Quando eu era adolescente minha irmã caçula, que tem dois anos e meio a menos que eu, começou a fazer bolo. Depois de alguns (poucos) bolos ruins, ela ficou craque na arte da confeitaria caseira e passou a ser a boleira oficial da família. Lu tem a mão boa pra bolo e sempre gostou de doces, então era uma atividade perfeita pra ela. Anos depois ela resolveu levar a paixão a sério, fez um curso de confeitaria em uma escola de gastronomia em Natal e passou a fazer sobremesas mais sofisticadas nas reuniões familiares.

Mas de volta à nossa adolescência, era ela e seus bolos simples que faziam a alegria da casa. Minha mãe nunca fez um bolo na vida. Minha avó também não, então as memórias de “bolo da casa da avó/mãe” que a maioria das pessoas tem nunca fizeram parte da minha coleção de memórias gastro-afetivas. Tudo bem, eu nunca gostei de bolo. Mas tinha um bolo que Lu fazia e que era a minha referência de felicidade no prato, acompanhado de um cafezinho à tarde. O bolo de laranja com cobertura de chocolate amargo dela era não só o meu preferido, como o único que eu gostava.

Depois de ter me tornado vegana aquele bolo passou a ser só uma lembrança feliz. Eu poderia ter tentado fazer o danado sem nada de origem animal, teria sido fácil veganizar a receita. Mas o bolo era de Lu e só era gostoso porque ela que preparava com todo carinho pra mim.

Até que esse ano, durante a visita (quase sempre) anual à minha família, fui presenteada com uma Lu vegana, que tinha passado a fazer todos os seus bolos sem ingredientes de origem animal. E como ela é uma alma muito boa e uma irmã maravilhosa,  se apressou de fazer o bolo de laranja que eu tanto gostava. Em uma mordida viajei de volta à adolescência.  Lu fazendo os melhores bolos de todos, fofíssimos e perfumados, a família toda pedindo os bolos dela, o meu bolo preferido de volta e minha irmã caçula me fazendo agrado comestível. Proust tinha a madeleine, eu tenho o bolo de Lu.

 

Durante a turnê que fiz pelo Brasil em agosto fiz questão de compartilhar a receita desse bolo nas oficinas que realizei. E o sucesso foi imenso. Então depois de prometer publicar a receita aqui, pra quem não pode participar das oficinas, vim  cumprir a promessa.

Sobre o bolo: ele é extremamente fofo e muito perfumado. É isso que faz o bolo ser especial, por isso não reduza a quantidade de fermento nem a de raspas de laranja (só tomar cuidado pra não raspar a parte branca da laranja, que amarga e não perfuma). Bolo vegano nem sempre precisa de um ingrediente especial (linhaça, chia…) pra substituir os ovos. Nesse caso, bastou aumentar a quantidade de fermento e usar um pouquinho de bicarbonato de sódio pra garantir a leveza e maciez do bolo. A receita da calda pode deixar algumas leitoras se perguntando se vale a pena fazer algo tão simples, mas confie. Fica uma delícia, equilibra o doce do bolo e chocolate com laranja é uma combinação das deusas. Eu chamo de “ganache pobre” porque dá pra fazer com ingredientes baratos que todo mundo tem na cozinha. Certo, o leite de coco talvez não seja presença garantida na sua cozinha, mas devia ser.

Lu continua fazendo sucesso com os seus bolos. No início a família achou que, por ter se tornado vegana, seus bolos não seriam mais tão bons quanto antes. Ledo engano! Ela até fez o bolo de casamento (vegano, claro) do nosso irmão do meio e todo mundo adorou.

 

Bolo de laranja de Lu

Essa receita faz um bolo bem pequeno, o que acho ideal pra um lanche da tarde se sua casa não tiver mais de 6 pessoas. Se quiser fazer um bolo maior, como o da foto, é só dobrar as quantidades. Mas nesse caso aconselho que você use uma forma retangular baixa, pois como esse bolo é super fofo é melhor que a massa não fique muito alta (o que aconteceria numa forma daquelas com furo no meio). Se a massa estiver alta o bolo pode crescer e colapsar, já que a massa é bem levinha. Se você é nova por aqui e não conhece as medidas que uso, lá vai: x = xícara, cs = colher de sopa, cc = colher de chá

1x de suco de laranja (raspe antes de espremer, lembre de parar de raspar antes de chegar na parte branca- ela amarga)

1x de açúcar (comum ou demerara)

1/3 x de óleo vegetal (qualquer um, até um azeite suave – se quiser ostentar)

1cs de raspas de laranja (raspas de 2-3 laranjas, dependendo do tamanho)

2x de farinha de trigo

1 1/2 cs de fermento

1/2cc de bicarbonato de sódio (peneire antes se estiver empedrado)

 

Ligue o forno em temperatura média (220 graus) e deixe aquecendo enquanto você prepara a massa.

Unte uma forma pequena (pode ser aquelas com furo no meio ou uma retangular, baixinha) com óleo e farinha. Reserve.

Você vai precisar de duas tigelas, um batedor manual, uma espátula, xícaras e colheres medidoras (medida padrão). Na primeira tigela, misture os quatro primeiros ingredientes. Na segunda tigela, misture os três últimos ingredientes. Despeje o conteúdo da primeira tijela (líquido) sobre o conteúdo da segunda (farinha) e misture delicadamente. Começo misturando com o batedor, depois termino com uma espátula. O bicarbonato vai reagir imediatamente com o suco de laranja (ácido) e a massa vai ficar muito aerada, cheia de bolhinhas de ar, por isso não mexa demais pro ar não escapar.

Despeje a massa na forma untada/enfarinhada e leve ao forno pré-aquecido até passar no teste da faca (enfie uma faca fininha no centro do bolo, se sair limpa, está pronto). Aqui em casa leva 18-20 minutos, mas isso vai depender do seu forno, então fique de olho, principalmente se o seu forno for bem quente. Obviamente esse tempo vai ser maior se estiver fazendo uma receita dobrada. Importante: NÃO abra o forno durante os primeiros 15 minutos, senão o bolo pode solar.

Retire do forno e deixe esfriar um pouco antes de desenformar. Cubra com a calda (receita abaixo). Rende umas 6 porções comportadas, pra acompanhar o café da tarde.

 

Calda de chocolate pra bolo

Essa quantidade de calda é suficiente pra cobrir um bolo pequeno (receita acima), sem exageros. Dobre a receita se quiser muita calda no seu bolo (ou se estiver fazendo um bolo maior). O leite de coco caseiro é ideal aqui, pois o sabor é suave e a gordura do coco vai deixar sua calda com o sabor (delicado, sem gosto de coco) e textura (cremosa) ideias. Se leite de coco fresco não for possível, tente uma cobertura alternativa: derreta 80g de chocolate sem leite no banho-maria junto com 2-3 cs de outro leite vegetal. Mas não deixe de testar essa receita um dia.

1x de leite de coco caseiro, receita aqui (não use leite de coco industrializado!)

1cs de cacau em pó 100% (sem açúcar)

2-3cs de açúcar (fica a seu gosto, uso 1cs porque gosto da calda bem amarga)

1/2cc de amido de milho

Com o batedor, misture todos os ingredientes em uma panela pequena e leve ao fogo médio. Quando ferver, baixe o fogo e deixe cozinhar, mexendo com frequência (mas não o tempo todo) com uma colher de pau, até apurar e ficar com a consistência de uma calda espessa (ela engrossa mais depois de fria). Leva uns 15 minutos contando a partir do momento que começar a ferver. Deixe esfriar um pouco e espalhe sobre o bolo morno.

Nunca tinha ficado tanto tempo ser aparecer por aqui. Seis meses! Tanta coisa aconteceu desde o post sobre veganwashing em janeiro que nem sei por onde começar. Vou fazer um resumo dos últimos meses.

Saí de Berlim em fevereiro. Voltei pra Palestina. Tive o prazer de guiar mais dois grupos no tour político-vegano na Palestina (vai ter mais em 2018, aguardem!) e conheci pessoas maravilhosas, como acontece todos os anos. Teve o primeiro congresso sobre direitos animais e humanos na Palestina, organizado pela PAL (Palestinian Animal League). Depois fui pra Paris e realizei um projeto novo: tours veganos gastronômicos na cidade luz. Foram dois grupos e a viagem, como era de se esperar, foi deliciosa. Logo depois vim pro Brasil e cá estou há um mês e meio.

Como sempre que estou em Pindorama, não vim só comer tapioca e tomar leite de coco. O motivo principal de voltar aqui todos os anos é ver a minha família, claro (além de comer tapioca e tomar leite de coco, como já confessei).  Mas procuro reservar uma parte do meu tempo aqui pra dar palestras sobre veganismo, direitos animais e humanos, Palestina, justiça social e de como isso tudo está conectado. Esse ano eu vim com um projeto que carrego no peito há algum tempo. Todos esses anos fora do Brasil (já vivi quase tanto tempo lá fora do que vivi aqui dentro) me fazem sentir desconectada da militância nacional. Então em agosto eu caio na estrada e vou encontrar as pessoas que eu vinha admirando de longe, do lado de cá das telas. Quero ver a cara do movimento vegano no resto do país, trocar ideias, rever amigas, dar palestras e articular a revolução. Porque se não for pra destruir o patriarcado, o carnismo, o capitalismo, o racismo, o colonialismo… eu nem saio da cama.  Vai ser quase um mês de viagem e quando eu tiver as datas certas em cada cidade, volto aqui pra avisar.

E pra não deixar esse blog sem receita nova (nem lembro quando postei a última), vou compartilhar com vocês a receita de quiabo que conquistou minha família.

Tem quem goste da baba do quiabo. Direito seu. Mas tem quem não goste de quiabo justamente por causa da baba. O que é uma pena, pois esse legume é delicioso. Na Palestina tem uma folha escura, mulahyia, que sofre do mesmo problema do quiabo: uns amam porque tem baba, outros detestam por causa da baba. Eu não gostava, até que uma amiga palestina me explicou que preparando com tomate e um pouco de limão, a mulahyia ficava sem baba. O segredo era a acidez desses dois ingredientes, que fazia a baba desaparecer. Imediatamente pensei no quiabo. Será que funcionaria com ele também?

Testei e tenho a felicidade de dizer que sim. Vou repetir. Se quiabo babento é a sua praia, sinta-se livre pra ignorar essa receita e seguir preparando esse vegetal como você gosta. Ninguém é obrigada a fazer minha receita sem baba. Beleza? Beleza. Tô insistindo nesse ponto porque sei que tem as apaixonadas por essa característica peculiar do quiabo e já escutei gente indignada dizendo que se não tiver baba, não é nem pra chamar de quiabo. E teve o senhor na feira que disse que dava dinheiro pra esposa preparar o quiabo com o máximo de baba possível.

Tem poucas coisas comestíveis no reino vegetal que eu não aprecio. O único sabor que eu não gosto é anis e a única coisa que realmente me repele na comida é a textura babenta. Então estou muito satisfeita com a minha receita, porque acho o sabor do quiabo maravilhoso. E preparado assim, ele fica ainda mais saboroso. Agora que sei como fazer quiabo (quase) sem baba, ele se tornou um dos meus vegetais preferidos no mundo.

O segredo do quiabo (quase) sem baba

Primeiro, aqui vai uma dica pra escolher quiabos: prefira os pequenos e jovens. Quanto mais jovem, mais saboroso e tenro. Grandes e maduros, eles ficam duros e estão mais pra madeira do que pra verdura. Eu compro quiabo na unidade (que varia muito de tamanho), então fica difícil indicar o peso desse ingrediente na receita. Mas se sua mão for  pequena, como a minha, eu diria pra usar uns 4 punhados grandes de quiabo inteiro, ou o equivalente a umas 6 xícaras de quiabo picado.

4 punhados grandes de quiabos jovens (leia as explicações acima)

1 cebola, picada

2-4 dentes de alho, picados

2-3 tomates (dependendo do tamanho), picados

Azeite

Sal e pimenta a gosto

Gotas de limão

Um punhado de coentro fresco, picado (opcional)

 

Lave e corte os quiabos em rodelas finas levemente diagonais. A baba do quiabo já vai começar a soltar aqui, mas não se preocupe que ela desaparece depois.

Em um tacho grande (ou a maior frigideira que você tiver) aqueça um fio de azeite, jogue uma parte do quiabo e tempere com um pouco de sal. Coloque só o suficiente pra cobrir o fundo do tacho, não coloque muito de uma vez senão o quiabo vai cozinhar no vapor. A ideia é grelhar o quiabo no calor forte (fogo alto), mexendo de vez em quando, até ficar ligeiramente chamuscado, o que realça muito o sabor. Transfira o quiabo grelhado pra um recipiente de vidro e reserve. Repita a operação com o resto do quiabo, lembrando de sempre colocar mais azeite no tacho antes de jogar o quiabo e de temperar cada porção com sal. Dependendo do tamanho do seu tacho/frigideira, você terá que fazer isso em 3-4 vezes. Pode fazer isso numa chapa bem quente também.

Aqueça mais um fio de azeite no tacho (agora vazio) e cozinhe a cebola por alguns minutos, até ficar dourada. Junte o alho e cozinhe mais alguns segundos. Coloque o quiabo grelhado de volta no tacho, o tomate e mais uma pitada de sal. Cozinhe até o tomate começar a se desfazer. Pingue gotas de limão (uso menos do que uma metade de limão pequeno), tempere com pimenta do reino a gosto, prove e corrija o sal. A acidez do tomate e do limão vai fazer a baba do quiabo desaparecer quase por completo. Ainda fica um pouco liguento, mas bem mais discreto e saboroso do que a versão “baba integral”. Depois que desligar o fogo junte o coentro picado, se estiver usando.

Rende 4-6 porções como acompanhamento.

Alguns meses atrás Tel Aviv foi palco do que foi chamada de “a maior marcha de direitos animais da História“. Acredita-se que Israel tenha a maior população vegana do mundo e o país é frequentemente descrito como “a capital vegana do mundo” e “a terra prometida dos veganos” . Minhas amigas israelenses me disseram que o movimento vegano começou, vários anos atrás, como parte integrante da luta por justiça e contra todos os tipos de opressão, incluindo a ocupação e a colonização israelense da Palestina. Muitas veganas israelenses ainda militam contra a ocupação, mas essa conexão não está presente no discurso vegano dominante, onde conciliar veganismo e sionismo não parece ser um problema. Então eu não fiquei surpresa quando um amigo palestino me contou que um amigo dele, um palestino de 48, se juntou à marcha, mas decidiu ir embora pouco depois por causa dos comentários racistas que os ativistas israelenses estavam fazendo. É importante mencionar que um grande número de palestinos de 48 (palestinos que não foram expulsos de suas terras pelas forças sionistas durante a criação de Israel em 1948, contrariamente ao que aconteceu com dois terços da população da Palestina histórica da época, e que vivem no que hoje é Israel) são veganos ou vegetarianos. Na verdade, de acordo com um artigo de 2015 publicado no jornal israelense Haaretz, enquanto 3% da população judia israelense é vegana e 7% é vegetariana, a comunidade palestina de 48 conta com 6% de vegana(o)s e 11% de vegetariana(o)s.

Voltando à marcha por direitos animais em Tel Aviv, o que me surpreendeu na verdade foi ver a grande maioria da comunidade vegana brasileira, com poucas exceções,  aplaudindo o evento e, em um ou dois casos, louvando Israel por ser um país tão progressista. Nada foi dito sobre a ocupação e a colonização da Palestina por esse país. E quando alguém tentava chamar a atenção pra isso a reação que vi com mais freqüência foi: “Será que não podemos nos concentrar nos animais e ficar felizes com a grande vitória que essa marcha representa? O veganismo está se tornando cada vez mais popular e devemos comemorar isso.”

Então quando uma leitora do meu blog respondeu à minha crítica com o seguinte comentário: “Será que apoiar Israel quer dizer necessariamente ser contra a Palestina? É possível apoiar um povo sem bater palmas pra todas as decisões políticas deles. Até porque dificilmente a política de um estado representa o povo que o faz”, senti que tinha chegado o momento de escrever sobre essa questão. Mas ao invés de simplesmente compartilhar meus pensamentos pensei que seria mais interessante pedir às minhas amigas veganas israelenses pra falar sobre o crescimento do veganismo em Israel, vegan-washing e a resposta que elas dariam à minha leitora.

Preciso deixar claro que o objetivo deste artigo não é oferecer uma visão abrangente do movimento vegano em Israel. Nos próximos parágrafos procuro, com a ajuda das minhas amigas israelenses veganas, responder a pergunta feita pela minha leitora e ao mesmo tempo alertar sobre os perigos de separar a libertação animal da libertação humana, descrevendo o exemplo mais evidente desse fenômeno que encontrei até então.

“Obviamente o governo não é o povo, mas ao mesmo tempo, na minha opinião, você não pode separar política radical (anti-capitalismo e anti-colonialismo) da libertação animal, especialmente quando o rápido crescimento do movimento de libertação animal em Israel é auxiliado pelo fato de ter se separado da política de esquerda e de facto estar se associando às posições políticas extremamente racistas do governo israelense. Tudo isso sem mencionar o fato do governo israelense estar usando a popularidade do veganismo em Israel pra se colocar como um estado progressista liberal. “Dan

Na verdade o tipo de veganismo que faz sucesso em Israel não é muito diferente do veganismo que está se tornando popular no resto do mundo. Um veganismo que não só é desconectado de outras lutas, mas cuja razão do seu sucesso crescente é exatamente se definir como apolítico. Então por que escrever sobre a ausência da luta contra opressão humana dentro do movimento vegano israelense quando vemos exatamente o mesmo problema em outros lugares?

“O governo israelense e, infelizmente, uma parte significativa do movimento de direitos animais em Israel estão conscientemente usando o veganismo pra melhorar a imagem de Israel no mundo (o que chamamos de “vegan-washing”). O objetivo é distrair a atenção do público com relação aos crimes israelenses, associando Israel com coisas positivas. O governo israelense está fazendo um grande esforço nesse sentido e seguir nessa direção significa ajudar o governo israelense a fazer com que a opressão do povo palestino continue.” Kobi

“Como vegana, que acredita que todos os seres merecem viver em liberdade e como uma israelense que resiste à ocupação e ao racismo do governo israelense, é frustrante ouvir as pessoas concluírem que Israel é um paraíso de justiça, direitos e compaixão , já que isso não poderia estar mais longe da verdade. Das 15 mil pessoas que protestaram em Tel Aviv a maioria é, foi, ou será, soldado no exército de Israel, que é uma força de ocupação que controla a vida de milhões de palestina(o)s. Por essa razão muitas das pessoas naquele protesto estão participando diretamente da opressão da população palestina. Na verdade todas as pessoas israelenses, inclusive eu, se não resistirem ativamente estão participando ou se beneficiando de algum modo da ocupação. É importante saber que mesmo com um grande número de vegana(o)s Israel ainda é um dos países com o maior consumo de carne per capita, especialmente aves. Além disso, como parte das políticas de livre comércio e com o apoio do governo, dezenas de milhares de animais são enviados a Israel do exterior, principalmente da Austrália, pra serem abatidos aqui. Poder comprar produtos veganos em quase qualquer supermercado é um resultado do mercado capitalista, não um reflexo da compaixão da sociedade israelense. Nas comunidades veganas também fala-se muito sobre o exército israelense ter se tornado “vegan friendly”, o que significa que os soldados israelenses podem obter comida e equipamentos veganos, como botas de couro sintético. Soldados israelenses podem usar suas botas “sem crueldade” nas barragens militares e quando atiraram em manifestações, declaradas ilegais simplesmente porque o povo palestino não tem o direito básico de protestar. Eles podem usar suas botas enquanto planejam e realizam outro ataque mortal em Gaza. Eles podem usar suas botas ao pilotar aviões e pressionar um botão pra matar milhares de pessoas. Citando Ayeal Gross “Em Tel Aviv, hoje, é muito mais fácil encontrar alimentos cuja preparação não envolveu a exploração de animais do que encontrar alimentos cuja produção não implicou a opressão e o desenraizamento de outros seres humanos”. Gross aponta o absurdo presente no discurso do movimento vegano em Israel. O fenômeno social recente do aumento do veganismo em Israel mostra que é mais fácil pra israelenses abandonar a convenção de que ‘comer animais é normal e necessário’, do que abandonar a convenção de que a ocupação e a opressão de outras pessoas é normal e necessário. Se uma ocupação como essa pode continuar por tanto tempo, isso significa necessariamente que a maioria do povo israelense não considera o povo palestino como seres humanos iguais, com os mesmos direitos à vida, à dignidade e à liberdade.” Haidi

Então duas coisas devem ser levadas em consideração aqui. Em primeiro lugar, as pessoas que protestaram por direitos animais em Tel Aviv são as mesmas que ocupam militarmente a Palestina, já que praticamente todas as pessoas naquela marcha fazem ou farão parte do exército israelense. Portanto não se trata apenas de uma comunidade vegana que não se interessa por direitos humanos, se trata de pessoas veganas que participam ativamente da opressão e crimes cometidos contra a população palestina há décadas e, como Dan disse, se associam às posições políticas extremamente racistas do governo israelense.

Em segundo lugar, e repito aqui a explicação de Kobi: “o governo israelense e, infelizmente, uma parte significativa do movimento dos direitos dos animais em Israel está conscientemente usando o movimento dos direitos dos animais para melhorar a imagem de Israel no mundo”. Até onde sei, nenhum outro país está usando o veganismo como ferramenta de propaganda pra distrair a atenção dos crimes que comete.

O programa Birthright é um exemplo de como o governo israelense explora o veganismo e o usa a serviço do colonialismo. “Birthright Israel” (“birthright” significa “direito de nascimento”) é um programa que foi criado em 1999 e já enviou mais de 500 mil jovens judeus em uma viagem gratuita de dez dias a Israel. Qualquer pessoa judia, de qualquer país do mundo, pode ter acesso a essa viagem gratuita, cujo objetivo é “fortalecer a identidade judaica e a conexão com o estado judeu” e se optar por imigrar pra Israel obtém a cidadania automática. Recentemente uma versão vegana do “Birthright Israel” foi adicionada ao programa, chamada Israel pra Vegans. Podemos ler no site do programa: “Você é vegan? Você se preocupa com direitos animais? Israel pra Vegans é pra você! Esta jornada espiritualmente edificante e fisicamente libertadora (…) oferece a oportunidade de encontrar jovens israelenses entusiasmados e líderes mundiais da cena vegana e vegetariana judia. Você também descobrirá os avanços únicos que a ‘start up nation’ ofereceu a essas comunidades no mundo inteiro. Tel Aviv é uma líder mundial em veganismo! Venha descobrir. ”

O uso do veganismo pra melhorar a reputação internacional de Israel e distrair a atenção pública de seus crimes foi levado ao extremo pelo autor israelense Eyal Megged, que publicou um artigo no jornal Haaretz em 2013 chamado “Apoie Netanyahu nos direitos animais e ainda por cima ajude Israel”. Nele podemos ler: “(…) a paz com os árabes não vai acontecer, então por que Livni (na época ministra da justiça) e Netanyahu (primeiro-ministro) não trocam seus esforços inúteis de conversas com os palestinos por um objetivo que realmente nos tornaria uma luz pras outras nações? Por que não se tornar os campeões do progresso em uma questão que as pessoas evoluídas do mundo levam a sério? ”

Acabar com a ocupação ilegal e a colonização da Palestina? Não precisa! Podemos substituir o “processo de paz” e a luta por justiça por direitos animais, por exemplo.

O exército israelense, como Haidi mencionou, também usa o veganismo pra melhorar sua imagem, reforçando o mito, criado pelo próprio, de “exército mais moral do mundo”. Soldado(a)s vegano(a)s recebem refeições veganas, botas de couro sintético e boinas sem lã, o que mais uma vez foi visto por uma grande parte da comunidade vegana internacional como sinal de avanço moral e uma vitória pros animais. Os crimes que esses soldados veganos provavelmente cometerão contra humanos, calçados com as botas “sem crueldade” foram, mais uma vez, ignorados. (Curiosamente dessa vez até a exploração de animais não-humanos ficou de fora da crítica: enquanto anunciava seu cardápio vegano, o exército israelense utilizava cachorros pra atacar a população palestina.)

(Fotos retiradas da página FB do exército israelense. “IDF” é a siga em Inglês de “Forças de Defesa Israelenses”. Notem que os posters estão em Inglês, o que revela que o público alvo dessa campanha não é o povo israelense – os futuros soldados.)

“Eu não entendo por que alguém apoiaria Israel, independentemente da Palestina. Estamos falando de um país que aprova o abate de milhões de animais todos os anos. Um país que aprova leis torturantes pra importar e exportar animais através de caminhos muito longos e difíceis … Israel não é um país que se posicionou contra testes em animais , nunca se posicionou contra o tráfico ou o abate de animais. O fato que Israel pode ser percebido como um país que é a favor do veganismo é mais uma vez um uso muito cínico das crenças de certas pessoas, muito parecido com a instrumentalização da luta LGBT, que você conhece muito bem. O fato que algumas pessoas tem razões profundas pra promover o veganismo e Israel vê isso como mais uma oportunidade pra se promover como um país liberal e aberto, enquanto na verdade aprova e apoia continuamente a tortura, o abate e o tráfico de animais, é muito cínico. Saber que esse é o mesmo país que não só viola direito animais, mas que também viola direitos humanos faz com que seja uma pílula ainda mais amarga de engolir “Chaska

Chaska chamou a atenção pra algo muito importante, mas que pouca gente sabe. Israel é o 4º maior consumidor de carne do mundo, com mais de 86 kg de carne per capita por ano e é, de longe, o maior consumidor de aves do mundo, com 57 kg de aves per capita por ano em 2015. A experimentação animal em Israel aumentou em 51% em 2016 e metade dos testes em animais envolve a máxima dor permitida. Quase todos os animais são mortos no final dos testes. Portanto não só o movimento vegano em Israel está sendo usado pra distrair a atenção internacional dos terríveis crimes que este país comete como, ao examinar mais de perto a realidade local, descobrimos que as reivindicações de “paraíso vegano” estão longe de ser verdade. Ou só são verdadeiras pros humanos jantando nos badalados restaurantes veganos de Tel Aviv, não pros animais não-humanos, que continuam sendo torturados e abatidos ali do lado.

Tali, outra amiga vegana israelense, trabalha para “Boycott from Within“, um grupo israelense que apoia a campanha BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) e frequentemente conversamos sobre vegan-washing. Depois do infame show dos Pretenders em Israel, Tali e os outros ativistas de Boycott from Within escreveram uma carta aberta pra Chrissie Hyde e acho que vale a pena compartilhar algumas partes aqui, pois mostra mais uma vez o tipo de problema que surge quando não entendemos o veganismo como parte de uma luta mais ampla por justiça.

(Um pouco de contexto: Chrissie Hynde, vocalista dos Pretenders e ativista vegana, optou por ignorar os pedidos de boicote, alegando que os argumentos pra aderir ao BDS não eram “convincentes”, se apresentou em Israel vestindo uma camiseta de direitos animais israelense, agitou uma bandeira israelense gigante no palco e dedicou uma música pras ativistas veganas israelenses e outra – “I’ll stand by you” – pras vacas.)

“Como uma defensora da libertação animal em um momento em que meu próprio governo executa crianças, mulheres e homens nas ruas, a decisão de Chrissie Hynde de ignorar a luta indígena palestina a serviço das políticas genocidas de Israel, vestindo uma camiseta de libertação animal, é como receber duas bofetadas no rosto. Enquanto veganas israelenses comemoravam seu ativismo com os Pretenders, veganas palestinas lutam contra o colonialismo de Israel. E as vacas? Uma música foi dedicada a elas, bem longe das lucrativas fazendas de laticínios e abatedouros de Israel. Os Pretenders receberam cartas pedindo para boicotar Israel através das mídias sociais. A decisão de ignorar os apelos foi suficientemente insensível, mas carregar a bandeira de Israel – um país que detém milhões de palestinas sob um bloqueio que está estrangulando a população, pratica uma ocupação militar insuportável e cujo primeiro-ministro aplaude os esquemas genocidas dos parlamentares – é apoiar um genocídio .”

Uns meses atrás tive uma conversa com a mesma leitora que deixou o comentário que inspirou esta publicação. Ela me falou sobre um amigo vegano que estava visitando Israel e publicando fotos, em suas mídias sociais, da incrível cena vegana local. Mais uma vez, nem uma palavra sobre a ocupação. Na verdade ele foi ainda mais longe, reproduzindo a apropriação da cultura e gastronomia palestina feita por Israel. Ele publicou a foto do hummus degustado em um famoso restaurante palestino de Jerusalém, Abu Shukri, e acompanhou a legenda com a bandeira de Israel. Minha leitora pediu recomendações de restaurantes veganos em Israel pro amigo e quando expliquei que achava a posição dele extremamente problemática ela discordou e concluiu a conversa com “mas há questões que são caras pra cada um, entendo.” Perdi as contas das vezes em que fui acusada de ter “escolhido um lado”, implicando que os crimes cometidos pelo governo israelense, fatos extremamente bem documentados pela ONU e várias organizações de defesa de direitos humanos, são invenções, culpa da minha “posição tendenciosa”. Sempre respondo que sim, escolhi um lado, o lado da justiça, mas dessa vez resolvi perguntar a Tali se ela também achava problemático visitar Israel como turista e ignorar os crimes cometidos por este país contra o povo palestino.

“Claro que é problemático! É exatamente isso que falamos quando nos referimos ao vegan-washing da ocupação militar israelense na Palestina. Israel está literalmente às margens de exterminar um povo inteiro e você elogia o país por ter boas opções de comida vegana? O mínimo que essa pessoa poderia ter feito seria ter chamado a atenção do seu público pras palestinas incríveis que defendem os direitos animais que, ao contrário de nós, não têm o privilégio de poder ignorar o apartheid de Israel “.

Aproveito pra apresentar algumas dessas palestinas incríveis que defendem os direitos animais. E recomendo esse artigo pra você ver a perspectiva palestina do assunto tratado nesse post.

Também contei a Tali que quando as pessoas tentaram apontar essa incoerência ele as bloqueou em suas mídias sociais. A resposta dela foi: “Apartheid é quando você bloqueia as pessoas na vida real”. Quando expliquei que, por terem sofrido mais um golpe de Estado em 2016, brasileiras se apressam em dizer “o governo israelense não representa o povo israelense”, porque é quase sempre verdade no nosso país, ela veio com esta resposta brilhante: “Não, não representa e é por isso que devemos derrubar esse governo. Esse argumento incentiva o boicote, não o contrário. Se o governo não representa as pessoas, ele deve ser derrubado. Se as pessoas sob esse regime não conseguem derruba-lo, qualquer assistência a elas é um ato humanista profundamente solidário”.

O movimento vegano como é visto pelas correntes dominantes atuais se resume ao que você coloca no carrinho de compras e não há interesse em destruir sistemas de opressão nem em praticar a solidariedade com outras lutas. Assim o amigo da leitora, que gostou tanto de Israel que retornou ao país poucos meses depois, admite que “escolhe o destino pela disponibilidade de comida vegana” e “Tel Aviv talvez seja hoje a cidade mais vegan-friendly do planeta. E é exatamente por isso que estou de férias por aqui.” Não parece problemático pra muitas pessoas veganas passar as férias em um país que está colonizando e ocupando outro país e, como Tali disse, exterminando a sua população nativa, executando crianças, mulheres e homens nas ruas simplesmente porque, gente, existem ótimos restaurantes veganos lá! 

Escolher nosso próximo destino gastronômico é um privilégio. Achar que privilégios devem passar na frente dos direitos alheios é uma atitude de pessoas que tem tantos privilégios que podem se dar o luxo de ignorar a opressão sofrida por outros grupos. Pessoas que têm o privilégio de dizer, como o amigo da minha leitora escreveu em um post, “não vejo fronteiras nem muros”. O palestino que gostaria de comer o hummus de Abu Shukri em Jerusalém (ou que precisa ir ao hospital do outro lado do muro) sabe muito bem que pra ele o muro sempre estará visível e o impedirá de entrar nessa parte do seu próprio país, que está há décadas nas mãos dos colonizadores. Publicar uma foto desse hummus palestino acompanhado de uma bandeira israelense é ajudar o governo israelense a, como escreveu Ben White, “apagar a memória e a identidade do povo palestino.”

Conversei com uma amiga israelense, também vegana, que foi ao show dos Pretenders e à marcha por direitos animais em Tel Aviv e ela levantou a seguinte questão: “Como todo tipo de ativismo é problemático, por que não podemos ficar felizes com os aspectos positivos do movimento?” Ela comparou isso com ir a um protesto contra a ocupação na Palestina e depois compartilhar uma refeição com ativistas palestina(o)s onde animais são servidos. Uma amiga dos EUA, ativista por direitos humanos e animais, quis dizer algumas coisas sobre isso.

“Ela julga pessoas palestinas por comer animais quando o país dela as impede de obter alimentos através de sanções, destrói suas oliveiras, dispara contra elas quando tentam colher frutas e verduras de sua própria terra na ‘fronteira’, roubam sua água, roubam a terra que elas poderiam usar para cultivar plantas pra se alimentarem … Que arrogância criticar as palestinas por comerem animais quando Israel é um dos maiores consumidores de carne do planeta e palestinas têm uma dieta principalmente baseada em plantas. Na verdade uma das razões de Israel ‘precisar’ roubar tanta terra e a água das palestinas é devido ao seu vício de consumir carne. Há séculos colonizadores dizem aos povos indígenas que o modo de vida deles é superior e que o modo de vida dos povos indígenas é ‘bárbaro’. Palestinas não serão receptivas a israelenses dizendo que elas devem se tornar veganas. Isso precisa vir de outras palestinas e a única maneira disso acontecer é criando um movimento de libertação animal onde palestinas se sentirão bem-vindas, o que significa SEM SIONISTAS “.

E falando da colonização da terra palestina e do roubo de recursos naturais, grande parte da produção de alimentos veganos israelenses acontece nas colônias ilegais dentro dos territórios palestinos (terras palestinas confiscadas por Israel e colonizadas, violando o direito internacional), que é onde uma grande parte de agricultura israelense acontece. É precisamente por isso que Ayel Gross disse que em Tel Aviv é muito mais fácil encontrar alimentos livres de exploração animal do que alimentos livres da “opressão e desenraizamento de outros seres humanos”.

Alguns anos atrás a rádio BBC fez um programa sobre “guerreiros veganos do exército israelense”, onde escutamos que pra uma soldada vegana “respeitar a dieta dela é tão importante que se o exército não pudesse oferecer condições que não prejudicassem criaturas vivas ela poderia não ter se alistado em uma unidade de combate”. Como explicar que alguém que se tornou vegana por não querer prejudicar nenhuma criatura viva não veja incoerência em se alistar em uma unidade de combate do exército israelense? O veganismo é visto aqui como uma “dieta” e participar ativamente da opressão e extermínio de outros humanos não entra em conflito com o veganismo dela, contanto que seu prato esteja livre de animais não humanos.

Erica Weiss, uma antropóloga da Universidade de Tel Aviv, escreveu um artigo esclarecedor sobre a retirada dos direitos humanos do discurso vegano israelense chamado “There are no chickens in suicide vest” (“Não existe frango em colete explosivo”). No texto, publicado em 2016 no Journal of the Royal Anthropological Institute, ela relata as dezenas de entrevistas feitas com vegana(o)s israelenses, principalmente as que adotaram o veganismo nos últimos anos e só militam por direitos animais. As pessoas entrevistadas disseram mais ou menos a mesma coisa pra explicar porque não apoiam direitos humanos quando os humanos em questão são palestinos.

“Eles ensinam seus filhos a nos odiar e eles tentam nos matar. Então nos defendemos! Se os animais se organizassem e ensinassem seus filhos a nos odiar e a tentar nos matar eu sentiria o mesmo. Mas até hoje não vi galinhas com coletes explosivos e os foguetes que vem de Gaza contra nós não são lançados pelas cabras nem pelos camelos que vivem lá. ”

“Eu acho que direitos humanos é uma idéia muito bonita. Mas, basicamente, hoje isso é usado apenas pelos europeus e pelos árabes pra criticar Israel. Eles não sabem como é aqui. Pensam que são vítimas inocentes, mas estamos lidando com terroristas (…) Meu filho está servindo o exército agora nos territórios e as coisas que ele nos conta quando volta pra casa nos finais de semana, você não ia acreditar. Mesmo uma criança não é realmente uma criança lá. Até as crianças às vezes são terroristas. ”

A visão dominante entre as pessoas veganas entrevistas é de que enquanto animais são necessariamente inocentes, por isso devem ser protegidos, pessoas palestinas são necessariamente culpadas, mesmo crianças, por isso todo ataque a elas é justificável.

Um reflexo dessa mentalidade extremamente racista e desumanizante pode ser visto no número alarmante de crianças palestinas presas todos os anos pelo exército israelense. De acordo com Addameer, uma organização de defesa de prisioneiros políticos palestinos, esse número dobrou nos últimos três anos. Em dezembro de 2017 350 crianças palestinas estavam nas cadeias israelenses e desde o ano 2000 mais de 12 mil crianças palestinas foram presas pelo governo israelense. 75% dessas crianças disseram ter sofrido abusos, físicos e psicológicos, durante o tempo em que ficaram presas. A prisioneira mais jovem tinha apenas 12 anos e crianças ainda mais jovens são detidas e interrogadas, sem a presença dos pais. Algumas com apenas 6 ou 5 anos de idade. Essas crianças são acusadas de participar de protestos (como Haidi explicou, Israel não reconhece o direito de protesto ao povo palestino, logo todo protesto, marcha ou reunião pública é considerado ilegal) e jogar pedras, cuja pena máxima chega a 20 anos de prisão. Isso se você for palestina, obviamente. No regime de Apartheid imposto ao povo palestino, a população de colonos israelenses vivendo dentro dos territórios tem acesso às leis e tribunais civis, completamente diferentes das leis militares que regem a vida das palestinas que moram na mesma área geográfica. Nesse relatório feito pela UNICEF sobre os maus tratos sofridos por crianças palestinas prisioneiras do governo israelense podemos ler: “Em nenhum outro país crianças são sistematicamente julgadas por tribunais militares juvenis que, por definição, não atendem as condições necessárias para garantir o respeito de seus direitos.” A violação quotidiana da Convenção internacional sobre os direitos das crianças por Israel, país signatário, deveria causar revolta e indignação entre israelenses. Mas como as violações acontecem contra crianças palestinas, elas são vistas como “necessárias” e, consequentemente, justas. Afinal, como a entrevistada acima disse “uma criança não é realmente uma criança lá”, não se trata de “vítimas inocentes” e sim de “terroristas”.

Em uma entrevista feita pela Al Jazeera outra amiga israelense vegana explicou: “É ok ser racista em Israel. Está ok dizer: ‘Sim, judeus são melhores’. A legitimidade do racismo é parcialmente baseada no que é o sionismo. É um movimento nacionalista do povo judeu – é, por definição, preferir judeus sobre não-judeus.”

A jornalista Abby Martin quis saber o que pessoas israelenses comuns, que não estão no governo nem moram em uma das colônias ilegais, pensam sobre palestina(o)s. Um jovem disse que Israel deve “carpet-bomb them” (que significa algo como “cobri-los com um tapete de bombas”) porque “não podemos confiar nos árabes. Judeus têm o direito de odiar os árabes. Não vejo nenhuma razão pra nos impedir de odia-los. Eu não estou nem aí pra nenhum deles”. Uma moça muito jovem disse: “Precisamos matar os árabes” e caiu na risada junto com a amiga. O nível de racismo das respostas é assustador e a reportagem inteira pode ser vista aqui.

O processo de desumanização de certos grupos nos permite racionalizar e justificar o uso da violência contra eles. Esse é um fato bastante conhecido. Mas ver vegana(o)s fazerem o trabalho extremamente necessário de reconhecer animais não-humanos como pessoas marginalizadas que merecem direitos, enquanto continuam negando certos grupos de humanos os direitos mais elementares, como o direito à vida e o direito de viver em liberdade, é difícil de digerir. Isso prova que o veganismo sozinho não é “a maior evolução moral da humanidade”, como muitas veganas que fazem parte do movimento dominante gostam de repetir.

“Será que apoiar Israel quer dizer necessariamente ser contra a Palestina?” O governo não é o povo, mas ambos compartilham pontos de vista semelhantes sobre o tratamento que o povo palestino deve receber e sobre o valor de uma vida palestina. Durante os bombardeios israelenses à Gaza em 2014, que mataram 2200 palestinina(o)s, das quais mais de 500 crianças, um pesquisa mostrou que 95% dos israelenses judeus apoiavam os ataques. Vale a pena repetir o que Heidi falou acima: “Se uma ocupação como essa pode continuar por tanto tempo, isso significa necessariamente que a maioria do povo israelense não considera o povo palestino como seres humanos iguais, com os mesmos direitos à vida, à dignidade e à liberdade.” As vozes israelenses dissidentes são poucas e como me contaram, com tristeza, as amigas entrevistadas nesse texto elas estão se tornando cada vez mais raras.

Antes de aplaudir uma suposta vitória pros animais é essencial fazer uma análise crítica do contexto onde ela aconteceu pra não cair em armadilhas como o vegan-washing israelense e acabar apoiando, sem se dar conta, um governo genocida que usa a luta por direitos animais pra melhorar a própria imagem e encobrir a violência contra grupos de humanos. Tudo isso enquanto continua hipocritamente explorando e assassinando animais. Aplaudir as iniciativas veganas em Israel sem contextualiza-las, sem mencionar que muitas das pessoas naquele protesto estão participando diretamente da opressão da população palestina e sem se opor explicitamente aos crimes cometidos contra o povo palestino é um desserviço a todas as lutas, incluindo a causa animal.

O preço moral que pagamos quando separamos as lutas é reproduzir, reforçar e fazer com que outras opressões durem. “O veganismo não é um substituto pros direitos humanos”, escreveu Ayel Gross no artigo mencionado por Haidi. O que é igualmente verdade no sentido contrário.

*Meu imenso obrigada a leitora que me inspirou pra escrever esse post tão importante.

*Foto de abertura (soldados israelenses ameaçam pessoas palestinas durante o velório do ativista Bassel Al Araj, assassinado pelos soldados israelenses) da minha querida amiga Tati, que escreveu sobre a Palestina aqui.