O final de junho

Semana passada tive a sorte de poder descansar longe da cidade por uns dias. O mês de junho foi intenso pra mim, porque a cuidadora da minha mãe saiu de férias e fiquei no lugar dela. Também foi o mês em que fiz minha estreia na sala de aula e me tornei educadora em um cursinho popular aqui em Natal. No final do mês eu estava exausta, com o juízo aperreado e com muita dificuldade pra funcionar durante o dia. Então assim que a cuidadora da minha mãe voltou, me dei folga da casa, do trabalho (todos eles) e da função de cuidadora. Fui pra uma cabana entre o rio e o mar e passei três gloriosos dias sozinha, sem falar com ninguém. Quer dizer, sem falar com ninguém da espécie humana.

Sempre fui introvertida, o que não é sinônimo de ser tímida. Mas sinto que os anos passaram e minha introversão aumentou muito. E como ela se misturou com um amor cada vez maior pela contemplação, hoje só penso em fugir pras montanhas (ou pra floresta). Vou continuar por aqui porque sou uma militante sincera e dedicada, mas juro que se todas as revoluções tivessem sido feitas, eu me embrenharia mato adentro e passaria o resto dos meus dias lavrando a terra, conversando com os bichos e tomando banho de rio.

Dois anos atrás li um livro que falava sobre como resistir à economia da atenção. O livro, escrito pela estadunidense Jenny Odell, se chama “How to do nothing”, mas foi traduzido pro Português como: “Resista – não faça nada”. “Economia da atenção” é um termo que eu descobri com esse livro e que nomeou algo que me incomoda profundamente há anos. A ideia, bastante difundida, de que “se é gratuito, então o produto é você” não é verdadeira. Nas redes sociais o verdadeiro produto, a moeda de troca mais preciosa, é a sua atenção. Como moro em um país onde o uso do celular/internet/redes sociais é bem menor do que no Brasil (nosso paí é o vice-líder mundial em uso de internet: cada brasileira passa nada menos que 9h32 por dia conectada, enquanto na França, a utilização diária é de 5h26), sempre que estou desse lado do Atlântico fico assustada ao ver como a atenção das pessoas é sugada em permanência pelo celular.

Consegui uma parte significativa da minha atenção de volta vivendo sem redes sociais, mas isso foi só metade da mudança. Escolher pra onde vai a atenção reconquistada é, talvez, a parte mais importante nesse processo de resistência à economia da atenção. Prestar atenção no que e em quem está ao meu redor não é nem um pouco difícil. Me perder nos meus pensamentos, passar horas escutando passarinhos ou observando minhocas é puro deleite pra mim. Às vezes eu sentava na frente da minha horta de quintal e passava um longo momento com o nariz quase dentro da terra, assistindo fascinada a tudo que se passava ali (minha horta era agroecológica e fervilhava com os mais diferentes tipos de vida). Então largar o celular é fácil. O verdadeiro desafio, pra mim, é conseguir me afastar dos compromissos e conseguir momentos de introspecção.

Na sociedade capitalista em que vivemos, onde se sobrecarregar de trabalho é a condição de sobrevivência de 99% da população, tempo livre é um luxo pra poucas. Mas estou falando aqui sobre escolher não deixar o celular drenar minha atenção em todos os momentos do cotidiano. E, quando as circunstâncias permitem, escolher dar minha inteira atenção ao mundo material ao meu redor e ao mundo imaterial dentro de mim. Semana passada vivi dias deliciosos de silêncio e encontros com animais outros que humanos. Nada alimenta mais minha alma que esses momentos.

E falando em alimento, praia é um dos lugares mais difíceis de encontrar comida (pro corpo) quando se é vegana e já escrevi sobre isso anos atrás (Praia vegana: guia de sobrevivência). As dicas que compartilhei naquele post ainda são válidas, só queria acrescentar que hoje, oito anos depois, minha alimentação está ainda mais simples, principalmente quando cozinho apenas pra mim mesma.

Gosto de comer tapioca no café da manhã, então levei goma fresca, mais alguns recheios (tofu mexido, queijo cremoso de castanha e muta’bal). Preciso comer feijão todo dia pra ficar feliz e levei feijão macaça, lá da terra do meu pai, que comi no almoço e jantar (temperado só com sal ou com verduras). Também gosto de comer tubérculos diariamente, então levei batata doce e cará, que entravam no prato com o feijão. E acompanhei todas as refeições com frutas. Como não ligo muito pra sobremesas nem doces em geral, levei apenas um pedaço de chocolate 100% (sim, totalmente amargo) e uma soda preta (quitute típico do meu território, feito com rapadura), que gosto de comer com café. Mas nada melhor do que lanchar frutas frescas, principalmente na praia.

O lugar onde me hospedei tinha a particularidade de estar exatamente onde um rio potiguar encontra o mar, então dependendo da maré, a baía era preenchida pelo mar (foto abaixo, à esquerda) ou pelo rio (foto à direita). O momento em que o rio voltava, empurrando a água salgada e verde de volta pro mar e inundando tudo com sua água doce e escura era de uma lindeza que enchia meus olhos de lágrimas. No primeiro dia fui surpreendida pelo espetáculo, mas depois passei a sentar e esperar por ele, e a alegria era tão intensa quanto da primeira vez.

Quando voltei pra casa e contei sobre a pororoquinha que eu via todos os dias, minha irmã perguntou por que eu não tinha filmado. A ideia de deixar de “viver o momento” pra “filmar o momento”, me pareceu revoltante. Me dá um arrepio de prazer saber que aqueles momentos estão guardados dentro de mim, sem cópias na memória do celular. Não me importo se minha memória (humana, logo, falha) vai deformar os acontecidos conforme o tempo for passando. Faz parte da vida. Também gosto de contar o que vi e vivi pras pessoas que amo, olhando nos olhos delas, ao invés de simplesmente mostrar algo numa tela. Sei que isso foi normalizado, mas ainda me incomoda muito quando o celular se faz presente nas conversas com pessoas que estão na minha frente.

Já estou mergulhada novamente na rotina, entre trabalho, militância e cuidados com minha mãe. Aliás, ela está precisando da minha atenção nesse momento preciso.

Termino esse post com mais um espetáculo: o pôr do sol atrás do rio.

11 comentários em “O final de junho

    1. Anne e eu saímos da casa onde morávamos, então a horta no quintal foi abandonada (a dona da casa que alugávamos mora lá, mas não quis continuar a horta). No momento eu estou morando em Natal, na casa da minha mãe e Anne está dividindo um apartamento com uma amiga nossa (na mesma cidade francesa). Já a horta coletiva, nos Jardins Operários, segue transbordando de vida e comida, pois as pessoas do nosso coletivo se revezam pra cuidar dela o ano inteiro.

  1. Me sinto exatamente como você neste texto. Ando por um momento complicado, que me faz pensar em escapar da rotina quase que todo tempo. Reflito muito sobre que vida posso levar nesse mundo. Se um dia vou verdadeiramente escolhê-la. Acredito que não, mas ainda sonho.

    Sobre esse lugar, como se chama? Sou apaixonada pelo litoral potiguar (sou pernambucana).

    Um forte abraço.

    1. O lugar fica no encontro do rio Ceará Mirim com a praia de Genipabu, pertinho de Natal. Se quiser o contato da dona da cabana, me manda email que compartilho com muito prazer 😉

  2. Pessoal, quem se interessou pela indicação literária da Jenny Odell, aquele site russo tem versões para baixar em inglês e espanhol (e em italiano e alemão, caso alguém prefira ler em italiano ou alemão…). Sandra, eu ia dizer que todo seu texto me lembrou, em afinidade de espírito, o meu texto mais querido do meu filósofo mais querido: “O narrador”, do Walter Benjamin. Nesse ensaio, o Benjamin fala que a arte de contar histórias está em declínio, porque a própria noção de experiência também está. Ele diz (isso em 1930) que a verdadeira experiência é a “vida vivida e é desse material que são feitas as histórias. Como a mão do oleiro na argila do barro”. Mas esse tipo de experiência transmissível só é possível na coletividade de uma vida cíclica (mas como ele era comunista, também concordava com você. Agora que a coisa já foi pro beleléu, não adianta se fazer de parvo. Há todas as revoluções a serem feitas). E ainda acrescenta que o tédio é a mãe da imaginação. Mas não o tédio pejorativo que a gente entende “não tenho nada interessante pra fazer” e sim o tédio tipo “meus sentidos estão tomados em ficar com a cara da terra e perceber tanta coisa” o que gera tipo uma sonolência da preocupação do ter ou não ter o que fazer. Dito tudo isso (que eu pensei lendo seu texto), baixei a versão em espanhol do livro e já abri. Eis que me deparo com a epígrafe: “La redención se conserva en un pequeño resquicio del continuo de la catástrofe.” WALTER BENJAMIN. Bom dia, boa semana para você e os seus

  3. Oi Sandra!
    Que lugar e que reflexões mais lindos!

    A soda preta é a mesma coisa que Sorda, ou Bolacha Mata Fome?
    Estes nomes aparecem num produto que compro de vez em quando, que é maravilhoso mas difícil de achar…
    Gostaria de saber se vc sabe alguma receita dela.
    Os ingredientes são todos de origem vegetal, mas na internet sempre divulgam receitas com ovo e leite…

    1. É a mesma coisa, sim. Eu sempre chamo de sorda, mas no pacote tem escrito “soda”. E acho “bolacha mata fome” um nome maravilhoso! Tem também a “soda branca”, que tem leite e ovos, mas a preta é sempre 100% vegetal, pois os ingredientes são apenas rapadura, farinha de trigo, cravo e erva doce. Nunca tentei fazer em casa, mas é uma vontade antiga minha… Agora me animei pra procurar a receita com alguém que trabalha na fábrica de sorda (fica do lado de Natal).

      1. De fato, um nome maravilhoso, e que a define bem!

        Entendi, devem ter aparecido receitas dessa soda branca e eu não reparei por não conhecê-la.
        Nossa, seria maravilhoso conseguir a receita da preta!!

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