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Umas semanas atrás escrevi esse post sobre sarraceno, uma das melhores descobertas gastronômicas que fiz na vida (obrigada, veganismo, por ter expandido tanto os meus horizontes gastronômicos) e prometi a receita dos meus famosos crepes de sarraceno. Vou começar dizendo que essa receita não foi uma invenção minha, longe disso. Crepe de sarraceno é um prato típico da Bretanha, região no Noroeste da França. Lá eles são chamados de “galettes au blé noir” (“galettes de trigo negro”, como o sarraceno também é conhecido em Francês) ou simplesmente “galettes Bretonnes”.

Não me recordo se já conhecia essa delícia na minha vida pre-vegana, mas lembro que alguns anos atrás peguei um pacote de galettes prontas (sem recheio) num supermercado francês e me surpreendi ao perceber que a receita era naturalmente vegana. Na França você não vai colocar as palavras “tradicional” e “vegana” juntas com frequência e é um mistério que um dos raríssimos pratos típicos 100% vegetal venha da Bretanha, região famosa pelo queijo e creme e por colocar manteiga em absolutamente tudo. Tem até um bolo típico de lá que é praticamente manteiga e açúcar com duas pitadas de farinha, um tal de “kouign aman” (nunca comi, mas quem provou me disse que o estômago reclamou bastante depois de ser forçado a digerir tanta gordura saturada de uma vez).

Infelizmente o fato das galettes serem naturalmente veganas não significa que você, amiga vegana, vai poder entrar em qualquer creperia bretã e poder degustar uma. Não podemos esquecer que estamos falando da Bretanha (e da França) e que todos os recheios servidos por lá são à base de animais e suas secreções. A última vez que estive nessa região foi em 2013. Anne e eu entramos em todas as creperias da cidade onde estávamos hospedadas (Saint Malo, uma cidadezinha linda no litoral) e não encontramos uma só galette com recheio vegano. Como diz a minha mama, nem uma pra fazer um chá! O jeito foi comprar as galettes sozinhas e preparar recheios em casa. Aliás naquela viagem criei um recheio com algas frescas, mais um alimento típico da região, que ficou registrado nas nossas papilas, mas isso é outra história.

Voltemos à galette. A receita não poderia ser mais simples. Só tem dois ingredientes (três, se você contar o sal) e exige apenas um liquidificador e uma frigideira. Bem mais em conta que uma viagem à França. Como interroguei todas as cozinheiras e cozinheiros das creperias em Saint Malo, na esperança de achar um recheio feito com plantas, acabei encontrando um que concordou em me dar a sua receita e descobri exatamente como é feito por lá.  E por ser uma alma boa (e modesta) vim aqui compartilhar o segredo com vocês. O pessoal na Bretanha usa farinha de sarraceno, mas além de ser um produto difícil de encontrar, acho o sabor da farinha inferior quando comparado ao sarraceno em grãos. Minha teoria é que provavelmente os grãos pra fazer aquela farinha tenham sido moídos meses atrás e foram ficando rançosos. Não posso garantir que minha teoria tem fundamento, talvez eu tenha simplesmente comprado um saco de farinha velha anos atrás, mas o importante é que não só é possível fazer crepes de sarraceno com os grãos inteiros descascados, como o sabor fica, na minha opinião, ligeiramente superior.

O segredo que o cozinheiro bretão compartilhou comigo foi o seguinte: prepare a massa no dia anterior e deixe fermentando em temperatura ambiente. As bacterias que moram no ar vão entrar na massa, fermenta-la levemente e ela vai ficar mais aerada e com um sabor mais complexo. Eu já esqueci a massa por 48h e ela fermentou bastante e ficou bifásica, com um líquido claro na parte superior e uma massa mais densa na parte inferior. Eu não gosto de desperdício e não tenho medo de fermentar loucamente minha comida, então fiz os crepes apesar do cheiro forte da massa e ficou uma delícia. O sabor ficou bem intenso (não espalha, mas me lembrou camarão seco), o que não vai agradar todo mundo e preciso avisar que não posso me responsabilizar pelos resultados. Se você quiser brincar com as bactérias da sua cozinha e comer o resultado, será por sua conta e risco.

Eu fiz uma oficina de receitas francesas ano passado em Recife e ensinei a fazer esses crepes. Mas como precisava fazer a massa e preparar os crepes imediatamente, o que significava que não podia deixar a massa repousando por 12 horas, usei um atalho. Acrescentar um pouquinho de vinagre de maçã (não pasteurizado) dá uma certa leveza à massa e acrescenta uma pontinha de acidez, o que aconteceria durante o processo de fermentação. Você pode fazer isso numa emergência, mas o método de preparação natural produz resultados melhores.

Então aqui está a receita das deliciosas galettes bretãs, ou crepes de sarraceno. Quem leu o post sobre sarraceno sabe que ele não tem glúten e é uma proteína vegetal completa, então acho esses crepes muito melhores do que os tradicionais feitos com farinha de trigo. Muitas pessoa me perguntam como fazer crepes sem ovos e leite e embora eu tenha postado a minha receita aqui, acho que muito mais interessante do que veganizar crepes convencionais é troca-los por crepes de sarraceno.

 Crepes de sarraceno (galettes bretãs – sem glúten)

Não espere o mesmo sabor de crepes feitos com farinha de trigo. Esses aqui têm um gosto mais forte, com notas ligeiramente amargas, típico do sarraceno. Quem nunca provou pode estranhar um pouco, mas garanto que depois do segundo crepe você terá sido conquistada.

1x de sarraceno em grãos (cru, descascado)

3x de água

Pitada generosa de sal

Bata o sarraceno com a água e o sal no liquidificador até virar uma mistura bem lisa (esfregue um pouco entre os dedos pra testar). Transfira a massa pra um recipiente (de preferência de vidro), cubra com um pano de prato limpo e deixe em temperatura ambiente por 12 horas. Eu faço à noite pra comer no almoço do dia seguinte, ou de manhã pra comer no jantar. A massa vai fermentar ligeiramente (um processo natural, não precisa acrescentar nada) e o sabor e a textura ficarão ainda melhores.

Depois de período de  descanso/fermentação esquente uma frigideira anti-aderente (importante! Se a sua frigideira não for anti-aderente e seu crepe não der certo, não me culpe, pois eu te avisei) com algumas gotas de azeite. Despeje um pouco de massa no centro e imediatamente vire a frigideira em um movimento circular pra massa escorrer pros lados. O crepe deve ficar finíssimo e você pode usar as costas de uma colher pra terminar de espalhar a massa. Deixe cozinhar em fogo médio e assim que descolar, vire o crepe pra cozinhar do outro lado. Uma espátula fina e plana é a sua melhor amiga na hora de virar crepes sem rasga-los. Se o primeiro não sair perfeito, não se preocupe. Dizem que o primeiro crepe nunca dá certo, mesmo. Coma esse crepe como consolo enquanto faz o segundo. Você merece. Repita a operação até ter usado toda a massa, colocando algumas gotinhas de azeite na frigideira antes de cozinhar cada crepe. Eu consigo fazer 6 crepes médios (e fininhos) com essa receita, mas esse número pode variar dependendo do tamanho da sua frigideira e da espessura dos seus crepes.

Recheie como preferir e sirva, de preferência acompanhado de uma salada verde. Você pode dobrar os crepes como uma tapioca, ou tentar a maneira tradicional bretã, como nas fotos acima. Pra isso coloque o recheio no centro do crepe e dobre a parte direita e esquerda do crepe por cima do recheio.  Em seguida dobre a parte superior e inferior da mesma maneira, formando um quadrado, mas deixando uma parte do recheio exposta no meio. Nas fotos acima recheei os crepes com berinjela e cogumelo salteados, cubos de tofu defumado e queijo de castanha.

A massa crua pode ser guardada na geladeira por uns dois dias, em recipiente fechado. Os crepes prontos podem ser guardados na geladeira pelo mesmo tempo. Esquente na frigideira (com umas gotinhas de azeite ou não) antes de degustar. Eles ficarão mais crocantes, mas igualmente deliciosos.

Sugestões de recheios

Espinafre com creme

Cogumelo com creme (refogue cogumelos e use o creme da receita acima)

Tofu mexido com tomate e manjericão

Patê de tofu, tomate seco e ervas

A berinjela de dona Laura

Requeiju + legumes refogados

Hummus, tomate e rúcula

Qualquer pasta que você gostar, mais legumes crus ou refogados

Banana caramelizada e chocolate derretido

Prometi receitas libanesas e uma hora elas chegarão por aqui. Mas por enquanto tenho me deliciado com a culinária local em restaurantes e na feira de produtores locais, onde uma cooperativa de mulheres sírias refugiadas oferece pratos tradicionais desse país. Ainda não cozinhei nada típico em casa porque estou aproveitando enquanto posso a oportunidade de comer quitutes  preparados por mãos libanesas e sírias. Degusto tudo com atenção, provando cada tempero, cada erva, cada legume, pedindo explicações detalhadas e fazendo anotações.  Acho que só vou cozinhar pratos típicos daqui quando eu for embora e a saudade começar a apertar.

Mas apesar de não estar cozinhado nada típico, os ingredientes locais me inspiram imenso, como vocês viram na última receita que apareceu aqui (tahine na papa de aveia!).  Claro que quase todos esses ingredientes já eram familiares pra mim e faziam aparições regulares na minha cozinha, graças aos cinco anos morando na Palestina. Mas tudo aqui é ainda mais vibrante, colorido e sofisticado. Os ingredientes são os mesmos, mas o resultado final é quase sempre mais elaborado e saboroso.

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Porém também descobri alguns ingredientes novos pra mim. A maior surpresa, até agora, foi descobrir a existência de não um, mas três tipos de za’atar! “Za’atar” é uma variedade de tomilho que cresce nessa parte do mundo e, por extensão, é também o nome do condimento composto por folhas de za’atar desidratas e piladas, misturadas com gergelim e sumac (outro tempero local). Aqui no Líbano além da variedade de za’atar usada no condimento (folhas miúdas e arredondadas), a que cresce nas colinas da Palestina, tem também um tipo de za’atar que tem aparência idêntica ao alecrim, só que com o sabor do za’atar comum, embora mais suave e fresco. E, o que me surpreendeu ainda mais, tem um terceiro tipo de za’atar, com folhas maiores e alongadas, de sabor intenso, que é servido com saladas. Na foto acima ele está no centro, com o za’atar com cara de alecrim no cantinho superior direito.

Tenho uma amiga inglesa que é louca por za’atar. Ela fez parte do tour na Palestina em dezembro e voltou pra casa com sacos e mais sacos do condimento (“Estou fingindo que é presente pra minha esposa, mas é tudo pra mim.”). Ontem enviei uma mensagem pra ela dizendo que aqui no Líbano tinha não um, mas três tipos de za’atar e a euforia foi demais pra coração dela. “Não estou sabendo lidar com essa informação!”, ela respondeu. Imaginem um ingrediente que você adora e um belo dia você descobre que tem mais dois tipos do dito cujo, tão deliciosos quanto o primeiro?

Mas passemos à receita abaixo. Tenho tanto a dizer sobre essa tortilla. Durante anos preparei tortillas com tofu, mas sem nunca ficar totalmente satisfeita. O problema quando substituímos ovos por tofu quando veganizamos um prato é que muitas vezes ovo entra na receita pra ‘colar’ os outros ingredientes e dar estrutura ao prato. Tofu tem uma estrutura diferente, ele não coagula durante o cozimento (a coagulação aconteceu durante a fabricação) e não consegue unir os outros ingredientes. Mesmo misturando algum tipo de amido com o tofu, pra dar coesão estrutural à receita, o poder dessa ‘cola’ deixava a desejar. Então minhas tortillas, apesar de saborosas, se esfarelavam facilmente. Não era um problema grave, mais de ordem estética do que outra coisa, porém eu continuava sonhando com tortillas que teriam uma aparência mais autêntica e que formasse fatias bem definidas quando cortadas, ao invés de se despedaçar antes de chegar no prato.

Foi então que decidi fazer uma tortilla usando a massa do meu omelete de grão de bico e minha vida nunca mais foi a mesma. Veganos já sabem, mas vou contar pros não-veganos que ainda não tomaram conhecimento dessa bomba: grão de bico é o ovo vegetal. De omelete à merengue/suspiro, passando por rabanada, ele tem uma composição que se comporta de maneira muito parecida com o danado do ovo e funciona como liga/cola/neve em receitas veganas. E além de ter conseguido a tortilla com a aparência tradicional que eu estava procurando, o sabor também teve uma melhora tremenda. Porque além da estrutura, grão de bico também pode ficar com um sabor extremamente parecido com ovo. Um dos mistérios da natureza. Eu e minha imaginação fértil começamos até a nos perguntar se o nome em Inglês ‘chickpea’ (literalmente “ervilha pinto”) não tinha sido inspirado nisso.

A massa do omelete, que é feita com grão de bico cru, é espalhada sobre as batatas da tortilla e à medida que cozinha vai formando uma estrutura unida. Exatamente como ovo! E como grão de bico é rico em proteínas (bônus: fibras!) essa tortilla, feita com uma dose extra de legumes, é uma refeição completa.

Atenção! Vou repetir aqui uma informação óbvia, mas que passou despercebida pra alguns leitores quando postei a receita do omelete. Grão de bico só vai formar uma estrutura coesa nessa receita se você usá-lo cru (farinha de grão de bico é grão de bico cru triturado). Algumas pessoas fizeram meu omelete com grão de bico cozido e nesse caso você pode deixá-lo na panela pelo tempo que quiser e ele não passará nunca do estágio ‘hummus’ (purê). Em caso de dúvida lembre do ovo: se você tentar fazer omelete ou tortilla com ovo já cozido o que vai acontecer? Nem me veio à cabeça a ideia de explicar isso no post do omelete, de tão óbvio que me pareceu, mas preciso lembrar sempre que o nível de familiaridade com as panelas entre as pessoas que leem esse blog varia enormemente e quero que minhas receitas sejam um sucesso na cozinha de todas.

Como expliquei no início do texto, os ingredientes tradicionais estão me inspirando muito e decidi fazer uma versão desse prato espanhol com sabores libaneses. Além das tradicionais batatas, juntei abobrinhas, tomates e za’atar em dose dupla: usei a versão em pó (condimento) junto com algumas folhinhas do ‘za’atar-irmão-gêmeo-do-alecrim’ fresco. Como sei que será impossível achar esse tipo de za’atar fora do Líbano a receita abaixo leva apenas a versão em pó. Hoje em dia é fácil encontrar za’atar no Brasil em mercearias árabes e em algumas lojas de especiarias.

Será que alguém lendo essas linhas ficou se perguntando “Por que a obsessão dessa criatura em reproduzir exatamente o ovo em suas receitas veganas? Se ela gosta tanto assim de ovo por que não usa ovo, mesmo? Ou então, já que decidiu retirar produtos animais do cardápio, que se contente com tortillas esfarelas e pronto! Se ela quiser realmente comida boa, que deixe de extremismo e volte a comer de tudo.” ? Na verdade acredito que ninguém que frequenta esse blog pensaria isso, mas já escutei esse tipo de comentário algumas vezes. E a minha resposta é a seguinte. Se eu posso comer versões vegetais tão autênticas e saborosas de pratos com ovo, por que me privaria? Mas o que realmente tenho vontade de dizer à essas pessoa é: “Por que você continua usando ovo quando temos uma alternativa sem crueldade, fácil de encontrar, prática, barata, pobre em gordura, zero colesterol, cheia de fibras e deliciosa ao alcance da mão?”

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Tortilla espanhola vegana com abobrinha e za’atar

Se você não encontrar za’atar, não tem problema. Essa tortilha fica igualmente saborosa sem esse ingrediente. Ou substitua por uma erva fresca que você goste (tomilho, alecrim, salsinha, coentro…). Ainda não testei essa receita com a massa de omelete feita com grão de bico demolhado e triturado, mas pretendo testar um dia. Um leitor escreveu dizendo que faz isso há tempos e dá muito certo:)

5cs bem cheias de farinha de grão de bico

1x de água

2-3 batatas médias

2x de abobrinha italiana, cortada em meia-lua

1 cebola, em fatias médias

1 tomate, em pedaços médios

3-4 dentes de alho, picados

2cc de za’atar (em pó)

Azeite

Sal e pimenta do reino a gosto

Na noite anterior misture a farinha de grão de bico com a água, acrescentando aos pouquinhos e mexendo bem pra dissolver completamente, sem formar grumos. Acrescente duas pitadas generosas de sal, cubra e deixe descansar em temperatura ambiente por 12 horas. O sabor fica muito melhor se você deixar sua farinha de grão de bico de molho por 12 horas antes de utiliza-la. Você pode preparar a massa com até 2-3 dias de antecedência e deixar na geladeira, em recipiente fechado. Tendo sempre um pouco dessa massa descansando na geladeira, você poderá preparar omeletes e tortillas sempre que quiser.

No dia seguinte descasque e corte as batatas em meia-luas de espessura média. Cubra com água, tempere generosamente com sal e cozinhe até a batata começar a ficar macia. Escorra e reserve.

Enquanto a batata cozinha, corte a abobrinha também em meia-luas de espessura média. Como abobrinhas variam muito de tamanho, preferi dar a quantidade em xícaras do que em unidades. Aqueça uma chapa (ou, caso não possua uma, use uma frigideira grande e pesada, de preferência de ferro) com um pouco de azeite. Grelhe a abobrinha até ficar bem dourada dos dois lados. Tempere com sal a gosto e reserve. Acrescente mais um pouco de azeite na chapa e faça a mesma coisa com a cebola. Reserve. Por último grelhe o tomate por um minuto, só o suficiente pra ele amolecer um pouco sem no entanto começar a se desfazer. Grelhar os legumes antes pode parecer trabalhoso, mas garanto que o sabor compensa.

Em uma frigideira média (anti-aderente) e com uma  tampa que cubra bem aqueça 2cs de azeite. Doure o alho picado por alguns segundos, junte as fatias de batata cozida e misture bem (o alho não pode ficar todo no fundo da frigideira, senão ele vai queimar). Distribua os legumes grelhados sobre as batatas de maneira uniforme, misture rapidamente e salpique 1cc de za’atar por cima. Despeje delicadamente a massa de grão de bico (lembre de misturar bem com um garfo antes, pois ela pode separar um pouco durante o repouso. Também não esqueça de provar e corrigir o sal da massa, se necessário). Tampe a frigideira e deixe cozinhar no fogo mais baixo possível por 15 minutos. Passado esse tempo desligue o fogo, destampe a frigideira e deixe a tortilla esfriar durante outros 15-20 minutos. Aproveite pra dar uma voltinha com o seu cachorro, telefonar pra sua mãe ou lavar a louça. Esse tempo de descanso facilita muito a próxima etapa, que é virar a tortilla pra que ela cozinhe do outro lado, e faz com que o omelete de grão de bico termine de cozinhar sem que o fundo da tortilha queime.

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Quando sua tortilla tiver amornado coloque um prato raso sobre a frigideira (o diâmetro do prato deve ser ligeiramente maior do que o da frigideira) e com uma mão segurando o prato e a outra no fundo da frigideira (use luvas de pano se ela ainda estiver quente) inverta tudo com um movimento rápido. Leve a frigideira vazia de volta pro fogo, junte mais um tiquinho de azeite e, inclinando o prato, deixe a tortilha escorregar pra dentro da frigideira pra assar do outro lado. Deixe cozinhar por mais 5 minutos, dessa vez descoberto.

Na hora de servir você tem duas opções. Ou deixa a tortilla dentro da frigideira (pois agora ela está com o lado certinho, o das batatas, pra cima) e serve ali mesmo, tomando cuidado na hora de cortar pra não estragar sua frigideira (aconselho fazer isso se sua frigideira for de ferro, mas não se ela for de teflon). Ou vire a tortilla novamente sobre um prato (ela ficará de cabeça pra baixo) e depois vire novamente sobre um segundo prato (pra coloca-la de cabeça pra cima). Nos dois casos polvilhe a tortilha com o resto do za’atar antes de servir. Pode ser degustada quente ou em temperatura ambiente. Rende 4 porções como prato principal, acompanhada de uma salada, ou várias mini-porções pro lanche/aperitivo.

Começou de novo. Quando explico que estou em Beirute passando uma temporada de três meses as pessoas imediatamente me perguntam: “Onde você mora?”. Respondo: “Em Beirute” e termino a frase na minha cabeça com “…ora pois!” Mas elas nunca ficam satisfeitas, pois esperam uma resposta definitiva. O que eu não tenho.

A vida de nômade, que adotei quando saí da Palestina em 2013, continua, mas alguma coisa dentro de mim começou a mudar. Outro dia me surpreendi contando pra uma amiga: “Meu sonho atual é morar em um lugar tempo suficiente pra plantar ervas e vê-las crescer. Sonho com vasos de alecrim e tomilho. Que pessoa sem graça me tornei, sonhando com plantas em vasos.” Então lembrei que um dia ela, que tem um jardim com alecrim e tomilho na sua Jerusalém, disse que admirava o meu espírito aventureiro e que sonhava em morar em outros lugares, mas que tinha medo de abandonar o conforto do conhecido. Moral da história: o alecrim da outra é sempre mais verde.

Mas ser nômade tem inúmeras vantagens, obviamente. Conhecer novos lugares e novas pessoas, ver realidades diferentes, descobrir novas culturas, expandir os horizontes e o repertório culinário… Estou adorando morar em Beirute. Que cidade fascinante! Sempre quis passar uma chuva aqui e não caibo em mim de alegria por estar vivendo mais essa experiência. Na maior parte do tempo até esqueço o sonho das plantas nos vasos.

Decidi me mudar pra cá seis meses atrás. Na época eu estava morando e trabalhando em Londres, pensando no que faria da vida no início de 2016, depois da temporada de três meses na Palestina (onde aconteceram os dois tours político-gastronômico-ativista-vegano-feministas Papacapim;) Anne foi me visitar em Londres e falou que estava pensando em ir pra Beirute pra fazer um projeto sobre os refugiados palestinos e sírios no país. De repente a ideia de me juntar a ela pareceu supimpa. Não sei de onde veio a impressão de que aquilo era a coisa certa a ser feita, mas agora que estou aqui tenho certeza que estou exatamente onde deveria estar. Essa nova etapa da minha vida faz muito sentido e está em perfeita harmonia com o caminho que estou seguindo.

E falando no meu caminho, gostaria de escrever algumas linhas sobre algo que está me cutucando desde que Anne falou, olhando os últimos posts que apareceram aqui no blog: “Beirute, Paris, Marselha, Palestina, Londres… Quem lê seu blog deve imaginar que você leva uma vida ultra glamorosa.” Não sei se tem gente pensando que vivo “a pão-de-ló e Moët & Chandon”, até porque as leitoras de longa data sabem de detalhes da minha vida que mostram o quão simples (ou “roots”, como minha irmã vive me dizendo) ela é. Mas se ainda não ficou claro, saibam que eu não tenho renda fixa, não tenho sequer uma conta bancária (consequentemente não tenho cartão de crédito), não tenho plano de saúde nem economias (poupança, bens) e me acontece de chegar em uma cidade nova com recursos suficientes pra me manter durante apenas um mês (e às vezes sem saber o que farei nem aonde irei depois). Tive que abrir mão da segurança financeira (emprego fixo, salário todo mês) pra poder levar a vida que levo hoje e sei que isso seria uma fonte de estresse terrível, talvez até insuportável, pra muita gente. A vida de sonho pra uns é um pesadelo pra outros. Mas se você me perguntar vou responder que essa não é uma vida “de sonho” e sim a vida dos meus sonhos, a vida que eu sempre quis ter e que me faz feliz no momento. Não tem glamour nenhum, tem preocupações e espinhos como a vida de qualquer pessoa, mas ela foi criada sob medida pra oferecer o que o meu coração (e o meu só) deseja.

Depois dessa tentativa de desanuviamento, voltemos à Beirute. Eu mencionei no último post que tinha sido convidada pra cozinhar em um restaurante veg da cidade. Preparei um menu (vegano, claro) de inspiração sul-americana, que foi servido somente no sábado e domingo passados e foi um sucesso absoluto! Na quinta já estava tudo reservado pros dois dias e tivemos que recusar várias pessoas. Não imaginei que o interesse do pessoal local seria tanto e o feedback foi extremamente positivo. Tanto da parte dos veganos quanto dos onívoros.

Curiosamente o prato que fez mais sucesso com os onívoros foi o ceviche de cogumelo. O que me deixou pra lá de feliz, pois eles comem ceviche de peixe e ainda assim acharam a minha versão vegetal excelente. Então gostaria de compartilhar essa receita incrível, que criei tempos atrás e que guardei em segredo até agora. Se você não sabe o que é ceviche, aqui vai uma explicação sucinta. É um prato típico do Peru, à base de peixe e a particularidade dessa receita é que o peixe “cozinha” no suco de limão. Você coloca o peixe cru em pedacinhos no suco de limão e deixa marinando ali. O ácido cítrico faz com que o peixe ganhe aparência e textura de cozido.

Nunca comi ceviche tradicional, mas quando li sobre esse prato imediatamente tive vontade de fazer uma versão vegana. Acabei desenvolvendo não uma, mas duas versões vegetais de ceviche e a receita abaixo, com cogumelos, é a minha preferida. O que realmente me inspirou foi a técnica de ‘cozimento’ no suco de limão e descobri que ela também pode ser aplicada a cogumelos. Se você não tiver acesso a cogumelos, também pode usar palmito cozido (o outro tipo de ceviche vegano que criei) e, embora ainda não tenha testado, vi que tem gente fazendo ceviche veg com polpa de coco verde! Estou louca pra experimentar a versão com coco verde, mas terei que esperar até a minha próxima ida ao Brasil. Se alguém tentar ou já testou, compartilhe a experiência comigo, por favor.

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Ceviche de cogumelo, abacate e toranja (vegano, sem glúten)

Os cogumelos precisam marinar durante uma noite, então se programe pra começar a fazer a receita na véspera de quando quiser degusta-la. Gosto de usar toranja rosa nessa receita, porque é uma fruta que adoro e a mistura de cores fica linda. Mas como toranjas são raras no Brasil, você pode substituí-la por laranja. Pra fazer cubos de laranja/toranja sem a pele branca (que tem um sabor amargo desagradável) veja esse post, onde expliquei como descascar frutas cítricas. Na receita de ceviche não precisa fazer “supremos”, como no post, basta seguir as instruções pra retirar a casca+pele branca, depois fatiar a fruta em rodelas de espessura médias e cortar tudo em cubinhos.

2 punhados de cogumelos frescos (usei champignons dessa vez, mas já fiz com outros tipos de cogumelos. Se quiser usar outro tipo, verifique primeiro se ele pode ser consumido cru)

4 folhas de alga nori (ou 2cs de outra alga desidratada em flocos)

1/3 x de molho shoyu

1/3 x de suco de limão

1/3 x de água

1 cs cheia de melado de cana (ou xarope de agave)

1 punhado de coentro, picado (opcional)

2 x de abacate, em cubos pequenos

2 x de toranja rosa ou laranja, sem casca e em cubos pequenos (leia a informação acima)

Pimenta do reino

Corte os cogumelos em fatias bem finas. Se você não tiver muita habilidade com facas, use um fatiador de legumes (ou mandolina). Use uma tesoura grande pra picar as folhas de nori, fazendo confetes de algas (claro que isso não será necessário se você estiver usando algas em flocos). Em um recipiente grande misture o shoyu, o suco de limão, a água, o melado e a alga picada. Juste os cogumelos fatiados e misture bem com as mãos até todas as fatias ficarem envolvidas na marinada. Transfira tudo pra um recipiente com tampa. Os cogumelos devem ficar submersos na marinada, então junte mais um pouco de água, se necessário. Tampe e deixe na geladeira durante no mínimo 12 horas (uma noite), mas pode marinar até dois dias. Esse passo é essencial pros cogumelos amolecerem e se impregnarem do sabor da alga. Quanto mais tempo os cogumelos repousarem na marinada, mais intenso será o sabor marinho.

No dia seguinte escorra os cogumelos marinados em cima de uma panela pequena, pra recolher a marinada, e reserve. Leve a marinada ao fogo e ferva até 2/3 do líquido evaporar e se tornar um molho espesso. Corte o abacate, a toranja (ou laranja) e pique o coentro

Gosto de servir o ceviche em porções individuais (em copinhos ou cumbucas bem pequenas), mas nada te impede de colocar tudo em um recipiente maior e deixar cada pessoa se servir. Pra montar o ceviche misture delicadamente os cubos de abacate e toranja/laranja, disponha os cogumelos marinados por cima, regue tudo com um pouco da marinada reduzida e tempere com o coentro picado e pimenta do reino. Eu acho que o shoyu do molho e cogumelos é suficiente pra temperar todo o prato, então não acrescento sal nenhum. Sirva imediatamente. Rende 4-6 porções (entrada).