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Risotto de alecrim e limão com tomates cereja assados

Ontem comecei um projeto novo e totalmente inusitado. Passamos o dia inteiro, eu e Anne, minha parceira na crime (e na vida), realizando essa idéia maluca. Não posso contar nada por enquanto, mas vem surpresa por aí.

Enquanto isso estou curtindo as últimas noites fresquinhas, antes do calorão contínuo do verão, com jantares à luz de velas no nosso pátio e risotto primaveril. Nunca tinha comido risotto na vida quando me deparei com a receita nas costas de uma caixinha de arroz. Achei interessante e quis experimentar. Degustei meu primeiro risotto em casa, preparado no meu fogãozinho elétrico que queimava o fundo de todas as panelas. Pra ser sincera achei que aquilo era uma versão sofisticada do arroz de leite que comemos na minha terra, mas como adoro arroz de leite achei risotto muito bom. Anos depois tive o prazer de provar um autêntico risotto italiano, preparado nas regras da arte, e percebi que minha versão caseira não passava de uma pálida (e grudenta) imitação. Mas eu tratei de aprender a fazer risotto de verdade e corrigi o problema.

 

Esse risotto de alecrim e limão foi o primeiro risotto digno do nome que saiu da minha cozinha. Os sabores frescos, que associo com a primavera, é um contraste agradável com o cremoso do arroz. Acompanhado da doce acidez dos tomates assados, o prato fica ainda mais saboroso e equilibrado. É essencial usar uma variedade de arroz pequeno e redondo, como Arborio ou Carnaroli. Esse tipo de arroz é mais rico em amido, que será responsável pela cremosidade do prato*. Na receita original a textura se torna ainda mais cremosa graças ao acréscimo de manteiga e parmesão, mas na minha versão vegana substituo os dois por creme de castanha que tem uma conscistência e um sabor mais ricos que os outros cremes vegetais (como o de soja ou aveia, por exemplo).  Pra acentuar o sabor, gosto de usar um pouco de levedo maltado, que lembra vagamente o gosto dos queijos fortes. Sei que é um ingrediente difícil de encontrar no Brasil, mas não se preocupe: mesmo sem levedo o risotto é uma delícia.

O tempo está curto hoje, preciso terminar o projeto secreto (esperando que ele não continue secreto por muito tempo). Como Anne e eu estamos ocupadas e James (o nosso mordomo imaginário) não está aqui (ele vive de folga, esse folgado!), não tem ninguém pra fazer o jantar. Se uma alma caridosa se oferecesse pra preparar esse risotto pra nós eu ficaria muito, muito feliz.

Risotto de alecrim e limão com tomate cereja assado

O segredo aqui é acrescentar o caldo de legumes aos pouquinhos, assim o risotto fica cremoso, mas ainda al dente. Claro que quanto melhor o seu caldo de legumes, melhor será o resultado final. Tomate assado tem um sabor mais intenso e concentrado do que tomate fresco e deixa o prato ainda mais especial. Sirva o risotto assim que ficar pronto, pois se você esperar muito antes de degustá-lo ele perderá a textura cremosa e fluida e ficará “ligado”.

2x de arroz pra risotto (uso arborio)

1 cebola picada

2 dentes de alho picados

3cs de azeite

1x de vinho branco seco

2 cubos de caldo de legumes (da melhor qualidade e orgânico, se possível)

1/2x de castanha de caju (crua e sem sal), de molho por 6 horas

1/2cc de amido de milho

1cs de levedo de cerveja maltado** (opcional)

suco e raspas de 1 limão pequeno

2cs de alecrim fresco picado, mais pra servir

5x + 1x de água

sal e pimenta do reino a gosto

25-30 tomates cereja maduros

Espalhe os tomates cereja em uma placa, regue com 1cs de azeite e polvilhe com um pouco de sal. Asse em forno baixo por 1 hora, ou mais. Os tomates devem ficar bem macios e ligeiramente caramelizados (como na foto acima). Reserve no forno, pra manter aquecido.

Esquente 5x de água com os cubos de caldo de legumes. Quando abrir fervura diminua o fogo e mantenha o caldo em fogo baixo, parcialmente tampado, enquanto prepara o risotto. Aqueça 1cs de azeite e refogue a cebola até ficar dourada. Junte o alho e o arroz e refogue mais alguns minutos, até o arroz ficar ligeiramente transparente. Despeje o vinho branco e cozinhe até evaporar completamente. Junte 1 concha do caldo quente ao arroz e deixe cozinhar em fogo baixo até todo o líquido ser absorvido. Repita o processo, acrescentando 1 concha de caldo por vez e mexendo frequentemente, até o arroz ficar cozido mas ligeiramente ao dente. Se o caldo acabar antes do arroz ficar pronto, junte um pouco de água pra continuar o cozimento. Enquanto isso prepare o creme. Bata no liquidificador as castanhas escorridas, 1x de água, o amido de milho e o levedo, se estiver usando, até as castanhas se desintegrarem completamente. Reserve. Quando o arroz estiver pronto junte o creme de castanhas, as raspas de limão e o alecrim. Cozinhe mexendo durante 2 minutos, ou até engrossar ligeiramente e o risotto ganhar uma textura super cremosa. Prove e corrija o sal. Desligue o fogo e junte o suco de limão, 1cs de azeite, pimenta do reino a gosto e mexa bem. Sirva imediatamente, com os tomates assados por cima, alguns raminhos de alecrim fresco pra decorar e mais pimenta do reino, se quiser. Rende 4-6 porções.

* Sabia que quanto menor e mais arredondado o arroz, mais rico em amido ele é? Inversamente, quanto maior e mais alongado o arroz, menos amido. A quantidade de amido determina o nível de “grude”, logo um grão longo faz um arroz mais soltinho, enquanto um grão pequeno produz um arroz ligado (essencial em pratos como risotto).

** Leia mais sobre levedo de cerveja maltado no meu post sobre a despensa vegana.

 

 

Gelato de chocolate

Aqui no blog eu prefiro publicar receitas simples, que usam ingredientes facilmente encontrados, por isso hesitei bastante antes de dividir a receita de hoje.  Mas esse gelato criado acidentalmente é tão gostoso que seria um crime guardá-lo só pra mim.

Uma noite eu queria uma sobremesa gelada. Decidi pegar meu liquidificador e ir misturando um pouco disso, um pouco daquilo… Coloquei tudo no congelador e esperei a mistura congelar parcialmente. Eu tinha feito uma porção bem pequena e meia hora depois minha sobremesa estava pronta. Provei e pensei: “Tem potencial”. Então fui adaptando a receita, juntando outros ingredientes e, três tentativas depois (tenho que agradecer minhas cobaias pelas dicas), nasceu um gelato de chocolate vegano que deixaria minha nona italiana orgulhosa, caso eu tivesse uma. A textura é perfeita: densa e ultra cremosa, como todo bom gelato. O curioso é que embora tenha uma quantidade significativa de banana, o que predomina é um sabor de chocolate ao leite, que lembra um certo picolé famoso que eu adorava quando criança (ainda existe “chica bon”?).

Sempre adorei sorvete mas no dia que provei gelato descobri que existia algo ainda melhor.  Se você não sabe qual a diferença entre os dois aqui vai uma explicação rápida. Sorvete tem mais gordura e, durante o processo de congelação, recebe quase o dobro de ar do que gelato. Resultado: o sabor do gelato é mais intenso, já que não tem uma quantidade excessiva de gordura pra “cobrir” o sabor dos outros ingredientes, e a textura é mais densa, já que tem menos ar. Outra diferença entre os dois é que sorvete é servido congelado, enquanto que gelato é servido em uma temperatura ligeiramente mais alta, logo é mais macio (e dificil de ser degustado sem se lambuzar).

Depois de triturado pra quebrar os cristais de gelo, pronto pra voltar pro congelador.

Eu ganhei uma máquina de fazer sorvete da madrinha de Anne no natal, mas quis experimentar fazer gelato sem máquina pois sei que pouca gente possui esse equipamento. A máquina congela a mistura mexendo o tempo todo, o que quebra os cristais de gelo e deixa o gelato/sorvete cremoso. Mas é possível atingir um resultado parecido sem máquina. É importante usar uma boa dose de gordura já que além de dar cremosidade, gordura não congela (na receita uso castanhas de caju). Um pouco de álcool é bem vindo, pois álcool também não congela, contribuindo pra diminuir a cristalização da mistura. Porém o mais importante é quebrar os cristais de gelo que se formam enquanto o gelato congela. Parte do problema foi resolvido usando banana congelada, que além transformar imediatamente a conscistência, deixando-a parecida com “sorvete mole”, funciona como emulsificante, encorpando a mistura. Tudo isso com um grande bonus: o açúcar da fruta que adoça o gelato de maneira natural. Depois é só passar o gelato pronto no liquidificador, pra quebrar os cristais de gelo que possam ter se formado.

Como eu disse mais acima, gelato não é servido totalmente congelado, mas é difícil  controlar a temperatura dentro de um congelador doméstico. Por isso recomendo não colocar o gelato diretamente sobre o gelo (coloque-o sobre a grelha do congelador, se o seu tiver uma, ou sobre outro recipiente pra impedir o contato direto com o gelo) e servir assim que atingir a conscistência ideal: quase congelado mas ainda cremoso. Se sobrar gelato pra ser servido mais tarde, lembre de tirá-lo do congelador alguns minutos antes de degustá-lo.

Quanto ao ingrediente difícil de encontrar, eu estava falando das quatro tâmarazinhas que entram na receita. Tâmara é um concentrado de açúcar natural (e de nutrientes), perfeito pra adoçar sobremesas, e tem um sabor que lembra caramelo (por isso o apelido de “caramelo da natureza”). Aqui onde moro tem tâmaras por toda a parte, mas sei que no Brasil além de ser mais difícil de encontrar, elas custam uma fortuna. Nunca testei a receita sem as tâmaras, mas acredito que xarope de agave funcione como substituto. Claro que as tâmaras não são usadas só pra adoçar, elas acrescentam um suave sabor camarelizado que adoro, mas tenho certeza que o gelato ainda será delicioso sem elas. Se quiser um sabor de chocolate mais intenso, simplesmente elimine as tâmaras que o doce da banana é sufuciente pra adoçar o gelato.

Eu não sou de me entusiasmar facilmente com sobremesas, mas confesso que essa daqui merece palmas: absolutamente deliciosa e totalmente natural. Quando foi a última vez que você se deparou com uma sobremesa que faz salivar e ao mesmo tempo é saudável, sem colesterol, sem nenhum produto de origem animal, sem açúcar, cheia de vitaminas, minerais e fibras? Eu não gosto de dar ordens, mas às vezes é necessário: levante-se dessa cadeira agora e vá pra cozinha fazer esse gelato. Depois não precisa mandar flores pra me agradecer (não é ecológico e Anne é alérgica a polen) mas outros presentes são bem vindos.

 

Gelato vegano de chocolate

As melhores tâmaras são macias e suculentas. Se suas tâmaras estiverem meio secas e duras, deixe-as de molho em água morna por 1 hora. Se for substituir as tâmaras por xarope de agave, acredito que 4cs sejam suficientes. Use o melhor cacau que encontrar, puro e sem açúcar. Vai fazer uma grande diferença no sabor final. O único imperativo pra fazer essa receita é ter um liquidificador potente. Se seu liquidificador não tritura bem e deixa pedaços de fruta inteiros mesmo nas vitaminas, esqueça essa receita ou compre um liquidificador digno desse nome. Não quero fazer propaganda aqui, mas minha cunhada jura que os daquela marca que começa com “ar” e termina com “no” são os melhores de todos.

 3/4x de castanha de caju (crua*), de molho por 8 horas

1 1/2x de água

4x de banana congelada em rodelas

4 tâmaras

2cs 3cs de cacau em pó de ótima qualidade**

2cc extrato natural de baunilha

2cs de rum

Escorra as castanhas e triture no liquidificador com a água até elas se dissolverem completamente. Dependendo da potência do seu liquidificador vai levar de 30 segundos a alguns minutos então seja paciente. Esfregue um pouco do líquido entre os dedos: quando não sentir mais grânulos está pronto. Reserve (deixe o leite dentro do liquidificador). Remova os caroços das tâmaras e pique-as grosseiramente. Despeje as tâmaras picadas e o resto dos ingredientes no liquidificador (junto com o leite de castanhas) e triture até ficar homogêneo. Você vai precisar desligar o liquidificador algumas vezes e mexer tudo com uma espátula, empurrando o gelato na direção das hélices. A mistura deve ficar com aparência de sorvete mole e não deve ter nenhum pedacinho de banana inteiro. Transfira o gelato pra um recipiente de plástico com tampa e coloque no congelador. Quando estiver quase completamente congelado, despeje pedaços do gelato no liquidificador e triture novamente, pra quebrar os cristais de gelo. Mais uma vez você precisará desligar o motor algumas vezes e empurrar a mistura com uma espátula na direção das hélices. Despeje o gelato no recipiente de plástico e coloque de volta no congelador até ficar firme o suficiente pra servir. Esse gelato é super cremoso se servido poucas horas depois de ter sido preparado, mas pode ser conservado no congelador durante alguns dias (deixe alguns minutos em temperatura ambiente antes de servir). Esqueci de medir, mas acho que rende aproximadamente 1l.

*Teoricamente castanhas de caju nunca são cruas, já que é preciso assá-las pra extraí-las da casca, mas me refiro aqui à castanhas que não foram torradas, aquelas branquinhas e sem sal.

**Quando postei a receita tinha preparado o gelato com um cacau que comprei na França e que era super ultra concentrado. Fiz a receita novamente usando um cacau normal (comprado aqui em Belém) e o resultado foi bem menos intenso. Acho que 3cs é a quantidade certa se você estiver usando um cacau comum.

Patê de tofu com tomate seco e ervas

Em 2009 passei uma longa temporada em Natal e levei uma (recém adquirida) máquina de fazer leite de soja. Quem acompanha o blog há algum tempo sabe que não sou fã de leite de soja, mas acontece que adoro tofu e tinha sido informada que encontrar tofu decente em Natal é uma missão impossível. Tofu feito em casa é muito superior ao encontrado no mercado em matéria de sabor, mas sem uma prensa industrial a textura é bem mais mole do que a do tofu que eu tinha costume de comer. Então comecei a fazer patê com meu tofu caseiro mole e o sucesso foi imediato. Minha família e meus amigos adoraram e cheguei até a vender vários potinhos por semana. Meus clientes eram onívoros, mas muitos eram intolerantes à lactose e enfrentavam o mesmo problema que nós veganos enfrentamos: depois de ter tirado a manteiga, requeijão e queijo da dieta o que passar na nossa fatia de pão?

Mas a produção de patê de tofu acabou quando voltei pra Palestina e alguns amigos me escreveram pedindo minha receita secreta. Demorei bastante pra atender a esses pedidos, não porque não queria dividir a receita com eles, mas porque aqui onde moro não tem tofu (a máquina de fazer leite de soja ficou em Natal, então não posso mais fazer tofu em casa). Estava planejando uma viagem ao país vizinho pra comprar tofu há meses mas nunca achava tempo. Domingo passado decidi que não podia mais privar meus amigos de patê de tofu então atraverssei a fronteira logo cedo e voltei pra casa carregada de tofu. Eu sou o tipo de pessoa que faz grandes sacrifícios pelos amigos (o fato de Anne e eu adorarmos tofu não tem nada a ver com isso, foi puro altruismo).

Fiquei com medo da receita não funcionar com tofu industrializado mas pra minha grande alegria deu certíssimo. De todos os sabores de patê que fazia em Natal, o de tomate seco e ervas era o mais popular e foi essa receita que meus amigos pediram. Esse patê é absolutamente delicioso e agrada vegs, não vegs e simpatizantes. Amigos veganos ou intolerantes à lactose, vocês nunca mais ficarão com inveja do pão com requeijão da pessoa comendo do seu lado: vocês acabam de encontrar um substituto perfeito (e muito mais saudável). Raíssa e Bernd, essa receita é pra vocês.

Patê de tofu com tomate seco e ervas

O sabor do patê vai depender da qualidade do tofu utilizado, então use o melhor tofu que encontrar (quanto mais fresco melhor). Eu prefiro usar tomates secos que não são conservados em óleo, mas se isso é tudo que você achar use uma folha de papel toalha pra enxugar um pouco do óleo dos tomates. Se você achar cebola e alho desidratados (em pó ou flocos) o patê fica ainda mais gostoso e rápido de preparar: use 2cs de cebola desidratada e 1cc de alho em pó no lugar da cebola e do alho frescos. Se quiser fazer uma versão “tomate seco e manjericão” (minha preferida), substitua as ervas desidratadas por 2cs de manjericão fresco picadinho.

300g de tofu (quanto mais fresco, melhor)

1/2 x de castanha de caju (não tostada e sem sal), de molho por pelo menos 6 horas

1 cebola picada

2 dentes de alho picados

1 ½ cc de levedo de cerveja em pó (opcional)

1cc de grãos de mostarda (opcional)

½ cc de feno grego (opcional)

2cs de suco de limão

½ cc (rasa) de sal (ou a gosto)

1 pitada generosa de pimenta do reino

1cs de azeite

entre ½ x e ¾ x de água

½ x de tomate seco picadinho

2cc de ervas desidratadas (alecrim, orégano, manjericão e tomilho)

Aqueça o azeite e refogue a cebola até ficar dourada. Junte o alho e deixe cozinhar mais 1 minuto. Reserve. Se estiver usando a mostarda em grãos e o feno grego, pile os dois juntos até virar um pó fino. Coloque todos os ingredientes, menos a água, o tomate seco e as ervas, no liquidificador (não esqueça de escorrer as castanhas primeiro). Ligue o motor e adicione a água aos pouquinhos. Dependendo da textura do tofu utilizado você precisará de mais ou menos água, mas vá com calma pois o patê deve ficar bem espesso. Será necessário parar o motor algumas vezes e mexer o patê pra que todos os ingredientes sejam triturados. Quando o patê estiver bem cremoso (esfregue um pouco da mistura entre os dedos: se você não sentir mais pedacinhos de castanha inteiros está pronto), junte o tomate seco em pedacinhos e as ervas desidratadas. Misture bem (com uma colher) e transfira pra um recipiente com tampa. Se conserva até uma semana na geladeira. Rende aproximadamente 2x.