A vida está cada vez melhor por essas bandas. Faz dois meses e meio que me mudei pra Londres e só agora comecei a sentir a poeira da mudança baixar e ver uma certa rotina surgir. Já não aguentava mais carregar minha mala pelos metrôs londrinos. Felizmente acabei sendo acolhida por um grande amigo inglês da minha avó francesa (essa avó eu adotei quando era estudante universitária em Paris), que conheci 8 anos atrás, quando me ofereci pra traduzir pro Francês o livro que ele estava escrevendo. Andrew era pastor da igreja protestante e há décadas escreve um livro, em quadrinhos, pra explicar o que na opinião dele é a verdadeira mensagem de Jesus. Pra ele Jesus queria fazer uma revolução de classes e não estava nem um pouco interessado em religião. Adorei o projeto e aceitei traduzir parte dele. Quando me mudei pra Palestina abandonei a tradução por falta de tempo e hoje é a minha avó que cuida da versão francesa da obra de Andrew, que tem vários volumes.

Poucos dias depois de ter chegado aqui minha avó veio nos visitar. Ela ficou hospedada na casa de Andrew e uma noite fui jantar com eles. Andrew tinha preparado um cuscuz marroquino vegano pra nós e passamos a noite conversando sobre a Palestina, os livros dele e a dificuldade de encontrar aluguéis baratos em Londres.

Dias depois desse jantar me vi sentada no chão do quarto que eu tinha alugado por um mês, depois de uma semana de busca intensa por um teto londrino, cada vez mais chocada com o preços dos aluguéis nessa cidade e preocupadíssima com o fato de não estar ganhando dinheiro suficiente pra alugar nem o armário sob a escada onde Harry Potter dormia (eu estava trabalhando só dois dias por semana), quando bateu uma angústia profunda. Eu teria que sair daquela casa dali a poucos dias e ainda não tinha encontrado um novo lar e mesmo se tivesse encontrado, eu não teria dinheiro pra pagar o aluguel. Então senti muito medo e chorei. Mas depois de alguns minutos paralisada pelo medo, meu cérebro foi voltando a funcionar aos pouquinhos. Eu não ia ficar na rua. Tinha pelo menos um sofá amigo à minha disposição. Eu ia conseguir mais trabalho. Na pior das hipóteses eu tinha a quem pedir apoio (financeiro e emocional). Tudo ia dar certo. Então sequei as lágrimas e fui caminhar no parque do lado de casa. Acho que rolou até um suco verde no caminho de volta e dois dedos de prosa com o vendedor da loja de orgânicos da esquina.

No dia seguinte encontrei uma mensagem de Andrew no meu celular me convidando pra morar na casa dele. Um dos quartos da casa, que acolhia um amigo de passagem pela cidade, tinha acabado de ser desocupado. Liguei pra ele pra ter certeza que tinha entendido certo. Sim, o quarto era meu, se eu quisesse. Não, não precisava pagar nada. Nem sequer ajudar com as contas de água e luz. Eu podia me mudar no dia seguinte. Então dei vários pinotes de alegria e até hoje ando por aí com o peito transbordando gratidão, com uma vontade danada de mandar flores pro delegado, de bater na porta do vizinho e desejar bom dia, de beijar o português da padaria…

E foi assim que eu vim parar nessa casa. Andrew tem 73 anos e ficou viúvo dois anos atrás. Hoje ele mora com duas filhas (ele tem quatro filhos ao todo) e Dani, seu fiel companheiro de quatro patas, que sempre quando eu abro a porta me recebe como se eu fosse um dos Beatles. As meninas quase nunca param em casa e dormem muito na casa da terceira irmã, que acabou de ter bebê. Eu também passo pouco tempo aqui, já que agora trabalho todos os dias (alguns dias trabalho 10, 12 horas seguidas). Então nos encontramos à noite e na maior parte do tempo jantamos só nós dois, com Dani deitado embaixo da mesa. Andrew se sente muito sozinho depois de ter perdido a esposa e como os filhos passam cada vez menos tempo com ele, sinto que ele aprecia muito a minha companhia.

Sempre gostei muito de conversar com pessoas mais velhas e aprendo imensamente com essas interações. Outro dia Andrew me disse “Sabe, agora que estou velho descobri porque meu pai, no final da vida, e meu avó me irritavam tanto. Quando a gente fica velho pode continuar fazendo tudo que fazíamos antes, mas precisamos de muito mais tempo. Tudo fica mais lento e ainda não me acostumei com a minha recém adquirida lentidão. Agora as coisas mais banais exigem um esforço imenso, fico cansado tão facilmente. E hoje eu vejo a irritação no rosto dos meus filhos, a falta de paciência comigo. A mesma irritação e falta de paciência que eu sentia com o meu velho pai.”  Isso me partiu o coração, pois me fez lembrar que também sou culpada dessa falta de paciência com os meus pais. Contei pra ele que sempre que vejo um idoso caminhar lentamente e com dificuldade na rua fico ligeiramente constrangida de poder caminhar tão rápido e de passar por ele a toda velocidade. Então diminuo o ritmo e passo lentamente do lado do idoso, na esperança de não fazer com que ele se sinta diminuído pelo vigor que a juventude me dá. Ele riu e disse que eu não devia me sentir constrangida nessas situações e que eu provavelmente não faria o idoso se sentir melhor ao igualar o meu passo com o dele. E tenho certeza que ele está certo. Acho que ao invés de dar a impressão ao idoso de estar caminhando mais rápido, ele deve pensar: “Tadinha dessa moça. Tão jovem e já com problemas nas pernas”.

Andrew tem uma voz de trovão, uma farta barba branca e uma presença que ocupa todo o cômodo, mesmo agora que a saúde começou a dar sinais de fraqueza.  Ele me conta histórias sobre Jesus e os apóstolos, mas de acordo com a sua interpretação. Tudo que ele me fala é interessante e às vezes hilário. Adoro quando ele me explica, com a ajuda de passagens da Bíblia, que Jesus era um anarquista. Imagino a graça que seria oferecer essas lições às crianças da Escola Dominical. Morar em uma casa onde a rede wi-fi se chama “Jesus era um revolucionário” e a senha é “Deus dos marginais” não tem preço.

Meu quarto é bem pequeno e pela primeira vez desde que saí da casa da minha família em Natal, 13 anos atrás, durmo em uma cama de solteiro. Acho que o fato de morar com alguém muito mais velho que eu, dormir em uma cama de solteiro e passar todo o meu tempo em casa dentro do quarto (na sala tem uma televisão e poucas coisas me irritam mais do que esse aparelho) faz com que eu me sinta adolescente novamente. Depois de jantar com Andrew eu lavo a louça, dou um beijo naquele rosto barbudo, outro no ser peludo e saltitante que insiste em se instalar na minha cama quando não estou olhando, e subo por meu quarto. A jornada de uma cozinheira é pesada, principalmente quando passo o dia inteiro trabalhando, e caio na cama exausta. Mas eu sou uma daquelas pessoas que mesmo com o corpo moído e esgotado não conseguem achar o pitoco pra desligar a cabeça. Então gosto de ler na cama e a minha mesa de cabeceira abriga uma coleção pra lá de eclética. No momento tem: ‘A mulher independente’ de Simone de Beauvoir, um livro sobre poliamor chamado ‘The Ethical Slut’, dois livros de Andrew- ‘A Bíblia como Política’ e ‘Deus dos marginais’-, um livro chamado ‘Equal Rites’, recomendado por uma leitora, quatro livros de culinária, uma revista francesa feminista, uma revista inglesa vegana, um livreto sobre a conexão entre capitalismo, comunismo e liberação animal… Mas atualmente tenho um novo ritual na hora de dormir. Estou viciada em um podcast inglês chamado ‘Philosophy Bites’ e gosto de colocar os headphones, apagar a luz e escutar filósofos discutindo Platão, responsabilidade moral e estereótipo implícito.

Então a vida está cada vez melhor por aqui. Tenho um lar, doce, lar (e a cozinha oferece uma viagem aos anos 70), moro com gente maravilhosa, adoro o meu trabalho, o volume de trabalho aumentou consideravelmente, o verão está chegando e a cidade está cada vez mais agradável. Só sinto falta de cozinhar mais. Claro que cozinho o tempo todo no trabalho, mas sinto falta de cozinhar fora dele. Faço comida aqui em casa regularmente e como estou morando com onívoros não posso contar com o que eles preparam pra me alimentar. Mas o tempo é curto e o cansaço é grande, então preparo coisas muitos simples, como feijão (de todas as cores), muita couve do tipo kale, sopas, papa de aveia… Nada que já não tenha aparecido aqui no blog.

Porém semana passada fui invadida por uma vontade aguda de comer dal e como aqui tem uma população indiana e cingalesa grande é fácil encontrar especiarias e lentilha coral em qualquer mercearia. Na esquina do meu prédio tem uma mercearia de um simpático casal do Sri Lanka e em poucos minutos eu estava com todos os ingredientes pra preparar o meu dal. Então me dei conta que nunca tinha publicado uma receita de dal aqui no blog. É de uma simplicidade imensa, mas é uma das receitas que sempre faço quando preciso de algo nutritivo, que vai me alimentar durante horas e que fica pronto em pouco tempo.

Tradicionalmente a mistura de especiarias usada nessa receita (garam masala) é feita da seguinte maneira. As especiarias inteiras (não em pó) são tostadas em uma frigideira seca até começarem a soltar seus aromas. Depois elas são piladas até a mistura virar um pó relativamente fino. Isso é feito enquanto você preparar o prato, na quantidade que você precisar pra receita. Depois de moídas, especiarias vão perdendo o aroma com o tempo, por isso é melhor moer na hora em que você for usar, em pequenas quantidades, pra desfrutar do melhor que elas têm pra oferecer. Eu geralmente faço isso quando preparo pratos indianos, mas como expliquei mais acima, esse dal é uma das receitas que faço quando não tenho muito tempo e preciso de algo robusto e nutritivo. Por isso uso especiarias em pó, pra ir mais rápido. Mas é importante tostá-las no óleo de coco pra intensificar o aroma e o sabor.

Eu tenho um grande amigo francês que faz um dal delicioso. A gente se conheceu na Palestina e ele sempre preparava esse prato quando me chamava pra jantar na casa dele. A receita original usava manteiga, mas meu amigo veganaziva o seu dal substituindo esse ingrediente por margarina. Por mais que eu gostasse daquele dal quem leu esse post sabe que eu considero margarina o condimento do demônio (imaginando, claro, que ele existe e que parte do seu plano diabólico pra destruir os humanos é preparar condimentos pra gente. Suspeito que ele esteja por trás do glutamato monossódico também.). Então sempre pensava que deveria ter uma maneira mais saudável e gostosa de veganizar a receita do meu amigo.

A manteiga entra no dal pra dar cremosidade e untuosidade ao prato. Muita gente acredita que margarina é um bom substituto vegetal, e talvez o único, pra esse ingrediente. Mas além de ser criação do coisa ruim, como expliquei no famoso post, as qualidades gustativas e culinárias da margarina deixam muito a desejar. Manteiga é uma gordura saturada, por isso é sólida em temperatura ambiente. Margarina é feita com óleos vegetais (hidrogenados ou interestificados) e é composta basicamente de gordura insaturada. Por isso não oferece a mesma untuosidade, nem se comporta da mesma maneira em massas folhadas etc. Por muito tempo fiz dal só com azeite, mas nunca fiquei totalmente satisfeita com o resultado. Então lembrei que tem um óleo vegetal rico em gordura saturada (aquele outro tipo de gordura saturada que faz bem) e que por isso oferece as mesmas propriedades culinárias da manteiga: óleo de coco virgem. Claro que o sabor não tem nada a ver com o sabor da manteiga, mas nessa receita o suave aroma de coco casa perfeitamente bem com o resto dos ingredientes. Nasceu o dal dos meus sonhos, vegano, ultra cremoso e delicioso.

 Como eu disse, a vida está ficando cada vez melhor por aqui.

 dal

 Dal

Duas coisas importantes nessa receita: a lentilha tem que ser coral (ela se desfaz depois de cozida, dando a consistência típica do dal) e o óleo tem que ser de coco e virgem. Expliquei o porquê do óleo no texto acima. Também expliquei porque usei especiarias em pó e não o método tradicional pra fazer ‘garam masala’. Então não deixe de ler o texto pra entender melhor a receita. Uma observação sobre óleo de coco virgem: como ele se solidifica quando a temperatura esfria, dependendo do frio/calor que estiver fazendo onde você mora o seu óleo estará líquido ou sólido. Isso pode gerar confusão na hora de medir as colheradas, pois quando medimos uma colher de sopa do óleo solidificado a quantidade é geralmente maior do que se ele estivesse líquido. Por isso na receita abaixo indiquei as medidas do óleo líquido e sólido.  E se você ainda tem medo da gordura do coco, leia esse post.

 250g de lentilha coral

1 folha de louro

1 cebola grande

4-6 dentes de alho grandes

1/2 polegar de gengibre fresco (opcional)

1cc rasa de cominho em pó

1cc rasa de semente de coentro em pó

1/2cc de cúrcuma

1/2cc de canela

1 pitada de cravo em pó (opcional)

1 pitada de cardamomo em pó (opcional)

óleo de coco virgem

Sal a gosto

 

Despeje as lentilhas em uma panela média e cubra com água fria. A quantidade de água necessária vai variar um pouco, pois quanto mais velha a lentilha, mais água você vai precisar e maior o tempo de cozimento. Comece com 1 parte de lentilha pra 3 partes de água e acrescente mais água durante o cozimento, se for necessário. Junte o louro e punhadinho de sal e leve ao fogo alto. Assim que começar a ferver baixe o fogo e cozinhe até a lentilha se desintegrar completamente e se transformar em uma sopa espessa.

Enquanto a lentilha cozinha, pique a cebola e o alho e rale o gengibre. Aqueça 2cs de óleo de coco líquido (1cs cheia se ele estiver sólido) e doure a cebola. Junte o alho e o gengibre (se estiver usando) e deixe cozinhar por mais 30 segundos. Junte todas as especiarias e toste, mexendo com uma colher de pau, até elas começarem a liberar um aroma intenso (isso só leva uns 15-20 segundos). Despeje a lentilha cozinha e mexa bem. Deixe cozinhar mais 5 minutos em fogo baixo, pra lentilha absorver bem os temperos e encorpar mais um pouco. Junte 2 cs de óleo de coco virgem (se ele estiver líquido. Ou 1 cs bem cheia do óleo solidificado) e misture bem. O dal tem que ficar bem cremoso e rico, então não tenha medo de juntar mais um pouquinho de óleo de coco se achar necessário. Prove e corrija o sal.

Sirva acompanhado de arroz basmati, ou sozinho. Rende 4 porções (se servido junto com arroz e alguma verdura) ou 2 porções como prato único. O dal pode ser conservado por vários dias na geladeira (o frio vai deixá-lo mais espesso, então acrescente um pouco d’água na hora de esquentar) e também pode ser congelado.