Duas coisas estão me revoltando profundamente aqui na França: o tratamento dado a migrantes/refugiados e a islamofobia. Pretendo falar sobre a questão de pessoas migrantes outro dia, porque essa militância está ocupando boa parte do meu tempo aqui. Mas hoje queria chamar vocês pra uma conversa sobre islamofobia. Pode parecer algo distante de nós, ou talvez você tenha uma visão negativa de pessoas muçulmanas, mas continue lendo que você vai entender por que essa questão não só é importante pra nós, como é também uma questão feminista.

Definições primeiro. Islamofobia é um tipo de racismo dirigido, como o nome indica, contra pessoas de fé muçulmana. O elemento religioso esconde (mal) o caráter racista da islamofobia, assim como vemos no Brasil com a perseguição às religiões de matriz africana. O ódio dos islamofóbicos tem mais a ver com o fato da maioria dos seus praticantes serem árabes do que com o Islam em si.

Em outubro um homem tentou incendiar a mesquita de Bayonne, no Sudoeste da França, enquanto pessoas rezavam lá dentro. Dois homens muçulmanos, de 74 e 78 anos, arriscaram a vida pra impedir o incêndio. O terrorista atirou nos dois antes de fugir e eles estão no hospital, em estado grave. O criminoso é um antigo candidato do Front National, o partido de extrema direita francês, e disse que queria queimar a mesquista pra “vingar a destruição de Notre Dame”. (O incêndio que destruiu uma parte da igreja Notre Dame, em Paris, foi acidental. Ninguém, muçulmano ou não, tentou destruir a igreja, que, graças à comoção internacional, já recebeu doações mais que suficientes pra consertar os estragos feitos pelo fogo.

A declaração oficial do Ministro do Interior Francês, Christophe Castaner, famoso pela islamofobia que ele não faz questão de esconder, foi a seguinte: “Os fatos cometidos na mesquita de Bayonne emocionam e indignam cada um de nós.” Os FATOS. Agora imaginem o seguinte: um muçulmano tenta colocar fogo numa igreja cheia, durante uma missa, e fere gravemente dois fiéis idosos que colocaram a vida em risco pra salvar as pessoas que se encontravam rezando ali. Todos os canais e jornais falariam de “atentado terrorista”. Mas “terrorista” tem cor e tem religião precisa e sabemos muito bem que pra mídia e pro Estado não existe terrorista branco. Aliás a mídia francesa já deixou bem claro que o cara que cometeu os “fatos” não passava de uma pessoa mentalmente instável.

O escritor francês Éric Zemmour está puxando o bloco da islamofobia aqui. Ele fez declarações como “A maioria dos traficantes são árabes ou negros. É um fato.” Sim, já ouvimos esse discurso racista antes. Porém o mais chocante não é o racismo de Zemmour, mas o fato dele continuar sendo convidado pra dar sua “opinião” (tradução: “vomitar seu racismo”) em vários programas de TV. Ele defende que os muçulmanos estão “invadindo a França” e que querem “impor seu regime totalitário ao povo francês.”

Essa teoria da “grande invasão muçulmana” foi repetida tantas vezes que acabou virando senso comum por aqui. Uma pesquisa do Institut Ipsos Mori, feita em 2016, mostrou que franceses (não-muçulmanos) acreditam que a população muçulmana na França é de 31%, quando na realidade ela é de 7,5%. Vejam com a percepção da realidade pelo povo foi alterada por causa do discurso islamofóbico “estão invadindo a França”.

E claro que não preciso explicar a presença de pessoas muçulmanas na França, né? Todo mundo sabe do passado colonial da França. O rapper Kery James nasceu em Guadalupe, de pais haitianos, e chegou na França aos 7 anos. Ele faz músicas de protesto extremamente fortes, mas tem uma canção em especial que é uma tijolada na cara do colonizador. Ela se chama “Carta à República” e começa assim:

“Para todos esses racistas com sua tolerância hipócrita
Que construíram sua nação com nosso sangue
Agora se acham na posição de dar lições de moral
Ladrões de riqueza, assassinos de africanos
Colonizadores, torturadores de argelinos
Esse passado colonial é o de vocês
Foram vocês que escolheram vincular sua história à nossa
(…)
E agora vocês tem que assumir
O cheiro de sangue persegue vocês, apesar de vocês se perfumarem
Nós, árabes e negros, não estamos aqui por acaso
Toda chegada teve uma partida
Vocês desejaram a imigração
Graças à ela, vocês encheram a pança até a indigestão
Eu acredito que a França nunca fez caridade
Imigrantes são apenas mão de obra barata”

Vi a frase “Foram vocês que escolheram vincular sua história à nossa” em vários cartazes nos protestos e atos contra a islamofobia que aconteceram nos últimos meses.

Voltando à conversa sobre islamofobia aqui na França, as maiores vítimas desse tipo de racismo são mulheres. Lembra que falei no inícios desse texto que se tratava também de uma questão feminista? Explico.

A França adora encher a boca pra falar que é um estado laico. Só que interpretam a Lei da Laicidade de 1905 de uma maneira bem peculiar. Essa lei separa a religião do Estado e garante a liberdade de culto (todo e qualquer culto). Em 2004 foi aprovada uma lei proibindo usar “sinais religiosos chamativos” em escolas públicas até o final do ensino secundário e em escolas técnicas profissionalizantes. A gente sabe muito bem que o alvo dessa lei são as meninas muçulmanas que usam véu, o único símbolo religioso que parece incomodar, justamente porque pertence à religião demonizada. Eu estava na faculdade, em Paris, quando essa lei foi aprovada e lembro da indignação das minhas colegas de classe muçulmanas.

Qual o problema dessa lei? Quem tem que ser neutro, não se ligar a nenhuma religião, é o Estado, não as pessoas! De acordo com a própria lei da laicidade, as cidadãs são livres de praticar a religião que escolherem, sem sofrer perseguição do Estado (liberdade de culto, lembra?). Olha a hipocrisia de ter férias de Páscoa e de Natal nas escolas públicas francesas, mas proibir uma secundarista muçulmana que frequenta essa mesma escola de usar um símbolo da sua religião!

“Com véu ou não, a escolha é minha”

O governo francês defende sua lei islamofóbica afirmando que o objetivo é: “Proteger meninas do extremismo religioso muçulmano.”

Talvez você esteja pensando agora: “Nossa, mas é verdade que as mulheres muçulmanas são submissas, mesmo. São obrigadas a cobrir os cabelos e tudo! Esse véu é o símbolo da opressão da mulher muçulmana e a França está certa em fazer isso pra protege-las.” Primeiro deixa eu dizer que eu já pensei assim. Segundo, por favor, peço que você continue lendo pra ter acesso à uma análise menos rasa da questão.

Antes de ir morar na Palestina, um país de maioria muçulmana, eu via a mulher muçulmana que usava véu exatamente assim: submissa e precisando da ajuda da mana feminista não-muçulmana pra liberta-la. Poderia falar muito sobre esse assunto, mas vou resumir em dois pontos.

1-Se é verdade que “o estado quer a libertação da mulher muçulmana”, será que proibi-la de usar véu na escola vai ajudar? Imagine que ela realmente é obrigada pela família a usar o véu (claro que não é verdade pra todas as mulheres, mas pra simplificar o argumento, vamos dizer que sim) e que agora ela não pode mais frequentar a escola de véu. O que você acha que a “família conservadora” dela vai fazer? Provavelmente tira-la da escola, já que a condição pra frequenta-la é retirar o véu. Você realmente acredita que impedir o acesso de meninas muçulmanas à educação vai ajudar de alguma maneira a emancipa-las?

2- O que está sendo discutido aqui é a agência das meninas e mulheres muçulmanas. Elas estão sendo proibidas de escolherem como se vestir, como demonstrar sua fé. Olha como é o mesmo sexismo sob outra forma: a mulher nem pode se descobrir demais (é “vadia”) nem se cobrir demais (é extremista religiosa/submissa e precisa ser libertada).

O caso mais extremo disso aconteceu em Nice, no verão de 2016. Uma senhora muçulmana estava curtindo a praia usando um legging, blusa de mangas compridas e um turbante combinando. Quatro policiais homens, julgando aquela roupa indigna do estado laico francês, cercaram a senhora e a obrigaram a retirar a blusa de mangas compridas (ela estava de regata por baixo). Sim, você leu certo: homens obrigando uma mulher muçulmana a se despir em público. Olha que ironia amarga: num passado não muito distante o errado era se despir demais nas praias. Biquinis, mesmo nas suas versões mais modestas, já foram proibidos.

O mais revoltante é que sabemos muito bem que esse discurso de “libertação da mulher” é utilizado por homens escancaradamente machistas, que buscam apenas esconder sua islamofobia por trás de um suposto “feminismo”. No grande protesto contra a islamofobia que aconteceu em Paris dia 10/11, mulheres muçulmanas gritaram pelas ruas “Não nos libertem, nós mesmas cuidamos disso.”

E além de não poder frequentar a escola de véu, aqui na França também tem várias restrições nos passeios escolares com as crianças. Eu tenho um amigo que é professor de uma escola maternal em Strasbourg, no norte da França. Ele me contou que precisa da ajuda de mães voluntárias pra levar as crianças pra piscina, uma vez por semana. “Imagina o trabalho que é dar banho e vestir, sozinho, 35 crianças de 4 anos.” Só que muitas das mães voluntárias usam véu e por isso não podem entrar no espaço da piscina pública junto com o pessoal da escola (professores e alunas). Então elas ajudam a colocar a roupa de banho nas crianças, depois ficam esperando dentro do vestiário durante a sessão de natação, pra ajudar a dar banho e vestir as crianças no final. Elas são voluntárias, estão ali doando o seu tempo, e são obrigadas a esperar dentro de um vestiário. Meu amigo fica revoltado com esse absurdo, mas não pode fazer nada. E estão falando em criar uma lei pra proibir totalmente o uso do véu por acompanhantes de passeios escolares.

O pior é que as escolas que mais dependem dessas mães voluntárias pra organizar passeios com alunos são as que ficam em zonas mais precárias, onde o orçamento é ainda mais reduzido (não podem contratar pessoas pra fazer esse acompanhamento). E nessas zonas precárias a maioria dos habitantes são…muçulmanos. “É uma maneira de punir nossos filhos, pra que eles tenham ainda menos oportunidades de lazer” me disse uma muçulmana em uma reunião contra a islamofobia organizada pelas camaradas da UCL (União Comunista Libertária), aqui perto de casa.

Discriminação contra mulheres, reduzir sua agência, punir suas crianças, que são as mais pobres da França…

O último exemplo de islamofobia na França que quero compartilhar integra mais um elemento: o carnismo. Se segura aí que quando você achava que já tinha esgotado todas as possibilidades de discriminação, ainda tem mais.

Um grupo de mães da periferia de Paris, onde ficam alguns dos municípios mais pobres da França, organizaram um coletivo pedindo refeições vegetarianas na escola das filhas. Algumas são vegetarianas, outras se preocupam simplesmente com a saúde das crianças e do planeta, por isso decidiram reduzir seu consumo de carne. As escolas recusaram sistematicamente. Preciso dizer que essas mães periféricas são muçulmanas e/ou árabes?

As mães se viram como podem, algumas organizando todo um esquema pra que as crianças possam almoçar em casa (preparando almoços vegetarianos no pouco de tempo livre, contando com os filhos mais velhos pra ir buscar os filhos menores na escola na hora do almoço), outras, sem essa possibilidade, instruíram as crianças pra simplesmente deixar a carne da cantina no prato. Mas há anos continuam na luta pras escolas oferecerem uma opção vegetariana e nutritiva, na hora do almoço.
Fatima, vegetariana há bastante tempo, disse que quando conseguiu falar com responsáveis da área disseram que “o pedido não era representativo dos pais e era uma demanda ‘comunitarista’”. A França racista adora usar essa palavra quando se trata de minorias se organizando e fazendo demandas, mas quando só tem branco na parada, como na Assembleia Nacional, aí não é comunitarismo, não. Inventaram até que elas estavam exigindo comida “halal”, que é uma prática muçulmana pra matar animais de abate. Elas estavam pedindo refeições sem carne!!!

“Como nós somos habitantes da periferia, vindas da imigração, a conversa sempre fica presa ao debate sobre a laicidade, quando não é isso que estamos questionando. O bloqueio era total, como se recusar de comer carne fosse recusar de se integrar à sociedade francesa.” disse Fatima.

Só quando mães brancas também começaram a pedir refeições sem carne na escola o pedido foi acolhido. À partir do 1/11/2019 as escolas da região passaram a ter a obrigação de oferecer uma refeição sem carne por semana (!).

Fatima tem um blog e explicou que ficou claro que uma associação de mães composta de mães vindas da imigração post-colonial não pode escolher o que os filhos e filhas vão comer: o Estado colonial é que tem a autoridade necessária pra decidir por elas.

Decidir o que as filhas comem, o que as filhas vestem… Claramente algumas mães tem competência pra fazer escolhas pras suas crianças, outras não.

Termino dizendo o que vocês já devem ter se dado conta sozinhas lendo esses post: a caça às bruxas continua, só que a bruxa agora, na França, é muçulmana.

(Fotos de Anne Paq, feitas durante o ato contra a islamofobia dia 27/10 e a grande marcha contra a islamofobia do dia 10/11, ambos em Paris.)

Tem um prato que fez parte da minha infância no RN e que ainda me transporta algumas décadas no passado sempre que o preparo. É algo de uma simplicidade enorme e que eu achava que todo mundo, pelo menos todo mundo no meu mundo, o Nordeste, conhecia. Mas descobri esse ano que até mesmo dentro do meu estado a receita era desconhecida de muitas pessoas. Então me incumbi da missão de compartilhar essa humilde receita com o maior número de comedores possível, pois sinto que ela está ameaçada de cair no esquecimento geral.

E isso seria uma enorme perda. Sei que pra quem nunca provou essa delícia pode parecer algo bem estranho. Bolacha mole? Mas eu vejo assim: bolacha cremosa! Não é uma iguaria das mais refinadas, longe disso, mas é bom demais colocar colheradas da mistura na boca e sentir o sabor típico, delicado, reconfortante, a textura macia… Só provando pra entender (e se convencer).

Mas pra poder provar, você precisa primeiro achar a bolacha certa. A melhor é fabricada no RN e se chama Jucurutu. O RN tem uma tradição bolacheira muito respeitada e essa marca, Jucurutu, produz as bolachas mais famosas do estado. Me pergunto inclusive se a receita é potiguar, nascida pra aproveitar as bolachas deliciosas produzidas na região. Tem vários tipos de bolacha Jucurutu, mas a que queremos pra essa receita é a “tradição – original” (veja foto abaixo). Ela também é 100% vegetal. Se não achar bolacha Jucurutu, use uma parecida (sequinha, oca, de sabor suave – ela não pode ser doce), lembrando de ler os ingredientes, pois nem toda bolacha desse tipo é de origem vegetal.

Achar a bolacha certa é a parte mais difícil da receita. À partir daqui não tem dificuldade. Faça um leite de coco fresquinho, cozinhe a bolacha no leite por alguns minutos, tempere com sal e um fio de azeite e deguste com um café, na merenda. Vou escrever a receita em detalhes abaixo, pois sei que é novidade pra maioria das pessoas me lendo, mas ninguém precisa de receita pra fazer esse prato. Basta entender o conceito.

A versão que eu comia na infância usava leite de vaca, provavelmente porque o prato vem do interior, onde é comum usar “leite de gado”. Hoje faço essa bolacha no leite de coco, que não só produz um resultado tão saboroso quanto, como honra os produtos do litoral, onde nasci. Eu vi muito mais coqueiros do que vacas nos meus 20 anos morando em Natal, então não vejo essa versão como “veganizada” e sim como uma homenagem à minha terra.

Na verdade é a união do Sertão com o Litoral no seu prato.

Comida é uma parte fundamental da nossa identidade. E comida afetiva, como essa, é um elo entre os membros de uma comunidade: “Nós somos o povo que come bolacha assada no leite.” Então o fato da minha família, que cresceu com as mesmas referências gastronômicas que eu e que ainda consome leite de vaca, ter aprovado a nova versão desse prato tradicional prova que nossas referências gastronômicas não são imutáveis. Optar por uma vida vegana não significa rompimento com os rituais ao redor do fogo e da mesa: significa evolução.

Quando estive no Brasil esse ano fiz esse prato muitas vezes. Pra comer com minhas irmãs, sobrinhas, primos, mãe… Quando meu irmão caçula estava em casa, e ele se achega frequentemente nos dias de folga, e o relógio batia as 16h ele me falava: “Bora fazer um café e uma bolachinha assada?” A “bolachinha” era a minha receita vegetal. É uma delícia ter comprovação, de novo e de novo, de que é o ato de preparar comida e comer juntas que nos une e reforça o carinho. No final das contas não são os ingredientes de origem animal que criam essas tradições: é reunir pessoas queridas pra compartilhar algo saboroso e repetir o ritual vezes o suficiente até que nosso corpo comece a associar aqueles sabores aos bons momentos passados na companhia de quem amamos.

Bolacha assada no leite (de coco)

Essa receita do Sertão do RN foi a merenda de muitas crianças (e adultos) no passado. Pra não deixar a tradição desaparecer, aqui está uma atualização dessa receita tradicional, sem leite de Mimosa e com o delicioso leite de coco caseiro. Achar a bolacha ideal é essencial: sem ela, não tem como fazer esse prato. Ou tem, mas será outra coisa pela qual não me responsabilizo. Idealmente use bolacha Jucurutu Tradição – Original (tem a Tradição amanteigada, que não é vegana) ou algo semelhante. Esse post não é patrocinado, juro! No interior do RN chamamos esse tipo de bolacha de “bolacha de assar”.

Bolacha “de assar” (veja explicações acima)
Leite de coco caseiro (receita aqui – tem que ser caseiro, não fica bom com o industrializado)
Azeite e sal

Use uma panela pequena. Despeje a quantidade de bolacha que desejar comer (dois punhados de bolacha rende uma porção comportada) na panela e acrescente leite de coco fresco suficiente pra passar de um dedo o nível das bolachas. Quando você despejar o leite as bolachas vão boiar, então me refiro ao nível de bolacha seca, antes do leite entrar na panela.

Leve ao fogo médio. Quando começar a ferver (rapidinho) mexa com uma colher de pau até a maior parte do leite evaporar e as bolachas ficarem macias e levemente cremosas. Desligue o fogo, acrescente uma pitada de sal e um fio de azeite (opcional, mas bom).
Deguste com um café na merenda ou café da manhã.

OBS: Eu gosto de colocar cebola desidratada (cerca de 1cc rasa) na minha bolacha (na hora que acrescento o leite). Não é nada ortodoxo, mas fica uma delícia!

Durante a procura por apartamento aqui em Paris, um dos meus critérios de busca era ter fogão a gás. Em uma cidade onde quase todas as cozinhas são equipadas com placas elétricas, um fogão a gás é algo extremamente raro. Meu lar atual tem placas elétricas modernas (funciona por indução, seja lá o que isso quer dizer), mas apesar de preferir cozinhar com fogo, acabei me resignando. Sinto que tem algo de estéril em uma cozinha fria, onde não tem chama. (Crudívoras, não me detestem!) Talvez eu ainda me sinta muito apegada ao ato primitivo de reunir a comunidade ao redor do fogo e preparar o jantar enquanto se conta histórias. Talvez seja porque sou cozinheira e sei que não ter acesso à uma chama limita a gama de preparações culinárias possíveis (não posso preparar meu amado muta’bal, por exemplo). Mas o que tenho por enquanto são duas bocas elétricas e já adaptei minhas refeições ao que está ao meu alcance no momento.

Porém tem algo que está me fazendo muita falta na cozinha: um forno. Além de não ter gás, minha micro cozinha francesa não tem forno. A pessoa que nos alugou o apartamento não cozinhava (“Eu tomo sucos verdes” – ela explicou), por isso equipar sua cozinha com um forno era um despropósito.

Quando o verão chega e as temperaturas se tornam insuportáveis aqui (tenho péssimas lembranças dos meus verões parisienses), não faço questão nenhuma de ligar o forno. Posso passar semanas comendo saladas e frutas frescas. Mas a perspectiva de atravessar os meses frios do ano sem um gratinado, sem uma torta, sem uma lasanha me entristece. Nem gosto tanto de bolos, mas só porque agora não tenho forno passei a ter vontade de fazer meu bolo de melado e especiarias ou o bolo de laranja de Lu.

Além de desejar comida de forno durante o inverno, tem algo reconfortante em assar alimentos quando está frio e cinzento lá fora. Mas vou ter que enfrentar a chuva, o céu nublado e o frio intenso dos meses que virão sem a ajuda do aroma de algo assando no forno pra aquecer a casa e levantar nossos ânimos.

Então quando estive na casa do meu sogro umas semanas atrás aproveitei pra usar o forno em todas as refeições. Fiz até uma versão do bolo de Lu que ficou ainda melhor do que a original. Mas o que eu gostaria de compartilhar hoje é algo muito mais simples, porém não menos saboroso.

Gosto de assar quase todo tipo de legume, mas dependendo da estrutura do legume em questão o método de preparo varia um pouco. Legumes que crescem embaixo da terra, como batata, batata-doce, beterraba, cenoura etc. são densos (tem pouca água) e se beneficiam muito de um pré-cozimento na água antes de ir pro forno. Já legumes mais moles (cheios de água), como abobrinha, pimentão, tomate, berinjela e cebola, devem ir direto pro forno.

As receitas de hoje são tão ridiculamente simples que nem chegam a ser receitas. São métodos de cozimento que podem ser aplicados à uma infinidade de legumes. Mas o resultado é tão saboroso que vale a pena compartilhar as informações com vocês. E convenhamos que nunca em lugar nenhum alguém comeu algo delicioso e depois disse: “Que delícia! Uma pena que é tão simples.”

Talvez muitas pessoas me lendo agora já preparem batata e abobrinha assim em casa, mas pra todas as outras, vocês não podem viver mais nem um dia sem provar esses legumes preparados dessa maneira. Se você tem a sorte de ter um forno em casa, aproveite.

Batata assada

Descasque as batatas e corte em pedaços médios. Veja as fotos acima pra entender o formato dos pedaços. Cortados assim eles tem mais lados, o que faz com que tenha mais superfície pra dourar e fiquem mais crocantes. Se você não tem ideia do que estou falando deixe pra lá e corte sua batata como quiser. O importante é que os pedaços tenham mais ou menos o mesmo tamanho, pra que possam cozinhar por igual.

Coloque os pedaços de batata em uma panela e cubra com água fria. Salgue generosamente. Quando a água ferver desligue o fogo e escorra as batatas. Isso faz com que o amido da batata cozinhe ligeiramente e coagule, fazendo com que ela asse melhor (mais dourado e mais crocância) depois.

Transfira as batatas pré-cozidas pra uma placa/forma grande o suficiente pra que tenha um pouco de espaço vazio entre os pedaços. Regue com azeite (não precisa ser extra-virgem), mais uma pitada de sal e misture bem pra que o azeite envolva todos os pedaços. Leve ao forno alto até as batatas ficarem bem macias (espete uma faca pra testar). Se seu forno tiver a função “grill” esse é o momento de utiliza-la. Alguns minutos são suficiente pra deixar as batatas bem douradas (não se afaste da cozinha, já que elas podem passar de douradas pra queimadas em pouco tempo).

Retirte as batatas do forno e tempere com pimenta do reino e ervas frescas (tomilho ou alecrim amam batatas).

Abobrinha assada

Lave e corte a abobrinha (do tipo italiana) em rodelas finas. Use um fatiador se você não tiver muita habilidade com facas. Arrume as fatias de abobrinha em fileiras (veja a foto acima) bem apertadas. Enquanto assam parte da água da abobrinha evapora, fazendo com que as fatias encolham, por isso pode colocar as fileiras coladas umas nas outras (elas se separam enquanto assam e a parte exposta vai dourar). Regue as fileiras de abobrinha crua com azeite e tempere com sal. Leve ao forno alto até que a parte superior das fatias fique dourada. O tempo de cozimento varia dependendo do seu forno, então eu te digo: fique de olho na sua abobrinha e você saberá quando ela estará pronta. Se tiver a função “grill” no seu forno, use durante os últimos minutos. Usei o “gril” nessas duas receitas, por isso o dourado está tão lindo.

Retire do forno e tempere com pimenta do reino e ervas frescas (tomilho é sempre bom, mas manjerona e orégano também são uma delícia aqui).