O truque da sopa

Sabiam que é possível fazer sopas cremosas sem nenhum tipo de creme (animal ou vegetal)? Uns tempos atrás aprendi esse truque e desde então utilizo regularmente nas sopas aqui em casa ou no trabalho. É bem simples, mas engenhoso. Essa técnica culinária tradicional usa manteiga, mas quando li sobre ela pensei imediatamente que talvez funcionasse com uma gordura de origem vegetal. E eu estava certa. Se você colocar sua sopa dentro do liquidificador, ligar o motor e acrescentar azeite (gordura) aos pouquinhos, ele vai se misturar com a sopa (água) e com o ar incorporado pelas hélices e isso vai criar uma emulsão. Voilà! Sopa cremosa (até a cor fica mais clara, como se você tivesse acrescentado creme) e com o delicioso e delicado sabor de azeite.

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Cara de pau, ousadia, cogumelos e o gato que trabalha comigo

Poucos dias depois de ter chegado em Bruxelas aconteceu um evento de alimentação orgânica-alternativa-ecológica na cidade. No panfleto que explicava quais projetos e organizações estariam presentes, descobri que tinha um grupo de jovens belgas produzindo cogumelo em borra de café. Achei a ideia inusitada e imediatamente fiquei com vontade de saber mais sobre o projeto, que se chama Permafungi. Mas no meio da multidão que apareceu pra participar do evento acabei não encontrando o stand deles e nunca mais pensei no assunto.

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O caldo vegano que cura resfriado

Eu tenho um sério problema com missô. Tudo começou de maneira inofensiva. Comprei um potinho dessa pasta de soja fermentada, um ingrediente tradicional da culinária japonesa, pra fermentar o meu queijo de castanhas. Depois comecei a usar em vinagretes e outros molhos pra salada. Depois comecei a usar na sopa, no lugar do caldo de legumes. Depois comecei a fazer uma sopa de missô com soba e couve que se tornou minha obsessão nos últimos meses, ao ponto de ter me surpreendido degustando a danada no café da manhã (quem precisa de papa de aveia quando se pode tomar sopa de missô às 7 da manhã?). Antes um pote de missô durava meses na minha geladeira. Hoje devoro um pote de 300g por semana.

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De dentro pra fora e de fora pra dentro

sopa de lentilha coral, jerimum e coco2

Algumas semanas são tão intensas que fico com a impressão de que um mês inteiro conseguiu se espremer entre dois fins de semanas. Teve as manifestações em solidariedade aos afegãos requerentes de asilo, que correm o risco de serem expulsos a qualquer momento, a visita de um dos meus amigos mais queridos, que me ajudava a fazer as oficinas pra crianças no campo de Aida (Palestina), uma palestra com o historiador israelense Ilan Pappé, que me deixou, como sempre que escuto sua lucidez estonteante, com vontade de sufoca-lo de abraços e beijos.

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Aquela sopa

tahine2

Quem diria que o clube da sopa era tão grande? Fico feliz em saber que tem mais gente interessada em sopa do que em sobremesa, mas não se preocupem. As sobremesas continuarão aparecendo por aqui. Então aqui vai a sopa que mencionei no último post, minha mais nova criação nessa categoria. Ela nasceu da necessidade de usar os únicos legumes disponíveis na geladeira: cenoura e couve-flor. Felizmente descobri que eles combinam divinamente bem e pra deixar a sopa mais interessante tive a ideia de juntar um punhadinho de coentro e umas colheradas de tahine. Couve-flor, tahine e coentro nasceram pra formar um menage à trois gastronomico, então o que tinha tudo pra ser uma sopinha sem pretensão e sem graça se transformou em um creme aveludado, de sabor delicado e delicioso. A sopa fez tanto sucesso que já repeti a receita três vezes em duas semanas. Como essa sopa só tem legumes, gosto de servi-la acompanhada de quinoa cozida, temperada só com sal, pimenta do reino e um fio de azeite, pra transforma-la em refeição completa. Sem falar que o contraste da sopa cremosa e das bolinhas de quinoa estourando na boca deixou a receita ainda melhor. Mas nada te impede de servi-la sozinha, como entrada.

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Um triunfo

Eu tenho uma amiga vegana que sofre bullying da parte de um casal de amigos onívoros. Eles não só fazem piadas o tempo todo sobre a alimentação da minha amiga, como ainda incentivam os três filhos a fazer o mesmo. Minha amiga conta que já aconteceu dela levar um prato vegano quando vai jantar com essa família e quando todos sentaram à mesa os pais apontaram pra comida da minha amiga e, fazendo uma careta de nojo, disseram pras crianças: “Algum de vocês quer comida vegana? Eca!”. E as crianças repetem o “eeeeca!” em coro.

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A fórmula da sopa

sopa de lentilha coral e couve-flor

Estive pensando muito sobre sopas ultimamente. Alguns leitores me falaram da dificuldade em se alimentar bem quando se tem pouquíssimo tempo pra cozinhar e pediram dicas. Acho que esse assunto merece um post inteiro, mas como a primeira coisa que faço quando sei que não terei muito tempo pra cozinhar durante a semana é preparar sopa, pensei em tratar desse assunto hoje.

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Queridos leitores,

sopa jerimum gengibre e coco

Muito obrigada pelos comentários que vocês deixaram no meu último post. Vocês são minha motivação pra manter esse blog no ar, me dão forças pra continuar quando o trabalho parece grande demais pros meus frágeis ombros e me inspiram a ser uma pessoa cada vez melhor. Em 2012 o Papacapim foi visto mais de meio milhão de vezes e saber que tem tantos pares de olhos acompanhando o meu trabalho dá um certo frio na barriga (medo de decepcionar vocês), mas também dá vontade de ir cada vez mais longe, na cozinha e fora dela. Já tenho uma lista imensa de posts que gostaria de escrever, então se preparem que tem muita coisa interessante vindo por aí. Sigam-me os bons!

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Pra reabastecer o corpo

Sopa de espinafre e batata.
Sopa de espinafre e batata.

Essa semana não foi das mais fáceis pra mim. Não consegui imprimir o livro de receitas do projeto a tempo (mil e um problemas técnicos) e como viajo depois de amanhã, isso significa que o livro só verá o dia em janeiro. Vamos perder a oportunidade de vender o livro durante a única época do ano em que Belém é invadida pelos turistas: o natal. Sei que fiz tudo que estava ao meu alcance, mas não consegui não ficar triste e estou com um gostinho de decepção na boca.

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Creme de macaxeira

Minha nada mole vida.

Gostaria de passar por aqui com mais frequência, mas no momento parece impossível. Impressionante como essas férias estão agitadas, contrariamente ao que sugere a foto acima. Pra não ficar tanto tempo longe, estou passando rapidinho só pra dividir uma receita ultra simples, mas saborosa. Espero voltar com mais tempo da próxima vez pois já estou com saudade desse meu cantinho.

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O mês da sopa

Sopa de feijão, couve e milho

Eu poderia tomar sopa todos os dias sem nunca reclamar. Na verdade isso até me deixaria bem feliz. Mas a outra moradora da casa não divide minha empolgação com sopas. Ela gosta, sempre limpa o prato, mas nunca proclamou “Que vontade de tomar sopa hoje!”. Se tiver, ela toma, mas se puder escolher, ela escolhe outra coisa. Pra mim não tem criação culinária mais perfeita do que sopa. Ela é generosa e acolhe os mais diferentes tipos de verduras, leguminosas, cereais e ervas. Ela é democrática e aceita tanto os ingredientes mais humildes quanto os mais requintados.  Ela é econômica e transforma alguns punhados de alimentos em jantar pra várias pessoas. Ela não faz bagunça na cozinha, você só precisa de uma faca, uma tabua de legumes e uma panela. Ela recicla os restos. Ela oferece muitos nutrientes e poucas calorias (as minhas sopas, pelo menos). Ela aquece o corpo por dentro e reconforta. Não consigo entender gente que não gosta de sopa.

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Parece estranho, mas é delicioso

Ajo blanco

Alguns meses atrás publiquei minha receita de gazpacho e ela provocou curiosidade em alguns e estranheza em outros. Sopa gelada ainda é um conceito bizarro no nosso país, o que, como disse minha irmã nos comentários, é surpreendente tendo em vista o calorão que faz na nossa terra. Eu cresci em Natal, onde é verão o ano inteiro, e mesmo nos dias mais quentes tomar um prato de sopa fumegante parecia algo absolutamente natural, afinal sopa é algo que se come quente, certo? Eu também achava, mas graças ao meu amado gazpacho o mundo das sopas geladas me parece hoje muito atraente e tenho certeza que depois de passada a estranheza das primeiras colheradas os céticos concordarão comigo.

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Talvez você esteja precisando

Tem pratos que não são nem um pouco fotogênicos. Sopas e comidas marrom, por exemplo, são difíceis de fotografar. Imagine então a complicação pra fazer uma sopa marrom parecer apetitosa na foto.

Tenho consciência que a foto acima não vai te dar vontade de correr pra cozinha e preparar uma sopa de feijão imediatamente. Sei igualmente que sopa de feijão preto é algo tão humilde, tão simples, que essa receita provavelmente chamará a atenção de pouca gente. Mas talvez você seja um noviço na cozinha. Talvez você não saiba como preparar sopa de feijão. Talvez você esteja sem idéia pro jantar de hoje ou quem sabe até esteja procurando inspiração pra reciclar aquele resto de feijão do almoço. Talvez você tenha simplesmente esquecido como sopa de feijão é capaz de reconfortar a alma e preencher um estômago vazio com muitos nutrientes por um preço módico. Talvez você precise dessa receita.

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Desastres e sucessos

Gazpacho

Felizmente, poucas receitas viraram desastre nas minhas mãos. Claro que não estou contando com minha tentativa de fazer patê com salsicha e cebola crua, afinal eu era criança, não sabia o que estava fazendo e achei o resultado ótimo. Estou me referindo às vezes em que tentei preparar algo e acabei com uma porcaria que só o lixo aceitou engolir. Acho que devo isso ao fato de ser uma cozinheira sensata. Tenho um certo conhecimento gastronômico, mesmo nunca tendo feito curso sobre o assunto, e uma boa dose de intuição culinária. Não colocaria, por exemplo, mangericão em um prato marroquino, nem curry em uma feijoada. Claro que às vezes preparo pratos que não merecem que eu repita a receita, mas é raro sair algo intragável da minha cozinha. Deve ser por isso que me lembro tão bem dos desastres. Meu primeiro gazpacho foi um deles.

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E agora, creme sem creme!

Creme de milho

Terminei ontem um trabalho que tomou boa parte do meu tempo nas últimas semanas: a tradução de um livro pro Francês. Nem tive tempo de comemorar o final desse projeto que tanto me ensinou, e aproveitar o aumento do tempo livre, que um novo trabalho apareceu: mais aulas de Francês. Parece que essa língua anda me perseguindo, mas enquanto ela me trouxer uns tostões extras eu não vou reclamar.

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O prato do pobre

Sopa de lentilha palestina

Prometi uma receita de pão integral pra minha amiga Mona, mas ela vai ter que esperar um pouquinho. Desde a semana passada que estou participando de um projeto muito interessante mas que está consumindo todo o meu tempo. Sem tempo pra cozinhar, estamos nos alimentando de quinoa, macarrão e os legumes solitários que encontro na geladeira. Mas estava ocupada demais pra fazer compras no sábado, dia de ir à feira e fazer o estoque de verduras da semana, e hoje cheguei ao fim da despensa (o “fim do poço” culinário). A maior parte do meu prato é preenchida com verduras e legumes, em qualquer refeição (sim, mesmo no café da manhã), e quando me deparo com uma geladeira vazia, preparar o jantar vira missão impossível. Felizmente pra essas ocasiões existe o prato do pobre.

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Na cozinha

Sopa cremosa de tomate

Saudações da terra dos ocupados! Aqui em casa o nível de atividades nunca esteve tão intenso. Minha vizinha que mora nos States, e que vem aqui duas vezes por ano, me contratou pra fazer todas as suas refeições durante uma semana (café da manhã, almoço, jantar e uns lanchinhos). Ela já tinha contratado meus serviços ano passado e gostou tanto que quis repetir a experiência. Por isso desde sábado passo a maior parte dos meus dias cozinhando, além de continuar todas as minhas outras atividades (oficinas de nutrição pra crianças, aulas de francês, projeto social no campo de refugiados) no tempinho livre que sobra entre as refeições. De noite eu desmaio e Anne me carrega escada acima até a cama. Mas não vou reclamar, afinal não é todo mundo que tem o privilégio de ganhar dinheiro fazendo o que mais gosta.

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Por um onivorismo responsável

Sopa de cenoura e laranja

Há alguns dias comentei que um casal de amigos americanos veio jantar aqui em casa. Publiquei a sobremesa que servi pra eles aqui e hoje vou dividir com vocês a entrada que preparei naquele dia. Adoraria dividir a receita do prato principal, a verdadeira estrela da noite, mas isso terá que esperar até eu descobrir como fazer uma lasanha branca parecer apetitosa nas fotos (as tentativas que fiz até então foram desastrosas).

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A sopa que me fez mudar de idéia

Minestrone vegano

Eu já declarei meu amor por sopa aqui no blog mas vou dizer mais uma vez: eu amo sopa. Poderia comer sopas todos os dias (ah, meus anos de universitária!) sem nunca reclamar. Especialemente no inverno. Pra mim nada reconforta e aquece mais que um prato de sopa fumegante. Quando meu estômago conversa comigo é isso que ele sempre pede e o fato de estar provisoriamente sem aquecedor está contribuindo pra aumentar ainda mais esse meu desejo. Há semanas que venho me alimentando desse prato abençoado e tenho tantas receitas de sopa que poderia criar um blog só sobre esse tema. Mas poderia ser pior. Conheço muitos estômagos que exigem bolo de chocolate, brigadeiro e pizza, então não vou reclamar porque o meu só pensa em algo extremamente nutritivo.

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Uma revelação

Sopa de jerimum e gengibre

Ser professora substituta na escola maternal francesa está sugando todas as minhas forças. Eu fui baby-sitter durante todos os meus anos de faculdade e sobrevivi sem nenhuma sequela (tirando, talvez, uma vontade ainda mais firme de não ter filhos), mas eu cuidava de uma ou duas crianças por vez. Cuidar de nove crianças de três anos ao mesmo tempo, durante seis horas por dia, é de enlouquecer. Professores de escolas maternais, eu vos admiro muito. Acho que as prefeituras deveriam erguer estátuas em homenagem a esses heróis.

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