Acredito que os leitores do blog, pelo menos os que leram a página “sobre”, sabem que trabalho em um campo de refugiados aqui em Belém.  Quando escrevi o texto “Só pela subversão” eu quebrei uma promessa que fiz a mim mesma: manter o Papacapim apolítico e não misturar ocupação militar e comida pra evitar indigestão. Mas quem eu estava tentando enganar? Comer é um ato político. A maneira como me alimento e as receitas desse blog são motivada por razões políticas (e éticas). Faz quatro anos que sou ativista pelos direitos humanos e animais em tempo integral e política ocupa a minha mente na maior parte do meu tempo acordada (dormindo também). O conteúdo desse blog é fortemente influenciado pelas minhas opiniões e princípios, logo o Papacapim é fundamentalmente político. Por isso decidi mostrar hoje uma parte da minha vida que até então ficou de fora do blog.

Escola da ONU dentro do campo de Aida e o muro de separação (construído por Israel) ao fundo.

Comecei a trabalhar nos campos de refugiados assim que cheguei na Palestina. Pra quem não sabe, esses campos foram criados pela ONU pra acolher os palestinos que tinham sido expulsos de suas terras durante a criação do estado de Israel, entre 1946 e 1948. São refugiados em seu próprio país, ou melhor, no que restou do seu país. Simplificando muito, é como se a população do Norte e Nordeste tivesse sido expulsa por colonizadores e fosse obrigada hoje a se refugiar na outra metade do Brasil, pois suas terras viraram outro país e eles já não são mais benvindos por lá.

Campo de refugiados de Aida, em Belém.

No início os campos eram imensas aglomerações de barracas, sem luz nem água encanada. Todos, inclusive a ONU, achavam que aquela situação era provisória e que os palestinos voltariam pras suas cidades e vilarejos de origem em pouco tempo, afinal não era possível expulsar 700 mil pessoas de suas terras e ficar por isso mesmo. As barracas se transformaram em casas de alvenaria e 64 anos depois eles estão no mesmo lugar, esperando que a resolução 194 da ONU, que garante o direito dos refugiados ao retorno, seja executada. Hoje eles são 5 milhões (fonte relatório da ONU, 2010), o maior grupo de refugiados do mundo, e vivem em campos espalhados pela Cisjordânia e Faixa de Gaza (os territórios palestinos) e pelos países árabes vizinhos. Embora alguns refugiados tenham conseguido se instalar em cidades, a grande maioria ainda vive nos campos. (Mais informações sobre os refugiados palestinos no site da UNRWA – Agência da ONU de ajuda aos refugiados palestinos).

No campo os habitantes pintaram os vilarejos de onde vieram, exatamente como eles eram no dia em que foram expulsos, mais de 60 anos atrás. A população de Aida vem de cidades que ficavam nos arredores de Jerusalem e Hebron, alguns a poucos quilômetros do campo. Embora tão próximos, eles nunca puderam voltar lá.

Aqui em Belém tem três campos, Deheisha, Aida e Aza. Embora eu já tenha feito projetos em outros campos, hoje só trabalho em Aida, onde morei durante a maior parte do meu primeiro ano aqui.  A população desse campo é de 5 mil habitantes, espremidos em uma área de 710m² (sim, menos de 1km²). 60% da população tem menos de 15 anos e a taxa de desemprego é de quase 70%. A vida nos campos é extremamente difícil e o meu projeto tenta melhorar um pouco a situação econômica de algumas famílias, criando uma fonte de renda alternativa. Noor (que significa “luz” em Árabe) é um projeto independente criado por e para mulheres refugiadas que tem um filho deficiente. Por que somente mulheres que tem filhos deficientes? Porque depois de conversar com o diretor do campo, um bom amigo meu, ele explicou como a vida dessas mulheres era difícil, mais ainda do que as outras. Como o projeto é independente, todos trabalham de maneira voluntária (sem remuneração) e organizo aulas de culinária palestina pra patrocinar nossas atividades. Também organizo hospedagem no campo, na casa das famílias, pra estrangeiros que queiram fazer uma imersão total na cultura palestina e aprender Árabe.

O muro de separação construído por Israel, aqui bem longe da linha verde (a fronteira reconhecida pela comunidade internacional). O campo de oliveiras do outro lado do muro pertence à uma igreja de Belém, mas foi anexado ao território israelense e os habitantes de Aida, que costumavam fazer piqueniques e jogar bola entre as árvores, ficaram sem nenhum espaço verde.

O muro foi construído a poucos metros das casas. A construção começou em 2002 e continua até hoje. Quando terminado, o muro terá 760 km, o dobro da linha verde.

Criei esse projeto dois anos atrás com a ajuda de uma voluntária belga. Já faz um ano que ela voltou pra Bélgica, mais ainda nos ajuda muito e graças a ela quatro crianças do projeto vão à escola. No campo tem duas escolas da ONU, uma pra meninos e outra pra meninas, mas eles não aceitam crianças deficientes (por não terem capacidade de atender às suas necessidades). Em Belém e Beit Jala (a cidade colada à Belém) tem escolas pra crianças deficientes, mas são particulares e as famílias do projeto não têm condições de pagar a mensalidade (equivalente a 150 reais). Graças à minha amiga, um pequeno grupo de belgas (conhecidos dela) patrocina a educação dessas quatro crianças.  Também organizo outros tipos de atividades, como oficinas lúdicas pras crianças, e dou aulas de Inglês pras mulheres, mas hoje queria falar das aulas de culinária palestina.

Hotel Intercontinental, um 4 estrelas a poucos metros do campo. Aqui, como no Brasil, a pobreza pode viver ao lado do luxo.

Sábado passado teve mais uma aula e tirei algumas fotos pra mostrar pra vocês. Nessas aulas os estrangeiros aprendem a preparar um prato típico com duas palestinas, na casa de Islam, a coordenadora do projeto. O meu trabalho antes das aulas é planejar o menu com as mulheres, mandar convites e deixar anúncios nas ONGs e jornais virtuais locais pra atrair “alunos”.  No dia da aula vou buscá-los no check-point (se eles vierem de Jerusalém ou Tel Aviv) e em frente ao hotel Intercontinental (se eles morarem na região). De lá vamos caminhando pro campo e explico tudo que disse acima, pois a maioria está visitando um campo pela primeira vez . Na casa de Islam falo um pouco sobre o projeto e começamos a cozinhar. As mulheres já deixam uma parte da comida preparada, pois os pratos tradicionais palestinos geralmente levam muito tempo pra ficar prontos. Enquanto colocamos a mão na massa vou traduzindo as instruções das mulheres, que não falam Inglês, e respondendo as perguntas dos estrangeiros sobre a vida no campo. Comemos o que preparamos e a conversa estica ao redor do chá e do café.

Aula de culinária palestina.

Preparando krass, um pãozinho recheado com espinafre e cebola.

Islam ensinando a fazer o pão tradicional.

Depois do almoço levo os estrangeiros pra fazer um tour do campo e digo tudo que sei sobre o lugar, a ocupação militar israelense, o movimento de resistência popular palestina, como analisar a situação se baseando no Direito Internacional e o que mais eles quiserem saber. Eles saem impressionados, exatamente como eu na primeira vez que visitei um campo, e prometem contar o que viram quando voltarem pros seus países respectivos. A aula, com a refeição e o tour, custa o equivalente a 30 reais por pessoa e todo o dinheiro é repartido entre as famílias do projeto.

O almoço de sábado passado. Sempre fazemos um prato vegano e outro com carne. Alerta pros veganos sensíveis: essa foto contem um bichinho morto.

Felizmente a culinária palestina é muito rica em pratos vegetais e já tivemos aulas 100% veganas. Nesse dia o almoço foi totalmente vegano: mujadara, pão, mutabal e salada.

A maneira tradicional de comer é assim, no chão.

Espero encontrar uma jovem do campo pra fazer os tours, pois não me sinto à vontade pra guiar gringos por lá, já que eu mesma sou gringa. Assim poderia criar mais um emprego no campo, mas as moças que falam Inglês estão trabalhando em Belém, ou indo à faculdade. Ainda não encontrei ninguém que preenchesse todos os requisitos (bom nível de Inglês, com tempo livre), mas continuo procurando.

Sábado passado, durante o tour pelo campo.

Muitas vezes o pessoal pergunta onde comprar as especiarias utilizadas na aula e eu termino a visita com um pulinho na loja de Tawfic (no centro histórico de Belém), meu fornecedor oficial de especiarias. Claro que não ganho nada com isso, mas além de Tawfic ser meu amigo eu procuro incentivar o comércio local. Em dias de aula saio de casa às 10h e volto lá pelas 17h. Como ando bastante e falo o tempo inteiro (em Inglês e em Árabe, o que cansa meu cérebro ainda mais) volto pra casa exausta. Já tentaram falar durante 7 horas seguidas em duas línguas estrangeiras e ainda por cima explicando coisas extremamente penosas? Chego em casa sem forças nem pra tirar o sapato! Mas vale muito a pena. Eu não ganho dinheiro com esse projeto, mas ganho algo muito mais importante. Eu tenho a sorte imensa de fazer um trabalho que amo, extremamente interessante e enriquecedor e posso colocar a cabeça no travesseiro todas as noites com a certeza que usei minha energia e conhecimentos por uma boa causa e não fazendo uma atividade que não gosto unicamente pra pagar as contas no final do mês. Esse foi o meu caso durante a maior parte da minha vida e serei eternamente grata (à vida, aos céus, às mulheres do meu projeto) por ter a oportunidade de fazer o que faço hoje.

Rania e Islam (à direita), as cozinheiras de sábado. Duas mulheres fortes, corajosas e guerreiras.

*As seis primeiras fotos que ilustram esse post foram feitas por Anne Paq, que faz parte do coletivo de fotógrafos (israelenses e estrangeiros) Activestills. Todas as outras foram feitas por mim. Se você se interresar pelo assunto e quiser saber mais sobre a situação na Palestina, eu escrevo uma newsletter mensal chamada “Notícias da Palestina”. Pra recebê-la é so me contactar por email.