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Quando me mudei pra Londres, em Março, trabalhei por alguns meses em um café vegano/vegetariano. Nada indicava a ausência de carne no nome do café (Moveable Feast) e apesar de ter uma plaquinha do lado da entrada dizendo que aquele era um café vegetariano, quase ninguém se dava o trabalho de ler. Então apesar de boa parte dos clientes ser veg, muitos onívoros iam parar ali desavisados. Todo os dias aparecia gente pedindo um burrito de frango (eu cozinhava a parte de inspiração mexicana -e totalmente vegana- do menu), ou perguntando que tipo de carne nós servíamos.

Gente do céu, a reação de algumas pessoas quando eu dizia que não tinha carne nenhuma no cardápio era coisa de cinema! Tinha gente que saía correndo a toda velocidade, como se eu tivesse uma doença contagiosa. Tinha gente que caía na gargalhada, enquanto eu repetia, muito séria, que estava falando a verdade. Teve um cliente que riu tanto, enquanto repetia “Não tem carne! HAHAHAHAHAHA! Essa foi a melhor do dia!” que tenho certeza que ele pensava que tinha uma câmera escondida atrás do balcão. Tinha gente que se ofendia profundamente e eu podia ler nos olhos deles algo como: “Como vocês tiveram a AUDÁCIA de abrir um restaurante sem carne? Que despautério! Que absurdo!”

O que achei mais interessante nisso tudo é que as reações mais negativas vinham quase sempre de homens. Eles eram os mais ofendidos, os mais indignados e os que sentiam a absoluta necessidade de me dizer: “Eu PRECISO de carne”. Depois de alguns meses trabalhando no café percebi como os homens são muito mais resistentes à ideia de comer comida vegetariana/vegana do que mulheres, mesmo que seja somente uma única refeição. Trabalhar no café foi uma verdadeira experiência antropológica.

Justiça seja feita, vários homens que chegaram pedindo carne reagiram de maneira extremamente positiva ao saber que o café era vegetariano (“A comida é vegetariana? Por que não?” ou “Vou experimentar! Assim como algo diferente.”). Depois de ver tanto homem reagir de maneira negativa, confesso que eu ficava com vontade de abraçar os moços de mente aberta. E também aconteceu de algumas mulheres reagirem de maneira menos educada, exibindo um dos comportamentos citados acima. Mas a maioria das mulheres tinha uma atitude aberta e quando eu explicava que eu só cozinhava comida vegetal elas abriam um sorriso e diziam: “Nossa! Que bacana!” Elas geralmente se empolgavam com a ideia de comer algo diferente. E mesmo quando não se interessavam pela comida por ser vegetariana, elas se contentavam em dizer um: “Não, obrigada” e iam embora na maior tranquilidade.

Conclusão do meu estudo antropológico no café: mulher, mesmo onívora, é mais aberta à ideia de comer algo vegano e até se empolga com a novidade. Já 7,5 em cada 10 homens onívoros que entraram nesse café, de acordo com o meu cálculo nada científico, acham a ideia de fazer uma única refeição sem carne tão absurda (ou perigosa) quanto defender um pênalti sem proteger o entreperna com as mãos.

Apesar de ter conseguido manter a compostura sempre, de tanto ver as mesmas reações se repetirem eu acabei elaborando algumas respostas que me faziam rir muito sozinha.

Pros que escutavam a palavra “vegetariano” e saíam correndo desembestados, como se veganismo fosse uma doença contagiosa, eu queria dizer: “Você pode tentar fugir o quanto quiser, mas nós sabemos onde você mora! Nós sabemos onde você trabalha! Nós temos o endereço da sua mãe! Mais cedo ou mais tarde o veganismo vai te pegar!”

Pras pessoas que caíam na gargalhada (cínica), como se um restaurante ser vegetariano fosse a maior piada do universo, eu queria dizer: “HAAAAAAA! Pegadinha do Malandro! Você caiu direitinho, hein? HAHAHAHAHA! Claro que nós temos carne……..(incorporando Vandinha Adams) humana.”

 Pro pessoal que só ia embora depois de me explicar: “Eu PRECISO de carne! PRECISO do meu bife!”, eu gostaria de dizer: “Perdoe a ignorância, eu confundi você com um humano. Claro que você faz parte de uma outra espécie, aquela que quando faz uma única refeição sem carne se desintegra instantaneamente.”

Continuo fazendo comida mexicana vegana pra mesma (micro) empresa,  mas saímos do café e atualmente preparamos nossos burritos, tacos e afins em festivais de comida. Nesses locais todas as outras barracas, sem excessão, vendem carne. Muita, muita carne. De vários animais diferentes. Mesmo assim algumas pessoas se revoltam quando descobrem que nossos burritos são veganos, algumas até fazendo sugestões do tipo: “Vocês deviam oferecer mais variedade, fazer metade dos pratos vegetarianos e metade com carne.” Que absolutamente todas as outras barracas oferecem carne não parece nunca ser suficiente.

 A reação mais absurda que presenciei aconteceu duas semanas atrás. Um homem chegou perguntando que tipo de carne eu cozinhava. Depois de ter explicar longamente que a comida era toda vegana, mas que era tudo preparado com muito amor e sabor e que talvez ele fosse gostar de provar algo diferente, ele acabou pedindo um burrito. Mas quando o recebeu declarou: “Eu vou comer, mas vou fingir que um porco foi abatido.”

Na hora suspirei e pensei: “Irmão, procure ajuda que isso é doença.” Mas depois de matutar com calma sobre o ocorrido fiquei foi com pena do camarada. Que triste ver a que ponto uma pessoa pode se sentir desconfortável com a ideia de se fazer uma só refeição sem causar sofrimento e morte de animais. Tão desconfortável que ele precisou fazer essa piada de mau gosto pra provocar os veganos ali presentes (já pensou como ia ficar a reputação dele se um migucho carnívoro o visse atracado com um burrito vegano???).

Pra esse pessoal que gosta de provocar e ridicularizar veganos (insegurança, tadinhos, eu sei…), eu tenho vontade de dizer: “Você tá se achando super engraçado porque tirou sarro dos veganos, né? Amigo, piadas como essa eu como com farinha! Já escutei tantas que a única coisa que você provoca em mim é pena. Onívoro fazendo piada de mau gosto com vegano é tão sem originalidade que ficou demodê. “

Felizmente na maior parte do tempo vivi momentos lindos no meu trabalho aqui, mas isso é assunto pra outro post.

 Agora passemos à minha obsessão do momento. Acreditem, quando não estou ocupando o meu tempo bolando respostas imaginárias como as que descrevi acima, estou na cozinha fazendo omelete de grão de bico. Eu já publiquei uma receita de omelete de grão de bico (na verdade duas) usando o grão cru, demolhado, aqui no blog. Mas também mencionei que era possível fazer omelete usando a farinha de grão de bico. Desde então recebi vários pedidos pra publicar a receita usando a farinha.

 Antes eu preferia a receita com grão de bico demolhado, mas desde que me mudei pra Londres a receita com farinha é a única que uso, então acabei aperfeiçoando a técnica até conseguir os resultados que eu procurava. E hoje eu gosto mais da receita usando a farinha!

Quatro coisas são essenciais. 1- A mistura deve ficar bem líquida. Percebi que se ela for espessa o omelete fica denso e pesado, mais parecido com uma panqueca. 2- Usar bastante azeite/óleo na hora de cozinhar o omelete e 3-não fazer omeletes nem muito grandes nem muito espessos. O óleo é essencial pra atingir a textura desejada (crocante por fora e ligeiramente cremoso por dentro). Aprendi a dica 1 e 2 na última vez que estive na Itália. 3- O omelete deve ser pequeno pra você conseguir virá-lo sem que ele se quebre e fininho pra que ele cozinhe de maneira uniforme. 4- O controle do fogo é uma das chaves do sucesso da receita. O omelete deve cozinhar por vários minutos e se o fogo tiver muito alto ele vai queimar antes de ficar cozido. Se estiver muito baixo ele vai ressecar e demorar demais pra ficar pronto.

Claro que meu omelete ficou com um sabor ainda melhor quando comecei a usar sal preto do Himalaia, aquele que tem cheiro e sabor idênticos ao ovo. Mas embora esse ingrediente seja mágico, ele não é indispensável e seu omelete ficará delicioso sem.

Na França é comum fazer omelete com cogumelos e eu sentia saudades desse prato. Não mais! Na primeira vez que usei cogumelos fiquei com medo de não dar certo (e se o omelete se quebrasse na hora de virar? E se os cogumelos, que já estavam cozidos, queimassem?), mas fiz exatamente como faria se estivesse cozinhando com ovos e o resultado foi PERFEITO.

Termino esse post com uma dica. Vegana(o)s lendo esse texto, se vocês também não aguentam mais escutar piada sem graça dos onívoros, sugiro o seguinte: respondam com uma dança interpretativa (os passinhos ficam a critério da imaginação de cada um).

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Omelete de grão de bico com cogumelos (vegano, sem glúten)

Essa receita faz um omelete e foi desenvolvida pra ser usada em uma frigideira de 22cm de diâmetro. Esse tamanho faz com que o omelete fique na espessura ideal. Claro que você pode fazer o omelete sem os cogumelos ou usando as ervas que preferir. A massa tem que descansar uma noite antes de ir pra frigideira, então essa receita deve ser começada na véspera.

4 cs de farinha de grão de bico (usei uma colher medidora, rasa, pra ficar bem preciso)

150ml de água

2 cogumelos marrons frescos cortados em fatias (ou os cogumelos frescos que você preferir – um punhado depois de picados)

Duas pitadas de tomilho (seco ou fresco)

Pimenta do reino e sal a gosto (de preferência sal preto do Himalaia, que tem aroma e sabor de ovo)

Azeite

-Dissolva a farinha em um pouquinho de água até ficar cremoso e sem grumos. Acrescente o resto da água, cubra e deixe descansar na geladeira durante uma noite (12 horas).

-Na manhã seguinte aqueça, em fogo médio, uma frigideira pequena (idealmente com 22cm de diâmetro, medidos no fundo, não nas bordas) com 2cs de azeite. Refogue os cogumelos até eles amolecerem e dourarem um pouco.

-Enquanto isso tempere a mistura de grão de bico com sal e pimenta do reino a gosto, mais o tomilho. Jogue mais 2cs de azeite sobre os cogumelos refogados e despeje a mistura de grão de bico devagar, em um movimento circular do centro em direção às bordas. Imediatamente aumente o fogo e fique do lado do fogão. Espere 10 segundos e reduza o fogo pra médio. Esses 10 segundos iniciais são importantes pra criar uma crosta crocante e facilitar na hora de virar o omelete. Cozinhe em fogo médio-baixo até a parte de cima adquirir um aspecto de cozida. Use uma espátula de metal fina (essencial!!!) pra dar uma olhada na parte inferior do omelete e ter certeza que não está queimando (nesse casa baixe o fogo). Vire o omelete e deixe cozinhar até ficar bem dourado do outro lado. Às vezes aumento o fogo novamente durante os últimos segundos pra acelerar o processo e deixar o outra lado crocante, mas sempre ficando do lado pra não correr o risco de queimar. Na minha cozinha esse omelete leva, ao todo, uns 10-15 minutos pra ficar pronto. Com o tempo você vai adquirir prática e esse processo vai parecer bem menos complicado e intimidante.

-Sirva imediatamente. Rende uma porção.

 Algumas observações:

-A receita fica ainda melhor com uma cebolinha verde em rodelas finas (coloque na frigideira junto com os cogumelos, depois que eles estiverem cozidos, e refogue por alguns segundos antes de despejar a massa).

-Eu sei, 4cs de azeite pra uma porção pode parecer muito, mas lembre que grão de bico não tem praticamente gordura nenhuma, então fica tudo tranquilo.

-Eu triplico a receita e guardo a mistura farinha de grão de bico + água na geladeira pra quando bater a vontade inesperada de omelete vegano (no meu caso, duas vezes por dia). A mistura se conserva muito bem durante vários dias e deixa tudo muito mais prático e rápido.

Tive mais uma dessas semanas intensas, com emoções fortes, maratonas no trabalho e inúmeras coisas acontecendo ao mesmo tempo. Vi documentários extremamente interessantes sobre o controle dos EUA na América do Sul (vou colocar os links aqui porque acho que todos deveriam ver: “A revolução não será televisionada” e “The war on democracy“), me emocionei com o discurso de coming out de Ellen Page, quase tenho um infarto quando vi que Bolsonaro podia ser o novo presidente da Comissão dos Direitos Humanos, passei três dias cozinhando pra algum monge tibetano famoso (que eu não conhecia) e seus discípulos (30!), fiz uma oficina de culinária pra um grupo de dez pessoas e meia (uma das alunas tinha 3 anos) que terminou à meia noite, preparei dezenas de refeições no meu trabalho de ‘chef a domicílio’, almocei com um amigo português que acha o meu dialeto hilário (a recíproca é verdadeira:) …

Então ontem, quando pude enfim parar de correr de um lado pro outro, fiz uma das coisas que mais gosto de fazer quando tenho tempo livre e que estou sozinha em casa: vi TED talks durante horas, até a tela do computador começar a dançar na frente dos meus olhos cansados (suspeito que preciso de óculos).

Mas ontem também fiz um prato que criei recentemente e que conquistou meu coração. Ele é rústico, saboroso, simples de preparar, nutritivo e reconforta. Adoro alho-poró e só não tem mais receitas com esse legume aqui no blog (até agora só postei essa torta salgada) porque lá na Palestina era quase impossível encontrá-lo. Felizmente aqui na Bélgica esse é um dos vegetais mais populares e estou aproveitando pra aumentar o meu repertório de receitas com ele.

 Agora vou esquentar o resto do ensopado de ontem (fica ainda melhor no dia seguinte) e assistir a mais uns TED talks antes que outra uma semana de correria comece.

*Aviso nada importante: agora vocês podem ver o que acontece por essas bandas quando não estou postando receitas. Seguindo a sugestão de uma leitora, criei uma conta no Instagram.

Ensopado de alho-poró, tomate e feijão branco

Como é inverno aqui na Europa, eu uso tomates orgânicos em lata (100% tomates, sem temperos nem conservantes), mas se você tiver acesso à tomates frescos, melhor ainda. Nessa receita gosto de usar esse sal com salsão, mas você também pode usar sal comum e juntar umas folhinhas de salsão fresco, ou só sal, se salsão não for a sua praia.

2 alhos-porós grandes

2-4 dentes de alho, picados

1 1/2x de feijão branco cozido (na água com sal e algumas folhas de louro)

5 tomates maduros, picados

3cs de azeite

1/3cc de tomilho seco

Sal com salsão (ou sal comum) e pimenta do reino à gosto

Alho poró gosta de esconder areia entre as camadas, então é importante limpa-lo bem antes de cortar. Faça isso da seguinte maneira: corte a parte folhosa, deixando somente a parte branca e onde o verde é mais claro. Em seguida corte o alho poró no sentido do comprimento, mas sem separar a raíz (formando um V). Lave o alho poró embaixo da torneira, afastando as camadas com os dedos pra se livrar de toda a areia que possa se esconder entre elas. Em seguida esprema com as mãos pra retirar o excesso de água, corte a base (a raíz), separando as duas metades do V e corte o alho poró em fatias finas (que terão o formato de meia lua). Você também pode partir o alho poró ao meio até a raíz e lavar separando as camadas, mas é mais fácil picar o legume quando as camadas ainda estão juntinhas.

Em uma frigideira grande e funda (ou uma panela média) aqueça 1cs de azeite e doure o alho. Fique de olho, pois alho queima fácil. Assim que começar a dourar junte o alho-poró picado. Refogue durante alguns segundos, tempere com sal (com salsão ou comum), cubra e deixe cozinhar em fogo baixíssimo (sem acrescentar água!) até o legume começar a se desfazer. Você vai precisar mexer algumas vezes, pois quando a água do legume evaporar ele vai começar a grudar no fundo da panela. Quando o alho-poró estiver se desintegrando (acredite, ele é uma delícia assim) e tiver ganhado uma corzinha, junte os tomates picados, o feijão branco cozido, o tomilho seco e mais uma pitada de sal. Cubra mais uma vez e deixe cozinhar, em fogo baixo, até os tomates se transformarem em molho. Tempere com pimenta do reino, prove e corrija o sal, se necessário. Desligue o fogo e regue com o resto do azeite. Sirva com arroz ou outro cereal. Rende 2 porções.