O alecrim da outra é sempre mais verde

Começou de novo. Quando explico que estou em Beirute passando uma temporada de três meses as pessoas imediatamente me perguntam: “Onde você mora?”. Respondo: “Em Beirute” e termino a frase na minha cabeça com “…ora pois!” Mas elas nunca ficam satisfeitas, pois esperam uma resposta definitiva. O que eu não tenho.

A vida de nômade, que adotei quando saí da Palestina em 2013, continua, mas alguma coisa dentro de mim começou a mudar. Outro dia me surpreendi contando pra uma amiga: “Meu sonho atual é morar em um lugar tempo suficiente pra plantar ervas e vê-las crescer. Sonho com vasos de alecrim e tomilho. Que pessoa sem graça me tornei, sonhando com plantas em vasos.” Então lembrei que um dia ela, que tem um jardim com alecrim e tomilho na sua Jerusalém, disse que admirava o meu espírito aventureiro e que sonhava em morar em outros lugares, mas que tinha medo de abandonar o conforto do conhecido. Moral da história: o alecrim da outra é sempre mais verde.

Mas ser nômade tem inúmeras vantagens, obviamente. Conhecer novos lugares e novas pessoas, ver realidades diferentes, descobrir novas culturas, expandir os horizontes e o repertório culinário… Estou adorando morar em Beirute. Que cidade fascinante! Sempre quis passar uma chuva aqui e não caibo em mim de alegria por estar vivendo mais essa experiência. Na maior parte do tempo até esqueço o sonho das plantas nos vasos.

Decidi me mudar pra cá seis meses atrás. Na época eu estava morando e trabalhando em Londres, pensando no que faria da vida no início de 2016, depois da temporada de três meses na Palestina (onde aconteceram os dois tours político-gastronômico-ativista-vegano-feministas Papacapim;) Anne foi me visitar em Londres e falou que estava pensando em ir pra Beirute pra fazer um projeto sobre os refugiados palestinos e sírios no país. De repente a ideia de me juntar a ela pareceu supimpa. Não sei de onde veio a impressão de que aquilo era a coisa certa a ser feita, mas agora que estou aqui tenho certeza que estou exatamente onde deveria estar. Essa nova etapa da minha vida faz muito sentido e está em perfeita harmonia com o caminho que estou seguindo.

E falando no meu caminho, gostaria de escrever algumas linhas sobre algo que está me cutucando desde que Anne falou, olhando os últimos posts que apareceram aqui no blog: “Beirute, Paris, Marselha, Palestina, Londres… Quem lê seu blog deve imaginar que você leva uma vida ultra glamorosa.” Não sei se tem gente pensando que vivo “a pão-de-ló e Moët & Chandon”, até porque as leitoras de longa data sabem de detalhes da minha vida que mostram o quão simples (ou “roots”, como minha irmã vive me dizendo) ela é. Mas se ainda não ficou claro, saibam que eu não tenho renda fixa, não tenho sequer uma conta bancária (consequentemente não tenho cartão de crédito), não tenho plano de saúde nem economias (poupança, bens) e me acontece de chegar em uma cidade nova com recursos suficientes pra me manter durante apenas um mês (e às vezes sem saber o que farei nem aonde irei depois). Tive que abrir mão da segurança financeira (emprego fixo, salário todo mês) pra poder levar a vida que levo hoje e sei que isso seria uma fonte de estresse terrível, talvez até insuportável, pra muita gente. A vida de sonho pra uns é um pesadelo pra outros. Mas se você me perguntar vou responder que essa não é uma vida “de sonho” e sim a vida dos meus sonhos, a vida que eu sempre quis ter e que me faz feliz no momento. Não tem glamour nenhum, tem preocupações e espinhos como a vida de qualquer pessoa, mas ela foi criada sob medida pra oferecer o que o meu coração (e o meu só) deseja.

Depois dessa tentativa de desanuviamento, voltemos à Beirute. Eu mencionei no último post que tinha sido convidada pra cozinhar em um restaurante veg da cidade. Preparei um menu (vegano, claro) de inspiração sul-americana, que foi servido somente no sábado e domingo passados e foi um sucesso absoluto! Na quinta já estava tudo reservado pros dois dias e tivemos que recusar várias pessoas. Não imaginei que o interesse do pessoal local seria tanto e o feedback foi extremamente positivo. Tanto da parte dos veganos quanto dos onívoros.

Curiosamente o prato que fez mais sucesso com os onívoros foi o ceviche de cogumelo. O que me deixou pra lá de feliz, pois eles comem ceviche de peixe e ainda assim acharam a minha versão vegetal excelente. Então gostaria de compartilhar essa receita incrível, que criei tempos atrás e que guardei em segredo até agora. Se você não sabe o que é ceviche, aqui vai uma explicação sucinta. É um prato típico do Peru, à base de peixe e a particularidade dessa receita é que o peixe “cozinha” no suco de limão. Você coloca o peixe cru em pedacinhos no suco de limão e deixa marinando ali. O ácido cítrico faz com que o peixe ganhe aparência e textura de cozido.

Nunca comi ceviche tradicional, mas quando li sobre esse prato imediatamente tive vontade de fazer uma versão vegana. Acabei desenvolvendo não uma, mas duas versões vegetais de ceviche e a receita abaixo, com cogumelos, é a minha preferida. O que realmente me inspirou foi a técnica de ‘cozimento’ no suco de limão e descobri que ela também pode ser aplicada a cogumelos. Se você não tiver acesso a cogumelos, também pode usar palmito cozido (o outro tipo de ceviche vegano que criei) e, embora ainda não tenha testado, vi que tem gente fazendo ceviche veg com polpa de coco verde! Estou louca pra experimentar a versão com coco verde, mas terei que esperar até a minha próxima ida ao Brasil. Se alguém tentar ou já testou, compartilhe a experiência comigo, por favor.

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Ceviche de cogumelo, abacate e toranja (vegano, sem glúten)

Os cogumelos precisam marinar durante uma noite, então se programe pra começar a fazer a receita na véspera de quando quiser degusta-la. Gosto de usar toranja rosa nessa receita, porque é uma fruta que adoro e a mistura de cores fica linda. Mas como toranjas são raras no Brasil, você pode substituí-la por laranja. Pra fazer cubos de laranja/toranja sem a pele branca (que tem um sabor amargo desagradável) veja esse post, onde expliquei como descascar frutas cítricas. Na receita de ceviche não precisa fazer “supremos”, como no post, basta seguir as instruções pra retirar a casca+pele branca, depois fatiar a fruta em rodelas de espessura médias e cortar tudo em cubinhos.

2 punhados de cogumelos frescos (usei champignons dessa vez, mas já fiz com outros tipos de cogumelos. Se quiser usar outro tipo, verifique primeiro se ele pode ser consumido cru)

4 folhas de alga nori (ou 2cs de outra alga desidratada em flocos)

1/3 x de molho shoyu

1/3 x de suco de limão

1/3 x de água

1 cs cheia de melado de cana (ou xarope de agave)

1 punhado de coentro, picado (opcional)

2 x de abacate, em cubos pequenos

2 x de toranja rosa ou laranja, sem casca e em cubos pequenos (leia a informação acima)

Pimenta do reino

Corte os cogumelos em fatias bem finas. Se você não tiver muita habilidade com facas, use um fatiador de legumes (ou mandolina). Use uma tesoura grande pra picar as folhas de nori, fazendo confetes de algas (claro que isso não será necessário se você estiver usando algas em flocos). Em um recipiente grande misture o shoyu, o suco de limão, a água, o melado e a alga picada. Juste os cogumelos fatiados e misture bem com as mãos até todas as fatias ficarem envolvidas na marinada. Transfira tudo pra um recipiente com tampa. Os cogumelos devem ficar submersos na marinada, então junte mais um pouco de água, se necessário. Tampe e deixe na geladeira durante no mínimo 12 horas (uma noite), mas pode marinar até dois dias. Esse passo é essencial pros cogumelos amolecerem e se impregnarem do sabor da alga. Quanto mais tempo os cogumelos repousarem na marinada, mais intenso será o sabor marinho.

No dia seguinte escorra os cogumelos marinados em cima de uma panela pequena, pra recolher a marinada, e reserve. Leve a marinada ao fogo e ferva até 2/3 do líquido evaporar e se tornar um molho espesso. Corte o abacate, a toranja (ou laranja) e pique o coentro

Gosto de servir o ceviche em porções individuais (em copinhos ou cumbucas bem pequenas), mas nada te impede de colocar tudo em um recipiente maior e deixar cada pessoa se servir. Pra montar o ceviche misture delicadamente os cubos de abacate e toranja/laranja, disponha os cogumelos marinados por cima, regue tudo com um pouco da marinada reduzida e tempere com o coentro picado e pimenta do reino. Eu acho que o shoyu do molho e cogumelos é suficiente pra temperar todo o prato, então não acrescento sal nenhum. Sirva imediatamente. Rende 4-6 porções (entrada).

Creme trufado de chocolate

Muitas luas atrás eu postei a receita da sobremesa que mudou a minha vida. Até hoje é a receita que mais recebe visitas  aqui no blog (junto com meu omelete vegano). Eu ainda acho meu creme voluptuoso de chocolate e laranja uma sobremesa absolutamente perfeita, que mora no top 3 das minhas sobremesas preferidas. Sempre que tenho todos os ingredientes à disposição não perco a oportunidade de fazê-la. Mas esse é exatamente o único problema da minha sobremesa perfeita: ter os ingredientes à  disposição. Eu criei esse creme quando morava na Palestina, onde tâmaras do tipo medjool, tão macias que se desfazem sob a menor pressão dos seus dedos, abundam. Onde é produzido um dos melhores tahines do mundo e onde amêndoas deliciosas são vendidas na feira.

Embora tahine e (leite de) amêndoas não sejam ingredientes indispensáveis pro sucesso da receita, as tâmaras têm um papel fundamental nesse creme. E tâmaras medjool não são fáceis de encontrar no Brasil, especialmente se você não mora em uma cidade grande. E ainda tem mais. Mesmo quando encontrei tâmaras medjool por aí elas não eram tão macias quando as que encontro por aqui. Da última vez que estive no Brasil fiz essa receita pra minha família provar e qual não foi a minha decepção, e a deles, quando meu creme voluptuoso saiu com um sabor muito, muito inferior ao que eu estava acostumada. Meu coração se partiu quando meu sobrinho mais velho, que adora minhas receitas e é super bom de garfo, não conseguiu terminar a porçãozinha de creme que coloquei na frente dele de tanto que o sabor o desagradou. Minha irmã caçula, que também é da turma das panelas, tentou me consolar dizendo que ela sentia o potencial da receita e que podia perfeitamente imaginar a delícia que seria com os ingredientes ideais, mas a gentileza dela não conseguiu fazer minha frustração desaparecer.

Eu sempre acreditei, e repeti por aqui, que a qualidade dos ingredientes é extremamente importante na hora de cozinhar e que às vezes é melhor procurar uma receita que use ingredientes diferentes do que fazer algo que pede aqueles ingredientes que você até encontra perto de casa, mas que deixam a desejar. E naquele dia eu me dei conta que meu amado creme faz parte do bloco do ’só-faça-se-tiver-os-ingredientes-ideais’.

Mas não vim aqui somente anunciar notícias ruins. Amigxs que não encontram as maravilhosas tâmaras medjool que desfazem na boca, nada temam! Quero compartilhar com vocês uma receita parecida com a da sobremesa que mudou a minha vida, mas com ingredientes ao alcance de todos.

Uma leitora me falou, tempos atrás, que fazia trufas de chocolate usando abacate. Foi então que uma luzinha se acendeu na minha cabeça. Aproveito pra agradecer os leitores que deixam comentários e me enviam emails com dicas de culinária. Vocês me inspiram imenso!

Pensei então em partir da receita de trufa com abacate e transforma-la em creme. Tudo muito simples e acessível. E com uma vantagem extra: qualquer liquidificador dará conta do trabalho (nem todo motor dá conta de transformar tâmaras, principalmente as mais duras, em algo cremoso). Assim nasceu esse outro creme voluptuoso de chocolate. Testei a receita quando estive na França, antes de voltar aqui pra Palestina, e todos os onívoros-cobaias aprovaram. Claro que essa receita é menos saudável do que a original (tem açúcar, pois utiliza chocolate em barra, e é mais pobre em fibras e minerais), mas sejamos honestos. Se alimentos processados, industrializados e entupidos de açúcar/gorduras saturadas/trans não fizerem parte da sua dieta, as fibras e mineiras que esse creme não tem (comparado com a receita original) não te farão falta nenhuma. Mesmo assim ainda é um doce “saudável”, comparado com os mousses e brigadeiros da vida, com pouco açúcar e muita fibras, graças ao abacate.

Vou repetir o que disse no post do creme voluptuoso de chocolate e laranja: por mais “saudável” que seja essa receita (e uso a palavra “saudável” entre aspas porque isso é relativo), minha motivação principal pra comer essa, e qualquer sobremesa, é porque é gostoso. Muito, muito gostoso. Podem ter certeza que se você seguir as instruções direitinho e esperar o tempo recomendado antes de degustar esse creme, o sabor final será maravilhoso e com zero gosto de abacate.

Uma palavrinha sobre consistência. A textura desse creme é bem densa, quase como uma trufa. Daí o nome de ‘creme trufado’. A responsável por isso é a manteiga de cacau presente no chocolate, que se solidifica no frio da geladeira. Se você preferir um creme mais fluido, aumente um pouco a quantidade de líquido da receita. E já que esse creme é trufado, ele é um ótimo recheio pra bolo e pra torta. Aliás, está na hora de fazer um update desse pavê trufado de chocolate e morango usando a técnica do abacate. Aguardem.

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Creme trufado de chocolate (vegano, sem glúten)

É importante usar um chocolate de ótima qualidade, com 70% de cacau. Se seu chocolate tiver menos cacau o sabor do abacate vai continuar presente na sobremesa pronta. Uma dica: se você só encontrar chocolate amargo com 50-60% de cacau acrescente 1 colher de sopa de cacau puro em pó (sem açúcar) à receita, pra reforçar o sabor de chocolate. Você pode fazer diferentes variações desse creme, dependendo do líquido utilizado. E se você quiser uma sobremesa mais doce, já que essa receita produz um creme ligeiramente amargo, sinta-se à vontade pra adoçá-la de acordo com o seu gosto (sugiro açúcar de coco). Também gosto de colocar um pouquinho de alguma bebida nesse creme, algo que combine com os outros ingredientes. Por exemplo, licor de laranja (Grand Marnier, se você tiver uma garrafa dele dando sopa) se estiver usando suco e raspas de laranja, whiskey se estiver usando café, rum se estiver fazendo um creme mais neutro (com leite vegetal).

300g de abacate (pese somente a polpa, depois de retirar da casca)

200g de chocolate amargo (idealmente 70% de cacau)

1/2 x de líquido (suco de laranja, leite vegetal ou café)

1cc de extrato de baunilha (opcional, mas recomendado)

(Somente se estiver fazendo a versão com laranja) 1cc de raspas de laranja

No liquidificador bata o abacate com o líquido escolhido e a baunilha (e as raspas de laranja, se estiver fazendo uma versão choco-laranja) até ficar cremoso. Lembre que se quiser um creme menos denso basta aumentar a quantidade de líquido (importante: a consistência da mistura em temperatura ambiente é bem cremosa, mas o creme vai ficar mais espesso depois de ter passado pela geladeira). Derreta o chocolate no banho-maria, despeje sobre a mistura de abacate e bata novamente até ficar homogêneo. Prove e decida se está doce o suficiente pra você (use um pouco de açúcar de coco, ou o que preferir, pra deixar a doçura do jeito que você gosta). Não se alarme, o sabor de abacate vai desaparecer depois do repouso na geladeira. Coloque o creme em taças de sobremesa e leve à geladeira por no mínimo 8 horas, mas idealmente de um dia pro outro. Rende 8 porções comportadas (esse creme é tão rico e intenso que você não vai precisar de muito pra ficar satisfeito).

Trufas de chocolate (e não, eu não me ofendo)

Semana passada uma leitora deixou o seguinte comentário aqui no blog: “Receitas ótimas, mas pra quem tem pressa e pouco tempo, a leitura extensa não ajuda! Algo mais pratico seria muito melhor!! No meu caso, com bebê, fica difícil ler quase uma página inteira pra pegar uma receita que deveria ser simples e acessível. Dica: Coloque a receita de uma vez e os comentários, o modo de fazer, os testes, etc, etc, à parte.”

Em cinco anos de blog essa foi a primeira vez que alguém fez uma reclamação do tipo. Não entendi a dica (tentei visualizar a diagramação do blog se eu seguisse a sugestão e ficou bem confuso) e acredito que quem sabe como deveria ser o meu blog sou eu, mas achei importante responder o comentário. Então escrevi: “Agradeço a sugestão, mas as histórias são uma parte essencial do meu blog, tão importantes quanto as receitas. Mas se elas não te interessam sinta-se à vontade pra ir direto pra receita no final de cada post.”

Que as minhas histórias não interessem todo mundo, eu entendo perfeitamente. Que nem todas as pessoas que procuram receitas na internet tenham tempo pra minha verborragia, eu também entendo. Serei a primeira a admitir que abro certos blogs de culinária, pulo os vários parágrafos e as dezenas de fotos (todas praticamente idênticas) que precedem a receita e vou direto ao que interessa. Às vezes você precisa de uma receita específica e já está com a panela no fogo, sem tempo pra ler páginas e páginas explicando como o(a) autor(a) teve a ideia de fazer tal prato. E, no caso da leitora que deixou o comentário acima, muitas pessoas têm mais o que fazer (cuidar de um bebê, por exemplo) do que passar horas e horas de frente ao computador.

Eu entendo tudo isso. O que não entendo é como alguém não captou que podia simplesmente pular a história que acompanha cada post aqui no Papacapim e ir direto pra receita. Fiquei me perguntando se tem gente do outro lado da tela achando que eu me ofenderia com isso. Se por algum acaso não ficou claro, saibam que vocês têm minha total permissão pra ignorar as histórias e ler somente as receitas que publico aqui. Fiquem à vontade, não tem ninguém olhando (nem julgando).

E numa tentativa de fazer um post mais curtinho (tudo é relativo), vou escrever o mínimo possível antes de deixar vocês irem direto pra receita.

Trufas de chocolate. As tradicionais (mas veganas): densas, amargas e que derretem na boca. Não confundir com os bombons de chocolate com recheio cremoso que muitos no Brasil chamam de trufas. Uma das minhas doçuras preferidas. Somente pra quem adora chocolate intenso e amargo. E tenho dito.

 

Trufas veganas com especiarias

Eu usei um leite de coco de lata, por questão de praticidade, mas se estivesse no Brasil usaria leite de coco caseiro, bem grosso. Uma leitora testou e disse que, mesmo concentrado, o leite de coco caseiro deixou as trufas tão moles que elas não puderam ser enroladas. Então é melhor usar leite de coco de lata. Usei um chocolate com 75% de cacau, porque gosto das minhas trufas intensas, mas quem prefere um sabor mais suave e doce deve usar chocolate com 60% de cacau. Mesmo assim só recomendo essa receita pros amantes de chocolate amargo. Adoro chocolate com especiarias, mas você pode deixá-las de lado e fazer trufas mais tradicionais. Ou usar sua imaginação e perfumar suas trufas com o que quiser. Mais sugestões no final da receita.

100g de chocolate de ótima qualidade (entre 60% e 70% cacau)

80ml de leite de coco (aproximadamente 9 cs)

1 cs cheia de óleo de coco

1 cc de extrato de baunilha (opcional)

1 cc de especiarias (usei uma mistura pronta que tinha canela, cardamomo, cravo, noz moscada, gengibre e semente de coentro)

Cacau em pó (100%, sem adição de açúcar)

Em uma panela pequena coloque o chocolate quebrado em pedacinhos, o leite e o óleo de coco e as especiarias. Leve ao fogo baixíssimo e fique do lado da panela. Assim que o chocolate começar a derreter comece a mexer delicadamente com uma espátula. Desligue o fogo quando a maior parte do chocolate tiver derretido, pra não correr o risco de queimar o fundo da panela. O calor da mistura vai continuar derretendo os últimos pedaços, mesmo longe do fogo. Continue mexendo até a mistura ficar homogênea. Se seu chocolate não estiver com o aspecto totalmente homogêneo use um batedor de arame manual por alguns segundos pra deixar tudo liso e brilhante. Espere esfriar um pouco e leve ao congelador por 4 – 5 minutos, até o chocolate ficar bem firme.

Minha técnica pra enrolar trufas é a seguinte (se você tiver o costume de fazer de outro jeito, vá em frente). Polvilhe uma tábua cortar legumes (limpa e seca) com cacau em pó. Não precisa polvilhar a tábua inteira, uma pequena parte é suficiente. Retire a panela do congelador e use uma colher da chá pra retirar colheradas do chocolate (que deve estar bem gelado e quase sólido). Empurre com o dedo pra descolar o chocolate, que deve cair sobre o cacau. Passe todos os lados no cacau e só então role a trufa entre a palma da mão e a tábua pra dar uma forma vagamente arredondada (como a trufa já está coberta de cacau, ela não gruda mais na mão). Não se preocupe em fazer trufas perfeitamente redondas. É da natureza da trufa ter um look rústico.

Repita a operação com o resto do chocolate. Rende 15 trufas pequenas. Guarde as trufas em um recipiente fechado, na geladeira, pois elas derretem rapidinho e fazem uma lambança danada em temperatura ambiente. Eu gosto de deixar minha trufa alguns minutinhos em temperatura ambiente antes de degustar, pois a consistência fica mais macia e aveludada.

Algumas sugestões pra variar os sabores (partindo da receita básica, que mantém todos os ingredientes acima e deixa somente as especiarias de fora):

-Chocolate e canela: 1cc de canela em pó

-Chocolate e pimenta: entre 1/3 e 1/2cc (de acordo com o seu gosto) de pimenta forte (não pimenta do reino!) em pó.

-Chocolate e whisky: use 8 cs de leite de coco + 1cs de whisky

-Chocolate e café: aqueça o leite de coco sem o chocolate, dissolva 1cc rasa de café solúvel (melhor se for do tipo ‘espresso solúvel’) em um pouquinho do leite quente e coloque de volta na panela. Junte o resto dos ingredientes e siga as instruções acima.

Cada vez melhor

A vida está cada vez melhor por essas bandas. Faz dois meses e meio que me mudei pra Londres e só agora comecei a sentir a poeira da mudança baixar e ver uma certa rotina surgir. Já não aguentava mais carregar minha mala pelos metrôs londrinos. Felizmente acabei sendo acolhida por um grande amigo inglês da minha avó francesa (essa avó eu adotei quando era estudante universitária em Paris), que conheci 8 anos atrás, quando me ofereci pra traduzir pro Francês o livro que ele estava escrevendo. Andrew era pastor da igreja protestante e há décadas escreve um livro, em quadrinhos, pra explicar o que na opinião dele é a verdadeira mensagem de Jesus. Pra ele Jesus queria fazer uma revolução de classes e não estava nem um pouco interessado em religião. Adorei o projeto e aceitei traduzir parte dele. Quando me mudei pra Palestina abandonei a tradução por falta de tempo e hoje é a minha avó que cuida da versão francesa da obra de Andrew, que tem vários volumes.

Poucos dias depois de ter chegado aqui minha avó veio nos visitar. Ela ficou hospedada na casa de Andrew e uma noite fui jantar com eles. Andrew tinha preparado um cuscuz marroquino vegano pra nós e passamos a noite conversando sobre a Palestina, os livros dele e a dificuldade de encontrar aluguéis baratos em Londres.

Dias depois desse jantar me vi sentada no chão do quarto que eu tinha alugado por um mês, depois de uma semana de busca intensa por um teto londrino, cada vez mais chocada com o preços dos aluguéis nessa cidade e preocupadíssima com o fato de não estar ganhando dinheiro suficiente pra alugar nem o armário sob a escada onde Harry Potter dormia (eu estava trabalhando só dois dias por semana), quando bateu uma angústia profunda. Eu teria que sair daquela casa dali a poucos dias e ainda não tinha encontrado um novo lar e mesmo se tivesse encontrado, eu não teria dinheiro pra pagar o aluguel. Então senti muito medo e chorei. Mas depois de alguns minutos paralisada pelo medo, meu cérebro foi voltando a funcionar aos pouquinhos. Eu não ia ficar na rua. Tinha pelo menos um sofá amigo à minha disposição. Eu ia conseguir mais trabalho. Na pior das hipóteses eu tinha a quem pedir apoio (financeiro e emocional). Tudo ia dar certo. Então sequei as lágrimas e fui caminhar no parque do lado de casa. Acho que rolou até um suco verde no caminho de volta e dois dedos de prosa com o vendedor da loja de orgânicos da esquina.

No dia seguinte encontrei uma mensagem de Andrew no meu celular me convidando pra morar na casa dele. Um dos quartos da casa, que acolhia um amigo de passagem pela cidade, tinha acabado de ser desocupado. Liguei pra ele pra ter certeza que tinha entendido certo. Sim, o quarto era meu, se eu quisesse. Não, não precisava pagar nada. Nem sequer ajudar com as contas de água e luz. Eu podia me mudar no dia seguinte. Então dei vários pinotes de alegria e até hoje ando por aí com o peito transbordando gratidão, com uma vontade danada de mandar flores pro delegado, de bater na porta do vizinho e desejar bom dia, de beijar o português da padaria…

E foi assim que eu vim parar nessa casa. Andrew tem 73 anos e ficou viúvo dois anos atrás. Hoje ele mora com duas filhas (ele tem quatro filhos ao todo) e Dani, seu fiel companheiro de quatro patas, que sempre quando eu abro a porta me recebe como se eu fosse um dos Beatles. As meninas quase nunca param em casa e dormem muito na casa da terceira irmã, que acabou de ter bebê. Eu também passo pouco tempo aqui, já que agora trabalho todos os dias (alguns dias trabalho 10, 12 horas seguidas). Então nos encontramos à noite e na maior parte do tempo jantamos só nós dois, com Dani deitado embaixo da mesa. Andrew se sente muito sozinho depois de ter perdido a esposa e como os filhos passam cada vez menos tempo com ele, sinto que ele aprecia muito a minha companhia.

Sempre gostei muito de conversar com pessoas mais velhas e aprendo imensamente com essas interações. Outro dia Andrew me disse “Sabe, agora que estou velho descobri porque meu pai, no final da vida, e meu avó me irritavam tanto. Quando a gente fica velho pode continuar fazendo tudo que fazíamos antes, mas precisamos de muito mais tempo. Tudo fica mais lento e ainda não me acostumei com a minha recém adquirida lentidão. Agora as coisas mais banais exigem um esforço imenso, fico cansado tão facilmente. E hoje eu vejo a irritação no rosto dos meus filhos, a falta de paciência comigo. A mesma irritação e falta de paciência que eu sentia com o meu velho pai.”  Isso me partiu o coração, pois me fez lembrar que também sou culpada dessa falta de paciência com os meus pais. Contei pra ele que sempre que vejo um idoso caminhar lentamente e com dificuldade na rua fico ligeiramente constrangida de poder caminhar tão rápido e de passar por ele a toda velocidade. Então diminuo o ritmo e passo lentamente do lado do idoso, na esperança de não fazer com que ele se sinta diminuído pelo vigor que a juventude me dá. Ele riu e disse que eu não devia me sentir constrangida nessas situações e que eu provavelmente não faria o idoso se sentir melhor ao igualar o meu passo com o dele. E tenho certeza que ele está certo. Acho que ao invés de dar a impressão ao idoso de estar caminhando mais rápido, ele deve pensar: “Tadinha dessa moça. Tão jovem e já com problemas nas pernas”.

Andrew tem uma voz de trovão, uma farta barba branca e uma presença que ocupa todo o cômodo, mesmo agora que a saúde começou a dar sinais de fraqueza.  Ele me conta histórias sobre Jesus e os apóstolos, mas de acordo com a sua interpretação. Tudo que ele me fala é interessante e às vezes hilário. Adoro quando ele me explica, com a ajuda de passagens da Bíblia, que Jesus era um anarquista. Imagino a graça que seria oferecer essas lições às crianças da Escola Dominical. Morar em uma casa onde a rede wi-fi se chama “Jesus era um revolucionário” e a senha é “Deus dos marginais” não tem preço.

Meu quarto é bem pequeno e pela primeira vez desde que saí da casa da minha família em Natal, 13 anos atrás, durmo em uma cama de solteiro. Acho que o fato de morar com alguém muito mais velho que eu, dormir em uma cama de solteiro e passar todo o meu tempo em casa dentro do quarto (na sala tem uma televisão e poucas coisas me irritam mais do que esse aparelho) faz com que eu me sinta adolescente novamente. Depois de jantar com Andrew eu lavo a louça, dou um beijo naquele rosto barbudo, outro no ser peludo e saltitante que insiste em se instalar na minha cama quando não estou olhando, e subo por meu quarto. A jornada de uma cozinheira é pesada, principalmente quando passo o dia inteiro trabalhando, e caio na cama exausta. Mas eu sou uma daquelas pessoas que mesmo com o corpo moído e esgotado não conseguem achar o pitoco pra desligar a cabeça. Então gosto de ler na cama e a minha mesa de cabeceira abriga uma coleção pra lá de eclética. No momento tem: ‘A mulher independente’ de Simone de Beauvoir, um livro sobre poliamor chamado ‘The Ethical Slut’, dois livros de Andrew- ‘A Bíblia como Política’ e ‘Deus dos marginais’-, um livro chamado ‘Equal Rites’, recomendado por uma leitora, quatro livros de culinária, uma revista francesa feminista, uma revista inglesa vegana, um livreto sobre a conexão entre capitalismo, comunismo e liberação animal… Mas atualmente tenho um novo ritual na hora de dormir. Estou viciada em um podcast inglês chamado ‘Philosophy Bites’ e gosto de colocar os headphones, apagar a luz e escutar filósofos discutindo Platão, responsabilidade moral e estereótipo implícito.

Então a vida está cada vez melhor por aqui. Tenho um lar, doce, lar (e a cozinha oferece uma viagem aos anos 70), moro com gente maravilhosa, adoro o meu trabalho, o volume de trabalho aumentou consideravelmente, o verão está chegando e a cidade está cada vez mais agradável. Só sinto falta de cozinhar mais. Claro que cozinho o tempo todo no trabalho, mas sinto falta de cozinhar fora dele. Faço comida aqui em casa regularmente e como estou morando com onívoros não posso contar com o que eles preparam pra me alimentar. Mas o tempo é curto e o cansaço é grande, então preparo coisas muitos simples, como feijão (de todas as cores), muita couve do tipo kale, sopas, papa de aveia… Nada que já não tenha aparecido aqui no blog.

Porém semana passada fui invadida por uma vontade aguda de comer dal e como aqui tem uma população indiana e cingalesa grande é fácil encontrar especiarias e lentilha coral em qualquer mercearia. Na esquina do meu prédio tem uma mercearia de um simpático casal do Sri Lanka e em poucos minutos eu estava com todos os ingredientes pra preparar o meu dal. Então me dei conta que nunca tinha publicado uma receita de dal aqui no blog. É de uma simplicidade imensa, mas é uma das receitas que sempre faço quando preciso de algo nutritivo, que vai me alimentar durante horas e que fica pronto em pouco tempo.

Tradicionalmente a mistura de especiarias usada nessa receita (garam masala) é feita da seguinte maneira. As especiarias inteiras (não em pó) são tostadas em uma frigideira seca até começarem a soltar seus aromas. Depois elas são piladas até a mistura virar um pó relativamente fino. Isso é feito enquanto você preparar o prato, na quantidade que você precisar pra receita. Depois de moídas, especiarias vão perdendo o aroma com o tempo, por isso é melhor moer na hora em que você for usar, em pequenas quantidades, pra desfrutar do melhor que elas têm pra oferecer. Eu geralmente faço isso quando preparo pratos indianos, mas como expliquei mais acima, esse dal é uma das receitas que faço quando não tenho muito tempo e preciso de algo robusto e nutritivo. Por isso uso especiarias em pó, pra ir mais rápido. Mas é importante tostá-las no óleo de coco pra intensificar o aroma e o sabor.

Eu tenho um grande amigo francês que faz um dal delicioso. A gente se conheceu na Palestina e ele sempre preparava esse prato quando me chamava pra jantar na casa dele. A receita original usava manteiga, mas meu amigo veganaziva o seu dal substituindo esse ingrediente por margarina. Por mais que eu gostasse daquele dal quem leu esse post sabe que eu considero margarina o condimento do demônio (imaginando, claro, que ele existe e que parte do seu plano diabólico pra destruir os humanos é preparar condimentos pra gente. Suspeito que ele esteja por trás do glutamato monossódico também.). Então sempre pensava que deveria ter uma maneira mais saudável e gostosa de veganizar a receita do meu amigo.

A manteiga entra no dal pra dar cremosidade e untuosidade ao prato. Muita gente acredita que margarina é um bom substituto vegetal, e talvez o único, pra esse ingrediente. Mas além de ser criação do coisa ruim, como expliquei no famoso post, as qualidades gustativas e culinárias da margarina deixam muito a desejar. Manteiga é uma gordura saturada, por isso é sólida em temperatura ambiente. Margarina é feita com óleos vegetais (hidrogenados ou interestificados) e é composta basicamente de gordura insaturada. Por isso não oferece a mesma untuosidade, nem se comporta da mesma maneira em massas folhadas etc. Por muito tempo fiz dal só com azeite, mas nunca fiquei totalmente satisfeita com o resultado. Então lembrei que tem um óleo vegetal rico em gordura saturada (aquele outro tipo de gordura saturada que faz bem) e que por isso oferece as mesmas propriedades culinárias da manteiga: óleo de coco virgem. Claro que o sabor não tem nada a ver com o sabor da manteiga, mas nessa receita o suave aroma de coco casa perfeitamente bem com o resto dos ingredientes. Nasceu o dal dos meus sonhos, vegano, ultra cremoso e delicioso.

 Como eu disse, a vida está ficando cada vez melhor por aqui.

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 Dal

Duas coisas importantes nessa receita: a lentilha tem que ser coral (ela se desfaz depois de cozida, dando a consistência típica do dal) e o óleo tem que ser de coco e virgem. Expliquei o porquê do óleo no texto acima. Também expliquei porque usei especiarias em pó e não o método tradicional pra fazer ‘garam masala’. Então não deixe de ler o texto pra entender melhor a receita. Uma observação sobre óleo de coco virgem: como ele se solidifica quando a temperatura esfria, dependendo do frio/calor que estiver fazendo onde você mora o seu óleo estará líquido ou sólido. Isso pode gerar confusão na hora de medir as colheradas, pois quando medimos uma colher de sopa do óleo solidificado a quantidade é geralmente maior do que se ele estivesse líquido. Por isso na receita abaixo indiquei as medidas do óleo líquido e sólido.  E se você ainda tem medo da gordura do coco, leia esse post.

 250g de lentilha coral

1 folha de louro

1 cebola grande

4-6 dentes de alho grandes

1/2 polegar de gengibre fresco (opcional)

1cc rasa de cominho em pó

1cc rasa de semente de coentro em pó

1/2cc de cúrcuma

1/2cc de canela

1 pitada de cravo em pó (opcional)

1 pitada de cardamomo em pó (opcional)

óleo de coco virgem

Sal a gosto

 

Despeje as lentilhas em uma panela média e cubra com água fria. A quantidade de água necessária vai variar um pouco, pois quanto mais velha a lentilha, mais água você vai precisar e maior o tempo de cozimento. Comece com 1 parte de lentilha pra 3 partes de água e acrescente mais água durante o cozimento, se for necessário. Junte o louro e punhadinho de sal e leve ao fogo alto. Assim que começar a ferver baixe o fogo e cozinhe até a lentilha se desintegrar completamente e se transformar em uma sopa espessa.

Enquanto a lentilha cozinha, pique a cebola e o alho e rale o gengibre. Aqueça 2cs de óleo de coco líquido (1cs cheia se ele estiver sólido) e doure a cebola. Junte o alho e o gengibre (se estiver usando) e deixe cozinhar por mais 30 segundos. Junte todas as especiarias e toste, mexendo com uma colher de pau, até elas começarem a liberar um aroma intenso (isso só leva uns 15-20 segundos). Despeje a lentilha cozinha e mexa bem. Deixe cozinhar mais 5 minutos em fogo baixo, pra lentilha absorver bem os temperos e encorpar mais um pouco. Junte 2 cs de óleo de coco virgem (se ele estiver líquido. Ou 1 cs bem cheia do óleo solidificado) e misture bem. O dal tem que ficar bem cremoso e rico, então não tenha medo de juntar mais um pouquinho de óleo de coco se achar necessário. Prove e corrija o sal.

Sirva acompanhado de arroz basmati, ou sozinho. Rende 4 porções (se servido junto com arroz e alguma verdura) ou 2 porções como prato único. O dal pode ser conservado por vários dias na geladeira (o frio vai deixá-lo mais espesso, então acrescente um pouco d’água na hora de esquentar) e também pode ser congelado.

10 coisas muito boas que descobri na Itália

Uma das melhores partes de viajar é, pra mim, descobrir novos ingredientes e ver o que os nativos gostam de fazer com eles. Nem sempre os pratos tradicionais que descubro nas minhas andanças pelo mundo são 100% vegetais, mas eles podem me inspirar de várias maneiras. Porém em alguns lugares os nativos têm uma admirável intimidade com vegetais e fazem as coisas mais surpreendentes e deliciosas com eles. É o caso da Toscana. Na última vez que estive por lá, em outubro, descobri algumas coisas muito boas. Ingredientes, receitas tradicionais e uma tradição gastronômica que eu imagino que deve se repetir em muitos lugares do mundo, mas que eu descobri, e pude participar pela primeira vez, durante essa viagem.

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1- Macarrão semi integral Floriddia, feito com uma variedade de trigo mais rústica

Minha amiga Giada explicou que seu macarrão preferido é feito com uma variedade de trigo mais antiga e orgânico, produzido pertinho da casa dela. Visitei a fábrica e saí de lá com uns pacotes embaixo do braço, que degustei durante a semana que fiquei na Toscana. Achei esse macarrão rústico, semi integral e rico em gérmen de trigo muito saboroso e melhor do que todas as outras massas integrais que provei até hoje.

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2- Biscoito de vinho branco

Na mesma fábrica descobri um pequeno tesouro: um biscoitinho feito com vinho branco e azeite. A lista de ingredientes é bem curtinha (a mesma farinha de trigo antigo do macarrão acima, azeite, vinho branco, açúcar e fermento natural), sem nenhum produto químico ou duvidoso e 100% vegetal. Fiquei ainda mais feliz ao ver que eles tinham escrito na embalagem a palavra ‘vegan’, prova de que estavam realmente procurando agradar a nossa tribo. Levei pra casa porque achei aquela combinação de ingredientes interessante e tive a agradável surpresa de descobrir que o sabor era muito melhor do que eu imaginava. O biscoito era leve, crocante, pouco doce e com um gostinho original e delicado, graças à mistura de azeite e vinho branco. Perfeito pra acompanhar o café da tarde (e melhor ainda com um quadradinho de chocolate amargo, como na foto acima).

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3- Farro

Sempre quis provar esse cereal, uma variedade antiga, mas que perdeu a popularidade tempos atrás (está voltando a ficar na moda!). Descobri que na Toscana ele ainda é bastante apreciado, então é fácil encontrar por lá. Parece que tem alguma confusão ao redor desse grão. Farro e espelta são a mesma coisa (parece que na Itália os dois são chamados de ‘farro’) ou são dois cereais diferentes (Triticum dicoccum e Triticum spelta, respectivamente, segundo a Wikipedia)? Não sei qual dos dois comprei, já que no pacote tinha escrito simplesmente ‘farro’, mas gostei muito. Ele se prepara como arroz (com um tempo de cozimento mais longo do que o arroz integral) e tem um sabor mais marcante do que cereais como trigo ou aveia e uma textura mais densa. Achei uma delícia e até servi como parte do jantar pra vinte pessoas que preparei na Itália.

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4- Cavolo nero

Mais uma comida que eu queria provar há tempos. Esse tipo de couve, também chamada de couve da Toscana, é enrugada, alongada e bem escura. Giada e o companheiro dela cultivam legumes orgânicos e me presentearam com um punhado de folhas de cavolo nero. Essas coisas me deixam mais feliz e saltitante do qualquer outro tipo de presente. O sabor é mais forte do que a couve que gostamos de comer no Brasil, mas como sou completamente louca por folhas verdes (minha comida preferida, junto com feijões), achei aquilo um manjar dos deuses. Lá na Toscana o pessoal gosta de prepará-lo em sopas e eles estão muito certos.

 5- Flores de abobrinha

Dentro da caixa de legumes orgânicos oferecida pelos meus amigos italianos também havia flores de abobrinha. Durante a colheita me perguntaram se eu queria algumas e eu respondi ‘sim’ sem hesitação. Era mais uma comida na minha lista de ‘quero muito provar’. Apesar de ter uma ideia de como essa iguaria é preparada na Itália (recheada, empanada e frita) decidi que além de exigir um esforço muito maior do que eu estava disposta a fazer durante as férias, uma receita tão elaborada assim não seria a ideal pra me fazer descobrir o sabor delicado das flores. Então preparei de maneira bem simples, refogadas no azeite com um pouco de alho, e servi com o macarrão delicioso que mencionei acima. As flores foram aprovadíssimas!

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6- Manjerona fresca

Na casa onde fiquei tinha um jardim com várias ervas pra perfumar as preparações culinárias que saiam da cozinha. Eu tenho costume de cozinhar com manjericão, alecrim e tomilho fresco, mas foi a primeira vez que tive manjerona fresca à disposição. Achei o sabor ainda mais complexo e delicioso do que a versão desidratada e ficou sublime no meu queijo de castanha e beterraba. Então fiz a seguinte anotação mental: ter um potinho com manjerona fresca na minha próxima casa.

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133A7247 133A7255 2014-10-25 13.39.077- Feira orgânica de Pisa

Graças aos meus amigos agricultores visitei a feira orgânica que acontece quinzenalmente em Pisa, pertinho da famosa torre. Além dos vegetais encontrei vários produtos veganos, como biscoitos, pães, tortas doces e salgadas, bolos, patês… Que felicidade ver que o veganismo está crescendo e comidas vegetais estão se tornando cada vez mais populares. Adorei a feira, mas gostei ainda mais do que aconteceu depois dela. Os agricultores que vendem seus alimentos ali têm uma tradição: no final da feira eles armam uma mesa enorme onde cada um compartilha um prato trazido de casa, em um alegre almoço coletivo. Tive a honra de ser convidada pra sentar à mesa, onde dividimos um pouco do farro preparado no dia anterior e pude degustar muitas delícias, já que a mesa estava cheia de opções 100% vegetais. E qual não foi a minha surpresa ao escutar pessoas ao meu redor perguntarem, antes de aceitarem um prato, se aquilo era vegano. Alguns dos agricultores/artesãos sentados ali eram veganos, o que fez meu coração se encher de alegria e provou mais uma vez que veganismo não é só pra uma parte rica da população, que tem dinheiro pra comprar comida cara e exótica em loja de produtos naturais.

8- Patê de alho poró

Na famosa feira tinha uma barraca com vários tipos de patês e molhos, feitos artesanalmente por uma cooperativa de mulheres. Alguns eram feitos só com vegetais e um deles me intrigou: patê de alho poró. Fazer patê com esse vegetal nunca tinha me passado pela cabeça, então depois de ler a lista de ingredientes pra me assegurar que aquilo era vegano, provei um pedacinho de pão com o tal patê que estava sendo oferecido pra degustação. Adorei! Infelizmente a empolgação pra provar o patê fez com que eu lesse a lista de ingredientes rápido demais e ao checar o potinho novamente, dessa vez com calma, me dei conta que tinha ‘acciuga’ ali e essa palavra significa ‘anchova’. Ai! Acontece desses incidentes na vida de uma vegana. Por razões óbvias não levei o patê pra casa, mas depois de conversar com a senhora que produzia os patês descobri que ela usava uma quantidade ínfima de anchova naquela preparação (‘Só um pouquinho’, ela me garantiu), então me animei pra fazer uma versão vegana na minha cozinha, já que acredito que o peixinho poderá ser substituído por um ingrediente vegetal de sabor forte (tenho algumas ideias…).

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9- Panforte

Mais uma receita tradicional toscana que, pra nossa grande felicidade, é geralmente vegana (algumas pessoas usam mel, então é preciso perguntar antes de degustar). Panforte é um doce feito com frutas secas, oleaginosas (geralmente amêndoas e avelãs), açúcar e farinha e é assado, tradicionalmente, em um forno à lenha. O resultado é mais denso e pesado do que um bolo, pois a quantidade de frutas secas é bem maior do que a de farinha, e se você me perguntar, ele é bem mais gostoso também. Um pedacinho é mais que suficiente pra adoçar a sua tarde. Na verdade eu já tinha provado panforte em outras visitas à Itália, mas aquele vendido na feira orgânica foi, de longe, o melhor de todos. Além de ser feito como manda o figurino (cozinho no forno à lenha), ele tinha uma mistura simples e harmoniosa de amêndoa, damasco, laranja e especiarias (além desses ingredientes só tinha mais farinha de trigo semi integral e açúcar na receita). Delícia com um café amargo. (Pra mim todo doce fica melhor com café amargo:)

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10- Torta de ceci

Também chamada de cecina (ou farinata em outros lugares da Itália), é mais uma especialidade italiana naturalmente vegana e absurdamente deliciosa. Eu sabia que preparações à base de farinha de grão de bico eram comuns em várias regiões da Itália e nessa última viagem à Toscana pude, enfim, degustar essa maravilha. Provei pela primeira vez durante o almoço coletivo depois da feira orgânica e quase caio da cadeira com a deliciosidade da coisa e com o sabor aparentado com ovo. Não sei o quem tem na danada da farinha de grão de bico, mas fica realmente parecido com um omelete, só que muito melhor e sem aquele cheiro característico que desagrada muitos nos omeletes tradicionais. No mesmo dia, passeando sem roteiro definido por Livorno, encontrei por acaso o lugar onde é feito a torta de ceci mais famosa da região. Empolgada pela recente descoberta decidi entrar, apesar de ainda estar com a barriga cheia do almoço na feira. Era uma sala pequena, aquecida pelo grande forno à lenha, sem nenhuma placa ou letreiro na entrada. Só descobri que ali se vendia torta de ceci porque fui seguindo, discretamente, as pessoas que passavam com uma na mão. O lugar estava abarrotado de nativos degustando suas cecinas em pé, pois não tinha mesa ali. E como também não tinha cardápio, apenas números escritos em uma pequena lousa, que só os entendidos entendiam, não soube o que dizer quando a minha vez de fazer o pedido chegou. Apontei pro que a pessoa do meu lado estava comendo e a dona do local insistiu pra que eu repetisse o meu pedido em italiano: “5 e 5 con melanzane”. “5 e 5” é um sanduíche típico de Livorno, recheado com torta de ceci. Tem o simples e o ‘con melanzane’, ou seja, com berinjela (frita). Foi um dos melhores sanduíches que já comi na vida e desde então sonho com ele.

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Quando descubro que em algum lugar a comida mais popular e barata, encontrada em todas as esquinas, é naturalmente vegana (torta de ceci em Livorno, falafel em vários países árabes, kushari no Egito…) eu sempre penso na maravilha que é ser vegana(o) nessas latitudes. E me convenço mais uma vez que se no Brasil, e em muitos lugares do mundo, a comida mais barata e fácil de ser encontrada nas ruas é cachorro-quente e outros sanduíches entupidos de produtos de origem animal, é por razões puramente culturais. Não é impossível ter comida vegana acessível e popular, mesmo entre os onívoros, como prova a culinária tradicional desses lugares.

Mas voltando à torta de ceci, fiquei fascinada com esse prato e pedi pra Marco, o companheiro de Giada, me ensinar a receita. Desde que voltei da Toscana tento reproduzir a gostosura que provei em Livorno, mas apesar de ter obtido resultados satisfatórios depois de algumas tentativas, minha torta de ceci nunca fica tão maravilhosa quanto a que provei em Livorno. Tenho certeza que o forno à lenha faz toda a diferença, mas também desconfio que a farinha de grão de bico usada na Itália seja mais fina. Essa receita é parecida com meu omelete de grão de bico (minha receita foi inspirada da original, à base de farinha de grão de bico), mas o resultado é diferente. Gosto dos dois, mas a receita que usa farinha de grão de bico ganha no quesito praticidade. Por isso decidi compartilhá-la aqui no blog. E também porque mesmo sem ter sido assada no forno à lenha e degustada nas ruas de Livorno, em uma tarde de outono toscano (o que multiplica o sabor da receita por 3), essa torta de ceci é muito gostosa. 

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Torta de ceci (omelete de grão de bico italiano)

Dependendo da sua farinha de grão de bico, você vai precisar de mais ou menos água. Meu amigo italiano usa três medidas de água pra cada medida de farinha, mas não tive muito sucesso seguindo essas indicações. Eu uso 2 medidas de água pra cada medida de farinha, mas talvez sua farinha precise de um pouco mais de água do que a minha. Só testando pra saber. Se demorar muito pra cozinhar e ficar muito mole, use menos água da próxima vez. Se a torta ficou pesada, use menos. Também uso menos óleo que o meu amigo, mas ele é um ingrediente importante pro sucesso da receita, então não aconselho usar menos do que a quantidade indicada abaixo. Ele me explicou que não usa azeite nessa receita porque ele interfere no sabor. A massa precisa descansar pelo menos 6 horas antes de ser preparada, então essa não é uma receita pra fazer de última hora. *Como algumas pessoas fizeram essa receita e tiveram dificuldade em descolar a torta de ceci da forma, recomendo que você forre a forma com papel manteiga antes de despejar a mistura.

2 x de farinha de grão de bico

4 x de água

5 cs de óleo vegetal neutro (uso girassol, mas meu amigo usa óleo de amendoim)

Sal e pimenta do reino a gosto

Despeje 1 x de água sobre a farinha de grão de bico e bata bem com um garfo pra dissolver os grumos. Quando a massa estiver bem lisa junte o resto da água, uma pitada generosa de sal e misture bem. Deixe descansando, coberto com um pano de prato limpo, por no mínimo 6 horas. Pode deixar descansando de um dia pro outro, mas se o tempo estiver quente não deixe sua massa descansar mais de 8 horas, pois ela vai fermentar (pode consumir a massa fermentada sem problemas, mas o sabor não é tão bom). Depois do descanso junte 4cs de óleo e misture novamente. Prove e ajuste o sal, se necessário. Forre uma forma ou placa média com papel manteiga, espalhe a última colher de óleo  e despeje a massa. A camada não deve ficar muito espessa, nem muito fina, então o tamanho da forma é importante. Leve ao forno médio/alto (não precisa pré-aquecer) e deixe assar até ficar bem dourado. Dependendo do forno isso vai levar de 45 minutos à 1 hora. A torta de ceci está pronta quando tiver bem dourada nas bordas e em cima. Se seu forno tiver a função ‘grill’, use nos últimos minutos pra deixar sua torta ainda mais corada. Polvilhe com pimenta do reino (de preferência moída na hora) e deixe esfriar um pouco, pra que ela fique mais firme e mais fácil de ser cortada, antes de degustar. Rende aproximadamente 4 porções.

Quando a saudade aperta

No último post eu disse que apesar de não ter planejado, acabei virando a rainha do makluba (veg). Meu relacionamento com ele começou em 2007, quando cheguei na Palestina. Descobri que era o prato nacional por ali e sempre que era convidada pra comer na casa de alguém, lá estava ele na mesa. Depois fui trabalhar no projeto de mulheres no campo de refugiados de Aida e aprendi, junto com os estrangeiros que participavam das aulas de culinária, a preparar o famoso prato. A versão tradicional é feita com frango, mas como muitos dos nossos ‘alunos’ eram vegetarianos/veganos, consegui convencer Islam (a coordenadora palestina do projeto e nossa cozinheira-mor) a preparar também uma versão 100% vegetal durante as aulas.

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Minha vizinha Violet, uma palestina cristã, me contou que os palestinos (cristãos) também preparam uma versão vegana do makluba. Os cristãos ortodoxos excluem todos os alimentos de origem animal do cardápio durante a quaresma, então aprendi com eles a fazer várias receitas veganas, adaptações dos pratos tradicionais feitos com animais. Tinha até uma padaria perto de casa que se tornava 100% vegana durante a quaresma. A  maior parte da clientela, assim como os donos, eram cristãos ortodoxos, então todos os biscoitos, bolachas e pães eram veganos nessa época do ano.

Mas voltemos ao makluba. Durante os cinco anos que morei na Palestina nunca passei mais de algumas semanas sem comer esse prato, sempre preparado com talento pelas minhas amigas, todas ótimas cozinheiras. Por isso só fui preparar o meu primeiro makluba depois de ter saído do país, alguns meses atrás. Foi meu amigo Bilal, um palestino refugiado da Síria, que me pediu pra preparar um makluba pra um grupo de 25 budistas. Algum monge budista tibetano estava dando palestras aqui em Bruxelas e a moça que organizou o evento nos contratou pra preparar três almoços pro pessoal. Então fui parar na pequena cozinha de Bilal, nós dois e um palestino de Gaza, e durante três dias preparamos juntos comida palestina vegana pra um grupo de belgas budistas, mais dois monges tibetanos, enquanto ouvíamos Fairuz e tomávamos chá. E acabei tendo que explicar dezenas de vezes que a cozinheira palestina era brasileira. Mais uma das situações deliciosamente absurdas nas quais me meto regularmente.

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E foi assim que fiz o meu primeiro makluba. Bilal tinha perguntado se eu sabia preparar o prato mais popular da culinária palestina e eu respondi que depois de ter visto tanto makluba sendo preparado na minha frente, com certeza eu sabia como fazer aquilo de olhos fechados, com as mãos amarradas nas costas e pulando num pé só. Mas depois de ter colocado tudo na panela bateu uma tremenda insegurança. Será que eu ia dar conta do recado? Será que o meu makluba seria tão bom quanto os que eu comia na Palestina? Só relaxei quando os dois palestinos presentes ali provaram e aprovaram a minha preparação.

A partir de então comecei a fazer makluba por todos os lados, em oficinas de culinária em Paris e aqui em Bruxelas. E quanto mais eu faço essa receita, mais prazer ela me dá.  Esse é um prato festivo, generoso, que sempre impressiona os convidados e arranca elogios de todos. Os ingredientes são simples, mas produzem um resultado espetacular. Um cruzamento de risoto com paella, mas com temperos árabes e desenformado como uma ‘tarte tatin’. Não é o tipo de receita que você faz numa terça-feira à noite, quando chega cansada do trabalho e quer comida na mesa o mais rapidamente possível.  Eu não vou mentir pra vocês: ele é longo e trabalhoso. Se você não tem paciência pra cozinhar deve passar longe dessa receita. Esse é um prato que deve ser preparado em ocasiões especiais, quando você tem várias horas pra passar na cozinha e várias pessoas pra degustar, e apreciar, o fruto dos seus esforços.

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Mas confesso que apesar de ser delicioso e de aumentar a minha quota de popularidade com os amigos, a razão que me faz adorar preparar makluba é outra. A primeira garfada costuma me levar de volta pra Palestina e sinto o cheiro da terra seca, o gosto do chá com sálvia e as vozes dos meus amigos, me contando histórias e dando gargalhadas. E enquanto a próxima viagem à Palestina não chega, é esse prato que me faz viajar pra lá quando a saudade aperta.

*Todas as fotos desse post foram feitas por Anne Paq.

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Makluba

Tradicionalmente esse prato é feito com frango, mas essa é a versão vegetariana/vegana que é consumida durante a quaresma pelos palestinos cristãos (mais informações no texto acima). Na Palestina se usa arroz comum, mas eu gosto de fazer essa receita com arroz basmati, pois o prato fica ainda mais perfumado. Minha versão também é mais leve pois não frito os legumes mergulhados no óleo quente, como é feito por lá. Se quiser aumentar a quantidade de proteína do seu makluba (e ter uma proteína vegetal completa) junte grão de bico cozido à receita (2 xícaras, no momento em que colocar os legumes fritos na panela). Não é nem um pouco tradicional, mas vai deixar o seu prato ainda mais robusto. Na Palestina tem sempre um pratinho de hummus na mesa, então não falta proteína (vegetal e completa) na dieta deles, mesmo durante a quaresma:)

250g de arroz (comum ou basmati)

2 berinjelas médias

1 couve-flor grande

2 cenouras médias

4-6 tomates maduros

1 cebola grande

4-6 dentes de alho

1cc de cada especiaria (em pó): cominho, semente de coentro, paprica suave, cúrcuma

Sal e pimenta do reino a gosto

Azeite

Um punhado de amêndoas em lascas, tostadas, e/ou um punhado de salsinha picada (opcional)

-Deixe o arroz de molho, na água fria, durante uma hora (pode deixar mais tempo, se quiser).

-Prepare os legumes. Corte as berinjelas em fatias de espessura média, no sentido do comprimento (com a casca). Salgue generosamente e deixe descansar enquanto você prepara o resto dos ingredientes. Corte as cenouras em fatias e a couve-flor em buquês pequenos. Corte a cebola em fatias, no sentido vertical. Pique ou amasse o alho. Corte os tomates em fatias grossas (quatro fatias por tomate).

-Enxugue as fatias de berinjela com papel absorvente (o sal faz com que ela solte um pouco da própria água). Em uma frigideira grande aqueça uma camada fina de azeite e frite as fatias de berinjela, deixando dourar bem dos dois lados. Regue a couve-flor com azeite e tempere com sal. Asse em forno médio até ficar ligeiramente dourada. Depois de ter dourado toda a berinjela, faça a mesma coisa com a cenoura, juntando um pouco mais de azeite sempre que colocar uma nova camada de legumes na frigideira. Reserve os legumes fritos/assados separadamente.

-Por último doure a cebola em mais um pouco de azeite, junte o alho e deixe cozinhar mais alguns segundos. Acrescente todas as especiarias e uma pitada generosa de sal. Quando o perfume das especiarias ficar mais intenso desligue o fogo.

-Escorra o arroz e tempere com 1/2 cc de sal (ou a gosto).

-Agora chegou a hora de montar o makluba. Use uma panela grande o suficiente pra caber todos os ingredientes com sobra (lembre-se que o arroz aumenta de volume depois de cozido), de preferência com o fundo grosso. Cubra o fundo e metade das laterais da panela com as fatias de tomate e tempere com uma pitada de sal. Distribua os legumes sobre os tomates, nessa ordem: mistura de cebola/alho/especiarias, berinjela, couve flor e, por último, a cenoura. Tempere os legumes com sal à medida que for distribuindo as camadas. Cubra os legumes com o arroz escorrido e compacte ligeiramente com as costas de uma colher.

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-Acrescente água suficiente na panela pra cobrir tudo e passar aproximadamente 1,5 cm do nível do arroz. Leve ao fogo alto até começar a ferver, tampe e deixe cozinhar em fogo baixo. O makluba está pronto quando o arroz estiver bem macio e quase todo o líquido tiver evaporado (use uma colher pra empurrar um cantinho do makluba pro lado e checar o nível de líquido). É importante que ainda tenha uma certa quantidade de caldo no fundo da panela, pro prato ficar suculento. Mas se o arroz estiver totalmente cozido e ainda tiver líquido demais na panela, aumente o fogo e deixe cozinhar descoberto por alguns minutos.

-Depois de pronto, deixe o makluba descansar, tampado, por 5 minutos. Em seguida cubra a panela com uma travessa ligeiramente maior e vire o makluba de cabeça pra baixo. O chef palestino Sami Tamimi jura que se na hora de virar a panela todos os membros da família colocarem a mão sobre ela, como estamos fazendo numa das fotos acima, e esperar 3 minutos, ele desenforma perfeitamente. Não custa nada tentar e é divertido . Se o seu makluba não desenformar direitinho, nada tema. Use uma colher pra ‘descolar’ o que ficou grudado no fundo da panela. Ele ficará menos atraente, mas o sabor será o mesmo.

-Sirva imediatamente, decorado com amêndoas tostadas e/ou salsinha picada (optional) e acompanhado de uma salada crua (tomate+pepino+salsinha+hortelã, tudo bem picadinho, como nas fotos) ou, melhor ainda, com uma salada árabe. Rende 4-6 porções. 

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O caldo vegano que cura resfriado

Eu tenho um sério problema com missô. Tudo começou de maneira inofensiva. Comprei um potinho dessa pasta de soja fermentada, um ingrediente tradicional da culinária japonesa, pra fermentar o meu queijo de castanhas. Depois comecei a usar em vinagretes e outros molhos pra salada. Depois comecei a usar na sopa, no lugar do caldo de legumes. Depois comecei a fazer uma sopa de missô com soba e couve que se tornou minha obsessão nos últimos meses, ao ponto de ter me surpreendido degustando a danada no café da manhã (quem precisa de papa de aveia quando se pode tomar sopa de missô às 7 da manhã?). Antes um pote de missô durava meses na minha geladeira. Hoje devoro um pote de 300g por semana.

Tem alimentos que te conquistam na primeira garfada (ou colherada). Outros precisam entrar em contato com as suas papilas várias vezes antes de desenvolvermos afinidades com ele. Eu flertei com missô durante dois ou três anos antes de me enamorar verdadeiramente por ele, mas alguns meses atrás fui invadida por uma paixão avassaladora. Só de pensar nele fico com a boca cheia d’água. Às vezes abro o pote só pra ter o prazer de inalar aquele cheiro maravilhoso. Às vezes eu acaricio o pote enquanto faço barulhos estranhos. Eu disse que o meu problema com missô era sério.

Resisti postar a receita da sopa da foto acima durante semanas. Por um lado tento publicar receitas acessíveis e que possam ser apreciadas por todos, mas também adoro dividir minhas descobertas gastronômicas e minhas obsessões culinárias com vocês. Tenho a esperança de que se a receita tiver ingredientes difíceis de encontrar ou se os sabores não agradarem a maioria, pelo menos vocês puderam descobrir ingredientes interessantes e, quem sabe, se sentiram inspirados. Mas mesmo imaginando que você encontrará todos os ingredientes exóticos usados na receita, essa sopa, que batizei de ‘sopa de missô especial’ (porque uso toda a minha criatividade pra desenvolver receitas e não me sobra nada na hora de escolher um nome pra elas), só fará sucesso com um grupo pequeno de pessoas. Sabe quando fico extremamente empolgada com uma receita e saio gritando aos quatro ventos que ela é a melhor ___ do mundo ou que ela vai mudar a sua vida? Eu também sei reconhecer quando uma receita vai agradar poucos e me sinto na obrigação de avisar.

Não que minha sopa seja ruim, de maneira alguma! Mas sopa de couve com macarrão de trigo sarraceno e algas não é o tipo de coisa que empolga muita gente. Imaginem uma multidão em pé em alguma praça pública esperando, digamos, o ônibus. Agora imaginem que alguém grita: “Cookies!”. Todo mundo corre pra lá. Imaginem então que outra pessoa grita: “Bolo de chocolate!”. O pessoal que correu pra comer os cookies não vai conseguir se decidir, querendo comer os cookies e o bolo de chocolate. Nesse momento só sobrou a minha pessoa na praça, cantando Leonard Cohen baixinho, me balançando de um lado pro outro e esperando o ônibus. Agora imaginem que chega um cozinheiro com tendências macrobióticas e grita: “Sopa de missô com soba e algas!”. Além de mim, mais alguém corre? Acho difícil… Melhor pra mim, que ganhei um caldeirão de sopa, mas o que estou tentando dizer aqui é: de que adianta publicar receitas que não vão interessar muita gente?

caldo missô

Aqui vai a minha justificativa: descobri que missô cura resfriado. Semana passada senti meu corpo enfraquecendo, meu nariz começou a escorrer e eu sabia que a gripe estava chegando. Decidi tomar caldo de missô, duas vezes por dia, durante alguns dias e fiquei impressionada com os resultados. O reconforto foi imediato, mas dois dias depois de ter começado o ‘tratamento’ todos os sintomas tinham desaparecido. Claro que o fato de ter ficado em casa, de molho, e de ter me alimentado bem contribuiu pra trazer minha saúde de volta, mas o missô ajudou muito. Eu achava que as bactérias boas que moram no missô e que reforçam a flora intestinal eram responsável pela proeza, mas descobri que o poder do missô vai mais além: ele alcaliniza e mineraliza o organismo. Ou seja, ele tem tudo que o seu corpo precisa pra ficar fortinho e lutar contra os vírus que passeiam livremente e loucamente durante o inverno (lembrem-se que estamos no inverno aqui onde moro). Descobri o equivalente vegano da canja de galinha e além de ser 100% vegetal e eficaz, tem um imenso bonus: ele fica pronto em segundos. Uma dica importante: pra obter todos esses benefícios compre unicamente missô não pasteurizado (e, pelas caridades, sem glutamato monossódio!), pra que as bactérias do bem cheguem vivinhas no seu novo lar (seu estômago). Procure em uma loja de produtos macrobióticos ou orgânicos e leia o rótulo com atenção. Um missô de qualidade pode parecer caro, mas garanto que o investimento vale a pena.

Depois que descobri as maravilhas do caldo de missô passei a consumir regularmente, com ou sem resfriado. Gosto de acrescentar uma colher de algas em flocos no meu caldo e acho o sabor divino. O salgado do missô e o sabor marinho das algas se misturam e pra mim é como beber o mar, só que mais gostoso. E sentir esse mar quentinho escorrendo corpo adentro, em pleno inverno europeu, é um prazer imenso.

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Caldo missô que cura resfriado (e leva o mar pra dentro do corpo)

Uso algas principalmente pelo sabor, mas elas também acrescentam uma pitada de proteínas e minerais ao seu caldo, o que é muito bem-vindo. Minha preferida aqui é dulse, que sempre compro em flocos. Se você tiver folhas de nori em casa pode picar miudinho (com uma tesoura) e também fica muito bom. Porém se você não tiver nenhum tipo de alga, nada tema. Esse caldo é gostoso sem elas e vai curar o seu resfriado do mesmo jeito. Importante: use água quente, mas não fervente. Se você usar água fervente vai matar as bactérias do bem que moram no missô e que vão reforçar sua flora intestinal (e o seu sistema imunológico).

1/2-1 cs de missô (qualquer um que seja do tipo escuro)

1cc de algas em flocos (opcional, veja dicas acima)

água quente (não fervente)

Coloque o missô em uma caneca. A quantidade vai variar de acordo com o seu missô: alguns são bem salgados (use só 1/2cs) outros são mais suaves (use 1cs).  Junte o equivalente à 2cs de água quente (não fervente) sobre o missô e misture bem pra dissolve-lo. Acrescente as algas, se estiver usando, e complete com mais água quente, até encher a caneca. Misture e sirva imediatamente. Rende uma porção.

E se sopa missô for a sua praia…

Sopa missô especial

O ponto de partida foi as sopas missô que provei em restaurantes japoneses, mas de maneira alguma essa receita é tradicional. Pra deixar a sopa mais nutritiva, uso um pouquinho de tofu ou tempeh. Descobri tempeh a pouco tempo e me apaixonei (outro dia falo mais sobre esse alimento), mas tofu é mais tradicional. Uso macarrão soba feito com 100% de farinha de trigo sarraceno, que além de ser mais saboroso (pra mim) tem a vantagem de não ter glúten. Mas se você só encontrar soba feita com uma mistura de trigo e trigo sarraceno, não tem problema. Gosto de usar aqui um missô feito com soja e arroz, ou soja e cevada, mas você pode usar qualquer missô escuro (de sabor mais forte que os missôs claros). Eu gosto de usar as folhas externas de repolho verde, que é um cruzamento entre um repolho comum e uma couve (tanto na textura quanto no sabor), mas kale, essa couve frisadinha que está na moda nos States, também fica uma delícia.

1cs de azeite (eu uso óleo de coco sem cheiro, de sabor totalmente neutro)

1 cebola pequena, picada

2 1/2x de couve, repolho verde ou kale, cortado em fatias finíssimas

2cs cheias de algas em flocos (dulse, wakame, nori ou uma mistura das três)

6x de água (aproximadamente 1 1/2 litro)

50g de soba (macarrão japonês feito com trigo sarraceno)

2-3cs de missô escuro (dependendo do seu gosto e do tipo de missô utilizado)

Um punhado de tofu em cubinhos (na foto acima usei tempeh)

1cs de azeite

1cs de shoyu

Em uma panela média aqueça 1cs azeite (ou óleo) e doure a cebola. Junte a couve (ou a folha que estiver usando) e refogue durante alguns segundos. Tampe a panela e deixe cozinhar em fogo baixíssimo durante alguns minutos (não precisa acrescentar água, o vapor que sai do legume é suficiente), até amaciar e reduzir de volume. Junte as algas e a água e aumente o fogo. Quando começar a ferver junte o macarrão soba e cozinhe até ele ficar cozido (esse tipo de macarrão cozinha em poucos minutos, então fique de olho). Desligue o fogo e deixe descansar, coberto, enquanto você prepara o tofu. Aqueça 1cs de azeite em uma frigideira e doure os cubinhos de tofu. Tempere com o shoyu, mexa bem e reserve.  Em um recipiente pequeno dissolva o missô com algumas colheradas da sopa (só o líquido). Despeje a mistura na panela e misture bem. Prove e junte mais missô se achar que a sopa precisa de mais tempero (essa sopa não leva sal nem pimenta e todo o tempero vem do missô). Sirva imediatamente, polvilhado com os cubinhos de tofu. Rende 2 porções como prato principal ou 4 como entrada.

Salada agridoce de lentilha, repolho e maçã

A dica do Guia Papacapim de alimentação saudável desse mês é “Faça do feijão uma presença obrigatória no seu cardápio diário”, por isso decidi postar mais receitas que incluam leguminosas por aqui durante as próximas semanas. Não que o blog não esteja recheado de receitas com feijões, grão de bico e lentilha, basta espiar a página ‘Receitas’ pra se dar conta disso, mas acho essa categoria de alimentos tão essencial que estou sempre procurando maneiras criativas de prepara-los pra que eles apareçam ainda mais na minha mesa.

Dentre as leguminosas a lentilha é provavelmente a mais prática, pois não precisa ficar de molho antes de ser preparada e não precisa da panela de pressão pra cozinhar. Eu sempre fui fã de lentilha, mas desde que me tornei vegana e, principalmente, desde que me mudei pra Palestina, meu consumo de lentilha quadruplicou. Conheço muitas famílias no campo que comem lentilha com muito mais frequência do que carne, pois o quilo da carne vermelha aqui custa em torno de 35 reais, enquanto um quilo de lentilha custa 4 reais. Por aqui a lentilha é chamada de ‘a carne do pobre’ e isso sempre me faz pensar no mito de que ser vegetariano é mais caro, o que tanta gente repete por aí…

Muitas luas atrás preparei um prato (de inspiração holandesa) com repolho roxo, maçã e vinho tinto. Achei o prato gostoso, mas como ele não fez muito sucesso com a outra moradora daqui de casa, nunca repeti a receita. Porém fiz a seguinte anotação mental: repolho e maçã cozidos + uma ponta de acidez = ótima ideia. Precisei de alguns anos pra utilizar a combinação novamente, mas essa salada de lentilha ficou tão boa que fiquei um pouco aborrecida comigo mesma por não ter colocado a ideia em prática mais cedo.

Essa salada usa ingredientes simples, mas o que a torna realmente especial é a quantidade ligeiramente elevada de vinagre. Por isso é extremamente importante usar um vinagre de boa qualidade aqui. Ela consegue misturar os sabores doce, salgado e ácido de maneira harmoniosa e foi um sucesso imediato com as minhas papilas. Mas um aviso: se agridoce não é a sua praia, talvez essa receita não seja pra você. Mas dessa vez todos os habitantes da minha casa aprovaram o prato…

 salada agridoce de lentilha, repolho e maçã2

Salada agridoce de lentilha, repolho roxo e maçã (vegana, sem glúten)

1/2x (120g) de lentilha crua

1-2 folhas de louro

1 1/2x  (120g) de repolho roxo, cortado em fatias finíssimas

1 cebola, picada

1 maçã, picada em cubos médios (com a casca)

2-3 dentes de alho, amassados/ralados

1cs de passas

4cs de azeite

3cs de vinagre de maçã ou vinho (de boa qualidade)

Sal (de preferência esse sal com salsão) e pimenta do reino a gosto

2cs de cebolinha verde picada (só o verde, opcional)

Em uma panela média cubra a lentilha com 3x de água fria. Junte as folhas de louro, sal (uso aproximadamente 1/2cc rasa) e leve ao fogo alto. Quando começar a ferver baixe o fogo e deixe cozinhar semi-coberto até a lentilha ficar macia, mas ainda al dente. Cuidado pra não cozinhar demais, senão a lentilha vai se desintegrar na salada. Escorra (descarte as folhas de louro) e reserve.

Enquanto a lentilha cozinha, prepare o resto dos ingredientes da salada. Em uma frigideira grande e funda aqueça 1cs de azeite e doure a cebola. Junte a maçã e o alho e cozinhe 2 minutos em fogo alto, mexendo uma ou duas vezes, pra que a maçã comece a dourar. Junte o repolho, baixe o fogo e cozinhe coberto até a maçã amolecer um pouco.

Quando a maçã e o repolho estiverem macios junte as passas, tempere com sal com salsão (ou sal comum), uma pitada generosa de pimenta do reino, regue tudo com 2cs de vinagre e cubra a frigideira (o vapor do vinagre vai irritar os seus olhos, então se afaste um pouco). Espere o vinagre evaporar completamente (alguns segundos são suficientes) e desligue o fogo.

Despeje a lentilha cozida e escorrida na frigideira, regue com 3cs de azeite, mais 1cs de vinagre e misture bem. Prove e corrija o sal e a pimenta do reino, se achar necessário. O sabor deve ser ligeiramente ácido, mas não muito, e bem marcante, então ajuste o tempero de acordo com o seu gosto. Polvilhe com a cebolinha picada, se estiver usando, e sirva a salada ainda morna. Rende 2 porções como prato principal ou 4 porções como acompanhamento.

 

Ensopado marinho 2

Expliquei uns tempos atrás que minha receita de massa com couve-flor assada e molho de nozes é o que sirvo sempre que tem convidados onívoros em casa, pois ela nunca decepciona. Mas no meu repertório de receitas ‘onívoro-friendly’ tem uma ainda mais simples, mas que sempre agrada: meu ensopado marinho. Essa foi uma das primeiras receitas que publiquei no blog e até hoje o pessoal me escreve dizendo o quanto gostou desse prato. Embora minha massa seja mais sofisticada, o ensopado marinho é com certeza o meu maior sucesso com a família brasileira. O ingrediente principal é o humilde repolho, mas o resultado final é tão saboroso que ninguém adivinha que aqueles pedacinhos de coisa gostosa são na verdade esse legume singelo.

Fiz esse prato em várias ocasiões aqui na Palestina e ele foi aprovado por amigos estrangeiros, palestinos e israelenses. E embora eu ainda use a mesma receita, uns tempos atrás comecei a acrescentar um pouquinho de algas (nori ou wakame) pra intensificar o sabor marinho do ensopado. Também resolvi aumentar a quantidade de proteína do prato juntado uma xícara de grão de bico cozido. Hoje gosto das duas versões, com e sem grão de bico, mas sempre com um pouco de algas marinhas.

Como a receita apareceu por aqui anos atrás e acredito que muitos leitores não a conhecem ainda, resolvi escrever sobre ela novamente e compartilhar com vocês a versão mais atual do prato. Os leitores que testaram a receita em casa ficaram encantados, então se você chegou por aqui há pouco tempo e ainda não conhecia esse prato, não deixe de experimentar.

ensopado marinho2

Ensopado marinho 2 (vegano, sem glúten)

Como expliquei na receita original, o segredo do sucesso aqui é cortar o repolho o mais fininho possível. Nessa versão troquei o caldo de legumes por molho de soja, pois sei que alguns leitores não conseguem encontrar caldo industrializado sem conservantes. Porém se você tiver acesso a caldo de legumes orgânico, substitua o molho de soja por um cubo de caldo e a receita ficará ainda melhor. Se preferir uma versão mais leve, pra ser servida como entrada, deixe o grão de bico de fora. O prato ficou com uma cor puxada pro verde porque usei coentro picado e congelado (não tinha fresco em casa) e ele acabou se desfazendo no molho. Não façam como eu: usem coentro fresco! O sabor será melhor e a aparência do seu ensopado será bem mais atraente.

1 cebola grande, em fatias

1 pimentão vermelho, em fatias

1 pimentão verde, em fatias

4-6 dentes de alho, ralados/amassados

500g repolho branco, cortado em fatias finíssimas

4 tomates grandes, em fatias

1x de grão de bico cozido (na água salgada)

1 folha de alga nori, tostada* e esfarelada (opcional)

2x de leite de coco

2cs de molho de soja (shoyu)

1 punhado de castanha de caju (aproximadamente 1/3x), de molho por pelo menos 6 horas

1x de água

1cc cheia de amido de milho (maizena)

2cs de azeite

Sal e pimenta do reino a gosto

Um punhado generoso de coentro

-Em uma panela larga aqueça 2cs de azeite e doure a cebola e os pimentões. Junte o alho e deixe cozinhar mais alguns segundos antes de acrescentar o repolho. Mexa bem, cubra e deixe cozinhar alguns instantes em fogo alto, mexendo de vez em quando. É preciso cozinhar o repolho no fogo forte pra que ele caramelize um pouco e ganhe uma cor ligeiramente dourada, mas fique por perto e mexa frequentemente pra não queimar.

-Junte o tomate, grão de bico, alga nori (se estiver usando), leite de coco e molho de soja. Deixe cozinhar coberto (fogo baixo), até o tomate começar a se desfazer.

-Enquanto isso coloque a castanha de caju escorrida, a água e o amido de milho no liquidificador e triture até não sobrar mais nenhum pedacinho de castanha inteiro (esfregue um pouco do líquido entre os dedos pra ter certeza).

-Despeje o leite de castanha na panela e cozinhe mais alguns minutos, até o creme engrossar. Tempere com pimenta do reino a gosto e corrija o sal. Junte o coentro picado, desligue o fogo e deixe descansar coberto durante 5 minutos antes de servir. Sirva acompanhado de arroz. Rende 4-6 porções como prato principal.

*Pra tostar a folha de nori segure-a com um pegador de macarrão e passe a alga alguns centímetros acima da chama do fogão até ela ganhar uma cor brilhante e intensa e ficar bem crocante. Deixe esfriar alguns instantes e esfarele a alga entre os dedos.

Gratin de batata e cogumelo

gratin batata cogumelo2

Muitas, muitas luas atrás publiquei minha receita de gratin dauphinois vegano. Ainda gosto muito desse prato, mas batata sozinha nunca é muito excitante pra mim, então criei uma versão mais interessante.  Batata e cogumelo nasceram um pro outro!

Eu adoraria utilizar cogumelos selvagens, como os exóticos e perfumados cogumelos que encontro quando estou na França, mas por aqui isso é impossível. Os únicos cogumelos que encontro em Belém são os brancos (champignon ou cogumelo de Paris), que não são nem de longe os mais saborosos. Mas descobri que se eu mistura-los com um pouquinho de cogumelos selvagens desidratados o prato se transforma completamente. Então sempre que passo pela França compro alguns potinhos dos meus cogumelos preferidos desidratados (cèpes, chanterelles, morilles, trompettes-de-la-mort…) e posso preparar gratins e risotos de cogumelo sublimes o ano inteiro. Desde que descobri esse truque, misturo sempre cogumelos frescos com cogumelos desidratados e assim aproveito o melhor dos dois lados: o sabor intenso dos cogumelos desidratados e a textura suculenta dos cogumelos frescos.

Nessa receita uso somente 15g de cogumelos desidratados, mas é impressionante como uma quantidade tão pequena desse ingrediente faz uma diferença tão grande. O delicioso sabor do cogumelo penetra na batata macia e tudo é envolvido em uma camada generosa do meu voluptuoso creme de castanhas. Aconselho degustar esse gratin em uma noite fria, junto de uma pessoa que você ama, e vocês se sentirão envolvidos em um cobertor de aconchego, enquanto borbulhas de alegria invadem seus estômagos.

Se você perdeu o post sobre minha receita de espinafre com creme, onde explico em detalhes porque o meu creme de castanhas de caju é a melhor invenção depois da roda, vou relembrar os pontos mais importantes. Meu creme de castanhas tem exatamente metade das calorias do creme de leite de vaca, metade da gordura, somente 13% da gordura saturada e ZERO colesterol. E ainda é rico em proteínas e ferro, duas coisas que não estão presentes no creme de leite de vaca (creme de leite é praticamente só gordura e gordura, junto com açúcar, são os dois únicos alimentos desprovidos de proteínas). Estou fazendo uma campanha pra que as pessoas parem de temer a gordura/calorias das oleaginosas e incluam esses alimentos extremamente nutritivos no cardápio. Não deixe de ler esse post pra entender melhor os benefícios das oleaginosas. E se você ainda não testou meu espinafre com creme, só posso dizer uma coisa: quem provou, adorou.

 gratin batata cogumelo

Gratin de batata e cogumelo

Quando reidrato cogumelos secos sempre aproveito a água na receita: esse líquido é absolutamente delicioso e seria uma pena (um crime!) joga-lo fora! Aqui o líquido entra na composição do creme de castanhas e deixa o gratin ainda mais saboroso.

4 batatas médias (aprox. 800g), descascadas e cortadas em rodelas de espessura média

1 cebola grande, em fatias finas

2-4 dentes de alho, ralados/amassados

300g de cogumelos brancos frescos, em fatias finas

15g de cogumelos escuros secos (shitake, porcini ou uma mistura)

1x de castanha de caju, de molho por 6 horas (ou mais)

1cc de amido de milho (maizena) ou fécula de araruta

1/4cc de noz moscada ralada

1cs de azeite

Sal e pimenta do reino a gosto

Castanhas do Pará raladas, pra polvilhar (opcional)

Ferva 1x de água e despeje sobre os cogumelos secos. Deixe hidratar por meia hora. Enquanto isso prepare os legumes. Cozinhe as batatas no vapor ou na água salgada até elas começarem a amolecer, mas retire do fogo antes que cozinhem completamente. Escorra os cogumelos secos, reservando todo o líquido, e pique finamente. Coloque a castanha escorrida (reserve a água), o amido de milho, a noz moscada e uma pitada generosa de sal no liquidificador. Cubra com o líquido dos cogumelos mais 2x de água (utilize a água onde as castanhas ficaram de molho e complete com mais água até obter 2x). Triture até a castanha se desintegrar completamente (esfregue um pouco do líquido entre os dedos pra conferir).  Aqueça o azeite em uma panela grande e doure a cebola. Junte o alho e deixe cozinhar mais 30 segundos. Despeje os cogumelos frescos, tempere com uma pitada generosa de sal e cozinhe, mexendo de vez em quando, durante alguns minutos (só o suficiente pros cogumelos começarem a murchar). Acrescente os cogumelos secos hidratados e as batatas pré-cozidas e salgue a gosto (se você cozinhou as batatas na água salgada, provavelmente não precisara juntar mais sal). Junte o creme de castanha, mexa pra que todos os legumes fiquem envolvidos em creme e deixe cozinhar em fogo baixo até o creme começar a borbulhar. Prove o creme e corrija o tempero, se necessário. Transfira tudo pra uma travessa de vidro. A minha tem 20cmx29cm, com 5cm de altura e é perfeita pra essa receita (o que vocês veem nas fotos são os restos do gratin, que transferi pra uma travessa menor na hora de requentar). Polvilhe generosamente com pimenta do reino (melhor se for moída na hora) e leve ao forno médio. O gratin está pronto quando as batatas estiverem extremamente macias (teste com a ponta de uma faca) e ligeiramente douradas (no meu forno leva entre 20-30 minutos). Se seu forno tiver a função grill (o meu tem!), passe o gratin pronto alguns minutos sob o grill pra que ele fique ainda mais dourado e forme uma casquinha crocante no topo. Sirva bem quente, polvilhado com castanhas do Pará raladas (eu não tenho castanha do Pará em casa no momento e o gratin da foto estava sem) acompanhado de uma salada verde simples. Rende 4 porções.

*Pra complementar a refeição: Pra deixar a refeição equilibrada do ponto de vista nutricional acrescente um prato à base de leguminosas, acrescente um prato à base de leguminosas, como essa salada de lentilha e pera ou essa salada de vagem, tomate e espinafre, por exemplo.

É bom variar

pasta de grão de bico e tomate seco
Pasta de grão de bico com tomate seco e alho assado

Muito obrigada pelas mensagens de solidariedade e apoio que vocês deixaram no meu último post. Como a ideia de viver de amor e hummus agradou algumas pessoas, acho que esse é um bom momento pra dividir com vocês uma variação da pasta mais amada no mundo (no meu mundo, pelo menos).

O hummus clássico, que ensinei a fazer aqui, é pra mim tão perfeito que não vejo sentido nenhum em alterar a receita. Às vezes vejo na internet receitas de hummus com ervas, com azeitonas, com beterraba e fico pensando na reação dos meus amigos palestinos se eu ousasse servir um negócio desses pra eles. Claro que eles gritariam “Sacrilégio!” e provavelmente se recusariam a provar a contrafação. Não me entendam mal, eu sou totalmente a favor da criatividade na cozinha e vivo adaptando receitas. Mas o hummus é tão delicioso do jeitinho que eles fazem aqui que embora eu me aventure vez ou outra com versões criativas dessa receita (a prova com esse pseudo-hummus com pimentão grelhado), sempre acabo voltando pra original.

Mas o segredo da gostosura do hummus é a tahina (ou tahine), essa pasta de gergelim que dá a cremosidade e o sabor típico ao prato e alguns leitores me escreveram dizendo que não é fácil encontrar esse ingrediente onde moram (ou que ele custa uma fortuna). Por isso pensei em sugerir mais uma alternativa de pasta à base de grão de bico sem a danada da tahina.

Quem gosta de tomate seco vai adorar a receita, mas se essa não for a sua praia fique longe dela, pois esse é o sabor que predomina no produto final. Eu adoro tomate seco, principalmente os que não são conservados no óleo (dependendo do óleo usado os tomates podem adquirir um sabor não muito agradável). E como também adoro alho assado, combinei esses dois ingredientes com o grão de bico, que tem um sabor bem neutro, pra criar uma pasta saborosa, simples e que fica pronta em poucos minutos (se o seu grão de bico já estiver cozido, claro).

Melhor do que o meu amado hummus? Não, mas é bom variar de vez em quando.

pasta de grão de bico e tomate seco2

Pasta de grão de bico com tomate seco e alho assado

Essa pasta é um ótimo recheio pra sanduíche. Espalhe uma camada generosa em um bom pão (de preferência integral e com cereais) ligeiramente tostado e acrescente os vegetais que mais gostar: tomate fresco, pepino, rúcula, palmito, berinjela ou abobrinha grelhada, alcachofra… Alho assado se transforma totalmente e o sabor fica muito suave, por isso não se assuste com a quantidade de alho dessa receita.

1x de grão de bico cozido

2cs de tomate seco picado

1 cabeça de alho (você só vai usar a metade)

1cs de suco de limão

2cs+ 1cc de azeite

Uma pitada de orégano ou manjericão (ou uma mistura de ervas finas) desidratado

Sal e pimenta do reino a gosto

Corte o topo da cabeça de alho (do lado contrário da raiz), só o suficiente pra expor alguns dos dentes e regue com 1cc de azeite. Leve ao forno alto (coloco diretamente sobre a grelha) e deixe assar alguns minutos, até a parte exposta do alho ficar dourada e o interior macio (teste inserindo a ponta de uma faca). Retire o alho do forno e deixe esfriar um pouco. Coloque o grão de bico cozido, o tomate seco, o suco de limão, o azeite e as ervas no liquidificador. Esprema metade da cabeça de alho* por cima (basta apertar cada dente de alho entre os dedos pra polpa macia se liberar), tempere com sal e pimenta do reino a gosto e junte 4cs de água. Bata a mistura até ficar homogênea, juntando um pouco mais de água (1cs por vez) até atingir a consistência de um creme espesso. Prove e corrija o tempero (talvez você queira colocar um pouco mais de limão, de azeite ou de sal). Rende um pouco mais de 1x. Se conserva alguns dias na geladeira.

*Misture a polpa da outra metade da cabeça de alho com 1-2cs de azeite, sal e pimenta do reino e passe essa pastinha no pão tostado. Delícia!

 

17 pratos em 3 dias

Bolo salgado Assado de lentilha (clique na foto pra ver melhor).

Foi isso que fiz essa semana. Eu já falei em algum post que tenho uma vizinha américo-palestina que visita o país duas vezes por ano pra fazer shows (ela faz “stand-up comedy”) e que sempre me contrata pra preparar todas as suas refeições durante a estada. Ela está aqui no momento, mas dessa vez está hospedada em Ramalla (cidade no norte da Cisjordânia) por isso tive que preparar todas as suas refeições de uma vez. Coloquei a comida em marmitas de alumínio e ela congelou tudo pra ir comendo aos poucos. Maysoon adora os pratos que invento e a coisa que mais gosto na minha profissão, se é que posso me considerar uma profissional da cozinha, é encher a barriga das pessoas de alegria, mas que trabalheira danada! Ainda não consegui dar cabo da louça suja e mesmo depois de uma boa noite de sono e três canecas de café me sinto completamente esgotada. Além do trabalho intenso e das intermináveis horas em pé, a maratona culinária contou com a participação de dois blocos de tofu podres que empestaram a casa durante dias, uma batata malcheirosa supurante que se escondeu embaixo da cesta de frutas e me vez achar que tinha um rato morto na cozinha, até eu descobrir a origem do bodum, gatos pulando na pia em busca de comida e derrubando minhas preparações no chão, algumas micro varizes e muito mau humor. Sobrevivi, mas não aconselho ninguém a aceitar uma missão dessas.

O lado positivo é que meu congelador está cheio de restos e não precisarei cozinhar novamente durante vários dias. E, apesar do caos, consegui criar novas receitas de cair pra trás! Gostaria de dividir vários pratos com vocês, mas no meio da confusão não pude fotografar nada. E os restos que dormem no congelador vão sair de lá tão feinhos que vai ser difícil convencer vocês que aquilo é gostoso. Mas consegui guardar um pedaço de bolo salgado de lentilha na geladeira e ele ainda está atraente o suficiente pra aparecer nas fotos.

Esse bolo salgado foi improvisado ontem à tarde, como solução pra um problema que encontro com frequência aqui: falta de ingredientes. Eu queria fazer croquetes de lentilha com chutney de manga, mas as mangas ainda não chegaram na feira e tive que adaptar a receita. Como eu nunca tinha feito bolo salgado de lentilha, decidi me aventurar por esse território desconhecido. Sem receita, porque gosto de viver perigosamente. Felizmente deu tudo certo e aqui estou pra dividir a receita com vocês.

Está cada vez mais difícil cozinhar e fotografar comida em paz nessa casa…

Meu bolo, além de delicioso e extremamente nutritivo, pode ser servido de várias maneiras. Ele faz papel de prato principal, pode se transformar em recheio pra sanduíche, em aperitivo (nesse caso corte em cubinhos e sirva espetado em um palito)… Acabo de comer três fatias geladas, com um café forte. Talvez eu tenha gostos estranhos (sempre gostei de comer pizza fria com café no café da manhã), ou talvez meu bolo seja tão gostoso que fique bom de qualquer maneira, em qualquer temperatura, a qualquer hora.

Bolo salgado Assado de lentilha

Use as oleaginosas que tiver em casa, de preferência uma mistura. Usei nozes e sementes de abóbora, mas imagino que castanhas do Pará e sementes de girassol também fiquem uma delícia aqui. Se puder preparar esse bolo na véspera, melhor ainda, pois os sabores ficarão mais intensos e a textura mais firme. #Uma leitora chamou o bolo de assado e achei o nome tão melhor que decidi rebatizar a receita. Obrigada pela inspiração, Márcia.

1x de lentilha crua

1 cebola grande, picada

4 dentes de alho, ralados/amassados

1 cenoura, ralada

1 maçã, picada

1/2x de salsão (talo e um pouco das folhas), picado

1x de oleaginosas (usei 2/3 de nozes e 1/3 de sementes de abóbora descascadas)

2cs de linhaça moída

2cs de shoyu (ou a gosto)

1 1/2x de farinha de aveia, mais um pouco pra polvilhar a forma (trituro aveia em flocos no liquidificador)

Azeite, sal e pimenta do reino

1/2x de molho de tomate bem temperado* (opcional)

Cozinhe a lentilha em bastante água, com um pouquinho de sal. Quando estiver bem macia escorra e reserve. Toste as oleaginosas em uma frigideira (a seco) e passe no processador até obter uma farinha grossa. Você também pode picar tudo bem miúdo com uma faca. Refogue a cebola em um pouco de azeite. Junte o alho, a cenoura, a maçã e o salsão e deixe cozinhar coberto até os vegetais amolecerem.  Desligue o fogo e junte a lentilha cozida, as oleaginosas trituradas, a linhaça, o shoyu, a farinha de aveia e uma pitada generosa de pimenta do reino. Misture bem, prove e corrija o tempero (provavelmente será necessário acrescentar um pouco de sal e sinta-se à vontade pra juntar mais pimenta ou mais shoyu, até ficar perfeito pro seu gosto).   Passe 2/3 da mistura no liquidificador. Não precisa triturar até ficar homogêneo, alguns pedacinhos devem permanecer inteiros. Misture com o resto da massa (a parte que não foi triturada). Unte uma forma estreita e comprida (dessas com o formato de um pão de forma) com azeite e polvilhe com farinha de aveia. Despeje a massa na forma, alisando a superfície com uma espátula (ou as costas de uma colher). Por cima espalhe metade do molho de tomate, se estiver usando. Asse em forno médio, pré-aquecido, durante aproximadamente 1 hora, ou até ficar bem dourado e os lados começarem e se despregar da forma (verifique o cozimento regularmente pra não deixar queimar). Você pode esperar o bolo amornar, desenformar e servir, ou fazer como fiz: desenforme o bolo ainda quente (cuidadosamente pra não despedaçar) sobre uma placa (dessas de assar biscoito), espalhe o resto do molho de tomate sobre o bolo e coloque de volta no forno até ele ficar bem dourado de todos os lados. Assim o bolo fica mais sequinho por fora e com uma cor mais atraente. Nos dois casos espere amornar antes de servir, pois a textura vai ficando mais firme conforme ele esfria. Rende aproximadamente 6 porções (ou várias fatias, dependendo da espessura que você cortar).

*Usei um resto de molho de tomate caseiro que bati no liquidificador com alguns tomates secos, um tiquinho de vinagre balsâmico e uma tâmara pra criar um ketchup natural e melhorado, que realçou o sabor do bolo.

Intenso, cremoso, delicioso…e saudável!?

Gelato de chocolate

Aqui no blog eu prefiro publicar receitas simples, que usam ingredientes facilmente encontrados, por isso hesitei bastante antes de dividir a receita de hoje.  Mas esse gelato criado acidentalmente é tão gostoso que seria um crime guardá-lo só pra mim.

Uma noite eu queria uma sobremesa gelada. Decidi pegar meu liquidificador e ir misturando um pouco disso, um pouco daquilo… Coloquei tudo no congelador e esperei a mistura congelar parcialmente. Eu tinha feito uma porção bem pequena e meia hora depois minha sobremesa estava pronta. Provei e pensei: “Tem potencial”. Então fui adaptando a receita, juntando outros ingredientes e, três tentativas depois (tenho que agradecer minhas cobaias pelas dicas), nasceu um gelato de chocolate vegano que deixaria minha nona italiana orgulhosa, caso eu tivesse uma. A textura é perfeita: densa e ultra cremosa, como todo bom gelato. O curioso é que embora tenha uma quantidade significativa de banana, o que predomina é um sabor de chocolate ao leite, que lembra um certo picolé famoso que eu adorava quando criança (ainda existe “chica bon”?).

Sempre adorei sorvete mas no dia que provei gelato descobri que existia algo ainda melhor.  Se você não sabe qual a diferença entre os dois aqui vai uma explicação rápida. Sorvete tem mais gordura e, durante o processo de congelação, recebe quase o dobro de ar do que gelato. Resultado: o sabor do gelato é mais intenso, já que não tem uma quantidade excessiva de gordura pra “cobrir” o sabor dos outros ingredientes, e a textura é mais densa, já que tem menos ar. Outra diferença entre os dois é que sorvete é servido congelado, enquanto que gelato é servido em uma temperatura ligeiramente mais alta, logo é mais macio (e dificil de ser degustado sem se lambuzar).

Depois de triturado pra quebrar os cristais de gelo, pronto pra voltar pro congelador.

Eu ganhei uma máquina de fazer sorvete da madrinha de Anne no natal, mas quis experimentar fazer gelato sem máquina pois sei que pouca gente possui esse equipamento. A máquina congela a mistura mexendo o tempo todo, o que quebra os cristais de gelo e deixa o gelato/sorvete cremoso. Mas é possível atingir um resultado parecido sem máquina. É importante usar uma boa dose de gordura já que além de dar cremosidade, gordura não congela (na receita uso castanhas de caju). Um pouco de álcool é bem vindo, pois álcool também não congela, contribuindo pra diminuir a cristalização da mistura. Porém o mais importante é quebrar os cristais de gelo que se formam enquanto o gelato congela. Parte do problema foi resolvido usando banana congelada, que além transformar imediatamente a conscistência, deixando-a parecida com “sorvete mole”, funciona como emulsificante, encorpando a mistura. Tudo isso com um grande bonus: o açúcar da fruta que adoça o gelato de maneira natural. Depois é só passar o gelato pronto no liquidificador, pra quebrar os cristais de gelo que possam ter se formado.

Como eu disse mais acima, gelato não é servido totalmente congelado, mas é difícil  controlar a temperatura dentro de um congelador doméstico. Por isso recomendo não colocar o gelato diretamente sobre o gelo (coloque-o sobre a grelha do congelador, se o seu tiver uma, ou sobre outro recipiente pra impedir o contato direto com o gelo) e servir assim que atingir a conscistência ideal: quase congelado mas ainda cremoso. Se sobrar gelato pra ser servido mais tarde, lembre de tirá-lo do congelador alguns minutos antes de degustá-lo.

Quanto ao ingrediente difícil de encontrar, eu estava falando das quatro tâmarazinhas que entram na receita. Tâmara é um concentrado de açúcar natural (e de nutrientes), perfeito pra adoçar sobremesas, e tem um sabor que lembra caramelo (por isso o apelido de “caramelo da natureza”). Aqui onde moro tem tâmaras por toda a parte, mas sei que no Brasil além de ser mais difícil de encontrar, elas custam uma fortuna. Nunca testei a receita sem as tâmaras, mas acredito que xarope de agave funcione como substituto. Claro que as tâmaras não são usadas só pra adoçar, elas acrescentam um suave sabor camarelizado que adoro, mas tenho certeza que o gelato ainda será delicioso sem elas. Se quiser um sabor de chocolate mais intenso, simplesmente elimine as tâmaras que o doce da banana é sufuciente pra adoçar o gelato.

Eu não sou de me entusiasmar facilmente com sobremesas, mas confesso que essa daqui merece palmas: absolutamente deliciosa e totalmente natural. Quando foi a última vez que você se deparou com uma sobremesa que faz salivar e ao mesmo tempo é saudável, sem colesterol, sem nenhum produto de origem animal, sem açúcar, cheia de vitaminas, minerais e fibras? Eu não gosto de dar ordens, mas às vezes é necessário: levante-se dessa cadeira agora e vá pra cozinha fazer esse gelato. Depois não precisa mandar flores pra me agradecer (não é ecológico e Anne é alérgica a polen) mas outros presentes são bem vindos.

 

Gelato vegano de chocolate

As melhores tâmaras são macias e suculentas. Se suas tâmaras estiverem meio secas e duras, deixe-as de molho em água morna por 1 hora. Se for substituir as tâmaras por xarope de agave, acredito que 4cs sejam suficientes. Use o melhor cacau que encontrar, puro e sem açúcar. Vai fazer uma grande diferença no sabor final. O único imperativo pra fazer essa receita é ter um liquidificador potente. Se seu liquidificador não tritura bem e deixa pedaços de fruta inteiros mesmo nas vitaminas, esqueça essa receita ou compre um liquidificador digno desse nome. Não quero fazer propaganda aqui, mas minha cunhada jura que os daquela marca que começa com “ar” e termina com “no” são os melhores de todos.

 3/4x de castanha de caju (crua*), de molho por 8 horas

1 1/2x de água

4x de banana congelada em rodelas

4 tâmaras

2cs 3cs de cacau em pó de ótima qualidade**

2cc extrato natural de baunilha

2cs de rum

Escorra as castanhas e triture no liquidificador com a água até elas se dissolverem completamente. Dependendo da potência do seu liquidificador vai levar de 30 segundos a alguns minutos então seja paciente. Esfregue um pouco do líquido entre os dedos: quando não sentir mais grânulos está pronto. Reserve (deixe o leite dentro do liquidificador). Remova os caroços das tâmaras e pique-as grosseiramente. Despeje as tâmaras picadas e o resto dos ingredientes no liquidificador (junto com o leite de castanhas) e triture até ficar homogêneo. Você vai precisar desligar o liquidificador algumas vezes e mexer tudo com uma espátula, empurrando o gelato na direção das hélices. A mistura deve ficar com aparência de sorvete mole e não deve ter nenhum pedacinho de banana inteiro. Transfira o gelato pra um recipiente de plástico com tampa e coloque no congelador. Quando estiver quase completamente congelado, despeje pedaços do gelato no liquidificador e triture novamente, pra quebrar os cristais de gelo. Mais uma vez você precisará desligar o motor algumas vezes e empurrar a mistura com uma espátula na direção das hélices. Despeje o gelato no recipiente de plástico e coloque de volta no congelador até ficar firme o suficiente pra servir. Esse gelato é super cremoso se servido poucas horas depois de ter sido preparado, mas pode ser conservado no congelador durante alguns dias (deixe alguns minutos em temperatura ambiente antes de servir). Esqueci de medir, mas acho que rende aproximadamente 1l.

*Teoricamente castanhas de caju nunca são cruas, já que é preciso assá-las pra extraí-las da casca, mas me refiro aqui à castanhas que não foram torradas, aquelas branquinhas e sem sal.

**Quando postei a receita tinha preparado o gelato com um cacau que comprei na França e que era super ultra concentrado. Fiz a receita novamente usando um cacau normal (comprado aqui em Belém) e o resultado foi bem menos intenso. Acho que 3cs é a quantidade certa se você estiver usando um cacau comum.

Minha rispidez, um bolo e uma entrevista

 

Bolo de coco e cenoura

 

Minha irmã caçula me deu uma bronca por causa do post sobre o pavê de banana. Ela disse que eu fui muito ríspida com meus leitores. Desde então me sinto culpada. Essa irmã tem o dom de me fazer sentir culpada, mas na maior parte do tempo isso é uma coisa boa. Ela me faz refletir sobre meus atos e palavras, o que me ajuda a evoluir e a me tornar uma pessoa melhor. O problema é que ela também é… ríspida. Parece que a rispidez é algo que todos nós herdamos na  família.

Açúcar pra mim é uma droga (no sentido literal). Não tem nutriente nenhum, causa inúmeras doenças e cria uma enorme dependência. Um dia explicarei, com todos os pormenores, porque acho que açúcar é um demônio, mas isso terá que esperar um pouco. Hoje, pra tentar me desculpar por ter sido tão dura com os dependentes amantes de açúcar, vou publicar mais uma receita doce e vou deixar meus leitores livres pra escolher a quantidade de açúcar que quiserem usar. ½ x, ¾ x, 1x ou até mais, você decide. Prometo não dizer absolutamente nada. E se você fizer seu bolo super doce e me oferecer um pedaço, juro que vou dar uma mordida e fazer “huuuum”(e não vou esconder o resto da fatia embaixo do tapete quando você não estiver olhando).

Quando crio receitas começo escolhendo uma base, normalmente uma receita que vi em um livro, revista ou site, e modifico de acordo com meus gostos e vontades. Esse bolo foi uma das poucas vezes que fui misturando ingredientes sem ter uma receita pra me guiar. Sempre cozinho assim quando preparo pratos salgados, mas isso é uma coisa arriscada quando se trata de bolos. Enquanto misturava a massa, vi o bicarbonato reagir com o suco de limão e tudo se transformar em uma espuma de coco e pensei: “Fiz uma bomba e ela vai explodir no forno”. Tínhamos sido convidadas pra jantar na casa de amigos e o bolo era a sobremesa que eu tinha prometido levar. Não dava mais tempo de preparar outra coisa então coloquei o bolo no forno e fiquei torcendo pra que o calor transformasse aquela coisa estranha  em algo comestível. E deu certo! Meus amigos adoraram o bolo e repeti a receita dezenas de vezes desde então.

Esse bolo é aerado, úmido e intensamente perfumado com coco. Acha a idéia de combinar coco e cenoura estranha? Nada tema! A cenoura entrou na receita pra aumentar a quantidade de fibra, e acrescentar um toque de doce natural, mas a verdade é que o gosto desaparece completamente. Além do sabor maravilhoso, a textura desse bolo é super delicada e se desfaz na boca. Com uma xícara de café fresquinho, é a melhor desculpa pra interromper suas atividades verspertinas e curtir um delicioso lanchinho.

Antes de partir pra receita, gostaria de fazer um anúncio. O site natalense “Óbvio e Atual”  fez uma matéria sobre meu trabalho na Palestina. Quem estiver curioso pra saber o que faço quando não estou cozinhando é só clicar aqui.

 

Bolo de coco e cenoura

Se não encontrar amêndoas em pó, triture amêndoas inteiras no liquidificador até atingir a textura de uma areia fina. Tenha em mente que esse bolo é leve e delicado, bem diferente dos bolos de coco ou cenoura tradicionais. Quando faço o bolo aqui em casa, uso somente ½ x de açúcar, pois detesto bolos doces demais. Com 3/4x você conseguirá um resultado mais docinho, mas ainda delicado. Pra que a doçura do bolo se aproxime mais dos bolos convencionais aumente essa quantidade pra 1x ou mais, dependendo do seu gosto.

1/2x, 3/4x ou 1x de açúcar demerara (dependendo do seu gosto)

200ml de leite de coco

3/4x de farinha de trigo

3/4x de amêndoas em pó

1cc de fermento

1/2cc rasa de bicarbonato

raspas de 1 limão

1/4x de suco de limão

1x de coco ralado (seco)

1x de cenoura ralada

Aqueça o forno em temperatura média. Esquente o leite de coco em fogo baixo. Quando estiver bem quente (não deixe ferver), despeje o coco ralado, cubra e deixe hidratar por meia hora. Misture os ingredientes secos: farinha, amêndoas em pó, fermento, bicarbonato e açúcar. À parte misture os ingredientes molhados: coco hidratado frio (com o leite de coco), cenoura ralada, suco e raspas de limão. Despeje os ingredientes secos sobre os molhados e mexa delicadamente com um batedor manual (“fouet”) até tudo ficar bem misturado. Não bata a massa, misture com movimentos suaves.  A massa terá uma conscistência aerada e leve, quase como uma espuma. Despeje a massa em uma forma pequena e rasa untada e enfarinhada e coloque no forno.  Não indico o tempo que você deve deixar o bolo no forno porque dependendo do forno e da forma usada, esse tempo variar muito. Verifique se o bolo depois de 30 minutos e veja se precisa de mais um tempinho no forno. Cuidado pra não deixar cozinhar demais, senão o bolo fica seco (o bolo da foto ficou ligeiramente tostado). Quando estiver dourado e passar no teste do palito, o bolo está pronto.  Deixe esfriar completamente antes de degustar. Sirva com café ou chá.

O que faz um bom chocolate

Tenho uma relação estranha com chocolate. Eu não gosto de comê-lo puro mas gosto de preparações com chocolate. Chocolate quente, por exemplo. Eu provei vários chocolates quentes na minha vida. A maioria não passava de leite com achocolatado totalmente sem graça. Na Espanha o chocolate quente é  bem espesso (tomado tradicionalmente com churros) e tem quase uma conscistência de pudim. Continuar lendo “O que faz um bom chocolate”