Fermente seu grãomelete

O texto poderia ter só essa frase, mas vou desenvolver a ideia, caso você precise ser convencida.

Lembram do meu grãomelete, o omelete à base de grão de bico? Lembram que fiz uma versão atualizada com farinha de grão de bico? Pois vim atualizar essa receita novamente e tenho ótimas razões pra isso.

Primeiro: o que é grãomelete?
Se você ainda não descobriu essa maravilha, deixa eu explicar que ele representa um pequeno Everest pra culinária vegetal. Durante os primeiros anos do meu veganismo eu ainda sentia falta de ovo. Até que um dia eu percebi que não era do ovo em si que eu sentia falta, pois já nem lembrava mais do sabor, mas da praticidade que o ovo oferece. Você quebra um ovo na frigideira, coloca num pedaço de pão e em poucos minutos tem uma refeição. E da versatilidade dele na versão salgada: omelete, tortillas, fritadas… Então quando o grãomelete entrou na minha vida (quase) todos os meus problemas acabaram. Quem imaginava que a mistura de grão de bico e água pudesse resultar em algo que se comportaria de maneira muito similar ao ovo? Então grãomelete é um omelete feito com grão de bico (seja farinha de grão de bico ou o grão inteiro, como expliquei na primeira receita de grãomelete que publiquei aqui).

Passemos à fermentação.
Algumas pessoas que conheço tinham problemas pra digerir o grãomelete feito com farinha de grão de bico e água. Veja, a farinha é simplesmente o grão de bico cru moído. Sabemos que leguminosas (principalmente grão de bico, feijão, ervilha) precisam ficar de molho no mínimo 12 horas pra se livrarem das enzimas que dificultam a digestão. O processo de triturar o grão também destrói essas enzimas, mas o estômago de muita gente continuava reclamando. Além disso, eu achava o sabor do grãomelete feito com a farinha inferior, pois eu sentia um gostinho de cru lá no fundo. A gente sabe que grão de bico leva um tempão pra cozinhar e farinha é o grão cru. Não tinha quem me fizesse acreditar que aqueles poucos minutos na frigideira (mais que isso e ele queima) eram suficientes pra cozinhar o danado.

Então um dia tive a ideia de dissolver a farinha de grão de bico na água e deixar descansando uma noite antes de fazer o grãomelete. Pensei que assim o grão de bico (mesmo em versão farinha) ficaria mais mole e cozinharia mais rápido. Bingo! Resolvido o problema do leve sabor de cru. Fiz algumas receitas (influenciada digitalmente pelas blogueiras do Instagram) de pão de frigideira com grão de bico cru, onde elas falavam pra misturar a farinha com outras coisas e deixar cozinhar 5 minutos na frigideira e sempre foi um fracasso. Me pergunto se só eu consigo sentir o sabor de cru dos pratos que usam esse método…

Mas a história não parou aí. Um dia fiz mais massa pra grãomelete do que precisava usar no momento e esqueci o resto num canto da cozinha. No dia seguinte ela tinha fermentado espontaneamente. Faço parte das entusiastas de fermentação e uma bacteriazinha nunca me assustou, então fui em frente e preparei o grãomelete mesmo assim. Ficou ainda melhor! E agora, fermentado, o problema da indigestão tinha sido resolvido. As bactérias pré-digerem a massa e fica bem mais leve no estômago.

Desde então me tornei a evangelizadora do grãomelete fermentado. Eu preparo a massa na noite anterior e deixo em temperatura ambiente, coberta com a tampa (mas sem enroscar a tampa), pra preparar pro café do dia seguinte. Dependendo da temperatura na sua casa, 12 horas serão suficientes pra fermentar levemente a massa. Aqui, no inverno europeu, preciso de mais tempo, então eu desenvolvi um método pra ter sempre grãomelete fermentado em 12 horas: uso o mesmo pote, sem lavar, de uma leva pra outra. As bactérias da leva anterior, que ficaram no pote junto com um restinho da massa, atuam como um levain, um fermento natural. Funciona muito bem. De vez em quando lavo o pote (quando começa a ficar cheio de crostas das levas anteriores) e começo o processo novamente.


Outra dica de ouro: prepare uma quantidade grande, deixe fermentar ligeiramente e guarde (dessa vez bem tampado) na geladeira. O frio vai frear a fermentação e você vai ter a possibilidade de preparar um grãomelete (ou uma tortilla) sempre que quiser. E assim consegui ter de volta a praticidade e versatilidade culinária que uma bandeja de ovos me proporcionava, mas sem explorar as companheiras galinhas.

Grãomelete fermentado

Não precisa de receita, só instruções e dicas, então lá vai. E se você ficou curiosa sobre o que tem na foto de abertura do post, é grãomelete com cogumelos.

Misture farinha de grão de bico com água aos pouquinhos, mexendo vigorosamente pra evitar os grumos. A consistência deve ficar pastosa, mas não muito espessa. Cubra com a tampa (não enrosque a tampa, só coloque por cima pra evitar que mosquitos caiam na massa) e deixe na cozinha, em temperatura ambiente, por 12 horas. Ou seja: prepare à noite pra comer no café ou pela manhã pra comer no jantar.

No dia seguinte, dependendo da temperatura na sua cidade, vai ter ocorrido uma leve fermentação selvagem (com bactérias que vivem no ar). Você vai notar algumas bolinhas na massa, que vai estar mais aerada. Se isso não ocorrer você tem duas opções. 1- preparar seu grãomelete mesmo assim (já vai estar mais macio e gostoso do que se tivesse usado a farinha crua sem o tempo de descanso) ou 2- deixe mais tempo em temperatura ambiente, até ocorrer a fermentação.

Pra fazer o grãomelete basta colocar água suficiente pra textura ficar quase totalmente líquida, temperar com sal a gosto (ervas secas ou frescas, alho, cebola desidratada, páprica, pimenta do reino, tudo isso pode ser acrescentado à massa), esquentar um pouco de óleo ou azeite em uma frigideira antiaderente (tem que ser antiaderente, senão gruda) e espalhar uma camada de massa e cobrir a frigideira. Deixe cozinhar uns minutos, em fogo médio, até ficar firme na parte superior. Retire a tampa, espere alguns segundos pro vapor ir embora e as bordas secarem um pouco e vire, usando uma espátula grande. Doure do outro lado e sirva.

Algumas informações suplementares, mas muito úteis:
-A consistência da massa vai determinar a textura do grãomelete. Se a massa tiver muito espessa, o grãomelete vai ficar pesado. Eu gosto de grãomelete ligeiramente cremoso por dentro, o que é possível quando a massa tem bastante água, pra ficar na textura de um leite. Mas é mais complicado pra assar: demora mais e precisa de uma frigideira realmente antiaderente, senão é lambança na certa e seu grãomelete vira grão mexido. Feio, mas gostoso do mesmo jeito.
-Pras pessoas que tem problemas pra virar o grãomelete: infelizmente só posso recomendar trocar de frigideira. Se não for antiaderente e em ótimo estado, não vai rolar. Mesmo assim não deixe de usar óleo/azeite.
-Se quiser um grãomelete levemente crocante nas bordas, use mais azeite. Lembre que grão de bico não tem gordura, por isso acho que com uma quantidade mais generosa de azeite seu grãomelete fica ainda mais gostoso e com a textura mais bacana.
-A massa fermentada pode ser conservada vários dias na geladeira. Uns 4-5.
-Se seu grão fermentou demais, ele vai ficar com um sabor ligeiramente ácido. Eu adoro, mas se você achar ruim, fermente menos da próxima vez.
-Se você mora em um local frio, considere adotar o meu método do pote sujo (explicações no texto acima) pra fermentar seu grãomelete mais rápido.
-Com a massa fermentada você pode fazer outras coisas além do grãomelete: quiches, tortillas, fritadas, rabanada e, minha última invenção, grão na chapa.

Grão na chapa

Gosto de pensar que sou uma pessoa modesta. Recebo elogios de bom grado, mas não saio por aí “contando vantagem”, como a gente diz na minha terra (se você precisa de tradução, essa expressão significa “fazendo elogios, não merecidos, a si mesma”). Mas de vez em quando eu desenvolvo uma receita que me faz inchar de orgulho. Mais ainda quando não se trata de uma receita propriamente dita, o que envolve vários ingredientes, muitos testes e muita louça pra lavar antes de chegar na versão final, a que compartilho aqui no blog. Isso é um trabalho que necessita criatividade, obviamente, mas é o resultado de 90% de transpiração e 10% de inspiração, como dizem que disse Einstein. Agora, quando a “receita” em questão é uma ideia que brotou na minha cabeça, puf!, que necessita apenas 2 ingredientes e que deu certo de primeira, aí eu não consigo conter o entusiasmo (se você estivesse do meu lado nesse momento me veria dando um discreto beijinho no ombro).

Essa empolgação toda por um pedaço de pão? Sim, mas eu dei uma recalibrada nesse pedaço de pão e agora ele é um lanche/café da manhã completinho, com o mínimo de esforço e pouco dinheiro. Explico.

Lembra do meu grãomelete? A mistura de base (farinha de grão de bico + água) não para de me surpreender. Passei a usar pra fazer tortilla (sempre um sucesso), quiche (ainda não publiquei a receita), molho de macarrão (sim, sim!) e rabanada (tanto doce quanto salgada, a minha preferida). E a ideia nasceu dessa última. Na verdade se trata de uma variação da rabanada salgada, mas simplificada e com um resultado final diferente.

É bem simples: você pega a massa do grãomelete, espalha em um prato pequeno e depois gruda um pedaço de pão nela (só de um lado). Aí é só fritar em um pouco de óleo/azeite. Você vai obter, cara leitora, um pão na chapa coberto com uma camada ligeiramente crocante de grãomelete. Sim, você pode fazer um grãomelete e depois servir dentro de um pão. Eu faço isso com frequência e adoro. Porém se trata de uma daquelas fórmulas mágicas onde a soma das partes é superior aos elementos do início. Quando o grãomelete cozinha junto com o pão na frigideira parece que é algo diferente de um pão com grãomelete. Por que? Mistério. Mas te desafio a tentar em casa e descobrir por si própria.

E, por outra razão misteriosa, essa versão me agrada ainda mais do que a rabanada (que é extremamente similar à essa receita). A única diferença é o método de preparo, o que produz um resultado interessante. A integridade do pão é respeitada (na rabanada ele deixa de ser pão e se transforma em rabanada) e o contraste de textura (o pão macio com a capinha crocante do grãomelete) é ao mesmo tempo delicioso e reconfortante. Talvez porque cresci comendo mais pão com queijo derretido na chapa do que rabanada (na verdade só fui comer rabanada depois de vegana), essa versão tem um gostinho bom de nostalgia pra mim.

A essa altura você já sabe que cereal + leguminosa forma uma proteína vegetal completa, né? Então esse lanchinho/café da manhã composto por pão (cereal) e grãomelete (grão de bico é uma leguminosa), combina lindamente na boca e do ponto de vista nutricional também. Então é uma atualização melhorada (em todos os sentidos) do pão na chapa com manteiga (ou margarina/azeite). E sabe como estou chamando essa lindeza? Taí mais um motivo pra estar me achando hoje, pois o nome é perfeito: grão na chapa! GRÃO NA CHAPA!!!

Esqueça o pão na chapa. Meu grão na chapa chegou pra animar seu carnaval. Seu ano. Seus lanches de agora em diante. De nada.

Grão na chapa

Essa receita pode ser adaptada de muitas maneiras. Dá pra juntar os temperos e ervas que você quiser na massa e fazer um lanche ainda mais saboroso. Importante: a massa do grãomelete deve ser preparada na véspera, então é preciso um pouco de planejamento aqui. Mas faça como eu: prepare uma boa quantidade de massa pra grãomelete e, depois de repousar uma noite em temperatura ambiente, guarde na geladeira pra depois. Assim você vai poder preparar essa e outras receitas em um piscar de olhos.

Massa de grãomelete

-Farinha de grão de bico (as boas são finas como farinha de trigo. Se for do tipo granulada, o resultado é muito inferior. Esfregue entre os dedos: se sentir uns grãozinhos, não vai rolar)
-Água

Dissolva a farinha de grão de bico em um pouquinho de água, batendo vigorosamente com a colher pra não sobrar nenhuma bolinha de farinha seca. Depois de ter obtido uma massa espessa e lisa, junte água suficiente pra atingir uma textura cremosa e quase líquida. Deixe repousar em temperatura ambiente, em recipiente fechado, por uma noite. No dia seguinte transfira a massa pra geladeira. Pronto, agora você pode preparar grãomelete, tortilla e grão na chapa a qualquer momento. A massa se conserva vários dias na geladeira. Não esqueça de colocar sal na hora de preparar.

Pra fazer o grão na chapa

Massa de grãomelete
Sal
Pão (baguete ou francês são ideias, mas use o que tiver)
Temperos (opcional)

Corte o pão francês ao meio (eu usei baguete porque na França não tem pão francês!!!!). Coloque um pouco da massa de grãomelete (que deve estar mais pra líquida- junte um pouco de água se ela tiver endurecido na geladeira, o que vai acontecer) em um prato e tempere com sal. Se quiser usar temperos (como alho picado, pimenta do reino, páprica defumada, cebola desidratada, ervas frescas ou secas…) essa é a hora.

Esquente um pouco de óleo/azeite em uma frigideira (anti-aderente, senão vai grudar). Mergulhe cada metade de pão francês na massa de grãomelete (o lado cortado pra baixo), deixe alguns segundos em contato com o líquido, pro pão absorver uma quantidade boa, e depois transfira (sempre o lado cortado pra baixo) pra frigideira. Cozinhe em fogo médio até ficar bem dourado e ligeiramente crocante (não precisa cozinhar do outro lado, obviamente). Sirva imediatamente.

É um desbunde puro, com café, mas nada te impede de incrementar ainda mais seu grão na chapa e servir com um patê/molho/guacamole/caponata/legumes refogados ou tomates crus, bem maduros, picados regados com um fio de azeite.

O Sertão e o Litoral no prato

Tem um prato que fez parte da minha infância no RN e que ainda me transporta algumas décadas no passado sempre que o preparo. É algo de uma simplicidade enorme e que eu achava que todo mundo, pelo menos todo mundo no meu mundo, o Nordeste, conhecia. Mas descobri esse ano que até mesmo dentro do meu estado a receita era desconhecida de muitas pessoas. Então me incumbi da missão de compartilhar essa humilde receita com o maior número de comedores possível, pois sinto que ela está ameaçada de cair no esquecimento geral.

E isso seria uma enorme perda. Sei que pra quem nunca provou essa delícia pode parecer algo bem estranho. Bolacha mole? Mas eu vejo assim: bolacha cremosa! Não é uma iguaria das mais refinadas, longe disso, mas é bom demais colocar colheradas da mistura na boca e sentir o sabor típico, delicado, reconfortante, a textura macia… Só provando pra entender (e se convencer).

Mas pra poder provar, você precisa primeiro achar a bolacha certa. A melhor é fabricada no RN e se chama Jucurutu. O RN tem uma tradição bolacheira muito respeitada e essa marca, Jucurutu, produz as bolachas mais famosas do estado. Me pergunto inclusive se a receita é potiguar, nascida pra aproveitar as bolachas deliciosas produzidas na região. Tem vários tipos de bolacha Jucurutu, mas a que queremos pra essa receita é a “tradição – original” (veja foto abaixo). Ela também é 100% vegetal. Se não achar bolacha Jucurutu, use uma parecida (sequinha, oca, de sabor suave – ela não pode ser doce), lembrando de ler os ingredientes, pois nem toda bolacha desse tipo é de origem vegetal.

Achar a bolacha certa é a parte mais difícil da receita. À partir daqui não tem dificuldade. Faça um leite de coco fresquinho, cozinhe a bolacha no leite por alguns minutos, tempere com sal e um fio de azeite e deguste com um café, na merenda. Vou escrever a receita em detalhes abaixo, pois sei que é novidade pra maioria das pessoas me lendo, mas ninguém precisa de receita pra fazer esse prato. Basta entender o conceito.

A versão que eu comia na infância usava leite de vaca, provavelmente porque o prato vem do interior, onde é comum usar “leite de gado”. Hoje faço essa bolacha no leite de coco, que não só produz um resultado tão saboroso quanto, como honra os produtos do litoral, onde nasci. Eu vi muito mais coqueiros do que vacas nos meus 20 anos morando em Natal, então não vejo essa versão como “veganizada” e sim como uma homenagem à minha terra.

Na verdade é a união do Sertão com o Litoral no seu prato.

Comida é uma parte fundamental da nossa identidade. E comida afetiva, como essa, é um elo entre os membros de uma comunidade: “Nós somos o povo que come bolacha assada no leite.” Então o fato da minha família, que cresceu com as mesmas referências gastronômicas que eu e que ainda consome leite de vaca, ter aprovado a nova versão desse prato tradicional prova que nossas referências gastronômicas não são imutáveis. Optar por uma vida vegana não significa rompimento com os rituais ao redor do fogo e da mesa: significa evolução.

Quando estive no Brasil esse ano fiz esse prato muitas vezes. Pra comer com minhas irmãs, sobrinhas, primos, mãe… Quando meu irmão caçula estava em casa, e ele se achega frequentemente nos dias de folga, e o relógio batia as 16h ele me falava: “Bora fazer um café e uma bolachinha assada?” A “bolachinha” era a minha receita vegetal. É uma delícia ter comprovação, de novo e de novo, de que é o ato de preparar comida e comer juntas que nos une e reforça o carinho. No final das contas não são os ingredientes de origem animal que criam essas tradições: é reunir pessoas queridas pra compartilhar algo saboroso e repetir o ritual vezes o suficiente até que nosso corpo comece a associar aqueles sabores aos bons momentos passados na companhia de quem amamos.

Bolacha assada no leite (de coco)

Essa receita do Sertão do RN foi a merenda de muitas crianças (e adultos) no passado. Pra não deixar a tradição desaparecer, aqui está uma atualização dessa receita tradicional, sem leite de Mimosa e com o delicioso leite de coco caseiro. Achar a bolacha ideal é essencial: sem ela, não tem como fazer esse prato. Ou tem, mas será outra coisa pela qual não me responsabilizo. Idealmente use bolacha Jucurutu Tradição – Original (tem a Tradição amanteigada, que não é vegana) ou algo semelhante. Esse post não é patrocinado, juro! No interior do RN chamamos esse tipo de bolacha de “bolacha de assar”.

Bolacha “de assar” (veja explicações acima)
Leite de coco caseiro (receita aqui – tem que ser caseiro, não fica bom com o industrializado)
Azeite e sal

Use uma panela pequena. Despeje a quantidade de bolacha que desejar comer (dois punhados de bolacha rende uma porção comportada) na panela e acrescente leite de coco fresco suficiente pra passar de um dedo o nível das bolachas. Quando você despejar o leite as bolachas vão boiar, então me refiro ao nível de bolacha seca, antes do leite entrar na panela.

Leve ao fogo médio. Quando começar a ferver (rapidinho) mexa com uma colher de pau até a maior parte do leite evaporar e as bolachas ficarem macias e levemente cremosas. Desligue o fogo, acrescente uma pitada de sal e um fio de azeite (opcional, mas bom).
Deguste com um café na merenda ou café da manhã.

OBS: Eu gosto de colocar cebola desidratada (cerca de 1cc rasa) na minha bolacha (na hora que acrescento o leite). Não é nada ortodoxo, mas fica uma delícia!

Outubro

Não sei como isso aconteceu, mas estamos em outubro. A impressão que tenho é que eu vinha andando na rua em julho, topei, me levantei e era outubro. Estou convencida que o tempo em Berlim passa mais rápido do que no resto do mundo.

Finalmente tenho residência nessa cidade. Só por alguns meses, mas pra quem passou tantos meses pulando de um apartamento pra outro, parece uma pequena eternidade. No final das contas passei 4 meses procurando um apartamento…que vou alugar por 5 meses. Tudo bem, eu tenho outros planos a partir de fevereiro, longe de Berlim.

Agora que não preciso fazer e desfazer malas a cada cinco dias, acredito que o tempo vai voltar ao seu ritmo normal. Esse mês está cheio de coisas boas desse lado da tela e mal posso esperar pra compartilhar tudo com vocês. Aguardem. E enquanto esperam as novidades, aceitam chips de couve?

Couve é provavelmente a minha verdura preferida e eu sempre gastava uma pequena fortuna comprado esses chips em lojas de produtos orgânicos. Já repararam que é preciso empenhar um rim pra sair da loja com um pacotinho? Até que minha concunhada alemã me ensinou a faze-los em casa e a receita não podia ser mais simples. Os chips caros que mencionei acima são geralmente desidratados, não assados. Isso explica o preço na etiqueta. Mas acho a versão assada/desidratada no forno tão gostosa quanto. Umas vão dizer que couve desidratada tem todos os seus nutrientes preservados, mas eu respondo que quase ninguém tem desidratador em casa.

Tenho um carinho todo especial por essa receita, pois a primeira vez que fizemos juntas, minha concunhada e eu, foi no meu casamento, ano passado. Passei a noite inteira comendo chips de couve e achando tudo lindo, explodindo de gratidão. Agora sempre que como me lembro daquele dia especial.

Vou ali me preparar pra novas aventuras e deixo vocês com os chips e o outono em Berlim.

 

Chips de couve

Eu uso couve crespa, pois é a única que encontro aqui em Berlim, mas você pode usar qualquer tipo de couve.

Folhas de couve

Azeite

Sal a gosto

Aqueça o forno à 120 graus. O objetivo é desidratar as folhas e como elas são delicadas, uma temperatura mais alta vai queima-las.

Lave e seque bem as folhas de couve. Com uma faca, retire os talos e guarde pra usar em outra receita (na sopa ou no suco verde, por exemplo). Rasgue as folhas em pedaços médios/pequenos. Em um recipiente grande o suficiente pra acolher todas as folhas, regue com umas gotas de azeite e tempere com uma pitada de sal. Massageie pra distribuir o azeite de maneira uniforme. Use pouco azeite, só o suficiente pra que todos os pedaços tenham um pouquinho dos dois lados. O objetivo não é deixar as folhas nadando no azeite! Uso aproximadamente 1 colher de chá pra 4 folhas de couve crespa, mas como as folhas de couve lisa podem ser maiores,  adapte a quantidade de azeite, se necessário. Um conselho: use menos do que você achar necessário, pois depois de desidratadas as folhas reduzem muito e o que parecia pouco na folha fresca, se torna demais na folha seca.

Espalhe as folhas levemente besuntadas em uma placa de metal (importante! Não tive sucesso com formas de vidro), deixando um pouco de espaço entre elas. Se você colocar muitas folhas de uma vez elas não vão desidratar como devem antes de queimarem. Coloque no forno por 15-20 minutos, aproximadamente, mas dê uma olhada no final dos primeiros dez minutos só pra ter certeza que elas não estão queimando. Reparei que fornos podem ser extremamente temperamentais (hahahaha!), alguns esquentam mais de um lado do que do outro (nesse caso será preciso dar uma mexida nos seus chips pra eles desidratarem de maneira uniforme) e não posso garantir com precisão em quanto tempo seus chips ficarão prontos. O teste (extremamente sofisticado, atenção!) é o seguinte: abra o forno, pegue um chip e prove. Ele deve estar totalmente crocante.

Assim que ficarem prontos retire seus chips do forno (não deixe eles esfriando lá dentro) e deixe esfriar completamente antes de transferi-los pra um recipiente com tampa. Guarde bem fechado, em temperatura ambiente. Se conserva por vários dias, mas garanto que eles não vão durar mais de algumas horas.

Como preparar pudim de chia

Percebi recentemente que pudim de chia pode ser uma decepção pra algumas pessoas, principalmente pessoas que cresceram no Brasil e que associam a palavra “pudim” com uma sobremesa ultra doce e gordurosa. Então deixa eu começar explicando que o “pudim” aqui faz referência à consistência dessa preparação, um creme levemente gelatinoso, não àquela sobremesa feita com leite condensado e ovos, tão apreciada pelo nosso povo. Uma coisa não podia estar mais longe da outra.

Tirando da mesa as expectativas que o nome sugere, o que sobra? Uma preparação leve, rica em fibras e ômega 3, porque a essa altura do campeonato todo mundo e o seu cachorro já sabem que chia é uma excelente fonte de ômega 3. Se é novidade pra você, leia esse post que escrevi em 2011, quando a chia ainda era novidade no Brasil. Ele é perfeito pra ser degustado no lanche ou no café da manhã. E se você fizer a versão com chocolate, ele pode virar sobremesa.

Como a semente de chia em si não tem muito sabor, o pudim feito com ela está mais pra um iogurte do que pra uma sobremesa. Claro que iogurte é um alimento fermentado e tem probióticos, o que esse pudim não tem, mas estou me referindo à maneira como vemos e degustamos essa preparação. Ele pode ser servido com granola, frutas frescas e pode ser batido com outros ingredientes (antes de juntar a chia) pra ficar mais gostoso e interessante. Depois que você dominar a técnica de preparo, as variações são infinitas.

Meu leite preferido pra fazer pudim de chia é o de coco, que faço em casa (receita aqui). Se quiser um pudim mais cremoso e saboroso, bata o leite de coco (ou o leite que estiver usando) no liquidificador com 1 colher de sopa de óleo de coco derretido antes de misturar com a chia. O frio da geladeira vai agir no óleo de coco, que é uma gordura saturada e se solidifica em temperaturas baixas, e deixar o pudim mais encorpado. Isso é especialmente importante se você estiver usando um leite leve e pobre em gordura, como o de arroz ou aveia.

Pra transformar o pudim de chia em algo mais interessante e gostoso, minhas dicas são: além do leite + chia 1- acrescente uma fonte de gordura boa (óleo de coco, pasta de amendoim, pasta de amêndoa, tahina) pra dar cremosidade; 2-“tempere” com especiarias (canela, cardamomo, gengibre, baunilha) ou com cacau e 3-sirva com frutas frescas. Assim não só o sabor fica muito melhor, mas você terá um lanche completo, com fibras, proteína e gordura boa (incluindo o ômega 3 da chia). E como o pudim de chia é uma daquelas receitas que devem ser preparadas no dia anterior e se conserva vários dias na geladeira, você pode preparar uma quantidade maior e degustar durante a semana, variando as frutas do acompanhamento.

Abaixo a receita de base e duas das minhas variações preferidas. O objetivo é servir de inspiração, então sinta-se livre pra substituir os ingredientes e criar variações.

Pudim de chia básico

Como líquido você pode usar o seu leite vegetal preferido ou até mesmo suco de uva integral. Como chia tem um sabor neutro, use um leite que você goste, pois esse será o sabor que você vai sentir no final. Usei as medidas padrões aqui pra não ter confusão (xícara e colher de sopa medidoras). As proporções indicadas abaixo produzem um pudim na consistência que eu gosto, mas se você preferir um pudim mais ou menos encorpado, adapte a quantidade de chia.

1x de líquido (240ml)

3cs de chia

Açúcar de coco, melado, agave ou o seu adoçante preferido, se necessário

Misture a chia com o leite vegetal e, se necessário, adoce como preferir. O segredo pro pudim ficar cremoso e homogêneo, sem aglomerações de chia, é misturar bem a chia com o líquido e mexer novamente a cada minuto por uns 5-10 minutos. Não é complicado, basta deixar o pudim do seu lado enquanto você faz um café, ou prepara o jantar e dar uma mexidinha de vez em quando, até ele ficar encorpado e as sementes tiverem aumentado de volume. Depois é só cobrir e transferir pra geladeira. Não se preocupe que a chia vai continuar absorvendo o líquido e a mistura vai ficar mais encorpada no dia seguinte. Por isso os resultados são melhores se você preparar o pudim na noite anterior.

*Obviamente suco de uva integral não precisa ser adoçado e dependendo do leite vegetal usado (coco e arroz, por exemplo, são naturalmente adocicados) e da maneira como você quiser comer o pudim (puro ou acompanhado com frutas frescas), talvez você não sinta necessidade de adoçar.

*Você pode juntar um punhado de frutas secas (passas, abacaxi, figos ou damascos picados) ao seu pudim, no momento em que misturar a chia com o leite, pra adoçar naturalmente a mistura. No dia seguinte as frutas estarão hidratadas e suculentas.

 

Pudim de chia com cacau e pasta de amendoim

Usei tâmaras do tipo medjouls, que são macias, suculentas e grandes. Se você usar outro tipo de tâmara vai precisar aumentar a quantidade e provavelmente deixar de molho na água quente por alguns minutos antes de triturar pra facilitar o trabalho do liquidificador. Você pode usar passas no lugar das tâmaras, açúcar de coco ou melado. Use a quantidade que for preciso pra que fique doce o suficiente pro seu paladar. Dica: você vai acrescentar a chia, que não é adoçada, ao líquido, então se você gosta de preparações mais doces, deixe o líquido um tiquinho mais doce do que você gostaria pra compensar o acréscimo da chia mais tarde. Você pode usar pasta de amêndoas ou de avelã no lugar da pasta de amendoim.

1x de leite vegetal (usei de espelta, mas pode ser coco caseiro, arroz, amêndoa, aveia, soja…)

1cs de cacau em pó (puro, sem açúcar)

1cs de pasta de amendoim (pura, não adoçada)

2 tâmaras

3cs de chia

Nibs de cacau (opcional)

Bata o leite, cacau, pasta de amendoim e tâmara no liquidificador até a tâmara se desfazer totalmente. Transfira pra um recipiente com tampa e misture a chia como indicado na receita acima. Cubra e leve à geladeira por uma noite. Sirva polvilhado com nibs de cacau. Rende 2 porções comportadas. Se conserva alguns dias na geladeira. Também fica uma delícia acompanhado de rodelas de banana.

Pudim de chia com mirtilo, coco e cardamomo

Mirtilo com coco e cardamomo é uma mistura celestial! É o meu pudim de chia preferido do momento. Se você não tiver mirtilos, pode usar morangos bem maduros, que também vão muito bem com coco e cardamomo. Mamão ou banana são igualmente deliciosos no lugar dos mirtilos.

1x de leite de coco fresco 

1cs de óleo de coco virgem

1x de mirtilos (ou uma das frutas sugeridas acima)

1/3cc de cardamomo em pó

4cs de chia

Bata todos os ingredientes, com exceção da chia, no liquidificador até ficar homogêneo. Transfira pra um recipiente com tampa, junte a chia e misture seguindo as instruções da receita de base. Cubra e leve à geladeira por uma noite. Sirva com mais mirtilos ou bananas em rodelas. Rende 2 porções.  Se conserva alguns dias na geladeira.

Cafés da manhã tropicais

Minha estada no Brasil, mistura de férias e trabalho, está chegando ao final. Ainda viajo mais um pouco por aqui, já que domingo que vem tem uma oficina-brunch-palestra em Fortaleza (mais informações aqui), mas pretendo passar os últimos dias antes de voltar pra Europa em casa, comendo toda a comida típica que passar pela minha frente.

Café da manhã é minha refeição preferida e os que preparo aqui são, de longe, os melhores de todos. Porque aqui em Natal frutas suculentas abundam, algumas das que mais gosto (manga, mamão, abacate, cacau, pinha). Tem tapioca, macaxeira, cará, batata-doce, cuscuz e, o melhor de tudo, tem coco fresco. Verde, pra tomar a água e comer a polpa, e maduro, pra fazer o meu leite preferido. Com tantos ingredientes maravilhosos à disposição, fica fácil preparar refeições matinais espetaculares. Pelo menos pra uma pessoa tão louca por café da manhã quanto eu.

A refeição matinal é a mais difícil de veganizar pra maioria das pessoas. Justamente por isso escolhemos fazer a oficina em Fortaleza sobre esse tema. Mas é só pensar um tiquinho fora da caixa que dá tudo certo. Tempos atrás escrevi um post sobre como transformar seu café da manhã, pra que ele fique cheio de nutrientes e sabor, mas hoje queria falar de maneira mais específica sobre meus cafés tropicais. Espero que isso inspire as pessoas lendo o blog que moram por aqui.

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Adoro começar o dia com água de coco. Acordo morrendo de sede, principalmente no verão, e tomar água de coco é uma daquelas coisas pequenas que proporcionam uma felicidade gigante. Depois como a lama, que é como chamamos a polpa por aqui. Ou guardo pra usar em algum prato.

Frutas, frutas e mais frutas. Pra quem mora no Nordeste as opções são ainda mais variadas. Só que frutas sozinhas não vão te sustentar por muito tempo, então você pode acrescentar castanhas, sementes (linhaça, chia, girassol, sarraceno…) e cereais em flocos (aveia, amaranto, quinoa). Se a fruta não for doce o suficiente pra você, um fio de mel de engenho (melado de cana) ajuda e ainda oferece uma dose de ferro.

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Nunca como só frutas, porque além de ter muita fome quando acordo não consigo comer só doce de manhã. Preciso de algo salgado e aqui entram os ingredientes típicos do café da manhã da minha região e que tanto me fazem falta quando estou longe: macaxeira cozida (quanto mais molinha, melhor), batata-doce, tapioca e cuscuz. O problema é que tradicionalmente essas iguarias são sempre acompanhadas de produtos de origem animal. A danada da “mistura” (ovo, queijo, carnes). Mas basta manter o princípio da mistura, que nada mais é do que uma proteína, e optar por uma de origem vegetal. Grão de bico, por exemplo. Sob forma de hummus ou de omelete, é ele que aparece com mais frequência acompanhando a macaxeira, batata-doce, tapioca e cuscuz.

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E falando em cuscuz, como ele é pobre em nutrientes gosto de acrescentar sementes de chia, linhaça ou sarraceno e algumas castanhas diretamente no prato, sobre o cuscuz cozido.  Faço meu cuscuz no leite de coco caseiro, mas se ele não for preparado assim rego com um fio de azeite pra não ficar tão seco.

Dois tubérculos que adoro são inhame e cará. São nutritivos, baratos (cará aqui custa metade do preço do inhame) e perfeitos pro café da manhã.

Uma opção menos comum, mas deliciosa, é banana da terra (banana comprida) cozida. Você cozinha na água, com casca, até ficar macia (espete com a ponta de uma faca pra testar). Depois é só descascar e degustar. Tem gente que gosta de comer banana da terra com melado e canela. Eu gosto de come-la como acompanhamento de  pratos salgados, como omelete de grão de bico. Ou com hummus, porque hummus fica bom com quase tudo. (Perceberam minha obsessão com esse omelete e com hummus? Finjam que não perceberam.) Na foto abaixo tem: banana da terra cozida, omelete de grão de bico e cogumelo salteado.

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Mais difícil de encontrar, mas gostosa a ponto de valer a pena sair atrás dela pela cidade, é fruta-pão. Você também cozinha na água salgada, como batata (descasque antes), até ficar tenra. Depois é só se deliciar. Na foto abaixo ela foi acompanhada de amendolete (casquinha de amendoim que meu amigo Marcelo faz. A receita é dele, então nem adianta me pedir) e muhammara.

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Mas a melhor coisa pra comer de manhã, principalmente aqui no Nordeste quando está um calor de maçarico, como é o caso agora, é aveia dormida. Cremosa, geladinha, deliciosa. Eu gostava muito de iogurte antes de me tornar vegana e sinto que aveia dormida, embora não seja um iogurte vegetal (não é fermentada) preenche o vazio deixado pelo iogurte na minha dieta. Acho que sentia mais falta de ter algo leve, cremoso e gelado pra comer do que do sabor do iogurte propriamente dito. Talvez por isso eu seja tão louca pela minha aveia dormida. E aqui posso prepara-la com o leite de coco que faço, o que deixa o prato ainda mais cremoso e levemente doce (coco é naturalmente adocicado). Melhor aveia dormida de todos os tempos!

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Publiquei várias receitas de aveia dormida aqui no blog (é só procurar na página “Receitas”), mas é muito simples. Basta misturar aveia em flocos (melhor se forem grossos) com chia (uso 1 colher de sopa de chia pra cada 1/2 xícara de aveia em flocos, mas você pode usar mais chia e menos aveia se quiser que fique ainda mais leve) com leite de coco caseiro (ou outro leite vegetal) suficiente pra cobrir tudo. Coloque em um recipiente fechado na geladeira e deixe descansar durante a noite. De manhã estará prontinha pra ser degustada, de preferência com pedaços de frutas frescas. Essa é a receita básica, mas você pode acrescentar frutas secas à mistura (passas, ameixas, damascos), especiarias (canela, gengibre, cardamomo)… Na hora de degustar você pode ainda acrescentar castanhas, nibs de cacau, sarraceno cru, flocos de amaranto ou quinoa. Atualmente estou adorando bater frutas congeladas no liquidificador com o mínimo de leite de coco e servir esse sorvete natural com a aveia dormida. Ainda não descobri um café da manhã melhor pro verão: leve, gostoso, nutritivo, refrescante e sacia bastante.

E sabe aquela polpa de coco verde que mencionei no inīcio do post? Você pode acrescenta-la à sua aveia dormida, o que vai deixa-la com um sabor do outro mundo. Ou pode bater essa polpa com um pouquinho de água de coco e servir esse creme divino e maravilhoso sobre frutas frescas. Acompanhadas, se quiser, de sementes e castanhas, porque o nome desse blog não é “Papacapim” por acaso: adoro sementes!

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Mas além de dar dicas de cafés tropicais, eu gostaria também de compartilhar uma receita que criei durante essa visita ao Brasil e que anda aparecendo com frequência na mesa da minha família. Eu adoro tapioca e aqui em casa comemos tapiocas todos os dias. Eu costumo besunta-las com o meu fiel companheiro hummus, mas um dia acordei querendo algo diferente e de sabor mais suave. Então peguei o liquidificador, os ingredientes que estavam dando sopa na cozinha e nasceu um creminho gostoso que agradou a família onívora inteira. A textura lembra muito requeijão e como o ingrediente principal é castanha de caju, batizei de “requeiju”. Às vezes acordo sapeca.

Tenho consciência de que castanha de caju anda pela hora da morte fora do Nordeste e às vezes até dentro dele (tem lugares onde o quilo sai por 70 reais!). A culpa, assim como no caso do feijão, é da seca. Recomendo procurar castanhas em mercados populares ou lojas especializadas em castanhas. As dos supermercados são muito mais caras. A receita só usa 100g desse ingrediente precioso e faz bastante requeiju. No final das contas ainda sai mais barato do que requeijão (comparando as mesmas quantidades).

Na foto abaixo: tapioca com requeiju, omelete de grão de bico, mamão com chia e sarraceno.

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Requeiju

As castanhas ideais aqui são aquelas naturais (ou “caipiras”), tostadas no fogo. Não as cruas (que são, na verdade, cozidas no vapor) nem as torradas (que são fritas no óleo). Uso as quebradas, que são mais baratas. Elas vão acabar no liquidificador de todo jeito, então não faz sentido gastar mais comprando a castanha inteira pra depois triturar tudo.

100g de castanha de caju (leia mais detalhes acima), de molho por 8-12 horas

1 cs de missô claro

1 cs cheia de polvilho azedo

1 cs de azeite (de sabor suave)

1 cs de vinagre de maçã (o de fermentação natural, não vinagre de álcool “aromatizado com maçã”)

1/2cc de paprica doce (opcional)

1 cs de levedura de cerveja maltada (opcional)

Sal e pimenta do reino a gosto

2 1/2 x de água

Bata as castanhas demolhadas (escorra antes), o missô, o azeite, o polvilho azedo, o vinagre de maçã, a páprica e a levedura (se estiver usando) no liquidificador com duas xícaras de água, até ficar cremoso. Esfregue a mistura entre os dedos pra ter certeza que não tem pedacinhos de castanha inteiros. Transfira a mistura pra uma panela pequena. Despeje meia xícara de água no liquidificador e sacuda bem pra que o restinho da mistura de castanha que ficou grudado ali se dissolva e misture esse líquido com o da panela. Assim você não desperdiça nem um tiquinho do seu requeiju (e ainda facilita o trabalho de lavar o liquidificador depois).

Cozinhe em fogo baixo, mexendo com um batedor de arame (fouet) até começar a ferver e engrossar. Prove e acrescente sal, se necessário (alguns missôs são bem salgados, por isso prove primeiro antes de colocar mais sal) e uma pitada de pimenta do reino.. Se achar que seu requeiju ficou com grumos, bata vigorosamente com o batedor (fora do fogo) até a mistura ficar totalmente lisa. Transfira pra um recipiente com tampa e guarde na geladeira. A consistência fica mais espessa e ainda mais cremosa depois de gelado, por isso espere algumas horas antes de consumir. Se conserva uma semana na geladeira.

Papa de aveia árabe

Alguns dias atrás o curso de Árabe que vim fazer aqui em Beirute terminou. Foram só cinco semanas, mas o alívio que senti no último dia de aula foi grande. Eu já tinha esquecido o que significa acordar cedo pra ir pra escola e passar a maior parte do seu dia sentada, olhando pra lousa ou pros cadernos. Mas adorei ter feito esse curso, pois aprendi, enfim!, a escrever e a ler em Árabe e conheci pessoas maravilhosas que espero manter na minha vida. E foi uma grande lição de humildade ser alfabetizada novamente aos 34 anos e ter que ler, na frente do professor e de uma sala repleta de alunos, com a mesma dificuldade e na mesma velocidade de quando eu tinha 6 anos (“b…b…ba…r…c…bar…co. Barco!). Aprender uma língua estrangeira depois de adulta é difícil, mas aprender uma língua estrangeira que tem um alfabeto completamente diferente do seu e que ainda por cima se escreve na direção oposta é como contratar um personnal trainer pros seus neurônios. Eles vão sofrer, suar, se esbaforir e quase colocar os bofes pra fora, mas sairão da experiência mais fortes e em melhor forma. Eu e meus coleguinhas de curso estamos nos sentindo muito mais sabidos agora do que cinco semanas atrás. Nos encontramos na rua e nos olhamos com respeito mútuo, pois fazemos parte do grupo que conseguiu conjugar os prefixos e sufixos do sistema verbal árabe- gênero, número, tempo e grau de probabilidade- escritos com letras que se metamorfoseiam de acordo com a posição dentro da palavra e que ainda por cima se escreve da direita pra esquerda!

Além de ter colocado meus neurônios em treinamento intensivo, pude sentir na pele o que já sabia de maneira teórica: comida tem um papel fundamental no aprendizado. O que faz com que a historinha do personnal trainer de neurônios seja ainda mais verdadeira. Sabe a obsessão que o mundo do fitness tem com a comida pré e pós treino? Deveríamos ter a mesma preocupação com a comida que entra no nosso corpo antes e depois do estudo.

Minha vida de estudante no Brasil tinha um cardápio bem diferente do que como hoje. Pequena, eu comia tapioca, cuscuz ou pão com mortadela (mortadela!!! haha). Durante a adolescência a coisa piorou ainda mais e meu café da manhã passou a ser coxinha fria com café preto (de mortadela à coxinha! hahahahaha!). Embora as referências políticas do meu café da manhã me façam rir hoje (tudo piada, gente! Veganas, por razões óbvias, não simpatizam nem com mortadela nem com coxinha ; ), meu pobre cérebro teve que funcionar durante anos e anos com uma carga de nutrientes bem pequena.

Nos anos de faculdade eu morava em Paris e as coisas mudaram bastante, embora não necessariamente pra melhor. Meu café da manhã era brioche, pão de leite ou outro pão branco com manteiga, queijo, muito queijo e café com leite. Mais pra frente troquei o pão branco por pão de forma integral com cereais, o que na época me parecia ser supra sumo da alimentação saudável, mas hoje vejo isso como uma melhora bem pequena levando em consideração que o resto continuou o mesmo.

Embora os cafés descritos acima fossem bem diferentes, os resultados eram mais ou menos os mesmos. Eu quase sempre saía de casa com o estômago pesado, mas curiosamente antes das 10h a barriga já estava roncando. Graças aos conhecimentos em nutrição que adquiri durante os últimos anos entendi o que estava fazendo errado e adotei uma refeição matinal que me nutre e sacia por várias horas. Sinto uma diferença imensa no meu nível de energia durante o dia quando estou viajando e, por não poder preparar meu café da manhã típico, acabo me alimentando mal pela manhã.

Ir pra escola depois de ter consumido um café da manhã pobre, depois do longo jejum da noite e esperar que seu cérebro tenha um desempenho optimal é loucura. Sem entrar nos detalhes do que uma criança ou adolescente deveria consumir antes de ir pra escola, porque sairia do tema desse post e do meu domínio de competência, vou me concentrar no que essa adulta aqui, que voltou a estudar, precisa pra sentir seu cérebro funcionando a todo vapor e seu estômago saciado até a hora do almoço. Espero que ajude e inspire os outros adultos lendo esse blog.

Depois que voltei pra escola percebi que minha adorada, idolatrada, salve!, salve! papa de aveia sozinha não era mais suficiente pra me saciar até a hora do almoço. Embora minhas papas sejam uma refeição completa e equilibrada, pois acrescento vários outros ingredientes à aveia, eu como uma porção relativamente modesta. Comer uma porção maior teria resolvido o problema, mas não consigo comer algo doce em grandes quantidades, logo é difícil pra mim engolir um pratão de papa de uma vez. Incluir uma fatia de pão integral com hummus na refeição seria outra solução, mas além de tentar comer o mínimo de pão possível (meu estômago é mais feliz sem glúten), aqui em Beirute já como hummus com bastante frequência no almoço. Como senti que precisava aumentar a quantidade de proteína do meu café, pois ela é uma das grandes responsáveis pela saciedade (expliquei tudo sobre como se sentir saciado com uma alimentação vegana nesse post), comecei a preparar omelete de grão de bico pra acompanhar a minha papa. Bingo!

Incrível como uma cumbuquinha de papa de aveia mais meio omelete de grão de bico (a outra metade ia pra Anne) ingeridos às 8h me deixa saciada e feliz até as 12h, sem no entanto pesar no estômago nem me fazer sentir lenta e sonolenta, que é o que acontece quando como pão de manhã. Aproveito pra dizer que percebi o que muita gente já deve saber: hidratar o corpo de manhã é indispensável, pois é possível confundir sede com fome, por mais estranho que isso possa parecer. Eu começo o dia com um limão espremido em um copo grande com água ou água de kefir (geralmente uma mistura das duas). É a primeira coisa que faço quando saio da cama e só depois vou preparar o café, tomar banho, me vestir, comer. Pra mim é indispensável seguir essa ordem, pois como o copo de água com limão é grande (acordo com muita sede), preciso de um tempinho entre o momento em que todo esse líquido entra no meu corpo e o momento em que sento pra degustar minha refeição matinal, senão fica difícil acomodar os dois no estômago. Antigamente eu tomava um copão de suco verde pela manhã, mas como não tenho liquidificador em casa e minha vida de nômade com orçamento limitado me impede de sair comprando um liquidificador pra cada casa nova que me acolhe, hoje em dia me contento com limão e água de kefir.

Outra coisa fantástica que descobri depois que me mudei pra Beirute: tahina na papa de aveia é uma delícia! Sabem como é, a necessidade é a mãe da criatividade. Justamente por não ter liquidificador, não posso fazer meus leites vegetais em casa e fui obrigada a procurar leites vegetais prontos. A oferta aqui é grande e consigo achar, pertinho de casa, leite orgânico de soja, arroz, amêndoas… Mas os preços são bem elevados. Como o Líbano produz a melhor tahina do mundo (junto com a tahina palestina) e que esse produto é bem barato aqui, pensei: “Se eu cozinhar a papa na água e acrescentar colheradas de tahina, é como se tivesse usado leite de gergelim!” E além de resolver o problema do leite vegetal, ganhei um super bônus: muito cálcio. Gergelim (e, consequentemente, tahina, que nada mais é do que gergelim moído até se tornar uma pasta) é extremamente rico em cálcio. E como uma fonte de gordura boa é igualmente indispensável pra dar saciedade, a tahina cumpre três papeis ao mesmo tempo. É meu substituto de leite vegetal, enriquece a papa com cálcio e é uma fonte de gordura boa. Geralmente o óleo de coco é a gordura boa das minhas papas, mas esse é outro ingrediente extremamente caro por aqui. Tento me alimentar da maneira mais local possível (melhor pro meio ambiente e pro bolso também!), então fazia mais sentindo usar um ingrediente local que é abundante, barato e delicioso. Se você usar a criatividade e tirar proveito dos alimentos locais, alimentação vegana pode ser sempre barata. E eu, que não paro de mudar de país, nunca deixo de me maravilhar com o imenso leque de possibilidades que o reino vegetal oferece.

E foi assim que nasceu essa variação árabe da minha papa de aveia clássica. A inspiração é árabe por causa dos ingredientes, mas na verdade ninguém aqui come papa de aveia e lógico que essa não é uma receita tradicional.

Como expliquei, faço essa receita só com água e tahina e o sabor fica bem intenso. Já testei com uma mistura de água e leite vegetal (de arroz ou soja) e ficou bem mais suave, então é essa versão que compartilho abaixo. Gosto de servir essa papa salpicada de nozes tostadas, porque é outro ingrediente típico daqui e porque elas aumentam a dose de proteína, gordura boa e ômega 3 da receita. E falando em ômega 3, aproveito pra relembrar que esse nutriente, importantíssimo pra qualquer pessoa, não pode ficar de fora da alimentação dos estudantes. Por isso sempre incluo semente de chia na minha papa. Pode até ser psicológico, mas acho que um café da manhã rico em ômega 3 me deixa mais inteligente.

Termino lembrando que escrevi esse post explicando tintin por tintin porque o café da manhã é tão importante, não só pra quem estuda, e vale a pena ler de novo. E se quiser ver mais receitas nutritivas e saborosas pra manhã é só clicar na página “Receitas” no cabeçalho e conferir a seção “café da manhã”.

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Papa de aveia árabe (com tahina)

Tahina pode ser fluida e quase líquida, como as que encontramos no Líbano e na Palestina, ou bem densa e compacta, como as que encontramos nas lojas de produtos naturais. Adapte a quantidade de tahina nessa receita de acordo com o tipo que você tiver em casa e com as suas preferências. Gergelim tem um sabor delicadamente amargo que uns adoram e outros detestam. Se você gosta de tahina, vai adorar essa papa. Se não gosta, mas quer aprender a gostar, essa não é a receita ideal pra você, pois o amargor da tahina é bem presente aqui. Sugiro receitas como hummus e mutabbal, que também usam tahina, mas com resultados bem mais sutis. E se tahina não for a sua praia, publiquei outras receitas de papas deliciosas aqui, aqui e aqui.

1/2 x de aveia em flocos (finos ou grossos)

1 cs de chia

1 banana madura

1/2 x de leite vegetal (arroz, aveia, amêndoa, coco, soja…)

1 cc rasa de canela, ou a gosto

1 pitada de sal

Melado a gosto – opcional (se, como eu, você mora no Oriente Médio, melado de tâmara ou alfarroba deixa tudo ainda mais “árabe” e são ingredientes locais)

1-2 cs de tahina (leia explicações acima)

Um punhado de nozes – opcional

Na véspera, coloque a aveia e a chia em um recipiente pequeno, com tampa, e cubra com 1 xícara de água. Misture bem, tampe e deixe na geladeira durante a noite. Esse passo é opcional, mas vai deixar a sua aveia mais cremosa usando menos líquido e a papa vai ficar pronta muito mais rápido (quem estuda cedo não tem muito tempo pra cozinhar de manhã!).

Na manhã seguinte amasse a banana e transfira pra uma panela pequena. Junte a aveia/chia dormida, o leite vegetal, a canela, o sal e o melado, se estiver usando (entre 1cc e 1cs, dependendo da intensidade de doçura que você quiser). Leve ao fogo baixo e cozinhe por alguns minutos, mexendo de vez em quando, até a papa começar a borbulhar. Junte a tahina e misture bem pra incorporar. Se sua tahine for do tipo espessa e compacta vai ser preciso dissolve-la em um pouco de água/leite vegetal antes, senão vai ser difícil incorpora-la à papa de maneira uniforme. Depois de juntar a tahina a papa vai engrossar um pouco, então nesse ponto eu acrescento mais água ou leite vegetal (entre 1/3x e 1/2x), pois gosto da minha papa fluida e cremosa. Adapte a quantidade de líquido pra atingir a consistência que você preferir. Desligue o fogo e sirva imediatamente, salpicada de nozes (tostadas a seco elas são ainda mais saborosas). Rende 1 porção estudante ou 2 porções pequenas (pra quem gosta de comer outras coisas além da papa no café da manhã).

Responda com uma dança interpretativa

Quando me mudei pra Londres, em Março, trabalhei por alguns meses em um café vegano/vegetariano. Nada indicava a ausência de carne no nome do café (Moveable Feast) e apesar de ter uma plaquinha do lado da entrada dizendo que aquele era um café vegetariano, quase ninguém se dava o trabalho de ler. Então apesar de boa parte dos clientes ser veg, muitos onívoros iam parar ali desavisados. Todo os dias aparecia gente pedindo um burrito de frango (eu cozinhava a parte de inspiração mexicana -e totalmente vegana- do menu), ou perguntando que tipo de carne nós servíamos.

Gente do céu, a reação de algumas pessoas quando eu dizia que não tinha carne nenhuma no cardápio era coisa de cinema! Tinha gente que saía correndo a toda velocidade, como se eu tivesse uma doença contagiosa. Tinha gente que caía na gargalhada, enquanto eu repetia, muito séria, que estava falando a verdade. Teve um cliente que riu tanto, enquanto repetia “Não tem carne! HAHAHAHAHAHA! Essa foi a melhor do dia!” que tenho certeza que ele pensava que tinha uma câmera escondida atrás do balcão. Tinha gente que se ofendia profundamente e eu podia ler nos olhos deles algo como: “Como vocês tiveram a AUDÁCIA de abrir um restaurante sem carne? Que despautério! Que absurdo!”

O que achei mais interessante nisso tudo é que as reações mais negativas vinham quase sempre de homens. Eles eram os mais ofendidos, os mais indignados e os que sentiam a absoluta necessidade de me dizer: “Eu PRECISO de carne”. Depois de alguns meses trabalhando no café percebi como os homens são muito mais resistentes à ideia de comer comida vegetariana/vegana do que mulheres, mesmo que seja somente uma única refeição. Trabalhar no café foi uma verdadeira experiência antropológica.

Justiça seja feita, vários homens que chegaram pedindo carne reagiram de maneira extremamente positiva ao saber que o café era vegetariano (“A comida é vegetariana? Por que não?” ou “Vou experimentar! Assim como algo diferente.”). Depois de ver tanto homem reagir de maneira negativa, confesso que eu ficava com vontade de abraçar os moços de mente aberta. E também aconteceu de algumas mulheres reagirem de maneira menos educada, exibindo um dos comportamentos citados acima. Mas a maioria das mulheres tinha uma atitude aberta e quando eu explicava que eu só cozinhava comida vegetal elas abriam um sorriso e diziam: “Nossa! Que bacana!” Elas geralmente se empolgavam com a ideia de comer algo diferente. E mesmo quando não se interessavam pela comida por ser vegetariana, elas se contentavam em dizer um: “Não, obrigada” e iam embora na maior tranquilidade.

Conclusão do meu estudo antropológico no café: mulher, mesmo onívora, é mais aberta à ideia de comer algo vegano e até se empolga com a novidade. Já 7,5 em cada 10 homens onívoros que entraram nesse café, de acordo com o meu cálculo nada científico, acham a ideia de fazer uma única refeição sem carne tão absurda (ou perigosa) quanto defender um pênalti sem proteger o entreperna com as mãos.

Apesar de ter conseguido manter a compostura sempre, de tanto ver as mesmas reações se repetirem eu acabei elaborando algumas respostas que me faziam rir muito sozinha.

Pros que escutavam a palavra “vegetariano” e saíam correndo desembestados, como se veganismo fosse uma doença contagiosa, eu queria dizer: “Você pode tentar fugir o quanto quiser, mas nós sabemos onde você mora! Nós sabemos onde você trabalha! Nós temos o endereço da sua mãe! Mais cedo ou mais tarde o veganismo vai te pegar!”

Pras pessoas que caíam na gargalhada (cínica), como se um restaurante ser vegetariano fosse a maior piada do universo, eu queria dizer: “HAAAAAAA! Pegadinha do Malandro! Você caiu direitinho, hein? HAHAHAHAHA! Claro que nós temos carne……..(incorporando Vandinha Adams) humana.”

 Pro pessoal que só ia embora depois de me explicar: “Eu PRECISO de carne! PRECISO do meu bife!”, eu gostaria de dizer: “Perdoe a ignorância, eu confundi você com um humano. Claro que você faz parte de uma outra espécie, aquela que quando faz uma única refeição sem carne se desintegra instantaneamente.”

Continuo fazendo comida mexicana vegana pra mesma (micro) empresa,  mas saímos do café e atualmente preparamos nossos burritos, tacos e afins em festivais de comida. Nesses locais todas as outras barracas, sem excessão, vendem carne. Muita, muita carne. De vários animais diferentes. Mesmo assim algumas pessoas se revoltam quando descobrem que nossos burritos são veganos, algumas até fazendo sugestões do tipo: “Vocês deviam oferecer mais variedade, fazer metade dos pratos vegetarianos e metade com carne.” Que absolutamente todas as outras barracas oferecem carne não parece nunca ser suficiente.

 A reação mais absurda que presenciei aconteceu duas semanas atrás. Um homem chegou perguntando que tipo de carne eu cozinhava. Depois de ter explicar longamente que a comida era toda vegana, mas que era tudo preparado com muito amor e sabor e que talvez ele fosse gostar de provar algo diferente, ele acabou pedindo um burrito. Mas quando o recebeu declarou: “Eu vou comer, mas vou fingir que um porco foi abatido.”

Na hora suspirei e pensei: “Irmão, procure ajuda que isso é doença.” Mas depois de matutar com calma sobre o ocorrido fiquei foi com pena do camarada. Que triste ver a que ponto uma pessoa pode se sentir desconfortável com a ideia de se fazer uma só refeição sem causar sofrimento e morte de animais. Tão desconfortável que ele precisou fazer essa piada de mau gosto pra provocar os veganos ali presentes (já pensou como ia ficar a reputação dele se um migucho carnívoro o visse atracado com um burrito vegano???).

Pra esse pessoal que gosta de provocar e ridicularizar veganos (insegurança, tadinhos, eu sei…), eu tenho vontade de dizer: “Você tá se achando super engraçado porque tirou sarro dos veganos, né? Amigo, piadas como essa eu como com farinha! Já escutei tantas que a única coisa que você provoca em mim é pena. Onívoro fazendo piada de mau gosto com vegano é tão sem originalidade que ficou demodê. “

Felizmente na maior parte do tempo vivi momentos lindos no meu trabalho aqui, mas isso é assunto pra outro post.

 Agora passemos à minha obsessão do momento. Acreditem, quando não estou ocupando o meu tempo bolando respostas imaginárias como as que descrevi acima, estou na cozinha fazendo omelete de grão de bico. Eu já publiquei uma receita de omelete de grão de bico (na verdade duas) usando o grão cru, demolhado, aqui no blog. Mas também mencionei que era possível fazer omelete usando a farinha de grão de bico. Desde então recebi vários pedidos pra publicar a receita usando a farinha.

 Antes eu preferia a receita com grão de bico demolhado, mas desde que me mudei pra Londres a receita com farinha é a única que uso, então acabei aperfeiçoando a técnica até conseguir os resultados que eu procurava. E hoje eu gosto mais da receita usando a farinha!

Quatro coisas são essenciais. 1- A mistura deve ficar bem líquida. Percebi que se ela for espessa o omelete fica denso e pesado, mais parecido com uma panqueca. 2- Usar bastante azeite/óleo na hora de cozinhar o omelete e 3-não fazer omeletes nem muito grandes nem muito espessos. O óleo é essencial pra atingir a textura desejada (crocante por fora e ligeiramente cremoso por dentro). Aprendi a dica 1 e 2 na última vez que estive na Itália. 3- O omelete deve ser pequeno pra você conseguir virá-lo sem que ele se quebre e fininho pra que ele cozinhe de maneira uniforme. 4- O controle do fogo é uma das chaves do sucesso da receita. O omelete deve cozinhar por vários minutos e se o fogo tiver muito alto ele vai queimar antes de ficar cozido. Se estiver muito baixo ele vai ressecar e demorar demais pra ficar pronto.

Claro que meu omelete ficou com um sabor ainda melhor quando comecei a usar sal preto do Himalaia, aquele que tem cheiro e sabor idênticos ao ovo. Mas embora esse ingrediente seja mágico, ele não é indispensável e seu omelete ficará delicioso sem.

Na França é comum fazer omelete com cogumelos e eu sentia saudades desse prato. Não mais! Na primeira vez que usei cogumelos fiquei com medo de não dar certo (e se o omelete se quebrasse na hora de virar? E se os cogumelos, que já estavam cozidos, queimassem?), mas fiz exatamente como faria se estivesse cozinhando com ovos e o resultado foi PERFEITO.

Termino esse post com uma dica. Vegana(o)s lendo esse texto, se vocês também não aguentam mais escutar piada sem graça dos onívoros, sugiro o seguinte: respondam com uma dança interpretativa (os passinhos ficam a critério da imaginação de cada um).

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Omelete de grão de bico com cogumelos (vegano, sem glúten)

Essa receita faz um omelete e foi desenvolvida pra ser usada em uma frigideira de 22cm de diâmetro. Esse tamanho faz com que o omelete fique na espessura ideal. Claro que você pode fazer o omelete sem os cogumelos ou usando as ervas que preferir. A massa tem que descansar uma noite antes de ir pra frigideira, então essa receita deve ser começada na véspera.

4 cs de farinha de grão de bico (usei uma colher medidora, rasa, pra ficar bem preciso)

150ml de água

2 cogumelos marrons frescos cortados em fatias (ou os cogumelos frescos que você preferir – um punhado depois de picados)

Duas pitadas de tomilho (seco ou fresco)

Pimenta do reino e sal a gosto (de preferência sal preto do Himalaia, que tem aroma e sabor de ovo)

Azeite

-Dissolva a farinha em um pouquinho de água até ficar cremoso e sem grumos. Acrescente o resto da água, cubra e deixe descansar na geladeira durante uma noite (12 horas).

-Na manhã seguinte aqueça, em fogo médio, uma frigideira pequena (idealmente com 22cm de diâmetro, medidos no fundo, não nas bordas) com 2cs de azeite. Refogue os cogumelos até eles amolecerem e dourarem um pouco.

-Enquanto isso tempere a mistura de grão de bico com sal e pimenta do reino a gosto, mais o tomilho. Jogue mais 2cs de azeite sobre os cogumelos refogados e despeje a mistura de grão de bico devagar, em um movimento circular do centro em direção às bordas. Imediatamente aumente o fogo e fique do lado do fogão. Espere 10 segundos e reduza o fogo pra médio. Esses 10 segundos iniciais são importantes pra criar uma crosta crocante e facilitar na hora de virar o omelete. Cozinhe em fogo médio-baixo até a parte de cima adquirir um aspecto de cozida. Use uma espátula de metal fina (essencial!!!) pra dar uma olhada na parte inferior do omelete e ter certeza que não está queimando (nesse casa baixe o fogo). Vire o omelete e deixe cozinhar até ficar bem dourado do outro lado. Às vezes aumento o fogo novamente durante os últimos segundos pra acelerar o processo e deixar o outra lado crocante, mas sempre ficando do lado pra não correr o risco de queimar. Na minha cozinha esse omelete leva, ao todo, uns 10-15 minutos pra ficar pronto. Com o tempo você vai adquirir prática e esse processo vai parecer bem menos complicado e intimidante.

-Sirva imediatamente. Rende uma porção.

 Algumas observações:

-A receita fica ainda melhor com uma cebolinha verde em rodelas finas (coloque na frigideira junto com os cogumelos, depois que eles estiverem cozidos, e refogue por alguns segundos antes de despejar a massa).

-Eu sei, 4cs de azeite pra uma porção pode parecer muito, mas lembre que grão de bico não tem praticamente gordura nenhuma, então fica tudo tranquilo.

-Eu triplico a receita e guardo a mistura farinha de grão de bico + água na geladeira pra quando bater a vontade inesperada de omelete vegano (no meu caso, duas vezes por dia). A mistura se conserva muito bem durante vários dias e deixa tudo muito mais prático e rápido.

Rabanada vegana (salgada e doce)

Nem vou começar a explicar porque andei tão ausente desse pobre blog, pois o blá, blá, blá de sempre (muito trabalho, pouca energia, pouco tempo na cozinha criando novas receitas) não é nem um pouco interessante. Melhor fingir que ninguém percebeu meu sumiço e retomar a conversa de onde deixei da última vez que estive aqui.

Então, onde estávamos?

Ainda estou morando em Londres, cozinhando comida vegana em vários lugares diferentes, curtindo a cidade, fazendo amizades novas e recebendo pessoas queridas que me visitam de vez em quando. Minha amiga Johanna esteve aqui semana passada e passamos cinco dias inteirinhos comendo, caminhando e conversando. Ela se encantou com as delícias veganas que a cidade tem pra oferecer, principalmente com o iogurte de coco que conquistou o meu coração.

Anne também esteve por aqui mês passado. Algumas leitoras me escreveram perguntando onde ela estava. Como ela está sempre viajando, dependendo do dia a resposta era “Kasaquistão”, “Polônia”, “Berlim”, “Córsica” ou “França”. No final do ano passado nós decidimos não morar mais juntas e apesar de passar a maior parte do tempo na estrada, ela está atualmente morando em Berlim. Por enquanto o casamento em casas, na verdade países, separados está dando muito certo.

A vida londrina está indo muito bem, mas confesso que não vejo a hora de voltar pra Palestina. Fico aqui até o final de setembro e depois embarco em uma aventura de três meses na Terra Santa. (Falando em aventura, ainda tem vaga no tour Papacapim na Palestina. Se eu fosse você não perderia essa oportunidade por nada!)

Estou aproveitando minhas últimas semanas na cidade pra fazer eventos gastronômicos pra lá de especiais. Teve um jantar palestino que me emocionou muito (meu makluba, o melhor que já fiz até hoje, me encheu de orgulho). E teve um brunch vegano, o primeiro evento do tipo que já fiz.

Brunch sempre foi minha refeição preferida, mas infelizmente pra quem é vegana as opçōes dos restaurantes são extremamente limitadas. Então só me resta cozinhar o brunch vegano dos meus sonhos em casa. E de tanto reclamar desse problema pro pessoal do café veg onde eu trabalhava, os donos acabaram me convidando pra preparar um brunch vegano lá. Fiz um menu super bacana, com alguns dos meus pratos preferidos pra essa hora do dia, e eles adoraram. Só fizeram um pedido: o menu tinha que incluir uma rabanada vegana (ou “French toast”, como os anglófonos dizem).

Nunca tinha comido rabanada na vida, pois na minha região ninguém tem o costume de preparar essa iguaria. E como nunca gostei de pratos doces com ovo, tenho certeza que não perdi nada. Mas o pessoal daqui parece que adora a danada, então lá fui eu criar uma versão vegana de algo que eu nunca tinha provado. Fiz meus testes e chamei meu amigo Nimerod, que é vegano, mas que comeu muita rabanada quando era criança, pra ser minha cobaia. Ele me assegurou que tava tudo certinho e bem parecido com o original. Pra ter certeza servi o prato pros donos do café, que são vegetarianos e grandes apreciadores de rabanada. Eles ficaram impressionados com a receita e disseram que nunca teriam adivinhado que aquilo ali não tinha ovo. Ah, as maravilhas do grão de bico, o ovo vegetal…

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Eu também fiquei feliz com o resultado, principalmente porque servimos a rabanada acompanhada de iogurte de coco, morangos e mirtilos frescos e xarope de bordo. Mas aí lembrei que Anne me contou um dia que gostava de fazer rabanada salgada antes de se tornar vegana. Ela batia o ovo com leite, salgava e mergulhava o pão na mistura antes de fritar. Lembro que quando ela me explicou a criação achei a ideia genial! Um omelete grudado numa fatia de pão? Delícia!

Então depois do brunch tratei de continuar os testes em casa pra desenvolver uma versão vegana e salgada. Meu povo! Meu povo!!! Desde então não quero mais comer outra coisa. Me apaixonei perdidamente por essa receita e tenho certeza que vocês também vão adorar.

Eu confesso que ovo era uma das coisas que eu mais gostava de comer e apesar de ser vegana há quase oito anos, de vez em quando ainda acontece de bater um desejo de comer um (ou três). Não como porque hoje faço minhas escolhas com a cabeça e com o coração. Não deixo o meu estômago, sozinho, guiar minhas decisões na hora de encher o prato.  Então os deuses da gastronomia vegana resolveram me agraciar com uma descoberta que revolucionou minha vida. Na verdade foram meus amigos Marcelo e João, de Recife (oi, habibis!) que me apresentaram o ingrediente mágico que tem aroma e sabor de ovo, mas é 100% vegetal: sal preto do Himalaia.

Graças a um capricho da natureza ele tem a quantidade exata de enxofre pra imitar o sabor do ovo. Encontrei esse sal aqui em Londres dias atrás e desde então venho fazendo minha rabanada salgada, e meu omelete, com ele. Jesus, Maria, José! Parece que voltei a comer ovo frito, mas dessa vez sem explorar nem machucar nenhuma galinha!

Mesmo se você não tiver esse sal na sua cozinha (uma leitora me disse que é possível encontrá-lo na Zona Cerealista, em São Paulo), a receita vai ficar sublime e com um leve sabor de ovo. Santo grão de bico que, como expliquei, é um verdadeiro ovo vegetal! (Lembram da aquafaba?)

Então aqui vai a receita básica, simplérrima e facílima, da rabanada que me conquistou e impressionou tantas pessoas por aqui. Primeiro a versão salgada, minha preferida, e depois a doce, pois sei que muita gente por aqui aprecia doçuras.

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Rabanada vegana, salgada e doce

Gosto de usar uma baguete amanhecida aqui, pois a textura é ideal pra essa receita e as fatias, por serem pequenas, cozinham mais rápido e de maneira uniforme. Mas nada te impede de usar outro tipo de pão. Porém evite pão de forma, pois ele é mole demais e vai se desfazer quando mergulhado no líquido. Importante: a mistura de grão de bico deve descansar uma noite antes de ser utilizada, então essa não é uma receita que pode ser preparada de última hora.

Salgada

3 cs cheias de farinha de grão de bico

1/2 x de água

Baguete amanhecida, em rodelas não muito finas

Pimenta do reino e sal a gosto (melhor se for sal negro Kala Namak, que tem sabor de ovo)

Azeite pra fritar

Despeje um pouquinho da água sobre a farinha de grão de bico e misture vigorosamente pra dissolvê-la, amassando com as costas da colher as eventuais bolinhas de farinha que se formarem. Só então acrescente o resto da água e mexa bem. Deixe descansar coberto na geladeira ou em temperatura ambiente por uma noite.

No dia seguinte tempere com sal e pimenta do reino a gosto e mexa bem. Mergulhe as fatias de pão na mistura, uma de cada vez. Vá transferindo o pão coberto de líquido pra um prato grande e repita a operação até usar toda a mistura. Aqueça uma boa quantidade de azeite em uma frigideira grande e frite a rabanada, coberta e sem perturbá-la, até ficar bem dourada de um lado. Vire e deixe dourar do outro lado, dessa vez descoberta.

Sirva imediatamente, junto com uma salada, uma pasta, legumes refogados ou o que mais desejar. Eu sou humilde e degusto minha rabanada pura, com um café preto. Rende 2 porções comportadas.

Doce

3 cs cheias de farinha de grão de bico

1/2 x de leite vegetal sem açúcar (soja, amêndoa, coco…)

Baguete amanhecida, em rodelas não muito finas

1 cc de açúcar

1 cc de extrato de baunilha

1/2 cc de canela em pó

Óleo de coco ou azeite pra fritar

Despeje um pouquinho do leite sobre a farinha de grão de bico e misture vigorosamente pra dissolvê-la, amassando com as costas da colher as eventuais bolinhas de farinha que se formarem. Só então acrescente o resto do leite e mexa bem. Junte o açúcar, baunilha e canela e deixe descansar coberto na geladeira por uma noite.

Siga as instruções de preparo da rabanada salgada.

 A rabanada pura não é muito doce, então ela dever ser servida acompanhada de geleia, xarope de bordo ou agave e frutas frescas (morango, framboesas, mirtilos) ou caramelizadas (banana ou maçã fritas em um pouquinho de óleo de coco, até começarem a caramelizar, caem muito bem aqui). Um elemento cremoso e gelado, como o iogurte de coco (ou outro iogurte vegetal) transforma essa receita em algo inesquecível. Rende 2 porções comportadas.

Creme de quinoa e maçã

Por mais que eu adore minhas papas de aveia (e pelos comentários de vocês, não sou a única), faz tempo que venho procurando outros cereais pra transformar em café da manhã. Vi que algumas pessoas andam usando quinoa no lugar da aveia, mas minha tentativa de transformá-la em papa não foi satisfatória. Eu adoro o sabor e a textura desse cereal (que tecnicamente é uma semente, mas quem se importa?), porém ao aquecer quinoa cozida com um pouco de leite vegetal, o resultado foi… quinoa cozida com leite vegetal ao redor, não a papa cremosa que eu queria. Diferente da aveia, que se transforma em creme quando cozida, a quinoa continua do mesmo jeitinho. Como eu disse, eu adoro a textura da quinoa cozida, essas bolinhas que estouram na boca, e ela é muito bem vinda em saladas, sopas… Mas eu queira um café da manhã tão cremoso quanto as minhas adoradas papas de aveia. Tem algo na cremosidade de uma boa papa de aveia quentinha que me traz reconforto e aconchego, como se um cobertor invisível fosse colocado sobre os meus ombros e mãos invisíveis acariciassem os meus cabelos. Então deixei essa história de papa de quinoa pra lá e agarrei e beijei o pote de aveia, jurando-lhe fidelidade eterna.

E a solução estava ali mesmo. Demorou mais de um ano, mas acabei tendo a ideia de acrescentar um pouco de aveia em flocos finos e voilà! Eles cozinham em um piscar de olhos, envolvendo a quinoa em um creme aveludado.  Era tudo que eu queria: um café da manhã cremoso, mas com a textura original e todos os nutrientes da quinoa. E o sabor? Delicioso! A aveia casou perfeitamente com a quinoa e o resultado é interessante e delicado. Pra deixar tudo ainda melhor, gosto de juntar um pouquinho de óleo de coco extra virgem a esse creme. Além de aumentar a cremosidade e realçar o sabor (se você gostar de coco, claro), incluir uma fonte de gordura boa no seu café da manhã vai aumentar a sensação de saciedade e você não vai querer atacar o pacote de biscoitos no meio da manhã. Muitas pessoas me escreveram nos últimos tempos reclamando que desde que se tornaram vegetarianos/veganos sofrem de uma fome insaciável e pedindo dicas pra resolver o problema. Aumentar a quantidade de gordura (boa) das suas refeições é uma. (Se você está enfrentando esse problema, deixe um comentário aqui e se muita gente se manifestar escreverei um post sobre o assunto).

Uma palavrinha sobre o uso da quinoa nessa receita. Sei que esse ingrediente custa uma fortuna no Brasil, por isso sugiro que você o encare como um super-alimento que oferece muitos nutrientes, além de ser uma proteína completa, mas que está longe de ser indispensável pra sua saúde. Mas se você quiser quebrar o porquinho (o cofrinho, claro) e levar um pacote de quinoa pra casa, esse creme é uma maneira econômica de consumi-la. Faz sentido reservar os super-alimentos super caros (chia, farinha e óleo de coco…) às suas preparações matinais. Com expliquei aqui, essa é a refeição que mais precisa ser melhorada e como você não precisa de grandes quantidades desses ingredientes pra preparar o café da manhã, vale a pena investir em alimentos especiais pra começar o dia com uma oferta maior de nutrientes, sem pesar muito no bolso.

Além da mistura de cereais ser uma delícia, juntei maçã, passas e canela, três ingredientes que adoro juntos, e esse creme se transformou em uma das minha papas preferidas de todos os tempos. Nessas manhãs cinzentas e chuvosas de novembro, começar o dia com um pratinho de reconforto faz toda a diferença.

creme de quinoa e maçã3 Creme de quinoa e maçã

Na lista dos vegetais mais contaminados com agrotóxicos, maçãs estão lá no topo. Então mesmo se você não puder comprar todos os seus vegetais orgânicos, recomendo comprar sempre maçã orgânica. O óleo de coco extra virgem (não confundir com óleo de coco comum) deixa essa papa ainda mais cremosa e um um suave sabor de coco que adoro, além de aumentar a quantidade de nutrientes do seu café da manhã. Se você não tiver esse tipo de óleo em casa pode cozinhar a  maçã em um pouco de azeite (não precisa usar mais azeite na finalização da papa). Importante: use as sobras de quinoa do dia anterior, assim esse creme ficará pronto em poucos minutos. E se você gostou da ideia de utilizar cereais diferentes na sua papa, essa receita com amaranto e banana caramelizada de Márcia, do Compassionate Cuisine, vai te agradar.

1 maçã

4cs (bem cheias) de quinoa cozida e escorrida (na água, sal e nada mais)

2cs de aveia em flocos finos

3/4x de leite vegetal

1 ou 2 cs de passas (use a quantidade maior se quiser um resultado mais doce)

óleo de coco extra virgem

canela em pó a gosto

Corte a maçã em cubos pequenos (não precisa descascar). Em uma panela pequena, aqueça um pouco de óleo de coco extra virgem  (o equivalente a 1cc, se ele estiver líquido) e doure a maçã em fogo médio/baixo, mexendo de vez em quando. Cubra a panela e deixe cozinhar mais alguns minutos, mexendo mais algumas vezes e tomando o cuidado de não deixar queimar (diminua o fogo, se preciso). A maçã deve amolecer um pouco, mas não ao ponto de começar a se desintegrar (alguns minutos de cozimento são suficiente). Junte a quinoa cozida, a aveia, as passas e o leite vegetal. Cozinhe, mexendo sempre, durante mais 1 ou 2 minutos, ou até a mistura ficar cremosa e encorpada. Desligue o fogo e junte mais um pouquinho de óleo de coco extra virgem (o equivalente a 1cc, se ele estiver líquido) e canela a gosto. Misture bem e sirva quente. Rende 2 porções comportadas, ou 1 porção extra grande.

Tapioca três grãos

Como nunca pensei nisso antes? Comi tapioca durante 31 anos e nunca tinha me passado pela cabeça que poderia deixar esse alimento tão popular aqui no Nordeste mais gostoso e nutritivo. Adoro tapioca, mas convenhamos: esse prato à base de goma (amido ou fécula) de mandioca é um carboidrato simples e não tem quase nada de fibra, proteína ou minerais.

Um dia minha irmã mais velha contou que no abrigo de idosas onde ela trabalha a nutricionista pede pra colocar aveia em flocos na goma que será transformada em tapioca, justamente pra aumentar a quantidade de fibras da dieta das vovós. Achei a ideia brilhante! Uns dias depois minha cunhada serviu tapioca com gergelim e me perguntou o que achei. Disse que tinha achado a ideia brilhante! Em casa resolvi juntar as duas ideias brilhantes e, tomada pela vontade de transformar radicalmente minhas tapiocas, acrescentei também linhaça moída. Nasceram então essas tapiocas três grãos, triplamente brilhantes!

tapioca três grãos1cópia

Pra quem nunca fez tapioca em casa, aqui vão algumas explicações importantes. Deixe a goma fresca de molho na água fria por algumas horas ou de um dia pro outro. Basta despejar em um recipiente grande e acrescentar água suficiente pra passar alguns centímetros do nível da goma. Não se preocupe quando a goma se dissolver na água. Conforme as horas passam a goma vai pro fundo do recipiente e se separa da água. Esse processo vai hidratar a goma, evitando que as tapiocas fiquem duras e ressecadas. Quando quiser fazer as tapiocas descarte a água e use um pano de prato limpo pra secar a superfície da goma, que terá se aglutinado e formado um bloco firme. Coloque o pano sobre a goma e faça um pouco de pressão com a palma da mão durante alguns segundos. (Se não usar a goma toda de uma vez, cubra novamente com água).

Depois é só quebrar pedaços da goma com uma colher e peneirar, usando uma peneira de plástico não muito fina. Sua goma agora está pronta pra ser transformada em tapioca. Algumas pessoas gostam de peneirar a goma diretamente sobre a frigideira (no fogo), mas isso faz uma sujeira danada no fogão e gera desperdício, então não aconselho. E como nessa receita vamos acrescentar outros ingredientes à goma peneirada, você vai precisar peneirá-la em um recipiente antes de despejá-la na frigideira. Falando em frigideiras, as melhores pra fazer tapioca são as de ferro, do fundo grosso.

Como disse mais acima, além de ficarem mais nutritivas (mais fibra, mais proteína e até uma dose de cálcio- do gergelim- e de ômega 3- da linhaça) essas tapiocas são muito mais saborosas e interessantes. Agora que descobri que posso fazer tapiocas com três grãos, nunca mais farei de outro jeito.

 tapioca três grãos2cópia

Tapioca três grãos

Além dos três grãos sugeridos na receita, você também pode usar um pouco de coco ralado fresco no recheio. Fica ainda mais saboroso e nutritivo. Também gosto de rechear minhas tapiocas com patê de tofu (como esse aqui), mas hoje experimentei regá-las com um fio de azeite e adorei. Pra fazer uma versão sem glúten, ou pra variar os sabores, substitua a aveia por quinoa em flocos.

8cs de goma (de mandioca) peneirada (veja instruções de como preparar a goma acima)

1cs de gergelim

1cs de linhaça triturada

1cs de aveia em flocos finos

uma pitada generosa de sal

Misture todos os ingredientes. Se você já sabe fazer tapioca, faça como de costume. Se não souber preparar essa iguaria, aqui vão as instruções. Aqueça uma frigideira grande, de preferência de ferro, e quando estiver bem quente pegue punhadinhos da goma com a mão e polvilhe sobre a frigideira (seca), até cobrir totalmente o fundo. Eu gosto de tapioca fininha, então faço uma camada fina de goma. Se você preferir tapiocas grossas, faça uma camada mais espessa. Use as costas de um garfo pra espalhar delicadamente a goma e formar uma camada uniforme. Deixe cozinhar até as partículas de goma se unirem e a tapioca se formar. Teste sacudindo a frigideira: quando a tapioca se desprender do fundo está pronta pra ser virada. Deixe cozinhar mais uns instantes do outro lado, mas cuidado pra não deixar muito tempo no fogo, senão a tapioca vai ficar ressecada. Coloque a tapioca pronta dobrada ao meio sobre um pano de prato limpo (se gostar de tapioca sequinha) ou sobre um prato (se gostar que ela fique ligeiramente úmida). Passe um pano limpo e seco na frigideira pra se livrar de eventuais partículas de goma (isso evita que a próxima tapioca queime) e repita a operação com o resto da goma. Rende duas tapiocas grandes (usei uma frigideira de 21cm de diâmetro) ou quatro pequenas. Sirva com o recheio que preferir.

Quase iogurte vegano

Sinto que durante as semanas que virão meus posts continuarão curtos e menos frequentes. Como expliquei, deixarei Belém (Palestina) em breve e estou no meio do longo processo de mudança que envolve não somente empacotar e dar destinos aos nossos pertences, mas também terminar coisas que comecei tempos atrás (como a minha participação no projeto no campo de refugiados), preparar as próximas etapas e, o mais difícil, me despedir dos amigos e do lugar que foi meu lar durante os últimos cinco anos.

Então como tenho pouco tempo por aqui, irei direto ao ponto. De vez em quando sinto falta de iogurte. Os iogurtes de soja que provei no Brasil me deixaram extremamente decepcionada (doces demais, artificiais demais) e embora eu tenha provado alguns iogurtes veganos muito bons na Europa, ainda acho que a lista de ingredientes é longa demais pra entrar na minha cozinha regularmente. E como não tem iogurte vegano pra vender por aqui então sempre pensei em fazer o meu em casa. Percebi que sinto mais falta da textura cremosa do que do sabor, então fiquei muito feliz quando criei, acidentalmente, algo que consegue reproduzir a voluptuosidade dos iogurtes espessos que eu adorava.

Eu estava fazendo uma vitamina de banana e morango, a minha preferida, quando decidi aumentar a quantidade de fibra/proteína/gordura boa da receita juntando um pouco de abacate. O abacate deixou a mistura mais espessa e incrivelmente cremosa, sem alterar o sabor. Foi quando nasceu esse ‘quase iogurte’. Claro que o ‘quase’ significa que essa receita não é fermentada, a característica principal do iogurte (ainda estou tentando fermentar o meu leite de amêndoas pra fazer um iogurte de verdade um dia), mas a textura é exatamente o que eu estava procurando e lembra bastante aqueles ‘chambinhos’ que as crianças (e adultos) tanto gostam. O sabor (quando feito com leite de amêndoas) também parece com o danado do chambinho, mas faz tanto tempo que comi isso que não acho bom contarem com a minha memória gustativa aqui.

quase iogurte vegano 2

Quase iogurte de morango (vegano, sem glúten, sem açúcar)

A tâmara entra nessa receita pra aumentar a doçura, mas eu quase nunca uso. Você pode deixa-la de fora (principalmente se estiver planejando consumir esse iogurte com granola, que já é doce) ou substitui-la por 1cs de passas ou usar o adoçante natural que preferir.

1 banana congelada

1x de morangos picados (congelados ou frescos)

1/3x de abacate amassado

3/4x de leite vegetal  (uso meu leite de amêndoas)

1 tâmara (opcional)

1cs de chia (opcional)

Coloque a banana, o morango, o abacate, o leite vegetal e a tâmara, se estiver usando (não esqueça de retirar o caroço antes) no liquidificador e triture até ficar cremoso e homogêneo. Sirva polvilhado com as sementes de chia e deguste imediatamente. Rende uma porção grande (550ml).

Omelete vegano 2.0 e um sanduíche

sanduiche omelete veg

Eu fico feliz em saber que minha euforia contagiou muita gente e meu omelete vegano de grão de bico apareceu em muitas mesas. Ele continua fazendo muito sucesso aqui em casa e acabo de criar uma nova versão com linhaça no lugar da farinha de aveia. Eu queria que o omelete ficasse completamente sem glúten e a linhaça não só resolveu o problema como deixou a receita ainda mais nutritiva. Agora meu omelete é vegano, cheio de proteína e fibra, sem glúten e fonte de ômega 3!

E tem mais! Descobri que esse omelete fica uma maravilha como recheio de sanduíche. Como ele é um pouco seco, é importante passar uma pasta cremosa no pão ou incluir ingredientes suculentos, como o que fiz aqui. Mais um sanduíche vegano delicioso pra minha lista!

Omelete vegano de grão de bico (versão melhorada, sem glúten)

Faça tudo igual à receita original, mas substitua a farinha de aveia por 2 1/2cs de linhaça moída. Eu descobri dois truques simples pra impedir os omeletes de se quebrarem na hora de virar. Primeiro: coloque um pouco menos de massa, pra que o fundo da frigideira não fique totalmente coberto (deixe uma borda livre de aproximadamente 2cm ao redor do omelete). Assim você terá espaço pra inserir a espátula na hora de virar, sem machucar a parte exterior do omelete. Segundo: despeje a massa quando a frigideira estiver bem quente, espalhe e deixe cozinhar os primeiros 20-30 segundos em fogo alto (em seguida diminua o fogo). Fazendo isso o omelete vai criar imediatamente uma casquinha crocante, mais resistente, e se manterá intacto na hora de virar.

Sanduíche de omelete com pimentão assado e abacate (vegano)

Esse sanduíche é bom frio ou quente. Se quiser uma versão quente, não toste o pão antes de montar o sanduíche e coloque o sanduíche pronto em uma máquina de panini ou uma chapa quente por alguns instantes.

Omelete vegano de grão de bico (versão com aveia ou linhaça) Pra fazer o sanduíche da foto juntei também um pouquinho de tomate picado à massa do omelete. Outra dica: substitua a salsinha por coentro (fica melhor com abacate).

Pimentão assado (veja como assar pimentão nesse post), em tiras

Abacate, em fatias

Sal, pimenta do reino, suco de limão e azeite

Pão em fatias (usei um pão semi-integral com sementes)

Regue o abacate fatiado com bastante suco de limão, sal (seja generoso(a), pois abacate precisa de uma boa dose de sal pra brilhar) e pimenta do reino. Toste levemente o pão. Espalhe o abacate sobre uma fatia de pão, cubra com duas camadas de omelete (corte pedaços proporcionais ao tamanho do pão) e disponha tiras de pimentão assado por cima. Tempere com sal e pimenta do reino. Regue a segunda fatia de pão com azeite e feche o sanduíche (a parte com azeite deve ficar em contato com o recheio). Deguste imediatamente.

Começando hoje

salada de frutas cítricas

Vários projetos interessantes estão aparecendo no meu horizonte e 2013 vai ser um ano supimpa! O único ponto negativo é que está cada vez mais difícil achar o tempo necessário pra manter o ritmo aqui no Papacapim. Talvez vendo de fora tudo pareça muito simples, mas muitas horas são necessárias pra criar cada post (comprar os ingredientes, cozinhar, fotografar, selecionar as fotos, escrever a receita, escrever o texto que acompanha a receita e colocar tudo isso no blog). E os artigos? Preciso de horas de pesquisas (às vezes dias), mais muitas horas de escritura (alguns posts que apareceram aqui precisaram de 10, 12 horas de escritura antes de ser publicados).

Mas eu gostaria de continuar publicando três posts por semana, então tive uma ideia. Vou publicar dois posts durante a semana, no estilo do conteúdo que vem aparecendo aqui desde a criação do Papacapim, e um post curtinho no sábado, com uma receita simples, dica ou algo que eu achar interessante e que mereça ser compartilhado com vocês. Minha intenção com esses mini-posts é inspirar, informar e/ou convidar à reflexão. Assim continuo aparecendo com frequência por aqui e ao mesmo tempo posso iniciar outros projetos. O que vocês acham?

Inicio essa série de mini-posts (que, por causa da introdução acima, não ficou mini) com uma receita original, suculenta e ultra simples.

Embora a feira esteja cheia de legumes de inverno, como mostrei no último post, essa estação é a mais pobre em frutas. Como tento comer somente vegetais produzidos localmente e de estação, nessa época do ano tenho que me contentar com frutas cítricas, pois são as únicas que aparecem por aqui entre janeiro e fevereiro. Não vou reclamar, pois adoro frutas cítricas e acho que durante os escuros e frios meses de inverno, essa dose extra de vitamina C é muito bem vinda.

Geralmente me contento de comer mexericas na sobremesa, toranjas nas saladas (essa aqui, mas sem as tâmaras) e limão espremido, misturado com água, pela manhã (um dia falarei mais sobre os benefícios desse hábito simples). Mas vez ou outra, quando tem convidados em casa e eu quero servir algo doce depois do jantar, sem no entanto fazer uma sobremesa elaborada, eu preparo essa salada de frutas cítricas. Foi ela que servi depois do jantar de natal e é sempre muito agradável provar algo tão fresco depois de uma refeição pesada. Sem falar que ela é linda.

salada de frutas cítricas 2

Salada de frutas cítricas com tâmara e hortelã

Geralmente uso só toranjas e laranjas, mas tinha uma mexerica dando sopa nesse dia e a salada ficou ainda mais bonita com ela (embora tenha ficado doce demais pra mim). A tâmara equilibra o amargor da toranja e a hortelã deixa tudo ainda mais refrescante. Essa salada pode ser servida como sobremesa ou no café da manhã. Imagino que poderia ter batizado minha criação de ‘carpaccio de frutas cítricas’ se quisesse dar um ar mais chique ao prato.

1 toranja

2 laranjas

1 mexerica

1 tâmara, picadinha

2cs de hortelã picada

Descasque a toranja e as laranjas de acordo com as instruções no final desse post. Depois de remover a casca e a parte branca, corte as frutas em fatias finas (remova as sementes). Descasque a mexerica com as mãos e corte em fatias finas (não esquça de remover as sementes). Misture as fatias de frutas, mais o suco que estiver escorrido enquanto você as cortava, a tâmara e a hortelã picadas. Sirva imediatamente. Rende 4 porções.

A euforia do omelete vegano

omelete grão de bico

Faz tempo que não fico tão animada com uma receita. Na verdade estou eufórica! Esse omelete de grão de bico é mais que uma receita, é uma descoberta. Passei muitos, muitos meses tentando dominar a arte dos crepes de grão de bico, um prato tradicional em várias partes do mundo. No sul da França é chamado de ‘socca’, na Índia de ‘chilla’ ou ‘puda’ e a Itália tem uma versão cozida e depois frita chamada ‘panelle’. E, pasmem, todas essas receitas tradicionais são veganas. O conceito pode parecer estranho pra nós, mas eu confio nos italianos, indianos e franceses, então o negócio devia ser muito bom! Eu precisava embarcar no trem dos crepes de grão de bico urgentemente.

O problema é que todas essas receitas tradicionais usam o mesmo ingrediente: farinha de grão de bico. O grão de bico seco (cru) é triturado até atingir a textura de uma farinha fininha, mas esse produto, encontrado facilmente em mercearias indianas, não é vendido aqui. Nas receitas tradicionais que citei acima, a farinha de grão de bico é misturada com água e temperos, depois cozinhada na frigideira/forno ou frita. Comprei um quilo da farinha na França ano passado e embora tenha tido um relativo sucesso com ela, pra mim não faz sentido postar receitas que meus leitores não poderão fazer em casa. Então comecei a procurar alternativas que poderiam ser utilizadas por todos.

Meu primeiro impulso foi triturar grão de bico cru no liquidificador pra fazer a farinha em casa, mas fiquei com tanto medo de quebrar o meu amado liquidificador que nunca tentei. Eu tenho uma máquina ultra potente (um Vitamix) e talvez ele tivesse dado conta do recado, mas pra quem usa liquidificadores domésticos acho que isso não seria uma boa ideia. Um dia, olhando um vendedor de falafel fritar seus bolinhos, tive um momento ‘eureca!’. Falafel, um dos quitutes mais populares do Oriente Médio, também é feito com grão de bico (e também é vegano, HA!). Pra fazer essa delícia você coloca o grão de bico de molho uma noite, depois tritura no liquidificador até formar uma pasta, acrescenta vários temperos, algumas verduras e depois frita. Será que eu poderia usar a mesma técnica pra fazer meus crepes de grão de bico?

massa omelete

Testei minha ideia no dia seguinte e fico muito, muito feliz em dizer que deu certo. Se você triturar grão de bico demolhado por no mínimo 12 horas (coloco de molho à noite e só faço a receita no almoço do dia seguinte, deixando de molho por umas 15 horas) com um pouco de água, você obtém uma mistura parecida com a tradicional farinha+água. Os ingredientes são os mesmos, só a técnica varia. Depois é só temperar bem, pois grão de bico puro é sem graça, e deixar cozinhar até ficar dourado dos dois lados. Minhas tentativas com farinha de grão de bico+água nunca me deixaram totalmente satisfeita. Acabei mudando um pouco os ingredientes, aumentando o tempo de cozimento e, depois de muitos testes, achei enfim a receita perfeita.

Eu não sei o que o danado do grão de bico tem, mas não é que o sabor lembra vagamente (vagamente!) omeletes feitos com ovo? (Se você não gosta do sabor de ovos, nada tema: essa receita é neutra o suficiente pra não incomodar suas papilas.) Não os omeletes clássicos franceses, mas um outro tipo que fez parte da minha infância. Quando eu era pequena, minha irmã mais velha tinha uma receita que eu adorava (puristas do omelete, olhem pro lado). Ela separava as claras das gemas, misturava as gemas com cebola, pimentão, tomate, coentro e uns bocadinhos de fubá, batia as claras em neve e juntava ao resto dos ingredientes antes de fritar. Era um omelete ligeiramente esponjoso e meio seco, provavelmente culpa do fubá, mas eu achava aquilo uma delícia.

Essa minha receita lembra muito o omelete da minha infância, só que melhor (desculpa, Lila). Por isso decidi chama-la de ‘omelete vegano’ e não ‘crepe’ ou ‘panqueca’. E também porque, sendo à base de grão de bico, essa receita é rica em proteína (como os omeletes feitos com ovos) e conta como uma porção de leguminosas, enquanto crepes e panquecas são feitos de farinha de trigo e não passam de carboidratos. Eu prefiro não chamar minhas criações vegetais pelo mesmo nome de criações à base de produtos de origem animal, mas ao usar uma palavra conhecida por todos pra descrever essa receita, ela parece menos exótica e intimidante, além de indicar de qual categoria ela faz parte (proteína ou, como dizem lá na minha terra, “mistura”).

omelete grão de bico2

Nas últimas semanas me diverti muito com ela: recheei com ingredientes diferentes, fiz mini omeletes, que tostei no forno (depois de cozidos na frigideira) até ficar bem crocante (um ótimo substituto pras torradinhas que acompanham patês), fiz uma versão ‘mexida’ que usei como recheio de sanduíche, cortei omeletes cozidos e frios em tirinhas, misturei com arroz e verduras e fiz uma espécie de ‘arroz chinês’… As possibilidades são infinitas!

Como disse no início desse post, faz tempo que não fico tão animada com uma receita. Esse omelete usa ingredientes simples e baratos, é nutritivo, prático, muito, muito saboroso e ainda é extremamente versátil. Não que eu esteja procurando versões vegetais de todas as comidas de origem animal que fizerem parte da minha vida pre-veganismo, mas é sempre uma maravilha descobrir receitas coringas que podem se transformar em tantas outras coisas.

PS. Um omelete ou uma omelete? Depois do tagine, me deparo mais uma vez com um prato de gênero gramatical duvidoso. A palavra deriva do Francês (“omelette”) e nessa língua ela é feminina. Cresci ouvindo ‘o omelete’ e juro que não consigo mudar agora. Felizmente o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, diz que pode ser os dois. E como ele tem valor de lei, cada um escolhe o que preferir. Mas se quisermos manter o gênero gramatical de origem de todos os pratos franceses que entraram na nossa cozinha, deveríamos dizer “a fondue” e “a crepe” também.

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Omelete vegano de grão de bico

Com um mínimo de prática você fará esses omeletes com as mãos amarradas nas costas, mas talvez suas primeiras tentativas não fiquem perfeitas. É essencial usar uma frigideira boa, que não grude muito (as de ferro são as minhas preferidas), espalhar uma camada fina de azeite e usar uma espátula de metal pra virar os omeletes. Também é muito importante deixar o omelete cozinhar até ficar totalmente cozido no interior (prove um pedaço pra testar: grão de bico cru tem um sabor desagradável), pois se seu fogo estiver muito forte ele vai dourar por fora antes de cozinhar completamente. Essa receita rende 5 omeletes grandes, mas eu faço um ou dois por vez, guardo o resto da massa na geladeira por alguns dias e vou usando aos poucos. Assim posso preparar uma refeição rápida, nutritiva e saborosa em pouco tempo. Enquanto o omelete cozinha preparo uma salada crua e o almoço fica pronto em 15-20 minutos.

Update: Veja a versão atualizada dessa receita aqui.

1x de grão de bico cru (seco), de molho por 12 horas ou mais

4cs de aveia em flocos

3 dentes de alho

1/4cc de cúrcuma

Uma pitada de ervas finas desidratadas

1cc cheia de fermento

Sal e pimenta do reino a gosto

1 cebola, picadinha

Um punhado de salsinha, picada

Azeite

Recheio (opcional)

Espinafre refogado com alho e cebola, temperado com sal e pimenta do reino + tomates secos

Escorra o grão de bico demolhado e bata com 2x de água no liquidificador. Seja paciente e triture até ele se desfazer completamente. Esfregue um pouco da mistura entre os dedos pra conferir: ela deve ficar macia, sem pedacinhos inteiros. Junte a aveia, o alho, cúrcuma, ervas, fermento, sal (usei 1cc rasa) e pimenta do reino a gosto e bata novamente por alguns segundos.  Transfira a mistura pra um recipiente grande e junte a cebola e a salsinha. Misture bem, prove (grão de bico cru tem um sabor desagradável, então não se assuste), corrija o sal e reserve. Aqueça uma frigideira grande (escolha a que grudar menos na sua casa) e com tampa. Quando ela estiver bem quente, espalhe um pouco de azeite, formando um filme (não precisa exagerar). Despeje um pouco da mistura de grão de bico no centro da frigideira e use uma colher pra espalhar a massa, como se estivesse fazendo um crepe/panqueca. Minha frigideira é bem grande e uso uma concha e meia de massa pra cada omelete. Adapte a quantidade de massa ao tamanho da sua frigideira. O omelete deve ficar relativamente fino, porém mais espesso que uma panqueca. Tampe e deixe cozinhar em fogo médio-baixo por 8-10 minutos (o tempo de cozimento vai depender do tamanho da sua frigideira e, consequentemente, do seu omelete). Quando a superfície estiver seca, o omelete parecer firme e as bordas ligeiramente douradas, está na hora de virar (cuidado: se você tentar virar cedo demais ele vai se partir).

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Espalhe um fio de azeite sobre o omelete e use uma espátula de metal fina pra virar (talvez você precise fazer movimentos curtos de vai-e-vem pra descolar). Deixe cozinhar do outro lado (ainda em fogo médio-baixo), descoberto, por mais 5-6 minutos. Seu omelete deve ficar bem dourado dos dois lados, mas não crocante, então fique de olho: se ele parecer muito pálido, aumente o fogo, se estiver queimando, diminua.

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Com um pouco de prática você saberá exatamente qual temperatura e tempo de cozimento funcionam pra você e sua frigideira. Coloque agora o recheio pronto em uma das metades e dobre o omelete, como mostram as fotos. Sirva imediatamente. Se estiver fazendo mais de um, mantenha os omeletes prontos (recheados ou não) no forno baixíssimo, coberto (com papel alumínio ou, como faço aqui em casa, entre duas travessas) pra não ressecar. Essa receita rende 5 omeletes grandes. Se não quiser fazer todos os omeletes de uma vez, guarde o resto da massa em um recipiente fechado na geladeira por até 3 dias.

*Pra complementar a refeição: esse omelete, por ser à base de grão de bico, conta como uma porção de leguminosas (proteína). Acompanhe de uma salada crua e/ou legumes salteados e, se a fome for grande, inclua uma porção de cereais (arroz integral, por exemplo). No dia da foto servi com brócolis refogado, purê de batata e cenoura e uma salada crua (que não apareceu na foto).