Posts de categoria: Viagens

Nunca tinha ficado tanto tempo ser aparecer por aqui. Seis meses! Tanta coisa aconteceu desde o post sobre veganwashing em janeiro que nem sei por onde começar. Vou fazer um resumo dos últimos meses.

Saí de Berlim em fevereiro. Voltei pra Palestina. Tive o prazer de guiar mais dois grupos no tour político-vegano na Palestina (vai ter mais em 2018, aguardem!) e conheci pessoas maravilhosas, como acontece todos os anos. Teve o primeiro congresso sobre direitos animais e humanos na Palestina, organizado pela PAL (Palestinian Animal League). Depois fui pra Paris e realizei um projeto novo: tours veganos gastronômicos na cidade luz. Foram dois grupos e a viagem, como era de se esperar, foi deliciosa. Logo depois vim pro Brasil e cá estou há um mês e meio.

Como sempre que estou em Pindorama, não vim só comer tapioca e tomar leite de coco. O motivo principal de voltar aqui todos os anos é ver a minha família, claro (além de comer tapioca e tomar leite de coco, como já confessei).  Mas procuro reservar uma parte do meu tempo aqui pra dar palestras sobre veganismo, direitos animais e humanos, Palestina, justiça social e de como isso tudo está conectado. Esse ano eu vim com um projeto que carrego no peito há algum tempo. Todos esses anos fora do Brasil (já vivi quase tanto tempo lá fora do que vivi aqui dentro) me fazem sentir desconectada da militância nacional. Então em agosto eu caio na estrada e vou encontrar as pessoas que eu vinha admirando de longe, do lado de cá das telas. Quero ver a cara do movimento vegano no resto do país, trocar ideias, rever amigas, dar palestras e articular a revolução. Porque se não for pra destruir o patriarcado, o carnismo, o capitalismo, o racismo, o colonialismo… eu nem saio da cama.  Vai ser quase um mês de viagem e quando eu tiver as datas certas em cada cidade, volto aqui pra avisar.

E pra não deixar esse blog sem receita nova (nem lembro quando postei a última), vou compartilhar com vocês a receita de quiabo que conquistou minha família.

Tem quem goste da baba do quiabo. Direito seu. Mas tem quem não goste de quiabo justamente por causa da baba. O que é uma pena, pois esse legume é delicioso. Na Palestina tem uma folha escura, mulahyia, que sofre do mesmo problema do quiabo: uns amam porque tem baba, outros detestam por causa da baba. Eu não gostava, até que uma amiga palestina me explicou que preparando com tomate e um pouco de limão, a mulahyia ficava sem baba. O segredo era a acidez desses dois ingredientes, que fazia a baba desaparecer. Imediatamente pensei no quiabo. Será que funcionaria com ele também?

Testei e tenho a felicidade de dizer que sim. Vou repetir. Se quiabo babento é a sua praia, sinta-se livre pra ignorar essa receita e seguir preparando esse vegetal como você gosta. Ninguém é obrigada a fazer minha receita sem baba. Beleza? Beleza. Tô insistindo nesse ponto porque sei que tem as apaixonadas por essa característica peculiar do quiabo e já escutei gente indignada dizendo que se não tiver baba, não é nem pra chamar de quiabo. E teve o senhor na feira que disse que dava dinheiro pra esposa preparar o quiabo com o máximo de baba possível.

Tem poucas coisas comestíveis no reino vegetal que eu não aprecio. O único sabor que eu não gosto é anis e a única coisa que realmente me repele na comida é a textura babenta. Então estou muito satisfeita com a minha receita, porque acho o sabor do quiabo maravilhoso. E preparado assim, ele fica ainda mais saboroso. Agora que sei como fazer quiabo (quase) sem baba, ele se tornou um dos meus vegetais preferidos no mundo.

O segredo do quiabo (quase) sem baba

Primeiro, aqui vai uma dica pra escolher quiabos: prefira os pequenos e jovens. Quanto mais jovem, mais saboroso e tenro. Grandes e maduros, eles ficam duros e estão mais pra madeira do que pra verdura. Eu compro quiabo na unidade (que varia muito de tamanho), então fica difícil indicar o peso desse ingrediente na receita. Mas se sua mão for  pequena, como a minha, eu diria pra usar uns 4 punhados grandes de quiabo inteiro, ou o equivalente a umas 6 xícaras de quiabo picado.

4 punhados grandes de quiabos jovens (leia as explicações acima)

1 cebola, picada

2-4 dentes de alho, picados

2-3 tomates (dependendo do tamanho), picados

Azeite

Sal e pimenta a gosto

Gotas de limão

Um punhado de coentro fresco, picado (opcional)

 

Lave e corte os quiabos em rodelas finas levemente diagonais. A baba do quiabo já vai começar a soltar aqui, mas não se preocupe que ela desaparece depois.

Em um tacho grande (ou a maior frigideira que você tiver) aqueça um fio de azeite, jogue uma parte do quiabo e tempere com um pouco de sal. Coloque só o suficiente pra cobrir o fundo do tacho, não coloque muito de uma vez senão o quiabo vai cozinhar no vapor. A ideia é grelhar o quiabo no calor forte (fogo alto), mexendo de vez em quando, até ficar ligeiramente chamuscado, o que realça muito o sabor. Transfira o quiabo grelhado pra um recipiente de vidro e reserve. Repita a operação com o resto do quiabo, lembrando de sempre colocar mais azeite no tacho antes de jogar o quiabo e de temperar cada porção com sal. Dependendo do tamanho do seu tacho/frigideira, você terá que fazer isso em 3-4 vezes. Pode fazer isso numa chapa bem quente também.

Aqueça mais um fio de azeite no tacho (agora vazio) e cozinhe a cebola por alguns minutos, até ficar dourada. Junte o alho e cozinhe mais alguns segundos. Coloque o quiabo grelhado de volta no tacho, o tomate e mais uma pitada de sal. Cozinhe até o tomate começar a se desfazer. Pingue gotas de limão (uso menos do que uma metade de limão pequeno), tempere com pimenta do reino a gosto, prove e corrija o sal. A acidez do tomate e do limão vai fazer a baba do quiabo desaparecer quase por completo. Ainda fica um pouco liguento, mas bem mais discreto e saboroso do que a versão “baba integral”. Depois que desligar o fogo junte o coentro picado, se estiver usando.

Rende 4-6 porções como acompanhamento.

O último tour político-ativista-vegano-feminista na Palestina aconteceu em março desse ano. Assim como durante o tour de fevereiro, vivemos momentos difíceis, chocantes e revoltantes. Também vivemos momentos cheios de emoção, onde a humanidade e força das pessoas que encontramos nos tocou profundamente. Pela quinta vez pude ver as pessoas que participaram da viagem passarem pelas mesmas etapas que eu passei quando cheguei pela primeira vez na Palestina, 10 anos atrás. Surpresa, indignação, lágrimas, revolta, impotência, dor. Sempre que acompanho um grupo nessa montanha russa de emoções chega um momento em que me pergunto por que faço isso com essas pessoas tão bacanas que vieram de tão longe pra estar ali comigo. Mas elas nunca deixam de me lembrar a razão que me fez decidir fazer esse trabalho. Eu tenho uma responsabilidade moral em divulgar a realidade cruel da colonização e ocupação militar israelense na Palestina. Elas estão ali porque decidiram mostrar solidariedade ao povo palestino e se juntar às pessoas que lutam por justiça, a condição primeira pra se obter paz.

Tati e Thiago participaram do tour de março e escreveram relatos pessoais que me emocionaram muito. Tantas pessoas que participaram do tour se tornaram ativistas por direitos humanos e justiça na Palestina e além de me encher de felicidade, isso me dá forças pra continuar organizando essas viagens. Então eu precisava compartilhar esses relatos aqui no blog.

“Se eu tivesse optado por um turismo convencional, mesmo tendo uma visão crítica a respeito da ocupação israelense de terras palestinas, muito provavelmente teria voltado com percepções bem diferentes do que esse tour político me proporcionou. Cheguei um dia antes do combinado para me encontrar com o grupo e fiquei hospedada em Jerusalém. Algumas voltas no entorno, vendo israelenses e alguns palestinos na mesma cidade, me deram a falsa impressão de normalidade, de que ambos ocupavam o mesmo espaço sob condições iguais.

Andando apenas em transportes usados por turistas, eu provavelmente não teria percebido que alguns ônibus são reservados apenas para palestinos e outros para israelenses, o sinal mais óbvio de apartheid. Andando pelas ruas e observando as construções, eu certamente acharia que era opção estética ter ou não caixas d’água no teto, ao invés de saber que palestinos não têm água disponível 24h, ao contrário dos israelenses, mesmo essa água tendo sido captada em terras palestinas. Se estivesse em uma excursão tradicional, em ônibus de viagem, teria passado por vários “check points” sem perceber, pois esses ônibus não seriam parados. Mais ainda, eu teria percorrido vários quilômetros de estrada cortando terras palestinas e não saberia que na maioria daquelas estradas só é permitido o tráfego de israelenses. Teria visto as imensas colônias israelenses em terras palestinas e concluído ser apenas mais uma cidade. Teria visitado o Mar Morto sem ver um só palestino e achado que eles não frequentavam outros resorts por opção.

Depois dessas quase duas semanas na Palestina, pude entender perfeitamente o medo que Israel tem de que as pessoas entrem em contato com o povo palestino, o porquê de ter que mentir na imigração, de ter que jurar que não iria para a Palestina para conseguir o visto, o motivo de ter uma lei que proíba civis israelenses de entrar em cidades palestinas, de ter tantas placas dizendo se tratar de áreas perigosas. Porque se as pessoas realmente conhecerem o povo palestino, no mínimo, elas irão questionar a narrativa montada por Israel, o estereótipo construído em torno dos palestinos, sobretudo, os árabes.

Desde o momento em que passei pelo checkpoint, a frase que mais ouvi foi “bem-vinda à Palestina”, acompanhada de um sorriso caloroso. Mesmo quem não falava inglês arriscava algumas palavras para demonstrar o quanto a minha presença era importante ali. Às vezes, um cumprimento com a cabeça já transmitia o recado. Eu, que imaginava os palestinos como pessoas mais reservadas, sérias, desconstruí rapidamente essa imagem. Percebi muitas semelhanças com os brasileiros, a comunicabilidade, o calor humano e a alegria. Mais do que isso, eu me surpreendi com tamanha solidariedade e com uma vontade de apenas seguir a vida, sem rancor, algo que eu, sob as mesmas condições,  provavelmente não conseguiria.

É claro que devem existir discursos mais agressivos, mas, com tanta humilhação, privação e provocação em seu próprio território, me admira haver tão poucos. Aliás, é bom lembrar que é legítimo, reconhecido pelo direito internacional, o direito de um povo sob ocupação se defender.

A primeira coisa que me chamou a atenção quando entrei na Palestina foi a condição precária, a sensação de estar em um lugar permanentemente em obras. Com as barreiras e as condições impostas por Israel, a economia local tem se tornado mais e mais frágil e o índice de desemprego é altíssimo. Mesmo assim, não vi nenhum palestino morador de rua e eram raros os que me abordaram pedindo algo. Pareceu-me um paradoxo, mas, conhecendo um pouco mais da cultura deles, a força dos laços familiares e a generosidade, pude compreender que enquanto houvesse uma pessoa da família trabalhando (e família em sentido amplo), o restante não passaria fome, pois a renda seria dividida entre todos. E a generosidade se estendia inclusive para nós, turistas – foram inúmeros os presentes que ganhei e os convites para refeições que recebemos.

Mas o que mais me impressionou foi o apego deles à vida, a vontade de simplesmente ter uma vida normal, realizar seus planos sem a interferência de Israel. Resistir apesar das inúmeras dificuldades impostas por Israel, manter a cabeça erguida após cada humilhação, manter a serenidade mesmo tendo seus direitos violados dia após dia. É mais que um apartheid, são tantas as maneiras com que Israel consegue tornar a vida de um palestino insuportável que eu sozinha não teria imaginação para elaborar nem 1% dessas políticas. Tantas e tantas vezes me senti impotente, revoltada com as injustiças que via, e que para um palestino era apenas mais um dia de tantos outros.

Quando voltei ao Brasil, me disseram que para ver injustiças eu não precisava ter feito essa viagem. Sim, há injustiças por toda parte, mas a grande diferença é que lá essa injustiça é regulamentada em lei e não há o discurso para que isso mude, muito pelo contrário. O objetivo é tornar a vida do outro tão insuportável a ponto de ele largar tudo e ir embora. É tudo feito de forma descarada.

A diferença social foi outro aspecto que me chamou a atenção, visível mesmo em um território tão pequeno: a população das cidades, com condição financeira melhor e mais acesso aos serviços, e a população dos campos de refugiados, que perdeu tudo e teve que reconstruir sua vida. Como é de se esperar, os moradores dos campos de refugiados, com situação econômica mais difícil e sob constantes invasões de soldados, eram mais religiosos e conservadores. Como bem observou Sandra, nossa guia <3, antes da primeira intifada, na década de 80, eram poucas as palestinas que usavam véu, mas, com a situação de vida cada vez mais difícil, com o cerco israelense cada vez maior, a válvula de escape acaba sendo a religião.

Em Hebron, eu me senti sufocada com a pesada presença militar. Bastava olhar para cima para ver uma arma apontada. Parecia que não havia onde se esconder, que sempre haveria câmeras e mais soldados. Ao contrário de outras cidades palestinas, que estão sendo cercadas por colônias israelenses, em Hebron os colonos tomaram as ruas da cidade. Como resultado, há “check points” entre uma rua e outra, muro dentro da cidade, ruas em que todos os comércios palestinos foram fechados pelos israelenses, ataques a crianças, ruas cobertas com tela por causa dos ataques de colonos a palestinos – presenciei uma criança israelense cuspindo e jogando pedra nos palestinos que transitavam. O mais perturbador disso tudo é saber que todo esse dinheiro que Israel investe em militarização para oprimir os palestinos e proteger os invasores vem de ajuda internacional, é saber que os nossos governos apoiam esse massacre.

Saber disso é importante para aqueles que acham que a causa palestina é algo muito distante da nossa realidade, para aqueles que não tiveram a chance de, assim como eu, ver de perto, sentir empatia pela população, e se perguntam “por que a Palestina?”. Temos, sim, nossa parcela de responsabilidade. Precisamos pressionar o nosso governo a não assinar contratos de cooperação com Israel, a não comprar armamentos e tecnologias que são usados na opressão do povo palestino, pois somente a pressão internacional fará com que essa barbárie termine.

Divulgar o máximo de informações para contrapor a narrativa oficial daqueles que detêm o poder é o mínimo que eu posso fazer. Para aqueles que não puderem ir à Palestina, conversar com os locais e ver de perto as políticas impostas por Israel, sugiro, além de se manter sempre informado sobre o assunto, procurar a visão de quem está ou esteve dentro dessa sociedade que, cada vez mais, está sendo isolada por Israel. Os palestinos querem e precisam ter voz.

Repito aqui o que muitos já disseram durante o tour: que, por mais que eu tivesse lido e me informado sobre o assunto, nada teria me preparado para essa experiência transformadora. Vou carregar comigo, para sempre, os vários olhares cansados e tristes que presenciei; os pedidos para que levássemos as histórias deles para o mundo, para que eles pudessem ter voz; os abraços reconfortantes e toda generosidade que recebi; e, acima de tudo, um enorme carinho por essa terra e seu povo. Liberdade ao povo palestino! Palestina livre!”

Tati

“Conhecer a Palestina sempre foi um desejo. É impossível não ouvir falar sobre a “última grande causa do século XX” na mídia e, para quem tem um pouco de senso crítico, é igualmente impossível não questionar a qualidade e mesmo a veracidade das informações que nos chegam da região.

Essa falta de fé no modo como não apenas a Palestina, mas todo o Oriente Médio e a população árabe são retratados aumentou em muito minha vontade de visitar o local. Junte-se a isso a empolgação em conhecer um país que sempre ocupou um papel de destaque na história da humanidade e pronto, confesso que não pensei muito em me candidatar a participar de um tour pela região que a grande mídia descreve como uma das mais instáveis e violentas do mundo.

Com relação a minha integridade física, verdade seja dita, eu sabia quem poderia me fazer algum mal por lá e sabia também que, regra geral, meu status de estrangeiro me protegeria. 

Já em relação a meu emocional, acreditei que aguentaria o baque. Além de já ter lido bastante a respeito, achei que ter crescido na periferia de São Paulo teria me calejado para as violências e injustiças a que os palestinos são submetidos. Como eu estava enganado.

Sei que parece clichê dizer que é muito difícil estar preparado para o que se vê por lá, mas, acreditem, é verdade. A Palestina é um país muito pobre e com um alto índice de desemprego, mas, apesar de grande, a miséria não é o que mais choca por lá. Até porque, graças a um senso de comunidade que me impressionou bastante, um familiar empregado sempre acolhe os parentes mais necessitados, razão pela qual praticamente inexistem moradores de rua e pedintes. Assaltos e furtos também são raros.

Enfim, o que eu realmente não estava preparado para ver é o modo como Israel conduz a ocupação. Não tem como não se surpreender com o número de formas que esse governo encontra para oprimir, desabrigar, assassinar e humilhar todo o povo palestino. A começar pelo “muro da vergonha”, que, segundo o senso comum, se localiza na fronteira e existe por razões de segurança. Ele não está na fronteira, ele está no meio de terras palestinas, o que inclusive já derruba a tese de que ele existe por razões de segurança. O muro existe com o propósito de confiscar terras palestinas. Aliás, quantas leis e atitudes não existem com o único propósito de confiscar terras palestinas?

Mas não é só a bens materiais que eles parecem não ter direito. Os palestinos não podem sequer se locomover dentro de seu próprio território. Proibições, bloqueios e checkpoints fazem com que muitas vezes o simples ato de caminhar de uma rua a outra se transforme em um pesadelo.

Isso, claro, para não falar na violência física. Todo palestino com quem você conversar vai ter uma história sobre alguém que foi preso ou assassinado injustamente. Tem ideia de quanto dói ver um familiar ser morto injustamente e saber que nada vai ser feito a respeito?

Quando relatamos esses problemas é comum as pessoas dizerem que eles de fato existem e são terríveis, mas que não devemos confundir o governo com seu povo. Por mais que eu compreenda que nossos sistemas políticos estão longe de serem perfeitos no que diz respeito a representar a vontade popular, é fato que há 50 anos o povo israelense elege governos que oprimem cada vez mais o povo palestino.

E, sinceramente, o que mais choca nem são os políticos eleitos, são algumas atitudes da população mesmo. Em Hebron vi colonos israelenses jogando pedras, cuspindo e urinando em palestinos. Uma criança israelense tentou cuspir em mim e no meu grupo por estarmos em área palestina. Ver esse nível de ódio partindo de uma criança impressiona. 

Claro que existem israelenses que lutam contra essa opressão, mas, infelizmente, eles parecem ser poucos. Definitivamente não o suficiente para amenizar em algo o sofrimento palestino.

Por ser um relato pessoal não vou embasar minhas sensações com fatos, o objetivo aqui é dizer o quanto o contato com aquela realidade tem potencial de transformar o modo como vemos o mundo. Depois da vivência que tive – e nem foram muitos dias – passei a ver as coisas com outros olhos, a valorizar muito mais o que tenho e a rir de problemas que antes pareciam enormes.

Mas a principal sensação que eu trouxe foi a perplexidade em perceber o quanto o mundo parece dar as costas à causa palestina. Não dá para acreditar que um sofrimento tão grande persista por tanto tempo sem que a maioria das pessoas sequer saiba o que acontece por lá.

É assim que eu acho que nós, aqui de longe, podemos contribuir: com informação. Sabemos o quanto é difícil encontrar informações sobre o massacre a que os palestinos são submetidos diariamente, conhecemos o esforço da grande mídia em nos fazer acreditar que se trata de um “conflito” entre duas partes “igualmente poderosas” e precisamos fazer nossa parte para desconstruir esse discurso.

Não acredito que a solução para o problema venha de dentro de Israel se não houver pressão externa. O apartheid na África do Sul só acabou após a comunidade internacional se sensibilizar para o tema e aplicar uma série de boicotes e sanções ao país. Do mesmo modo, não acredito que Israel algum dia vá acordar disposto a abrir mão de todos os benefícios que a colonização da Palestina lhe garante.

Os palestinos estão há décadas fazendo a parte deles, resistindo heroicamente a uma ocupação que se esforça diariamente em desumanizá-los. Nossa parte nessa luta é infinitamente mais simples, precisamos enxergar e divulgar o que acontece, os políticos de nossos países precisam perceber que há uma preocupação com o tema para que o levem a esferas cada vez maiores de poder.

A mudança vem de fora, a mudança vem de baixo e, no que eu puder, estou disposto a fazer minha parte.”

Thiago

 

*Todas as fotos que ilustram esse post foram feitas por Tati, que me deu autorização pra publica-las aqui.

*Os próximos tours político-ativista-vegano-feministas na Palestina acontecerão em março/2018.

*Legendas das fotos, na ordem de aparição:

1-Feira em Hebron. 2- O grupo com meu amigo Marwan, que nos guiou durante a visita de dois vilarejos na região de Belém. 3-O muro construído por Israel dentro dos territórios palestinos, aqui em Belém. 4-Casa no vilarejo Zacharia. É costume se tirar os sapatos antes de entrar nas casas palestinas.  5-Torre de uma mesquita. 6-A placa colocada pelo governo israelense na entrada dos territórios palestinos ocupados, avisando que a lei israelense impede que seus cidadãos entrem ali. 7-Morador de Zacharia, um vilarejo palestino que se encontra cercado por colônias ilegais israelenses. 8-Sudfeh, o primeiro restaurante vegano da Palestina, na Universidade de Abu Dis. 9-Baha, uma amigo querido e nosso guia no distrito de Belém, brincando com a filha de outro amigo palestino. 10-Universidade de Abu Dis. 11-Nablus, no norte da Cisjordânia. 12- O filho de Fatima, que nos guiou em Nablus e organizou um curso de culinária palestina pra nós. 13-Nablus. 14-Jericó, no Vale do Jordão. 15- O padeiro de Nablus que faz os melhores pães com za’atar da cidade. 16- Feira em Hebron. 17-Soldados israelenses que tinham invadido a casa de Zleiha, nossa guia em Hebron, e que ameaçam crianças palestinas que estavam na rua. 18,19,20- Enterro do escritor e ativista por direitos humanos Basel Al Araj, assassinado em casa pelos soldados israelenses. 21- Belém. 22-Cabra que encontramos durante a trilha no deserto de Jericó. 23- Loja de especiarias em Nablus.

A primeira parte foi sobre comida, a segunda será sobre todo o resto: passeios, parques, museus, LGBTs e um pequeno parênteses consumista.

Alugamos uma casa exatamente na interseção dos bairros Noe Valley, Castro e Mission e foi muito feliz, pois eles acabaram sendo os meus preferidos na cidade. Nessa área você praticamente só vê casas, as ruas são tranquilas e as pessoas parecem estarem todas de férias, tamanho o relaxamento delas.

Se estiver em dúvida sobre onde ficar hospedada, Mission é o mais central e animado. Noe Valley, por ser quase exclusivamente residencial, é mais calmo. Já o Castro é bem animado na rua principal, porém mais tranquilo nas outras partes. Na minha primeira noite fiquei em um hotel no Financial District, a parte mais moderna da cidade. Tem um mar de gente apressada nas ruas (a concentração de escritórios por lá é grande), é bem turística e cheia de arranha-céus e Starbucks. Como essa não é a minha vibe, não gostei nem um pouco da experiência.

 

Pra passear, um dos lugares que mais gostei foi o Dolores Park. É um parque relativamente pequeno, em Mission, e fica apinhado de gente nos fins de semana de sol. Na parte superior do parque você consegue ver a linha de prédios do Financial District, então coloque sua toalha de piquenique lá em cima pra aproveitar melhor a vista. A primeira vez que estive lá era domingo e fiquei impressionada com a quantidade de homens de sunga num dos cantos do parque. Dias depois, lendo um guia alternativo da cidade, descobri que esse cantinho do Dolores Park é conhecido como “gay beach”(ou “fairy prairie”, já que tem mais grama do que areia e o único mar que você vai ver é o mar de gente). Se homem é a sua praia, vá lá lavar a vista que os rapazes são bem bonitos.

Mas nem só de gay reluzindo de protetor solar vive o Dolores. O parque reune os mais variados tipos de pessoas (e cachorros) e cada canto tem um apelido. Tem a área das famílias, a das lésbicas (bem menor que a gay beach, infelizmente), a “hipster hill” (o nome explica tudo), a parte das pessoas que gostam de jogar objetos voadores (bola, peteca, boomerang) umas nas outras, a do pessoal que vem fazer exercícios, um cantinho onde está sempre rolando uma rave… Fiquei fascinada com o lugar. Nunca vi uma mistura tão grande em um lugar tão pequeno, todo mundo em paz, curtindo o dia, piquenicando, apertando um e compartilhando coisas. As mais diversas coisas. Se você é sensível ao aroma de maconha, evite esse parque. Mas como SF quase toda tem cheiro de maconha (mais explicações abaixo), nesse caso é melhor você evitar a cidade como um todo. Pras interessadas, um amigo nosso passou uma dica. Se você quiser comprar maconha em SF, Dolores Park é o lugar. Basta chegar no parque, ficar em pé virando a cabeça de um lado pro outro que em poucos segundos o vendedor chega oferecendo a mercadoria. Ele descobriu isso por acaso, na primeira vez que foi ao parque, quando se levantou pra ver se a amiga com quem ele tinha marcado encontro estava por ali e o vendedor interpretou aquele gesto como “procurando maconha” ao invés de “procurando amiga”. Fica a dica.

Falando em maconha, uma das coisas que mais me impressionou foi o cheiro da erva por todos os lados. A Califórnia foi o primeiro estado nos EUA a legalizar o uso medicinal da maconha, em 1996.  Ou seja, sua médica pode prescrever maconha pra você se julgar que ela vai aliviar os sintomas de alguma condição física ou mental que você tenha. Uma lei foi aprovada recentemente legalizando também o uso recreativo da maconha, mas se entendi direito ela só entrará em vigor em 2018. Mas isso não impede o pessoal de SF de fumar tudo até a última ponta pelas ruas, parques… Cheguei à conclusão que essa é provavelmente a razão  do pessoal ser tão relaxado por lá.

E já que o assunto é erva, sabiam que o nome do povoado que deu origem à cidade de SF era Yerba Buena? Achei que o nome original não deveria ter mudado e faria ainda mais sentido hoje. Yerba Buena também é o nome de um dos dois museus que visitei durante a viagem. Eu queria ter ido ao famoso MOMA, mas custava um braço e quando arte é tão absurdamente inacessível ao público mais modesto, fico chateada ao ponto de perder a vontade de ir. Descobri que tem um dia onde os museus são gratuitos, geralmente na primeira terça do mês e se coincidir com a sua visita à cidade, aproveite. Mas dê uma olhada no site do museu que você quer visitar pra confirmar, pois alguns são gratuitos em outros dias. O MOMA tem seu próprio sistema de dias gratuitos, mas é possível checar qual será o próximo no site do museu. Mas voltemos ao Yerba Buena. Fui na primeira terça do mês e entrei de graça. Adorei o museu e o jardim, que faz parte do museu e fica sempre aberto ao público. No dia da minha visita tinha uma exposição incrível e nela descobri a história de Medillín, na Colombia. A cidade, que já foi a mais violenta do mundo, passou por uma transformação urbana que desencadeou uma transformação social gigante e hoje é um modelo de criação de espaços públicos que facilitam a troca cultural, política e de conhecimentos. As exposições mudam frequentemente, como em todo museu, mas tem sempre coisas interessantes por la, então recomendo muito a visita.

LGBT

O outro museu que visitei foi o GLBT Museum, no Castro. Esse museu conta a história da comunidade LGBT (não entendi porque no nome do museu o G vem antes do L) em São Francisco. Acho muito importante conhecer a nossa história e ver a luta por direitos da minha comunidade me inspira e me dá força pra continuar lutando. Foram muitas conquistas, mas ainda falta muito a ser conquistado e, como o contexto atual nos mostra, essas conquistas podem nos ser retiradas a qualquer momento. O museu é bem pequeno, mas tem bastante material pra ler, além de alguns vídeos e áudios. O que mais me emocionou foi um áudio de Harvey Milk, ativista por direitos LGBT e político de SF, o primeiro abertamente gay a ser eleito na Califórnia, em 1977. Ele tinha recebido ameaças de morte, pois se um político gay incomoda muita gente em 2017, imagine o tipo de discriminação que ele sofreu nos anos 70! Então ele gravou uma mensagem que deveria ser lida somente no caso dele ser assassinado e não consegui conter as lágrimas. Harvey Milk foi assassinado pouco tempo depois e o assassino, que também matou o prefeito de SF no mesmo dia, recebeu uma pena leve pois o advogado que o defendia alegou que ele “tinha comido muita junk-food no dia e não podia ser responsabilizado pelos seus atos”. Milk ainda é um ícone e uma inspiração pra comunidade LGBT de SF e do mundo

Se você viu o filme “Milk” (ótimo filme!), com Sean Penn interpretando Harvey Milk, ou se viu a série “When we rise”, criada pelo mesmo roteirista e dirigida por Gus Van Sant (a melhor série LGBT que já vi, porque conta a história da nossa luta por direitos, baseada na vida de ativistas reais, mas também as interseções com o feminismo e o movimento negro) o Castro é um lugar mítico. À partir dos anos 60 esse bairro acolheu uma comunidade LGBT enorme, que lutou ativamente por direitos durante décadas e foi o palco de uma tragédia humana, a epidemia de HIV/AIds nos anos 80, que levou a vida de um terço dos seus membros.

Andar pela rua principal do Castro (Castro St), que continua sendo um dos maiores símbolos de ativismo LGBT no mundo, foi muito emocionante pra mim. Tem até uma calçada da fama LGBT lá! Milk tinha uma loja de fotografia nessa rua e hoje um centro/loja da Human Rights Campaign, uma associação que luta por direitos LGBT, funciona no mesmo lugar. Essa rua é cheia de bares, cafés e abriga o cinema com o letreiro icônico. Infelizmente os bares são muito mais Gs do que Ls e são pouquíssimos os lugares frequentados por uma maioria lésbica. O lugar que mais gostei na rua foi a livraria Dog eared Books, que tem uma seção LGBT imensa, como era de se esperar, mas também toda uma parte dedicada a livros com temáticas LGBT e feminista pra crianças! Fui algumas vezes lá e confesso que folheei mais livros pra crianças do que pra adultas.

Passeios

Cheguei em SF com planos de fazer grandes passeios pelas florestas da região, mas, como expliquei na primeira parte desse guia, decidimos simplificar nossos programas e ficar pela cidade, mesmo. Posso recomendar a caminhada no parque Golden Gate, que oferece uma vista linda da famosa ponte e até um pedaço de praia pra você fazer seu piquenique (foi o que fizemos). E se você curtir andar de barco, recomendo pegar o ferry no centro (San Francisco Ferry Building) e ir pra Sausalito. É um cidade pequena na baía em frente à SF, logo à direita da Golden Bridge. Além de ser gostoso passear de ferry, você vai ter uma vista linda da ponte (ida e volta) e de SF e Alcatraz (volta). Sausalito é um charme, mas não tem muita coisa pra fazer por lá além de admirar a paisagem. Leve seu piquenique, sente nos jardins que beiram o mar e relaxe enquanto espera o ferry que te levará de volta. Vocé pode ver o preço e os horários do ferry, nos dois sentidos, nesse site.

Se você estiver com tempo, vale a pena visitar Oakland, onde a cena vegana também é vibrante. O restaurante Millenium, que apareceu na parte gastronômica do guia, fica lá e é fácil ir de uma cidade pra outra com transportes públicos. Além dos vários restaurantes veganos da cidade (mais uma vez, Happy Cow é a sua melhor amiga pra encontrar endereços veganos), tem um centro comunitário muito bacana chamado Omni Commons. Se ativismo te interessa, dê uma olhada no site pra ver se vai ter algum evento interessante durante sua viagem. Eu pude assistir à uma palestra com uma ativista LGBT russa que falou das dificuldades de fazer ativismo LGBT no país dela. Descobri que a situação era ainda pior do que tinha imaginado, mas conectar com outras ativistas é sempre uma inspiração. Também participamos do protesto do primeiro de maio em Oakland, junto com a comunidade de imigrantes, principalmente latinas, e nativa. Fiquei muito feliz em ver a Palestina incluída na pauta do dia (ninguém é livre até que todas sejamos livres!) e conheci algumas ativistas da pequena comunidade palestina local.

Parênteses consumista

Por questões éticas eu compro quase toda a roupa que uso de segunda mão (menos roupa íntima, de banho e meias). Então as únicas lojas de roupa que recomendarei nesse blog são lojas de caridade (Exército da Salvação, Liga contra o câncer, Emmaüs etc), pois são as únicas que frequento. SF tem algumas muito boas e se você procurar com paciência vai encontrar algumas peças de ótima qualidade, por um precinho modesto.  E se você está procurando o uniforme lésbico, nossa amada camisa xadrez, você encontrará as mais macias e confortáveis por lá. Raciocine aqui comigo. Além do povo nos states adorar camisa xadrez, outra lésbica já usou aquela peça, amaciando ainda mais o tecido. Segundo minha amiga Camila a camisa xadrez foi sequestrada pelos hipsters (e segundo uma seguidora minha no IG, isso é roupa de São João, mesmo), mas nada tema, amiga lésbica. Nós usávamos camisa xadrez antes dos hipters aparecerem e continuaremos vestindo nossas camisas xadrez quando eles entrarem em extinção. Achei as lojas mais interessantes no Mission e basta fazer um google “thrift shop mission district” (“thrift shop” significa “loja que vende roupas e objetos de segunda mão pra arrecadar fundos pra algum tipo de organização de caridade”) que você acha até um mapa com todas elas. Não confundir “thrift shop” com “vintage shop”, que é a versão chique e cara da loja de segunda mão. Mas se você procura por roupas vintage, com certeza também vai achar várias lojas do tipo em SF.

Outro lugar bacana pra comprar roupa é na loja da Human Rights Campaign que citei acima (na Castro St). Como expliquei, só compro roupa de segunda mão, mas essa loja vende camisetas lindas, super macias e com mensagens LGBT e todo o lucro vai pra organização, que luta pelos nossos direitos. Li as etiquetas das roupas antes de comprar e as que trouxe pra casa tinham sido fabricadas nos EUA, aumentando as chances das costureiras terem condições justas e dignas de trabalho (quando comparamos com as condições das trabalhadoras nos “sweatshops” dos países da Ásia).

Tenho outra recomendação de loja, mas sei que não será pra todo mundo. SF abriga um dos primeiros sex shops feministas que se tem notícia, Good Vibrations, que abriu em 1977. Conversei um pouco com a vendedora, que tinha muito orgulho fazer parte da equipe e que me contou que elas estavam comemorando os 40 anos da loja. Além de sex toys, lingerie e literatura erótica, o local oferece workshops práticos, aulas de educação sexual e de sexo seguro. Os sex toys são incríveis, das melhores marcas do mundo, fabricados realmente pensando no prazer da mulher, de todas as orientações sexuais, sozinha ou acompanhada. Claro que os preços são salgadinhos, mas escute essa pessoa que já vendeu sex toys e que já foi proprietária e usou vários tipos diferentes. Melhor investir em um sex toy de qualidade, recarregável, que vai durar muitos anos e que é mais ecológico (fuja dos toys que usam pilhas) do que comprar algo barato que terá um desempenho inferior e uma vida útil curta, o que além de acabar custando mais (se você substituí-lo por outro), também vai aumentar a sua pegada ecológica.

Algumas dicas

Pra terminar esse guia, algumas dicas práticas. SF é extremamente cara, então as dicas que gostaria de compartilhar aqui são todas sobre como economizar. Se você ganhou na loto antes de ir pra lá, fique à vontade pra não ler os próximos parágrafos. Pra todas as outras pessoas, aqui vão as recomendações.

Primeiro: compre comida no supermercado e coma em casa e/ou faça piqueniques ao invés de fazer todas as refeições em restaurantes. Segundo: tente se locomover o máximo possível a pé.  Na verdade sempre faço isso porque é a maneira que mais gosto de explorar cidades quando viajo, mas tem a vantagem de ser a maneira mais econômica de viajar também. Como SF é bem grande, programe as visitas por bairros pra poder fazer uma parte das visitas do dia a pé. E não esqueça de procurar os parques mais bacanas na região antes de sair de casa, pra já saber onde você estenderá a toalha de piquenique e organizar as visitas em função disso. Se cozinhar não for uma opção, nos supermercados você encontra comida vegana pronta. É mais caro do que cozinhar em casa, mas ainda sai mais barato do que comer em restaurantes.

Pra cozinhar em casa você vai precisar, obviamente, de uma casa. Essa é a minha terceira dica: alugue uma casa (Airbnb, por exemplo). Hotéis são geralmente mais caros e não oferecem a possibilidade de cozinhar no local. Se você estiver viajando sozinha, talvez um albergue com cozinha comunitária seja a opção mais barata, mas como viajei acompanhada não posso confirmar isso. E não esqueça de procurar os dias de entrada gratuita nos museus que quiser visitar (veja o site do museu), pois talvez você esteja por lá exatamente nesse dia. Uma última coisinha. Os tickets de transporte público são válidos por 90 minutos a partir do momento em que foi comprado (ou que você passou na catraca). Então se você precisar pegar dois ônibus e um bonde pra chegar em um determinado lugar, só precisa de um ticket, com a condição de fazer o trajeto em até 90 minutos. Eu não entendi isso no início e usava um ticket diferente cada vez que subia no ônibus e acabei desperdiçando algumas passagens. A hora do primeiro embarque fica marcada no ticket, então você sempre vai saber até quando pode usar o mesmo.

Se SF fosse um cheiro: maconha. Por onde andei, lá estava ela. Eu tenho zero problema com quem fuma e acho o cheirinho até bom. Fumaça de cigarro e gente bêbada me incomodam muito, muito mais. Principalmente gente bêbada. Porém o parque inteiro pode estar fumando maconha do meu lado que eu nem tchuiu. Mas se você se incomoda profundamente com isso, se prepare psicologicamente, pois o aroma da erva está praticamente por todos os lados.

Se SF fosse um sabor.. Difícil de escolher só um, pois a cidade ficou associada na minha memória gustativa com a salsa de tomate assada do Papalote, o maravilhoso pão com fermento natural, o kombucha com gengibre que eu comprava de litro no supermercado, mas, acima de tudo, com os queijos veganos que comi por lá. Principalmente o defumado da Miyoko’s Creamery.

Se SF fosse uma música, minha escolha é bem óbvia: “San Francisco”, cantada por Scott Mackenzie. Assim que avisei à família em Natal que estava indo pra SF meu irmão respondeu: “make sure to wear some flowers in your hair”. Aí não deu outra: passei onze dias cantarolando a música pela cidade e até coloquei umas flores no cabelo e gravei um vídeo cantando a música pra ele, porque sou uma irmã que gosta de passar essas vergonhas.

 *Essa última foto é de um lugar incrível, o ” Women’s building“, o primeiro centro comunitário de mulheres da cidade, criado em 1979. O prédio em si é lindo, coberto com pinturas de mulheres de todos os tipos e o centro oferece todos os tipos de ferramentas pra ajudar mulheres a “criar uma vida melhor pra elas próprias, suas famílias e sua comunidade”. Quem viu Sense8 talvez vai reconhecer o lugar, pois foi lá que Nomi se escondeu durante alguns episódios.