Sobre inspiração

Na palestra sobre veganismo que fiz em Recife me perguntaram de onde vinha minha inspiração pra criar receitas. Foi difícil responder essa pergunta, pois quando a gente vive mergulhada no processo de criação (e, acreditem, eu penso em comida na cama e até sonho com receitas enquanto durmo), parece que as ideias brotam por todos os lados. De onde vem a inspiração? Às vezes de um artigo sobre um determinado ingrediente que li em alguma revista, às vezes do menu de um restaurante (adoro ler menus de restaurantes bacanas, sempre encontro combinações nas quais não tinha pensando ainda), às vezes de algo que comi na casa de um amigo ou parente…

Mas na maior parte do tempo minha inspiração vem dos próprios ingredientes. Se estou na feira e vejo uma sinfonia de cores e aromas, ideias começam a pipocar na minha cabeça. Se trago pra casa uma fruta suculenta, gosto de apalpa-la, acaricia-la e cheira-la (eu tenho uma relação muito íntima com a minha comida) e minha imaginação é invadida por ideias de como prepara-la. Quando abro a geladeira tenho a impressão que os vegetais sussurram coisas pra mim, me dão dicas de como prepara-los. Não sei se é assim com todos os cozinheiros, ou se tenho uma imaginação fantasiosa demais, mas essa é a minha resposta pra pergunta acima.

Então antes de ontem um melão bem maduro e extremamente perfumado atravessou o meu caminho, junto com um maço de mini rabanetes que precisavam ser utilizados naquele dia, e achei que a doçura do melão era tudo que o rabanete precisava pra equilibrar o seu picante. Pois não é que eu estava certa? Nunca fui fã de rabanete, acho o gostinho de wasabi dele meio desagradável, mas essa foi a salada me fez mudar de opinião.

E como o último artigo do Guia Papacapim de Alimentação Saudável foi sobre saladas cruas, e algumas pessoas comentaram que ainda acham estranho misturar frutas com verduras, achei interessante compartilhar algumas receitas de saladas salgadas com frutas. Se você der uma olhada nas receitas de saladas que já apareceram aqui no blog (é só clicar na seção ‘receitas’ que você vai ver que já misturei rúcula com morango, melancia com azeitona, batata com maçã…) vai perceber que adoro usar frutas em receitas salgadas e aqui vão mais quatro criações inéditas pra mostrar que as possibilidades são infinitas. Em cada uma dessas receitas a doçura da fruta complementa muito bem os outros ingredientes e tem uma vantagem dupla: quem não gosta de comer frutas puras geralmente acha mais fácil consumi-las misturadas à verduras e quem não gosta de verduras acha mais gostoso comer saladas que levam frutas.

Então aqui vão algumas saladas ultra simples e ultra saborosas pra inspirar vocês.

Salada de melão e rabanete

(Foto acima) Misture uma xícara de melão bem maduro em cubinhos com a mesma quantidade de rabanete em fatias finíssimas. Meus rabanetes eram minúsculos, então cada fatia era menor que uma moeda de 5 centavos. Se os seus forem maiores corte as fatias ao meio, ou em quatro. Junte 1cs de salsinha fresca picada e tempere com 2cs de azeite, 1cs de vinagre balsâmico, uma pitada de sal e uma pitada de pimenta do reino. Doure 2cs de semente de girassol (sem casca) em uma frigideira seca e polvilhe sobre a salada antes de servir. Rende duas porções.

 salada 3

Salada de toranja, abacate e azeitonas pretas

Descasque uma toranja média e corte a pele dos gomos (veja o passo-a-passo nesse post). Reserve a membrana. Misture os gomos de toranja (retire os caroços) com a mesma quantidade de abacate em fatias finas e um punhado de azeitonas pretas sem caroço, picadas grosseiramente (de preferência azeitonas gregas). Esprema (com a mão) a membrana da toranja sobre a salada, pra rega-la com o suco que restou ali, e tempere com sal, pimenta do reino e um fio de azeite. Se você não encontrar toranjas onde mora, pode substituir por laranja. Rende 2 porções.

 salada 1

Salada de acelga, abacaxi e rúcula

 Misture duas xícaras de acelga branca picadinha (folhas e talos) com uma xícara de rúcula. Lave bem a casca de um abacaxi maduro, descasque (reserve a casca) e corte uma parte em cubinhos (com ou sem o talo, de acordo com os seus gostos). Você vai precisar de uma xícara de abacaxi pra essa salada, então reserve o resto. Coloque o abacaxi em cubinhos sobre as folhas e esprema a casca por cima da salada, pra rega-la com um pouco de suco. Tempere com 2cs de azeite e misture bem com as mãos. Eu não coloco sal nem pimenta, pois gosto de apreciar plenamente a doçura dessa salada e acho que a rúcula deixa a mistura apimenta o suficiente, mas nada te impede de juntar uma pitada de sal e outra de pimenta do reino. Rende 2 porções generosas.

 salada 2

Salada de folhas com manga e gergelim

Disponha quatro xícaras de uma mistura de folhas (na foto usei: alface roxa, alface americana, alface comum e rúcula) em uma saladeira. Junte uma xícara bem cheia de manga em cubos e tempere com um pouco de suco de limão, bastante azeite, sal e pimenta do reino a gosto. Polvilhe com 1cs de gergelim (cru ou tostado na hora) e sirva. Rende 2 porções.

Melancia

As primeiras melancias do ano apareceram na feira algumas semanas atrás e desde então tem sempre uma na minha geladeira. Acho melancia perfeita como ela é, mas de tanto dar de cara com essa fruta (sempre que abro a geladeira, o que acontece dezenas de vezes por dia), acabei tendo umas ideias. Por exemplo, descobri que ao juntar um pouquinho de hortelã picada e um fio de suco de limão sobre cubos de melancia, a fruta ganha um sabor todo especial e se torna uma sobremesa ainda mais refrescante. A inspiração veio da minha limonada rosa (se você ainda não experimentou aqui vai um conselho: prepare essa delícia assim que as melancias aparecerem na sua cidade) e acabei criando a versão sólida dessa receita. Mas minha vontade de inovar não parou por aí.

Aqui na Palestina o pessoal adora servir melancia com um queijo de ovelha bem salgado e embora nunca tenha provado a mistura (por razões óbvias), achei a ideia de misturar melancia com um ingrediente de sabor marcante e salgado ótima. Só faltava encontrar um ingrediente vegetal que tivesse essas características e depois de matutar um pouco resolvi fazer uma salada de melancia com azeitonas. Como eu gosto muito de juntar hortelã fresca às minhas saladas cruas, essa erva também entrou na receita, assim como um pouco de suco de limão e uma pitada de pimenta moída na hora. Confesso que a primeira garfada entrou na minha boca com uma certa hesitação, mas minhas papilas só precisaram de um segundo pra aprovar a combinação inusitada. Preparem-se pra uma explosão de sabores na boca: doce, salgado, ácido, fresco (da hortelã) e levemente apimentado.

salada de melancia

Não precisa de receita, basta cortar sua melancia em cubos médios, retirar os caroços, juntar um punhadinho de azeitona verde (de ótima qualidade) picada, um punhadinho de hortelã fresca picada, temperar com uma pitada de pimenta do reino (melhor se for moída na hora) e regar com um fio de suco de limão. Depois é só se deliciar.

Se vocês gostam de melancia tanto quanto eu e quiserem testar maneiras mais criativas de degustar essa fruta, ficam aqui minhas sugestões.

A sobremesa que mudou a minha vida

creme voluptuoso de chocolate e laranja

Ano passado criei uma receita que mudou a minha vida pra sempre. Como ela tem um ingrediente inusitado, gostaria de poder servi-la pra vocês primeiro e só depois dizer o que tem dentro (é assim que faço quando sirvo essa receita pra convidados aqui em casa). Mas vocês podem admirar as fotos. Parece cremoso, voluptuoso e delicioso, não é?  Podem ter certeza que esse creme é tudo isso e muito mais!

O segredo dessa maravilha? Abacate! Eu tinha visto essa fruta em algumas receitas de sobremesas cruas antes, mas confesso que pensei que o resultado não seria nada de espetacular e por isso levei alguns anos pra testar em casa. Como eu estava enganada! A ideia de usar abacate como base de um creme doce é simplesmente brilhante! Ele substitui o creme de leite, a manteiga e o ovo aqui, dando cremosidade, corpo e textura pra esse tipo de receita. Além, claro, de vir com muitas vantagens nutricionais.

Mas e o gosto? Se você também está pensando que uma sobremesa à base de abacate deve ser estranha, preste muita atenção no que vou dizer agora. Abacate tem um sabor relativamente neutro e se combinado com ingredientes de sabor marcante, como cacau, laranja e baunilha, ele fica discreto ao ponto de se tornar imperceptível. O resultado final é absolutamente delicioso e tem zero (ZERO!) gosto de abacate. Eu já servi essa receita dezenas de vezes, pra amigos veganos e onívoros (acostumados a comer sobremesas tradicionais cheias de laticínios e açúcar), e todos, absolutamente todos, adoraram e quase caíram da cadeira quando eu disse que tinha abacate. Se você não contar que tem abacate, ninguém nunca vai adivinhar. E a textura? Extremamente cremosa e densa. Na verdade eu descreveria a textura dessa sobremesa como o cruzamento de um brigadeiro com um mousse de chocolate. Só que muito, muito mais gostoso.

creme voluptuoso de chocolate e laranja1

Eu parti da receita básica que encontrei em algum site que desapareceu da minha memória (abacate+cacau+xarope de agave) e fui adaptando, adicionando ingredientes, retirando outros, até ficar do jeitinho que eu queria. Uma das minhas combinações preferidas é chocolate com laranja e embora eu já tenha testado versões desse creme com café ou só com cacau e baunilha, a versão com laranja continua sendo a minha preferida. Eu acho que as raspas de laranja são as responsáveis pela mágica do desaparecimento total do gosto de abacate, por isso não aconselho fazer sem. Caso você não goste de chocolate com laranja espere um pouco que estou aprimorando a versão com café (talvez outras ideias apareçam pelo caminho).

Eu poderia continuar a campanha “eleja esse creme como a sobremesa do ano” dizendo que ele é rico em fibra e proteína (se você fizer 8 porções pequenas, como indico na receita, cada uma terá pelo menos 4,2g de fibras e 1,8g de proteína, o que pra mim compensa e muito a quantidade de açúcar das tâmaras), além de ter somente gorduras boas (aquelas que protegem o coração e deixam a pele linda) e zero colesterol. Mas, sinceramente, sobremesa será sempre sobremesa pra mim (por mais ‘saudável’ que seja) e eu como esse creme por um único motivo: porque é loucamente gostoso!

Eu elegi essa receita a sobremesa do ano de 2012 e com certeza ela faz parte do meu top 5 das melhores sobremesas de todos os tempos (veganas ou não, saudáveis ou não). Se mesmo depois de ter lido esse post você ainda pensar que uma sobremesa totalmente vegetal (sem creme, leite, manteiga nem ovos), sem açúcar e à base de abacate deve ser o extremo oposto, em matéria de sabor, das sobremesas tradicionais (feitas com laticínios e açúcar) que fazem os clientes salivarem nos restaurantes e casa de doces, então aqui vai mais um argumento.

A maioria das sobremesas saudáveis têm gosto de… saudáveis, não é? Juro que essa receita não faz parte dessa categoria. Quando você colocar esse creme-delícia na boca e sentir a gostosura escorregando garganta abaixo você só vai conseguir pensar em uma coisa: “Como conseguiu viver tanto tempo sem ele?”. Depois pode me enviar flores que eu aceito.

creme voluptuoso de chocolate e laranja2

Creme voluptuoso de chocolate e laranja (vegano, sem açúcar)

Três fatores determinam o sucesso dessa receita: a qualidade do abacate, do cacau e das tâmaras. O cacau deve ser excelente (puro, intenso e saboroso, o que é difícil de encontrar no Brasil), o abacate deve estar maduro no ponto (nem meio verde nem maduro demais) e as tâmaras devem ser extra macias (do tipo medjool, que se desfazem quando espremidas entre os dedos). Se suas tâmaras estiverem meio ressecadas deixe-as de molho em água quente (só o suficiente pra cobri-las) por pelo menos meia hora antes de fazer a receita. Em seguida use essa água na receita (substituindo o leite de amêndoas). Outro detalhe importante: assim que fica pronto o creme conserva uns resquícios do sabor do abacate, por isso é essencial deixa-lo descansar na geladeira por 12 horas antes de servir. Depois do repouso no frio, o abacate desaparece completamente e só fica o chocolate com notas de laranja. E lembre de só dizer que essa receita é à base de abacate depois que os seus convidados terminarem a degustação (as pessoas percebem os gostos de acordo com as expectativas que têm e se elas acharem que a sobremesa é ruim –antes mesmo de provar- as chances dela ser ruim são grandes). Depois é só rir da cara de espanto que eles vão fazer.

1x de abacate maduro (amasse ligeiramente e compacte um pouco na hora de medir)

8 tâmaras grandes, ou a gosto (veja conselhos acima)

Suco de 1 laranja grande (aproximadamente 1/2x)

1 1/2cc de raspas de laranja

2-3cs de cacau em pó (sem açúcar), de ótima qualidade (a quantidade vai depender da intensidade do seu cacau)

1cc de extrato natural de baunilha (ou as sementes de 1/2 favo)

1cs (rasa) de tahina (opcional, mas recomendado)

Uma pitada de sal

1/2x de leite de amêndoas (ou água ou suco de laranja)

-Triture todos os ingredientes no liquidificador até ficar cremoso e homogêneo. Você vai precisar parar o motor algumas vezes e mexer com uma colher pra facilitar o trabalho. Seja paciente e triture até não sobrar nenhum pedacinho de tâmara inteiro. Se sentir que o creme está muito espesso, junte mais um pouquinho de líquido (leite de amêndoas, suco de laranja ou água), mas cuidado pra não deixar a mistura muito líquida (mas saiba que ela vai engrossar um pouco depois de gelada).

-Prove e adicione mais tâmaras se achar necessário (com 8 tâmaras você obtém um creme meio-amargo, o equivalente a um bom chocolate com 60% de cacau). Nesse estágio talvez você ainda sinta um gostinho de abacate lá por trás, mas confie em mim: depois de uma noite na geladeira ele vai desaparecer completamente.

-Transfira o creme pros recipientes em que planejar servir (copinhos, xícaras ou taças), lembrando de fazer porções pequenas (essa sobremesa é intensa e rica e você não vai precisar de muito pra ficar satisfeito(a)). Cubra as porções com um pedaço de papel alumínio ou filme plástico e deixe descansar uma noite (12 horas) na geladeira antes de servir. Rende 8 porções se você usar copinhos do tamanho dos meus (com capacidade pra 100ml).

*Na hora de calcular a quantidade de proteína e fibra dessa receita só levei em consideração a informação nutricional do cacau, abacate, tâmara e tahina, logo esses valores são ligeiramente superiores quando contabilizamos os outros ingredientes. A receita inteira tem 33,8g de fibras (14,8g do cacau, 15g do abacate, 13g das tâmaras e 1g da tahina) e 14,5g de proteína (2,5g do cacau, 5g do abacate, 4g das tâmaras e 3g da tahina).

Geleia natural de morango e chia

geleia morango chia

Esse mês pretendo tratar da questão do açúcar na alimentação, mas antes de dividir com vocês todas as informações que juntei nos últimos anos (preparem-se que o negócio é pesado), achei que seria interessante publicar uma ou outra receita doce sem açúcar por aqui.

Faz tempo que o açúcar não faz mais parte da minha alimentação, mas mesmo depois de ter parado de consumi-lo, criei algumas sobremesas com açúcar pra agradar amigos e familiares. E, claro, pra agradar vocês, queridos leitores. Durante muito tempo fiquei com medo de banir de vez o açúcar aqui do blog e provocar reações negativas entre vocês. Já fui chamada de ‘radical’, ‘extremista’ e até ‘xiita’ por causa dos meus hábitos alimentares, que alguns consideram inutilmente excessivos. Mas quando publiquei algumas receitas sem açúcar a reação de vocês foi exatamente o oposto e muita gente me escreveu agradecendo. Descobri que alguns dos meus leitores também cortaram, ou estão tentando cortar, o açúcar do seu dia-a-dia, então hoje me sinto à vontade pra fazer esse anúncio: de agora em diante o açúcar virou persona non grata (eu deveria dizer ‘ingrediente non grato’?) nesse blog e não aparecerá mais no Papacapim (tirando, talvez, alguma rara exceção).

O que nos leva à receita de hoje. Eu gostaria de dizer que a ideia de fazer geleia de frutas crua com chia saiu da minha cabeça, mas a verdade é que vi algo parecido em um blog canadense e imediatamente dei aquele tapão na testa que significa ‘por que não pensei nisso antes?’. Que ideia de gênio! Mas eu queria ver se deixava a receita ainda mais nutritiva e comecei a fazer modificações. Amigo(a)s, consegui transformar uma das coisas menos saudáveis que existe (geleia é praticamente só açúcar!) em algo rico em fibras (morango+passas+chia), sem um grama de açúcar (só o açúcar natural da fruta está presente aqui), rico em ferro (das passas) e em ômega 3 (da chia)! Se vocês estivessem aqui quando coloquei a primeira colherada de geleia na boca teriam me visto pinotando na cozinha…

geleia morango e chia3

Embora eu esteja eufórica (como quando criei os famosos omeletes veganos), preciso avisar que essa geleia não é exatamente como as geleias tradicionais. Embora eu tenha incluído uma foto da minha geleia espalhada em um pedaço de pão nesse post, era só pra mostrar a textura, pois acho que ela não é doce o suficiente pra ser comida assim. Mas as possibilidades são inúmeras. Desde que fiz essa receita degustei minha geleia em uma vitamina de banana (misturei uma banana, leite de amêndoa e uma colher de sopa de geleia de morango e além da vitamina ter ficado deliciosa, a cor ficou linda), misturada na minha papa de aveia matinal (acrescentei uma colher de sopa por porção à papa pronta) e pura, quando bate aquela vontade de comer algo doce depois das refeições. Mas imagino que ela ficaria perfeita como recheio de bolos e tortas, ou misturada à sobremesas com chocolate. Na próxima vez que fizer esse pavê trufado de chocolate usarei essa geleia substituindo os morangos macerados com açúcar. ‘Deliciosa’, ‘nutritiva’ e ‘versátil’ são os adjetivos que mais valorizo quando se trata de receitas e essa geleia reúne os três.

Vou aproveitar que a feira está inundada de morangos (a primavera sempre chega mais cedo por aqui) e durantes as próximas semanas não vai faltar geleia na minha geladeira!

(Se você estiver procurando uma geleia mais tradicional, mas igualmente sem açúcar, veja minha receita de geleia natural de ameixa.)

geleia morango e chia2

Geleia natural de morango e chia (sem açúcar, crua)

Essa receita é adoçada com passas então a quantidade utilizada vai depender da doçura dos seus morangos e da sua afinidade com doce. Meus morangos estavam bem doces e só precisei de 1/2x de passas, mas se os seus estiverem azedos (ou se você preferir uma geleia mais doce) você vai precisar de uma quantidade maior. Eu gosto de combinar morango com raspas de limão, pois acho que uma pontinha de acidez realça o sabor, mas baunilha fica ainda melhor com essa frutinha.

400g de morangos maduros

Entre 1/2x e 1x de passas

1cc de suco de limão

2cs de sementes de chia

1cc de extrato natural de baunilha (ou as sementes de 1 favo de baunilha) OU 1/3cc de raspas de limão (opcional)

Lave os morangos, retire os cabinhos e corte em pedaços miúdos. Coloque metade dos morangos picados no liquidificador junto com as passas (a quantidade vai depender da doçura dos seus morangos) e triture até virar um purê. Desligue o motor algumas vezes e mexa com uma colher pra facilitar o processo, mas não acrescente água. Prove e se achar que não está doce o suficiente junte mais um pouco de passas e volte a triturar. Despeje o purê de morango e passas sobre o resto dos morangos picados, junte o suco de limão, as raspas de limão ou a baunilha, se estiver usando, e a chia. Misture bem. Deixe a chia hidratar 15 minutos (mexa a cada 5 minutos) antes de degustar. Se conserva na geladeira por alguns dias (a geleia vai ficar mais espessa depois de descansar umas horas na geladeira). Rende aproximadamente 2x.

Começando hoje

salada de frutas cítricas

Vários projetos interessantes estão aparecendo no meu horizonte e 2013 vai ser um ano supimpa! O único ponto negativo é que está cada vez mais difícil achar o tempo necessário pra manter o ritmo aqui no Papacapim. Talvez vendo de fora tudo pareça muito simples, mas muitas horas são necessárias pra criar cada post (comprar os ingredientes, cozinhar, fotografar, selecionar as fotos, escrever a receita, escrever o texto que acompanha a receita e colocar tudo isso no blog). E os artigos? Preciso de horas de pesquisas (às vezes dias), mais muitas horas de escritura (alguns posts que apareceram aqui precisaram de 10, 12 horas de escritura antes de ser publicados).

Mas eu gostaria de continuar publicando três posts por semana, então tive uma ideia. Vou publicar dois posts durante a semana, no estilo do conteúdo que vem aparecendo aqui desde a criação do Papacapim, e um post curtinho no sábado, com uma receita simples, dica ou algo que eu achar interessante e que mereça ser compartilhado com vocês. Minha intenção com esses mini-posts é inspirar, informar e/ou convidar à reflexão. Assim continuo aparecendo com frequência por aqui e ao mesmo tempo posso iniciar outros projetos. O que vocês acham?

Inicio essa série de mini-posts (que, por causa da introdução acima, não ficou mini) com uma receita original, suculenta e ultra simples.

Embora a feira esteja cheia de legumes de inverno, como mostrei no último post, essa estação é a mais pobre em frutas. Como tento comer somente vegetais produzidos localmente e de estação, nessa época do ano tenho que me contentar com frutas cítricas, pois são as únicas que aparecem por aqui entre janeiro e fevereiro. Não vou reclamar, pois adoro frutas cítricas e acho que durante os escuros e frios meses de inverno, essa dose extra de vitamina C é muito bem vinda.

Geralmente me contento de comer mexericas na sobremesa, toranjas nas saladas (essa aqui, mas sem as tâmaras) e limão espremido, misturado com água, pela manhã (um dia falarei mais sobre os benefícios desse hábito simples). Mas vez ou outra, quando tem convidados em casa e eu quero servir algo doce depois do jantar, sem no entanto fazer uma sobremesa elaborada, eu preparo essa salada de frutas cítricas. Foi ela que servi depois do jantar de natal e é sempre muito agradável provar algo tão fresco depois de uma refeição pesada. Sem falar que ela é linda.

salada de frutas cítricas 2

Salada de frutas cítricas com tâmara e hortelã

Geralmente uso só toranjas e laranjas, mas tinha uma mexerica dando sopa nesse dia e a salada ficou ainda mais bonita com ela (embora tenha ficado doce demais pra mim). A tâmara equilibra o amargor da toranja e a hortelã deixa tudo ainda mais refrescante. Essa salada pode ser servida como sobremesa ou no café da manhã. Imagino que poderia ter batizado minha criação de ‘carpaccio de frutas cítricas’ se quisesse dar um ar mais chique ao prato.

1 toranja

2 laranjas

1 mexerica

1 tâmara, picadinha

2cs de hortelã picada

Descasque a toranja e as laranjas de acordo com as instruções no final desse post. Depois de remover a casca e a parte branca, corte as frutas em fatias finas (remova as sementes). Descasque a mexerica com as mãos e corte em fatias finas (não esquça de remover as sementes). Misture as fatias de frutas, mais o suco que estiver escorrido enquanto você as cortava, a tâmara e a hortelã picadas. Sirva imediatamente. Rende 4 porções.

Como fermentar legumes

Repolho fermentado

Temos cerca de dez vezes mais bactérias no intestino do que células no corpo.  Isso significa que passeamos pelo mundo com cem trilhões de bactérias dentro da barriga (um verdadeiro universo paralelo!) e devemos cuidar muito bem do nosso zoológico interior. Boa parte da nossa saúde depende da saúde de nossa flora intestinal (faria muito mais sentido charmar de “fauna intestinal”, não?). Por isso devemos cuidar das nossas bactérias ingerindo alimentos que as fortalecem. Comida boa pra nossa fauna intestinal é comida fermentada, que traz uma enxurrada de amiguinhas pra nossa população de bactérias (não se preocupe, ainda cabe mais aí dentro).

Iogurte é provavelmente a comida fermentada mais conhecida da gente, mas é muito fácil fermentar outros alimentos, como vários tipos de vegetais. Antes de entrar no assunto de vegetais fermentados gostaria de dar uma palavrinha sobre iogurtes. Muitos o consideram como um alimento ultra saudável, mas a maioria dos produtos consumidos hoje está bem longe disso. Não estou me referindo aos maleficios do leite em si (colesterol, hormônios, lactose etc), mas à maneira como o produto é fabricado. Iogurte natural, feito apenas com leite e soro (como a nossa coalhada) ajuda a fortalecer a flora intestinal e tras benefícios à saúde (isso, claro, se você não tiver algum tipo de intolerância ou alergia ao leite), mas essas substâncias rosa-choque vendidas nos supermecados são carregadas de açúcar, aromatizantes e conservantes e são tão saudáveis quanto um biscoito. Veganos: o mesmo se aplica aos iogurtes de soja industrializados. Outro dia escrevo mais sobre o assunto, mas hoje quero falar do maravilhoso mundo dos legumes fermentados.

Vegetais lactofermentados são uma novidade na minha vida, mas pretendo incluí-los na minha alimentação diária a partir de agora. A lactoferementação é um processo onde bactérias transformam a glicose em ácido láctico. Eu achava que ácido láctico era obrigatoriamente um derivado do leite, mas descobri que não. No entanto a maioria dos sites que consultei usa soro de iogurte nas receitas de vegetais fermentados, o que mostra que é comum fazer a ligação entre ácido láctico, lactofermentação e leite de vaca. Felizmente pra nós, veganos, o soro não é necessário na lactofermentação. As bactérias benéficas estão disponíveis no ar e nos vegetais, que carregam sua própria “fauna” com eles. Tudo que precisamos fazer é criar um ambiente propício ao desenvolvimento dessas bactérias.

Vegetais fermentados são interessantes pra saúde por vários motivos. Durante o processo de fermentação as bactérias pré-digerem os vegetais, tornando seus nutrientes mais fáceis de serem assimilados pelo nosso organismo. As bactérias amigas presentes na comida fermentada, como lactobacilos, favorecem a produção de vitaminas, neutralizam o ácido fítico (naturalmente presente nos vegetais e que interfere na absorção de minerais) e promovem a saúde digestiva.

O melhor de tudo é que fazer vegetais fermentados em casa é facílimo. Você só precisa de um vegetal, sal marinho não refinado (que inibe o crescimento das bactérias não desejadas), uma recipiente de vidro com tampa e um pouco de paciência. Muitos vegetais podem ser fermentados, mas um dos mais tradicionais, usado em várias receitas típicas de diferentes países, é o repolho. Ele é um legume muito nutritivo, barato e que está disponível na maior parte do ano, então estou sempre procurando novas formas de prepará-lo. A fermentação o deixa ainda mais nutritivo, além de aumentar sua vida: repolho fermentado se conserva por semanas na geladeira. Nunca mais terei a tristeza de ver repolho se estragando na geladeira por falta de uso! O sabor é mais delicado do que imaginei e até a senhora Papacapim, que não gosta de chucrute, aprovou. Sirvo meu repolho fermentado em saladas, sanduíches e como acompanhamento de outros pratos. Mesmo se você não aprecia o gosto intenso das comidas fermentadas, sugiro que experimente essa receita. Aqui a fermentação é curta, produzindo um sabor mais suave. É uma ótima maneira de aproveitar os benefícios dos alimentos fermentados, mesmo pros que não gostam de chucrute e afins. Seus cem trilhões de bactérias vão te agradecer.

 

Repolho fermentado

Usei uma mistura de repolho branco e roxo porque era o que tinha na geladeira, mas você pode usar só um tipo. Mas a cor ficou tão bonita (o repolho roxo pintou o branco de rosa) que acho que vou fazer sempre assim. Usei um pouco de gengibre fresco porque minha ideia inicial era servir essa receita como acompanhamento de makis. Se quiser um sabor menos marcante deixe o gengibre de fora. No início achei a quantidade de sal enorme, mas ele é importante pra afastar as bactérias do mal e depois da fermentação o repolho não ficou excessivamente salgado (parece que o sal desapareceu durante o processo).

½ kg de repolho (usei 2/3 de repolho branco e 1/3 de repolho roxo)

½ colher de sopa de sal

1 colher de sopa de gengibre fresco ralado (opcional)

Corte o repolho o mais finamente possível (se tiver um processador que possa fazer o trabalho, vá em frente!). Em uma bacia de vidro, misture o repolho com o sal e massageie com as mãos durante alguns minutos. O repolho vai começar a murchar e soltar líquido. Massageie durante aproximadamente 5 minutos, ou até o repolho diminuir consideravelmente de volume. Junte o gengibre, se estiver usando, e misture bem. Transfira a mistura pra um frasco de vidro com tampa, junto com todo o líquido liberado pelo vegetal. Use as costas de uma colher pra compactar bem o repolho e liberar as bolhas de ar. Se o líquido não for suficiente pra cobrir o vegetal, junte um pouco de água. O repolho deve ficar totalmente submerso em líquido, pra não criar mofo na superfície. Coloque a tampa por cima do frasco sem fechar completamente (as bactérias precisam de um pouco de ar). Deixe em temperatura ambiente durante 3 dias (se estiver calor) ou mais (se estiver muito frio). Você pode abrir o frasco e provar o repolho pra ver se já fermentou o suficiente pro seu gosto. Depois de fermentado, feche o frasco completamente e transfira pra geladeira. Repolho fermentado se conserva, na geladeira, durante várias semanas. Pra comer é só abrir o frasco e se servir. Não aqueça seu repolho fermentado pra não matar as bactérias.

Esse aqui é ainda mais vibrante

Tabule de couve-flor

Algumas semanas atrás fiz um jantar aqui em casa e uma das convidadas tinha alergia a glúten. Foi a segunda vez que fiz um jantar inteiro sem glúten e nesses momentos me dou conta do quanto o trigo é onipresente na nossa alimentação. Porque eu conheço a frustação de chegar em um lugar (casa de amigo ou restaurante) e não poder comer nada, decidi criar pratos sem glúten pra tornar menos complicada a vida dos amigos celíacos. Fazer comida vegana e ao mesmo tempo sem glúten pode parecer impossível, mas eu encarei mais essa restrição culinária como um desafio. Aprendi que as situações difíceis são ótimos estimulantes pra criatividade e tive idéias bem interessantes. Já testei uma versão sem glúten dos meus gnocchis (o resultado foi surpreendente) e descobri um prato tradicional do sul da França naturalmente vegano e sem glúten. Mas antes de dividir essas receitas, que ainda precisam de alguns retoques, eu queria falar do prato mais simples que saiu da minha cozinha nesses útlimos dias, uma adaptação do meu querido tabule.

A primeira versão já não respeitava muito a receita libanesa tradicional e tomei ainda mais liberdades com essa daqui: substituí o bulgur (um tipo de triguilho) por couve-flor crua ralada. Graças ao meu post sobre couve-flor descobri que esse legume tem mais fãs do que imaginei, então a receita tem altas chances de ser um sucesso mesmo entre aqueles que não são celíacos. Esse tabule é ainda mais vibrante e vitaminado e tem a vantagem extra de ser totalmente cru. Embora seja bem original, pois substitui um cereal (bulgur) por um legume cru, no final ficou mais parecido com o tabule tradicional: leve, refrescante e carregado de salsinha. Uma ótima maneira de aumentar nosso consumo de vegetais sem fazer esforço. Não que eu precise comer ainda mais vegetais, mas sei que tem muita gente por aí precisando.

 

Tabule de couve-flor

Ralar couve-flor é um pouco delicado e é melhor ir devagarzinho pra não sujar a cozinha inteira. Eu ralo no ralo grosso, depois uso a faca pra picar miúdinho os pedaços que se desprenderam antes de serem ralados. O tabule servido no mundo árabe é bem azedinho, mas nada te impede de usar menos suco de limão se preferir um sabor mais suave.

1x de couve-flor crua ralada

2 tomates, em pedaços miúdos

1 pepino pequeno, em pedaços miúdos

2x de salsinha picada

1/2x de hortelã picada

1cs de passas (opcional)

suco de 1 limão pequeno (ou menos, se preferir uma salada menos ácida)

2cs de azeite

sal e pimenta do reino a gosto

Misture tudo, prove e acerte o tempeiro. Sirva imediatamente. Rende 2-4 porções.