Posts de categoria: Café da manhã e lanche

Tem um prato que fez parte da minha infância no RN e que ainda me transporta algumas décadas no passado sempre que o preparo. É algo de uma simplicidade enorme e que eu achava que todo mundo, pelo menos todo mundo no meu mundo, o Nordeste, conhecia. Mas descobri esse ano que até mesmo dentro do meu estado a receita era desconhecida de muitas pessoas. Então me incumbi da missão de compartilhar essa humilde receita com o maior número de comedores possível, pois sinto que ela está ameaçada de cair no esquecimento geral.

E isso seria uma enorme perda. Sei que pra quem nunca provou essa delícia pode parecer algo bem estranho. Bolacha mole? Mas eu vejo assim: bolacha cremosa! Não é uma iguaria das mais refinadas, longe disso, mas é bom demais colocar colheradas da mistura na boca e sentir o sabor típico, delicado, reconfortante, a textura macia… Só provando pra entender (e se convencer).

Mas pra poder provar, você precisa primeiro achar a bolacha certa. A melhor é fabricada no RN e se chama Jucurutu. O RN tem uma tradição bolacheira muito respeitada e essa marca, Jucurutu, produz as bolachas mais famosas do estado. Me pergunto inclusive se a receita é potiguar, nascida pra aproveitar as bolachas deliciosas produzidas na região. Tem vários tipos de bolacha Jucurutu, mas a que queremos pra essa receita é a “tradição – original” (veja foto abaixo). Ela também é 100% vegetal. Se não achar bolacha Jucurutu, use uma parecida (sequinha, oca, de sabor suave – ela não pode ser doce), lembrando de ler os ingredientes, pois nem toda bolacha desse tipo é de origem vegetal.

Achar a bolacha certa é a parte mais difícil da receita. À partir daqui não tem dificuldade. Faça um leite de coco fresquinho, cozinhe a bolacha no leite por alguns minutos, tempere com sal e um fio de azeite e deguste com um café, na merenda. Vou escrever a receita em detalhes abaixo, pois sei que é novidade pra maioria das pessoas me lendo, mas ninguém precisa de receita pra fazer esse prato. Basta entender o conceito.

A versão que eu comia na infância usava leite de vaca, provavelmente porque o prato vem do interior, onde é comum usar “leite de gado”. Hoje faço essa bolacha no leite de coco, que não só produz um resultado tão saboroso quanto, como honra os produtos do litoral, onde nasci. Eu vi muito mais coqueiros do que vacas nos meus 20 anos morando em Natal, então não vejo essa versão como “veganizada” e sim como uma homenagem à minha terra.

Na verdade é a união do Sertão com o Litoral no seu prato.

Comida é uma parte fundamental da nossa identidade. E comida afetiva, como essa, é um elo entre os membros de uma comunidade: “Nós somos o povo que come bolacha assada no leite.” Então o fato da minha família, que cresceu com as mesmas referências gastronômicas que eu e que ainda consome leite de vaca, ter aprovado a nova versão desse prato tradicional prova que nossas referências gastronômicas não são imutáveis. Optar por uma vida vegana não significa rompimento com os rituais ao redor do fogo e da mesa: significa evolução.

Quando estive no Brasil esse ano fiz esse prato muitas vezes. Pra comer com minhas irmãs, sobrinhas, primos, mãe… Quando meu irmão caçula estava em casa, e ele se achega frequentemente nos dias de folga, e o relógio batia as 16h ele me falava: “Bora fazer um café e uma bolachinha assada?” A “bolachinha” era a minha receita vegetal. É uma delícia ter comprovação, de novo e de novo, de que é o ato de preparar comida e comer juntas que nos une e reforça o carinho. No final das contas não são os ingredientes de origem animal que criam essas tradições: é reunir pessoas queridas pra compartilhar algo saboroso e repetir o ritual vezes o suficiente até que nosso corpo comece a associar aqueles sabores aos bons momentos passados na companhia de quem amamos.

Bolacha assada no leite (de coco)

Essa receita do Sertão do RN foi a merenda de muitas crianças (e adultos) no passado. Pra não deixar a tradição desaparecer, aqui está uma atualização dessa receita tradicional, sem leite de Mimosa e com o delicioso leite de coco caseiro. Achar a bolacha ideal é essencial: sem ela, não tem como fazer esse prato. Ou tem, mas será outra coisa pela qual não me responsabilizo. Idealmente use bolacha Jucurutu Tradição – Original (tem a Tradição amanteigada, que não é vegana) ou algo semelhante. Esse post não é patrocinado, juro! No interior do RN chamamos esse tipo de bolacha de “bolacha de assar”.

Bolacha “de assar” (veja explicações acima)
Leite de coco caseiro (receita aqui – tem que ser caseiro, não fica bom com o industrializado)
Azeite e sal

Use uma panela pequena. Despeje a quantidade de bolacha que desejar comer (dois punhados de bolacha rende uma porção comportada) na panela e acrescente leite de coco fresco suficiente pra passar de um dedo o nível das bolachas. Quando você despejar o leite as bolachas vão boiar, então me refiro ao nível de bolacha seca, antes do leite entrar na panela.

Leve ao fogo médio. Quando começar a ferver (rapidinho) mexa com uma colher de pau até a maior parte do leite evaporar e as bolachas ficarem macias e levemente cremosas. Desligue o fogo, acrescente uma pitada de sal e um fio de azeite (opcional, mas bom).
Deguste com um café na merenda ou café da manhã.

OBS: Eu gosto de colocar cebola desidratada (cerca de 1cc rasa) na minha bolacha (na hora que acrescento o leite). Não é nada ortodoxo, mas fica uma delícia!

Não sei como isso aconteceu, mas estamos em outubro. A impressão que tenho é que eu vinha andando na rua em julho, topei, me levantei e era outubro. Estou convencida que o tempo em Berlim passa mais rápido do que no resto do mundo.

Finalmente tenho residência nessa cidade. Só por alguns meses, mas pra quem passou tantos meses pulando de um apartamento pra outro, parece uma pequena eternidade. No final das contas passei 4 meses procurando um apartamento…que vou alugar por 5 meses. Tudo bem, eu tenho outros planos a partir de fevereiro, longe de Berlim.

Agora que não preciso fazer e desfazer malas a cada cinco dias, acredito que o tempo vai voltar ao seu ritmo normal. Esse mês está cheio de coisas boas desse lado da tela e mal posso esperar pra compartilhar tudo com vocês. Aguardem. E enquanto esperam as novidades, aceitam chips de couve?

Couve é provavelmente a minha verdura preferida e eu sempre gastava uma pequena fortuna comprado esses chips em lojas de produtos orgânicos. Já repararam que é preciso empenhar um rim pra sair da loja com um pacotinho? Até que minha concunhada alemã me ensinou a faze-los em casa e a receita não podia ser mais simples. Os chips caros que mencionei acima são geralmente desidratados, não assados. Isso explica o preço na etiqueta. Mas acho a versão assada/desidratada no forno tão gostosa quanto. Umas vão dizer que couve desidratada tem todos os seus nutrientes preservados, mas eu respondo que quase ninguém tem desidratador em casa.

Tenho um carinho todo especial por essa receita, pois a primeira vez que fizemos juntas, minha concunhada e eu, foi no meu casamento, ano passado. Passei a noite inteira comendo chips de couve e achando tudo lindo, explodindo de gratidão. Agora sempre que como me lembro daquele dia especial.

Vou ali me preparar pra novas aventuras e deixo vocês com os chips e o outono em Berlim.

 

Chips de couve

Eu uso couve crespa, pois é a única que encontro aqui em Berlim, mas você pode usar qualquer tipo de couve.

Folhas de couve

Azeite

Sal a gosto

Aqueça o forno à 120 graus. O objetivo é desidratar as folhas e como elas são delicadas, uma temperatura mais alta vai queima-las.

Lave e seque bem as folhas de couve. Com uma faca, retire os talos e guarde pra usar em outra receita (na sopa ou no suco verde, por exemplo). Rasgue as folhas em pedaços médios/pequenos. Em um recipiente grande o suficiente pra acolher todas as folhas, regue com umas gotas de azeite e tempere com uma pitada de sal. Massageie pra distribuir o azeite de maneira uniforme. Use pouco azeite, só o suficiente pra que todos os pedaços tenham um pouquinho dos dois lados. O objetivo não é deixar as folhas nadando no azeite! Uso aproximadamente 1 colher de chá pra 4 folhas de couve crespa, mas como as folhas de couve lisa podem ser maiores,  adapte a quantidade de azeite, se necessário. Um conselho: use menos do que você achar necessário, pois depois de desidratadas as folhas reduzem muito e o que parecia pouco na folha fresca, se torna demais na folha seca.

Espalhe as folhas levemente besuntadas em uma placa de metal (importante! Não tive sucesso com formas de vidro), deixando um pouco de espaço entre elas. Se você colocar muitas folhas de uma vez elas não vão desidratar como devem antes de queimarem. Coloque no forno por 15-20 minutos, aproximadamente, mas dê uma olhada no final dos primeiros dez minutos só pra ter certeza que elas não estão queimando. Reparei que fornos podem ser extremamente temperamentais (hahahaha!), alguns esquentam mais de um lado do que do outro (nesse caso será preciso dar uma mexida nos seus chips pra eles desidratarem de maneira uniforme) e não posso garantir com precisão em quanto tempo seus chips ficarão prontos. O teste (extremamente sofisticado, atenção!) é o seguinte: abra o forno, pegue um chip e prove. Ele deve estar totalmente crocante.

Assim que ficarem prontos retire seus chips do forno (não deixe eles esfriando lá dentro) e deixe esfriar completamente antes de transferi-los pra um recipiente com tampa. Guarde bem fechado, em temperatura ambiente. Se conserva por vários dias, mas garanto que eles não vão durar mais de algumas horas.

Percebi recentemente que pudim de chia pode ser uma decepção pra algumas pessoas, principalmente pessoas que cresceram no Brasil e que associam a palavra “pudim” com uma sobremesa ultra doce e gordurosa. Então deixa eu começar explicando que o “pudim” aqui faz referência à consistência dessa preparação, um creme levemente gelatinoso, não àquela sobremesa feita com leite condensado e ovos, tão apreciada pelo nosso povo. Uma coisa não podia estar mais longe da outra.

Tirando da mesa as expectativas que o nome sugere, o que sobra? Uma preparação leve, rica em fibras e ômega 3, porque a essa altura do campeonato todo mundo e o seu cachorro já sabem que chia é uma excelente fonte de ômega 3. Se é novidade pra você, leia esse post que escrevi em 2011, quando a chia ainda era novidade no Brasil. Ele é perfeito pra ser degustado no lanche ou no café da manhã. E se você fizer a versão com chocolate, ele pode virar sobremesa.

Como a semente de chia em si não tem muito sabor, o pudim feito com ela está mais pra um iogurte do que pra uma sobremesa. Claro que iogurte é um alimento fermentado e tem probióticos, o que esse pudim não tem, mas estou me referindo à maneira como vemos e degustamos essa preparação. Ele pode ser servido com granola, frutas frescas e pode ser batido com outros ingredientes (antes de juntar a chia) pra ficar mais gostoso e interessante. Depois que você dominar a técnica de preparo, as variações são infinitas.

Meu leite preferido pra fazer pudim de chia é o de coco, que faço em casa (receita aqui). Se quiser um pudim mais cremoso e saboroso, bata o leite de coco (ou o leite que estiver usando) no liquidificador com 1 colher de sopa de óleo de coco derretido antes de misturar com a chia. O frio da geladeira vai agir no óleo de coco, que é uma gordura saturada e se solidifica em temperaturas baixas, e deixar o pudim mais encorpado. Isso é especialmente importante se você estiver usando um leite leve e pobre em gordura, como o de arroz ou aveia.

Pra transformar o pudim de chia em algo mais interessante e gostoso, minhas dicas são: além do leite + chia 1- acrescente uma fonte de gordura boa (óleo de coco, pasta de amendoim, pasta de amêndoa, tahina) pra dar cremosidade; 2-“tempere” com especiarias (canela, cardamomo, gengibre, baunilha) ou com cacau e 3-sirva com frutas frescas. Assim não só o sabor fica muito melhor, mas você terá um lanche completo, com fibras, proteína e gordura boa (incluindo o ômega 3 da chia). E como o pudim de chia é uma daquelas receitas que devem ser preparadas no dia anterior e se conserva vários dias na geladeira, você pode preparar uma quantidade maior e degustar durante a semana, variando as frutas do acompanhamento.

Abaixo a receita de base e duas das minhas variações preferidas. O objetivo é servir de inspiração, então sinta-se livre pra substituir os ingredientes e criar variações.

Pudim de chia básico

Como líquido você pode usar o seu leite vegetal preferido ou até mesmo suco de uva integral. Como chia tem um sabor neutro, use um leite que você goste, pois esse será o sabor que você vai sentir no final. Usei as medidas padrões aqui pra não ter confusão (xícara e colher de sopa medidoras). As proporções indicadas abaixo produzem um pudim na consistência que eu gosto, mas se você preferir um pudim mais ou menos encorpado, adapte a quantidade de chia.

1x de líquido (240ml)

3cs de chia

Açúcar de coco, melado, agave ou o seu adoçante preferido, se necessário

Misture a chia com o leite vegetal e, se necessário, adoce como preferir. O segredo pro pudim ficar cremoso e homogêneo, sem aglomerações de chia, é misturar bem a chia com o líquido e mexer novamente a cada minuto por uns 5-10 minutos. Não é complicado, basta deixar o pudim do seu lado enquanto você faz um café, ou prepara o jantar e dar uma mexidinha de vez em quando, até ele ficar encorpado e as sementes tiverem aumentado de volume. Depois é só cobrir e transferir pra geladeira. Não se preocupe que a chia vai continuar absorvendo o líquido e a mistura vai ficar mais encorpada no dia seguinte. Por isso os resultados são melhores se você preparar o pudim na noite anterior.

*Obviamente suco de uva integral não precisa ser adoçado e dependendo do leite vegetal usado (coco e arroz, por exemplo, são naturalmente adocicados) e da maneira como você quiser comer o pudim (puro ou acompanhado com frutas frescas), talvez você não sinta necessidade de adoçar.

*Você pode juntar um punhado de frutas secas (passas, abacaxi, figos ou damascos picados) ao seu pudim, no momento em que misturar a chia com o leite, pra adoçar naturalmente a mistura. No dia seguinte as frutas estarão hidratadas e suculentas.

 

Pudim de chia com cacau e pasta de amendoim

Usei tâmaras do tipo medjouls, que são macias, suculentas e grandes. Se você usar outro tipo de tâmara vai precisar aumentar a quantidade e provavelmente deixar de molho na água quente por alguns minutos antes de triturar pra facilitar o trabalho do liquidificador. Você pode usar passas no lugar das tâmaras, açúcar de coco ou melado. Use a quantidade que for preciso pra que fique doce o suficiente pro seu paladar. Dica: você vai acrescentar a chia, que não é adoçada, ao líquido, então se você gosta de preparações mais doces, deixe o líquido um tiquinho mais doce do que você gostaria pra compensar o acréscimo da chia mais tarde. Você pode usar pasta de amêndoas ou de avelã no lugar da pasta de amendoim.

1x de leite vegetal (usei de espelta, mas pode ser coco caseiro, arroz, amêndoa, aveia, soja…)

1cs de cacau em pó (puro, sem açúcar)

1cs de pasta de amendoim (pura, não adoçada)

2 tâmaras

3cs de chia

Nibs de cacau (opcional)

Bata o leite, cacau, pasta de amendoim e tâmara no liquidificador até a tâmara se desfazer totalmente. Transfira pra um recipiente com tampa e misture a chia como indicado na receita acima. Cubra e leve à geladeira por uma noite. Sirva polvilhado com nibs de cacau. Rende 2 porções comportadas. Se conserva alguns dias na geladeira. Também fica uma delícia acompanhado de rodelas de banana.

Pudim de chia com mirtilo, coco e cardamomo

Mirtilo com coco e cardamomo é uma mistura celestial! É o meu pudim de chia preferido do momento. Se você não tiver mirtilos, pode usar morangos bem maduros, que também vão muito bem com coco e cardamomo. Mamão ou banana são igualmente deliciosos no lugar dos mirtilos.

1x de leite de coco fresco 

1cs de óleo de coco virgem

1x de mirtilos (ou uma das frutas sugeridas acima)

1/3cc de cardamomo em pó

4cs de chia

Bata todos os ingredientes, com exceção da chia, no liquidificador até ficar homogêneo. Transfira pra um recipiente com tampa, junte a chia e misture seguindo as instruções da receita de base. Cubra e leve à geladeira por uma noite. Sirva com mais mirtilos ou bananas em rodelas. Rende 2 porções.  Se conserva alguns dias na geladeira.