Sinal de vida e o segredo do quiabo sem baba

Nunca tinha ficado tanto tempo ser aparecer por aqui. Seis meses! Tanta coisa aconteceu desde o post sobre veganwashing em janeiro que nem sei por onde começar. Vou fazer um resumo dos últimos meses.

Saí de Berlim em fevereiro. Voltei pra Palestina. Tive o prazer de guiar mais dois grupos no tour político-vegano na Palestina (vai ter mais em 2018, aguardem!) e conheci pessoas maravilhosas, como acontece todos os anos. Teve o primeiro congresso sobre direitos animais e humanos na Palestina, organizado pela PAL (Palestinian Animal League). Depois fui pra Paris e realizei um projeto novo: tours veganos gastronômicos na cidade luz. Foram dois grupos e a viagem, como era de se esperar, foi deliciosa. Logo depois vim pro Brasil e cá estou há um mês e meio.

Como sempre que estou em Pindorama, não vim só comer tapioca e tomar leite de coco. O motivo principal de voltar aqui todos os anos é ver a minha família, claro (além de comer tapioca e tomar leite de coco, como já confessei).  Mas procuro reservar uma parte do meu tempo aqui pra dar palestras sobre veganismo, direitos animais e humanos, Palestina, justiça social e de como isso tudo está conectado. Esse ano eu vim com um projeto que carrego no peito há algum tempo. Todos esses anos fora do Brasil (já vivi quase tanto tempo lá fora do que vivi aqui dentro) me fazem sentir desconectada da militância nacional. Então em agosto eu caio na estrada e vou encontrar as pessoas que eu vinha admirando de longe, do lado de cá das telas. Quero ver a cara do movimento vegano no resto do país, trocar ideias, rever amigas, dar palestras e articular a revolução. Porque se não for pra destruir o patriarcado, o carnismo, o capitalismo, o racismo, o colonialismo… eu nem saio da cama.  Vai ser quase um mês de viagem e quando eu tiver as datas certas em cada cidade, volto aqui pra avisar.

E pra não deixar esse blog sem receita nova (nem lembro quando postei a última), vou compartilhar com vocês a receita de quiabo que conquistou minha família.

Tem quem goste da baba do quiabo. Direito seu. Mas tem quem não goste de quiabo justamente por causa da baba. O que é uma pena, pois esse legume é delicioso. Na Palestina tem uma folha escura, mulahyia, que sofre do mesmo problema do quiabo: uns amam porque tem baba, outros detestam por causa da baba. Eu não gostava, até que uma amiga palestina me explicou que preparando com tomate e um pouco de limão, a mulahyia ficava sem baba. O segredo era a acidez desses dois ingredientes, que fazia a baba desaparecer. Imediatamente pensei no quiabo. Será que funcionaria com ele também?

Testei e tenho a felicidade de dizer que sim. Vou repetir. Se quiabo babento é a sua praia, sinta-se livre pra ignorar essa receita e seguir preparando esse vegetal como você gosta. Ninguém é obrigada a fazer minha receita sem baba. Beleza? Beleza. Tô insistindo nesse ponto porque sei que tem as apaixonadas por essa característica peculiar do quiabo e já escutei gente indignada dizendo que se não tiver baba, não é nem pra chamar de quiabo. E teve o senhor na feira que disse que dava dinheiro pra esposa preparar o quiabo com o máximo de baba possível.

Tem poucas coisas comestíveis no reino vegetal que eu não aprecio. O único sabor que eu não gosto é anis e a única coisa que realmente me repele na comida é a textura babenta. Então estou muito satisfeita com a minha receita, porque acho o sabor do quiabo maravilhoso. E preparado assim, ele fica ainda mais saboroso. Agora que sei como fazer quiabo (quase) sem baba, ele se tornou um dos meus vegetais preferidos no mundo.

O segredo do quiabo (quase) sem baba

Primeiro, aqui vai uma dica pra escolher quiabos: prefira os pequenos e jovens. Quanto mais jovem, mais saboroso e tenro. Grandes e maduros, eles ficam duros e estão mais pra madeira do que pra verdura. Eu compro quiabo na unidade (que varia muito de tamanho), então fica difícil indicar o peso desse ingrediente na receita. Mas se sua mão for  pequena, como a minha, eu diria pra usar uns 4 punhados grandes de quiabo inteiro, ou o equivalente a umas 6 xícaras de quiabo picado.

4 punhados grandes de quiabos jovens (leia as explicações acima)

1 cebola, picada

2-4 dentes de alho, picados

2-3 tomates (dependendo do tamanho), picados

Azeite

Sal e pimenta a gosto

Gotas de limão

Um punhado de coentro fresco, picado (opcional)

 

Lave e corte os quiabos em rodelas finas levemente diagonais. A baba do quiabo já vai começar a soltar aqui, mas não se preocupe que ela desaparece depois.

Em um tacho grande (ou a maior frigideira que você tiver) aqueça um fio de azeite, jogue uma parte do quiabo e tempere com um pouco de sal. Coloque só o suficiente pra cobrir o fundo do tacho, não coloque muito de uma vez senão o quiabo vai cozinhar no vapor. A ideia é grelhar o quiabo no calor forte (fogo alto), mexendo de vez em quando, até ficar ligeiramente chamuscado, o que realça muito o sabor. Transfira o quiabo grelhado pra um recipiente de vidro e reserve. Repita a operação com o resto do quiabo, lembrando de sempre colocar mais azeite no tacho antes de jogar o quiabo e de temperar cada porção com sal. Dependendo do tamanho do seu tacho/frigideira, você terá que fazer isso em 3-4 vezes. Pode fazer isso numa chapa bem quente também.

Aqueça mais um fio de azeite no tacho (agora vazio) e cozinhe a cebola por alguns minutos, até ficar dourada. Junte o alho e cozinhe mais alguns segundos. Coloque o quiabo grelhado de volta no tacho, o tomate e mais uma pitada de sal. Cozinhe até o tomate começar a se desfazer. Pingue gotas de limão (uso menos do que uma metade de limão pequeno), tempere com pimenta do reino a gosto, prove e corrija o sal. A acidez do tomate e do limão vai fazer a baba do quiabo desaparecer quase por completo. Ainda fica um pouco liguento, mas bem mais discreto e saboroso do que a versão “baba integral”. Depois que desligar o fogo junte o coentro picado, se estiver usando.

Rende 4-6 porções como acompanhamento.

“Estou disposto a fazer a minha parte”

O último tour político-ativista-vegano-feminista na Palestina aconteceu em março desse ano. Assim como durante o tour de fevereiro, vivemos momentos difíceis, chocantes e revoltantes. Também vivemos momentos cheios de emoção, onde a humanidade e força das pessoas que encontramos nos tocou profundamente. Pela quinta vez pude ver as pessoas que participaram da viagem passarem pelas mesmas etapas que eu passei quando cheguei pela primeira vez na Palestina, 10 anos atrás. Surpresa, indignação, lágrimas, revolta, impotência, dor. Sempre que acompanho um grupo nessa montanha russa de emoções chega um momento em que me pergunto por que faço isso com essas pessoas tão bacanas que vieram de tão longe pra estar ali comigo. Mas elas nunca deixam de me lembrar a razão que me fez decidir fazer esse trabalho. Eu tenho uma responsabilidade moral em divulgar a realidade cruel da colonização e ocupação militar israelense na Palestina. Elas estão ali porque decidiram mostrar solidariedade ao povo palestino e se juntar às pessoas que lutam por justiça, a condição primeira pra se obter paz.

Tati e Thiago participaram do tour de março e escreveram relatos pessoais que me emocionaram muito. Tantas pessoas que participaram do tour se tornaram ativistas por direitos humanos e justiça na Palestina e além de me encher de felicidade, isso me dá forças pra continuar organizando essas viagens. Então eu precisava compartilhar esses relatos aqui no blog.

“Se eu tivesse optado por um turismo convencional, mesmo tendo uma visão crítica a respeito da ocupação israelense de terras palestinas, muito provavelmente teria voltado com percepções bem diferentes do que esse tour político me proporcionou. Cheguei um dia antes do combinado para me encontrar com o grupo e fiquei hospedada em Jerusalém. Algumas voltas no entorno, vendo israelenses e alguns palestinos na mesma cidade, me deram a falsa impressão de normalidade, de que ambos ocupavam o mesmo espaço sob condições iguais.

Andando apenas em transportes usados por turistas, eu provavelmente não teria percebido que alguns ônibus são reservados apenas para palestinos e outros para israelenses, o sinal mais óbvio de apartheid. Andando pelas ruas e observando as construções, eu certamente acharia que era opção estética ter ou não caixas d’água no teto, ao invés de saber que palestinos não têm água disponível 24h, ao contrário dos israelenses, mesmo essa água tendo sido captada em terras palestinas. Se estivesse em uma excursão tradicional, em ônibus de viagem, teria passado por vários “check points” sem perceber, pois esses ônibus não seriam parados. Mais ainda, eu teria percorrido vários quilômetros de estrada cortando terras palestinas e não saberia que na maioria daquelas estradas só é permitido o tráfego de israelenses. Teria visto as imensas colônias israelenses em terras palestinas e concluído ser apenas mais uma cidade. Teria visitado o Mar Morto sem ver um só palestino e achado que eles não frequentavam outros resorts por opção.

Depois dessas quase duas semanas na Palestina, pude entender perfeitamente o medo que Israel tem de que as pessoas entrem em contato com o povo palestino, o porquê de ter que mentir na imigração, de ter que jurar que não iria para a Palestina para conseguir o visto, o motivo de ter uma lei que proíba civis israelenses de entrar em cidades palestinas, de ter tantas placas dizendo se tratar de áreas perigosas. Porque se as pessoas realmente conhecerem o povo palestino, no mínimo, elas irão questionar a narrativa montada por Israel, o estereótipo construído em torno dos palestinos, sobretudo, os árabes.

Desde o momento em que passei pelo checkpoint, a frase que mais ouvi foi “bem-vinda à Palestina”, acompanhada de um sorriso caloroso. Mesmo quem não falava inglês arriscava algumas palavras para demonstrar o quanto a minha presença era importante ali. Às vezes, um cumprimento com a cabeça já transmitia o recado. Eu, que imaginava os palestinos como pessoas mais reservadas, sérias, desconstruí rapidamente essa imagem. Percebi muitas semelhanças com os brasileiros, a comunicabilidade, o calor humano e a alegria. Mais do que isso, eu me surpreendi com tamanha solidariedade e com uma vontade de apenas seguir a vida, sem rancor, algo que eu, sob as mesmas condições,  provavelmente não conseguiria.

É claro que devem existir discursos mais agressivos, mas, com tanta humilhação, privação e provocação em seu próprio território, me admira haver tão poucos. Aliás, é bom lembrar que é legítimo, reconhecido pelo direito internacional, o direito de um povo sob ocupação se defender.

A primeira coisa que me chamou a atenção quando entrei na Palestina foi a condição precária, a sensação de estar em um lugar permanentemente em obras. Com as barreiras e as condições impostas por Israel, a economia local tem se tornado mais e mais frágil e o índice de desemprego é altíssimo. Mesmo assim, não vi nenhum palestino morador de rua e eram raros os que me abordaram pedindo algo. Pareceu-me um paradoxo, mas, conhecendo um pouco mais da cultura deles, a força dos laços familiares e a generosidade, pude compreender que enquanto houvesse uma pessoa da família trabalhando (e família em sentido amplo), o restante não passaria fome, pois a renda seria dividida entre todos. E a generosidade se estendia inclusive para nós, turistas – foram inúmeros os presentes que ganhei e os convites para refeições que recebemos.

Mas o que mais me impressionou foi o apego deles à vida, a vontade de simplesmente ter uma vida normal, realizar seus planos sem a interferência de Israel. Resistir apesar das inúmeras dificuldades impostas por Israel, manter a cabeça erguida após cada humilhação, manter a serenidade mesmo tendo seus direitos violados dia após dia. É mais que um apartheid, são tantas as maneiras com que Israel consegue tornar a vida de um palestino insuportável que eu sozinha não teria imaginação para elaborar nem 1% dessas políticas. Tantas e tantas vezes me senti impotente, revoltada com as injustiças que via, e que para um palestino era apenas mais um dia de tantos outros.

Quando voltei ao Brasil, me disseram que para ver injustiças eu não precisava ter feito essa viagem. Sim, há injustiças por toda parte, mas a grande diferença é que lá essa injustiça é regulamentada em lei e não há o discurso para que isso mude, muito pelo contrário. O objetivo é tornar a vida do outro tão insuportável a ponto de ele largar tudo e ir embora. É tudo feito de forma descarada.

A diferença social foi outro aspecto que me chamou a atenção, visível mesmo em um território tão pequeno: a população das cidades, com condição financeira melhor e mais acesso aos serviços, e a população dos campos de refugiados, que perdeu tudo e teve que reconstruir sua vida. Como é de se esperar, os moradores dos campos de refugiados, com situação econômica mais difícil e sob constantes invasões de soldados, eram mais religiosos e conservadores. Como bem observou Sandra, nossa guia <3, antes da primeira intifada, na década de 80, eram poucas as palestinas que usavam véu, mas, com a situação de vida cada vez mais difícil, com o cerco israelense cada vez maior, a válvula de escape acaba sendo a religião.

Em Hebron, eu me senti sufocada com a pesada presença militar. Bastava olhar para cima para ver uma arma apontada. Parecia que não havia onde se esconder, que sempre haveria câmeras e mais soldados. Ao contrário de outras cidades palestinas, que estão sendo cercadas por colônias israelenses, em Hebron os colonos tomaram as ruas da cidade. Como resultado, há “check points” entre uma rua e outra, muro dentro da cidade, ruas em que todos os comércios palestinos foram fechados pelos israelenses, ataques a crianças, ruas cobertas com tela por causa dos ataques de colonos a palestinos – presenciei uma criança israelense cuspindo e jogando pedra nos palestinos que transitavam. O mais perturbador disso tudo é saber que todo esse dinheiro que Israel investe em militarização para oprimir os palestinos e proteger os invasores vem de ajuda internacional, é saber que os nossos governos apoiam esse massacre.

Saber disso é importante para aqueles que acham que a causa palestina é algo muito distante da nossa realidade, para aqueles que não tiveram a chance de, assim como eu, ver de perto, sentir empatia pela população, e se perguntam “por que a Palestina?”. Temos, sim, nossa parcela de responsabilidade. Precisamos pressionar o nosso governo a não assinar contratos de cooperação com Israel, a não comprar armamentos e tecnologias que são usados na opressão do povo palestino, pois somente a pressão internacional fará com que essa barbárie termine.

Divulgar o máximo de informações para contrapor a narrativa oficial daqueles que detêm o poder é o mínimo que eu posso fazer. Para aqueles que não puderem ir à Palestina, conversar com os locais e ver de perto as políticas impostas por Israel, sugiro, além de se manter sempre informado sobre o assunto, procurar a visão de quem está ou esteve dentro dessa sociedade que, cada vez mais, está sendo isolada por Israel. Os palestinos querem e precisam ter voz.

Repito aqui o que muitos já disseram durante o tour: que, por mais que eu tivesse lido e me informado sobre o assunto, nada teria me preparado para essa experiência transformadora. Vou carregar comigo, para sempre, os vários olhares cansados e tristes que presenciei; os pedidos para que levássemos as histórias deles para o mundo, para que eles pudessem ter voz; os abraços reconfortantes e toda generosidade que recebi; e, acima de tudo, um enorme carinho por essa terra e seu povo. Liberdade ao povo palestino! Palestina livre!”

Tati

“Conhecer a Palestina sempre foi um desejo. É impossível não ouvir falar sobre a “última grande causa do século XX” na mídia e, para quem tem um pouco de senso crítico, é igualmente impossível não questionar a qualidade e mesmo a veracidade das informações que nos chegam da região.

Essa falta de fé no modo como não apenas a Palestina, mas todo o Oriente Médio e a população árabe são retratados aumentou em muito minha vontade de visitar o local. Junte-se a isso a empolgação em conhecer um país que sempre ocupou um papel de destaque na história da humanidade e pronto, confesso que não pensei muito em me candidatar a participar de um tour pela região que a grande mídia descreve como uma das mais instáveis e violentas do mundo.

Com relação a minha integridade física, verdade seja dita, eu sabia quem poderia me fazer algum mal por lá e sabia também que, regra geral, meu status de estrangeiro me protegeria. 

Já em relação a meu emocional, acreditei que aguentaria o baque. Além de já ter lido bastante a respeito, achei que ter crescido na periferia de São Paulo teria me calejado para as violências e injustiças a que os palestinos são submetidos. Como eu estava enganado.

Sei que parece clichê dizer que é muito difícil estar preparado para o que se vê por lá, mas, acreditem, é verdade. A Palestina é um país muito pobre e com um alto índice de desemprego, mas, apesar de grande, a miséria não é o que mais choca por lá. Até porque, graças a um senso de comunidade que me impressionou bastante, um familiar empregado sempre acolhe os parentes mais necessitados, razão pela qual praticamente inexistem moradores de rua e pedintes. Assaltos e furtos também são raros.

Enfim, o que eu realmente não estava preparado para ver é o modo como Israel conduz a ocupação. Não tem como não se surpreender com o número de formas que esse governo encontra para oprimir, desabrigar, assassinar e humilhar todo o povo palestino. A começar pelo “muro da vergonha”, que, segundo o senso comum, se localiza na fronteira e existe por razões de segurança. Ele não está na fronteira, ele está no meio de terras palestinas, o que inclusive já derruba a tese de que ele existe por razões de segurança. O muro existe com o propósito de confiscar terras palestinas. Aliás, quantas leis e atitudes não existem com o único propósito de confiscar terras palestinas?

Mas não é só a bens materiais que eles parecem não ter direito. Os palestinos não podem sequer se locomover dentro de seu próprio território. Proibições, bloqueios e checkpoints fazem com que muitas vezes o simples ato de caminhar de uma rua a outra se transforme em um pesadelo.

Isso, claro, para não falar na violência física. Todo palestino com quem você conversar vai ter uma história sobre alguém que foi preso ou assassinado injustamente. Tem ideia de quanto dói ver um familiar ser morto injustamente e saber que nada vai ser feito a respeito?

Quando relatamos esses problemas é comum as pessoas dizerem que eles de fato existem e são terríveis, mas que não devemos confundir o governo com seu povo. Por mais que eu compreenda que nossos sistemas políticos estão longe de serem perfeitos no que diz respeito a representar a vontade popular, é fato que há 50 anos o povo israelense elege governos que oprimem cada vez mais o povo palestino.

E, sinceramente, o que mais choca nem são os políticos eleitos, são algumas atitudes da população mesmo. Em Hebron vi colonos israelenses jogando pedras, cuspindo e urinando em palestinos. Uma criança israelense tentou cuspir em mim e no meu grupo por estarmos em área palestina. Ver esse nível de ódio partindo de uma criança impressiona. 

Claro que existem israelenses que lutam contra essa opressão, mas, infelizmente, eles parecem ser poucos. Definitivamente não o suficiente para amenizar em algo o sofrimento palestino.

Por ser um relato pessoal não vou embasar minhas sensações com fatos, o objetivo aqui é dizer o quanto o contato com aquela realidade tem potencial de transformar o modo como vemos o mundo. Depois da vivência que tive – e nem foram muitos dias – passei a ver as coisas com outros olhos, a valorizar muito mais o que tenho e a rir de problemas que antes pareciam enormes.

Mas a principal sensação que eu trouxe foi a perplexidade em perceber o quanto o mundo parece dar as costas à causa palestina. Não dá para acreditar que um sofrimento tão grande persista por tanto tempo sem que a maioria das pessoas sequer saiba o que acontece por lá.

É assim que eu acho que nós, aqui de longe, podemos contribuir: com informação. Sabemos o quanto é difícil encontrar informações sobre o massacre a que os palestinos são submetidos diariamente, conhecemos o esforço da grande mídia em nos fazer acreditar que se trata de um “conflito” entre duas partes “igualmente poderosas” e precisamos fazer nossa parte para desconstruir esse discurso.

Não acredito que a solução para o problema venha de dentro de Israel se não houver pressão externa. O apartheid na África do Sul só acabou após a comunidade internacional se sensibilizar para o tema e aplicar uma série de boicotes e sanções ao país. Do mesmo modo, não acredito que Israel algum dia vá acordar disposto a abrir mão de todos os benefícios que a colonização da Palestina lhe garante.

Os palestinos estão há décadas fazendo a parte deles, resistindo heroicamente a uma ocupação que se esforça diariamente em desumanizá-los. Nossa parte nessa luta é infinitamente mais simples, precisamos enxergar e divulgar o que acontece, os políticos de nossos países precisam perceber que há uma preocupação com o tema para que o levem a esferas cada vez maiores de poder.

A mudança vem de fora, a mudança vem de baixo e, no que eu puder, estou disposto a fazer minha parte.”

Thiago

 

*Todas as fotos que ilustram esse post foram feitas por Tati, que me deu autorização pra publica-las aqui.

*Os próximos tours político-ativista-vegano-feministas na Palestina acontecerão em março/2018.

*Legendas das fotos, na ordem de aparição:

1-Feira em Hebron. 2- O grupo com meu amigo Marwan, que nos guiou durante a visita de dois vilarejos na região de Belém. 3-O muro construído por Israel dentro dos territórios palestinos, aqui em Belém. 4-Casa no vilarejo Zacharia. É costume se tirar os sapatos antes de entrar nas casas palestinas.  5-Torre de uma mesquita. 6-A placa colocada pelo governo israelense na entrada dos territórios palestinos ocupados, avisando que a lei israelense impede que seus cidadãos entrem ali. 7-Morador de Zacharia, um vilarejo palestino que se encontra cercado por colônias ilegais israelenses. 8-Sudfeh, o primeiro restaurante vegano da Palestina, na Universidade de Abu Dis. 9-Baha, uma amigo querido e nosso guia no distrito de Belém, brincando com a filha de outro amigo palestino. 10-Universidade de Abu Dis. 11-Nablus, no norte da Cisjordânia. 12- O filho de Fatima, que nos guiou em Nablus e organizou um curso de culinária palestina pra nós. 13-Nablus. 14-Jericó, no Vale do Jordão. 15- O padeiro de Nablus que faz os melhores pães com za’atar da cidade. 16- Feira em Hebron. 17-Soldados israelenses que tinham invadido a casa de Zleiha, nossa guia em Hebron, e que ameaçam crianças palestinas que estavam na rua. 18,19,20- Enterro do escritor e ativista por direitos humanos Basel Al Araj, assassinado em casa pelos soldados israelenses. 21- Belém. 22-Cabra que encontramos durante a trilha no deserto de Jericó. 23- Loja de especiarias em Nablus.

Guia Vegano São Francisco – parte II

A primeira parte foi sobre comida, a segunda será sobre todo o resto: passeios, parques, museus, LGBTs e um pequeno parênteses consumista.

Alugamos uma casa exatamente na interseção dos bairros Noe Valley, Castro e Mission e foi muito feliz, pois eles acabaram sendo os meus preferidos na cidade. Nessa área você praticamente só vê casas, as ruas são tranquilas e as pessoas parecem estarem todas de férias, tamanho o relaxamento delas.

Se estiver em dúvida sobre onde ficar hospedada, Mission é o mais central e animado. Noe Valley, por ser quase exclusivamente residencial, é mais calmo. Já o Castro é bem animado na rua principal, porém mais tranquilo nas outras partes. Na minha primeira noite fiquei em um hotel no Financial District, a parte mais moderna da cidade. Tem um mar de gente apressada nas ruas (a concentração de escritórios por lá é grande), é bem turística e cheia de arranha-céus e Starbucks. Como essa não é a minha vibe, não gostei nem um pouco da experiência.

 

Pra passear, um dos lugares que mais gostei foi o Dolores Park. É um parque relativamente pequeno, em Mission, e fica apinhado de gente nos fins de semana de sol. Na parte superior do parque você consegue ver a linha de prédios do Financial District, então coloque sua toalha de piquenique lá em cima pra aproveitar melhor a vista. A primeira vez que estive lá era domingo e fiquei impressionada com a quantidade de homens de sunga num dos cantos do parque. Dias depois, lendo um guia alternativo da cidade, descobri que esse cantinho do Dolores Park é conhecido como “gay beach”(ou “fairy prairie”, já que tem mais grama do que areia e o único mar que você vai ver é o mar de gente). Se homem é a sua praia, vá lá lavar a vista que os rapazes são bem bonitos.

Mas nem só de gay reluzindo de protetor solar vive o Dolores. O parque reune os mais variados tipos de pessoas (e cachorros) e cada canto tem um apelido. Tem a área das famílias, a das lésbicas (bem menor que a gay beach, infelizmente), a “hipster hill” (o nome explica tudo), a parte das pessoas que gostam de jogar objetos voadores (bola, peteca, boomerang) umas nas outras, a do pessoal que vem fazer exercícios, um cantinho onde está sempre rolando uma rave… Fiquei fascinada com o lugar. Nunca vi uma mistura tão grande em um lugar tão pequeno, todo mundo em paz, curtindo o dia, piquenicando, apertando um e compartilhando coisas. As mais diversas coisas. Se você é sensível ao aroma de maconha, evite esse parque. Mas como SF quase toda tem cheiro de maconha (mais explicações abaixo), nesse caso é melhor você evitar a cidade como um todo. Pras interessadas, um amigo nosso passou uma dica. Se você quiser comprar maconha em SF, Dolores Park é o lugar. Basta chegar no parque, ficar em pé virando a cabeça de um lado pro outro que em poucos segundos o vendedor chega oferecendo a mercadoria. Ele descobriu isso por acaso, na primeira vez que foi ao parque, quando se levantou pra ver se a amiga com quem ele tinha marcado encontro estava por ali e o vendedor interpretou aquele gesto como “procurando maconha” ao invés de “procurando amiga”. Fica a dica.

Falando em maconha, uma das coisas que mais me impressionou foi o cheiro da erva por todos os lados. A Califórnia foi o primeiro estado nos EUA a legalizar o uso medicinal da maconha, em 1996.  Ou seja, sua médica pode prescrever maconha pra você se julgar que ela vai aliviar os sintomas de alguma condição física ou mental que você tenha. Uma lei foi aprovada recentemente legalizando também o uso recreativo da maconha, mas se entendi direito ela só entrará em vigor em 2018. Mas isso não impede o pessoal de SF de fumar tudo até a última ponta pelas ruas, parques… Cheguei à conclusão que essa é provavelmente a razão  do pessoal ser tão relaxado por lá.

E já que o assunto é erva, sabiam que o nome do povoado que deu origem à cidade de SF era Yerba Buena? Achei que o nome original não deveria ter mudado e faria ainda mais sentido hoje. Yerba Buena também é o nome de um dos dois museus que visitei durante a viagem. Eu queria ter ido ao famoso MOMA, mas custava um braço e quando arte é tão absurdamente inacessível ao público mais modesto, fico chateada ao ponto de perder a vontade de ir. Descobri que tem um dia onde os museus são gratuitos, geralmente na primeira terça do mês e se coincidir com a sua visita à cidade, aproveite. Mas dê uma olhada no site do museu que você quer visitar pra confirmar, pois alguns são gratuitos em outros dias. O MOMA tem seu próprio sistema de dias gratuitos, mas é possível checar qual será o próximo no site do museu. Mas voltemos ao Yerba Buena. Fui na primeira terça do mês e entrei de graça. Adorei o museu e o jardim, que faz parte do museu e fica sempre aberto ao público. No dia da minha visita tinha uma exposição incrível e nela descobri a história de Medillín, na Colombia. A cidade, que já foi a mais violenta do mundo, passou por uma transformação urbana que desencadeou uma transformação social gigante e hoje é um modelo de criação de espaços públicos que facilitam a troca cultural, política e de conhecimentos. As exposições mudam frequentemente, como em todo museu, mas tem sempre coisas interessantes por la, então recomendo muito a visita.

LGBT

O outro museu que visitei foi o GLBT Museum, no Castro. Esse museu conta a história da comunidade LGBT (não entendi porque no nome do museu o G vem antes do L) em São Francisco. Acho muito importante conhecer a nossa história e ver a luta por direitos da minha comunidade me inspira e me dá força pra continuar lutando. Foram muitas conquistas, mas ainda falta muito a ser conquistado e, como o contexto atual nos mostra, essas conquistas podem nos ser retiradas a qualquer momento. O museu é bem pequeno, mas tem bastante material pra ler, além de alguns vídeos e áudios. O que mais me emocionou foi um áudio de Harvey Milk, ativista por direitos LGBT e político de SF, o primeiro abertamente gay a ser eleito na Califórnia, em 1977. Ele tinha recebido ameaças de morte, pois se um político gay incomoda muita gente em 2017, imagine o tipo de discriminação que ele sofreu nos anos 70! Então ele gravou uma mensagem que deveria ser lida somente no caso dele ser assassinado e não consegui conter as lágrimas. Harvey Milk foi assassinado pouco tempo depois e o assassino, que também matou o prefeito de SF no mesmo dia, recebeu uma pena leve pois o advogado que o defendia alegou que ele “tinha comido muita junk-food no dia e não podia ser responsabilizado pelos seus atos”. Milk ainda é um ícone e uma inspiração pra comunidade LGBT de SF e do mundo

Se você viu o filme “Milk” (ótimo filme!), com Sean Penn interpretando Harvey Milk, ou se viu a série “When we rise”, criada pelo mesmo roteirista e dirigida por Gus Van Sant (a melhor série LGBT que já vi, porque conta a história da nossa luta por direitos, baseada na vida de ativistas reais, mas também as interseções com o feminismo e o movimento negro) o Castro é um lugar mítico. À partir dos anos 60 esse bairro acolheu uma comunidade LGBT enorme, que lutou ativamente por direitos durante décadas e foi o palco de uma tragédia humana, a epidemia de HIV/AIds nos anos 80, que levou a vida de um terço dos seus membros.

Andar pela rua principal do Castro (Castro St), que continua sendo um dos maiores símbolos de ativismo LGBT no mundo, foi muito emocionante pra mim. Tem até uma calçada da fama LGBT lá! Milk tinha uma loja de fotografia nessa rua e hoje um centro/loja da Human Rights Campaign, uma associação que luta por direitos LGBT, funciona no mesmo lugar. Essa rua é cheia de bares, cafés e abriga o cinema com o letreiro icônico. Infelizmente os bares são muito mais Gs do que Ls e são pouquíssimos os lugares frequentados por uma maioria lésbica. O lugar que mais gostei na rua foi a livraria Dog eared Books, que tem uma seção LGBT imensa, como era de se esperar, mas também toda uma parte dedicada a livros com temáticas LGBT e feminista pra crianças! Fui algumas vezes lá e confesso que folheei mais livros pra crianças do que pra adultas.

Passeios

Cheguei em SF com planos de fazer grandes passeios pelas florestas da região, mas, como expliquei na primeira parte desse guia, decidimos simplificar nossos programas e ficar pela cidade, mesmo. Posso recomendar a caminhada no parque Golden Gate, que oferece uma vista linda da famosa ponte e até um pedaço de praia pra você fazer seu piquenique (foi o que fizemos). E se você curtir andar de barco, recomendo pegar o ferry no centro (San Francisco Ferry Building) e ir pra Sausalito. É um cidade pequena na baía em frente à SF, logo à direita da Golden Bridge. Além de ser gostoso passear de ferry, você vai ter uma vista linda da ponte (ida e volta) e de SF e Alcatraz (volta). Sausalito é um charme, mas não tem muita coisa pra fazer por lá além de admirar a paisagem. Leve seu piquenique, sente nos jardins que beiram o mar e relaxe enquanto espera o ferry que te levará de volta. Vocé pode ver o preço e os horários do ferry, nos dois sentidos, nesse site.

Se você estiver com tempo, vale a pena visitar Oakland, onde a cena vegana também é vibrante. O restaurante Millenium, que apareceu na parte gastronômica do guia, fica lá e é fácil ir de uma cidade pra outra com transportes públicos. Além dos vários restaurantes veganos da cidade (mais uma vez, Happy Cow é a sua melhor amiga pra encontrar endereços veganos), tem um centro comunitário muito bacana chamado Omni Commons. Se ativismo te interessa, dê uma olhada no site pra ver se vai ter algum evento interessante durante sua viagem. Eu pude assistir à uma palestra com uma ativista LGBT russa que falou das dificuldades de fazer ativismo LGBT no país dela. Descobri que a situação era ainda pior do que tinha imaginado, mas conectar com outras ativistas é sempre uma inspiração. Também participamos do protesto do primeiro de maio em Oakland, junto com a comunidade de imigrantes, principalmente latinas, e nativa. Fiquei muito feliz em ver a Palestina incluída na pauta do dia (ninguém é livre até que todas sejamos livres!) e conheci algumas ativistas da pequena comunidade palestina local.

Parênteses consumista

Por questões éticas eu compro quase toda a roupa que uso de segunda mão (menos roupa íntima, de banho e meias). Então as únicas lojas de roupa que recomendarei nesse blog são lojas de caridade (Exército da Salvação, Liga contra o câncer, Emmaüs etc), pois são as únicas que frequento. SF tem algumas muito boas e se você procurar com paciência vai encontrar algumas peças de ótima qualidade, por um precinho modesto.  E se você está procurando o uniforme lésbico, nossa amada camisa xadrez, você encontrará as mais macias e confortáveis por lá. Raciocine aqui comigo. Além do povo nos states adorar camisa xadrez, outra lésbica já usou aquela peça, amaciando ainda mais o tecido. Segundo minha amiga Camila a camisa xadrez foi sequestrada pelos hipsters (e segundo uma seguidora minha no IG, isso é roupa de São João, mesmo), mas nada tema, amiga lésbica. Nós usávamos camisa xadrez antes dos hipters aparecerem e continuaremos vestindo nossas camisas xadrez quando eles entrarem em extinção. Achei as lojas mais interessantes no Mission e basta fazer um google “thrift shop mission district” (“thrift shop” significa “loja que vende roupas e objetos de segunda mão pra arrecadar fundos pra algum tipo de organização de caridade”) que você acha até um mapa com todas elas. Não confundir “thrift shop” com “vintage shop”, que é a versão chique e cara da loja de segunda mão. Mas se você procura por roupas vintage, com certeza também vai achar várias lojas do tipo em SF.

Outro lugar bacana pra comprar roupa é na loja da Human Rights Campaign que citei acima (na Castro St). Como expliquei, só compro roupa de segunda mão, mas essa loja vende camisetas lindas, super macias e com mensagens LGBT e todo o lucro vai pra organização, que luta pelos nossos direitos. Li as etiquetas das roupas antes de comprar e as que trouxe pra casa tinham sido fabricadas nos EUA, aumentando as chances das costureiras terem condições justas e dignas de trabalho (quando comparamos com as condições das trabalhadoras nos “sweatshops” dos países da Ásia).

Tenho outra recomendação de loja, mas sei que não será pra todo mundo. SF abriga um dos primeiros sex shops feministas que se tem notícia, Good Vibrations, que abriu em 1977. Conversei um pouco com a vendedora, que tinha muito orgulho fazer parte da equipe e que me contou que elas estavam comemorando os 40 anos da loja. Além de sex toys, lingerie e literatura erótica, o local oferece workshops práticos, aulas de educação sexual e de sexo seguro. Os sex toys são incríveis, das melhores marcas do mundo, fabricados realmente pensando no prazer da mulher, de todas as orientações sexuais, sozinha ou acompanhada. Claro que os preços são salgadinhos, mas escute essa pessoa que já vendeu sex toys e que já foi proprietária e usou vários tipos diferentes. Melhor investir em um sex toy de qualidade, recarregável, que vai durar muitos anos e que é mais ecológico (fuja dos toys que usam pilhas) do que comprar algo barato que terá um desempenho inferior e uma vida útil curta, o que além de acabar custando mais (se você substituí-lo por outro), também vai aumentar a sua pegada ecológica.

Algumas dicas

Pra terminar esse guia, algumas dicas práticas. SF é extremamente cara, então as dicas que gostaria de compartilhar aqui são todas sobre como economizar. Se você ganhou na loto antes de ir pra lá, fique à vontade pra não ler os próximos parágrafos. Pra todas as outras pessoas, aqui vão as recomendações.

Primeiro: compre comida no supermercado e coma em casa e/ou faça piqueniques ao invés de fazer todas as refeições em restaurantes. Segundo: tente se locomover o máximo possível a pé.  Na verdade sempre faço isso porque é a maneira que mais gosto de explorar cidades quando viajo, mas tem a vantagem de ser a maneira mais econômica de viajar também. Como SF é bem grande, programe as visitas por bairros pra poder fazer uma parte das visitas do dia a pé. E não esqueça de procurar os parques mais bacanas na região antes de sair de casa, pra já saber onde você estenderá a toalha de piquenique e organizar as visitas em função disso. Se cozinhar não for uma opção, nos supermercados você encontra comida vegana pronta. É mais caro do que cozinhar em casa, mas ainda sai mais barato do que comer em restaurantes.

Pra cozinhar em casa você vai precisar, obviamente, de uma casa. Essa é a minha terceira dica: alugue uma casa (Airbnb, por exemplo). Hotéis são geralmente mais caros e não oferecem a possibilidade de cozinhar no local. Se você estiver viajando sozinha, talvez um albergue com cozinha comunitária seja a opção mais barata, mas como viajei acompanhada não posso confirmar isso. E não esqueça de procurar os dias de entrada gratuita nos museus que quiser visitar (veja o site do museu), pois talvez você esteja por lá exatamente nesse dia. Uma última coisinha. Os tickets de transporte público são válidos por 90 minutos a partir do momento em que foi comprado (ou que você passou na catraca). Então se você precisar pegar dois ônibus e um bonde pra chegar em um determinado lugar, só precisa de um ticket, com a condição de fazer o trajeto em até 90 minutos. Eu não entendi isso no início e usava um ticket diferente cada vez que subia no ônibus e acabei desperdiçando algumas passagens. A hora do primeiro embarque fica marcada no ticket, então você sempre vai saber até quando pode usar o mesmo.

Se SF fosse um cheiro: maconha. Por onde andei, lá estava ela. Eu tenho zero problema com quem fuma e acho o cheirinho até bom. Fumaça de cigarro e gente bêbada me incomodam muito, muito mais. Principalmente gente bêbada. Porém o parque inteiro pode estar fumando maconha do meu lado que eu nem tchuiu. Mas se você se incomoda profundamente com isso, se prepare psicologicamente, pois o aroma da erva está praticamente por todos os lados.

Se SF fosse um sabor.. Difícil de escolher só um, pois a cidade ficou associada na minha memória gustativa com a salsa de tomate assada do Papalote, o maravilhoso pão com fermento natural, o kombucha com gengibre que eu comprava de litro no supermercado, mas, acima de tudo, com os queijos veganos que comi por lá. Principalmente o defumado da Miyoko’s Creamery.

Se SF fosse uma música, minha escolha é bem óbvia: “San Francisco”, cantada por Scott Mackenzie. Assim que avisei à família em Natal que estava indo pra SF meu irmão respondeu: “make sure to wear some flowers in your hair”. Aí não deu outra: passei onze dias cantarolando a música pela cidade e até coloquei umas flores no cabelo e gravei um vídeo cantando a música pra ele, porque sou uma irmã que gosta de passar essas vergonhas.

 *Essa última foto é de um lugar incrível, o ” Women’s building“, o primeiro centro comunitário de mulheres da cidade, criado em 1979. O prédio em si é lindo, coberto com pinturas de mulheres de todos os tipos e o centro oferece todos os tipos de ferramentas pra ajudar mulheres a “criar uma vida melhor pra elas próprias, suas famílias e sua comunidade”. Quem viu Sense8 talvez vai reconhecer o lugar, pois foi lá que Nomi se escondeu durante alguns episódios.

Guia Vegano São Francisco – parte I

No final de abril viajamos em lua de mel pela segunda vez. Dessa vez o destino foi São Francisco/EUA. A primeira lua de mel, anos atrás, foi na Irlanda e ainda sonho em voltar lá.

Anne sempre quis visitar São Francisco e apesar dos EUA nunca terem estado na minha lista de destinações sonhadas, SF era a única cidade de lá que me interessava. Ela sempre existiu na minha imaginação como um lugar alternativo, tolerante e totalmente diferente do resto do país. Minha irmã caçula, que morou dois anos nos EUA e visitou várias cidades lá, me falou que era exatamente isso. E o momento era perfeito. Anne já estava nos EUA, em uma turnê de um mês apresentando o último projeto dela sobre Gaza, Obliterated Families, e o final da turnê coincidia com o final do meu trabalho com os tours políticos/ativistas na Palestina. Decidimos então nos encontrar em SF, eu vindo da Palestina (com uma passagem por Paris) e ela de Seattle.

A cidade superou todas as minhas expectativas e vivemos momentos incríveis, visitamos lugares lindos, conhecemos pessoas que me tocaram profundamente, participamos de um grande protesto, junto com a comunidade de imigrantes, contra a política racista e islamofóbica de Trump, encontramos ativistas que lutam por justiça social e comemos muitíssimo bem. A receita de uma lua de mel perfeita na opinião de duas ativistas veganas.

Como acontece sempre que visito uma cidade pela primeira vez, decidi reunir minhas experiências em um Guia Vegano. Um aviso pra quem nunca leu um dos meus guias veganos antes: o que você vai ver aqui está longe de ser um guia turístico completo da cidade. O objetivo principal dessa série é descrever a cena vegana local e compartilhar meus lugares preferidos, além de uma ou outra experiência marcante que vivi por lá. É um relato pessoal, diferente do formato tradicional de guia turístico e reflete a maneira como viajo.

E falando na maneira como viajo, queria compartilhar algo antes de começar a descrever a comida deliciosa que experimentei em SF.  Eu não sou aquela viajante que programa uma maratona de visitas a cada dia, nem gosto de bater ponto em todos os lugares turísticos da cidade que estou visitando. Pra minha grande felicidade casei com uma viajante igual a mim. E dessa vez nosso ritmo ficou ainda mais lento, pois precisávamos de descanso depois de meses de trabalho intenso. No final adorei viajar de uma maneira totalmente relaxada, curtindo sem pressa cada instante e optando por programas mais singelos (caminhadas no bairro, piqueniques nos parques, manhãs tranquilas com fartos cafés na cozinha da casa que alugamos…). Eu me dizia sempre que não queria explorar tudo de uma vez pra deixar algumas surpresas pra próxima visita à cidade. Não sei se um dia terei a oportunidade de voltar à SF, mas mesmo se isso não acontecer ter adotado essa postura mental acalmou algo dentro de mim e me fez aproveitar a viagem ainda mais.

Pra esse post não ficar muito longo, dividi o guia em duas partes. A primeira terá foco na comida vegana e a segunda parte será dedicada aos lugares mais bacanas que visitei e terá algumas dicas práticas.

Comida vem primeiro, claro, porque descobrir novos sabores é a parte que mais gosto nas viagens. SF é um paraíso gastronômico, mas diferente da maioria da cidades consideradas como tal, pessoas veganas também tem acesso a esse paraíso. A California, principalmente o norte do estado, onde fica SF, é famosa por ser um ninho de pessoas alternativas, com opniões políticas mais progressistas do que o resto do país. O fato de abrigar uma grande comunidade vegetariana há décadas moldou profundamente a paisagem gastronômica da cidade, com uma oferta vegetal extremamente variada e que vai agradar todos os gostos. Tem sucos verdes extraídos a frio, comida japonesa zen, tigelas macrobióticas, fast-food, junk-food, comida mexicana de rua, culinária mexicana mais refinada, restaurantes gastronômicos que merecem estrelas do Michelin (quando vamos ter um guia Michelin vegano?), feiras de produtores orgânicos, supermercados populares com vasta oferta vegana, supermercados-templos de comida orgânica e vegana…Com tantas opções é fácil se aperrear tentando provar o máximo de pratos possível, mas olha a ansiedade da viajante voltando!

Como sempre, aconselho você dar uma olhada no site Happy Cow, onde é possível ver a lista detalhada de todos os restaurantes veganos, vegetarianos e simpatizantes da cidade. Cheguei com uma lista grande, mas acabei visitando menos lugares do que imaginei. Fica pra próxima. Deixei de lado os planos de provar tudo e acabei voltando pra comer novamente em vários lugares, coisa que eu não lembro de ter feito antes durante uma viagem. Também cozinhei bastante em casa, principalmente à noite. Abaixo você encontrará os meus lugares preferidos. Já vou me desculpando pela qualidade das fotos, mas fiz todas com o meu telefone e a luz dentro de restaurantes não é a melhor pra fazer fotografia. Visitem os sites dos restaurantes pra ver fotos que realmente fazem justiça às delícias servidas lá.

Millennium

Vou começar com o ponto alto da viagem. Eu ouvi falar desse restaurante vegano anos atrás e eu já tinha vontade de comer lá muito antes de decidir viajar pra SF. Então a primeira coisa que fiz quando cheguei na cidade foi reservar uma mesa lá. O restaurante é concorrido, por isso a reserva é essencial. Já o brunch no domingo é mais tranquilo, mas pra você não correr o risco de ir parar lá e ficar sem mesa, eu aconselho reservar do mesmo jeito. Jantamos no Millennium e a comida era tão saborosa quanto eu tinha imaginado. Cada prato tinha sido preparado com maestria, tanto na combinação de sabores e texturas quanto na apresentação. É raro ter uma experiência gastronômica em um restaurante quando se é vegana, pois a culinária vegetal ainda está debutando no mundo da alta gastronomia, então vale muito a pena comer lá. Os preços refletem a qualidade dos pratos, mas não são tão mais elevados do que o que você pagaria por um sanduíche em um dos cafés descolados da cidade. Dica: se seu orçamento está bem apertado, vá ao restaurante no horário de almoço e peça o menu do dia. Fica bem mais em conta. Gostamos tanto que voltamos pro brunch no domingo e foi ainda melhor! O serviço é muito simpático, o local é agradável e tem kombucha na torneira (na cozinha dos meus sonhos tem uma torneira de kombucha).

 

Gracias Madre

Um charmoso restaurante mexicano e vegano. O casal por trás do Gracias Madre é o mesmo dos  Cafes Gratitude, também veganos. Provei alguns pratos quando estive lá e uns estavam deliciosos, outros apenas ok. Mesmo assim gostei muito da experiência e recomendo o lugar pra quem quer degustar uma culinária mexicana que vai além do burrito, preparada somente com ingredientes vegetais. Não deixe de provar o bolo de chocolate com sorvete de coco.

Houve uma polêmica grande ano passado relacionada com esses restaurantes e acho que não posso não tratar do assunto aqui. As pessoas que criaram o Cafe Gratitude e Gracias Madre assumiram publicamente que tinham voltado a consumir animais, depois de décadas de veganismo. Pra piorar ainda mais começaram a criar vacas pra consumo no sítio onde parte dos vegetais dos restaurantes é cultivada. Por causa disso uma parte da comunidade vegana decidiu boicotar os restaurantes. Se alguém aqui se interessar pela minha opinião, lá vai. Sempre me parte o coração ver pessoas veganas voltarem a comer animais. O que acontece na cabeça delas pra fazer com que voltem a comer quem por anos era visto como amigo, não comida, me intriga profundamente. Mas sejamos honestas. Sempre que você descobre que abriu um restaurante vegano na sua cidade, ou ouve falar de um café vegano na cidade que você vai visitar, você procura se informar antes se a proprietária é vegana e só come lá se a resposta for afirmativa? Infelizmente ainda existem poucos restaurantes veganos mundo afora e muitos deles pertencem à pessoas onívoras. Eu mesma trabalhei em um restaurante vegano em Londres cujo proprietário era onívoro. O número de pessoas veganas no mundo está crescendo e vamos ver cada vez mais restaurantes veganos pipocar por aí. Não necessariamente porque veganas adoram abrir restaurantes, mas porque se existe um mercado, existe a possibilidade de lucrar e pessoas onívoras vão querer investir nisso. Se eu souber que as pessoas por trás de um determinado restaurante vegano também são veganas, vou apoiar com mais alegria ainda. Mas se eu descobrir que a dona desse ou daquele restaurante vegano come animais, eu ainda assim vou ficar feliz por ela estar oferecendo comida vegana pra nós quando poderia ter decidido abrir um restaurante que serve animais, causando mais sofrimento e injustiça no mundo.

Papalote

E falando em comida mexicana, esse restaurante (que serve animais) oferece várias opções veganas. Dizem que você encontra o melhor burrito de SF lá e eu acredito que seja verdade. Além de burritos tem tacos e saladas, e você pode pedir praticamente todos os ítens em versão 100% vegetal. Funciona assim: a base dos pratos (tortilla, tacos, dois tipos de arroz, três tipos de feijão) é totalmente vegana, assim como uma parte dos molhos (guacamole, salsa). Aí cada pessoa acrescenta o recheio que preferir, que pode ser um animal ou tofu marinado com anchiote (um molho mexicano), vegetais grelhados, chorizo de soja… As porções são gigantes, os preços são camaradas e a salsa de tomate assado é tão incrível que tive vontade de beber no copo. Tão bom que comi lá três vezes.

Cha-Ya

Restaurante japonês zen, que serve comida tradicional de templo. O menu, 100% vegano, tem mais de 40 opções. Comida de templo é preparada usando métodos simples e poucos temperos, o que os paladares acostumados com sabores fortes podem achar “sem gosto”.Mas muitos dos pratos são mais temperados, justamente pra agradar a um número maior de pessoas. Eu gostei de tudo que provei e almoçamos lá duas vezes.

New tree

Um café que serve animais, mas oferece opções veganas deliciosas. Tudo orgânico e “fair trade”. Tem sanduíches, wraps, saladas, sopas (a sopa do dia é sempre vegana), sobremesas, cookies (alguns veganos e sem glúten), leite vegetal pro seu cappuccino, papa de aveia (cozida na água, com frutas secas e castanhas). Bom pro café da manhã e almoço. O “tempeh burger”, feito tempeh, cogumelos, missô e tomate seco foi um dos melhores que já comi na vida! Menção especial pro maravilhoso mousse de chocolate vegano, feito com abacate, cacau, agave e leite de amêndoas. O local também é uma loja de chocolates e fiquei surpresa ao descobrir que o chocolate quente da casa é sempre vegano (e voluptuosamente delicioso!).

 

Golden Era

Passei na frente desse restaurante por acaso e que surpresa feliz! Totalmente vegano, ele serve comida vietnamita, chinesa, tailandesa e indiana e tem um cardápio tão grande que vai ser difícil escolher. Rolinhos (com papel de arroz ou do tipo frito), saladas, wraps, pratos à base de arroz, sopas, panquecas vietnamitas… Os rolinhos primavera (recheados com tofu e vegetais crus) servido com molho de amendoim estavam divinos!

Supermercados

Como alugamos uma casa em SF eu tive acesso à uma cozinha equipada e preparei várias refeições em casa. Porque muitas vezes faltava disposição pra sair pra comer à noite, mas principalmente porque SF é uma cidade muito cara e fazer todas as suas refeições em restaurantes vai esvaziar a sua carteira em uma velocidade impressionante. E além da economia, eu acabo me cansando de comida de restaurante e sentindo vontade de comer algo preparado por mim, do jeitinho que eu gosto. Claro que o fato de SF ter uma abundância de vegetais incríveis e oferecer produtos veganos de alta qualidade, como ravioli recheado com ricota de amêndoas, não só facilitou a preparação de refeições em casa, como me inspirou bastante.  Os dois supermercados abaixo possuem vários endereços pela cidade, então procure na internet qual o mais perto de onde você estiver hospedada.

Whole Foods

O templo da comida orgânica nos EUA, onde você encontra tudo que sempre quis comer em um lugar só. Vou logo avisando que os preços são bem elevados e se você se empolgar muito vai ter que empenhar um rim pra pagar a conta. Se eu morasse nos EUA provavelmente não entraria nunca nessa rede de supermercados, mas tinha um Whole Foods pertinho da casa que alugamos e quando estou de férias, pagar mais caro pela facilidade e praticidade pode valer a pena. Principalmente quando o supermercado caro em questão está lotados das coisas veganas mais deliciosas do pedaço! Eu olhava as prateleiras e parecia que eu estava vendo celebridades! Os queijos vegetais que eu tinha visto em sites e revistas estavam todos lá, piscando pra mim. Encontrei, e levei pra casa, os queijos maravilhosos e a manteiga (fermentada, feita de maneira tradicional) da Miyoko’s Creamery e os queijos igualmente maravilhosos da Kite Hill. Fazia muito tempo que eu queria provar os dois e gente, gente…O que é aquilo? Valeu a pena gastar todos os meus tostões lá. Também recomendo os ravioli recheados com ricota de amêndoa, da Kite Hill, que mencionei acima. Eles estão junto com as outras massas frescas, na parte refrigerada.

Trader Joe’s

Um supermercado mais popular que Whole Foods, com preços mais acessíveis. Apesar de não ter os queijos-celebridades, tem muitos produtos veganos. Acabo de descobrir que os queijos da Miyoko’s Creamery são vendidos lá também.

Não posso terminar a parte comestível desse guia sem falar que SF é famosa pelo pão com fermento natural (“levain” ou, em Inglês “sourdough”).  Reza a lenda que os micróbios que povoam a região de SF são especiais, por isso o pão de lá é tão bom. Lenda ou não, o pão é realmente incrível, com um crosta brilhosa e crocante e com um miolo denso e agradavelmente azedo, como todo bom pão feito com fermento natural. O “San Francisco sourdough” é o tradicional, mas você também encontra pães mais elaborados, também feitos com uma longa fermentação natural: com farinhas de cereais diferentes, com sementes, com frutas secas… Provei um com figos e nozes que era de cair da cadeira! Eu comprava pão no bairro onde estava hospedada, mas as padarias mais famosas da cidade são Boudin Bakery e, claro, Tartine. Apesar das várias recomendações que recebi, acabei não visitando nem uma nem outra. Se filas gigantescas não te assustam, vai lá.

Se você for à Berkeley, uma cidade vizinha, aproveite pra passar pela Vegan Republic, uma loja totalmente vegana que usa o lucro pra patrocinar um santuário de animais. Lá você também encontra os queijos Miyoko’s Creamery e Kite Hill, além de vários livros de culinária vegetal. Eu tive a sorte de passar por lá e adorei a loja.

E se café é a sua praia, o templo do café em SF se chama Blue Bottle. Passei em frente, achei o povo tão hipster e o lugar tão moderno, com umas engenhocas de café tão diferentes que, apesar de café ser muito a minha praia, deduzi que eu precisava fazer um curso pra pedir café ali e fui embora. Dias depois me deparei com um lugar que servia o café Blue Bottle e pedi um porque eu precisava provar aquilo. Achei com gosto de café, mas o que danado eu estava esperando? Se a sua pessoa for mais hipster que a minha, vai lá.

(A segunda parte desse guia aparecerá em breve.)

Tour político-ativista-vegano-feminista na Palestina, 2017

O quarto e o quinto tour Papacapim na Palestina aconteceram em fevereiro e março. Mais uma experiência transformadora, pras pessoas que participam do tour e pra mim mesma. As participantes terminam o tour meio sequeladas ou, como disse meu amigo Rogério, “acordadas”! Reviver, de novo e de novo, a montanha russa de emoções provocadas pelas atividades do tour e explicar, de novo e de novo, a injustiça e violações dos direitos humanos cometidas pela ocupação israelense na Palestina é doloroso pra mim. Claro que a dor que sentimos não pode nunca, nem de longe, ser comparada à dor vivida pelo povo palestino, mas não deixa de ser uma vivência difícil pra nós. Planejar esses tours exige meses de trabalho, muitas horas respondendo emails e tirando dúvidas de pessoas interessadas em participar, semanas coordenando as atividades com as pessoas palestinas que nos guiam e participam da programação… No final das contas acompanhar os grupos durante 11 dias é a menor parte do trabalho, mas é a parte que provoca um esgotamento físico e emocional que me obriga a ficar de cama por alguns dias depois de cada tour.

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Apesar disso tudo, esse é o trabalho mais gratificante dentre todos os trabalhos que faço. Poder sensibilizar pessoas sobre uma questão tão importante, poder levar solidariedade às palestinas que lutam incansavelmente por justiça, apoiar a economia local, que está sendo estrangulada pela ocupação, tudo isso não tem preço.  Também considero o trabalho mais importante que realizo no terreno dos direitos humanos, que é uma parte enorme do meu ativismo.

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A programação muda um pouco a cada ano, dependendo da disponibilidade das pessoas palestinas que me ajudam a realizar esse projeto, da época do ano e dos eventos acontecendo por aqui durante a viagem. Além das atividades que sempre fazem parte do programa, pois são essenciais pra compreender o que acontece aqui, como a visita do campo de refugiados de Aida, onde os grupos ficam hospedados, o tour político da região de Belém (muro, colônias ilegais, estradas, sistema de apartheid), tour de Hebron (colônias e checkpoints dentro da cidade), cidade antiga de Belém e Jerusalém, tem também palestras com organizações de direitos humanos palestinas que oferecem apoio legal a prisioneiros políticos (Addameer) e refugiados (Badil), palestra com a única organização local de direitos animais, que faz um trabalho interseccional e também trabalha com direitos humanos (Palestinian Animal League), visita à Universidade Al Quds e conversa com estudantes e professoras…

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E tantas outras coisas, tantos encontros com pessoas incríveis que estão resistindo e lutando de maneira tão corajosa. Como meu amigo Marwan, que ajuda agricultores a replantar oliveiras e reconstruir casas demolidas pelo governo israelense. Baha, que organiza tours políticos incríveis pra ativistas. Minha querida amiga Draguista, que coordena um projeto de mulheres bordadeiras no campo de refugiados de Deheisha. Sahar, que luta pela desmilitarização da sociedade israelense. Tali, outra amiga israelense, que promove a campanha BDS. Fatima, diretora do projeto de mulheres Beit Al Karama, em Nablus e Islam, diretora do projeto de mulheres Noor, no campo de refugiados de Aida.

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Tem também a parte mais turística, pois descobrir as belezas naturais da Palestina é um dos objetivos do tour. Como a trilha de seis horas no deserto de Jericó e visita dessa que é a cidade mais antiga do mundo que nunca deixou de ser habitada, mergulho no mar morto, o monastério de Mar Saba, no deserto da Judeia. Teve também uma tarde no hammam (banho turco), com direito a sauna e massagem, um tour gastronômico em Nablus, aula de culinária tradicional com um projeto de empoderamento de mulheres… E falando em comida, teve a parte comestível do tour.

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O lado gastronômico do tour é muito importante por dois motivos. Primeiro porque faz parte da minha missão divulgar as delícias da culínaria tradicional palestina. Uma das ferramentas da limpeza étnica que Israel vem fazendo contra a população palestina desde que foi criado na maior parte da Palestina histórica, em 1948, é apagar ou se apropriar da cultura desse povo. Podemos ver isso claramente com a culinária. Quantas vezes ouvi pessoas dizendo que hummus e falafel são israelenses, quando a verdade é que povos árabes já comiam essas duas preparações muito antes de 1948. Segundo porque é comum pessoas veganas sofrerem com falta de opção de comida vegetal e gostosa quando viajam e eu queria que esse tour fosse exatamente o contrário.

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Não vou mentir, essa viagem é extremamente dura pro emocional da gente. Comida é uma maneira de não só se conectar com a cultura local e voltar a ter aquelas experiências gastronômicas inesquecíveis que tínhamos quando viajávamos na nossa época pré-vegana, mas também serve de reconforto no meio de toda a injustiça que presenciamos. Minha amiga Camila, que participou do tour de março e que adora comida tanto quanto eu, falou que todo dia passava da tristeza à alegria justamente por causa dessa combinação na nossa programação diária. A comida era uma tentativa de curar um pouco a dor que nossa alma sentia.

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Pra quem mandou email perguntando quando serão as próximas viagens gostaria de explicar que esse tour é um projeto especial que faço somente quando condições favoráveis se reúnem. Nunca sei quando será o próximo, nem mesmo se haverá mais algum tour no futuro. Uma coisa é certa, esses foram os únicos tours de 2017. Nessa minha vida de nômade só consigo planejar um ano por vez e 2018 ainda é um mistério pra mim. Mas se acontecer mais algum tour ano que vem, será provavelmente no segundo semestre. Quem quiser colocar seu nome na lista de pessoas interessadas, e ser avisada de primeira mão, antes do anúncio do tour aparecer aqui no blog, basta enviar um email pra papacapimveg@gmail.com. Mas não prometo nada.

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Termino agradecendo a participação de cada pessoa que me deu a honra de sua presença no tour. Obrigada por terem se interessado pela Palestina, por terem vindo até aqui mostrar a solidariedade de vocês e por terem confiado em mim e acreditado no meu trabalho. E aqui vai a missão pós-tour que dou a todas as participantes: compartilhem o que viram e viveram aqui com o máximo de pessoas possível, sejam ativistas por justiça na Palestina da maneira que melhor couber no estilo de vida que levam e sejam a voz das palestinas que vocês encontraram aqui, presas na máquina cruel e injusta da ocupação militar israelense, na comunidade de vocês.

Guia Vegano Beirute

No início do ano passado fui morar em Beirute por três meses. Sempre tive vontade de visitar a cidade, conhecer as belezas do Líbano e provar a maravilhosa culinária libanesa na fonte. Aproveitei pra fazer um curso de Árabe escrito e foi uma experiência muito enriquecedora, em todos os sentidos. Já cheguei em Beirute decidida a fazer um Guia Vegano da cidade, pra compartilhar os tesouros gastronômicos que eu iria descobrir por lá. Levei um ano pra realizar o guia e hoje, pensando sobre o porquê disso, me dei conta que o fato de ainda não ter digerido completamente minha vivência em Beirute estava criando essa resistência. Quando me perguntam: “O que achou de Beirute?” nunca sei o que responder. A cidade é muito interessante, com lugares lindos e outros ainda carregados de cicatrizes da guerra civil, as pessoas são calorosas e simpáticas e a comida é a melhor parte de tudo, mas… Tem um “mas” gigante.

A desigualdade social. As condições de vida nos campos de refugiados palestinos, como Sabra e Shatila. A situação de 1.5 milhões de refugiados sírios, parte deles palestinos refugiados pela segunda vez, tratados como cidadãos de segunda categoria pelo governo e pela sociedade libanesa. A obsessão com as aparências traduzida no uso excessivo de cirurgia plástica. As trabalhadoras domésticas vindas da Ásia e África que vivem em um regime de escravidão moderna. O sectarismo da sociedade libanesa. A impressão que todo mundo se tolera, mas não esqueceu as disputas do passado e que uma nova guerra civil pode explodir a qualquer minuto. O sistema político extremamente complicado e que não represente a população. A corrupção escancarada em todos os setores da vida política e civil.

De uma certa maneira, o Líbano tem muitas semelhanças com o Brasil, mas talvez por ser tão menor (o Líbano é metade de Sergipe em área!) tudo fica muito mais concentrado e visível. Não entendam mal, adorei os meses que passei lá e recomendo muitíssimo uma visita a Beirute. Tenho até planos de voltar no futuro. Mas foram experiências tão contrastadas que não sei o que fazer de tudo que vi, ouvi e vivi.

Mas é claro que você pode visitar a cidade e ter uma experiência radicalmente distinta da minha. Vi muitas pessoas estrangeiras que estavam ali pra aproveitar as praias, as belezas naturais, a comida, a hospitalidade e saíram encantadas com tudo. A maneira como você viaja é determinante aqui. Beirute tem restaurantes incríveis, bares, discotecas e festas pra todos os gostos e turistas podem voltar pra casa tendo visto só coisas lindas e maravilhosas. Mais uma semelhança com a nossa realidade brasileira. Porém a pessoa escrevendo esse guia não tem a pretensão de te dizer como viajar, isso vai depender dos interesses políticos (ou falta deles) de cada pessoa. Vou deixar tudo isso de lado aqui pra me concentrar na melhor parte da minha estada em Beirute: a comida. Mais precisamente, a comida vegana.

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Comecemos pelo começo. Beirute é extremamente vegan-friendly. Não que o veganismo seja algo muito popular por lá, embora tenha uma comunidade vegana na cidade, o que me deixou muito feliz. Mas simplesmente porque a culinária tradicional libanesa é riquíssima em vegetais. Até hoje ainda não encontrei um povo que soubesse tratar vegetais com mais amor e sabor do que libaneses. Lá legumes não são meros acompanhamentos de animais assados/grelhados/cozidos. Eles são a estrela de muitos pratos e o fato de ter uma população cristã ortodoxa aumenta a oferta de pratos vegetais ainda mais. Os cristãos ortodoxos fazem uma quaresma totalmente livre de animais e seus derivados, contrariamente aos cristão católicos que só retiram alguns animais do cardápio durante a quaresma. E mesmo assim é uma prática marginal entre os católicos hoje em dia, enquanto que praticamente todos os ortodoxos respeitam o regime 100% vegetal durante a quaresma. Então é muito fácil encontrar pratos veganos nos restaurantes da cidade e, como estive lá durante uma parte da quaresma, alguns restaurantes passam a servir um cardápio vegetal ainda mais longo nessa época do ano. Fica a dica: visitem Beirute durante a quaresma. Além de tudo ficar mais lindo na primavera, vocês vão se extasiar com a imensa oferta e a qualidade da comida nessa época do ano. Pensei até em fazer um tour gastronômico vegano da cidade, de tão maravilhosa que é a comida por lá.

Porém, preparem o bolso. Os preços estão mais perto da Europa do que do Oriente Médio. Nesse guia você vai encontrar lugares muito baratos, baratos e um pouco mais caros (pros padrões locais). Não visitei os restaurantes mais chiques e caros da cidade, primeiro porque minhas finanças não permitiram, mas também porque quanto mais chique o lugar, menor suas chances de achar comida vegana. Pois é. Pra grande felicidade das veganas, os lugares mais baratos têm mais opções veganas, pois são os restaurantes tradicionais e populares. Comer animais é coisa de rico!

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Em lugares mais descolados (entenda “hipsters”) você encontra um ou outro prato vegano, mas geralmente feitos com ingredientes vindos de longe (oi, quinoa!), então a conta vem sempre mais salgada. Incluí alguns desses lugares nesse guia, mas meu foco principal são lugares populares com comida tradicional. Porque ir parar no Líbano pra comer quinoa vinda do Peru não faz muito sentido pra mim, principalmente quando a culinária local, com ingredientes tradicionais, é tão deliciosa.

Importante! Os endereços nunca têm número, então você terá que localizar a rua e começar a perguntar aos passantes onde fica o restaurante procurado. Mas não se preocupe. As pessoas libanesas são extremamente gentis e adoram ajudar a gringaiada perdida.

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Gemayze/Mar Mikhael

Eu morei exatamente entre esses dois bairros e foi aqui qui fiz a maior parte das minhas explorações culinárias. É o local mais descolado/hipster da cidade e onde a juventude classe alta sai pra se divertir à noite. Mas vale a pena vir aqui durante o dia também, pois esses bairros, com suas escadarias coloridas, são super charmosos. A rua Gouraud, que se transforma em rua Armenia, é a principal e conecta os dois bairros. Ela abriga vários restaurantes, cafés e bares simpáticos. Todos os lugares abaixo estão concentrados em uma área bem pequena e dá pra ir andando de um endereço pro outro.

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Le Chef (Rue Gouraud, Gemayze)

Meu restaurante preferido na cidade. Descobri por acaso, porque morava a poucos metros dali. É um lugar simples, que serve comida tradicional libanesa deliciosa por um preço imbatível. E durante a quaresma a variedade de pratos vegetais é ainda maior. Tem hummus, babaganoush, fatoush (salada de tomate e pepino com pedaços de pão frito) e tabule, mas o que mais gostei foram a sopa de lentilha coral (com muito limão e cominho), mussaka (berinjela frita servida com molho de tomate e grão de bico), as saladas cruas (sempre temperadas com melado de romã), o quibe de jerimum com acelga verde, feijão branco com tomate e as maravilhosas folhas de acelga recheadas (como folhas de parreira).

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Im Nazzieh (Rue Pasteur, Gemayze)

A cantina da escola de Árabe onde estudei (Saifi Institute), mas não precisa ser estudante pra comer lá. O lugar é aberto ao público o dia inteiro e você pode tomar café da manhã (tem man’oushe – pão libanês assado na hora, coberto com azeite e za’atar, um tipo de tomilho, hummus, café e chá), almoçar, jantar ou fumar um narguilê. Ou todas as todas as opções mencionadas. Foi o almoço mais barato que encontrei na cidade (mais barato que isso só sanduíche de falafel) e o cardápio tem várias opções veganas, como mudjadara (arroz com lentilha e cebola frita), sopa de lentilha, os traidicionais hummus e babaghanoush e mais alguns pratos típicos, dependendo do dia. A comida era boa, sem ser extraordinária, mas pelo preço cobrado você vai sair achando tudo ótimo. Menção especial pro foul (pasta de fava com azeite), que foi um dos melhores que comi por lá.

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Fern Ghattas (Rue Gouraud, Gemayze)

Um dos mais famosos man’ouches da cidade, no top 3 de todo mundo. Man’oushe é mais que um pão tradicional recheado com os mais diversos ingredientes, é uma instituição no Líbano. E esse lugar minúsculo, que funciona desde 1920, serve o melhor man’oushe que já comi até hoje. Os preços são camaradas (man’oushe é sempre uma opção barata), o atendimento é extremamente simpático e o cardápio indica claramente as opções veganas, o que terminou de conquistar o meu coração. Pessoas que evitam glúten se abster, obviamente, mas pra todas as outras esse lugar é imperdível! Os man’oushes veganos são: dois tipos de za’atar (libanês e sírio, que tem uma mistura especial de sementes e especiarias), za’atar/tomate/cebola e espinafre. Prove todos. Perfeito pro café da manhã ou lanche.

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Enab (Rue Armenia, Mar Mikhael)

Um restaurante tradicional mais chique que os que indiquei acima, mas vale a pena ir pelo menos uma vez. Os preços são mais elevados, claro, mas você encontra alguns pratos vegetais mais sofisticados. Tudo que comi lá estava delicioso e não deixe de provar o muhamara (pasta de pimentão vermelho, nozes e melado de romã, bem apimentada), quibe de batata (de bandeja), as folhas de parreira recheadas e a limonada com manjericão (surpreendente).

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Urbanista (Rue Gourad, Gemayze)

Um café/restaurante que serve cappuccino com leite de soja, smoothies e alguns pratos veganos. Tem internet e mesas espaçosas, então muitas pessoas vão lá pra trabalhar. Os preços são mais elevados e a clientela é uma mistura de hipsters locais e estrangeiros.

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Oslo Ice Cream (Rue de Madrid, Mar Mikhael – próximo ao prédio da Eletricité du Liban)

Sorveteria artesanal com uma longa lista de sorbets (sorvetes à base de água, logo, veganos). Tem 17 sorbets, dos clássicos morango, framboesa, limão, manga e coco, aos sabores mais locais como rosa, romã, hortelã e toranja. Dá pra degustar no local ou levar um potinho (ou vários) pra casa.

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SoleInsight  (Vendome Stairs, Asharafiah)

Na Rue Armenia, depois de passar pelo restaurante Enab (à sua direita), continue andando mais um pouco até achar uma grande escadaria subindo à direita. No meio da escadaria tem um café mimoso, onde você pode descansar um pouco, tomar um café turco (ou algo mais forte) e curtir o ambiente relaxante. Tem sempre uma ou outra coisinha vegana pra beliscar (hummus, sopa) e algumas geleias ótimas pra você levar pra casa.

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Bourj Hammoud

Se você continuar andando na rua principal (Gouraud, que se transforma em Armenia) na direção do rio Beirute, você vai chegar na ponte que atravessa o rio. Do lado de lá da ponte fica Bourj Hammoud, conhecida como “a pequena Armênia”. É o bairro que acolhe a população armênia de Beirute, e o coração da comunidade armênia no Líbano, que chegou ali fugindo do genocídio cometido pela Turquia, quase 100 anos atrás. É um lugar fascinante, caótico e visualmente impactante. E pra fazer a visita valer ainda mais a pena, você poderá provar a autêntica culinária armênia no mais famoso restaurante do gênero na cidade.

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Onno Bistrot (Brad Street, Bourj Hammoud)

Achar esse lugar é um desafio, mas vale a pena procurar, se perder, pedir informação, se perder novamente… Pensamento positivo: assim você vai visitando o bairro. O local é famoso por ser o melhor restaurante armênio da cidade e apesar da culinária armênia ser extremamente carnívora (descobri lá, pois nunca tinha provado antes), tem opções veganas saborosas que valem a viagem. Pedi ajuda ao garçon e ele me aconselhou: quibe de lentilha coral (de bandeja e delicioso), berinjela recheada com verduras, arroz, grão de bico e nozes (a melhor berinjela recheada que já comi) e muhamara, que é um pouco diferente do muhamara que eu conheço. Continua sendo a base de pimentão vermelho assado, mas não é nada picante e tem um sabor de queijo envelhecido (como parmesão ou cantal) tão impressionante que tive que ir perguntar ao chef se aquilo era vegano, mesmo. Era. E com certeza tem ciência. Os preços são honestos e o atendimento é muito bom.

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New Indo-Lankan (Daura)

Se você caminhar na rua principal de Bourj Hammoud, na direção de Daura, vai chegar em uma rotatória, embaixo de um viaduto. Na rua que parte à direita, logo em frente, tem uma loja de produtos indianos e um restaurante indiano no primeiro andar.  Esse é só para pessoas fortes. Quem tem exigências de higiêne elevadas deve passar direito, mas pra quem não se importa muito com isso e adora comida do sul da Índia (e cansou de comer hummus e man’oushe) esse lugar é um achado. Dosas (crepes de arroz e lentilha, recheados com legumes e especiarias e servidos com uma variedade de chutneys) deliciosas e a preço de banana. Na loja no andar de baixo eu comprava a mistura pra dosa (farinha de arroz e lentilha misturadas) e farinha de grão de bico pra fazer grãomelete.

Downtown/Ashrafieh

Essa parte da cidade fica colada à Gemayze, na direção oposta de Bourj Hammoud. O centro da cidade (Downtown) foi completamente destruído durante a guerra civil e foi reconstruído recentemente de maneira espetacular e que não agradou todo mundo. Confesso que não gosto muito desse bairro, que mais parece uma cidade cenográfica povoada com butiques de luxo. Mas tem um tesouro lá: Souk Al Tayeb (“souk” significa “feira” em Árabe). Ashrafieh é um bairro residencial gostoso de se passear, onde tem o melhor restaurante sírio da cidade (foi o que os sírios que conheci me disseram e eu acreditei, claro) e uma loja de produtos orgânicos que é uma verdadeira mina de ouro pra veganas.

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Souk Al Tayeb (Souks – Downtow)

O meu lugar preferido de todos! Uma feira de pequenos produtores, que acontece nos sábados das 9h às 14h, onde além de encontrar vegetais orgânicos, oleaginosas, geléias, especiarias e ervas você vai achar tesouros, muitos tesouros. Tem uma cooperativa de mulheres refugiadas sírias, que vende salgados deliciosos (com za’atar, espinafre, pimentão, nozes e pimenta, meu preferido). Várias mulheres vendendo sua arte comestível, como quibes veganos, folhas de acelga recheadas, melado de uva batido, doce de figo e gergelim… Sucos frescos e shots de grama de trigo (wheatgrass). Biscoitos veganos e sem glúten (e sem fermento/levedura!!!!) divinos da marca Bites of Delight. Tem biscoitos de cacau, café, canela, anis ou baunilha, e biscoitos salgados, com za’atar ou azeitonas. São todos maravilhosos, mas o de baunilha, de uma delicadeza poética, derreteu meu coração. E são feitos com ingredientes nutritivos como: feijão adzuki, sarraceno e óleo de coco. Pode soar pouco apetitoso, mas são os melhores biscoitos que já provei (veganos ou não, gluten-free ou não). Na feira tem também o camarada Rodrigue Harb, um vegano que faz queijo de amêndoas estilo coalhada seca no azeite (muito, muito bom) e uma pasta de chocolate chamada Chakala, adoçada com tâmaras. E tem o pessoal da Eshmoon que faz as coisas mais maravilhosas que já fizeram nessa Terra, umas preparações à base de chocolate (pastas, bolinhas, barras) com os melhores ingredientes possíveis (cacau em pó, manteiga de cacau, óleo, manteiga e néctar de coco, tudo orgânico). Praticamente tudo que elas fazem é vegano, com exceção dos produtos que levam mel. A pasta de chocolate e laranja (vaza desse mundo, Nutella!) e as pílulas de alfarroba (brigadeiro foi pra casa com vergonha depois de descobrir essas pílulas) sozinhas valem uma viagem à Beirute. E eu não estou nem exagerando. Visite a feira com fome, almoce por lá e tente se controlar pra não gastar todo o seu dinheiro, o da sua companheira e a herança da família que você ainda não recebeu com comida pra levar pra casa. Só não venha me culpar depois, é por sua conta e risco!

Falafel M. Sahyoun (Damascus Rd, na altura do cruzamento com a rua Syrian Patriarcat, perto de Downtown)

Tem falafel em cada esquina de Beirute, mas eu só vou indicar um: Sahyoun. Você não vai precisar de outro. Ninguém precisa de outro. Pessoas, eu comi muito falafel na vida, mas nada, nada, nem de longe se iguala ao que seu Sahyoun faz. O lugar abriu em 1935 e hoje é o filho do Sahyoun pai (o M é de Mustafa) que faz falafel. Cheguei sem muita expectativa, pois apesar de muitas libanesas terem recomendado o lugar eu pensava que já tinha comido tanto falafel bom na Palestina que nada ali podia me surpreender. Ledo engano! O lugar só vende um ítem: sanduíche de falafel. Nada mais. O falafel em si tem um tempero diferente dos outros que já comi e o sanduíche, no pão folha, vem com tomate, rabanete, uma floresta de salsinha e hortelã (faz toda a diferença) e é generosamente regado com molho de tahine (tahine, limão, água, sal) e, se a cliente quiser, molho de pimenta não muito forte. Minha nossa senhora das Quenturas, que coisa maravilhosa é aquela? Sahyoun filho faz falafel há mais de 50 anos e é uma simpatia só. Meu Árabe me ajudou a conquistar a afeição dele, que achou num primeiro tempo que eu tinha ascendência palestina ou libanesa. Falei: “Seu Sahyoun, libera a receita do seu falafel aí pra nós”. Ele sorriu e disse: “Esse segredo eu vou levar pro meu túmulo.” Então corre todo mundo lá enquanto seu Sahyoun ainda vive e se deliciem com essa maravilha. O preço, como é o caso de sanduíches de falafel em geral, é bem modesto.

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Bab Sharqk Le Jardin (Trabaud Street, Ashrafieh)

Eu nunca tinha provado comida síria na vida, mas já conhecia a reputação dessa culinária. Aqui no Oriente Médio, e fora dele, todo mundo diz que a cozinha mais refinada de todas é a síria. Com uma população síria tão grande, não é de se espantar que o número de restaurantes tradicionais desse país seja grande em Beirute. Só fui em um, pois depois de muito perguntar, me garantiram que era o melhor de todos. O restaurante em si é lindo, todo de pedra, com uma parte fechada e outra ao ar livre. Sentei embaixo de árvores frondosas e o serviço é impecável. O menu é imenso e tive que pedir ajuda ao garçon pra saber quais ítens eram veganos. Ele foi muito simpático e foi me dizendo todos os ingredientes dos pratos que eu poderia pedir. No final pedi um trio de pastas de legumes (a de alcachofra estava de cair da cadeira!) e um quibe de lentilha sublime. Do pouco que vi, me pareceu que a culinária síria é um pouco mais carnívora e menos veg-friendly que a libanesa, mas ainda assim recomendo o lugar. Os preços refletem a qualidade da comida e do serviço (mesma faixa de preço que Enab).

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A New Earth – loja de produtos orgânicos (Rue Zahret El Ihsan, Ashrafieh)

Fui pela primeira vez nessa loja porque Valentina, a amiga italiana com quem dividíamos o apartamento, recomendou. Ficava relativamente perto de casa e fui porque lojas de produtos orgânicos é o meu parque de diversões. Não esperava encontrar tantas opções veganas, incluindo as pastas e chocolates da Eshmoon e alguns queijos e iogurtes veganos (à base de amêndoas ou arroz). Também é o lugar pra comprar cosméticos orgânicos e sem crueldade. Os preços são elevados, então eu só comprava uns mimos de vez em quando, como condimentos que eu não encontrava em outros lugares: missô, levedura de cerveja maltada (nutricional), pasta de amêndoas, óleo de cânhamo, uma espécie de molho shoyu feito com coco…

Hamra

Esse é o centro comercial da cidade, a parte mais animada e movimentada. Tem restaurantes mais populares e alguns bares alternativos.

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Mezyan (Rasamny Center, Main Street, Hamra)

Um restaurante muito simpático e espaçoso, o primeiro lugar onde comi quando cheguei na cidade. O cardápio tem várias opções veganas, todas marcadas com um V. Meus pratos preferidos lá: sopa de lentilha amarela com cominho (uma das melhores), abobrinha frita com molho de tahine (mtabbal kousa) e pasta de beterraba assada com tahine e alho (mtabbal beetroot). Os preços são honestos e o atendimento é de uma simpatia só. Quando contei pro garçon que era vegana ele trouxe o gerente que fez questão de me oferecer a pasta de beterraba, sua última criação, de graça, em troca da minha opinião sincera sobre o prato. Às vezes rola música ao vivo e outros eventos à noite.

Bardo (Mexico Street, Hamra)

Café/espaço de trabalho de dia e restaurante/bar durante a noite, é um dos (poucos) lugares alternativos de Beirute. E por “alternativo” eu quero dizer que pessoas alegres frequentam o lugar. E por “alegres” eu quero dizer pessoas como eu e a minha esposa. Entendidas entenderão. Fui lá pra procurar a minha turma e acabei comendo muito bem. Pedi ajuda ao garçon, pois não tem muitas opções veganas no menu, que é tão alternativo quanto o lugar (você não vai achar hummus aqui). Ele explicou direitinho quais pratos eu poderia pedir. Comi gyosa de berinjela com missô e mais umas coisinhas que esqueci e estava tudo delicioso. E o lista de vinhos servidos lá é impressionante. Gostei demais do lugar e vale a pena uma visita mesmo se você não fizer parte da minha turma.

Raouch

Essa é a parte mais turística de Beirute, onde fica a famosa Rocha dos Pombos e as praias mais visitadas. E também é lá que fica o restaurante com a melhor vista de todos.

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Manara Palace (Corniche, perto do farol Manara. Qualquer motorista de taxi conhece o lugar e pode te deixar na porta)

Esse restaurante imenso tem uma sala fechada (evite) e um espaço externo do lado do mar. O cardápio é tradicional (hummos e afins), gostoso e barato. É um local popular, que ainda não foi invadido por turistas. E a vista! A vista!!! Vou deixar as fotos falarem por mim.

E único lugar vegetariano/vegano da cidade (e que eu não visitei):

The Olive Tree (Sodeco Square, Bloco D, térreo, Ashrafieh)

Tem um café/restaurante totalmente orgânico, vegetariano e vegano, com opções sem glúten, que não usa nada refinado. Parece maravilhoso, mas eu nunca fui lá. Eu queria ter ido, mas o tempo foi passando e eu acabei indo embora da cidade sem ter passado por lá. Uma pena. Então não posso dizer se é bom, mas achei que deveria inclui-lo no guia, mesmo assim, e deixar vocês descobrirem (cada uma vai por sua conta e risco!).

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Gostaria de terminar esse guia com algumas dicas não comestíveis. Se quiserem ver um filme, o Metropolis Cinema (Rue Michel Bustros, Achrafieh) tem sempre opções interessantes (filmes de arte, indies, cinema europeu obscuro, produções independentes). O Museu Sursok (Greek Ortodoxo Archbishopric Street – Ashrafieh) foi um dos lugares que mais gostei na cidade. O prédio é lindo, a coleção de arte moderna, feita principalmente por artistas libaneses, é muito interessante e a entrada é gratuita. A Corniche, que é o calçadão da praia em Beirute, merece ser visitada várias vezes, no final da tarde e à noite. E já que você está lá, olhando os locais irem e virem, ou fumarem narguilê de frente ao mar, prove as favas ou tremoço dos vendedores ambulantes que estão sempre por ali.

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Eu dividi um apartamento enquanto morei lá, mas uma amiga ficou hospedada na Saifi Guest House, a pousada da nossa escola de Árabe, e gostou muito. Quem estiver procurando hospedagem relativamente barata, é pra lá que você deve ir. Fica muito bem localizada, em Ashrafieh, (de lá dá pra ir andando pra vários lugares que indiquei nesse guia) e fica em cima do restaurante Im Nazzieh.

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Se me perguntarem o que é o pior e o melhor de Beirute, diria o seguinte. Pior: os preços de tudo, mas principalmente de telefone (crédito pra celular) e internet, o cheiro (estive por lá durante uma greve de garis e o lixo se acumulava pelas ruas), o trânsito maluco e os carros sempre estacionados nas calçadas e os cortes diários de eletricidade. O melhor? Os tesouros escondidos em cada esquina (viagem com os olhos e a mente bem abertos), a gentileza das pessoas (duas me venderam fiado! Numa capital!!!) e a comida, claro. Comi em muitos lugares que não entraram no guia e tive várias surpresas boas. Como um café perdido no meio de um bairro residencial, longe do centro, que servia cappuccino  com leite de soja e sanduíches com queijo de amêndoas. Então não seja tímida, pergunte sempre o que tem de vegano no menu ou que pode ser veganizado na cozinha e garanto que você, amiga vegana, não só não passará fome em Beirute como voltará pra casa com as papilas encantadas.

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Se Beirute fosse um cheiro, eu diria: jasmim com lixo. Eu sei, eu sei, parece horrível falar assim de uma cidade tão linda, mas foi esse o aroma que ficou gravado na minha memória olfativa. Se Beirute fosse um sabor, seria man’oushe de za’atar com hortelã fresca, tomate e azeitonas pretas. Se Beirute fosse uma música, seria com certeza uma canção de Fairuz, a grande dama da música libanesa. Mas confesso que atualmene meu coração está pendendo pro lado de uma outra cantora de Beirute, Yasmine Hamdam, e é ela que escuto quando bate saudades da cidade (especialmente essa música).

Quer ver mais fotos de Beirute? Escrevi esse post ano passado e sugiro também dar uma olhada no meu Instagram, pois postei muitas fotos lá quando estava morando na cidade (procure a #papacapimbeirute).

Ainda dá tempo

Janeiro ainda não acabou e eu já dormi em dez camas diferentes esse mês. Dez! Mas é com muita felicidade que digo que essa décima cama será minha por três meses inteirinhos. Sei que parece pouco, mas quando você anda arrastando sua mala há mais de dois anos, três meses são suficientes pra te deixar feliz e sentindo que tem uma casa.

Cheguei na Palestina antes de ontem e depois de ter passado uma noite com a minha melhor amiga em Tel Aviv, cheguei ontem no meu lar de adoção: Belém. Anne chegou uns dias antes e teve a sorte de achar uma casa pra alugar rapidinho. Voltamos a morar na Rua da Estrela, onde moramos durante cinco anos. Essa é a rua mais antiga da cidade, o caminho que (supostamente) os três reis magos pegaram pra chegar no estábulo onde estava o menino Jesus. No final da minha rua fica a Igreja da Natividade, construída (supostamente) onde um dia esteve o estábulo. Tudo supostamente, não porque eu não acredite na história (não vou dizer que sim nem que não), mas porque esses lugares foram “descobertos” séculos depois da passagem de Jesus por esse planeta e desconfio (e não desconfio sozinha) que não tinha sobrado muitos vestígios do estábulo pra contar a história. E quem viu os reis magos passarem, hein? Quatrocentos anos depois ainda tinha alguém daquela turma vivo? Mas eu gosto de histórias e, no final das contas, que diferença faz se o estábulo estava aqui ou ali, se os reis magos passaram por aqui ou por lá, não é? A minha rua é linda e é nela, mais do que qualquer lugar no mundo, que me sinto em casa.

Mas não vim aqui só falar da minha rua e dos meus problemas de cama (ou falta dela, na verdade). Voltei pra Palestina pra guiar novamente dois grupos de pessoas brasileiras num tour político-ativista-vegano-feminista de onze dias pela Terra Santa. O primeiro tour será no início de fevereiro e o segundo, em março. Os dois estavam completos, mas a vida gosta de pregar peças na gente e às vezes nos programamos pra fazer uma coisa e ela te avisa, de repente, que tem outros planos pra você. Acontece. E como isso aconteceu com uma das participantes do grupo de março, ela teve que cancelar a viagem. Por isso abriu uma vaga nesse grupo. O grupo está novamente completo! O tour será do 8 ao 18/03 e sei que está super em cima da hora pra programar uma viagem desse tipo, tão importante, tão longe, que muda a gente de maneira tão profunda, em um mês e meio. Mas eu já fiz esse tipo de loucura algumas vezes, então pensei que podia ter alguém aqui como eu. Caso você se interesse pela vaga e possa embarcar nessa aventura, é só me enviar um email (papacapimveg@gmail.com). Só mando informações sobre o tour por email, então peço que me envie suas perguntas por lá e não aqui nos comentários.

Mas quem quiser se informar mais sobre essa viagem incrível, mesmo quem não puder participar do tour, e ver muitas fotos e relatos sobre a Palestina é só clicar na página “Tour na Palestina”.

E já falei que comemos muito bem durante o tour? Essa é a parte “vegana” da viagem e uma das minhas maiores alegrias é fazer as pessoas que participam do tour descobrirem as delícias (naturalmente veganas) da Palestina. Quando me perguntam: “É muito difícil ser vegana na Palestina?” eu sempre respondo que a Palestina é o lugar mais fácil de ser vegana que conheço. Mas só vindo aqui pra descobrir e degustar isso. Então corre que ainda dá tempo de encher a cara de hummus com a gente.

Muitos convites

Semana passada fiz uma pausa (merecida) no trabalho e passei alguns dias na praia. Estou preparando um guia de sobrevivência pra veganas na praia, pois esse sempre foi, pra mim, um dos lugares mais difíceis de se alimentar com comida 100% vegetal. Mas antes de tirar esse post do forno passei aqui rapidinho pra compartilhar minha agenda nos próximos dias e convidar vocês pra fazer coisas bacanas comigo.

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Amanhã tem palestra em Recife e no sábado participo do Clube de Cozinha da SVB (mais detalhes aqui). Os dois eventos são gratuitos e quem quiser participar do Clube de Cozinha precisa se inscrever.

Logo depois volto pra Natal pra fazer dois eventos em parceria com a Cozinha Ecológica: uma palestra e uma oficina. Deborah, criadora da Cozinha Ecológica, e eu queremos realizar essa parceria desde o ano passado, então estou super empolgada. A oficina será sobre sobremesas veganas, sem açúcar e sem glúten e é imperdível! Informações e inscrições, basta entrar em contato com Deborah (clique no link acima).

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Pra comemorar o dia mundial vegano o Coletivo Abolicionista vai organizar um piquenique aqui em Natal, no Bosque dos Namorados. Vamos aproveitar o feriado e comemorar no dia seguinte à data. Eu vou levar uns quitutes e animar um bate papo embaixo das árvores. Todas convidadas!

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E pra terminar a semana, dia 4/11 vou preparar um jantar vegano no restaurante Flô de Jambo, em Recife. O prato principal será… FONDUE DE QUEIJO VEGANO!!! Isso, isso, isso! Vai ter salada de entrada, fondue de chocolate de sobremesa e uma banda de jazz tocando pra nós.

Depois disso tudo acho que vou me esconder no sítio dos meus pais por vários dias e só sairei da rede pra abrir coco verde (um talento que sempre impressiona a francesa que casou comigo). Mas até lá espero ver vocês por aí.

19 de setembro

Primeiramente, fora Temer. O fato de não ter sido uma surpresa não quer dizer que o golpe parlamentar me deixou menos revoltada. Compartilho agora o sentimento das pessoas ao meu redor: meu luto é verbo.

Segundamente: ainda estou em Pindorama. Fico por aqui, me revoltando, cozinhando e comendo tapioca, até dezembro. Vim passar uma chuva grande dessa vez e vocês me acharão em Natal, mas também em Recife e João Pessoa. E se bobear apareço pelo Sudeste e pelo Distrito Federal também.

Nas últimas semanas eu fiz um jantar árabe colaborativo no restaurante Papaya Verde (obrigada, Marcelo! Obrigada equipe do Papaya!). Dei palestras no Seminário sobre a questão Palestina, organizado pela Aliança Palestina Recife, na UFPE.

Tomei sorvete de cupuaçu, graviola, pinha e mangaba. E picolé de cagaita, frutinha do Cerrado que eu não conhecia e que, dizem as más línguas, tem esse nome porque dá desarranjos intestinais.

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Participei do Grito das/os Excluídas/os em Recife e além de levar pra rua a luta contra o governo golpista, racismo, extermínio da juventude negra, homofobia, machismo, pela democratização da mídia, reforma agrária, uma nova Constituinte… levamos bandeiras da Palestina.

Comi pitanga e fruta pão. Vi uma exposição de Sebastião Salgado sobre os refugiados e migrantes (“Êxodos”). Participei de um retiro de culinária com o chef André Cantú (restaurante Broto de Primavera) e descobri, além de uma pessoa muito bacana, ingredientes e técnicas novas. Viajei pro interior do RN e conheci o mais novo membro da tribo. E mais umas tantas outras coisas que me parece que esse mês que passei aqui se desdobrou em três.

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Amanhã volto pra Recife e vai ter evento na quinta na Vegaria. No sábado um projeto que venho acalentando há alguns meses junto com um amigo querido vai se concretizar lá na cidade de Lenine: um restaurante ocasional que abrirá as portas somente um punhadinho de vezes antes das férias no Brasil acabarem.

Berlim

Algumas semanas atrás eu fui visitar Anne em Berlim, onde ela está morando atualmente. Eu estive na cidade alguns anos atrás, também durante o verão, e adorei. Até escrevi um Guia Vegano da cidade. As opções veganas aumentaram ainda mais desde a primeira vez que estive lá e o guia merece uma segunda parte. Berlim é sem dúvida a capital vegana da Europa. É incrível ver como veganismo é algo comum e bem aceito por lá. Comi em vários restaurantes veganos, mas também em restaurantes tradicionais, pois é comum ter opções veganas em praticamente todos os lugares. Você pode sair pra comer com suas amigas onívoras e ter a certeza que vão encontrar facilmente um lugar que vai deixar a barriga de todo mundo satisfeita.

Mas por enquanto vou me contentar em compartilhar alguns momentos da viagem, então esse guia será visual, mas com algumas recomendações no final do post pra quem estiver de passagem na cidade, incluindo onde  quiser provar um super brunch vegano.

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Esse queijo vegano incrível (à base de castanha de caju, fermentado e curado de maneira artesanal) veio de Nova York, da queijaria vegana Dr Cow.

A sexta e sétima fotos foram feitas na creperia vegana Let it be, que também recomendo.

Outro lugar que recomendo é o restaurante/café Charlie’s Vega Food and Coffee. Achei por acaso e fui comer lá por simples curiosidade, mas a comida me surpreendeu. Muito, muito boa! Comi um pãozinho de farinha de arroz no vapor, recheado com legumes e cogumelos que minha amiga Nozomi, que é japonesa, disse se chamar yasai-man. Era tão bom que imediatamente depois de devora-lo pedi outro. Também provei uma sopa de ervilha, hortelã e coco  incrivelmente perfumada, um ragu de cogumelos, coco e capim santo (os sabores do local são inspirados da culinária asiática) e um bolo de chocolate e pera delicioso. (fotos 10 e 11)

O restaurante que serve o melhor brunch vegano que já degustei (fora de casa) se chama Koops e Anne também jantou lá no seu aniversário, acompanhada da irmã vegetariana e do irmão onívoro e da cunhada onívora e todos saíram de lá impressionados com a qualidade da comida. (fotos 12 e 13). E do ladinho do restaurante tem uma sorveteria vegana (foto 14).

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E acreditam que encontrei uma leitora de longa data do blog no aeroporto indo pra Berlim no mesmo voo? Inês é portuguesa e também mora em Londres. Ela é cantora, mas nunca tive a oportunidade de vê-la cantar aqui. Tive que ir até Berlim pra ver a linda no palco e foi mágico.

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É assim que vou lembrar

Esse é o meu último mês em Beirute e já comecei a fazer listas do que quero fazer antes de ir embora. Três meses aqui é pouco pra penetrar nas camadas mais profundas da cidade. Tenho a impressão que até agora só consegui arranhar um pouquinho a superfície. Então decidi parar de tentar dar um sentido pra esse emaranhado de fios, culturas, contradições e desigualdades e vou passar as próximas semanas só admirando, absorvendo e gravando na memória cada momento e cada esquina. E aqui vão algumas imagens da cidade pra vocês verem um pouco do que estou vivendo. Não são fotos trabalhadas e fiz todas com o telefone (com excessão de duas fotos feitas por Anne), mas é assim que vou lembrar de Beirute.

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Sobre as fotos. 1- Pôr do sol na praia. 2- Aqui a eletricidade é cortada pelo menos três horas por dia, então aprendi a fazer tudo à luz de velas, inclusive cozinhar(foto feita por Anne). 3- Eu, conversando com clientes no restaurante onde fui “chef convidada” durante um fim de semana (foto feita por Anne). 4- No bairro Hamra. 5- Mesquita Mohammad Al-Amin. 6- As Rochas de Rauche, o mais famoso cartão postal da cidade.

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7- Bourg Hammoud, o bairro armênio. 8- Um café em Mar Mikhael, bairro onde moro. 9- Restaurante Manara. 10-Corniche, o calcadão que acompanha o mar. 11- Cicatrizes da guerra civil no bairro Basta.

Tour Papacapim na Palestina – 2017

Eu disse que não teria outro, porém seguindo o ditado francês que diz que “só os idiotas não mudam de ideia” vim aqui anunciar oficialmente que vai ter mais um tour político-ativista-gastronômico-vegano na Palestina ano que vem. Na verdade dois. O primeiro acontecerá em fevereiro e o segundo em março. Dessa vez estou avisando com bastante antecedência porque muitas pessoas queriam participar dos tours em 2014 e 2015, mas não viram o anúncio a tempo e não conseguiram se juntar ao grupo. Dessa vez vocês têm um ano pra organizar a viagem (pedir férias, procurar as passagens mais baratas etc.).

Sempre que acabo um tour juro de pé junto que nunca mais farei outro. Não que a experiência seja ruim, muito pelo contrário. É sempre uma aventura incrível, que deixa marcas profundas em quem participa, incluindo na minha pequena pessoa e justamente por isso no final das duas semanas me despeço do grupo completamente exausta (fisicamente, mentalmente e emocionalmente) e faço Anne prometer que vai me impedir de fazer outro tour, caso eu surte novamente. Mas as semanas vão passando e eu só consigo lembrar de como foi lindo encontrar aquelas pessoas, de como é importante que mais gente saiba o que está realmente acontecendo na Palestina ocupada, do apoio financeiro ao projeto no campo de refugiados, da alegria que sinto ao mostrar as belezas daquela terra e compartilhar os quitutes veganos locais… E como desde dezembro, quando anunciei que não haveria tour em 2016, venho recebendo emails e mensagens de leitoras pedindo mais um tour na Palestina, eu não podia recusar.

Então em 2017 voltarei pra Terra Santa pra guiar mais dois grupos em uma viagem única, que combina solidariedade ao povo palestino, ativismo, explorações gastronômicas e visitas a alguns dos lugares mais famosos e lindos do mundo. O tour oferece uma visão ampla e justa da realidade local através de visitas (campos de refugiados, check-points, terras confiscadas, muro de separação, colônias ilegais…) e encontros com ativistas e defensores de direitos humanos (palestinos e israelenses). Temos a oportunidade de apoiar diretamente um projeto de mulheres no campo de refugiados de Aida e também de apoiar a economia local, que vem sendo estrangulada há décadas por causa da ocupação israelense. E pra ficar perfeito o tour é vegano, porque solidariedade aqui é uma palavra conjugada no sentido mais amplo, que vai além do humano. E também porque uma das coisas que mais gosto de fazer quando viajo é provar comidas típicas e descobrir novos sabores e pessoas veganas também têm o direito de incluir o prazer gastronômico nas suas viagens.

O tour dura onze dias e visitaremos várias cidades. Nossa base é Belém e a hospedagem é no campo de refugiados de Aida (a poucos quilômetros de Jerusalem). Postarei o programa completo das visitas/encontros assim que ele for definido, mas já vou aproveitar pra responder as perguntas que me fazem com mais frequência:

1- Embora o tour seja vegano, não precisa ser vegana/o pra participar. Já teve participantes vegetarianos e até onívoros. Todas as refeições que fazemos em casa são veganas, mas quando comemos em restaurantes cada um é livre pra pedir o que quiser, sem julgamentos.

2- Não precisa ser ativista nem ter nenhuma competência especial pra se juntar ao grupo. Você só precisa ter a mente e o coração abertos pra escutar o que a população local vai te contar e humildade suficiente pra aceitar que tudo que você sabe (ou pensa que sabe) sobre a Palestina e Israel poderá ser desconstruído durante a viagem.

3- Não precisa falar Inglês pra participar. Embora os encontros com os ativistas locais aconteçam em Inglês eu sempre estou presente pra fazer a tradução, se necessário.

4- Esse tour não é uma viagem turística organizada e você terá que providenciar as passagens e os seguros (obrigatórios) sozinha/o. Eu tento oferecer o máximo de ajuda possível, mas é importante lembrar que essa é uma viagem alternativa e que eu não ofereço os serviços de uma agência de viagem.

5- Exatamente pela razão mencionada acima (viagem alternativa) gostaria de lembrar que a hospedagem é em um campo de refugiados e que usamos transportes locais (vans e ônibus). Não tem hotel nem ônibus especial nesse tour por duas razões. Primeiro porque queira oferecer uma experiência próxima das pessoas que moram ali e da realidade local. Levar pessoas à Palestina pra viajar dentro de uma bolha não faria sentido nenhum pra mim. Segundo porque queira que o tour fosse acessível pro bolso dos meus leitores. É tudo muito simples e o nível de conforto é básico (mas tem cama macia, água quente e wi-fi na casa onde ficamos hospedadas/os).

6- Caminhamos muito durante a viagem e tem uma trilha de um dia inteiro no deserto. Embora você não precise ser atleta pra se juntar à nós, um mínimo de preparo físico é necessário. Se você não gosta ou não pode andar por várias horas seguidas, durante onze dias, esse tour não é pra você.

7- Mulheres, é totalmente seguro visitar a Palestina e ninguém precisa usar véu em momento algum. E ninguém vai te desrespeitar porque você não é muçulmana. É bom lembrar que uma parte da população palestina é Cristã, então não-muçulmanos fazem parte da paisagem local.

8- E falando em segurança, apesar de tudo que vocês vêem na televisão e jornais sobre a Palestina, turistas estrangeiros não correm nenhum perigo lá. Morei muitos anos lá e nunca tive nenhum problema e os ônibus de peregrinos do mundo inteiro entram e saem de Palestina todos os dias em toda segurança. Eu não organizaria esses tours se eles representassem algum tipo de perigo pros participantes.

As datas dos tours em 2017 são: grupo de fevereiro – 01 ao 11/02 e grupo de março – 08 ao 10/03. Quem quiser mais informações sobre a viagem deve escrever pra papacapimveg@gmail.com Cada grupo tem apenas 6 vagas e duas já estão reservadas, por isso quem quiser participar do tour deve me contactar o mais rapidamente possível.

Pra ter uma ideia do que fazemos durante a viagem e ver muitas fotos das aventuras precedentes dê uma olhada nesses posts:

 Tour 2014 – parte 1

Tour 2015 – parte 2

Tour 2015/I – a parte comestível

Tour 2015/I – a colheita de azeitonas

Tour 2015/I – sobre humanidade

Tour 2015/II

Sigam-me os bons!

Beirute

Hoje faz exatamente duas semanas que cheguei no Líbano. Uma combinação de fatores me trouxe pra cá, mas a versão curta da história é: sempre tive vontade de visitar Beirute. Por isso ainda estou me beliscando pra ter certeza que minha casa agora é aqui.

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Estou descobrindo um mundo fascinante, cheio de contradições, surrealismo, belezas, desigualdades e injustiças. E algumas coisas realmente horrendas. As cicatrizes dos quinze anos de guerra civil e dos bombardeios israelenses ainda estão visíveis nos prédios e presentes nas mentes. Mas nem tudo é triste, longe disso. As pessoas são extremamente simpáticas e calorosas e a culinária tradicional é uma explosão de sabores naturalmente veganos que me impressiona dia após dia. Pra deixar tudo ainda melhor descobri uma cena veg movimentada e criativa. Mal cheguei aqui e já fui convidada pra cozinhar em um restaurante vegano a poucos metros de casa! Juntou a mudança de país com essa realidade nova e complexa, mais a montanha de informação que tenho que processar todos os dias e o fato de estar fazendo um curso intensivo de Árabe (três horas por dia, de segunda à sexta, pois decidi que estava na hora de me alfabetizar nessa língua que falo um pouco, mas não escrevo) e a minha pobre cabeça está prestes a explodir!

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Esse post vai ser curtinho, pois a eletricidade está prestes a me abandonar. Aqui falta luz três horas por dia, todos os dias. E apesar do meu prédio ter gerador, nem sempre ele funciona. Então serei breve. Mas antes de ir embora, quero dividir com vocês uma receita extremamente simples que provei no dia que cheguei aqui e que me conquistou. Se a melhor maneira de chegar no coração de alguém é mesmo pelo estômago, então é certo que me apaixonarei perdidamente por Beirute.

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Abobrinha grelhada com tahine

Provei essa receita no restaurante Mezyan, no bairro chamado Hamra. O prato original era frito, mas como não gosto de fritura resolvi grelhar minha abobrinha e fiquei ainda mais feliz com o resultado. Também acrescentei coentro, porque acho que tahine adora coentro. Essa receita não precisa de medidas exatas, basta fazer a quantidade de abobrinha que você quiser ou tiver na geladeira e molho suficiente pra regar tudo de maneira generosa.

Abobrinha italiana, em fatias

Coentro fresco, picado

Sal e pimenta do reino a gosto

Azeite

Molho de tahine (receita aqui)

Idealmente use uma grelha ou chapa. Uma frigideira pesada é a segunda melhor opção. Aqueça a grelha com um pouco de azeite. Disponha as fatias de abobrinha, tempere com sal a gosto e deixe grelhar até tudo ficar bem dourado. Vire as fatias, tempere com mais um pouquinho de sal e grelhe do outro lado.

Cubra com o molho de tahine, tempere com pimenta do reino a gosto e jogue o coentro picado por cima. Sirva quente ou em temperatura ambiente.

3 dias em Paris

Semana passada passei três dias inteiros em Paris, encontrando amigas, explorando a cena vegana da cidade, que continua aumentando, e curtindo um pouco essa cidade que eu tanto adoro. Aconteceu assim.

Cheguei em Paris de trem, vindo do interior da França, num domingo à noite. Sempre que chego em Paris sou invadida por um sentimento de familiaridade e estranheza ao mesmo tempo. Como quando você volta pra casa dos seus pais, depois de ter morado muito tempo na sua própria casa. Você se sente em casa e ao mesmo tempo ali não é mais a sua casa. Quando eu morava em Paris era diferente. Eu voltava pra cidade depois das férias, mesmo quando as férias eram no Brasil, e assim que chegava na minha rua soltava um suspiro feliz de “lar doce lar”.

A presença da polícia na ferroviária me impressionou, mas logo eu descobriria que isso é a nova norma em Paris. No metrô vi uma senhora empurrando um carrinho de bebê com um cachorrinho poodle dentro. Sorri pensando na história que escutei tempos atrás. Uma brasileira morava em Paris há anos, com os filhos pequenos, e ainda assim não tinha feito amizade com ninguém do prédio. Mas a vida dela mudou radicalmente no dia que ela adotou um cachorro. A partir dali todos os moradores passaram a sorrir pra ela, dizer “bom dia” e puxar conversa, enquanto alisavam o totó. Os parisienses são apaixonados por cachorros, como prova a quantidade de cocô que você vê pelas ruas (diminuiu muito, muito nos últimos anos, pois quem não apanha as obras do seu cãozinho leva multa, mas essa marca registrada das ruas da cidade luz ainda existe). Um conselho: admire os prédios lindos com um olho e não desgrude o outro da calçada.

Cheguei no apartamento de Martine, a amiga francesa de 74 anos que me hospedou, e descobri que ela tinha preparado o seu quarto (o único) pra Anne e pra mim e assim teria que dormir no sofá-cama na sala. Protestamos, por razões óbvias, mas ela recusou firmemente. Engraçado como os franceses têm fama de serem frios e arrogantes, mas eu conheço inúmeras excessões. O que me faz ter certeza que gentileza e hospitalidade estão por todos os lados, independente da cultura.

Segunda

Martine acordou mais cedo pra comprar a deliciosa baguete com cereais da padaria da esquina, o que ela repetiu nas manhãs seguintes. Ela colocou o despertador só pra ter certeza que traria uma pra casa, pois a baguete desaparece em pouco tempo. Ela tinha comprado hummus e uma deliciosa pasta de alcachofra no restaurante grego da rua, onde você pode levar várias pastinhas e outras comidas prontas pra casa. Ela é tão fofa que, além das pastas vegetais, tinha comprado leite de amêndoas e vários burgers veganos pra nós e até separou uma prateleira da geladeira unicamente pra colocar alimentos 100% vegetais.  Era a nossa prateleira na casa. E sempre que comíamos juntas a refeição era vegana, apesar dela ser onívora. Tem pessoas tão maravilhosas na minha vida que é impossível não se emocionar.

Durante o café conversamos sobre o “estado de urgência” decretado pelo governo francês depois dos atentados de novembro em Paris e que continua em vigor. É uma situação especial onde a liberdade dos cidadãos é restringida e o poder que geralmente pertence ao Judiciário passa pras mãos do Executivo. Ela contou revoltada o caso dos ativistas ecologistas que estavam em prisão domiciliar. Eles não tinham cometido nenhum crime, mas o governo queria impedi-los de fazer protestos durante a COP 21 (conferência organizada pela ONU sobre as mudanças climáticas).

Depois do café fui matar a saudade do Marais, um dos meus bairros preferidos na cidade. Quando morava em Paris costumava passear por ali nos fins de semana e voltar a esse bairro sempre traz boas lembranças. É lá que fica a “Fontaine des Innocents”, construída em cima do cimetério de mesmo nome que existiu ali desde antes de 1130 e que foi destruído em 1780.  Eu descobri isso lendo o livro “O vampiro Lestat”, de Anne Rice (quem viu “Entrevista com o vampiro”, baseado em outro livro de Anne Rice, vai achar o nome familiar. Lestat é o personagem interpretado por Tom Cruise no filme e tem um livro inteirinho dedicado a ele).

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Almocei no Hank Burger, pertinho dali. É uma ‘hamburgueria’ vegana. O burger é um só (esqueci de perguntar de que era feito, mas acredito que tinha proteína de soja na mistura), mas os acompanhamentos variam. Escolhi um com molho de figo e rúcula, Anne pediu o com molho bbq defumado e queijo (vegano, claro). Como acompanhamento tinha batatas fritas (daquelas mais espessas, muito boas) e uma saladinha simples de repolho e cenoura. Também provei a sobremesa do dia, que era um mousse de chocolate excelente. Suspeitei que ele tinha sido feito com aquafaba e antes de ir embora perguntei ao cozinheiro, que confirmou. Pra quem gosta de burgers, vale a pena ir lá. O restaurante oferece até um pão sem glúten, que pode acompanhar qualquer recheio.

Continuei a caminhada ao redor do Centro Pompidou, um museu super interessante (nos últimos andares tem uma vista linda da cidade) e fiz uma parada na loja de produtos naturais Bio C Bon, quase em frente ao centro. Visito lojas de produtos orgânicos como alguns visitam museus e me enche de alegria ver que tem sempre novidades vegetais pra experimentar.

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De lá fui pro sex shop que fica alguns passos mais longe, o ‘Passage du Désir’. Ele é um dos meus preferidos. Tudo é lindo, a atmosfera é descontraía, as vendedoras são simpáticas e os sex toys são de primeira. As melhores marcas do mundo são vendidas ali, o que está refletido nos preços. Mas posso afirmar por experiência própria: é muito melhor comprar um sex toy de qualidade, que vai durar anos e funcionar maravilhosamente bem do que comprar algo barato que além de ter um desempenho fraco vai quebrar em pouco tempo. Um pequeno parênteses pessoal. Aos 19 anos montei um negócio de venda de sex toys em domicílio com uma das minhas irmãs, um negócio de família que nos divertia muito. Meu interesse pelo assunto começou ali, mas continuo adorando sex toys e vez ou outra uma amiga me pede conselho (e acompanhamento) na hora de comprar algum.

Peguei o metrô pra voltar pra casa e na estação ‘Montparnasse’ vi cartazes de uma ONG explicando que com uma doação de 7 euros é possível oferecer um ‘kit dignidade’ (toalha, barbeador, escova e pasta de dentes, absorventes e outros produtos básicos e essenciais de higiene) pra ajudar os refugiados. Em todos os cartazes alguém tinha riscado a palavra ‘refugiados’ e escrito ‘franceses’, transformando a frase original “ajude os refugiados” em “ajude os franceses”. Eu e Anne nos indignamos profundamente e ela tirou uma caneta da bolsa, riscou a palavra ‘franceses’ e escreveu novamente ‘refugiados’ nos cartazes. Enquanto nos afastávamos ela disse: “Que país é esse onde até a palavra ‘refugiados’ é uma agressão pras pessoas?”

Depois de passar pelos correios pra mandar um pacotinho pro Brasil (pode surpreender alguns, mas a burocracia sem sentido e as filas intermináveis também estão presentes no “primeiro mundo”) cheguei no apartamento de Martine. Ela preparou um chá de alecrim e tomilho (“Como o que eu tomava quando era pequena no sul da França”, ela me explicou) e conversamos mais sobre ativismo, militância e o aumento da islamofobia e xenofobia na França. Martine foi militante a vida inteira e apesar de ter 74 anos ela continua lutando por direitos humanos. Nos conhecemos graças ao envolvimento dela com a Palestina, que ela visitou várias vezes. Ela até organizou uma oficina de culinária palestina comigo na casa dela uns anos atrás. O chá foi seguido do aperitivo, pois sempre que amigas queridas passam pela casa dela ela abre uma garrafa de champanhe. A única bebida alcoólica que bebo (e mesmo assim muito, muito raramente) é champanhe e Martine tem o mesmo costume. Ela me contou que sempre explica pras pessoas que só bebe “Champanhe ou água!” e às vezes eu copio a minha amiga e digo a mesma coisa.

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Fomos jantar num restaurante vegetariano pertinho da casa dela, o que sempre fazemos quando passo por Paris. O restaurante existe desde 1980 e se chama “Aquarius”. A comida é simples, mas tem um prato lá que adoro: salada de algas frescas com três tipos de algas, abacate, pomelo rosa, tofu e legumes crus.

Terça

Depois de mais baguette com cereais, azeite, za’atar e as deliciosas pastas, fui aproveitar mais um pouco de Paris. Dessa vez fui passear pelo “Quartier Latin”. Esse é outro bairro que conheço bem porque a faculdade onde estudei, a Sorbonne, fica ali. Ao passar pela frente desse prédio tão imponente e antigo sinto o que na minha terra chamamos de “saudade aliviada”. Meus anos de universitária foram muito importantes, mas por nada nesse mundo voltaria no tempo pra revive-los. Suspeito que muita gente sente a mesma coisa.

Anne queria comprar uma daquelas toalhas ultra finas que secam em pouco tempo (vida de nômade obriga) e fomos na instituição francesa do material pra acampamento (e os mais diferentes esportes): Au Vieux Campeur. São várias lojas no quarteirão da Sorbonne, cada uma especializada em um esporte ou atividade diferente. Pra quem gosta de acampar ou viaja muito, a loja é cheia de engenhocas que facilitam a vida dos viajantes, das toalhas citadas acima à lanternas e carregadores de celular que funcionam à energia solar, passando por potinhos pra transportar comida ou cosméticos e chaveiros que escondem dinheiro.

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Almoçamos no restaurante tibetano vegetariano Pema Thang, que fica pertinho dali. Se você nunca provou comida tibetana, vale a pena visitar o lugar. Os pratos são simples e não recomendo o restaurante pra quem evita glúten (as opções sem glúten são limitadas), mas o lugar é aconchegante e tranquilo, pelo menos na hora do almoço durante a semana. E a senhora que cuida de tudo (serve as mesas e cozinha) é uma simpatia. Pedimos mo-moks (ou momos), que são um tipo de guyosas, com os mais diferentes recheios e cozidos no vapor, muito apreciados no Tibete, Nepal, Butão e partes da Índia. O restaurante oferece quatro recheios diferentes (três veganos e um vegetariano). O de repolho é sempre o meu preferido (o de proteína de soja, a outra opção que pedimos, é bem inferior) e veio acompanhado de um molho de coentro fresco batido com tomate cru (singelo, mas ótimo!). Também adorei a sopa tradicional chamada ‘tapsa’, feita com farinha de cevada tostada, espinafre e alho. Essa eu vou tentar refazer em casa.

Achei a história do lugar linda (estava escrito no próprio menu). Duas irmãs do Tibete abriram um restaurante tibetano e vegetariano na Holanda muitos anos atrás. Depois elas abriram um segundo na Índia e outro em Paris. Contrariamente aos irmãos holandês e indiano, o restaurante de Paris era o único que servia carne. Ano passado o irmão das proprietárias adoeceu e elas decidiram então retirar toda a carne do restaurante de Paris, algo que elas vinham pensando em fazer há tempos. Desde então a saúde do irmão melhorou muito e a família é “feliz com o Karma positivo de não vender mais carne no restaurante” e esperam “que os clientes compartilhem esse Karma positivo degustando comida vegetariana.” A senhora que preparou os pratos explicou que a proposta de pratos veganos está sempre aumentando, pois a clientela vegana não para de crescer. Por isso atualmente 70% do menu é vegano.

Depois do almoço caminhei até um cinema independente, o “Nouvel Odéon”, que só tem uma sala de projeção e uma micro sala de espera-café. Poucas coisas no mundo me deixam mais feliz do que pequenas salas de cinema. Fui ver um filme japonês e como a sessão era no meio da tarde e durante a semana, o público era composto essencialmente por senhoras aposentadas. Isso pra mim é a perfeição absoluta em matéria de cinema. O filme que vi se chama “An” (o nome daquela pasta doce de feijão azuki em Japonês), da diretora Naomi Kawase, e é lindo. Ele tem a poesia e a delicadeza de uma cerejeira em flor e eu me emocionei e chorei várias vezes. Mas só recomendaria o filme pra quem aprecia o ritmo lento e a economia de diálogos do cinema japonês.

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Logo do lado fica uma das maiores livrarias da cidade, a Gilbert Joseph, que vende tanto livros novos quanto usados. Entrei pra procurar um livro que há tempos quero ler, mas não consegui encontrar nas prateleiras e não tinha tempo pra procurar um vendedor, então deixei pra lá. Depois do filme meu apetite tinha acordado e fui conferir uma doceria vegana que há tempos queria visitar. A doceira se chama “Vegan Folie’s” e oferece cheesecakes, bolos, cupcakes, cookies e outras doçuras, além de alguns salgados (torta salgada e sanduíches) e café/cappuccino. Tudo 100% vegetal e servido com um sorriso. A rua da doceira é muito charmosa, então sentei em frente à vitrine pra admira-la enquanto degustava meus três (!!!!) doces e um café. Provei um cheesecake de caramelo e chocolate (sem graça), um cheesecake de frutas vermelhas (com graça, mas longe de ser algo realmente interessante) e um brownie, que estava delicioso e foi a única coisa que pediria novamente ali. Confesso que saí um pouco decepcionada, pois depois de tanto tempo querendo ir lá a expectativa era grande. Porém não experimentei tudo. Talvez os cookies, potinhos de sobremesas cremosas, bolos e salgados sejam mais saborosos. Também achei o lugar, que acabou de ser reformado, pouco acolhedor (apesar da simpatia da vendedora) e a iluminação era quase agressiva.

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Continuei o passeio e fui caminhando devagar, embaixo de uma chuva fininha, na direção da Catedral de Notre-Dame. Passei do lado da livraria Shakespeare and Company e não pude resistir a vontade de entrar. Essa livraria existe há décadas e só vende livros em Inglês, novos e usados. O lugar não poderia ser mais charmoso e virou ponto turístico (é proibido fotografar o interior da livraria). Eu não tinha a intenção de comprar nada, mas acariciei capas, folheei alguns exemplares e, quando não tinha ninguém olhando, cheirei muitas páginas.

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Notre-Dame fica a poucos passos dali, do outro lado do Sena. Atravessei a ponte às seis em ponto e a vista, o monumento majestoso com um pedacinho do rio, ficou ainda mais mágica com os sinos da catedral badalando.

Em seguida passei pelo Hôtel de Ville, o imponente prédio da prefeitura de Paris, que à noite fica ainda mais bonito, e descobri que o carrossel antiguinho que eu gostava de admirar continua lá. Eu tinha um encontro às 19h, mas antes de pegar o metrô entrei na loja de produtos orgânicos ‘Naturalia’ que fica a poucos metros da prefeitura. Eu precisava comprar os ingredientes pro jantar do dia seguinte e, pra ser bem sincera, eu nunca recuso uma oportunidade de entrar em uma loja de produtos orgânicos. Mesmo quando não compro absolutamente nada (o que acontece com frequência) saio de lá inspirada e otimista depois de ver que a oferta de opções veganas, com expliquei mais acima, não pára de aumentar.

Fui jantar com Ana Carla, uma leitora de longa data do blog. Faz anos que estamos tentando nos encontrar e o mais engraçado é que cada tentativa de encontro foi em um país diferente. Ela é tão nômade quanto eu e depois de não termos conseguido nos encontrar no Brasil ela propôs um encontro na Bélgica, outro na Itália, outro em Londres e finalmente esse em Paris. Os desencontros da vida… Quase não acreditei quando vi que dessa vez, na quinta tentativa (e quinto país), nosso tão esperado encontro ia acontecer!  Fomos jantar no restaurante vegano e crudívoro 42 degrés (“42 graus”, porque nada ali é aquecido acima dessa temperatura).

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Foi o restaurante mais caro que visitei por lá, mas esse tipo de culinária exige mais tempo e dedicação do que culinária cozida, então acho que faz sentido. A noite o menu é mais elaborado e os pratos, mais caros. Mas eles abrem pro almoço com um menu reduzido, que muda sempre, e com preços bem mais em conta (prato + entrada ou sobremesa por 15€ , entrada + prato + sobremesa por 19€). A comida é preparada com maestria e muito carinho e a apresentação é tão linda que fiquei com pena de destruir aquela belezura. As combinações de sabores são originais, as técnicas são refinadas e é o tipo de comida que você não conseguiria fazer em casa (detesto pagar caro por algo que sei que faria em casa em 3 minutos ou, pior ainda, que sei que faria bem melhor na minha própria cozinha). E tudo sem glúten, como é de costume na culinária crudívora.

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O que mais gostei foi o prato de queijos (de castanhas) que dividimos na entrada. Nós duas ficamos impressionadas com o sabor e como Ana Carla é onívora e come queijos tradicionais, isso é um enorme elogio. O prato que ela pediu foi o burger de cogumelo com chips de kale (delícia!) e eu pedi um flã salgado de amêndoas com espuma de gergelim, creme de raíz de salsão e wakame (bem ousado, mas eu gosto de aventuras gastronômicas). De sobremesa pedi algo chamado “A mexerica se desvenda” porque achei o nome hilário e porque, como acabei de dizer, minhas papilas gostam tanto de aventura quanto eu e a mistura de mexerica, ganache de limão e granitê de sálvia me intrigou. Achei tudo sublime e embora esse tipo de restaurante não possa entrar com frequência no meu orçamento, vale muito a pena comer lá pelo menos uma vez, com alguém especial. E eu não poderia ter sonhado com um lugar mais bacana pra encontrar uma pessoal tão especial quanto Ana Carla.

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Quarta

O café da manhã foi o mesmo dos dias anteriores: baguete com cereais, pastas vegetais e conversas sobre a situação política e ativismo na França. Procuro não comer pão todos os dias, mas as visitas à Paris são momentos especiais que merecem uma boa baguete. Também provei algumas das geleias feitas pelas amigas de Martine, com as frutas dos seus jardins: uma de mirtilo, outra de laranja amarga.

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Almocei com minha avó e minha prima Flora (ambas adotivas). A história de como Vérène, ‘minha vó francesa’, como gosto de chamá-la, entrou na minha vida é longa e vai ficar pra outro dia. Marcamos o encontro em uma cantina vegana chamada “Le Veganovore”, que oferece um menu bem sucinto, com preço fixo, que muda diariamente. O lugar é pequeno e como as mesas são coladas umas às outras é difícil ter uma conversa tranquila no meio do barulho ambiente. Mas os preços são modestos, as porções são generosas, todos os ingredientes são orgânicos e a chef tem um cuidado todo especial na hora de equilibrar as refeições do ponto de vista nutricional. Todos os dias tem uma sopa, uma opção quente, uma salada completa e duas sobremesas. No dia que estive lá a sopa era de jerimum e cenoura, o prato quente tinha arroz integral, lentilha, legumes cozidos e uma saladinha verde, a salada completa tinha arroz integral, hummus e vários legumes crus.

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As opções de sobremesa eram creme de chocolate ou creme de batata doce com limão, ambos acompanhados de crumble de amêndoas. Como éramos três pude provar um pouco de tudo. O tempero poderia (deveria) ser menos tímido e o acréscimo de um molho simples teria transformado a refeição em algo realmente saboroso, mas saí de lá satisfeita e bem nutrida, com a barriga cheia de vegetais orgânicos e sem ter gastado muito.  Preciso dizer que uma das preparações, a mais simples de todas, realmente me impressionou. Eu não dava nada pelo creme de batata doce (do tipo laranja, não aquelas que encontramos com mais frequência no Brasil) e limão, mas foi a sobremesa que Flora escolheu e quando provei tive a agradável surpresa de descobrir um sabor delicado e uma textura ultra cremosa, mas leve. Foi o que mais gostei ali e quando fui elogiar a chef ela me explicou que só levava três ingredientes: batata doce (do tipo laranja) cozida, limão e um tico de açúcar mascavo.

No caminho entre o Veganovore e a estação de metrô encontrei mais uma loja de produtos orgânicos, ‘La Vie Claire’. Elas estão por todas as partes em Paris hoje em dia e, como vivo repetindo aqui, fazem a alegria dos veganos de passagem que querem experimentar produtos especiais. Não estou dizendo que pra ser vegana é preciso ter uma loja de produtos orgânicos super bem equipada por perto (e, consequentemente, muito dinheiro pra gastar lá, já que esses produtos são mais caros). É totalmente possível ser vegana comprando somente vegetais frescos na feira (a mais barata que você encontrar) e produtos secos (cereais, leguminosas) em um supermercado comum ou mercadinho. Essas lojas oferecem algumas delícias pros momentos especiais, mas não são de maneira alguma indispensáveis.

Entrei na loja de orgânicos porque eu viajaria no dia seguinte e queria comprar alguns ingredientes pra preparar a comida que seria consumida na estrada. As companhias ‘low cost’, que têm os voos mais baratos, não oferecem comida a bordo (elas vendem alguns sanduíches, mas nada vegano) e é difícil encontrar comida vegana em aeroportos. Por isso sempre viajo com um lanchinho na bolsa, mas dessa vez eu sairia de casa por volta das 10h e só chegaria na minha destinação final depois da meia noite, por isso eu precisava preparar uma lancheira com duas refeições robustas. Um dia escreverei um post sobre como preparar comida pra viagens de avião, pois acabei me tornando expert no assunto e tenho dicas preciosas pra compartilhar.

No caminho pro apartamento de Martine comprei os legumes que faltavam pro jantar (no mercadinho da esquina, porque nem só de lojas de produtos orgânicos vivem as veganas) e como tinha uma livraria independente do lado, entrei pra perguntar se tinha o livro que eu estava procurando e bingo! Cheguei no apartamento no final da tarde e comecei a preparar o nosso jantar de despedida. Tempos atrás prometi fazer um fondue vegano pra Martine, que nunca esqueceu a promessa, e como Anne estava desejando um fondue desde o ano passado eu decidi fazer as duas felizes. Preparei o rejuvelac semanas antes, na casa do meu sogro, e fui pra Paris com ele na mala. Na segunda-feira misturei o rejuvelac com castanhas de caju trituradas (comprei manteiga de castanha pronta na loja de orgânicos, pois Martine não tem liquidificador) e coloquei pra fermentar. Então meu queijo de castanha tinha fermentado por dois dias (como estava frio coloquei o pote do lado do aquecedor pra acelerar o processo) e estava pronto pra se transformar em fondue.

Enquanto fazia o fondue (falei sobre a receita, como fazer rejuvelac e tudo mais nesse post) aproveitei pra preparar as refeições do dia seguinte, que seriam degustadas durante a viagem. Fiz uma salada de quínua vermelha com tofu defumado, couve kale refogada, brócolis no vapor e cobri tudo com brotos de alfafa e rúcula. Na hora de fazer o molho pra salada olhei pra panela de fondue, dei um pulo e gritei: “Aha!”. Juntei duas colheres de sopa do queijo de castanha derretido à salada e quase me dei um abraço pra agradecer a ideia maravilhosa que tive. (No dia seguinte, enquanto degustava minha super salada, tive vontade de me dar dois abraços pois ficou extremamente delicioso). Preparei também meus acompanhamentos preferidos pra degustar com fondue: brócolis (que também tinha entrado na salada do dia seguinte) e batatas no vapor, maçã em fatias e a tradicional baguete.

Na hora de servir o fondue Martine disse: “Não sei se vai combinar, mas guardei uma garrafa de champanhe especialmente pra tomar com vocês na despedida.” Quem recusaria um gesto tão lindo? Então eu declarei que champanhe combina demais com fondue vegano e tivemos um jantar maravilhoso, com comida ótima, champanhe de primeira e a companhia de pessoas muito especiais.

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Em dias de viagem, principalmente viagens longas, gosto de tomar um café da manhã reforçado e nutritivo. Minha opção preferida nesses momentos é papa de aveia ou aveia dormida. Preparei aveia dormida na noite anterior, que coloquei pra descansar na geladeira com o leite de amêndoas que Martine tinha comprado pra nós, mais um punhado de chia. Servi com castanhas do Pará picadas e degustei tudo com café.  Depois de me despedir da minha querida amiga Martine parti rumo ao aeroporto de Orly. Felizmente ela mora pertinho de Montparnasse, de onde sai um ônibus que te leva direto pra esse aeroporto. Mais prático do que isso só se eu conseguisse me teleportar com mala e tudo (meu sonho!!!!). O tráfego estava tranquilo e cheguei cedo no aeroporto. Fui tomar mais um café pra enfrentar a viagem, um pequeno ritual meu, e qual não foi a minha surpresa ao descobrir que no Starbucks do aeroporto de Orly tem não uma, mas duas opções de leite vegetal: soja e coco. Gostaria de dizer que, por razões políticas, não gosto de Starbucks e nunca tomo o café deles. Só faço uma ou outra exceção quando estou em aeroportos franceses, pois apesar de todo o progresso em matéria de alimentação vegana que aconteceu nos últimos anos, achar leites vegetais em cafés franceses ainda é um desafio. Como não sou fã de leite de soja e leite de coco é o meu preferido, principalmente com café, dei três pinotes de alegria, pedi um cappuccino grande com leite de coco e sentei pra degustá-lo, enquanto esperava o check-in do meu voo abrir, pensando nas aventuras que me aguardam nesse novo capítulo da minha vida.

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PS Escreverei em breve sobre esse novo capítulo aqui no blog, mas quem me segue no Instagram e FB já sabe onde estou.

PPS Um dia reunirei todas as dicas de Paris em um super Guia Vegano da cidade, mas por hora coloco aqui a lista dos lugares mencionados acima (Google vai te ajudar a encontrar os endereços, sites, páginas FB com horários de funcionamento e telefones…) :

Hank Burgers – hamburgueria vegana, 55 Rue des Archives, 3ème.

Bio C Bon – loja de produtos orgânicos.

Passage du Désir – sex shop na Rue St Martin (Marais).

Aquarius – restaurante vegetariano com opções veganas, 40 Rue de Gergovie, 14ème.

Au Vieux Campeur – loja de equipamentos e acessórios pra vários esportes e atividades ao ar livre (várias lojas, separadas por esporte, no Quartier Latin).

Pema Thang – restaurante tibetano vegetariano com 70% do menu vegano, 13 Rue de la Montagne Sainte Geneviève, 5ème.

Nouvel Odéon – cinema independente com apenas uma sala de projeção e uma lista de filmes reduzida, mas sempre interessante, 6 Rue de l’École de Médecine.

Gilbert Joseph – livraria que vende livros novos e usados, misturados nas prateleiras (os usados tem uma etiqueta na lombada indicando).

Vegan Folie’s – doceria vegana com algumas opções salgadas, 53 Rue Moufettard.

Shakespeare and Company – livraria anglófona que vende livros novos e usados.

Naturalia – loja de produtos orgânicos (vários endereços na cidade).

42 degrés – restaurante vegano crudívoro e orgânico, 109 Rue du Faubourg de la Poissonière.

Le Veganovore – cantina vegana e orgânica, Rue de Paradis.

La Vie Claire – loja de produtos orgânicos.

E, como sempre, o site Happy Cow será o seu melhor amigo na hora de descobrir todos os endereços vegetarianos/veganos/veg friendly da cidade, incluindo lojas de produtos orgânicos.

Guia Vegano – Marselha (França)

Acabo de chegar de dez dias de férias em Marselha. “Chegar” é modo de falar, pois na verdade eu não chego, eu passo. E estou novamente de passagem no interior da França, mas já de malas prontas pra próxima aventura. (Lembrando a quem não sabe: o Papacapim está no Instagram e sempre compartilho fotos das minhas andanças e comilanças pelo mundo.)

Mas então, Marselha. Apesar de ter morado seis anos inteirinhos em Paris, nunca tinha me aventurado pelo sul da França. Um grande erro que decidi corrigir. Quando eu levava minha vida tranquila de universitária na cidade luz meus amigos parisienses diziam: “Marselha? Oh, la, la! É uma cidade suja, barulhenta e perigosa!” E eu pensava com os meus botões que essa noção de “cidade perigosa” é relativa e que não podia ser pior do que as grandes metrópoles brasileiras. Pois tenho a satisfação de informar que meus amigos parisienses estavam errados. Marselha, a segunda maior cidade da França, é incrível, vibrante, um caldeirão cultural com praias lindas de águas cristalinas e pessoas gentis e simpáticas. Sim, a criminalidade existe, principalmente em certos bairros (longe do circuito turístico), exatamente como em todas as cidades onde as desigualdades sociais são gritantes e a discriminação racial rola solta. Mas em nenhum momento me senti em perigo. E sim, a cidade é menos “arrumadinha” que a capital e tem graffiti em praticamente todos os muros e portas, mas não considero isso sujeira: adoro arte de rua. Sem falar que com tanta gente falando Árabe ao meu redor me senti em casa.

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E o que me deixou ainda mais feliz foi ver o quão vegan-friendly a cidade é. Além de ter vários restaurantes vegetarianos (sempre com opções veganas) e um vegano, em praticamente todos os lugares tinha opções vegetais. Achei o pessoal super consciente da existência de veganos e preocupado em oferecer opções pra todos. Parece que, pelo menos nessa cidade, não somos totalmente invisíveis aos olhos dos restaurantes tradicionais. Em vários cafés/lanchonetes/restaurantes vi no menu (que na França sempre fica do lado de fora, pra você saber o que pode comer- e quanto vai pagar- antes de decidir entrar, super útil pra veganos) opções “carnívoras” e “vegetarianas”, que na maior parte do tempo eram 100% vegetais. Achei engraçado eles escreverem “sanduíche/prato carnívoro” (ou simplesmente “carni”) e minha imaginação fértil imaginava as coisas mais loucas.

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Então aqui vai um pequeno guia com os lugares onde comi durante minha visita à Marselha. Quase todos esses lugares eram vegs e orgânicos. Foi emocionante ver que veganismo e comida orgânica andam juntinhos por lá, o que não significa que os preços são mais caros do que os lugares vegs não-orgânicos. Os arredores da praça Cours Julien é a parte mais bacana da cidade (bares, cafés, livrarias independentes…) e é o lugar ideal pra se hospedar (foi lá onde fiquei), pois a partir dali dá pra visitar quase tudo a pé. Todos os endereços do guia  ficam no centro, com excessão da pizzaria, então o acesso é fácil.

Não pude visitar todos os restaurantes que estavam na minha lista, pois com tantos produtos maravilhosos acabei cozinhando bastante em casa. Recomendo, como sempre, uma visita ao site Happy Cow pra ver a lista completa com todos os lugares vegs e veg-friendly da cidade.

Duas especialidades gastronômicas locais são acidentalmente veganas: panisse e pistou. A primeira é um tipo de ‘polenta’ feita com farinha de grão de bico, que você deixa esfriar e, depois de firme, corta em rodelas e depois frita. Panisse é servida em cones de papel na beira da praia ou em bares, como lanche ou acompanhando o aperitivo. Pistou é o pesto do sul da França, mas diferente do irmão gêmeo italiano ele não leva queijo (só manjericão, azeite, alho, pimenta do reino e sal). Recomendo os dois, separados ou, melhor ainda, juntos.

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L’écomotive – café vegetariano e orgânico, com muitas opções veganas. 

Foi o lugar que mais gostei na cidade. O café é ótimo e tem leite de soja (vinde a nós, cappus veganos!). São três opções de pratos por dia e o menu muda o tempo todo (opções sem glúten). Tem também bolos, tortas e cookies, sempre com opções veganas. Minha amiga Haidi, que já apareceu aqui no blog, é a cozinheira nos fins de semana. Como ela é vegana, nos sábados e domingos os três pratos são veganos e a oferta de doçuras vegetais aumenta (na foto acima todos os doces são veganos!). O lugar é charmoso e descontraído. De manhã é bem calmo e como tem wi-fi é um ótimo lugar pra trabalhar (se, como eu, você precisa trabalhar durante as férias). Preços bem em conta (9 euros o prato completo). Fica aberto até às 19h, mas não serve jantar.

L’écomotive

2 Place des Marseillaises, 13001 Marseille

Aberto os sete dias da semana, das 8h às 19h.

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Londonewyork- restaurante vegano orgânico

O único restaurante vegano da cidade atualmente só abre pro almoço. Como em todos os restaurantes orgânicos que oferecem produtos locais e sazonais, o menu muda constantemente. No dia que estive lá provei quatro pratos diferentes e alguns estavam ótimos, outros nem tanto. Provei também uma sobremesa que estava sensacional: torta folhada de coco e caramelo salgado. O que mais me chamou a atenção, no entanto, foi um seitan feito com arroz, logo sem glúten. Eu nunca gostei da textura nem do sabor de seitan e por ser glúten puro sempre deixa meu estômago se sentindo triste, triste, mesmo quando eu como só um pedacinho. Mas o seitan de arroz não só é totalmente sem glúten (mais agradável pro estômago) como ainda é muito mais gostoso e suculento do que o seitan de trigo. Um achado!

Londonewyork

77 Rue de Lodi, 13006 Marseille

Aberto de segunda à sábado, das 10h às 18h.

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Le cours en vert – restaurante vegetariano orgânico com opções veganas

O menu muda todos os dias, de acordo com o que for encontrado na feira daquele dia. Então os legumes são super frescos, de estação e orgânicos. Provei três pratos diferentes e a comida estava gostosinha, mas não provocou grandes emoções em ninguém (talvez eu não tenha tido sorte no dia em que estive lá).

Le cours en vert

102 Cours Julien, 13006 Marseille

Aberto os sete dias da semana, das 12h às 15h e das 19h30 às 22h.

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Green Bear – café-lanchonete vegetariano com opções veganas.

Passei por lá no final da tarde e já não tinha mais quase nada pra comer, então só tomei um cappuccino e provei um mousse de framboesa (à base de aquafaba). Green Bear tem três endereços na cidade e o que visitei (abaixo) tem wi-fi e uma sala perfeita pra quem quer responder emails ou planejar as visitas do dia em um lugar agradável, acompanhada de um cappu vegano.

Green Bear

123 La Canebière – 13001 Marseille

Aberto de segunda à sexta, das 11h às 17h.

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La Baie du Dragon – vietnamita/tailandês. Restaurante tradicional com vários pratos 100% vegetais.

Foi uma experiência e tanto jantar nesse restaurante. O dono, que também serve as mesas, é uma figura. Ele é engraçado e caloroso, mas não hesita em te dar umas respostas secas se achar a sua pergunta idiota (“Nem cru é o que exatamente? Aqueles rolinhos primaveras com papel de arroz?” “Não, é nem cru!” Quando os benditos chegaram eram exatamente os rolinhos com papel de arroz.) Mas ele é gente finíssima e um grande simpatizante do veganismo. O adesivo que vocês vêem acima, criado pela associação de direitos animais L214, significa que o restaurante, apesar de tradicional, se compromete a oferecer pratos veganos elaborados e saborosos pros clientes vegs. O menu tem uma seção especial com pratos veganos: entradas, pratos principais, acompanhamentos.  Ele explicou que se dependesse só dele o restaurante seria 100% vegetal. A conversa que escutei na mesa ao lado fez meu queixo cair. A cliente pediu sugestões de pratos. Ele sugeriu todos os pratos veganos do menu (!!!!). Ela disse: “Eu não sou vegetariana” e ele respondeu: “Uma pena!”.  Os pratos são muito bem temperados, os sabores equilibrados e delicados e o tofu é uma delícia! Muitas opções sem glúten. Os pratos são individuais (porções pequenas), então não cometam o mesmo erro que eu pedindo um prato pra duas. O restaurante é bem popular, então lembre de reservar no fim de semana.

 La Baie du Dragon

8 Place Notre Dame du Mont, 13006 Marseille

Aberto de segunda à sábado, das 12h às 14h30 e das 19h às 22h30.

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Pizzaria L’eau à la bouche – pizzaria tradicional que oferece uma pizza vegetariana sem queijo

Segundo Haidi, é a melhor pizzaria da cidade. Pra nossa grande sorte tem uma pizza 100% vegetariana no menu. Na hora de fazer o pedido falei: “Uma vegetariana sem queijo, por favor” e fiquei aguardando a cara de choque e/ou reprovação do pizzaiolo. Pra minha grande surpresa ele (que descobri depois ser o dono da pizzaria) respondeu, sem levantar os olhos, que a vegetariana da casa nunca tem queijo. Ô glória! Agradeci por ele ter pensado nos veganos e ele respondeu: “Mas é normal! Nó temos que pensar em agradar todos os clientes!” E a pizza não decepcionou (abobrinha e berinjela grelhadas, cebola, coração de alcachofra, alcaparras, azeitonas pretas, tudo numa massa fininha, do jeito que eu gosto). Dica: peça a pizza pra viagem e vá degustá-la na praia que fica ali do lado (Corniche, ver mais abaixo), sentada sobre as pedras com o mar turquesa aos seus pés. A pizzaria também funciona em um food truck no verão (na cidade l’Estaque, colada à Marseilha), que além da vegetariana também oferece uma pizza sem glúten.

L’eau à la bouche

120 Corniche Président John Fitzgerald Kennedy, 13007 Marseille

Aberta de quarta à domingo, de 12h à 15h e de 18h à 23h.

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Videodrome 2 – café-cinema, que também funciona como locadora de filmes

Esse lugar singular vale uma visita, mesmo se você estiver sem fome. Além de poder alugar DVDs e assistir a filmes na pequena sala de projeção nos fundos do café, todo dia rola uma sopinha que me garantiram que é sempre vegana. No dia que fui lá a sopa era de abobrinha com pistou (o famoso pesto local, acidentalmente vegano) e estava divina! Veio acompanhada de três fatias generosas de um maravilhoso pão au levain com passas. Por 4€ você tem uma refeição nutritiva e saborosa. Também tem sempre um cookie vegano e sem glúten no balcão (feito com farinha e óleo de coco, gostosinho mas que não tinha nada da textura/sabor de cookie). Tem mesas no exterior, na praça Cours Julien, e é super agradável tomar uma (cerveja ou xícara de chá) admirando os passantes.

Videodrome 2

49 Cours Julien, 13006 Marseille

Aberto de terça à domingo, das 15h às 2h.

Un mexicain à Marseille – lanchonete mexicana com opções veganas

Veganos podem pedir um burrito  ou tacos 100% vegetais (com feijão, milho, legumes grelhados, arroz, tomate e guacamole). Sucos/smoothies feitos na hora. Simples, barato, nutritivo e capaz de satisfazer grandes apetites.

 Un mexicain à Marseille

5 Place Paul Cézanne, 13006 Marseille

Aberto todos os dias da semana, das 12h às 24h.

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 Bio C Bon – loja de produtos orgânicos

Na França as lojas de produtos orgânico são uma mina de ouro pros veganos. Essa era um paraíso pra nós: frutas e verduras, leguminosas cruas e cozidas, burguers, salsichas, queijos, muitas pastas pra passar no pão, biscoitos, cereais, iogurtes, chocolates e mais de trinta (!!!) tipos de leite vegetal. As opções sem glúten abundam (achei até massa folhada pra assar em casa sem glúten!) e a loja é cheia de tesouros pros veganos gourmets (algas frescas! crepe de sarraceno! pasta de chocolate e avelã! creme de alcachofra!). Claro que os preços nesses tipos de lojas são mais elevados do que em supermercados, mas a qualidade é excelente e você encontra produtos que não são vendidos em outros lugares.

 Bio C bon

89 Cours Julien, 13006 Marseille

Aberta todos os dias da semana, das 9h30 às 20h (domingo das 9h30 às 13h30)

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Marché Paysan Cours Julien – feira orgânica

Uma vez por semana, nas quartas, tem uma feira orgânica na praça Cours Julien. As frutas e verduras orgânicas, produzidas localmente e vendidas pelos próprios agricultores, já valem a visita. No dia que estive lá comprei kale, vários folhosos pra salada (os vendedores fazem uma mistura com todas as folhas disponíveis, se você pedir) e tupinambo (também conhecido como ‘alcachofra-girassol’), um legume que eu conhecia de vista, mas nunca tinha experimentado (adorei!). Mas o que faz dessa feira um lugar ainda mais especial pras pessoas veganas é uma barraquinha onde um rapaz muito simpático faz um número impressionante de molhos, pastas pra passar no pão, legumes temperados e geleias, tudo com os vegetais que ele mesmo planta e colhe (orgânicos). Ele explicou que não usa nenhum ingrediente de origem animal nos seus produtos e, respeitando a tradição culinária do sul da França, faz tudo com um excelente azeite. Vi que em um potinho entrava mel na composição, mas todos os outros eram 100% vegetais. Voltei pra casa com uma pasta de beterraba e raiz forte, pistou, molho de pimenta, favas com coentro e ganhei de presente do vendedor um chutney de jerimum e gengibre. O que eu gostaria de ter levado pra casa, se ainda tivesse espaço na sacola: abobrinha com hortelã, abobrinha agridoce com curry, funcho romeno, ajvar (pasta de pimentão vermelho), caviar de berinjela, caponata… Descobri, graças à senhora que nos hospedou durante alguns dias, que um almoço ou jantar pro pessoal do sul pode ser composto somente desse tipo de preparações (muitas vezes feitas em casa), mais um bom pão, uma salada crua e vinho. A geladeira dela estava cheia de potinhos de vidros com os mais variados legumes, todos preparados por ela, e na hora das refeições ela colocava tudo na mesa, junto com uma salada fresquinha, e cada uma se servia do que quisesse, como um piquenique. Se você quiser preparar uma refeição nesse estilo e provar as delícias que são os legumes e as pastas do sul, você precisa visitar essa barraquinha.

Marché Paysan

Praça Cours Julien

Todas as quarta-feiras, das 7h às 13h (melhor ir cedo).

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Saladin Épices du Monde – Mercado de frutas e verduras e loja de especiarias 

Do lado do Marché  de Noailles eu achei o meu parque de diversões. Se chama “Saladin” e lá você vai achar o que acredito ser todas as especiarias que já apareceram nessa terra. Dei tantos pinotes lá dentro que uma certa pessoa ameaçou me filmar e colocar o vídeo no blog pra vocês verem e, imagino, rirem. Tinha as mais variadas frutas secas (tâmaras suculentas), tomates secos, farinha de grão de bico indiana, muitos, muitos tipos de azeitonas (verdes, pretas, temperadas), vários tipos de cogumelos desidratados, dezenas de ervas secas, especiarias de todos os tipos… Tinha até cumaru (tonka) do Brasil! E mais de trinta tipos de sal (juro, eu contei). As duas fotos acima só mostram um pedacinho da coleção de sal da loja. Tinha sal roxo, azul, cinza, preto, defumado, temperado, com gosto de ovo (queria trazer o saco inteiro pra usar no meu omelete vegano), flor de sal, cristais em forma de pirâmide… Durante os dez dias que passei na cidade fui à essa loja cinco vezes, ou seja, um dia sim e outro não. No final eu já estava contando a minha vida na Palestina em Árabe pro vendedor marroquino e ninguém mais se dava o trabalho de falar Francês comigo. Quase peço um emprego lá, aceitando ser paga em sal (sabiam que é daí que vem a palavra ‘salário’? Eu ia voltar às origens da prática). Se você gosta de cozinhar recomendo demais uma visita à essa loja.

 Saladin Épices du Monde

10 Rue Longue des Capucins, 13001 Marseille

Aberta todos os dias da semana, das 7h30 às 19h

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Marché de Noailles 

O quarteirão dessa feira (‘marché’ em Francês significa ‘feira’) vale uma visita. É aqui que se concentram as mercearias, restaurantes e padarias árabes (Marrocos, Tunísia e Argélia, países que formam o Magrebe) e é um dos lugares mais animados e coloridos da cidade. Lá você encontra cafés populares, onde velhinhos e jovens jogam conversa fora, padarias cheias de tesouros, restaurantes típicos e mercearias com (pausa dramática, corações veganos batendo acelerado) tahine libanesa! A única, a verdadeira, a sensacional, a que tem a reputação de ser a melhor do mundo! E por um precinho muito camarada, principalmente quando você compara com a tahine horrível que encontramos nas lojas orgânicas daqui.

As padarias tunisienses/marroquinas/argelinas são ótimas pra quando você quiser preencher um buraquinho no estômago, mas não tiver fome suficiente pra uma refeição completa. Além de vários tipos de pão (alguns com levain), você encontra folhados recheados com tomate e pimentão (tem a aparência de um crepe crocante, dobrado e com uma forma quadrada), o delicioso pão de sêmola (com ou sem fermento) e alguns doces veganos (pergunte se não tem manteiga nem mel, pois muitos têm).

Se a fome apertar, muitos restaurantes du Magrebe, embora sempre sirvam carne, oferecem opções naturalmente veganas. Tagines ou couscous de legumes (geralmente com grão de bico e muitas especiarias) são deliciosos.

Marché de Noailles (também conhecido como Marché des Capucins)

Rue du Marché des Capucins.

Aberto de segunda à sábado, das 8h às 19h.

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Durante as férias visitei duas ocupações (que os franceses chamam de ‘squats’). Le Raccoon (Place du Lycée) e Le Kiosque (38, Rue Clovis Hugues). Essas ocupas são lugares onde ativistas se encontram, trocam informações e organizam eventos. Fui ver um filme feminista de 1983 (‘Born in Flames’)  no Raccoon e participei de um evento de solidariedade com prisioneiras/os trans no Kiosque.  Fiquei sabendo desses eventos olhando as paredes da cidade: tem sempre cartazes colados por todos os lados com a programação dos dois lugares.

Nas duas ocupas a luta contra os vários tipos de opressão estão interligados, por isso quando rola comida por lá, é sempre vegana. O Raccoon também organiza jantares veganos onde cada um dá  o que quiser. Nas duas ocupas você encontra livros e panfletos sobre feminismo, racismo, imigrantes e refugiados, direitos animais, veganismo… No Raccon tem até uma ‘ loja grátis’ com roupas e sapatos que estão à disposição gratuitamente. São os lugares ideais pra entrar em contato com a cena ativista da cidade, aprender e conhecer pessoas bacanas (e veganas!).

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E antes de terminar esse guia, vou fazer algo que ainda não tinha feito nos outros Guias Veganos que publiquei aqui no blog: sugerir lugares que não têm nada a ver com comida. Se você estiver em Marselha não deixe de visitar um espaço cultural chamado ‘La Friche’, que fica na rua Jobin, no bairro Belle de Mai (foto que abre esse post e as duas acima). O centro foi criado em uma antiga fábrica de tabaco e tem salas de exposições, uma livraria, um café, um restaurante, quadra de basquete, pista de skate… Nos andares não utilizados (o prédio é enorme) crianças andam de patins e brincam livremente. A partir de março o terraço no último andar começa a funcionar e o centro organiza festas ali nas noites de verão.

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A Corniche também vale uma visita. As praias são bem diferentes das nossas, com pedras enormes e zero areia. Tem uma mini praia onde as pedras são minúsculas (foto acima), mas o pessoal que quer nadar geralmente pula das pedras direto pra água. Parece que no verão fica tudo lotado, mas como passei por lá no meio do inverno estava tudo tranquilo e pude piquenicar (a pizza mencionada acima) admirando a beleza do lugar.

Vale muito a pena sair um pouco da cidade e visitar pelo menos uma calanque. ‘Calanque’ é, de acordo com Wikipidia “um acidente geográfico encontrado no Mar Mediterrâneo, que se apresenta sob a forma de uma angra, enseada ou baía com lados escarpados, composta por estratos de calcário, dolomita ou outros minerais carbonatos.” Procurem ‘calanques’ no Google e vocês vão ver que coisa mais linda elas são. Visitei a calanque de Sormiou (dá pra ir de ônibus do centro de Marseille), que fica no Parque Regional das Calanques. Na entrada do parque você pode escolher uma das várias trilhas, mais ou menos longas. A caminhada é bem puxada, pois o terreno é extremamente acidentado, mas pra quem gosta de natureza e pode caminhar por várias horas , o passeio é incrível. As fotos abaixo dizem tudo.

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