Archives for posts with tag: bolo

bolo de melado e especiarias

Estou atualmente na França, visitando a família francesa, e como eles são onívoros super abertos e adoram meus quitutes vegetais, fiz várias delícias desde que cheguei aqui. Vou tentar postar algumas receitas nos próximos dias, mas pra não sacrificar muito o precioso (e curto) tempo de férias, vou tentar conter minha verborragia e ser breve.

A primeira receita doce que postei aqui foi um bolo de especiarias francês, “pain d’épices”, que eu adorava degustar quando morava em Paris. Ele ainda é um dos meus bolos preferidos: intenso, rústico, timidamente doce e, com se isso não fosse suficiente, é integral e sem açúcar. O sabor? Se um pão de mel cruzasse com uma soda preta (bolacha macia de rapadura, muito apreciada no interior do Nordeste brasileiro), o filhote seria esse bolo. É o acompanhamento perfeito pro café da tarde.

bolo de melado e especiarias1

Postei essa receita há mais de dois anos e meio e nesse ínterim a maneira como cozinho evoluiu bastante (a qualidade das minhas fotos também, felizmente). A receita antiga tinha margarina e faz tempo que esse ingrediente saiu da minha cozinha (por razões de saúde, mas também de sabor). Hoje eu prefiro fazer bolos com azeite e a receita antiga estava precisando de uma atualização. Nessa versão também indico as medidas em xícaras, ao invés de gramas e mililitros. Fiz outras pequenas alterações, como o acréscimo de aveia, e simplifiquei a mistura de especiarias. A versão 2012 do bolo ficou ainda melhor e mais fácil de preparar, então resolvi mudar até o nome: agora a minha adaptação do pain d’épices francês se chama “bolo de melado e especiarias”.

bolo de melado e especiarias3

Bolo de melado e especiarias

Como expliquei acima, esse bolo, adoçado unicamente com melado, é menos doce do que bolos tradicionais. Como toda a farinha é integral, a textura é ligeiramente densa. Se você está procurando um bolo doce e bem fofo, essa receita não é pra você. Mas se você gosta de rapadura e bolos com caráter forte, siga em frente e você não vai se decepcionar. As lascas de amêndoas desempenham um papel puramente estético, logo são absolutamente dispensáveis.

1x de mel de engenho (melado)

1x de leite vegetal (uso leite não adoçado, mas você pode usar um leite adoçado se quiser um bolo mais doce)

3/4x de azeite

1 1/2x de farinha de trigo integral

1/2x de farinha de aveia* (ou farelo de aveia)

2cc de canela

1cc de gengibre em pó

1/2cc de noz moscada ralada

1cc de bicarbonato de sódio

Um punhado de amêndoas em lascas (opcional)

Pré-aqueça o forno em temperatura média. Coloque o melado, leite vegetal e azeite em uma panela pequena e aqueça em forno baixo. Mexa bem pra dissolver o melado e desligue o forno quando a mistura amornar (não deixe esquentar demais). Misture a farinha, aveia, especiarias, bicarbonato e sal e despeje a mistura líquida por cima. Mexa delicadamente (um batedor manual estilo “fouet” é perfeito pra misturar a massa) até incorporar os ingredientes secos aos molhados. A massa é mais líquida do que massas pra bolos tradicionais. Unte (com óleo) e enfarinhe uma forma pequena. Despeje a massa na forma, cubra com as amêndoas em lascas, se estiver usando, e leve ao forno. Pra testar o cozimento, insira uma faca no centro do bolo: ele está pronto quando ela sair limpa. Cuidado pra não assar demais, ou o bolo ficará seco. Esse bolo fica ainda mais gostoso no dia seguinte, então o ideal é prepara-lo na véspera da degustação.

*Eu faço minha farinha de aveia triturando aveia em flocos no liquidificador.

Eu adoro cozinhar, mas na lista de pratos que mais gosto de preparar, bolo está provavelmente em último lugar. Só faço bolo quando alguém pede e foi o que aconteceu hoje. Uma amiga vegana sugeriu que eu preparasse um bolo pra uma amiga onívora que vive fazendo piada do nosso regime vegetal. A vegana já não aguenta mais a chacota feita pela onívora e, como se isso não bastasse, ela incentiva os três filhos a zombar de comida vegana na frente dela. Como hoje é o aniversário de doze anos do filho mais velho da amiga onívora, a amiga vegana insistiu pra que eu fizesse um bolo ultra-maravilhoso-delicioso pra família onívora ver o quanto a comida vegetal é saborosa e deixar a gente em paz de uma vez por todas. Como a amiga onívora, e o marido, se empolgaram pra experimentar o meu bolo e que as intenções da amiga vegana eram nobres, aceitei fazer esse sacrifício terrível que é passar o dia inteiro mergulhada em chocolate (estou enjoadíssima até agora!).  Eu sei que muita gente adora isso, mas se eu tiver que escolher entre o melhor bolo de chocolate do mundo e um prato de sopa, escolho o prato de sopa sem pestanejar.

Ainda não sei se o meu bolo fez a família onívora mudar de opinião sobre comida vegetal, mas decidi uma coisa: independente do resultado da boa ação da amiga vegana, nunca mais vou fazer bolo de chocolate. Fiz alguns bolos deliciosos desde que me tornei vegana (outros nem tanto) e consegui conquistar o estômago de vários onívoros pelo caminho, mas a gente só faz bem aquilo que realmente gosta. Nesse caso eu deveria dizer que a gente só cozinha bem aquilo que gosta de comer. A montanha de louça suja e o enjoo que me causa o malvado não compensam. Gosto de degustar uma sobremesa bem feita ocasionalmente, mas do tipo sorvete, pudim, torta ou crumble e geralmente à base de frutas. Esses são os únicos tipos de doce que vou preparar quando não estiver fazendo algo salgado. Au revoir, bolos de chocolate! E já que não vamos mais vê-los aqui no blog, aproveito a despedida pra tirar do baú os melhores bolos de chocolate que fiz nos últimos anos.

Chocolate recheado com morangos e creme. Fiz pra minha colega Cida, em Londres. A decoração linda foi feita pelo nosso amigo Welder, que é chef (eu não tenho capacidade de fazer algo tão elaborado).

Chocolate, café e whisky. Quase uma trufa gigante! Esse foi o bolo que conquistou minha família francesa quatro anos atrás.

Mais um bolo de chocolate, café e wisky (são os meus preferidos). O melhor bolo que já fiz na vida! Mas improvisei a receita e não anotei nada, ou seja, esse bolo se perdeu pra todo o sempre…

Pra fazer o bolo de hoje usei uma receita da chef vegana americana Fran Costigan, a “rainha da sobremesa vegana”. O bolo ficou perfeito: rico em cacau, fofinho e úmido. Só achei doce demais, mas como minha tolerância pra doce é limitadíssima, acho que só será um problema pras minhas papilas. Como não fiz nenhuma modificação na receita original, não vou reproduzi-la aqui. Basta consultar essa página e a receita é sua. Está em Inglês, mas nada que o Google Tradutor não possa resolver em segundos. Porém tem um ingrediente impossível de achar no Brasil: xarope de bordo. Ele tem um sabor especial que deixa o bolo mais gostoso, mas imagino que melado pode ser um substituto interessante, embora ele tenha um sabor muito mais forte, que algumas pessoas não gostam. Acredito que também seja possível omitir o xarope de bordo e aumentar a quantidade de açúcar pra uma xícara (ao invés de meia xícara). Mas não posso garantir o sucesso dessas versões, já que não testei na minha cozinha.

Recheei o bolo com peras caramelizadas com baunilha, porque é época de peras aqui, e cobri tudo com ganache de chocolate, porque é minha cobertura preferida. Pra fazer o recheio descasquei peras bem maduras, cortei em fatias, aqueci um pouco de azeite na minha maior frigideira e cozinhei as peras até começar a caramelizar. Mexi de vez em quando, pra dourar de todos os lados, e deixei as peras ficarem bem bronzeadas. Depois de desligar o fogo juntei as sementes de um favo de baunilha. Fiz uma receita de bolo, mas assei em quatro formas pequenas ao invés das duas formas grandes sugeridas nos site. Em seguida cortei cada bolinho ao meio e fiz dois bolos, com quatro camadas cada um.  Pra isso usei 1,4kg de peras no recheio, mas se você seguir as instruções da receita original e fizer dois bolos grandes, provavelmente precisará de menos recheio. Pra cobrir os dois bolos derreti 200g de chocolate amargo (70% de cacau) com 8cs de leite de coco. Descobri que gosto mais da ganache com creme de leite de soja ou de aveia, então é isso que aconselho.  Mais uma vez, se estiver fazendo um bolo grande (ao invés de dois pequenos), provavelmente seja necessário menos ganache pra cobertura. Se quiser uma ganache menos amarga, use um chocolate menos forte em cacau. Decorei o bolo com avelãs tostadas, porque acho que combinam muito com chocolate e pera e gosto do contraste de texturas. E antes de me despedir de vez do assunto, uma última dica: bolo de chocolate é sempre melhor no dia seguinte, então prepare o seu na véspera, se possível.

Agora com licença que ainda tenho que limpar o chocolate da cozinha, e do corpo, antes do jantar. Que será sopa, obviamente!

PS Depois que escrevi esse texto ontem à noite recebi uma mensagem da amiga onívora, que é francesa, dizendo que o bolo era “excellent et magnifique”. Mesmo assim continuo decidida a enterrar minha carreira de fazedora de bolo de chocolate.

Eu gostaria de estar no lugar desse gatinho agora. Colo, carinho e zero preocupação é tudo que preciso! A semana super ultra ocupada deveria terminar hoje à tarde, mas houve mudanças de planos e vou cozinhar pra minha vizinha até amanhã. Já não aguento mais a dor nas costas e, por causa da fadiga, fiz um monte de besteira (como quebrar alguns copos e a forma de cerâmica importada que uso pra fazer pão). A “cerise sur le gâteau”, como dizem os franceses, foi ter ficado sem gás ontem à noite, enquanto preparava o jantar e assava um pão e um bolo. Liguei pro senhor que vende gás e ele avisou que estava faltando gás na cidade. Aí eu sentei no chão e chorei. Depois me lembrei que tinha que alimentar a vizinha então me levantei e fui até a casa dela (que é colada à minha) perguntar se ela não queria jantar conosco no restaurante ao lado. Felizmente a vizinha ainda tinha um resto do almoço na geladeira e disse pra eu não me preocupar que o seu jantar estava garantido. Eu e Anne nos contentamos com um pedaço de pão, que terminei de assar no nosso micro forno elétrico, e uma salada de tomate e mangericão. Hoje de manhã liguei pro senhor do gás de novo e (desespero!) ainda estava faltando gás. A necessidade sendo mãe da criatividade, preparei o almoço e o jantar no microondas. Tem um microondas aqui em casa mas nunca, nunca uso. Podem me chamar de louca, mas essa história de aquecimento por agitação de moléculas me parece muito suspeita. Eu quero as moléculas da minha comida no lugar certo, ninguém venha bagunçar com elas! Por essa razão não uso esse treco. E também porque acho que a textura de algumas comidas esquentadas no microondas fica horrível. Mas hoje o agitador de moléculas quebrou um galhão! Cozinhei macarrão, quinoa, molho de “queijo”, brócolis e o bolo (que comecei a assar ontem) no danado e, pra minha grande surpresa, deu tudo certo. Acho que depois de hoje eu devia parar de falar mal do bichinho…

Mas não teve só drama essa semana, também conteceram coisas boas. Primeiro teve o aniversário de Watan, o filho dos meus queridos amigos Sara e Tareq.

Johanna, minha grande amiga que mora em Tel Aviv, estava lá também. Na foto vocês podem ver Tareq, Johanna e Watan. Parece que foi ontem que visitei Sara na maternidade e Watan já tem dois anos. A próxima foto foi tirada no aniversário de um ano dele e ele estava feliz da vida no colo de Sara.

Sara adora meus bolos então fiz cupcakes de chocolate e laranja pra Watan. Como a família é grande, compraram um bolo na padaria também. Todo mundo preferiu meus cupcakes. Não é um elogio muito grande, já que os bolos de padaria aqui são horríveis!

Quando faço bolos pros palestinos, procuro adaptá-los ao gosto do pessoal, que é muito parecido com o dos brasileiros. Esses cupcakes estão longe de ser saudáveis mas são diabolicamente deliciosos. Procurando uma receita doce pra impressionar a sogra ou o amigo onívoro que acha que comida vegana é só alface? Acabou de achar!

Essa semana também organizei mais uma oficina de culinária pra crianças, dessa vez na escola francesa de Belém. Fizemos bombons de frutas secas com coco ralado, amêndoas e pistaches. Só uma menina gostou, as outras crianças cuspiram tudo! Depois me disseram que preferem kinder ovo. Paciência!

As crianças daqui comem mais porcaria do que todas as outras crianças que já encontrei. Estão vendo a cara de malvado do menino de listrado? Isso foi porque falei “fruta” perto dele (clique na foto e você se assustará).

Fiz a mesma oficina em um campo de refugiados ano passado e foi um sucesso: os meninos adoraram e só não comeram tudo porque pediram pra levar alguns bombons pra casa pra dividir com os pais. Aqui estão as fotos pra provar.

Desde terça estou cuidando do cachorro da outra vizinha, que viajou pra Turquia. Ela é a melhor vizinha que alguém pode desejar: nunca faz barulho, é simpática, agua minhas plantas quando viajo e de vez em quando traz uma pratinho de comida pra gente. Ela é cristã ortodóxa e esse pessoal leva a quaresma à sério. Durante os quarenta dias que antecedem a Páscoa eles não comem nenhum produto de origem animal, ou seja, se tornam temporariamente veganos. Meus amigos ortodóxos me ensinaram várias receitas veganas e essa vizinha sempre divide conosco as delícias vegetais que ela prepara. Por isso quando ela perguntou se eu podia cuidar de Lucky, seu poodle idoso, eu não hesitei nem um segundo. Fiquei feliz em poder fazer um favor pra ela, já que ela é tão bacana com a gente. O pobre Lucky está velhinho, velhinho. Ele ficou cego e não consegue mais descer escadas. Ele sobe pra fazer xixi no jardim (que estranhamente é mais alto que nossas casas) e na hora de descer me chama pra ajudá-lo. Fiz essas fotos ano passado.

Se um ano atrás ele já estava doentinho, hoje a situação se degradou tanto que não tenho mais coragem de tirar foto dele. Coitadinho…

Pra acabar esse post de uma maneira mais alegre, aqui vai a receita dos deliciosos cupcakes. E em breve dividirei uma receita muito especial. Uma dica: vem enrolado em uma folha de alga e se come com pauzinhos.

Cupcakes de chocolate com laranja

Esses foram um dos bolos mais fofos, úmidos e deliciosos que já fiz. Garanto que se você não contar, ninguém vai adivinhar que esses cupcakes são veganos. Se quiser fazer um bolo grande, vá em frente. Só não esqueça de adaptar o tempo no forno. Como todos os bolos de chocolate, o sabor fica ainda melhor no dia seguinte então faça os bolinhos na véspera (mas só coloque a cobertura no dia que for servir).

3x de farinha de trigo

1x de açúcar

2cc de fermento

½ cc de bicarbonato

3/4x de cacau em pó (sem açúcar, não confundir com achocolatado)

3/4x de óleo de girassol

2x de suco de laranja fresco

1cs de raspas de laranja

forminhas de papel

Aqueça o forno em temperatura baixa/média (200°). Em um recipiente grande, misture todos os ingredientes secos. À parte, misture os ingredientes molhados. Despeje os molhados sobre os secos e, com um batedor de arame (fuet), bata durante dois minutos, ou até a massa ficar homogênea e sem nenhum carocinho. Coloque uma forminha de papel em cada compartimento de uma forma de cupcapes ( ou quindim, ou qualquer forma do estilo). Despeje colheradas da massa com cuidado, sem encher completamente cada forminha. A massa não deve chegar até a borda, mas quase. Asse de 15 à 20 minutos, dependendo do seu forno. Quando os bolinhos passarem no teste do palito está pronto. Por razões óbvias de tamanho, cupcakes assam mais rápido do que bolos então verifique depois de 15 minutos e, se ainda não estiver assado, coloque de volta no forno e teste novamente 5 minutos depois (mas fique por perto pois os bolinhos queimam em um piscar de olhos). Deixe esfriar completamente antes de colocar a cobertura. Dependendo do número de compartimentos da sua forma de cupcakes, repita a operação com o resto da massa. Rende 24 cupcakes (minhas formas são pequenas e uso mais ou menos 2cs de massa por cupcake).

Cobertura de chocolate

Essa cobertura (sem o licor de laranja) me lembra uns tubinhos de “moça fiesta” que eu gostava de comer quando adolescente. A conscistência, bem parecida com um brigadeiro mole, é perfeita pra cobrir bolos. As medidas são aproximadas pois faço essa cobertura misturando um pouquinho disso, com um pouquinho daquilo e assim por diante. Atenção: as colheres de sopa aqui não são rasas nem cheias, ficam entre os dois.

6cs de margarina vegetal não hidrogenada  óleo de coco (parei de usar margarina e desde então tenho substituído esse ingrediente por óleo de coco virgem)

2cs de cacau em pó (sem açúcar, não confundir com achocolatado)

4cs de açúcar (ou à gosto)

½ x de leite de soja

1cs de licor de laranja (opcional)

Em uma panela pequena, derreta a margarina. Junte o cacau e mexa bem com um batedor de arame, até ficar completamente dissolvido. Junte o açúcar e o leite de soja e cozinhe em fogo alto (não se afaste do fogão ou você terá uma desagradável surpresa!). Quando começar a ferver, baixe o fogo e cozinhe mexendo com uma colher de pau até engrossar. O fogo tem que ser baixíssimo senão a cobertura sobe e derrama. Pra testar o ponto, pingue um pouco da cobertura em uma colher e coloque no congelador por 30 segundos. Quando atingir a conscistência de um brigadeiro mole está pronto. Deixe esfriar completamente antes de cobrir os cupcakes.  Rende cobertura suficiente pra cobrir 24 cupcakes. Se fizer esses bolinhos pra um aniversário de criança, decore com granulado colorido, como na foto.