem que toda pessoa que mudou de país e deixou de ser vista como branca vai necessariamente se tornar uma pessoa anti-racista em casa. É muito mais complexo.

O artigo que li hoje, e que mencionei no início desse post, foi escrito por Ariella Aïcha Azoulay e foi publicado na última edição da revista The Funambulist. Azoulay é uma escritora nascida em Israel, em uma família árabe-judia da Argélia. Ela se mudou pros EUA em 2012 e é professora na Brown University. O último livro dela se chama “Unlearning Imperialism”.

O artigo que me fez pensar em escrever essa série de stories é uma crítica ao mito do termo “Judeo-Cristão”, ou “tradição judaico-cristã”. Como judia, ela está longe de esquecer que durante a maior parta da História o povo judeu não foi considerado branco, independente do país de origem e da cor da pele e olhos, o que custou a vida de milhões de indivíduos.

Como falei no início do texto, racialização não é necessariamente sobre a cor da pela, mas sobre um processo político, social e mental de alteridade. É sobre criar um “outro”. Grupos que hoje são brancos já foram historicamente não-brancos. Irlandeses, tanto com relação ao Reino Unido como quando migraram pros EUA, são um exemplo. Judeus constituem outro grupo “embranquecido”. E é esse processo de embranquecimento, que veio acompanhado da invenção do termo “judeu-cristão”, como se esses dois grupos tivessem experiências compartilhadas, que ela critica no artigo. Vou traduzir alguns trechos aqui.

“O termo ‘judaico-cristianismo’ é uma das mais recentes iterações da prática imperial de assimilação, que foi materializada em um Estado-nação com interesses Cristãos-europeus chamado Israel.”

Azoulay explica como na Argélia colonizada a França tratava de maneira diferente os e as argelinas judias e criaram escolas francesas pra elas, num longo processo de “embranquecimento” cujo objetivo era ensinar argelinas judias a não mais se verem como árabes. Qual o interesse da França em fazer isso? Se trata de uma velha prática colonial, dividir pra melhor controlar. À partir do momento em que judeus/judias argelinas passaram a acreditar que eram diferente de argelinas muçulmanas, que estavam mais próximas dos colonizadores brancos do que da comunidade da qual tinham feito parte até ali, elas passaram a discriminar argelinas muçulmanas. Algumas décadas depois da invasão da Argélia pela França, argelinas judias ganharam a nacionalidade francesa, prova de que o processo “embranquecimento” tinha sido completado com sucesso. Nas palavras de Azoulay:

“Com a conquista da Argélia pelos franceses os judeus foram colocados à parte dos árabes e foram transformados em ‘problema’. Forçados a se livrar de tudo que os identificava como indígenas, pra que algumas décadas mais tarde o regime colonial pudesse recompensá-los pelos sues esforços com o ‘presente’ da cidadania francesa.

Em Israel, pra onde meu pai imigrou em 1949, ele pode tirar vantagem da barganha imperial da II guerra mundial, já que sua cidadania francesa -dada aos judeus argelinos em 1870- significava que ele podia se passar por um judeu europeu (ou seja, branco), e ser assimilado, ao custo de esquecer que era árabe.

O Estado de Israel não só foi criado com ferramentas imperiais (colonização, partilha, deportação, formato de Estado-nação), ele também replicou a dominação de europeus brancos de origem judia, que transformaram sua maneira de ser judeu na única maneira de ser judeu – uma maneira Judeo-cristã. Nesse projeto, europeus de origem judia tiveram que ser embranquecidos (…) Pra se tornarem brancos, judeus europeus precisavam de outros judeus pra serem os seus judeus não-brancos. É nisso que repousa o coração do Estado imperial.

O presente da Palestina foi dado como recompensa pelo embranquecimento dos judeus. A criação do Estado de Israel e a imposição de um sistema de cidadania diferente transformou o ser árabe em ameaça. A proximidade temporal entre a invenção do termo Judeu-cristão (1945) e a criação do Estado judeu (1948) não é coincidência.”

Eu falei sobre o processo de se descobrir não branca na França, quando no Brasil sou lida com branca. O processo descrito por Azoulay aqui é o inverso e numa dimensão muito mais ampla. Ela fala do embranquecimento de um grupo historicamente considerado não-branco (judeus) e de como isso só pode acontecer se outro grupo de não-brancos for criado. É uma dança das cadeiras da alteridade: judeus europeus adquirem status de brancos, às custas de judeus árabes, que se tornam os judeus não-brancos dos judeus europeus brancos. E os judeus árabes? Passam a tentar a todo custo se aproximar da branquitude oferecida aos judeus europeus, negando o ser árabe e tentando se assimilar à maneira única de ser judeu (branco e europeu). O árabe agora se transforma em ameaça, como ela explica no artigo.

Israel é um país extremamente racista onde judeus europeus estão no topo da hierarquia, seguidos por judeus árabes e, no degrau mais baixo, estão os judeus negros (etíopes). Mas Israel se acha um país branco e ocidental. Eu sempre achei risível o fato de Israel participar do campeonato europeu de futebol, ou do Eurovision (o “The Voice” europeu), como se esse país do Oriente Médio fizesse parte da Europa.

E o que dizer dessa notícia do jornal israelense Haaretz?

“Israel ocupa o terceiro lugar em maior taxa de contaminação diária entre países europeus, diz a OMS” O memo avisando que Israel saiu do Oriente Médio e migrou pra Europa chegou aí? Porque aqui não recebemos nada.

Ter descoberto que sou uma pessoa racializada no contexto francês abriu uma janela de reflexão dentro de mim que nunca mais se fechou. Precisei entender o processo político, social e mental de racialização, a construção do ‘outro’, pra começar a descontruir o racismo dentro de mim. Pra entender que aceitar que certos grupos sejam o meu “outro” significa ser cúmplice da dominação e violência exercidas contra ele. E também que nunca estarei a salvo de receber uma dose desse mesmo veneno: eu também sou o “outro” de certos grupos dominantes.

No início isso me desestabilizou. Mas foi um caminho sem volta pra reflexão permanente. Sei que continuarei sendo lida como branca no Brasil e em certos lugares fora dele também. Mas hoje não tenho mais desejo nenhum de provar que não sou o ‘outro’ do francês, como eu pude fazer assim que me mudei pra cá.

Gostaria de compartilhar mais alguns trechos do artigo de Ariella Aïcha Azoulay, pois temos muito o que aprender com ele.

“Ao contrário de muitos judeus de países árabes que foram forçados a viver em campos de passagem e usados ​​como escudos humanos para invadir cidades palestinas, meu pai se ofereceu para se juntar ao exército judeu e foi para Israel por vontade própria em 1949, após ter sido enganado pela propaganda sionista que o fez acreditar que a guerra contra os nazistas para salvar judeus na Europa continuava na Palestina, agora contra os árabes. Quase tudo que os imigrantes árabes trouxeram com eles para Israel foi rejeitado e ridicularizado. Eles foram incentivados a esquecer seus hábitos, heranças culturais, boa parte de sua comida e música (…) A lógica imperial depende da interrupção da memória intergeracional: os pais morrem e os filhos esquecem. Utilizada contra os palestinos, essa lógica pressupõe que eles esquecerão a Palestina. Utilizada contra judeus-árabes, significava que nós cresceríamos e nos tornaríamos ‘israelenses’, purgados das memórias árabe-judaicas, alienados da cultura palestina e aprendendo a ver os palestinos como inimigos.

O Estado de Israel é responsável pela destruição de séculos da vida judaica na África. Também é responsável pela destruição da cultura judaica árabe entre aqueles que migraram para Israel. Israel forneceu aos imigrantes novas memórias e novas origens, que apagavam os judeus da África.

Mas escolho desaprender o imperialismo: desaprendendo Israel e reconhecendo a existência da Palestina em seu lugar, desaprendendo a identidade israelense fabricada e recuperando a identidade judeu-árabe, desaprendendo o apagamento dos judeus da África que vê este mundo como algo que desapareceu, desaprendendo “Judaico-cristão” como termo fixo e, recentemente, rejeitando (embora neste caso eu não tivesse nada a desaprender) a feminilidade branca oferecida a mim como “judia” em troca de ser legível em um mundo em que judeu-árabe, judeu-palestino ou judeu-argelino eram identidades ilegíveis. Não vou aceitar essa barganha.”

Esse é o centro da minha reflexão aqui. Sobre essa “barganha” colonialista que é oferecida a alguns indivíduos no Brasil. Sobre a construção de uma nova subjetividade branca subalterna, que um leitor dos stories no Instagram colocou assim: “Podemos aplicá-la no processo de racialização no Brasil. Considere os ‘combos: ‘pretos x pardos’, pele mais clara x pele menos clara, nortistas/nordestinos x sudestinos/sulistas, centro x periferia…”

Assim, o grupo do qual faço parte (brasileira de pela clara, nas não visualmente europeia, ou seja, que não tem cabelos e olhos claros) entra nessa nova classe branca, mas subalterna ao brancos de cabelos e olhos claros, aprendendo a me entender como um grupo distinto e superior às brasileiras negras e indígenas, que se tornam o meu “outro”, o meu não-branco. Pessoas brasileiras de pele clara passaram a acreditar que têm mais em comum com colonizadores europeus do que com outros grupos de brasileiras (exatamente o processo que aconteceu na Argélia colonizada). Aí chegam na Europa e entram em choque quando descobrem que sua “branquitude” só existe no Brasil e que aqui ela é a não-branca, a racializada do povo francês.

Sabe Bacurau e o casal paulista/carioca que acha que é branco e vira motivo de piada pros estadunidenses? Exatamente isso.

Assim como A. A. Azoulay em seu artigo brilhante, também recuso essa “barganha” colonialista. Servimos os interesses de quem quando acreditamos que somos “brancas” e “ocidentais”?

Fica aqui o convite pra se aventurar por esse caminho e refletir sobre todos esses “outros” (negro, indígena, nordestino, periférico), artificialmente construídos. Pra não se deixar mais iludir por esse “presente” de branquitude/ocidentalização que pode ser oferecido pra algumas de nós. Está na hora de desaprender o colonialismo.

Outro dia uma moça me enviou uma mensagem pelo Instagram dizendo “Acompanho você desde os 11 anos, quando virei vegetariana. Estou com 21 anos agora e vegana há 5 anos.” Além da alegria proporcionada por esse momento Xuxa, me emocionei em saber que tem pessoas que acompanham meu trabalho há dez anos. Quanta honra!

Sim, esse blog completou 10 anos em fevereiro. Já contei como tudo começou?

Eu era vegana há 3 anos e morava na Palestina há 2. Na época minha vida se dividia entre o trabalho voluntário com o grupo de mulheres, no campo de refugiados, a militância (participar de ações de resistência, junto ao povo palestino) e meu projeto de “restaurante em casa”, que acontecia 2 vezes por mês. O trabalho com as mulheres era focado na culinária (falei dele aqui e aqui) e como eu desenvolvia receitas pros jantares que eu dava em casa (era assim que eu conseguia ganhar uns trocados por lá), eu passava a maior parte da semana escolhendo vegetais na feira e cozinhando.

Foi então que Anne sugeriu criar um blog de receitas. Ela achava minha comida maravilhosa e dizia que seria uma pena não compartilhar meus conhecimentos em culinária vegetal com mais pessoas. Embora eu tivesse achado a ideia bacana, eu sempre deixava pra depois. No fundo eu me perguntava se minhas receitas eram realmente dignas de serem publicadas, mas o fato de ter poucos blogs sobre culinária vegetal em Português (estou falando de 2009) acabou me convencendo que mesmo se minhas receitas não impressionassem tanto fora de casa, eu tinha uma contribuição a fazer pra comunidade vegana.

Até que veio essa noite de fevereiro de 2010, quando estava sozinha em casa (Anne tinha viajado pra Gaza, a trabalho) e a insônia me impedia de dormir. Fui pra sala, abri o computador e criei o blog.

E lá se foram dez anos! No início eu só postava receitas, sempre acompanhadas da história por trás delas. Eu tinha tanta receita no meu repertório que chegava a postar três por semana! Nesse época um amigo francês, que morava na Palestina, me perguntou como eu fazia pra inventar três receitas por semana, já que ele tinha inventado, no máximo, duas receitas durante a vida inteira. A verdade é que as ideias fervilhavam na minha cabeça e eu praticamente inventava uma receita nova por dia! Uma combinação muito feliz de fatores produzia isso. Por um lado eu estava cercada de ingredientes frescos e deliciosos (eu morava a poucos metros da feira, onde agricultoras vendiam diretamente seus produtos) e estava descobrindo uma culinária vibrante, a palestina, que vê o vegetal com tanto interesse, e o trata com tanto carinho, que os ingredientes animais. E que o devora com tanto prazer quanto! Por outro lado eu passei os primeiros anos do meu veganismo mergulhada em receitas, tanto as que eu inventava quanto as que eu via em sites estrangeiros e testava/adaptava na minha cozinha. Acho que toda vegana passou por essa fase. Quando você se torna vegana descobre que tem que reaprender a cozinhar tudo! Como se faz bolo sem ovos? Como se faz pratos cremosos sem creme?

Hoje, no meu décimo terceiro ano de veganismo, tenho um repertório extremamente vasto de receitas pra todas as ocasiões e a culinária vegetal passou a ser a coisa mais fácil, automática e descomplicada do mundo. Isso não significa que parei de desenvolver receitas. Mas como em qualquer outro aprendizado, o início requer mais atenção e esforço. Até que chega um ponto em que você já não precisa mais fazer esforço e as coisas fluem. Aprender a cozinhar (vegetal) é como aprender uma nova língua. Começa dando um certo trabalho, até que você fica fluente. Isso é algo que eu gostaria que as pessoas que dizem “ah, mas dá muito trabalho cozinhar comida vegana” entendessem.

Mas voltemos ao nascimento do Papacapim. Eu morava na Palestina e logo senti que era absurdo falar só de receitas enquanto, ao meu redor, as violações de direitos humanos se multiplicavam, o colonialismo avançava e a ocupação militar israelense se tornava cada vez mais brutal.

O primeiro post dessa nova linha editorial foi “Só pela subversão” e até hoje pessoas vem falar comigo depois das palestras que dou no Brasil pra contar a que ponto elas se sentiram tocadas por essa história.

Pra minha surpresa, misturar outras lutas sociais ao veganismo não fez com que leitoras saíssem correndo alegando indigestão, muito pelo contrário. Tenho muito orgulho de dizer que além de ter ensinado muitas pessoas a cozinhar, ter inspirado outras mais a se tornarem veganas, contribuí com a politização delas, principalmente sobre a luta palestina.

E o que dizer das pessoas que entraram na minha vida graças ao Papacapim e que se tornaram grandes amigas? Foram muitos convites pra dar palestras, muitas oficinas de culinária e a grande felicidade de participar da construção do movimento vegano no Brasil.

Os tempos mudaram e a era dourada dos blogs foi ficando pra trás à medida que redes sociais passaram a ocupar cada vez mais espaço nas nossas vidas. No início eu concentrava o meu trabalho aqui no blog (receitas, dicas de culinária, reflexões sobre veganismo e outras lutas) e usava o Instagram como um “por trás das cortinas”. O conteúdo era mais pessoal por lá: viagens, coisas que eu estava lendo ou comendo… Depois minhas leitoras aqui foram migrando pra lá, outras foram chegando sem nunca ter lido o blog e depois de alguns anos de resistência acabei levando o conteúdo que produzo aqui pro Instagram também. Isso significa que o trabalho dobrou, mas também que e a comunidade Papacapim está ainda maior.

O blog me acompanhou em todas as aventuras que vivi nos últimos dez anos. Escrevi posts da Palestina, claro, mas também de Bruxelas, de Londres, de Beirute, de Berlim, do Brasil e agora de Paris. E em cada lugar as receitas ganharam cores locais, as histórias refletiam minhas experiências convivendo com outras culturas… Abri o coração e perdi a conta de quantas mulheres fizeram a mesma coisa comigo, via email, carta ou pessoalmente.

O Papacapim representa uma parte muito importante da minha vida e muita gente me chama de “Sandra Papacapim”. Outro dia um amigo me contou que um amigo dele, tentando lembrar do meu nome, disse: “Aquela menina que tem um sobrenome bem diferente”.

Essa semana eu fiz algo que me pediam pra fazer há anos: uma campanha de financiamento coletivo. Eu tenho muita dificuldade pra pedir ajuda, o que explica minha hesitação por tanto tempo. Se antes eu me perguntava se minhas receitas interessariam alguém, hoje eu me pergunto se alguém estaria disposta a apoiar financeiramente o meu trabalho. Ainda mais em uma época tão difícil quanto essa que estamos atravessando agora.

Mas promover a construção do veganismo popular e criar pontes entre a luta por libertação animal e os outros movimentos sociais nunca me pareceu tão urgente. Se esse blog nasceu apenas como um espaço pra compartilhar conhecimentos culinários e ajudar quem estava pensando em ser tornar vegana, hoje eu vejo que a sua missão principal se tornou reafirmar o caráter político do movimento vegano, disputar o movimento com quem defende uma visão liberal, capitalista e excludente de veganismo e fortalecer nossa luta buscando alianças com outros movimentos e lutadoras, pra além da comunidade vegana. E pra continuar fazendo isso e ir mais longe, eu preciso de ajuda.

Quem quiser contribuir, clica aqui apoia.se/papacapimveganismopopular pra ir pra página da campanha. Se você não puder oferecer um apoio financeiro, saiba que divulgar o meu trabalho também é uma ajuda preciosa.

E pra comemorar, uma receita. Porque não tem melhor maneira de comemorar algo do que ao redor de comida boa e que não causou sofrimento em outros seres nem explorou quem a produziu.

Feijão macaça (fradinho) é um dos meus preferidos. Como ele dá caldo ralo (um caldo que eu adoro! Inclusive, recomendo usa-lo nessa receita), gosto de usar os grãos em saladas. Na verdade nem chamo isso de salada, é só a maneira como preparamos esse tipo de feijão na minha família: com tomate, cebola ou cebolinha e bastante coentro.

No Sertão é tradicional adicionar manteiga da terra (manteiga de garrafa) e muita gente por lá acha que é a única maneira de deixar ele gostoso. Mas, olha que notícia boa, descobri que feijão macaça gosta mesmo é de gordura, não necessariamente da gordura que vem da exploração de uma vaca lactante. Então um azeite gostoso aqui faz maravilhas! E se você tiver a sorte de ter óleo de babaçu por perto, essa é uma receita perfeita pra usar essa iguaria.

Feijão macaça como lá em casa


No RN, de onde venho, chamamos esse feijão de macaça. Outros nomes usados Brasil afora: fradinho ou feijão de corda. As medidas são aproximadas, pois faço tudo no olho. Adapte de acordo com seu gosto. Prefiro usar cebolinha aqui, por ter um sabor mais suave. Quando não tenho, uso um pouquinho de cebola comum. Porém só recomendo pra quem gosta de cebola crua. Se esse não for o seu caso e você não tiver cebolinha, melhor deixar as duas de fora e fazer esse prato só com os outros ingredientes.

3x de feijão macaça/fradinho cozido com sal (só os grãos)
1 tomate
Algumas cebolinhas (ou um pedaço de cebola)
1-2 pimentas de cheiro (opcional, só use se gostar)
Um punhado de coentro
Azeite, limão, sal e pimenta do reino a gosto

É importante que o feijão seja temperado quente, pra que ele absorva bem os temperos e fique saboroso. Então cozinhe o feijão com sal e deixe descansando dentro da panela fechada, no caldo, enquanto prepara os outros ingredientes.

Pique o tomate, a cebolinha (a parte verde e branca), a pimenta de cheiro e o coentro e coloque tudo no recipiente em que for servir. Se estiver usando cebola crua, pique um pedaço, de acordo com seu gosto, o mais miúdo possível.

Coloque o feijão cozido ainda quente (só os grãos) sobre o tomate/cebolinha/pimenta de cheiro/coentro picados. Regue generosamente com azeite, tempere com uma pitada de sal, pimenta do reino e suco de limão a gosto (comece espremendo meio limão). Misture bem, prove e corrija o tempero. Escute seu paladar e junte mais um bocadinho de azeite, limão ou pimenta, se desejar.

*A foto de abertura desse post foi feita numa feira da agricultura familiar na Palestina, poucos meses depois de ter criado o blog.