Sobre racialização e as armadilhas coloniais

Dia 4/07 aconteceu a Parada Política do Orgulho LGBT+ em Paris. A Parada política existe justamente pra protestar contra a Parada oficial, patrocinada por bancos e cartões de crédito, que transformou esse dia tão importante, onde ocupamos as ruas pra honrar a memória das que lutaram antes de nós e continuamos a luta por direitos LGBT+, em uma festa despolitizada pra celebrar o pink money.

A Parada política desse ano teve dois temas principais: a luta antirracista e o impacto do corona na vida das pessoas LGBT+ precarizadas. Ela foi organizada por dezenas de coletivos e organizações LGBT+ locais, algumas que constroem esse luta há décadas. Sem carro de som, sem os balões e banners dos patrocinadores (sem patrocinadores), sem celebridades, mas com percussões e, principalmente, com nossas vozes gritando alto e forte pelas ruas de Paris: “Não tem ‘orgulho’ sem migrantes indocumentadas”, “Não tem ‘orgulho’ sem as deficientes”, “Basta dessa sociedade que não respeita as trans, as sapatonas e as racializadas”, “Todo mundo detesta a polícia”, “Nosso orgulho não está à venda” ,“Nosso orgulho é político”, “Queremos libertação LGBT, não capitalismo rosa”, “Sem justiça, não há paz!” e “Vidas negras importam”.

E já que um dos temas centrais da parada desse ano foi a luta antirracista, era muito importante que um grupo de pessoas LBGT+ não-brancas liderasse a marcha. Eu digo “não-brancas” aqui porque na França a questão racial é mais complexa do que no Brasil, no sentido de que além do racismo contra a população negra, tem o racismo contra as populações árabe e Rom, muitas vezes ainda mais estigmatizadas. Eu já falei sobre isso no post sobre a luta contra a islamofobia, mas vale repetir. Na França uma pessoa negra é 6x mais suscetível de ser parada pela polícia na rua do que uma pessoa branca. Já uma pessoa árabe é 8x mais suscetível de ser parada pela polícia do que uma pessoa branca.

Foi incrível fazer parte desse bloco e caminhar do lado de tantas pessoas LGBT+ racializadas. Sempre que alguma pessoa branca entrava no bloco, alguém avisava que ali era um espaço pra pessoas racializadas e a pessoa branca ia se juntar às milhares de outras pessoas caminhando atrás do bloco. Menos, adivinha, alguns homens brancos que se recusaram a respeitar o pedido da galera e ficaram a dois dedos de agredir fisicamente as pessoas do bloco, enquanto repetiam o o famigerado: “Somos todos iguais! Não precisa dividir o movimento!” Claro, homem branco, somos tão iguais que você se recusa a respeitar o desejo de pessoas não-brancas de ter um espaço só pra elas, mesmo por apenas algumas horas, e quer impor sua presença em todos os espaços, porque quem manda no mundo é você, né?

Eu caminhei a maior parte do tempo no bloco das LGBT+ racizadas, enquanto Anne, que é branca, estava fazendo fotos na parte de trás. Sim, eu estava lá. Sei que no Brasil eu sou considerada “branca”, mas na Europa eu sou “latina” e “latina” não é branca.

Sempre que digo isso pra brasileiras a galera arregala os olhos. “Como assim, você não é branca?” E como eu acabei de ler um artigo extremamente interessante sobre o processo de racialização (ou etnicização), vim conversar com vocês sobre isso.

Aqui na França o termo “racializada” é o mais utilizado pra falar de uma pessoa não-branca (o equivalente do “people of colour” em Inglês). É importante entender como o processo de racialização opera pra entender o racismo (não só anti pessoas negras, mas também anti árabe, anti Rom, etc).

Uma pessoa racializada é “uma pessoa que pertence, de uma maneira real ou suposta, a um dos grupos que passou por um processo de racialização. A racialização é um processo político, social e mental de alteridade. Observe que ‘raças’ e o que chamamos de grupos ‘raciais’ ou ‘étnicos’ costumam ser uma mistura de gêneros, como por exemplo muçulmanos ou judeus (religião), negros (cor da pele), árabe (idioma) ou asiático (continente). O termo ‘racializado’ destaca o caráter socialmente construído das diferenças e sua essencialização. Ele enfatiza que a raça não é objetiva nem biológica, mas que é uma ideia construída que serve pra representar, categorizar e excluir o ‘outro’. ” Alexandra Pierre, militante feminista negra.

Ou seja, é o processo de construir um “outro” que é diferente (de diversas formas) do “padrão” do grupo dominante. E sim, amigas brasileiras, nós, da América do Sul, somos o ‘outro’ do francês.

Antes de prosseguir quero deixar registrado que não estou dizendo que na França eu, como “latina”, sofro o mesmo tipo de discriminação e opressão que pessoas negras ou árabes sofrem. Estou apenas frisando que no contexto francês eu não sou vista, nem tratada, como uma pessoa branca. Mas sabemos que tem hierarquias dentro desse processo de racização e cada grupo racizado será oprimido de maneiras diferentes.

Obviamente reconheço perfeitamente que no Brasil eu sou branca e sempre tive acesso a todas as facilidades reservadas às pessoas brancas. Se a Parada política fosse no Brasil, eu não entraria no bloco de pessoa não-brancas alegando que “na França eu não sou branca”. Nunca faria isso! Estou apenas dizendo que uma pessoa como eu, vinda do Brasil e com a pele clara, mas não exatamente branca de olhos claros, ocupa lugares diferentes de acordo com o país em que está. Na Palestina a galera me lia como branca. Na Turquia também. Na maior parte da Europa, não. E, o mais curioso de tudo, em certos casos fui lida como branca aqui na França e já explico como essa “mágica” aconteceu.

Eu descobri que não era branca aos 20 anos, quando me mudei pra Paris. Eu era babá de duas crianças francesas (uma irmã e um irmão) e fiquei muito próxima delas, que cuidei durante os 6 anos que morei aqui como universitária. Como a mãe e o pai das crianças trabalhavam muito, eu acabava indo a todos os eventos das crianças. Por isso quando a menina começou a fazer aula de dança e teve o primeiro espetáculo, eu fui. Eu era a única babá ali, todas as pessoas presentes eram mães das crianças (não lembro de ter visto nenhum pai). Então quando a professora de dança, no final da apresentação, falou sobre o progresso de cada criança com sua mãe respectiva, mas não veio falar comigo, deduzi que ela tinha captado que eu não era a mãe da menina (aos 20 anos eu tinha cara de 12) e não me interessaria pelo assunto.

No caminho de volta pra casa a menina, vou chamar de M., falou o seguinte. “Sandra, você acha que a professora não falou com você porque você não é branca?” Eu fiquei olhando pra ela com a boca aberta. Como?

M. não falou isso com indignação, parecia algo bem óbvio pra ela. Aos 6 anos ela já tinha entendido que no mundo as pessoas eram brancas (como ela) e tratadas com respeito, ou não-brancas (como eu) e podiam ser ignoradas. Não sei qual das duas informações me chocou mais no momento. O fato de ter descoberto que eu não era branca, depois de ter vivido minha vida inteira até ali acreditando que eu era, ou o fato de uma criança de 6 anos ter se dado conta do racismo, mas parecer ter normalizado aquilo ao ponto de não se indignar se uma pessoa que ela gostava fosse ignorada por não ser branca. (Ainda acredito que a professora não falou comigo porque eu não era a mãe de M. , mas o fato da menina ter me feito aquela pergunta mostra como ela me percebia de maneira diferente das pessoas brancas.)

Anos mais tarde eu estava conversando sobre quem era branca e quem não era com o menino, que vou chamar de L. Ele, que tinha a pele mais bronzeada do que a minha, dizia que era branco, mas eu, não. Eu coloquei o braço do lado do dele, que era vários tons mais escuro do que o meu, pra ver como ele ia explicar aquilo. Ele ficou desconcertado, sem saber como explicar o fenômeno, e no final gaguejou que ele era branco porque era francês e eu não era porque vinha do Brasil. Pra L. a branquitude tinha a ver com a nacionalidade. O Brasil era um país de não-brancas, então não fazia diferença se minha pele era bem mais clara do que a dele. Não é a cor da pele que fazia de mim uma não-branca, era a minha nacionalidade.

Parênteses pra explicar que uma pessoa nascida no Brasil, mas loura ou ruiva e de olhos claros, será lida como branca aqui na França. A ascendência europeia dela é imediatamente identificada, o que faz com que ela não seja racializada. Ela não é o ‘outro’, é parte do universal (o europeu). Então talvez seja importante dizer que não é apenas o fato de nascer no Brasil (ou na América do Sul) que faz de uma brasileira uma pessoa não branca na França. Não é a conexão com o país em si (geográfica) e sim com os povos nativos daquele país.

Já que vim trazer verdades pra ajudar na reflexão anti-colonial, abro outro parênteses pra explicar que o Brasil não é Ocidente. Sim, você leu certo. Sei que é comum se falar no Brasil “porque no Ocidente isso, a visão ocidental aquilo” sempre se incluindo nesse grupo, mas não, coleguinha, não somos ocidentais. “Ocidente” faz referência a uma organização colonial do mundo. Significa o Norte Global: a Europa, embora não toda a Europa, América do Norte (EUA e Canadá) e Austrália e Nova Zelândia (embora esses países estejam no Hemisfério Sul). Trocando em miúdos, Ocidente é o lugar de onde saíram os colonizadores e as ex colônias mais prósperas e brancas.

Embora tenham me perguntado muitas vezes aqui se minha pele clara vinha de uma ascendência europeia, fica evidente olhando pra minha cara que não tenho só europeus como antepassados, o que me classifica imediatamente na categoria do “outro”. O quão branca uma pessoa brasileira precisa ser pra ser considerada branca na França também? Como Alexandra Pierre explicou, o conceito de ‘raça’ é subjetivo, mas sabemos que 1- indivíduos com cabelos e olhos claros (não estou falando de cabelo pintado, obviamente) serão lidos sempre como brancos e 2- indivíduos de pele negra serão sempre lidos como não brancos. Mas entre esses dois polos tem muitas variações.

E é justamente por isso que já fui lida como branca aqui. Tenho uma história engraçada que ilustra perfeitamente isso.

Muitas luas atrás, quando eu ainda era universitária em Paris, entrei numa farmácia pra comprar um protetor solar. O farmacêutico, muito solícito, perguntou se eu precisava de ajuda. Eu disse “Tô procurando um protetor solar.” Veja, Francês é minha segunda língua e meu sotaque é discreto. Tão discreto que quando troco frases curtas, ele pode passar desapercebido. O farmacêutico achou que eu era francesa e disse: “Como você tem a pele branca, eu aconselho esse protetor aqui” e me deu um bem alto. Continuei a conversa com ele e falei que tinha que tomar cuidado com o sol porque, por ser brasileira, minha pele já tinha sofrido muito com ele. Ele me olhou desconcertado e falou: “Você é brasileira?” E imediatamente pegou o protetor 50 que ele tinha proposto e me ofereceu um mais baixo, dizendo: “Então esse aqui já tá ótimo pra você.”

O farmacêutico tinha achado que eu era branca porque deduziu que eu era francesa. Mas bastou ele descobrir minha origem brasileira pra imediatamente me classificar em um grupo diferente. Em outras palavras, me racializar.

Já um tio-avô de Anne, ao me conhecer, ficou o jantar inteiro me encarando com aquela cara de Nazaré confusa. Até que ele não se aguentou e perguntou: “Não é comum ter brasileiras com a pele leitosa como a sua, né?” Minha pele era leitosa, não “branca”, porque na cabeça dele não era possível ser brasileira e branca. (Não que eu faça questão de ser lida como branca aqui na França ou em qualquer lugar. Entro no bloco de pessoas racializadas e sinto que essa é a minha turma.)

E teve todas as vezes que me falaram “Ah, mas você é branca demais pra ser brasileira”, como se fosse elogio ser branca e algo ruim ser brasileira. Ou quando me olham desconfiados (geralmente homens) e dizem: “Você não tem o tipo da brasileira.” Não vou nem explicar o que isso significa porque todo mundo entendeu, né?

A discriminação com “latinas” se manifesta de maneiras mais sutis, mas aí se junta com a questão do sexismo e pode ser extremamente violento. Tem essa ideia de que mulheres latinas são “calientes”, querem fazer sexo com qualquer homem que aparecer pelo caminho, são necessariamente heterossexuais e se mudam pra Europa com o único objetivo de encontrar um marido europeu.

No meu primeiro ano de faculdade na Sorbonne um professor, que era também o diretor do curso, apontou pra mim e mais duas outras estudantes, uma mexicana e outra venezuelana, e falou pra turma inteirou ouvir: “Por que vocês estão se dando o trabalho de conseguir um diploma? É muito melhor arrumar um marido francês, aí vocês não precisam se preocupar com mais nada.”

A visão ocidental/colonialista que os “brancos” tem de nós mudou pouco desde a invasão europeia: somos menos inteligentes, menos sérios (no sentido “confiável”), o Brasil é um lugar de atraso…

Um médico francês me perguntou se era tranquilo ir pro Brasil e levar seu bebê com ele. As palavras exatas dele foram: “Se meu bebê adoecer, é fácil encontrar um médico pra consultá-lo?”

As crianças também imaginam o Brasil como um lugar exótico e uma menina me perguntou se tinha prédios e carros no Brasil. Perguntei onde ela imaginava que a gente morava. “Em árvores!” Ela também me disse que sonhava em se mudar pro Brasil pra poder usar biquini todos os dias, o tempo todo, em todos os lugares.

Uma outra pessoa francesa me perguntou onde eu tinha estudado. Falei “graduação nessa faculdade aqui, início de mestrado nessa outra ali”. Como comecei o mestrado em Linguística na universidade mais prestigiosa da França, quando ela me ouviu pronunciar esse nome ela me interrompeu e disse: “Não, não pode ser. Você deve estar se confundindo de universidade.”

Como postei esse texto primeiro sob forma de uma série de stories no Instagram, muitas pessoas me escreveram depois pra contar que viveram experiências parecidas quando foram morar fora do Brasil. É estranho quando seu lugar no mundo muda de uma hora pra outra, principalmente se você passar de um lugar privilegiado (branca no Brasil) pra um lugar subalterno na hierarquia social do país novo. Mas eu achei a experiência de passar a ser vista como o “outro” como uma baita oportunidade de reflexão, de questionamentos e de amadurecimento.

Lembro de um livro de Isabel Allende, acho que “Paula”, onde ela conta que a nora era racista no Chile. Aí quando ela foi morar nos EUA, deixou de ser vista como “branca” e passou a ser “latina”, o que fez com que ela desconstruísse o racismo que a acompanhava há tanto tempo.

Não estou dizendo que é preciso sair do Brasil pra deixar de ser racista (dá pra fazer esse trabalho aí), nem que toda pessoa que mudou de país e deixou de ser vista como branca vai necessariamente se tornar uma pessoa anti-racista em casa. É muito mais complexo.

O artigo que li hoje, e que mencionei no início desse post, foi escrito por Ariella Aïcha Azoulay e foi publicado na última edição da revista The Funambulist. Azoulay é uma escritora nascida em Israel, em uma família árabe-judia da Argélia. Ela se mudou pros EUA em 2012 e é professora na Brown University. O último livro dela se chama “Unlearning Imperialism”.

O artigo que me fez pensar em escrever essa série de stories é uma crítica ao mito do termo “Judeo-Cristão”, ou “tradição judaico-cristã”. Como judia, ela está longe de esquecer que durante a maior parta da História o povo judeu não foi considerado branco, independente do país de origem e da cor da pele e olhos, o que custou a vida de milhões de indivíduos.

Como falei no início do texto, racialização não é necessariamente sobre a cor da pela, mas sobre um processo político, social e mental de alteridade. É sobre criar um “outro”. Grupos que hoje são brancos já foram historicamente não-brancos. Irlandeses, tanto com relação ao Reino Unido como quando migraram pros EUA, são um exemplo. Judeus constituem outro grupo “embranquecido”. E é esse processo de embranquecimento, que veio acompanhado da invenção do termo “judeu-cristão”, como se esses dois grupos tivessem experiências compartilhadas, que ela critica no artigo. Vou traduzir alguns trechos aqui.

“O termo ‘judaico-cristianismo’ é uma das mais recentes iterações da prática imperial de assimilação, que foi materializada em um Estado-nação com interesses Cristãos-europeus chamado Israel.”

Azoulay explica como na Argélia colonizada a França tratava de maneira diferente os e as argelinas judias e criaram escolas francesas pra elas, num longo processo de “embranquecimento” cujo objetivo era ensinar argelinas judias a não mais se verem como árabes. Qual o interesse da França em fazer isso? Se trata de uma velha prática colonial, dividir pra melhor controlar. À partir do momento em que judeus/judias argelinas passaram a acreditar que eram diferente de argelinas muçulmanas, que estavam mais próximas dos colonizadores brancos do que da comunidade da qual tinham feito parte até ali, elas passaram a discriminar argelinas muçulmanas. Algumas décadas depois da invasão da Argélia pela França, argelinas judias ganharam a nacionalidade francesa, prova de que o processo “embranquecimento” tinha sido completado com sucesso. Nas palavras de Azoulay:

“Com a conquista da Argélia pelos franceses os judeus foram colocados à parte dos árabes e foram transformados em ‘problema’. Forçados a se livrar de tudo que os identificava como indígenas, pra que algumas décadas mais tarde o regime colonial pudesse recompensá-los pelos sues esforços com o ‘presente’ da cidadania francesa.

Em Israel, pra onde meu pai imigrou em 1949, ele pode tirar vantagem da barganha imperial da II guerra mundial, já que sua cidadania francesa -dada aos judeus argelinos em 1870- significava que ele podia se passar por um judeu europeu (ou seja, branco), e ser assimilado, ao custo de esquecer que era árabe.

O Estado de Israel não só foi criado com ferramentas imperiais (colonização, partilha, deportação, formato de Estado-nação), ele também replicou a dominação de europeus brancos de origem judia, que transformaram sua maneira de ser judeu na única maneira de ser judeu – uma maneira Judeo-cristã. Nesse projeto, europeus de origem judia tiveram que ser embranquecidos (…) Pra se tornarem brancos, judeus europeus precisavam de outros judeus pra serem os seus judeus não-brancos. É nisso que repousa o coração do Estado imperial.

O presente da Palestina foi dado como recompensa pelo embranquecimento dos judeus. A criação do Estado de Israel e a imposição de um sistema de cidadania diferente transformou o ser árabe em ameaça. A proximidade temporal entre a invenção do termo Judeu-cristão (1945) e a criação do Estado judeu (1948) não é coincidência.”

Eu falei sobre o processo de se descobrir não branca na França, quando no Brasil sou lida com branca. O processo descrito por Azoulay aqui é o inverso e numa dimensão muito mais ampla. Ela fala do embranquecimento de um grupo historicamente considerado não-branco (judeus) e de como isso só pode acontecer se outro grupo de não-brancos for criado. É uma dança das cadeiras da alteridade: judeus europeus adquirem status de brancos, às custas de judeus árabes, que se tornam os judeus não-brancos dos judeus europeus brancos. E os judeus árabes? Passam a tentar a todo custo se aproximar da branquitude oferecida aos judeus europeus, negando o ser árabe e tentando se assimilar à maneira única de ser judeu (branco e europeu). O árabe agora se transforma em ameaça, como ela explica no artigo.

Israel é um país extremamente racista onde judeus europeus estão no topo da hierarquia, seguidos por judeus árabes e, no degrau mais baixo, estão os judeus negros (etíopes). Mas Israel se acha um país branco e ocidental. Eu sempre achei risível o fato de Israel participar do campeonato europeu de futebol, ou do Eurovision (o “The Voice” europeu), como se esse país do Oriente Médio fizesse parte da Europa.

E o que dizer dessa notícia do jornal israelense Haaretz?

“Israel ocupa o terceiro lugar em maior taxa de contaminação diária entre países europeus, diz a OMS” O memo avisando que Israel saiu do Oriente Médio e migrou pra Europa chegou aí? Porque aqui não recebemos nada.

Ter descoberto que sou uma pessoa racializada no contexto francês abriu uma janela de reflexão dentro de mim que nunca mais se fechou. Precisei entender o processo político, social e mental de racialização, a construção do ‘outro’, pra começar a descontruir o racismo dentro de mim. Pra entender que aceitar que certos grupos sejam o meu “outro” significa ser cúmplice da dominação e violência exercidas contra ele. E também que nunca estarei a salvo de receber uma dose desse mesmo veneno: eu também sou o “outro” de certos grupos dominantes.

No início isso me desestabilizou. Mas foi um caminho sem volta pra reflexão permanente. Sei que continuarei sendo lida como branca no Brasil e em certos lugares fora dele também. Mas hoje não tenho mais desejo nenhum de provar que não sou o ‘outro’ do francês, como eu pude fazer assim que me mudei pra cá.

Gostaria de compartilhar mais alguns trechos do artigo de Ariella Aïcha Azoulay, pois temos muito o que aprender com ele.

“Ao contrário de muitos judeus de países árabes que foram forçados a viver em campos de passagem e usados ​​como escudos humanos para invadir cidades palestinas, meu pai se ofereceu para se juntar ao exército judeu e foi para Israel por vontade própria em 1949, após ter sido enganado pela propaganda sionista que o fez acreditar que a guerra contra os nazistas para salvar judeus na Europa continuava na Palestina, agora contra os árabes. Quase tudo que os imigrantes árabes trouxeram com eles para Israel foi rejeitado e ridicularizado. Eles foram incentivados a esquecer seus hábitos, heranças culturais, boa parte de sua comida e música (…) A lógica imperial depende da interrupção da memória intergeracional: os pais morrem e os filhos esquecem. Utilizada contra os palestinos, essa lógica pressupõe que eles esquecerão a Palestina. Utilizada contra judeus-árabes, significava que nós cresceríamos e nos tornaríamos ‘israelenses’, purgados das memórias árabe-judaicas, alienados da cultura palestina e aprendendo a ver os palestinos como inimigos.

O Estado de Israel é responsável pela destruição de séculos da vida judaica na África. Também é responsável pela destruição da cultura judaica árabe entre aqueles que migraram para Israel. Israel forneceu aos imigrantes novas memórias e novas origens, que apagavam os judeus da África.

Mas escolho desaprender o imperialismo: desaprendendo Israel e reconhecendo a existência da Palestina em seu lugar, desaprendendo a identidade israelense fabricada e recuperando a identidade judeu-árabe, desaprendendo o apagamento dos judeus da África que vê este mundo como algo que desapareceu, desaprendendo “Judaico-cristão” como termo fixo e, recentemente, rejeitando (embora neste caso eu não tivesse nada a desaprender) a feminilidade branca oferecida a mim como “judia” em troca de ser legível em um mundo em que judeu-árabe, judeu-palestino ou judeu-argelino eram identidades ilegíveis. Não vou aceitar essa barganha.”

Esse é o centro da minha reflexão aqui. Sobre essa “barganha” colonialista que é oferecida a alguns indivíduos no Brasil. Sobre a construção de uma nova subjetividade branca subalterna, que um leitor dos stories no Instagram colocou assim: “Podemos aplicá-la no processo de racialização no Brasil. Considere os ‘combos: ‘pretos x pardos’, pele mais clara x pele menos clara, nortistas/nordestinos x sudestinos/sulistas, centro x periferia…”

Assim, o grupo do qual faço parte (brasileira de pela clara, nas não visualmente europeia, ou seja, que não tem cabelos e olhos claros) entra nessa nova classe branca, mas subalterna ao brancos de cabelos e olhos claros, aprendendo a me entender como um grupo distinto e superior às brasileiras negras e indígenas, que se tornam o meu “outro”, o meu não-branco. Pessoas brasileiras de pele clara passaram a acreditar que têm mais em comum com colonizadores europeus do que com outros grupos de brasileiras (exatamente o processo que aconteceu na Argélia colonizada). Aí chegam na Europa e entram em choque quando descobrem que sua “branquitude” só existe no Brasil e que aqui ela é a não-branca, a racializada do povo francês.

Sabe Bacurau e o casal paulista/carioca que acha que é branco e vira motivo de piada pros estadunidenses? Exatamente isso.

Assim como A. A. Azoulay em seu artigo brilhante, também recuso essa “barganha” colonialista. Servimos os interesses de quem quando acreditamos que somos “brancas” e “ocidentais”?

Fica aqui o convite pra se aventurar por esse caminho e refletir sobre todos esses “outros” (negro, indígena, nordestino, periférico), artificialmente construídos. Pra não se deixar mais iludir por esse “presente” de branquitude/ocidentalização que pode ser oferecido pra algumas de nós. Está na hora de desaprender o colonialismo.

Fiz uma campanha de financiamento coletivo – e cozinhei feijão

Outro dia uma moça me enviou uma mensagem pelo Instagram dizendo “Acompanho você desde os 11 anos, quando virei vegetariana. Estou com 21 anos agora e vegana há 5 anos.” Além da alegria proporcionada por esse momento Xuxa, me emocionei em saber que tem pessoas que acompanham meu trabalho há dez anos. Quanta honra!

Sim, esse blog completou 10 anos em fevereiro. Já contei como tudo começou?

Eu era vegana há 3 anos e morava na Palestina há 2. Na época minha vida se dividia entre o trabalho voluntário com o grupo de mulheres, no campo de refugiados, a militância (participar de ações de resistência, junto ao povo palestino) e meu projeto de “restaurante em casa”, que acontecia 2 vezes por mês. O trabalho com as mulheres era focado na culinária (falei dele aqui e aqui) e como eu desenvolvia receitas pros jantares que eu dava em casa (era assim que eu conseguia ganhar uns trocados por lá), eu passava a maior parte da semana escolhendo vegetais na feira e cozinhando.

Foi então que Anne sugeriu criar um blog de receitas. Ela achava minha comida maravilhosa e dizia que seria uma pena não compartilhar meus conhecimentos em culinária vegetal com mais pessoas. Embora eu tivesse achado a ideia bacana, eu sempre deixava pra depois. No fundo eu me perguntava se minhas receitas eram realmente dignas de serem publicadas, mas o fato de ter poucos blogs sobre culinária vegetal em Português (estou falando de 2009) acabou me convencendo que mesmo se minhas receitas não impressionassem tanto fora de casa, eu tinha uma contribuição a fazer pra comunidade vegana.

Até que veio essa noite de fevereiro de 2010, quando estava sozinha em casa (Anne tinha viajado pra Gaza, a trabalho) e a insônia me impedia de dormir. Fui pra sala, abri o computador e criei o blog.

E lá se foram dez anos! No início eu só postava receitas, sempre acompanhadas da história por trás delas. Eu tinha tanta receita no meu repertório que chegava a postar três por semana! Nesse época um amigo francês, que morava na Palestina, me perguntou como eu fazia pra inventar três receitas por semana, já que ele tinha inventado, no máximo, duas receitas durante a vida inteira. A verdade é que as ideias fervilhavam na minha cabeça e eu praticamente inventava uma receita nova por dia! Uma combinação muito feliz de fatores produzia isso. Por um lado eu estava cercada de ingredientes frescos e deliciosos (eu morava a poucos metros da feira, onde agricultoras vendiam diretamente seus produtos) e estava descobrindo uma culinária vibrante, a palestina, que vê o vegetal com tanto interesse, e o trata com tanto carinho, que os ingredientes animais. E que o devora com tanto prazer quanto! Por outro lado eu passei os primeiros anos do meu veganismo mergulhada em receitas, tanto as que eu inventava quanto as que eu via em sites estrangeiros e testava/adaptava na minha cozinha. Acho que toda vegana passou por essa fase. Quando você se torna vegana descobre que tem que reaprender a cozinhar tudo! Como se faz bolo sem ovos? Como se faz pratos cremosos sem creme?

Hoje, no meu décimo terceiro ano de veganismo, tenho um repertório extremamente vasto de receitas pra todas as ocasiões e a culinária vegetal passou a ser a coisa mais fácil, automática e descomplicada do mundo. Isso não significa que parei de desenvolver receitas. Mas como em qualquer outro aprendizado, o início requer mais atenção e esforço. Até que chega um ponto em que você já não precisa mais fazer esforço e as coisas fluem. Aprender a cozinhar (vegetal) é como aprender uma nova língua. Começa dando um certo trabalho, até que você fica fluente. Isso é algo que eu gostaria que as pessoas que dizem “ah, mas dá muito trabalho cozinhar comida vegana” entendessem.

Mas voltemos ao nascimento do Papacapim. Eu morava na Palestina e logo senti que era absurdo falar só de receitas enquanto, ao meu redor, as violações de direitos humanos se multiplicavam, o colonialismo avançava e a ocupação militar israelense se tornava cada vez mais brutal.

O primeiro post dessa nova linha editorial foi “Só pela subversão” e até hoje pessoas vem falar comigo depois das palestras que dou no Brasil pra contar a que ponto elas se sentiram tocadas por essa história.

Pra minha surpresa, misturar outras lutas sociais ao veganismo não fez com que leitoras saíssem correndo alegando indigestão, muito pelo contrário. Tenho muito orgulho de dizer que além de ter ensinado muitas pessoas a cozinhar, ter inspirado outras mais a se tornarem veganas, contribuí com a politização delas, principalmente sobre a luta palestina.

E o que dizer das pessoas que entraram na minha vida graças ao Papacapim e que se tornaram grandes amigas? Foram muitos convites pra dar palestras, muitas oficinas de culinária e a grande felicidade de participar da construção do movimento vegano no Brasil.

Os tempos mudaram e a era dourada dos blogs foi ficando pra trás à medida que redes sociais passaram a ocupar cada vez mais espaço nas nossas vidas. No início eu concentrava o meu trabalho aqui no blog (receitas, dicas de culinária, reflexões sobre veganismo e outras lutas) e usava o Instagram como um “por trás das cortinas”. O conteúdo era mais pessoal por lá: viagens, coisas que eu estava lendo ou comendo… Depois minhas leitoras aqui foram migrando pra lá, outras foram chegando sem nunca ter lido o blog e depois de alguns anos de resistência acabei levando o conteúdo que produzo aqui pro Instagram também. Isso significa que o trabalho dobrou, mas também que e a comunidade Papacapim está ainda maior.

O blog me acompanhou em todas as aventuras que vivi nos últimos dez anos. Escrevi posts da Palestina, claro, mas também de Bruxelas, de Londres, de Beirute, de Berlim, do Brasil e agora de Paris. E em cada lugar as receitas ganharam cores locais, as histórias refletiam minhas experiências convivendo com outras culturas… Abri o coração e perdi a conta de quantas mulheres fizeram a mesma coisa comigo, via email, carta ou pessoalmente.

O Papacapim representa uma parte muito importante da minha vida e muita gente me chama de “Sandra Papacapim”. Outro dia um amigo me contou que um amigo dele, tentando lembrar do meu nome, disse: “Aquela menina que tem um sobrenome bem diferente”.

Essa semana eu fiz algo que me pediam pra fazer há anos: uma campanha de financiamento coletivo. Eu tenho muita dificuldade pra pedir ajuda, o que explica minha hesitação por tanto tempo. Se antes eu me perguntava se minhas receitas interessariam alguém, hoje eu me pergunto se alguém estaria disposta a apoiar financeiramente o meu trabalho. Ainda mais em uma época tão difícil quanto essa que estamos atravessando agora.

Mas promover a construção do veganismo popular e criar pontes entre a luta por libertação animal e os outros movimentos sociais nunca me pareceu tão urgente. Se esse blog nasceu apenas como um espaço pra compartilhar conhecimentos culinários e ajudar quem estava pensando em ser tornar vegana, hoje eu vejo que a sua missão principal se tornou reafirmar o caráter político do movimento vegano, disputar o movimento com quem defende uma visão liberal, capitalista e excludente de veganismo e fortalecer nossa luta buscando alianças com outros movimentos e lutadoras, pra além da comunidade vegana. E pra continuar fazendo isso e ir mais longe, eu preciso de ajuda.

Quem quiser contribuir, clica aqui apoia.se/papacapimveganismopopular pra ir pra página da campanha. Se você não puder oferecer um apoio financeiro, saiba que divulgar o meu trabalho também é uma ajuda preciosa.

E pra comemorar, uma receita. Porque não tem melhor maneira de comemorar algo do que ao redor de comida boa e que não causou sofrimento em outros seres nem explorou quem a produziu.

Feijão macaça (fradinho) é um dos meus preferidos. Como ele dá caldo ralo (um caldo que eu adoro! Inclusive, recomendo usa-lo nessa receita), gosto de usar os grãos em saladas. Na verdade nem chamo isso de salada, é só a maneira como preparamos esse tipo de feijão na minha família: com tomate, cebola ou cebolinha e bastante coentro.

No Sertão é tradicional adicionar manteiga da terra (manteiga de garrafa) e muita gente por lá acha que é a única maneira de deixar ele gostoso. Mas, olha que notícia boa, descobri que feijão macaça gosta mesmo é de gordura, não necessariamente da gordura que vem da exploração de uma vaca lactante. Então um azeite gostoso aqui faz maravilhas! E se você tiver a sorte de ter óleo de babaçu por perto, essa é uma receita perfeita pra usar essa iguaria.

Feijão macaça como lá em casa


No RN, de onde venho, chamamos esse feijão de macaça. Outros nomes usados Brasil afora: fradinho ou feijão de corda. As medidas são aproximadas, pois faço tudo no olho. Adapte de acordo com seu gosto. Prefiro usar cebolinha aqui, por ter um sabor mais suave. Quando não tenho, uso um pouquinho de cebola comum. Porém só recomendo pra quem gosta de cebola crua. Se esse não for o seu caso e você não tiver cebolinha, melhor deixar as duas de fora e fazer esse prato só com os outros ingredientes.

3x de feijão macaça/fradinho cozido com sal (só os grãos)
1 tomate
Algumas cebolinhas (ou um pedaço de cebola)
1-2 pimentas de cheiro (opcional, só use se gostar)
Um punhado de coentro
Azeite, limão, sal e pimenta do reino a gosto

É importante que o feijão seja temperado quente, pra que ele absorva bem os temperos e fique saboroso. Então cozinhe o feijão com sal e deixe descansando dentro da panela fechada, no caldo, enquanto prepara os outros ingredientes.

Pique o tomate, a cebolinha (a parte verde e branca), a pimenta de cheiro e o coentro e coloque tudo no recipiente em que for servir. Se estiver usando cebola crua, pique um pedaço, de acordo com seu gosto, o mais miúdo possível.

Coloque o feijão cozido ainda quente (só os grãos) sobre o tomate/cebolinha/pimenta de cheiro/coentro picados. Regue generosamente com azeite, tempere com uma pitada de sal, pimenta do reino e suco de limão a gosto (comece espremendo meio limão). Misture bem, prove e corrija o tempero. Escute seu paladar e junte mais um bocadinho de azeite, limão ou pimenta, se desejar.

*A foto de abertura desse post foi feita numa feira da agricultura familiar na Palestina, poucos meses depois de ter criado o blog.

A peste de Camus, o teste Bechdel e o que isso tem a ver com todo o resto

Adoro ler e apesar de não dedicar o tempo que gostaria à leitura durante o dia, dou cabo de uma modesta pilha de livros mensalmente, pois só consigo dormir depois de ler por pelo menos uma hora na cama. A pessoa que estiver dividindo a cama comigo que lute pra dormir com o barulho das páginas sendo viradas (bem discretamente, juro).

Um dos últimos livros que li me marcou muito, tanto que vim aqui fazer umas observações sobre sobre ele. Porque isso abre janelas pra reflexões importantes.

O livro em questão é “A peste”, de Albert Camus. Recomendo demais, não porque estamos vivendo uma pandemia no momento (o que durante a quarentena aqui na França fez muita gente tirar esse livro da estante), mas pelo contexto político. O livro foi publicado em 1947, então falar que estou dando spoiler não se aplica aqui, concorda? A peste de Camus é uma alegoria pro fascismo. Sim, a história é sobre uma cidade que vê a peste (bulbônica) chegar, se instalar e levar uma parte considerável da população. Mas é tudo um simbolismo pra alertar sobre o perigo do fascismo. Quem ler vai entender.

Sobre a peste em si (e aí saio do campo figurativo), tem uma passagem que me lembrou muito a atitude ecofascista de algumas pessoas diante do corona. Aquela galera que acha que a morte das pessoas mais precarizadas e vulneráveis na nossa sociedade é “limpeza espiritual”. Gostaria que essa galera explicasse o princípio dessa “limpeza planetária 2020” que leva os indivíduos mais sofridos e poupa aqueles que mais exploram e destroem o planeta, exatamente como sempre aconteceu. No livro, o padre da cidade prega durante a missa algo bem parecido com o que vimos umas pessoas escrevendo nas redes sociais (“estão morrendo da peste/corona? Tão vibrando negativo, amores!”) e a resposta do doutor pra essa atitude é perfeita. (Leiam o livro ; )

Mas não é sobre isso que quero falar aqui. (Sou a rainha das preliminares em conversas). Lembra que eu disse que a leitura desse livro me fez refletir sobre algumas coisas (além do fascismo)?

A primeira é que a história acontece em Oran, na Argélia. A Argélia foi invadida pela França em 1830 e a colonização só acabou em 1962, depois de muita luta e resistência do povo argelino. Mas o livro é de 1947 e a Argélia da época era uma colônia francesa. Aliás, Camus é um francês que nasceu na Argélia ocupada. O narrador conta que a cidade tem 200 mil habitantes e sabe quantos árabes tem no livro? Zero. E não estou falando somente dos personagens principais: nem a vendedora de tabaco, nem o entregador de jornais, nem o zelador do prédio, ninguém é argelino. O livro pinta um retrato exato do que era a Argélia colonizada: segregação total. Provavelmente muitos dos pacientes do doutor (o personagem principal) são árabes. Mas nenhum tem nome nem história, logo são totalmente invisíveis. Todos os personagens com nome e com história são franceses. A população nativa de Oran, de toda a Argélia, é fantasma. Sem nome, sem história, sem menção sequer da sua existência.

Isso foi ainda mais chocante pra mim porque li “A peste” enquanto lia um livro sobre Frantz Fanon e o contraste entre a luta por autodeterminação do povo argelino e a descrição do que ainda hoje os franceses chamam de “Argélia francesa” me fez perder o sono algumas noites.

Vou abrir um parênteses aqui pra contar um causo pessoal. Uns anos atrás, quando eu morava em Bruxelas, fui contratada pra ser intérprete de uma professora brasileira durante uma conferência. Eu dividia o trabalho com um português, pois a tradução era simultânea e na orelha e isso é um trabalho muito cansativo pra fazer sozinha durante horas a fio. E lá estava eu, traduzindo o que uma professora belga estava dizendo pra professora brasileira, discretamente pra não incomodar as outras pessoas ouvindo a conferência. E de repente, enquanto reclamava que a China estava tomando todo o mercado europeu e que por isso a Bélgica precisava se unir aos EUA em acordos econômicos, ela solta essa pérola: “Precisamos fazer alguma coisa! A gente já perdeu a África!”

Eu sou muito profissional, mas naquele momento não consegui me manter neutra e traduzir a fala da criatura. Eu engasguei e emiti um leve grito de horror ao mesmo tempo. Imediatamente me desculpei com a professora brasileira, explicando que traduziria essa infâmia no final da fala da professora colonialista. Sim, coleguinhas, tem uma galera grande aqui na Europa que acha que “perdeu a África”. Porque a África era deles, obviamente.

Agora voltando pro livro “A peste” e a segunda (e derradeira) reflexão. Além de não ter árabe, mesmo a história acontecendo no meio da Argélia, sabe o que também não tem no livro? Mulheres. Na verdade algumas mulheres passam pelas páginas, mas apesar de terem nome elas praticamente não falam e não fazem nada de interessante. Tem a esposa do doutor, que viaja logo no começo do livro pra tratar de uma doença grave. Tem a mãe do doutor, que vem cuidar do filho na ausência da nora. E tem a noiva de um personagem, que ficou em Paris e só é mencionada. Elas não tem substância, não tem interesses, são como as “mulheres de Atenas” de Chico Buarque (“Elas não tem gosto ou vontade, nem defeito nem qualidade….”). Aliás quando um amigo fala das qualidades da mãe do doutor é pra exaltar o quanto ela é “apagada”. Sim, várias vezes ele faz esse “elogio”, dizendo que era exatamente o que ele mais apreciava na própria mãe.

Já imaginaram o contrário? Um livro onde todas as personagens são mulheres, mas não num contexto íntimo, mas sim no nível de uma cidade de 200 mil habitantes! Imagina um livro onde as médicas, jornalistas, estudantes, prefeita, funcionárias da prefeitura, policiais…todas fossem mulheres? Ia causar, no mínimo, estranhamento. Provavelmente a autora (porque o livro seria escrito por uma mulher, obviamente) seria duramente criticada.

“Claro que não, Sandra, estamos em outra época! Não é mais 1947, hoje seria de boa.”

Aí que você se engana, camarada. Ano passado saiu um filme maravilhoso, no meu top 5 de melhores filmes da vida, chamado “Retrato de uma jovem em chamas”.

Um filme francês, de uma diretora mulher, contando a história de uma pintora que vai pintar o retrato de uma jovem, na casa dela, e se apaixona por ela. A história acontece no século 18, no interior da França. Como a jovem mora sozinha com a mãe e uma doméstica e o filme acontece quase todo dentro da casa, adivinha? Só tem mulheres no filme. Veja, não estamos falando aqui de uma história com muitos personagens, dentro de uma cidade de 200 mil habitantes (como no livro A peste). Estamos falando de um história muito mais íntima que acontece no espaço doméstico. E foi de boa? Nada! A diretora, Céline Sciamma, foi duramente criticada pela escolha de fazer um filme apenas com mulheres.

Durante a turnê de divulgação perguntavam, num tom ofendido ou acusador, “por que escolher fazer um filme militante/feminista?” Porque se tem uma coisa que o patriarcado nos ensinou foi que histórias de homens é algo “neutro”, “universal”. Já histórias de mulheres é militante.

Lembra aquela coisa de que se a opinião é de direita é “neutra”, mas se for assumidamente de esquerda é “política, ideológica”. Ou seja, é “neutro” quando segue o roteiro escrito por quem? Por quem? HOMENS! Geralmente brancos e héteros. Tudo que sai desse roteiro é “militante, feminista, tomou partido, é nicho” etc.

Eu critiquei a falta de mulheres no livro de Camus, mas isso é verdade na maioria dos livros, principalmente os “grandes clássicos”. Idem pros filmes. Você conhece o teste Bechdel? Pois siga lendo que você vai dormir mais sabida hoje.

Alison Bechdel é uma autora que eu adoro. Ela está por trás da HQ “Dykes to watch out for”, que segue as aventuras de um grupo de amigas lésbicas de 1983 à 2008.

Numa tirinha de 1985 Ginger, uma das personagens, explica que tem uma regra na hora de escolher filmes. Ela só assiste a filmes que:
1- tenham pelo menos duas mulheres que
2- conversam uma com a outra
3- sobre algum assunto que não seja homem.

Alison Bechtel não tinha a intenção de criar um teste, mas por causa dessa tirinha feministas começaram a usar esses critérios pra expor o papel absurdo das mulheres em filmes. Elas estão ali pra decorar, pra ser o objeto de desejo de um homem, mas raramente tem protagonismo. Óbvio que tem os filmes protagonizados por mulheres (e glória à deusa o número é cada vez maior), mas pense aí nos filmes “clássicos” ou mesmo qualquer filme que você viu ultimamente. Quando comecei a analisar, uns 10 anos atrás, poucos passavam o teste. Faça o exercício, lembrando dos seus filmes preferidos, e veja por você mesma.

Destacando aqui que esse teste, que nunca quis ser um, não determina se um filme é feminista ou não, como algumas pessoas pensam. Sinceramente, achar que o fato de ter duas mulheres, que conversam uma vez sobre algo que não seja homem é suficiente pra dizer que um filme é feminista é um insulto!

Mais tarde o primeiro critério ficou mais elaborado. Agora um filme, pra passar o teste Bechdel, tem que ter 2 mulheres com nome e profissão e elas tem que praticar a profissão no filme (além dos critérios 2 e 3).

Se você é homem e está me lendo, pare e pense. Como você se sentiria se todos os “grandes livros” e “filmes clássicos” contassem apenas histórias de mulheres? Se os homens entrassem ali apenas pra ser o objeto de desejo das mulheres e/ou servir as mulheres da trama (ter uma “natureza apagada”, como a mãe do doutor no livro de Camus)?

É assim que me senti lendo “A peste”. E o pior é que nós, mulheres, estamos tão acostumadas a não ter lugar nos livros e filmes, a achar que a narrativa masculina, as histórias do ponto de vista do homem são “universais” que na maior parte do tempo nem percebemos isso. Falei com duas amigas francesas que adoram Camus sobre o meu desconforto por não ter mulheres no livro e ambas disseram que tinham lido o livro mais de uma vez e não tinham reparado isso.

E olha que nem entrei no apagamento de quem não se encaixa na binaridade que descrevi nessa conversa.

Lendo “A peste” me ocorreu o seguinte pensamento. Se um extraterrestre que nunca pisou na Terra tivesse acesso aos nossos livros e filmes, que imagem ele teria da sociedade humana? Provavelmente algo como “homens vivem aventuras, paixões, fazem descobertas, salvam países e até a Terra inteira, se o apocalipse bater na porta. Já mulheres…” Não vou nem terminar a frase, pois se você leu até aqui vai completar o raciocínio sozinha. Isso não condiz com a realidade e precisamos de livros e filmes que contem histórias à partir de olhares que não sejam de homens, porque achar que a narrativa masculina basta, achar que ela é “universal” é um tremendo absurdo. E totalmente machista.

Sobre leite condensado, queijo e o que o veganismo tem a ver com isso

Dias atrás eu estava comendo as primeiras cerejas do ano e lembrei de um causo que aconteceu comigo há mais de 15 anos. Isso me fez refletir sobre algumas coisas, que se juntaram à uma reflexão que nasceu quando eu trabalhava numa queijaria vegetal em Berlim e passava meus dias entre bactérias e leveduras. (Comida também alimenta o pensamento.)

Eu era universitária e estava na cozinha da minha kitnet cobrindo de leite condensado um punhado de cerejas frescas no fundo de uma tijela. A francesa assistindo à cena perguntou horrorizada: “Qual o sentido de fazer isso?” Coloquei a latinha açucarada na mesa e olhei com pena pra moça. Tadinha, ela não sabia que tudo ficava muito melhor com leite condensado.

Quando cheguei na França, no ano da graça de 2002, fiquei impressionada com as sobremesas e doces vendidos nas confeitarias: era tudo lindo, mas nada, pra mim, tão gostoso quanto os doces brasileiros. Lembro de um dia estar acompanhada de uma amizade brasileira de passagem pela cidade, parar na frente da vitrine de uma confeitaria, apontar pros doces e comentar: “Lindos, né? Mas só tem beleza, o sabor passou bem longe.”

Eu notei de cara que o nível de açúcar nos doces era mais baixo do que no Brasil, mas não era exatamente isso que me incomodava (ou pelo menos era o que eu pensava). O “problema” dos doces franceses, na opinião da Sandra de 20 anos, era que nada, absolutamente nada, levava LEITE CONDENSADO. Na verdade a maioria das francesas nem conhecia esse produto e eu comprava as latinhas em mercearias de produtos “africanos”. As aspas estão aqui porque a maior parte dos tais “produtos africanos” não vinha do continente africano. Muitos eram apenas produtos de gigantes europeias que o agroalimentar empurrava no povo africano, da mesma maneira que empurram “danoninhos” e “leite ninho” no povo sul-americano. Nem lembro como descobri isso, mas era lá também que eu comprava o leite em pó da marca do capeta, aliás outro produto que o povo francês não utiliza nunca. Leite em pó aqui só os especiais pra bebês.

Então na minha kitnet parisiense sempre tinha leite em pó e condensado. Eu colocava o primeiro, religiosamente, no café, e o segundo em todas as sobremesas que eu preparava em casa que, na minha opinião, eram muito superiores aos doces das confeitarias espalhadas pela cidade.

Mas será que leite condensado, um concentrado de açúcar e gordura saturada, realmente deixa tudo mais gostoso? Veja, uma lata (395g) tem nada menos que 217g de açúcar e 31,6g de gordura. Na próxima vez que você segurar uma lata de leite condensado visualise isso aqui: mais da metade (55%) é açúcar. Tem mais açúcar do que leite no “leite condensado”.

Sabe como esse produto é feito (industrialmente)? Leite é, basicamente, água, gordura, proteína e açúcar (lactose). Através de um processo de evaporação, 60% da água presente no leite é eliminada, o que concentra a gordura, a proteína e a lactose no líquido que sobrou. Aí juntam (muito) açúcar e (pasmem!) mais lactose. Só ver a lista de ingredientes da latinha com a moça estampada. Isso explica algumas coisas importantes.

Sabemos que açúcar é uma substância altamente viciante. Tem estudos que mostram que ele vicia tanto quanto ópio e causa dependência mais rápido do que crack. Mas a verdade é que nem precisa ler esses estudos pra perceber a que ponto muitas pessoas são viciadas em doces, onde além da dependência emocional existem sintomas físicos também (mau humor e dores de cabeça quando ficam um tempo sem comer doce, por exemplo). Mas além do açúcar, o leite condensado vem com muita gordura.

Nosso cérebro é programado pra preferir alimentos ricos em açúcar e gordura, pois a programação aconteceu numa época remota (pense nas cavernas) em que tinha pouca comida disponível e um punhado de calorias a mais determinava quem sobreviveria pra ver o dia seguinte. É muito recente na História que humanos tenham uma abundância de alimentos à disposição e possam escolher o que comer. Lembrando aqui que isso não impede que boa parte da humanidade durma com a barriga vazia e que, de acordo com a FAO, 25 mil pessoas morram de fome por dia no mundo.

Os hipermercados podem ser modernos, a comida ultraprocessada em fábricas-laboratórios, mas a humana enchendo o carrinho ali conta com a mesma programação cerebral que sua antepassada das cavernas, pois essas coisas levam um tempo enorme pra mudar, e será guiada pelos mesmos instintos que garantiram a sobrevivência da espécie: mais calorias significa maior chance de sobreviver, pois amanhã talvez precisaremos passar o dia fugindo dos predadores, sem tempo pra parar e procurar comida.

Pausa pra dizer que OBVIAMENTE nem tudo é determinado pelos nossos instintos primitivos e é totalmente possível comprar comida na feira, encher sua geladeira somente de hortaliças, frutas, cereais e grãos e ser muito feliz. A historinha sobre a mulher das cavernas no hipermercado é só pra explicar por que somos naturalmente atraídas pelo sabor doce (uma fruta doce agrada mais o paladar geral do que uma fruta ácida) e por gordura (basta ver a tara da galera por fritura, queijo, creme…). Mas de maneira alguma isso significa que todo mundo é assim (eu não gosto nem de doce nem de fritura, olha aí), nem que é impossível aprender a gostar de verduras e hortaliças, nem que seu vício por açúcar é incurável. Como todo vício, tem cura, sim.

Mas voltemos ao leite condensado. Além da montanha de açúcar e da abundância de gordura, esse produto é um concentrado de lactose, mais um tipo de açúcar. Essa dose dupla de açúcar o deixa ainda mais viciante. Mas não é tudo. Deixa eu contar uma coisa que descobri nas minhas pesquisas sobre leite.

Leite de mamíferas tem uma proteína chamada caseína. Ao ser ingerida, a caseína se quebra e se transforma em casomorfina, um tipo de… opioide! E por que a natureza colocaria uma substância viciante no leite que uma mãe produz pro seu bebê, você pergunta? Saca só a sabedoria da natureza. O bezerro (lembre que leite é produzido pra ele, não pra ser evaporado, açucarado, vendido em latinhas e consumido por humanos) precisa do leite pra sobreviver, crescer e se tornar adulto. O que aconteceria se ele desse a primeira mamada, cuspisse tudo na cara da vaca sua mãe e declarasse que já ia direto pastar grama? O corpo dele não teria acesso aos nutrientes necessários pra atravessar a infância e o bezerro provavelmente não sobreviveria. O mesmo é válido pra todos os filhotes mamíferos, incluindo o humano. E lembre que a natureza quer muito que os filhotes sobrevivam, pra garantir a continuação das espécies, por isso ela deixou o leite materno um tantinho narcótico, com todo o respeito às mamíferas amamentando seus bebês. Assim fica garantido que o bebê não vai rejeitar o peito da mãe e vai crescer fortinho (óbvio que pra tudo nesse mundo tem excessão e provavelmente uns bebês rejeitaram o peito, mas isso não é regra).

(Não foram vozes na minha cabeça que me disseram isso tudo, aprendi sobre o poder viciante do leite com um médico estadunidense chamado Neal Barnard, um dos fundadores do Physicians Committee for Responsible Medicine – tradução: Comitê de médicos por uma medicina responsável.)

E por que estou falando de narcose e dependência no meio de uma conversa sobre leite condensado? Porque o leite, que a natureza fabricou um tantinho viciante pra garantir a sobrevivência dos filhotes mamíferos, é tranquilo em sua forma natural e adaptado pra cada filhote específico. A caseína, aquela mesma que se transforma em um tipo de opioide (casomorfina) representa de 20 à 45% da proteína no leite humano, mas é nada menos que 80% da proteína no leite de vaca, porque as necessidades de um filhote humano são diferentes das necessidades de um bezerro. E lembra que o leite condensado teve 60% da água evaporada, fazendo com que a proteína (que é principalmente caseína) ficasse ainda mais concentrada? Então o que acontece quando 1- a concentração de caseína de um determinado produto é obscena e 2- ele é consumido em grandes quantidades por mamíferos de outra espécie, que passaram muito da idade de serem chamados de filhotes? Aí, coleguinha, temos a bomba viciante que responde pelo nome de leite condensado.

Voltando às cerejas que a Sandra de 20 e poucos anos estava afogando em leite condensado. A francesa provou a preparação e não se convenceu que o líquido açucarado viscoso tinha “deixado tudo mais gostoso”. Na verdade ela nem entendia por que eu pensava que precisava melhorar o sabor das cerejas, que pra ela já estava perfeito.

Isso mostra como a adoração por leite condensado não é algo dado. Não, objetivamente falando, ele não é a coisa mais deliciosa do mundo. Idem pro amado-idolatrado-salve-salve “leite ninho”. “Mas Sandra, você não acabou de dizer que a composição do leite condensado faz com que ele seja uma armadilha pras nossas papilas?” Sei que parece que estou contradizendo todo o meu argumento sobre a periculosidade do leite condensado, mas deixa eu explicar melhor.

Nosso paladar (preferências em matéria de comida) é construído de acordo com o que colocamos à disposição das nossas papilas. Assim, francesas adoram queijo em estado de decomposição avançado, por exemplo, enquanto outras culturas acham isso um nojo. Quem cresce comendo sobremesas entupidas de leite condensado vai moldar seu paladar pra achar isso o supra sumo da deliciosidade. A francesa cresceu comendo tortas de frutas, as mesmas que eu achava insípidas (e pensava secretamente que uma boa dose de leite condensado por cima seria a solução). Ela tinha outro padrão gustativo. Mas, sendo humana, ela também adorava gordura e açúcar. Basta ver a devoção das francesas por queijos e patês ultra gordurosos feito com vísceras animais (foie gras). Explica também o hábito francês, estranhíssimo pra mim, de comer morangos mergulhados no açúcar (enquanto no Brasil ele será servido afogado em leite condensado). A apreciação por gordura e açúcar é universal, a forma dos produtos que cada cultura coloca nesse pedestal é que difere.

E claro que o agroalimentar sabe há bastante tempo da nossa preferência por doce e gordura e usa esse conhecimento pra criar substâncias comestíveis altamente viciantes.

O leite condensado foi desenvolvido como forma de preservar o leite, numa época em que não existia refrigeração. Depois foi usado como alimento pra soldados durante guerras (começando na Secessão, nos EUA), sempre se aproveitando dessa característica: ele pode ser conservado por anos em temperatura ambiente. Esse produto poderia ter parado de ser produzido depois da chegada das geladeiras domésticas, mas sabe como a indústria capitalista funciona: se dá pra lucrar com algo, criaremos uma demanda por ele. Aí a dona Moça começou a espalhar fake news, dizendo que o leite da sua latinha era ótimo pra crianças e bebês.

Recado pras fiéis da igreja “Mercado”, seguidoras da “lei da oferta e da procura”. Veja como na maior parte do tempo nós, consumidoras, não decidimos o que será produzido pelo agroalimentar e nos será empurrado goela abaixo. Sabe a lógica do veganismo capitalista (“quanto mais produtos veganos de grandes empresas comprarmos, mais produtos veganos elas produzirão e aos poucos elas pararão de fabricar produtos de origem animal”)? É lorota! Não tinha mais soldados pra consumir as latinhas? Sem problemas! Criaremos uma nova demanda! Assim apareceu uma campanha publicitária agressiva pra colocar na cabeça das mães que leite condensado era uma ótima alternativa ao leite materno e criar um novo grupo de consumidoras pra esse produto! Sim, esse mesmo que tem mais da metade da lata de açúcar era vendido como substituto pro leite materno e várias pessoas que me acompanham no Instagram escreveram contando que a mãe, pai e avós beberam leite condensado na mamadeira!

Outra leitora comentou que “uma geração foi criada mamando leite condensado, literalmente. Essa bomba de açúcar deixava os bebês nocauteados pela ação do açúcar e tendo que digerir a bomba de gordura. Enquanto isso o leite materno não ‘dopava’ os bebês, seguia nutritivo, mas de fácil digestão. Ou seja, o bebê precisava mamar mais. Estava criado o mito do leite fraco leite/pouco que arruína a amamentação até hoje.”

Mas como a lógica capitalista é crescimento infinito, logo o mercado foi expandido e vieram os livrinhos com receitas de sobremesas usando leite condensado, distribuídos com as latinhas, propagandas em revistas, etc e hoje nos encontramos nesse ponto onde, apesar de não ter mais gente colocando leite condensado nas mamadeiras de seus bebês (espero), brasileiras associam sobremesas gostosas a leite condensado e pessoas, crianças e adultas, são viciadas no dito cujo. E acham que escolheram livremente adorar esse produto, que qualquer papila vai concordar que é um verdadeiro néctar dos deuses! Tudo fabricado.

Então, aqui vai minha primeira reflexão.

Nosso paladar é construído de acordo com os alimentos que entram em contato com ele e isso conta cada vez mais com um grande empurrão do agroalimentar e seus produtos fabricados de maneira a lucrar o máximo com a nossa preferência natural por gordura e açúcar. A sobremesa que a brasileira acha D-E-L-I-C-I-O-S-A pode ser um purgante pra uma francesa e vice-versa (vou ficar só com essas duas culturas pra simplificar, mas saiba que tem culturas que gostam ainda mais de açúcar que a nossa). É interessante se perguntar sempre: quem lucra com minhas preferências gastronômicas?

Eu precisei me tornar vegana e abandonar laticínios pra entender a francesa que compartilhou as cerejas comigo naquele dia. Hoje acho que leite condensado, justamente por ser uma bomba de açúcar com uma boa dose de gordura, mascara o sabor dos alimentos. Mas é algo que você só descobre depois de parar de entupir sua salada de frutas de leite condensado. Frutas tem sabores tão diversos e delicados, é realmente um insulto afoga-las em açúcar e gordura. Mas se seu paladar for viciado em açúcar vai ser muito difícil concordar comigo.

O que me leva à segunda reflexão.

Hoje vejo a montanha de receitas de leite condensado vegano na internet e o desespero pra encontrar o leite condensado idêntico ao de vaca e percebo que deixamos de consumir os corpos de outros animais e as substâncias produzidas por eles, mas raramente questionamos o padrão de consumo alimentar imposto pela indústria que lucra com a exploração e morte de animais. Eu também cresci achando que comida era algo dado: todo mundo fazia igual, por isso nunca me passou pela cabeça perguntar se podia ser de outro jeito. Então entrei no veganismo procurando “versões veganas” de tudo que eu tinha costume de comer antes de me tornar vegana.

A obsessão com “leite condensado vegano” (ou “brigadeiro vegano”) merece uns minutinhos da nossa atenção. Tem muitas receitas por aí, muito debate na comunidade vegana pra saber qual versão é a melhor, qual é a mais parecida com a original. Quando a autora de uma receita quer te convencer que ela (a receita) é boa, mesmo, declara que sua versão ou é “idêntica” ou é “melhor” que o leite condensado original.

Primeiro que nenhum leite condensado vegetal será igual porque 1-leite de vaca tem composição e sabor diferentes de leites vegetais 2-nenhum leite condensado vegetal tem as substâncias entorpecentes (a caseína que se transforma em casomorfina dentro do nosso corpo). Apesar de continuar sendo uma bomba de açúcar (logo, vicia o paladar), nunca teremos esse efeito narcótico com leite condensado vegetal, logo ele nunca será tão viciante quanto a versão original. É esse poder viciante que, infelizmente, confundimos com “delicioso”.

Mas o miolo da questão pra mim é: por que nos esforçamos tanto pra reproduzir um produto criado pelo agroalimentar, cujo único interesse é colonizar nossas papilas e lucrar com a nossa preferência natural por açúcar e gordura, foda-se se adoecermos no processo? Por que nós, veganas, procuramos desesperadamente reproduzir um produto que mascara o sabor dos alimentos, mantendo nosso paladar condicionado a apreciar sabores artificiais (nada na natureza, em sua forma natural, tem uma concentração de açúcar tão alta como o leite condensado)? Não estaríamos perdendo a oportunidade de liberar nossas papilas do padrão de sabor da indústria, descolonizar nossa alimentação e aprender a apreciar o sabor das frutas em toda a sua delicada complexidade?

Se você leu até aqui e ainda lembra do começo desse texto provavelmente deve estar pensando: “Mas e as reflexões do tempo que ela fazia queijo vegetal em Berlim? O que isso tem a ver com todo o resto?”

Tudo que eu disse sobre o leite condensado pode ser aplicado ao queijo. Apesar de ter um nascimento diferente (não foi a indústria de alimentos que o criou e sim pessoas que criavam animais em pequena escala), ele também foi criado como uma forma, bem mais antiga, de preservar o leite e faze-lo durar. E o resultado também é um produto com concentração de gordura ainda mais elevada do que na versão natural (leite líquido). Porém no caso do queijo não é o açúcar que agrava o poder viciante. Além de não ter açúcar acrescentado na receita, boa parte da lactose (açúcar natural do leite) é digerida pelas bactérias durante a fermentação (o que não significa que não sobra nada ali, como pessoas alérgicas à lactose podem confirmar ao comerem queijo). Mas lembra da caseína, aquela que se transforma, no corpo, em um tipo de opioide? Queijo tem quantidades ainda mais obscenas de caseína do que leite condensado porque é ainda mais concentrado. Entenda, no processo de fabricação do queijo mais água foi descartada: começamos com algo líquido, o leite, e terminamos com algo semi ou totalmente sólido, o queijo. É preciso pelo menos 10 litros de leite pra produzir 1kg de queijo firme. Por isso o poder viciante do queijo é tão alto. Se ainda não ficou evidente, deixa eu confirmar que “casomorfina” não tem esse nome por acaso: ela tem efeito similar ao da morfina.

E tem mais um ingrediente chave aqui. Quando comecei a trabalhar em uma queijaria (vegetal) e estudar sobre fabricação de queijo descobri o quanto de sal se usa nesse produto. Sal é essencial aqui, tanto pra conservar o produto quanto pra afastar as bactérias ruins. Não dá pra fazer um queijo curado sem sal, leveduras e mofo nada apetitosos tomariam conta dele. E sabemos que sal também vicia o paladar. Então queijo é uma bomba de gordura e sódio, com um concentração gigante de caseína. Outra receita perfeita pra criar dependência, o que vemos quando tanta gente declara: “Eu não poderia ser vegana nunca, pois não posso viver sem queijo!”

E por que as reflexões sobre leite condensado me levaram a pensar em queijo? Porque nós, na comunidade vegana, também temos uma obsessão em recriar “queijos veganos idênticos aos animais”. Vou ser apedrejada em praça pública aqui, mas lá vai.

Será que é realmente interessante usar tanto do nosso tempo tentando reproduzir produtos criados pra responder uma necessidade bem específica (conservar o leite de vaca numa época em que não existia refrigeração e que a oferta de alimentos frescos durante o inverno era bem reduzida), que tem um perfil nutricional tão desequilibrado (bomba de açúcar no caso do leite condensado, bomba de gordura e sódio no caso do queijo), que causa dependência na galera ao ponto de empurrar alimentos muito mais interessantes pra fora do prato, deixando nossa alimentação repetitiva e restrita? Se muitas veganas fazem coro dizendo que depois de terem veganizado passaram a se alimentar de forma muito mais variada, é exatamente por isso! Carnistas gostam de pensar que “comem de tudo” (e ovo-lacto-vegetarianas “de quase tudo”), enquanto a alimentação vegetal seria limitada. Mas na maior parte do tempo elas não “comem de tudo”, elas “comem do mesmo”. Só ver o protagonismo que laticínios tem na sua alimentação.

E olha que quem tá dizendo isso é alguém que passou 2 anos trabalhando com queijo vegetal, tentando quebrar o código dos queijos animais pra reproduzi-los em versão sem exploração animal.

Curiosamente foi quando comecei a fazer queijos vegetais tão bons quantos os queijos animais que eu comia antes que esses questionamentos começaram a me invadir. À partir do momento em que essas maravilhas fermentadas fixaram residência na minha geladeira eu passei a querer comer aquilo em todas as refeições. Exatamente o que eu fazia antes de me tornar vegana. O que me mostrou que mesmo sem caseína, a concentração de gordura e sal também eram capazes de me fazer desejar comer queijo vegetal todos os dias. O poder viciante de queijos vegetais é muito menor, mas não deixa de ser um alimento manipulado pra concentrar gordura e proteína, além do sal, e lembre que nosso cérebro é programado pra preferir alimentos ricos em calorias (herança das cavernas). Por isso quando dei por mim estava abrindo a geladeira e escolhendo o queijo, ignorando todos os outros alimentos ali dentro, com muito mais frequência do que gostaria.

Semana passada fui colher cerejas no jardim da tia de Anne, no interior da França. Não fui uma coletora muito eficaz, já que colocava duas cerejas no cesto e uma na boca. Mas que experiência linda! Eu nunca tinha comido cerejas diretamente do pé e, consciente do privilégio daquele momento, degustei cada uma devagar, agradecendo a cerejeira pelo presente. Sei que se tornou um clichê exaltar o sabor de alimentos naturais, mas eu preciso dizer que realmente estava estragando minhas cerejas quando as afogava em leite condensado. Elas são perfeitas como são.

PS Enquanto colhia as cerejas da tia, que se chama Hélène, ela deu a seguinte instrução: “Não colha as cerejas que estão pra fora da cerca. Essas aí eu gostaria de deixar pras crianças e adultos que passarem pela rua.” Por mais tias compartilhando os frutos do seu jardim com desconhecidas e menos tempo gasto tentando reproduzir, em versão vegana, os produtos viciantes daquela capeta que começa com N.

A fórmula da farofa + a farofa de cenoura da minha família

Uma etapa essencial pra quem quer aprender a cozinhar (se você vier desse território colonizado conhecido como Brasil) é saber fazer farofa. Extremamente simples, mas que faz toda a diferença na vida da cidadã, ela alegra o prato e é a melhor amiga do feijão. Aliás, deixa eu contar uma das minhas opiniões mais impopulares: não gosto de arroz. Por isso prefiro casar meu feijão com farofa e ignorar o pobre arroz, o que nunca deixa de provocar surpresa nas vizinhas de mesa. Farofa, como dia minha amiga Maria Helena, é a argamassa da vitória!

Farofa não é um prato, é uma categoria. Assim como “salada” e “sopa”, basta entender o princípio e você será capaz de criar uma infinidade de farofas sem nunca precisar de receita. A fórmula de base clássica da farofa é: gordura + coisas + farinha de mandioca. Temperos e ervas também são bem-vindos.

As “coisas” podem ser: legumes, tofu, frutas secas ou frescas, castanhas, sementes… Mas o que gosto mesmo é de usar qualquer resto que encontro na geladeira, seja legumes ou feijão (macaça/fradinho é uma delícia na farofa). É aqui que a farofa se revela como uma bênção pra quem não gosta de desperdício na cozinha. Isso eu aprendei com meu amigo André Cantú, que me inspirou a escrever esse post aqui. Obrigada pelos ensinamentos, irmão.

Pra ilustrar a fórmula da farofa, aqui vai uma receita da minha família. E como falei de evitar desperdício, ela usa farinha de rosca. É assim que chamo farinha feita com pão velho e bem seco ralado (como minha mãe fazia) ou triturado (bem mais rápido). Qualquer pão seco serve, com casca e tudo.

Farofa de cenoura com farina de rosca

Acho uma lindeza essas astúcias pra evitar desperdício, então quando consigo juntar farinha de pão seco e restos de legumes na mesma farofa fico duplamente feliz. Mas sim, pode usar farinha de mandioca, se quiser. E outra erva, se não gostar de coentro. Mas aí já é outra receita.

Frite uma cebola picada (gosto de cortar em meia lua, mas aqui nada é obrigado, é tudo sugerido) no óleo ou azeite. Alho também vai bem.

Junte duas cenouras raladas, misture bem e vá acrescentando farinha de rosca até chegar no ponto do seu agrado (eu gosto de farofa úmida, então uso pouca farinha). Tempere com sal e pimenta do reino.

Desligue o fogo e junte um punhado de coentro picado.

Caldo da caridade, uma releitura

É comum ouvir reclamações do feijão macaça (fradinho), pois o bichinho dá caldo ralo. Eu cresci comendo esse feijão e até hoje meu tio planta ele lá no Sertão. O que parece problema é na verdade uma bênção. Quando eu era menina minha mãe cozinhava esse feijão, depois jogava uns temperos na panela e oferecia o caldo puro, no copo, pra acalmar o estômago que roncava antes da hora do almoço. Era o lanche das 11h. Ela aprendeu isso com a mãe, que fazia render ao máximo o pouco de comida que tinha.

Dias desses cozinhei feijão macaça, o que sempre me deixa nostálgica, e lembrei de outra coisa que minha mãe fazia: caldo da caridade. É uma especialidade sertaneja e minha mãe contava que vó fazia isso quando passava alguém pra pedir comida e não tinha mais nada pra oferecer. Imagino que venha daí o nome. Os ingredientes são dos mais humildes: alho, coentro, farinha de mandioca e água (tem uma versão com ovo, aí é Cabeça de Galo). Vi o caldo do meu feijão macaça e pensei em fazer um caldo da caridade usando ele ao invés de água. Ficou poético e comi com lágrimas nos olhos.

Caldo da caridade – com caldo de fejão macaça/fradinho

Cura resfriado, fome, ressaca e saudade do Sertão.

1 cs de alho picado
2cs de óleo (ou azeite)
1 concha de grãos de feijão macaça (fradinho) cozido
4 conchas do caldo do feijão macaça
4 cs de farinha de mandioca fina (peneirada, se necessário)
Um punhado de coentro picado
Limão pra servir

Refogue o alho picado no óleo até começar a dourar. Minha mãe usava muito alho e além de ser o responsável pelo sabor da receita, deve vir daí a crença de que caldo da caridade é bom pra curar resfriado. Desligue o fogo. Junte uma concha dos grãos do feijão (pra dar mais sustança ao caldo) e salpique a farinha de mandioca por cima. Junte 4 conchas do caldo do feijão e misture bem. Leve ao fogo novamente e aqueça a mistura, mexendo com uma colher de pau. Não estamos fazendo pirão, então não cozinhe por muito tempo senão vai engrossar demais. Se isso acontecer, coloque mais caldo. Tempere com sal e pimenta do reino a gosto (minha mãe usava muita pimenta, faz parte do poder de cura do caldo). Desligue o fogo e junte o coentro picado. Sirva com um tico de limão. Rende 2 porções.

E lutaremos em seu nome

Em 1977 o cineasta Polanski confessou, num tribunal dos EUA, ter estuprado uma menina de 13 anos. Condenado, ele fugiu do país antes de ser preso e nunca mais voltou. Desde então outras 11 mulheres o acusaram de estupro. Semana passada aconteceu a cerimônia dos Césars, a maior premiação do cinema francês. Polanski estava concorrendo a 12 prêmios, incluindo melhor diretor e melhor filme. 12 mulheres estupradas e 12 nomeações pro homem que as estuprou. “É preciso separar o homem do artista”, vomitavam os perpetradores da cultura do estupro. “Se seu padeiro estuprasse 12 mulheres, incluindo crianças, você separaria o homem do padeiro?”, “Quando uma mulher é estuprada não importa a profissão do estuprador nem se ele a pratica com talento” respondiam as mulheres. Os guardiães do patriarcado tinham sido particularmente cruéis dessa vez. Concorrendo ao prêmio de melhor atriz, pelo filme “Retrato da jovem em chamas” (que concorria ao prêmio de melhor filme, junto com o filme de Polanski), estava Adèle Haenel, que no final do ano passado levou ao público o fato de ter sido agredida sexualmente por um cineasta dos 13 aos 15 anos. Ela, que declarou: “Premiar Polanski é cuspir na cara das vítimas”, foi à cerimônia dos Césars junto com a equipe do filme “Retrato…”, feito por uma cineasta, com uma equipe quase exclusiva de mulheres, contando a história de duas mulheres que se amam. Esse filme me fez soluçar no cinema e todas nós torcíamos pra que ele e sua diretora levassem o prêmio. Mas o cinema francês, cúmplice, fiel aos seus amigos homens, mesmo os que cometem crimes de pedofilia, não deu o prêmio a “Retrato…”, nem à sua atriz principal. Era preciso punir Adèle por ter ousado sair do silêncio. Por ter levantado a voz e criticado esse clube do Bolinha sexista que é a indústria do cinema. Mas a punição não foi suficiente: era preciso “cuspir na cara das vítimas”. E assim Polanski ganhou o prêmio de melhor diretor. Nesse momento Adèle e a equipe de “Retrato…” se levantaram e saíram da sala. Embaixo do vestido de gala, a indignação. “Que vergonha! Palmas pra pedofilia!” ela repetia enquanto juntava o gesto à palavra.

Mas naquela noite Adèle não estava sozinha. Do lado de fora do cinema onde acontecia a premiação dos Césars, uma centena de mulheres se reunia. Uma bomba de fumaça vermelha foi acesa. Era o sinal. Imediatamente um canto explodiu das nossas gargantas “Polanski, estuprador. Cinema, culpado” e nos jogamos contra a grade que separava a rua do tapete vermelho e começamos a sacudi-la, enquanto, do outro lado, dezenas de policiais armados protegiam a barreira. Naquele momento senti que o corpo a corpo era extremamente simbólico: nós contra os guardiães do patriarcado. Algumas mulheres conseguiram passar pela grade e pisar no tapete vermelho. Pânico do lado de lá. À partir dali lembro de policiais nos empurrando violentamente, de estar espremida com outras mulheres contra uma parede enquanto eles lançavam gás lacrimogêneo e spray de pimenta diretamente contra nossos rostos, sem que pudéssemos escapar. Em poucos minutos a polícia nos forçou a sair dali e deteve duas mulheres. Mas ainda não tínhamos dito nossa palavra final. Uma mulher gritou “Violência sexista” e gritamos de volta “resposta feminista”. Ocupamos a rua. “Estuprador, nós te vemos. Vítima, acreditamos em você.” De repente vi, no final da rua, um grupo muito maior de mulheres se aproximar, com faixas e cartazes, juntando suas vozes às nossas. Nos abraçamos e agora que o grupo tinha triplicado de tamanho pudemos ocupar uma grande avenida, a dois passos do Arco do Triunfo. Paramos o trânsito e cantamos juntas “Estupro é crime/Não nos calaremos”. A polícia nos cercou e fechou a parte da avenida onde estávamos, tentando conter nossa raiva, abafar nossos gritos. Tarde demais, a cerimônia dos César um fiasco. Uma mulher do meu lado disse “essa noite, fomos nós que vencemos”. Sentei na calçada no final da ação, esperando ser liberada pra ir pra casa (a polícia nos deteve temporariamente no local) quando do meu lado duas mulheres começaram a cantar baixinho o Hino das Mulheres, a música escrita por feministas francesas nos anos 70 que ainda cantamos hoje e que sempre mareja meus olhos: “Juntas, somos oprimidas, mulheres. Juntas, nos revoltemos!”

O patriarcado vai cair de podre. Os que se beneficiam dele estão se agarrando a esse velho mundo odioso, esperneando pateticamente pra continuar oprimindo e agredindo mulheres sem ter que encarar as consequências. Quando descobri que Polanski tinha sido nomeado a 12 Césars, mesmo depois de ter sido condenado pelo estupro de uma menina de 13 anos, além de ser acusado por outras 11 mulheres de estupro (de 9, 10, 12, 18, 29 anos quando ele as estuprou), imaginei na hora que seria organizado um protesto e que eu participaria. Contra esse sistema desprezível que culpa a vítima e dá prêmio ao estuprador. Mas, principalmente, pelas vítimas dele. Por Adèle Haenel. Por todas as mulheres vítimas de uma agressão sexual. Era por elas que eu estava ali. Por elas que eu gritava “Estupradores por todos os lados/Justiça em lugar nenhum” Então não sei exatamente em que momento as coisas começaram a mudar. Fui agredida por um policial e mulheres me socorreram, seguraram minha mão e falaram: “Você está sozinha? Se quiser fica aqui com a gente.” Depois nos demos as mãos e cantamos “Solidariedade com as mulheres do mundo inteiro”. Quando li o décimo cartaz da noite falando de “pedocriminalidade” (“pedofilia” não faz sentido) meu coração parou de bater por um segundo e aquilo que eu vinha sentindo desde o início da noite se cristalizou: era por mim também que eu estava ali! Pela criança de 5 anos que fui, agredida sexualmente por um amigo da família. E como ela precisava colocar aquilo tudo pra fora! Como ela precisava estar no meio daquela massa de mulheres indignadas, de punho erguido, gritando “Estupro é crime! Não nos calaremos!” Eu não imaginava que estar com companheiras naquela ação, mesmo tão curta e simbólica, seria o bálsamo que terminaria de cicatrizar essa ferida. Naquela noite eu não me calei e revidei. Naquela noite mulheres desconhecidas me deram a mão e disseram “você não está sozinha, nós te vemos, nós acreditamos em você e lutaremos em seu nome”.

(Todas as fotos foram feitas por Anne Paq)

Chucrute

Faz 8 anos que publiquei aqui a receita do chucrute que faço regularmente em casa. De tanto fermentar legumes acabei simplificando a técnica, então vim aqui vou postar as instruções atualizadas.

Chucrute (repolho lacto-fermentado)

-Escolha um recipiente de vidro com tampa e lave bem.
-Corte repolho (qualquer cor) em tiras fininhas. A quantidade de repolho vai depender do tamanho do seu recipiente, pois ele tem que ficar cheio até a borda.
-Salgue generosamente (mais sal do que você usaria normalmente pra temperar essa quantidade de legume).
-Coloque o repolho salgado no recipiente escolhido. Vá colocando e compactando com as mãos. Quando achar que não cabe mais repolho, aperte bem e coloque mais um pouco. Tem que ficar bem cheio.
-Preencha o espaço que sobrou com água fria. O repolho tem que ficar submerso, pois o que ficar exposto ao ar pode apodrecer.
-Tampe bem e deixe em temperatura ambiente até fermentar. Isso pode levar 2 dias ou semanas, dependendo da temperatura da sua casa. Está pronto quando tiver com bolhinhas de ar, cheiro e sabor levemente ácidos (só provando pra saber).
-Depois de pronto guarde na geladeira. Se conserva por várias semanas no frio (tem quem pegue o pote pra se servir e deixe ele na mesa por horas antes de lembrar de colocar de volta na geladeira. Não seja essa pessoa!).
-Essa técnica funciona com rabanete, cenoura, beterraba… Mas se tiver usando outro legume, gosto de misturar com uma parte de repolho (pelo menos 1/4). Por alguma razão esotérica bactérias adoram repolho e sempre fermenta mais rápido e melhor quando ele está presente.
-Consuma o chucrute cru (se cozinhar, as bactérias vão morrer) nas saladas (pode misturar com qualquer tipo de salada, dá certo com tudo).

*Sobre “lacto-fermentação”. O “lacto” aqui não tem nada a ver com leite. Esse tipo de fermentação produz ácido lático, por isso dizemos que é repolho lacto-fermentado.

*Eu já tinha comido uma parte do chucrute nas fotos, por isso o recipiente não está cheio. Na primeira foto o pote menor, à direita, é rabanete fermentado com um pouco de repolho. Uso um pouco do líquido do chucrute pronto pra fermentar outros legumes, se não tiver repolho em casa. Isso leva uma colônia de bactérias pra dentro do pote e facilita a fermentação.

Respondendo as dúvidas mais frequentes:

Depois de ter deixado um tempo em temperatura ambiente meu repolho subiu e não está mais coberto por água. Será que mofou?

Essa é a dúvida que mais recebo, mas isso poderia ser facilmente evitado escolhendo o recipiente de acordo com a quantidade de repolho. Como falei nas instruções, tem que ficar bem cheio e compactado. Mesmo assim a camada superior pode subir e ficar fora da salmoura. Nesse caso basta apertar com as costas de uma colher limpa e colocar um pouquinho mais de água. Se mesmo assim ficou uma parte exposta, que adquiriu uma cor diferente do resto no final da fermentação, basta descartar essa camada superior. O resto ainda vai estar bom pra ser consumido.

Como sei quando está fermentado?

O tempo de fermentação varia de acordo com a temperatura do lugar onde o chucrute for colocado pra fermentar. Não tenha medo de provar durante o processo: quando estiver ligeiramente ácido e mole (como se tivesse cozido), tá pronto. Tem quem goste de um sabor suave e vai parar a fermentação logo quando surgir as primeiras bolhinhas no líquido (recomendo, se for a primeira vez que consumir chucrute). Eu adoro chucrute, e fermentados em geral, e deixo fermentar bastante pra ficar com o sabor mais ácido.

Será que usei sal suficiente?

O sal é essencial pra afastar bactérias ruins e garantir uma fermentação saudável. Salgo no olho, jogando o dobro do que usaria se fosse consumir aquele repolho na hora. Mas se você precisa de medidas e números, lá vai: use 1/2 colher de sopa de sal pra cada 1/2 kg de repolho. Mesma coisa se tiver usando outros legumes.

Esqueci meu chucrute umas semanas na geladeira e agora não sei se ele estragou. Como saber se ainda posso come-lo?

Observando, cheirando e provando. Como tudo na cozinha, você vai ter que desenvolver uma intuição culinária. Não dá pra pedir a resposta pra alguém do outro lado do mundo sempre que tiver uma dúvida se a comida na geladeira estragou. Não é má vontade minha, não! Só quem está ali, de frente pra comida em questão, pode saber. Então primeiro observe: tem mofo? a cor está estranha? a textura está gosmenta? Se a resposta for “sim” pra qualquer uma das perguntas, estragou. Se respondeu “não” à todas elas, vamos pro passo seguinte: aproxime o recipiente do nariz e cheire. O cheiro está diferente? é desagradável? Se não, vamos pro teste final: coloque um pouquinho na boca e prove. Ainda está com sabor agradável? era o sabor que tinha antes? Se a resposta for afirmativa, seu chucrute ainda está ótimo. Pode comer sem medo.

E sobre medo, não tenha medo de cheirar e provar a comida se quiser saber se ela está passada. Mesmo se estiver, você não vai morrer se colocar um tiquinho na boca pra testar. Na pior das hipóteses a gente sente imediatamente que apodreceu e cospe (embora o nariz seja o primeiro a indicar o apodrecimento, evitando que comida podre vá parar na nossa boca). Vivemos uma época estranha onde as pessoas preferem deixar perguntas no Instagram de desconhecidas morando do outro lado do oceano pra saber se a comida na geladeira delas está estragada, quando uma cheirada rápida resolveria o mistério em 2 segundos. Mas eu não culpo quem me faz essas perguntas. O agroalimentar, e seus produtos ultraprocessados com data de validade, colocaram na cabeça das pessoas que comida tem dia e hora determinada pra estragar e precisamos confiar em outras pessoas (ou na indústria) pra nos dizer quando podemos ou não comer determinado alimento. O que me leva a outra observação que me choca profundamente. O pessoal se caga de medo de provar um tiquinho de comida que ficou mais tempo do que devia na geladeira, como se tivesse um risco de morte súbita nisso, mas consome, por anos, ultraprocessados entupidos de químicos e agrotóxicos. Observação importante: me refiro aqui a comida vegetal, obviamente. Comer animais e os produtos extraídos dos seus corpos depois de estragados é realmente uma atividade perigosa, que pode ser letal. Corpos mortos se decompõem e atrai bactérias perigosas pra nós. Então não vá comer pedaços de animais mortos estragados ou leite de mamíferos azedo e depois dizer que eu falei que tudo bem. Aliás aproveito pra lembrar que eu não acho tudo bem consumir animais nem produtos extraídos dos seus corpos mesmo se não estiverem estragados.

Leite de amendoim em segundos

Que tempos difíceis estamos atravessando, não é? Mas além de não me sentir pronta pra falar sobre a pandemia que nos colocou em quarentena na maior parte do mundo, estimo que já tem gente demais falando sobre isso no momento. Então me permita te distrair por alguns minutos com leite de amendoim.

Veja. Não tem nada muito original em leite de amendoim. Pelo menos se você for vegana. Se for vegana e nordestina, então, provavelmente você já faz leite de amendoim há anos. Mas deixa eu contar como eu faço leite de amendoim, pois é uma técnica ridiculamente fácil e que quebra o galho nas viagens. Preparada?

Sabe pasta de amendoim? Essa que entrou na moda desde que o pessoal da maromba descobriu que amendoim é muito rico em proteína? Então. Pega ela e mistura com água. TADÁ! Leite de amendoim.

Se você já faz isso há tempos, perdoe minha lentidão em descobrir essa utilização genial da pasta de amendoim. Um leite vegetal barato, pronto em segundos e que você pode preparar em qualquer lugar (na rua, na chuva, na fazenda… ou dentro da barraca no acampamento). Eu uso o liquidificador pra deixar tudo homogêneo, mas se não tiver um por perto, você vai precisar de um pouco mais de força no braço e paciência, pra bater tudo com uma colher, mas dá certo do mesmo jeito. E daí se ficar uns carocinhos de pasta de amendoim sem dissolver, né? Francamente, tem tanta coisa mais importante acontecendo no mundo.

E o que fazemos com leite de amendoim, você pergunta? Tanta coisa… Começando por colocar no café. Confie, fica uma delícia. Depois você coloca na papa de aveia, nas vitaminas de frutas (com banana fica uma perfeição), nos pratos salgados (quando fervido esse leite engrossa e vira um creme). Obviamente o sabor de amendoim é marcante e estará presente no produto final, então lembre disso quando cozinhar com esse leite.

Porque essa receita não é uma, resolvi acompanha-la de algo um tantinho mais elaborado. Um chocolate quente com leite de amendoim que ando fazendo com frequência aqui em casa. E que, por ser ultra simples, você também vai poder fazer num piscar de olhos, quando bater aquela vontade de algo gostoso e doce no meio da tarde (ou tarde da noite).

Então é isso, camarada. Fique em casa, se puder, e isso também vai passar.

Leite de amendoim em segundos

Uso água morna e um liquidificador pra mistura ficar homogênea em segundos. Se não tiver um, bata na mão, acrescentando água morna aos pouquinhos, até dissolver tudo. Use uma pasta de amendoim sem nenhum outro ingrediente (leia o rótulo), o que nem sempre é tarefa fácil em tempos de pasta de amendoim com whey e não sei mais o quê (marketing pra galera da maromba). Dá pra ver na foto acima que minha pasta de amendoim é bem cremosa, mas se a sua for compacta, não tem problema, funciona igualzinho.

2 cs de pasta de amendoim (pura, sem açúcar)
500ml de água morna (quase quente)

Bata tudo no liquidificador por alguns segundos, até ficar homogêneo. Guarde em recipiente tampado. Se conserva alguns dias na geladeira.

Chocolate quente de liquidificador – com leite de amendoim

Eu uso cacau 100% (que é sem açúcar, já que, como o nome indica, é 100% cacau), mas você pode usar 70% ou 50%, se preferir, que nesse caso já vem com açúcar. Uso chocolate 70%, porque é o que sempre tenho em casa, mas aqui também você pode adaptar de acordo com seu gosto (ou conteúdo da despensa). A medida aqui é uma xícara padrão (236ml), porque esse chocolate é bem rico e você não precisa de uma quantidade grande pra ficar satisfeita.

1x de leite de amendoim (receita acima)
1/2cs de cacau em pó
1 pedaço de chocolate (uso 2 quadrados de uma barra de 100g)
Algo pra adoçar, se quiser (açúcar, melado, açúcar de coco)
Canela (opcional)

Aqueça o leite até ficar bem quente (mas não deixe ferver, pois não queremos derreter o liquidificador!). Jogue no liquidificador e acrescente o cacau em pó mais o chocolate (quebrado em pedaços menores) e o adoçante escolhido, se estiver usando (comece com uma quantidade pequena). Tampe bem (líquido quente, cuidado!) e bata por alguns segundos, até o chocolate derreter completamente. Prove e corrija o doce, se necessário. Sirva polvilhado com canela, se quiser. Rende 1 porção

Quem dita as regras do veganismo?

Uns meses atrás publiquei uma série de stories no meu Instagram (os jovens não leem mais blogs, infelizmente) sobre a tendência dentro do movimento vegano de eleger algumas vozes como mais legítimas pra “definir o que é vegano” do que outras e considerar a posição de grandes ONGs internacionais como “oficial”, classificando as visões diferentes como “opinião pessoal”.

É um debate que precisa ser feito, então vim trazer a conversa pra esse espaço também.

No Instagram falei que o que provocou essa reflexão foi um vídeo que vi por acaso no Youtube, mas repito que não se trata de um ataque pessoal à pessoa que fez o vídeo. O que vou escrever aqui diz respeito exclusivamente às ideias expostas naquele vídeo, pois eu já as vi reproduzidas algumas vezes e elas são extremamente problemáticas. O próprio autor do vídeo repetiu esse discurso recentemente pra justificar por que, segundo ele, o fato do recém lançado sanduíche vegetal da rede de lanchonetes Subway ser fabricado pela Seara (do grupo JBS, maior processadora de carne do mundo) não deve ser visto como um problema pela comunidade vegana. As razões seriam as seguintes:

1- “As principais ONGs veganas, como a PETA (EUA) e a Vegan Society (Inglaterra), assim como os principais ativistas do movimento, como Gary Yourofsky (EUA), James Aspey (Austrália) e Earthling Ed (Inglaterra) apoiam essas empresas (como a JBS), logo essa é a POSIÇÃO OFICIAL do veganismo e o que diverge disso é OPINIÃO PESSOAL.”

2- “O debate ‘boicote de empresa X produtos’ só existe no Brasil e nem chega a ser uma questão lá fora. A prova? As mesmas ONGs veganas e ativistas citados acima defendem o boicote de produtos, não de empresas.”

Talvez eu deva começar explicando o que entendo por veganismo liberal antes de debater essas ideias. Estou me referindo a um pensamento motivado pela ideologia liberal (no sentido econômico) que foca exclusivamente nas escolhas pessoais, ignorando a natureza do sistema opressor dentro do qual fazemos essas escolhas. Uma visão do ativismo que se traduz em “mude sua vida, não o sistema”. Logo, essa corrente do veganismo acredita que temos que trabalhar dentro dos limites que o capitalismo nos impõem, por isso não considera grandes corporações que exploram animais como inimigas da emancipação animal que devem ser combatidas (através do boicote, por exemplo), mas como parceiras que devem ser acolhidas. No nível de ONGs isso se traduz por apoio ao produtos e até trabalho de consultoria e desenvolvimento de produtos junto à empresas, como foi o caso do hambúrguer vegetal da Seara. No nível de ativistas isso vai desde aplaudir o fato do capitalismo se apropriar da pauta vegana (como declarar em suas redes sociais que “A revolução vegana chegou!” porque a JBS lançou um linha de produtos ultraprocessados à base de vegetais) até, em alguns casos, fazer publicidades pagas pra promover os produtos dessa empresas capitalistas que exploram animais. Um caso famoso que aconteceu ano passado foi o da linha “vegana” de produtos de higiene pessoal da Unilever, que foi lançada com muito alvoroço e contou com a participação (paga, mas nem sempre declarada) de várias influencers veganas brasileiras.

Então passemos à análise das ideias que expus mais acima.

Sobre 1:
Quando você escolhe dar exemplos apenas de liberais, claro que você vai chegar a um consenso que traduz a posição liberal.

Falar que “se a PETA (People for Ethical Treatment of Animals, ONG estadonisiense) considera que X é vegano, então é vegano” é problemático demais. Eu não sei vocês, mas a PETA, essa mesma que fez campanhas publicitárias extremamente sexistas, onde mulheres são objetificadas supostamente pra promover direitos animais, não é um modelo de ética pra mim.

E o que dizer de citar Gary Yourofsky como exemplo de “um dos maiores ativistas veganos”? Esse cara é uma desgraça pro movimento vegano! Ele se autoproclama misantropo, é racista, sexista, acusa defensores de direitos humanos de serem “hipócritas” e vive batendo palmas pra Israel, um estado colonizador que pratica apartheid e limpeza étnica contra o povo palestino e disse coisas como:

“Os seres humanos são a escória da Terra. Não me importo com judeus ou palestinos, nem com a estúpida e infantil batalha por um pedaço de terra abandonada por Deus no deserto. Eu me preocupo com os animais, que são os únicos seres oprimidos, escravizados e atormentados neste planeta. O sofrimento humano é uma piada.” (fonte)

Na infame carta que ele publicou no Facebook em 2017 pra anunciar que estava se retirando do ativismo ele escreveu:

“Eu disse que palestinos eram o grupo de pessoas mais loucas no planeta. Não é verdade e eu retiro o que disse. A comunidade vegana desculpista-pacifista-interseccionalista é de longe o grupo mais louco de todos! Depois deles tem TODOS os não-veganos “oprimidos” humanos (negros, mulheres, LGBT, palestinos, judeus, hispânicos, etc) e os ativistas de direitos humanos não-veganos, porque eles orgulhosamente apoiam o estupro, o roubo de bebês, a escravidão e assassinato de animais(…) E tem mais, se esses hipócritas por acaso se tornarem veganos, eles simplesmente se transformam no primeiro grupo, o grupo dos lunáticos ‘humanos primeiro animais por último’.”

Eu só posso imaginar que as pessoas veganas que continuam citando Gary Yourofksky não conhecem o caráter dele, porque pensar que tem gente que sabe, mas continua tendo ele como exemplo de ativista vegano me dá ânsia de vomito.

E se alguém tiver o despautério de sugerir que devemos “focar nos que nos une” com relação à essa pessoa eu confesso que terei muita dificuldade em não responder com uma voadora! Se você acredita que todo ativismo vegano é válido porque “estamos do mesmo lado” ou que “se discorda, faça o seu e não critique os outros veganos” deixa eu te falar uma coisa.

Quando Gary Yourofsky diz “os animais são os únicos seres oprimidos, escravizados e atormentados neste planeta. O sofrimento humano é uma piada” ou que “mulheres, pessoas negras, LGBTs não só fingem que são oprimidas como são o segundo grupo mais louco da Terra (perdendo apenas pras veganas interseccionais)”, você realmente acredita que essa pessoa está do mesmo lado que você? Pois eu sou mulher e lésbica e se ele acha que minha opressão e sofrimento são “uma piada” ele não está do meu lado. Está contra mim.

E você realmente acha que ele está fazendo um grande trabalho pela libertação animal e precisamos apenas “focar no que nos une”? O que você acha que as mulheres, pessoas negras, LGBTs vão achar do veganismo se a comunidade vegana continuar elegendo como porta-voz, citando e recomendando o trabalho de uma pessoa que defende que sofrimento humano é piada e que não existe opressão humana? Sério que você acha que ele está fazendo um bom trabalho pros animais? Ele está alienando grupos oprimidos e afastando muitas pessoas, a maioria delas, na verdade, do veganismo. E, infelizmente, os animais não vão poder se libertar sozinhos, eles dependem de humanos pra fazer essa luta.

Como a gente vai expandir e fortalecer o movimento vegano, o que é imprescindível pra conseguirmos emancipação animal, sem a maior parte das pessoas? Achar que Gary Yourofsky é um ativista que deve ser ouvido (e citado/recomendado) faz sentido apenas se você acreditar que o movimento vegano deve ser composto apenas por ativistas brancos e um punhadinho de influenciadoras, quase todos homens e todos liberais, e ninguém mais. O triste é que pro veganismo liberal essa galera que citei acima são realmente os verdadeiros heróis do veganismo. Por isso essas vozes são tidas como autoridade dentro do movimento e todas as outras são ignoradas, distorcidas ou silenciadas.

No vídeo que mencionei no início desse artigo foi dito que a Vegan Society “inventou o veganismo”. Gente, isso é absurdo! Donald Watson, o inglês que fundou a Vegan Society, cunhou a PALAVRA “vegan”! Ele não inventou o veganismo, coisíssima nenhuma. Afirmar isso apaga a existência de todas as pessoas que vieram antes dele, principalmente fora do Ocidente e que já estavam, de uma maneira ou de outra, na luta antiespecista. Então vamos repetir juntas: Donald Watson cunhou o termo VEGAN em 1944, usando a primeira e a última sílaba de “vegetarian”. O posicionamento político antiespecista e sua prática (se abster de produtos de origem animal) já existia.

“Chegou a hora de separar opinião pessoal do que é regra no veganismo” disse o autor do vídeo em um artigo mais recente.

Imaginando que existe uma cartilha de regras no veganismo (não existe), quem decretou que elas seriam ditadas por ONGs estadunidenses e inglesas, junto com os ativistas veganos homens com mais visibilidade? Eles estão todos de acordo porque são todos liberais, não porque é a posição oficial do veganismo. Não existe um Órgão Supremo Vegano, composto por homens e ONGs liberais do Norte Global, assinando decretos, baseados no que eles pensam, que afirmam que toda pessoa vegana do mundo tem que aceitar esses decretos como a posição real oficial global do veganismo e tudo que diverge disso é “opinião pessoal”.

O movimento vegano está em disputa e o fato das vozes mais ouvidas serem as liberais traduz simplesmente o fato dessas pessoas terem mais holofotes virados pra elas. Por que? Oras, sabemos que a mensagem “precisamos acolher empresas especistas / o capitalismo é parceiro da libertação animal” é muito mais palatável, menos ameaçadora e rentável, por isso ganha mais destaque. O crescimento do veganismo liberal não é de maneira alguma prova de que essa vertente é a mais eficaz/estratégica. Isso significa apenas que o capitalismo conseguiu cooptar mais essa pauta radical, justamente porque ela estava se tornando uma ameaça, e está se usando disso pra não perder poder nem ter que parar de explorar e lucrar com a exploração (animal, humana, da Terra).

O fato da PETA ter um posicionamento liberal e adotar o veganismo de mercado não significa que todas as pessoas ou ONGs nos EUA concordam com isso. O Food Empowerment Project, só pra citar um exemplo, é uma ONG vegana criada por mulheres latinas e tem um posicionamento político que está no extremo oposto do que a PETA diz. Não só criticam o veganismo liberal e sua colaboração com empresas especistas, como incluem a libertação humana e a luta anticapitalista nas suas pautas.

Sobre 2:
Sempre me diverte a galera que mora no Brasil dizer “esse debate ‘boicote de empresas X produtos’ só existe no Brasil, lá fora nem é uma questão”. Baseado em que dizem isso? Baseado na posição de ONGs e ativistas liberais, mais uma vez. Pois bem, eu moro fora do Brasil há18 anos e posso garantir que tanto na Europa, quanto América do Norte quando Oriente Médio (não tenho vivência nem contato com ativistas no resto do mundo) as opiniões são divergentes. Se uma pessoa palestina, por exemplo, olhar o movimento vegano brasileiro de fora e formar uma opinião escutando apenas o que as influenciadoras e ONGs veganas liberais dizem ela vai chegar à conclusão que no Brasil esse debate não existe, pois todo mundo concorda que devemos praticar um boicote parcial, apenas de produtos, e abraçar/fazer publicidade pra empresas especistas quando elas lançam produtos vegetarianos. Mas isso está longe da verdade.

Aqui na França, onde moro atualmente, as ONGs veganas de maior destaque tem posições liberais. Mas quando vou à festivais veganos, encontros veganos, etc, converso com as pessoas e muitas tem uma opinião completamente diferente. Recentemente entrei em contato com alguns grupos antiespecistas franceses que são fundamentalmente anticapitalistas.

Então falar que “lá fora esse debate não é uma questão” não é verdade. Se você tinha essa impressão é porque só está ouvindo vozes estrangeiras liberais, mas o movimento vegano anticapitalista fora do Brasil é muito forte.

O movimento antiespecista organizado ainda é muito jovem no Brasil e está em plena disputa. É saudável trazer considerações novas, questionar, duvidar, discordar… E, principalmente, o caminho que o movimento antiespecista deve tomar no Brasil tem que refletir a nossa realidade, nosso contexto político e social. O que funciona na Europa não necessariamente vai funcionar no Brasil e nossa luta precisa ser contextualizada, senão não será eficaz. Temos que enfrentar desafios que são únicos ao nosso país e só nós, que fazemos parte dessa realidade, sabemos que estratégias são relevantes e fazem sentido no Brasil. Não os ativistas e ONGs gringas.

Sério que vamos aceitar como “posição oficial” o que os liberais gringos acham do veganismo? Pois eu sou a favor da construção de um veganismo contextualizado, um veganismo latino-americano que respeita a nossa cultura e traça estratégias que façam sentido nos nossos territórios.

Considerações finais

Grandes ONGs veganas, ativistas do Norte Global e influenciadoras veganas não representam a autoridade máxima cuja palavra deve ser vista como “posição oficial” sobre questões ligadas ao movimento antiespecista, enquanto o posicionamento de todas as outras pessoas e organizações deve ser visto apenas como “opinião pessoal”.

Precisamos ouvir vozes marginalizadas (veganas no Sul Global, no movimento afrovegano no Brasil e nos EUA, etc) e levar em consideração o que organizações e ativistas veganas anticapitalistas tem a dizer. Nós também fazemos parte do movimento antiespecista!

A UVA (União Vegana de Ativismo) foi criada em 2018 e já conta com 16 coletivos veganos anticapitalistas espalhados pelo Brasil. Nós defendemos o boicote de empresas exploradoras de animais, que desde o início do movimento vegano organizado foi tido como uma das ferramentas de luta mais importantes. Uma parte importante do movimento vegano brasileiro (e no mundo) segue acreditando que qualquer ação ou tática que fortaleça o sistema que lucra com a exploração especista é contrária aos interesses dos animais.

O movimento vegano está em disputa e não para de evoluir. Ele não é o mesmo de 1944, quando Donald Watson criou a Vegan Society. E mais importante do que adotar, sem análise crítica, o que ONGs e ativistas veganas liberais nos EUA e Europa consideram como estratégia mais eficaz pra disseminar o veganismo, precisamos contextualizar a luta antiespecista e procurar estratégias que façam sentido e tenham impacto na nossa realidade socio-política.

Perguntar “tal produto vegetal de tal empresa especista pode ser considerado vegano?” deveria ser irrelevante. Precisamos parar de agir como se o veganismo se resumisse a um modo de consumo. O veganismo é a prática, o caminho pra derrubar o especismo, não o objetivo. A verdadeira pergunta deveria ser “que atitudes fazem o movimento antiespecista ter avanços concretos e nos colocam um passo à frente na luta pelo fim da exploração animal?” E, sinceramente, não vejo como continuar fortalecendo o capitalismo, o sistema econômico que produziu a exploração animal nas proporções absurdas que vemos hoje, pode ajudar na luta por libertação animal.

E, caso ainda não esteja claro pra todo mundo, nós, que vemos o veganismo como um projeto ético-político (não como um modo de consumo), NÃO condenamos o consumo individual de produtos de grandes empresas especistas! Ninguém aqui perde tempo tentando “tirar carteira de vegana de ninguém” por consumir produtos vegetarianos da Nestlé ou Unilever, nem mesmo da JBS. Isso não passa de uma tentativa do veganismo liberal de descreditar o veganismo popular. Nós criticamos o incentivo ao consumo desses produtos, pela parte de ONGs e influenciadoras veganas, assim como o mito de que a maior processadora de carnes do mundo, a JBS, é uma aliada dos animais.

Não, ONGs e ativistas liberais não ditam as regras do veganismo. Até porque se essas forem as “regras”, nosso movimento tem poucas chances de alcançar seu objetivo final: libertação animal. O movimento vegano é construído por quem faz parte dele, todas as pessoas que fazem parte dele. Controlar a narrativa dentro do movimento e deslegitimar toda opinião contrária é algo que veganos liberais fazem há anos. E não é surpresa nenhuma que as pessoas fazendo isso sejam justamente aquelas que estão acostumadas a ocupar uma posição dominante na nossa sociedade desigual (homens, brancos, classe superior).

Pra complementar a leitura desse artigo, sugiro que você leia também:

https://www.anda.jor.br/2020/03/veganismo-estrategico-pragmatico-ou-simplesmente-capitalista-falacias-e-idealismos-confrontados/

Fermente seu grãomelete

O texto poderia ter só essa frase, mas vou desenvolver a ideia, caso você precise ser convencida.

Lembram do meu grãomelete, o omelete à base de grão de bico? Lembram que fiz uma versão atualizada com farinha de grão de bico? Pois vim atualizar essa receita novamente e tenho ótimas razões pra isso.

Primeiro: o que é grãomelete?
Se você ainda não descobriu essa maravilha, deixa eu explicar que ele representa um pequeno Everest pra culinária vegetal. Durante os primeiros anos do meu veganismo eu ainda sentia falta de ovo. Até que um dia eu percebi que não era do ovo em si que eu sentia falta, pois já nem lembrava mais do sabor, mas da praticidade que o ovo oferece. Você quebra um ovo na frigideira, coloca num pedaço de pão e em poucos minutos tem uma refeição. E da versatilidade dele na versão salgada: omelete, tortillas, fritadas… Então quando o grãomelete entrou na minha vida (quase) todos os meus problemas acabaram. Quem imaginava que a mistura de grão de bico e água pudesse resultar em algo que se comportaria de maneira muito similar ao ovo? Então grãomelete é um omelete feito com grão de bico (seja farinha de grão de bico ou o grão inteiro, como expliquei na primeira receita de grãomelete que publiquei aqui).

Passemos à fermentação.
Algumas pessoas que conheço tinham problemas pra digerir o grãomelete feito com farinha de grão de bico e água. Veja, a farinha é simplesmente o grão de bico cru moído. Sabemos que leguminosas (principalmente grão de bico, feijão, ervilha) precisam ficar de molho no mínimo 12 horas pra se livrarem das enzimas que dificultam a digestão. O processo de triturar o grão também destrói essas enzimas, mas o estômago de muita gente continuava reclamando. Além disso, eu achava o sabor do grãomelete feito com a farinha inferior, pois eu sentia um gostinho de cru lá no fundo. A gente sabe que grão de bico leva um tempão pra cozinhar e farinha é o grão cru. Não tinha quem me fizesse acreditar que aqueles poucos minutos na frigideira (mais que isso e ele queima) eram suficientes pra cozinhar o danado.

Então um dia tive a ideia de dissolver a farinha de grão de bico na água e deixar descansando uma noite antes de fazer o grãomelete. Pensei que assim o grão de bico (mesmo em versão farinha) ficaria mais mole e cozinharia mais rápido. Bingo! Resolvido o problema do leve sabor de cru. Fiz algumas receitas (influenciada digitalmente pelas blogueiras do Instagram) de pão de frigideira com grão de bico cru, onde elas falavam pra misturar a farinha com outras coisas e deixar cozinhar 5 minutos na frigideira e sempre foi um fracasso. Me pergunto se só eu consigo sentir o sabor de cru dos pratos que usam esse método…

Mas a história não parou aí. Um dia fiz mais massa pra grãomelete do que precisava usar no momento e esqueci o resto num canto da cozinha. No dia seguinte ela tinha fermentado espontaneamente. Faço parte das entusiastas de fermentação e uma bacteriazinha nunca me assustou, então fui em frente e preparei o grãomelete mesmo assim. Ficou ainda melhor! E agora, fermentado, o problema da indigestão tinha sido resolvido. As bactérias pré-digerem a massa e fica bem mais leve no estômago.

Desde então me tornei a evangelizadora do grãomelete fermentado. Eu preparo a massa na noite anterior e deixo em temperatura ambiente, coberta com a tampa (mas sem enroscar a tampa), pra preparar pro café do dia seguinte. Dependendo da temperatura na sua casa, 12 horas serão suficientes pra fermentar levemente a massa. Aqui, no inverno europeu, preciso de mais tempo, então eu desenvolvi um método pra ter sempre grãomelete fermentado em 12 horas: uso o mesmo pote, sem lavar, de uma leva pra outra. As bactérias da leva anterior, que ficaram no pote junto com um restinho da massa, atuam como um levain, um fermento natural. Funciona muito bem. De vez em quando lavo o pote (quando começa a ficar cheio de crostas das levas anteriores) e começo o processo novamente.


Outra dica de ouro: prepare uma quantidade grande, deixe fermentar ligeiramente e guarde (dessa vez bem tampado) na geladeira. O frio vai frear a fermentação e você vai ter a possibilidade de preparar um grãomelete (ou uma tortilla) sempre que quiser. E assim consegui ter de volta a praticidade e versatilidade culinária que uma bandeja de ovos me proporcionava, mas sem explorar as companheiras galinhas.

Grãomelete fermentado

Não precisa de receita, só instruções e dicas, então lá vai. E se você ficou curiosa sobre o que tem na foto de abertura do post, é grãomelete com cogumelos.

Misture farinha de grão de bico com água aos pouquinhos, mexendo vigorosamente pra evitar os grumos. A consistência deve ficar pastosa, mas não muito espessa. Cubra com a tampa (não enrosque a tampa, só coloque por cima pra evitar que mosquitos caiam na massa) e deixe na cozinha, em temperatura ambiente, por 12 horas. Ou seja: prepare à noite pra comer no café ou pela manhã pra comer no jantar.

No dia seguinte, dependendo da temperatura na sua cidade, vai ter ocorrido uma leve fermentação selvagem (com bactérias que vivem no ar). Você vai notar algumas bolinhas na massa, que vai estar mais aerada. Se isso não ocorrer você tem duas opções. 1- preparar seu grãomelete mesmo assim (já vai estar mais macio e gostoso do que se tivesse usado a farinha crua sem o tempo de descanso) ou 2- deixe mais tempo em temperatura ambiente, até ocorrer a fermentação.

Pra fazer o grãomelete basta colocar água suficiente pra textura ficar quase totalmente líquida, temperar com sal a gosto (ervas secas ou frescas, alho, cebola desidratada, páprica, pimenta do reino, tudo isso pode ser acrescentado à massa), esquentar um pouco de óleo ou azeite em uma frigideira antiaderente (tem que ser antiaderente, senão gruda) e espalhar uma camada de massa e cobrir a frigideira. Deixe cozinhar uns minutos, em fogo médio, até ficar firme na parte superior. Retire a tampa, espere alguns segundos pro vapor ir embora e as bordas secarem um pouco e vire, usando uma espátula grande. Doure do outro lado e sirva.

Algumas informações suplementares, mas muito úteis:
-A consistência da massa vai determinar a textura do grãomelete. Se a massa tiver muito espessa, o grãomelete vai ficar pesado. Eu gosto de grãomelete ligeiramente cremoso por dentro, o que é possível quando a massa tem bastante água, pra ficar na textura de um leite. Mas é mais complicado pra assar: demora mais e precisa de uma frigideira realmente antiaderente, senão é lambança na certa e seu grãomelete vira grão mexido. Feio, mas gostoso do mesmo jeito.
-Pras pessoas que tem problemas pra virar o grãomelete: infelizmente só posso recomendar trocar de frigideira. Se não for antiaderente e em ótimo estado, não vai rolar. Mesmo assim não deixe de usar óleo/azeite.
-Se quiser um grãomelete levemente crocante nas bordas, use mais azeite. Lembre que grão de bico não tem gordura, por isso acho que com uma quantidade mais generosa de azeite seu grãomelete fica ainda mais gostoso e com a textura mais bacana.
-A massa fermentada pode ser conservada vários dias na geladeira. Uns 4-5.
-Se seu grão fermentou demais, ele vai ficar com um sabor ligeiramente ácido. Eu adoro, mas se você achar ruim, fermente menos da próxima vez.
-Se você mora em um local frio, considere adotar o meu método do pote sujo (explicações no texto acima) pra fermentar seu grãomelete mais rápido.
-Com a massa fermentada você pode fazer outras coisas além do grãomelete: quiches, tortillas, fritadas, rabanada e, minha última invenção, grão na chapa.

Por um veganismo que promove autonomia alimentar

Ano passado a chef Paola Carosella causou um grande alvoroço dentro da comunidade vegana por causa da reação dela (via Twitter) depois de ter provado um hambúrguer vegetal que imita a textura e o sabor de carne animal. Acho oportuno abrir espaço pra discutir as declarações dela, pois acredito que podemos extrair algumas lições importantes do ocorrido.

Tirando uma única coisa descabida que ela falou, e que discutirei mais na frente, achei as críticas muito válidas. Ao invés de crucifica-la por ter falado mal de um produto ultraprocessado à base de plantas, inacessível pra maior parte da população brasileira (bastante caro comparado à outras alternativas de proteína vegetal, como feijão e arroz), proponho ler com atenção o que ela escreveu e ver isso como uma oportunidade de ouro pra fazer uma reflexão necessária sobre as estratégias que queremos adotar na luta por emancipação animal.

Seguem as críticas de Paola ao hambúrguer de planta que imita carne animal. Algumas eu só copiei/colei dos tweets dela, outras eu reformulei ligeiramente pra caber numa frase.

Crítica 1-
“Ultraprocessados, mesmo feito com vegetais, são péssimos pra saúde.”
O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, que é muito bom, por sinal, é categórico ao dizer que, em nome da nossa saúde, o melhor a fazer é ficar longe deles. Promover o consumo de ultraprocessados “veganos”, com a justificativa de que é um suposto “avanço pros animais”, não só não faz sentido pros não-humanos (explicações mais adiante), como é irresponsável do ponto de vista humano.

Crítica 2-
“Esses hambúrgueres vegetais imitando carne são oportunistas no momento de mais confusão alimentar da História.”
Sim. O fato da indústria vender esses produtos “veganos” (salsicha, hambúrguer) como uma alternativa saudável é perigoso, pois as pessoas que não tem acesso às informações certas vão se iludir e comer porcaria achando que estão fazendo uma escolha superior, mais saudável. Nunca vou esquecer de uma mãe brasileira que, depois de me explicar que a filha e o filho não comiam frutas, declarou, orgulhosa, que fazia questão de dar suco Addes (soja com suco de frutas) todos os dias às crianças, o que compensava a falta de fruta fresca no cardápio.

Crítica 3-
“Não é ato político parar de comer vaca, mas comer ultraprocessados de soja, milho, açúcar e trigo que em muitos casos são feitos pelas mesmas empresas (que vendem carne)”

Hambúrguer “vegano” produzido pela indústria agroalimentar é fruto do mesmo sistema alimentar hegemônico, baseado em monocultura, agrotóxicos, latifúndio, destruição de ecossistemas, grilagem de terras indígenas e trabalho escravo. Que, além de tudo, reforça a alienação do consumidor, que não sabe o que é nem como foi produzido aquilo. E aliena também a consumidora vegana, que acha que está fazendo “um ato politico” quando na verdade está fortalecendo o mesmíssimo sistema que explora e mata animais e destrói o meio ambiente.

A indústria alimentar nos quer dependentes dela, porque nossa autonomia significa redução de lucros pra ela. Sim, ela só se preocupa com lucro e não se importa se está lucrando com a venda de animais mortos ou de produtos vegetais que imitam animais mortos. Esse é o principal argumento do veganismo liberal pra incentivar a produção e consumo de produtos vegetais ultraprocessados, mas ele demonstra um profundo desconhecimento do modo de funcionamento do capitalismo.

Como escrevi mais acima, o que essa indústria quer realmente é nos manter dependentes dela, por isso não se importa se nossa dependência é de hambúrguer de carne animal ou vegetal. Porque de um jeito ou de outro ela continuará lucrando em cima de nós e usando esse dinheiro pra se expandir, aumentando a exploração da Terra e dos animais, humanos e não humanos. Aqui ou em outros países.

O fato de gigantes da exploração animal como JBS e Mantiqueira quererem uma parte do mercado vegano não é a prova que a “revolução vegana” está acontecendo. Isso não passa de uma manobra da indústria pra lucrar com um novo nicho de mercado, se manter relevante face às mudanças nos hábitos de consumo, enquanto, ao mesmo tempo, mantém o sistema de exploração animal, que é extremamente lucrativo, intacto. Que incentivo essas empresas terão pra parar de vender animais (ou produtos com derivados de animais) se a comunidade vegana passar a afirmar que “basta criar novos produtos vegetais, sem precisar diminuir o número de animais explorados e mortos pela sua empresa, pra que ela seja aplaudida e acolhida por nós, que passaremos a recomendar e fazer propaganda desses produtos vegetais”?

E qual seria a alternativa? Mexer na raiz do sistema econômico, o capitalismo, que precisa de exploração (humana e não-humana) pra existir. E sabe como tocamos na raiz desse sistema? Primeiro decidindo não fortalece-lo. Parece óbvio, mas estou sempre sendo obrigada a repetir que não dá pra acabar com a exploração animal fortalecendo o sistema que explora os animais. Então vou repetir mais uma vez:

Não podemos acabar com a exploração dos animais fortalecendo o sistema que os explora.

Aplaudir e (ser paga pra) incentivar o consumo de produtos de corporações gigantes que exploram animais (e a Terra e as pessoas) NÃO é apoiar o veganismo. É apoiar o capitalismo. Ou seja, apoiar o sistema que explora animais no nível gigantesco que vemos hoje. E sim, existia exploração animal e especismo antes da chegada do capitalismo, mas não podemos negar essa evidência: a chegada do capitalismo elevou o sofrimento animal a um nível nunca antes visto na História. Hoje se mata uma quantidade de animais pro consumo humano absurdamente maior do que alguns séculos atrás e a maneira que eles são criados se tornou insuportavelmente cruel. Então embora o fim do capitalismo não tenha como consequência garantida o fim do especismo, me parece impossível imaginar o fim da exploração animal enquanto ele existir.

Como acabamos com a exploração animal, então? Algumas sugestões:

-Fortalecendo quem planta alimento sem veneno (e, assim, protege ecossistemas e os animais selvagens que vivem ali). Fortalecendo a agricultura familiar que alimenta as brasileiras. 70% do que o povo brasileiro come vem da agricultura familiar, enquanto o agroalimentar planta soja, milho e cana que se transformarão na infinidade de produtos ultraprocessados nas prateleiras dos supermercados (incluindo os produtos “veganos” ultraprocessados). Fortalecendo a luta por reforma agrária, porque pra sair da monocultura de commodities (milho, soja, cana) praticada pelos ruralistas precisamos acabar com o latifúndio e garantir a democratização do acesso à terra. Só assim passaremos a plantar pra alimentar pessoas, não pra gerar lucros em cima da destruição. Apoie o MST e compre sua comida nas feiras da reforma agrária.

-Trabalhando pra aumentar a soberania, mas também a autonomia alimentar. Isso significa ajudar a educar o povo com relação ao que significa uma alimentação vegetal. Explicar, sempre que possível, que comida vegetal vem da feira, não necessariamente da indústria. Que comida vegetal vem da terra, não de laboratórios.

“Ah, mas nem todo mundo tem acesso a vegetais frescos e sem veneno. O pobre só consegue comprar ultraprocessado, porque é mais barato, então pelo menos que seja ultraprocessados vegano pra salvar os animais.”

Ao invés de lutar pra mudar o sistema que impede que o vegetal fresco sem veneno chegue em todas as mesas, a gente vai se contentar de substituir ultraprocessados animais por ultraprocessados vegetais, vindos da monocultura, cheios de agrotóxicos, que adoecem a população e destroem ecossistemas do mesmíssimo jeito? Mesmo se libertação animal é a única pauta importante pra você, me responda: como uma população doente vai poder lutar pelos animais? Só quem defende um movimento por libertação animal onde os únicos protagonistas são um punhadinho de ONGs e pessoas da elite negociando com o agroalimentar, pra substituir ultraprocessados animais por similares vegetais “pra democratizar o veganismo”, aceitaria isso. Pior, consideraria isso uma estratégia eficaz. Nem preciso dizer que esse grupo de “heróis veganos”, a galera que fecha com o capital, segue comendo seu alimento fresco e orgânico, né?

Se eu chamo a vertente do veganismo que defendo de “veganismo popular” é justamente porque acredito que o veganismo é um projeto ético-político que só vingará se for construído com o povo.

Nosso movimento é político, sim, e tem um potencial revolucionário enorme. Já pensou o que aconteceria se todo mundo boicotasse a JBS, Sadia, Perdigão, Nestlé, Unilever etc e passasse a comprar o seu alimento nas feiras da reforma agrária? Diretamente da agricultura familiar? Já pensou a galera toda fortalecendo o pequeno agricultor que planta sem veneno, a assentada da reforma agrária que pratica agroecologia, ao invés de continuar dependente dos produtos cheios de agrotóxico, vindos da monocultura, com exploração animal, com trabalho escravo do agroalimentar? Imagine o impacto que isso teria na sociedade!

A crítica de Paola só desandou quando ela disse: “Quem quer algo com gosto de carne, que coma carne!”, ignorando o fato que não comer animais é uma escolha ética, não uma preferência gastronômica. Mas nenhuma surpresa aqui. Ela vai continuar defendendo o especismo, pois ganha a vida cozinhando animais, ou seja, lucrando com a exploração animal.

A solução desses chefs preocupados com meio ambiente, mas que continuam defendendo o especismo, não é acessível pro povo. Como disse minha amiga Juliana Couto (do blog Vegana Prática), se ela (e outras chefs estrelas) “comem vacas que tomam banho de ofurô e bebem matchá, isso é algo impossível de ser reproduzido na escala mundial”. Essa é uma questão importante e que dá muito pano pra manga, por isso acho que merece ser discutida outro dia.

Porém tirando isso, achei as críticas dela extremamente válidas. Escutei a mesma crítica vinda de outros chefs famosos (no Brasil e aqui na Europa) e, o que me deixou realmente triste, de guardiãs de sementes crioulas na Palestina e pessoas que trabalham com agroecologia mundo afora. Quando essas pessoas criticam o veganismo dizendo que “comer produtos ultraprocessados, à base de soja e monocultura, não é uma boa solução” e que se a alternativa for essa, elas preferem “comer carne orgânica e galinhas criadas no quintal” isso significa duas coisas nas quais deveríamos estar prestando muita atenção:

1- Que o “veganismo de mercado”, essa tendência do veganismo liberal de fechar com o capital (agroalimentar) em nome de um suporto “avanço pros animais”, não só não diminui a exploração animal (olha aí a Mantiqueira dizendo que vai aumentar a produção de ovos logo depois de ter lançado o seu “ovo vegano”), como dá uma ideia completamente errada do que é uma alimentação vegana, o que acaba afastando e colocando contra a gente pessoas que tem tudo pra ser nossas aliadas. O veganismo liberal causa muito mais danos à causa do que ajuda.

2- Que temos um trabalho de informação muito importante pela frente se quisermos ver a exploração animal começar a diminuir.

Imagina se, ao ouvir a palavra “veganismo”, o povo associasse o nosso movimento ao fortalecimento da agricultura familiar, apoio à reforma agrária, agroecologia, fim do latifúndio, da grilagem de terras indígenas e da monocultura, solidariedade aos povos indígenas, luta contra a bancada do boi, por soberania e autonomia alimentar? Despertaríamos a simpatia e o apoio de quem está lutando pra construir um novo modelo de mundo com justiça pra todas, onde a emancipação animal realmente teria chances de acontecer. Isso sim seria ver a revolução vegana avançar, construindo as bases pra uma sociedade sem especismo.

Seria bem mais difícil dizer mentiras como: “Acha que ser vegano é melhor pro meio ambiente? Estão acabando com a Amazônia pra plantar soja pra fazer comida vegana”, como o chef Alex Atala disse tempos atrás. Seria bem mais difícil justificar o especismo dos que não querem mudar sua alimentação (porque lucram com a exploração animal, como esses chefs, ou por puro comodismo) alegando que a alternativa vegana é pior, pois significa “ultraprocessados e monocultura”.

Enquanto isso o veganismo liberal, que mede seu sucesso em número de produtos ultraprocessados vegetais nas prateleiras dos supermercados, prefere se aliar a corporações capitalistas que querem cooptar nossa luta e pagar de vegan-friendly, sem no entanto reduzir a exploração animal que praticam. Com excessão das ditas corporações todo mundo perde com essa estratégia. Principalmente os animais.

Depois de publicar essas reflexões no meu Instagram, algumas pessoas levantaram a questão de Paola estar claramente se referindo ao hambúrguer do Futuro, feito por uma start up brasileira, enquanto a minha crítica tinha sido direcionada às gigantes da exploração animal como a JBS, Sadia, Nestlé e Unilever.

Embora eu reconheça que essa empresa brasileira não se aproxime nem de longe do nível de destruição praticada pelas gigantes do agroalimentar, a crítica exposta nesse texto continua válida. O coração da reflexão desse texto é sobre o fato da produção de ultraprocessados à base de plantas (feitos por multinacionais ou startups) buscarem manter a nossa dependência do agroalimentar, que existe em parceria com o agronegócio.

Porque autonomia alimentar não dá lucro, não é mesmo? Não rende prêmio de inovação e empreendorismo, enquanto desenvolver e vender um produto ultraprocessado, sim, como falou minha amiga, sempre certeira, Juliana Couto. Então a lógica por trás, embora numa escala e com impactos negativos bem menores, é a mesma.

Tem gente que se obstina a dizer que estou defendendo um purismo no veganismo, que julgo negativamente quem gosta de hambúrguer de plantas que imita o sabor de animais porque me acho mais vegana que todas as veganas e que pretendo caçar a carteira de vegana da coleguinha. Não sou ingênua a ponto de pensar que é problema de compreensão: essas pessoas defendem produtos vegetais ultraprocessados simplesmente porque ganham dinheiro pra promover o consumo dos mesmos. Mas pra quem ainda não se convenceu que minha posição não é essa, vou desanuviar pra você.

Não critico, muito menos condeno, a pessoa que gosta desses produtos. Não acho que se você comer um hambúrguer vegetal que imita carne animal você estará boicotando o movimento vegano e merece ser expulsa do grupo. De maneira alguma. Quer comer isso? Se joga, amiga. Está aqui a mulher que não vai te julgar. E, já que chegamos nesse ponto, melhor comer o hambúrguer do Futuro do que o da JSB. Mas se num dia de corre você acabou comprando um ultraprocessados de uma grande corporação, garanto que o mundo continuará girando.

Minha crítica, como sempre, vai à crença de que isso (ultraprocessados vegetais de multinacionais nos supermercados) é uma revolução vegana que está diminuindo o sofrimento e exploração animal no mundo. E foi aí que achei bem bacana um tweet de Paola, exatamente o que deixava a entender que ela tinha comido o hambúrguer do Futuro.

“É a mesma indústria…quer falar de alimentação do futuro, falemos. Mas ultraprocessados sabor carne tem no mercado desde 1960…ou antes. Mudou nada.”

Sim, comida ultraprocessada imitação não é uma ideia do futuro porcaria nenhuma! Tem miojo de “galinha” sem um grama de galinha, só saborizantes artificiais, nas prateleiras do supermercado há bastante tempo, por exemplo. Sabe o que é a comida do futuro, na minha opinião? Comida agroecológica. Vegetais frescos e sem veneno preparados na cozinha e saboreados à mesa, com tempo.

“Ah, mas quem tem acesso à essa comida? Pelo menos o ultraprocessado ‘vegano’ da Unilever/Nestlé/JBS vai chegar em muito mais lugares!”

De novo esse argumento raso. Sim, nem todo mundo tem acesso à comida agroecológica hoje, mas ao invés de ver isso como motivo pra aceitar a porcaria que multinacionais querem nos fazer engolir, pra mim isso é a razão pra levantar e lutar pra mudar o sistema. Eu defendo o que eu quero ver multiplicado.

Estamos num momento de colapso climático e mudar o sistema é a nossa única chance de sobrevivência. Acreditar que defender o sistema capitalista porque “os animais não podem esperar o fim desse sistema pra que aí então a gente comece a lutar por eles” é prova de uma ignorância tremenda ou, mais provavelmente, de interesses econômicos por trás, que são antagônicos à libertação animal. Temos poucos anos pra mudar de sistema se quisermos ter uma chance de continuar existindo na Terra. E não seremos apenas nós que vamos desaparecer: os outros animais também (já vivemos um período de extinção em massa, com de 150 à 200 espécies entrando em extinção por dia!).

E é aí que o veganismo popular, anticapitalista, que luta por reforma agrária, contra o latifúndio e defende a agroecologia e a soberania alimentar contribuirá imensamente na construção de um novo modelo de sociedade. Com justiça pra animais humanos, animais não-humanos e natureza, e que também é o único modelo que nos daria a possibilidade de continuar vivendo na Terra.

Grão na chapa

Gosto de pensar que sou uma pessoa modesta. Recebo elogios de bom grado, mas não saio por aí “contando vantagem”, como a gente diz na minha terra (se você precisa de tradução, essa expressão significa “fazendo elogios, não merecidos, a si mesma”). Mas de vez em quando eu desenvolvo uma receita que me faz inchar de orgulho. Mais ainda quando não se trata de uma receita propriamente dita, o que envolve vários ingredientes, muitos testes e muita louça pra lavar antes de chegar na versão final, a que compartilho aqui no blog. Isso é um trabalho que necessita criatividade, obviamente, mas é o resultado de 90% de transpiração e 10% de inspiração, como dizem que disse Einstein. Agora, quando a “receita” em questão é uma ideia que brotou na minha cabeça, puf!, que necessita apenas 2 ingredientes e que deu certo de primeira, aí eu não consigo conter o entusiasmo (se você estivesse do meu lado nesse momento me veria dando um discreto beijinho no ombro).

Essa empolgação toda por um pedaço de pão? Sim, mas eu dei uma recalibrada nesse pedaço de pão e agora ele é um lanche/café da manhã completinho, com o mínimo de esforço e pouco dinheiro. Explico.

Lembra do meu grãomelete? A mistura de base (farinha de grão de bico + água) não para de me surpreender. Passei a usar pra fazer tortilla (sempre um sucesso), quiche (ainda não publiquei a receita), molho de macarrão (sim, sim!) e rabanada (tanto doce quanto salgada, a minha preferida). E a ideia nasceu dessa última. Na verdade se trata de uma variação da rabanada salgada, mas simplificada e com um resultado final diferente.

É bem simples: você pega a massa do grãomelete, espalha em um prato pequeno e depois gruda um pedaço de pão nela (só de um lado). Aí é só fritar em um pouco de óleo/azeite. Você vai obter, cara leitora, um pão na chapa coberto com uma camada ligeiramente crocante de grãomelete. Sim, você pode fazer um grãomelete e depois servir dentro de um pão. Eu faço isso com frequência e adoro. Porém se trata de uma daquelas fórmulas mágicas onde a soma das partes é superior aos elementos do início. Quando o grãomelete cozinha junto com o pão na frigideira parece que é algo diferente de um pão com grãomelete. Por que? Mistério. Mas te desafio a tentar em casa e descobrir por si própria.

E, por outra razão misteriosa, essa versão me agrada ainda mais do que a rabanada (que é extremamente similar à essa receita). A única diferença é o método de preparo, o que produz um resultado interessante. A integridade do pão é respeitada (na rabanada ele deixa de ser pão e se transforma em rabanada) e o contraste de textura (o pão macio com a capinha crocante do grãomelete) é ao mesmo tempo delicioso e reconfortante. Talvez porque cresci comendo mais pão com queijo derretido na chapa do que rabanada (na verdade só fui comer rabanada depois de vegana), essa versão tem um gostinho bom de nostalgia pra mim.

A essa altura você já sabe que cereal + leguminosa forma uma proteína vegetal completa, né? Então esse lanchinho/café da manhã composto por pão (cereal) e grãomelete (grão de bico é uma leguminosa), combina lindamente na boca e do ponto de vista nutricional também. Então é uma atualização melhorada (em todos os sentidos) do pão na chapa com manteiga (ou margarina/azeite). E sabe como estou chamando essa lindeza? Taí mais um motivo pra estar me achando hoje, pois o nome é perfeito: grão na chapa! GRÃO NA CHAPA!!!

Esqueça o pão na chapa. Meu grão na chapa chegou pra animar seu carnaval. Seu ano. Seus lanches de agora em diante. De nada.

Grão na chapa

Essa receita pode ser adaptada de muitas maneiras. Dá pra juntar os temperos e ervas que você quiser na massa e fazer um lanche ainda mais saboroso. Importante: a massa do grãomelete deve ser preparada na véspera, então é preciso um pouco de planejamento aqui. Mas faça como eu: prepare uma boa quantidade de massa pra grãomelete e, depois de repousar uma noite em temperatura ambiente, guarde na geladeira pra depois. Assim você vai poder preparar essa e outras receitas em um piscar de olhos.

Massa de grãomelete

-Farinha de grão de bico (as boas são finas como farinha de trigo. Se for do tipo granulada, o resultado é muito inferior. Esfregue entre os dedos: se sentir uns grãozinhos, não vai rolar)
-Água

Dissolva a farinha de grão de bico em um pouquinho de água, batendo vigorosamente com a colher pra não sobrar nenhuma bolinha de farinha seca. Depois de ter obtido uma massa espessa e lisa, junte água suficiente pra atingir uma textura cremosa e quase líquida. Deixe repousar em temperatura ambiente, em recipiente fechado, por uma noite. No dia seguinte transfira a massa pra geladeira. Pronto, agora você pode preparar grãomelete, tortilla e grão na chapa a qualquer momento. A massa se conserva vários dias na geladeira. Não esqueça de colocar sal na hora de preparar.

Pra fazer o grão na chapa

Massa de grãomelete
Sal
Pão (baguete ou francês são ideias, mas use o que tiver)
Temperos (opcional)

Corte o pão francês ao meio (eu usei baguete porque na França não tem pão francês!!!!). Coloque um pouco da massa de grãomelete (que deve estar mais pra líquida- junte um pouco de água se ela tiver endurecido na geladeira, o que vai acontecer) em um prato e tempere com sal. Se quiser usar temperos (como alho picado, pimenta do reino, páprica defumada, cebola desidratada, ervas frescas ou secas…) essa é a hora.

Esquente um pouco de óleo/azeite em uma frigideira (anti-aderente, senão vai grudar). Mergulhe cada metade de pão francês na massa de grãomelete (o lado cortado pra baixo), deixe alguns segundos em contato com o líquido, pro pão absorver uma quantidade boa, e depois transfira (sempre o lado cortado pra baixo) pra frigideira. Cozinhe em fogo médio até ficar bem dourado e ligeiramente crocante (não precisa cozinhar do outro lado, obviamente). Sirva imediatamente.

É um desbunde puro, com café, mas nada te impede de incrementar ainda mais seu grão na chapa e servir com um patê/molho/guacamole/caponata/legumes refogados ou tomates crus, bem maduros, picados regados com um fio de azeite.

Farofa rica

Em setembro confessei aqui no blog a minha recente história de amor com a farofa e compartilhei a receita da minha farofa mais popular.

Mas isso não é exatamente verdade. Sim, minha farofa de banana e couve é extremamente popular na minha família, mas um dia fiz uma versão ligeiramente modificada dessa receita e o sucesso foi ainda maior. Chamei essa obra-prima comestível de “farofa rica”.

Como toda farofa, se trata mais de um conceito do que de uma receita. E o que é o conceito de farofa rica, você pergunta? É usar os restos de comida que estão de bobeira na geladeira, principalmente aqueles em quantidade tão pequena que não dá pra alimentar nem uma pessoa sozinha, misturar com farinha em uma frigideira quente e criar um prato tão saboroso e cheio de ingredientes que o único adjetivo que me veio à cabeça pra qualificar minha criação foi “rica”. Eu vejo muito a palavra “rica” ser acoplada à uma receita quando se trata de encarecer a conta de ingredientes. Ou seja, juntar ingredientes caros e sempre de origem animal (queijo, bacon, creme etc). Então minha farofa rica é pura subversão, já que se trata de um prato popular que foi preparado com sobras de alimentos e esses alimentos são todos vegetais.

Farofa rica

Como expliquei acima, se trata mais de um conceito do que de uma receita. Use essa lista de ingredientes como guia, pois dá uma farofa realmente arretada, mas substitua o que estiver faltando pelo que encontrar na sua geladeira. Feijão macaça (feijão de corda) é ideal aqui, pois além de muito saboroso ele se mantém intacto depois do cozimento e não dá caldo grosso, fazendo com que seja muito simples separar os grãos do caldo. Mas imagino que grão de bico cumpra o mesmo papel aqui, pras pessoas que tem acesso a esse ingrediente.

2-3 cs de óleo
1 cebola, picada
2-3 dentes de alho, picados
2 bananas, picadas (maduras, mas não muito)
1 x de feijão macaça (sem caldo)
1 – 1,5x de farinha de mandioca fina, peneirada
Um punhado de coentro, picado
Sal e pimenta do reino a gosto

Em uma frigideira grande e, de preferência, com o fundo grosso, aqueça o óleo e doure a cebola. Junte o alho, deixe fritar por alguns segundos e acrescente a banana picada, o feijão macaça e, aos poucos, a farinha. Vá mexendo com uma colher de pau, delicadamente pra não esmagar a banana, e juntando farinha, sobre um fogo baixo, até atingir a consistência desejada. Eu gosto de farofa úmida, então uso 1x de farinha, mas se você gostar de farofa mais seca, use mais.

Desligue o fogo e acrescente o coentro. Tempere com sal e pimenta do reino, prove e corrija o tempero, se necessário. Sirva imediatamente.

Rende de 4 a 6 porções, dependendo da intensidade do seu amor por farofa.

Novas datas de tour em Paris

Lembram dos tours político-veganos em Paris? Em 2020 eles voltarão com força total. Até criei uma página aqui no blog pra explicar melhor a proposta. Convido as pessoas interessadas a darem uma olhada lá pra entender melhor a proposta desse projeto.

Foram dois grupos em dezembro de 2019 e a experiência foi muito bacana. Os primeiros tours aconteceram em 2018 e o foco foi exclusivamente na gastronomia vegetal. Mas, apesar de ter sido uma delícia passar uma semana comendo e falando de comida (quem não gostaria de ter férias assim?), eu queria expandir a proposta pra incluir mais política no roteiro. Não só política ligada à luta antiespecista, mas falar também dos movimentos sociais de hoje e do passado e do histórico de luta e insurreição de Paris, já que a cidade foi palco de tantas revoluções e levantes.

Então depois de muitas pesquisas e estudo, em 2019 o roteiro foi completamente transformado e agora inclui muita informação histórica sobre a resistência na cidade, com um foco especial na luta feminista, além de visitas aos lugares emblemáticos da Paris revolucionária. Claro que ainda comemos muito bem do primeiro ao último dia. E como a cena vegetal só aumenta na capital francesa, a parte gastronômica do tour está cada vez melhor.

Os próximos tours acontecerão em março, abril e maio (datas na página sobre os tours) e as inscrições estão abertas. Pessoas interessadas devem escrever pra esse email: tourspapacapim@gmail.com