Deixei a Palestina, que voltou a ser o meu lar (mas dessa vez só por três meses), há pouco mais de uma semana. Vim passar o final do ano na França e preparar os últimos detalhes da próxima etapa. Depois de visitar a família e seus micróbios (nessa época do ano quase todo mundo fica adoentado) acordei resfriada, com as ideias meio moles e o corpo em câmera lenta. Anne acendeu a lareira pra me aquecer o corpo e alegrar o coração, colocou Djavan pra tocar e sentou pra trabalhar do meu lado. Estou escrevendo essas linhas no conforto de uma sala duplamente aquecida, com vista pro opulento jardim de um hectare que cerca a casa e com a barriga cheia da deliciosa baguete com sementes que meu sogro trouxe pro nosso café da manhã.

Passar de um campo de refugiados na Palestina pra essa realidade francesa foi uma fonte de tormento durante anos. Era difícil aproveitar o presente quando tudo que eu conseguia ver era o contraste gritante entre os privilégios daqui e a violação dos direitos humanos mais básicos de lá. Eu transito por vários grupos, uns privilegiados e outros extremamente oprimidos. E pra manter minha alma serena nessa montanha russa social eu tenho os meus pequenos rituais. Respirar fundo ajuda. Passar menos tempo me exasperando com certos comportamentos alheios e mais tempo focalizada na missão de ser uma ferramenta de mudança positiva ajuda ainda mais. Fazer “toc, toc” na porta da compaixão e lembrar que eu também tenho meus privilégios e já fui totalmente apolitizada me ajuda imenso.

E eu também tenho uma arma secreta pra passar de um mundo a outro sem me deprimir pensando no contraste. Na minha vida tem pessoas capazes de se indignarem comigo. No momento estou com a minha companheira de indignação preferida, com quem me indigno com mais frequência: Anne. Talvez isso só seja válido pra nós, ativistas, mas se alguém me perguntasse o segredo pra ter um casamento feliz eu responderia: casei com alguém que aprecia as mesmas coisas que eu e que se indigna com as mesmas coisas que eu.

Ter alguém pra se indignar comigo é indispensável. Sem isso me sinto sozinha com meus princípios e pequenininha diante das desigualdades gigantes desse mundo. Mas basta ter uma companheira de indignação pra que eu me sinta mais forte e pra me relembrar que se há outras pessoas que acreditam e lutam por um mundo mais justo, então meu coração tem razões de ter esperança.

Amigxs que se indignam e que querem ser um instrumento de mudança positiva nesse mundo, recomendo muito “Indignai-vos!”, o livro-manifesto do diplomata, militante, escritor e defensor dos direitos humanos Stéphane Hessel, que foi o coautor da Declaração Universal dos Direitos Humanos (que eu admiro enormemente e que minha companheira de indignação conheceu pessoalmente e teve a honra de guiar durante uma semana na Faixa de Gaza. Me digam se isso não é um sinal que a gente deve continuar se indignando juntas por muitos anos?).

Mas voltemos à França. Sempre que estou por aqui acabo passando boa parte do meu tempo na cozinha. Gosto de impressionar a família francesa com minhas receitas e não perco uma oportunidade de ser embaixadora da culinária vegana. Então já criei muita coisa boa nessa cozinha, que sempre me inspira. Outro dia decidi fazer, enfim, uma receita que eu tinha salvado na pasta “receitas pra testar” há tempos. Um mousse de chocolate que prometia replicar perfeitamente os mousses franceses que o pessoal daqui tanto gosta. Quando eu era universitária (e onívora) em Paris eu comprava potinhos e mais potinhos de mousse de chocolate no supermercado, pois era uma das minhas sobremesas preferidas. A receita tradicional daqui me dá arrepios, por isso nunca tentei fazer em casa. Ela usa 200g de chocolate meio amargo, uma pitada de sal e seis (SEIS!!!!) ovos. Os ovos são separados, as claras são batidas em neve e depois tudo é misturado (clara em neve e gema) ao chocolate derretido. A ideia de colocar seis ovos crus em uma sobremesa onde o único outro ingrediente é uma barrinha de chocolate ainda me parece uma aberração, mas preciso admitir que funciona e o pessoal daqui adora.

Sentia falta desse mousse francês, bem aerado e leve, que se desfaz na boca. Dos ovos eu não sentia falta, pois sempre detestei cheiro e gosto de ovo em sobremesas. Então quando vi que essa receita, do blog francês de culinária vegana Végébon, prometia a mesma experiência sensorial do mousse original (leveza, bolhas de ar, barulhinho quando a colher toca o mousse, uma nuvem de chocolate se desfazendo na boca) eu me interessei na hora.

Levei muito tempo pra testar a novidade, mas posso confirmar que o mousse é realmente tudo que promete ser, sem a quantidade obscena de ovos (na verdade sem ovo nenhum). E vocês vão cair da cadeira quando descobrirem o ingrediente principal. Compota de maçã. Sim, aquela papinha de maçã cozida. E os ingredientes mágicos, responsáveis pela “aeração” do mousse, então? Vão cair da cadeira de novo. Bicarbonato de sódio e suco de limão. Explico. A compota dá corpo e volume ao mousse (senão seria só chocolate derretido), mas é neutra o suficiente pra não interferir no sabor. Bônus 1: ela adoça naturalmente seu mousse. Bônus 2: ela enche sua sobremesa de fibras. O bicarbonato reage com o limão e produz um reação química dentro do seu mousse, que libera gás e faz com que ele fique espumante. Os químicos lendo esse blog já entenderam tudo: você acabou de produzir gás carbônico. Cozinhar é uma alquimia linda que sempre me emociona.

Felizmente o gosto salgado e metálico do bicarbonato desaparece completamente depois do repouso na geladeira. O sabor da maçã e do limão também desaparecem, mas dá pra sentir uma nota frutada marcante por trás do sabor do chocolate, como o que sentimos em alguns chocolates amargos ligeiramente ácidos. Eu achei agradável e o resto da família concordou.

Fiz a receita duas vezes, a primeira usando chocolate com 72% de cacau e a segunda usando um chocolate com 52% de cacau. Eu e Anne preferimos a primeira versão, pois gostamos de chocolate amargo e detestamos sobremesas doces demais. O resto da família francesa gostou mais da segunda, pois eles preferem chocolate mais suave e doce. Escolham o chocolate que o paladar de vocês preferir. Preciso dizer que testei a receita em quatro franceses onívoros e todos ficaram impressionados com o resultado.

Como a reação química é instantânea e o mousse cresce embaixo dos seus olhos, acho que essa receita é perfeita pra fazer com crianças. Já estou imaginando a excitação delas vendo a lava de chocolate dobrar de volume em poucos segundos. (Aconselho usar chocolate com 50% de cacau se for servir a receita pros miúdos).

E uma última palavrinha. Estou sabendo que a última moda em matéria de mousse de chocolate vegana é usar aquafaba em neve pra aerar a mistura e não vejo a hora de testar. Alguém por aqui testou e tem algum conselho pra dividir comigo?

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Mousse de chocolate que fala Francês

Receita adaptada ligeiramente dessa aqui. Use chocolate com 50% de cacau se quiser um mousse suave e doce, ou chocolate com 70% se quiser uma versão mais forte e amarga. Se quiser uma versão mais amarga, mas só tiver chocolate com 50% de cacau acrescente um pouco de cacau em pó (puro, sem açúcar, peneirado pra evitar grumos) ao seu mousse, antes de acrescentar o bicarbonato. O café é opcional e entra aqui pra realçar o sabor do chocolate, mas o sabor é imperceptível.

280g de chocolate

280g de compota de maçã (pura e sem açúcar, receita abaixo)

2cc de suco de limão

1cc rasa de bicarbonato de sódio (rasa!! Se você exagerar na quantidade o mousse vai ficar ligeiramente salgado)

1cc de extrato de baunilha (opcional)

1cc de café solúvel instantâneo (pode ser substituido por um shot de espresso, opcional)

Derreta o chocolate (quebrado em pedaços pequenos) no banho-maria. Não deixe a água ferver! À parte dissolva o café solúvel em 2cc de água quente (eu pego do banho-maria). Quando o chocolate estiver completamente derretido retire do fogo e acrescente a compota de maçã (que não pode estar gelada), o suco de limão, a baunilha e o café. Misture delicadamente com uma espátula de silicone ou colher de pau e deixe esfriar alguns minutos.

Escolha os potinhos/taças onde você quer servir o mousse e deixe por perto. Acrescente o bicarbonato ao mousse e misture bem. O bicarbonato vai reagir com o limão e vai começar a espumar imediatamente, então é preciso ser rápida na execução da próxima etapa. Despeje o mousse nos potinhos, cubra com papel-filme e transfira tudo pra geladeira. Deixe gelar por duas horas antes de servir. Se deixar o mousse por mais de duas horas na geladeira a textura vai mudar. Ele ficará bem denso e menos aerado, quase trufado, mas continuará delicioso.

Eu sou fã de sobremesas individuais, mas nada te impede de preparar o mousse em um recipiente único (maior) e deixar cada pessoa retirar porções do tamanho que preferir na hora de servir.

 Rende 8 porções comportadas ou 6 mais generosas.

Compota de maçã

Essa receita é facílima e pode ser consumida pura como sobremesa ou lanche (ou entrar na receita do mousse acima).

8 maçãs vermelhas

Descasque e retire o miolo das maçãs. Corte-as em pedaços médios e despeje tudo em uma panela com fundo grosso. Cozinhe tampado em fogo baixissímo, mexendo de vez em quando, até as maçãs começarem a se desfazer. Não precisa acrescentar água nem açúcar: ao cozinhar, as maçãs liberam água e depois de cozidas o açúcar da fruta fica concentrado. Quando as maçãs estiverem bem macias e todo o líquido tiver evaporado desligue o fogo. Depois de frias passe as maçãs cozidas no liquidificador até virar um purê. Rende mais ou menos duas xícaras e meia. Se conserva na geladeira por alguns dias, em um recipiente bem fechado.