Posts de categoria: Condimentos, molhos e temperos

Viagens são sempre um desafio pra quem quer se alimentar bem, ainda mais se você for vegano(a). Tento comer frutas e vegetais frescos durante minhas viagens, mas nem sempre é possível e muitas vezes passo dias e dias comendo pão com hummus, porque são as únicas opções vegetais disponíveis. Apesar de ter degustado alguns pratos deliciosos durante minha última viagem pra Paris, quando voltei pra casa só conseguia pensar em sopa. Muita, muita sopa. Então fiz um sopão com os vegetais que consegui encontrar naquele dia, mais lentilhas verdes, e criei exatamente o tipo de prato que o meu corpo pede pra voltar a se sentir bem. Mas, como a foto acima indica, esse posto não é sobre sopa.

Enquanto eu me deliciava com a minha sopinha, a outra moradora dessa casa deixou escapar um ligeiro suspiro. Sopa não é a praia dela. Então no dia seguinte eu decidi compensar o desapontamento causado pela sopa (injustiça total com a coitada da sopa, que realmente estava ótima) fazendo sanduíches de salsicha (vegana). Eu não gosto, ela adora e isso se chama democracia gastronômica. E embora eu não simpatize nem um pouco com comida industrializada, vegana ou não, aceito feliz essas escapulidas ocasionais porque sei que estou fazendo uma pessoa feliz (felizmente as salsichas em questão até que não eram tão malvadas assim, feitas só com tofu, glúten e especiarias). E não vou mentir: achei meus sanduíches deliciosos.

hot dogs2

Voltei de Paris com a mala cheia de guloseimas, vindas da primeira mercearia totalmente vegana da cidade. E além das salsichas defumadas também trouxe alguns pacotes do queijo vegano da marca suíça ‘Vegusto’ (antes que me perguntem, o queijo é bom, mas prefiro o meu). Então fiz o sanduíche que eu gostaria de encontrar nos cardápios das sanduicherias mundo afora. Infelizmente não posso oferecer meus sanduíches pra todos os veganos que leem esse blog, mas posso deixar aqui a receita do molho que faz toda a diferença.

A combinação de ingredientes pode parecer estranha, mas pode confiar. A ameixa seca está ali pra trazer uma nota doce e deixar o sabor mais complexo. Quem diria que ameixa e tomate se dariam tão bem juntos? Além de incrementar o seu sanduíche, independente do recheio, ele fica sublime com qualquer coisa grelhada A(salsichas, tofu, vegetais) e vai fazer você ser a pessoa mais popular do churrasco.

 molho tomate ameixa

Molho tomate-ameixa pra arrasar no churrasco vegano

Como ainda não tem tomate fresco por aqui fiz esse molho usando tomates orgânicos enlatados (100% tomate, sem conservantes, temperos nem sal). Como tomates em lata são cozidos, eles são mais concentrados do que tomates frescos, por isso você vai precisar de uma quantidade maior de tomates fresco pra fazer essa receita, além de ter que deixar o molho cozinhar por mais tempo. Use ameixas secas naturais (100% ameixa, sem açúcar), não aquelas em latas que nadam em uma calda doce. Se não encontrar ameixas secas, você pode usar damascos secos (na mesma quantidade) ou passas (cerca de 2cs). Mas saiba que o sabor não será o mesmo. Eu já fiz esse molho com passas e fica bem docinho, muito parecido com um ketchup (só que muito melhor). Também misturei esse molho com feijão marrom cozido (sem caldo) e ficou uma delícia. Quem gosta dos ‘baked beans’ ingleses vai gostar da mistura.

1 cebola, picada

4 dentes de alho, picados

600g de tomates bem maduros (ou 1 lata de tomates)

10 ameixas secas (in natura, NÃO em calda)

2cs (cheias) de tomates secos picados

2cs de vinagre de maçã

2cs de azeite

Sal e pimenta do reino a gosto

Opcional

1/2cc de fumaça líquida (pra fazer uma versão defumada)

ou

Uma pitada generosa de orégano (versão pizza)

ou

Uma pitada generosa de pimenta calabresa (versão picante)

Aqueça 1cs de azeite e doure a cebola. Junte o alho e deixe cozinhar mais 30 segundos. Junte os tomates picados, os tomates secos, as ameixas secas (retire os caroços antes) e uma pitada generosa de sal. Deixe cozinhar coberto, em fogo baixo, até os tomates começarem a se desfazer e o molho ficar espesso. Transfira tudo pro liquidificador, junte o vinagre de maçã, o resto do azeite e uma pitada de pimenta do reino (e um dos ingredientes opcionais, se estiver usando). Triture até obter um molho cremoso e homogêneo. Prove e corrija o tempero (mais sal, mais vinagre, mas pimenta…), se for necessário. Sirva em temperatura ambiente. Rende aproximadamente 2 1/2 xícaras. Se conserva alguns dias na geladeira.

Por alguma razão misteriosa (eu culpo as forças ocultas), até algumas semanas atrás eu nunca tinha feito pesto de verdade. Adoro meu molho de majericão com amêndoas, que já apareceu aqui no blog acompanhando meus nhoques, mas ele não é pesto. Um dia li um longo artigo sobre a arte de fazer pesto, picando tudo com uma faca grande (ou, melhor ainda, com uma mezzaluna) e pensei “Sou tão feliz com meus pesto cremoso falsificado, então por que me dar todo esse trabalho?”. Até que durante as férias na França uma vontade aguda de pesto me invadiu e como não tinha nenhum liquidificador por perto fui forçada a usar o método tradicional manual. Ô dia feliz!

manjericãopesto vegano2

Pensei que fosse exagero  essa história de que pesto feito manualmente é infinitamente melhor, mas como eu estava errada! Por alguma outra razão misteriosa os micro pedacinhos de manjericão oferecem um sabor superior, muito mais vivo e intenso, do que a pasta que eu obtenho quando trituro tudo no liquidificador.

Claro que a minha versão foi ligeiramente adaptada. Deixei o queijo de fora e usei castanhas do Pará no lugar dos caríssimos ‘pignoli’. No sul da França tem um molho gêmeo do pesto, chamado de ‘pistou’, que não leva queijo, sendo naturalmente vegano. Então pensei que se os franceses, os maiores adoradores de queijo do planeta, preferem deixá-lo de fora, deve haver um motivo. Acho que descobri: o queijo parmesão, com seu sabor intenso, acaba abafando o sabor de manjericão e, honestamente, com tanto azeite e oleaginosas (sejam elas pignoli, castanhas do Pará ou nozes), quem precisa de mais gordura no seu molho? Resultado: pesto sem queijo é mais vibrante, menos enjoativo e mais leve. Notem que eu não disse ‘light’, pois continua sendo bem calórico. A boa notícia é que essa versão é uma bomba de sabor e você só vai precisar de um pouquinho pra deixar sua comida deliciosa.

 batata nova

batata nova assada

As maneiras de degustar esse pesto são inúmeras. Você pode espalhar um pouco em uma fatia de pão tostado, usar como molho pra macarrão, servir sobre saladas de tomate, bruschetas, pizzas, na sopa… Mas acho esse molho particularmente espetacular com batatas assadas. Como está na época das batatinhas novas (pequeninas e deliciosas, com um leve sabor de avelãs, que a gente come com casca e tudo), servi os dois juntos várias vezes enquanto estive na França. Mas mesmo se suas batatas foram comuns, não deixe de experimentar essa mistura.

Meu pesto (vegano, sem glúten)

1 buquê de manjericão (aproximadamente 4cs depois de picado)

4-6 castanhas do Pará

1/2 dente de alho pequeno

5cs de azeite extra virgem

um pouco de suco de limão

sal e pimenta do reino

Usando uma faca grande e afiada, ou uma mezzaluna, pique finamente as folhas de manjericão. Elas devem ficar bem picadinhas (veja foto acima), então seja paciente. Rale as castanhas do Pará (tenho um super ralo microplane que as deixa com a textura de parmesão ralado, como vocês podem ver na foto acima) e pique (ou rale) o alho. Misture o manjericão picado, as castanhas raladas,o  alho picado (ou ralado), o azeite e um pouco de suco de limão (aproximadamente 1cc). Tempere com sal e pimenta do reino a gosto e misture bem. Prove e corrija o tempero, se necessário. Pode ser conservado na geladeira por alguns dias. É normal o azeite se separar um pouco do majericão. Pra resolver esse problema basta misturar tudo com uma colher antes de servir. Sirva com batatas assadas, macarrão, saladas…

geleia morango chia

Esse mês pretendo tratar da questão do açúcar na alimentação, mas antes de dividir com vocês todas as informações que juntei nos últimos anos (preparem-se que o negócio é pesado), achei que seria interessante publicar uma ou outra receita doce sem açúcar por aqui.

Faz tempo que o açúcar não faz mais parte da minha alimentação, mas mesmo depois de ter parado de consumi-lo, criei algumas sobremesas com açúcar pra agradar amigos e familiares. E, claro, pra agradar vocês, queridos leitores. Durante muito tempo fiquei com medo de banir de vez o açúcar aqui do blog e provocar reações negativas entre vocês. Já fui chamada de ‘radical’, ‘extremista’ e até ‘xiita’ por causa dos meus hábitos alimentares, que alguns consideram inutilmente excessivos. Mas quando publiquei algumas receitas sem açúcar a reação de vocês foi exatamente o oposto e muita gente me escreveu agradecendo. Descobri que alguns dos meus leitores também cortaram, ou estão tentando cortar, o açúcar do seu dia-a-dia, então hoje me sinto à vontade pra fazer esse anúncio: de agora em diante o açúcar virou persona non grata (eu deveria dizer ‘ingrediente non grato’?) nesse blog e não aparecerá mais no Papacapim (tirando, talvez, alguma rara exceção).

O que nos leva à receita de hoje. Eu gostaria de dizer que a ideia de fazer geleia de frutas crua com chia saiu da minha cabeça, mas a verdade é que vi algo parecido em um blog canadense e imediatamente dei aquele tapão na testa que significa ‘por que não pensei nisso antes?’. Que ideia de gênio! Mas eu queria ver se deixava a receita ainda mais nutritiva e comecei a fazer modificações. Amigo(a)s, consegui transformar uma das coisas menos saudáveis que existe (geleia é praticamente só açúcar!) em algo rico em fibras (morango+passas+chia), sem um grama de açúcar (só o açúcar natural da fruta está presente aqui), rico em ferro (das passas) e em ômega 3 (da chia)! Se vocês estivessem aqui quando coloquei a primeira colherada de geleia na boca teriam me visto pinotando na cozinha…

geleia morango e chia3

Embora eu esteja eufórica (como quando criei os famosos omeletes veganos), preciso avisar que essa geleia não é exatamente como as geleias tradicionais. Embora eu tenha incluído uma foto da minha geleia espalhada em um pedaço de pão nesse post, era só pra mostrar a textura, pois acho que ela não é doce o suficiente pra ser comida assim. Mas as possibilidades são inúmeras. Desde que fiz essa receita degustei minha geleia em uma vitamina de banana (misturei uma banana, leite de amêndoa e uma colher de sopa de geleia de morango e além da vitamina ter ficado deliciosa, a cor ficou linda), misturada na minha papa de aveia matinal (acrescentei uma colher de sopa por porção à papa pronta) e pura, quando bate aquela vontade de comer algo doce depois das refeições. Mas imagino que ela ficaria perfeita como recheio de bolos e tortas, ou misturada à sobremesas com chocolate. Na próxima vez que fizer esse pavê trufado de chocolate usarei essa geleia substituindo os morangos macerados com açúcar. ‘Deliciosa’, ‘nutritiva’ e ‘versátil’ são os adjetivos que mais valorizo quando se trata de receitas e essa geleia reúne os três.

Vou aproveitar que a feira está inundada de morangos (a primavera sempre chega mais cedo por aqui) e durantes as próximas semanas não vai faltar geleia na minha geladeira!

(Se você estiver procurando uma geleia mais tradicional, mas igualmente sem açúcar, veja minha receita de geleia natural de ameixa.)

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Geleia natural de morango e chia (sem açúcar, crua)

Essa receita é adoçada com passas então a quantidade utilizada vai depender da doçura dos seus morangos e da sua afinidade com doce. Meus morangos estavam bem doces e só precisei de 1/2x de passas, mas se os seus estiverem azedos (ou se você preferir uma geleia mais doce) você vai precisar de uma quantidade maior. Eu gosto de combinar morango com raspas de limão, pois acho que uma pontinha de acidez realça o sabor, mas baunilha fica ainda melhor com essa frutinha.

400g de morangos maduros

Entre 1/2x e 1x de passas

1cc de suco de limão

2cs de sementes de chia

1cc de extrato natural de baunilha (ou as sementes de 1 favo de baunilha) OU 1/3cc de raspas de limão (opcional)

Lave os morangos, retire os cabinhos e corte em pedaços miúdos. Coloque metade dos morangos picados no liquidificador junto com as passas (a quantidade vai depender da doçura dos seus morangos) e triture até virar um purê. Desligue o motor algumas vezes e mexa com uma colher pra facilitar o processo, mas não acrescente água. Prove e se achar que não está doce o suficiente junte mais um pouco de passas e volte a triturar. Despeje o purê de morango e passas sobre o resto dos morangos picados, junte o suco de limão, as raspas de limão ou a baunilha, se estiver usando, e a chia. Misture bem. Deixe a chia hidratar 15 minutos (mexa a cada 5 minutos) antes de degustar. Se conserva na geladeira por alguns dias (a geleia vai ficar mais espessa depois de descansar umas horas na geladeira). Rende aproximadamente 2x.