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Eu gostaria de estar no lugar desse gatinho agora. Colo, carinho e zero preocupação é tudo que preciso! A semana super ultra ocupada deveria terminar hoje à tarde, mas houve mudanças de planos e vou cozinhar pra minha vizinha até amanhã. Já não aguento mais a dor nas costas e, por causa da fadiga, fiz um monte de besteira (como quebrar alguns copos e a forma de cerâmica importada que uso pra fazer pão). A “cerise sur le gâteau”, como dizem os franceses, foi ter ficado sem gás ontem à noite, enquanto preparava o jantar e assava um pão e um bolo. Liguei pro senhor que vende gás e ele avisou que estava faltando gás na cidade. Aí eu sentei no chão e chorei. Depois me lembrei que tinha que alimentar a vizinha então me levantei e fui até a casa dela (que é colada à minha) perguntar se ela não queria jantar conosco no restaurante ao lado. Felizmente a vizinha ainda tinha um resto do almoço na geladeira e disse pra eu não me preocupar que o seu jantar estava garantido. Eu e Anne nos contentamos com um pedaço de pão, que terminei de assar no nosso micro forno elétrico, e uma salada de tomate e mangericão. Hoje de manhã liguei pro senhor do gás de novo e (desespero!) ainda estava faltando gás. A necessidade sendo mãe da criatividade, preparei o almoço e o jantar no microondas. Tem um microondas aqui em casa mas nunca, nunca uso. Podem me chamar de louca, mas essa história de aquecimento por agitação de moléculas me parece muito suspeita. Eu quero as moléculas da minha comida no lugar certo, ninguém venha bagunçar com elas! Por essa razão não uso esse treco. E também porque acho que a textura de algumas comidas esquentadas no microondas fica horrível. Mas hoje o agitador de moléculas quebrou um galhão! Cozinhei macarrão, quinoa, molho de “queijo”, brócolis e o bolo (que comecei a assar ontem) no danado e, pra minha grande surpresa, deu tudo certo. Acho que depois de hoje eu devia parar de falar mal do bichinho…

Mas não teve só drama essa semana, também conteceram coisas boas. Primeiro teve o aniversário de Watan, o filho dos meus queridos amigos Sara e Tareq.

Johanna, minha grande amiga que mora em Tel Aviv, estava lá também. Na foto vocês podem ver Tareq, Johanna e Watan. Parece que foi ontem que visitei Sara na maternidade e Watan já tem dois anos. A próxima foto foi tirada no aniversário de um ano dele e ele estava feliz da vida no colo de Sara.

Sara adora meus bolos então fiz cupcakes de chocolate e laranja pra Watan. Como a família é grande, compraram um bolo na padaria também. Todo mundo preferiu meus cupcakes. Não é um elogio muito grande, já que os bolos de padaria aqui são horríveis!

Quando faço bolos pros palestinos, procuro adaptá-los ao gosto do pessoal, que é muito parecido com o dos brasileiros. Esses cupcakes estão longe de ser saudáveis mas são diabolicamente deliciosos. Procurando uma receita doce pra impressionar a sogra ou o amigo onívoro que acha que comida vegana é só alface? Acabou de achar!

Essa semana também organizei mais uma oficina de culinária pra crianças, dessa vez na escola francesa de Belém. Fizemos bombons de frutas secas com coco ralado, amêndoas e pistaches. Só uma menina gostou, as outras crianças cuspiram tudo! Depois me disseram que preferem kinder ovo. Paciência!

As crianças daqui comem mais porcaria do que todas as outras crianças que já encontrei. Estão vendo a cara de malvado do menino de listrado? Isso foi porque falei “fruta” perto dele (clique na foto e você se assustará).

Fiz a mesma oficina em um campo de refugiados ano passado e foi um sucesso: os meninos adoraram e só não comeram tudo porque pediram pra levar alguns bombons pra casa pra dividir com os pais. Aqui estão as fotos pra provar.

Desde terça estou cuidando do cachorro da outra vizinha, que viajou pra Turquia. Ela é a melhor vizinha que alguém pode desejar: nunca faz barulho, é simpática, agua minhas plantas quando viajo e de vez em quando traz uma pratinho de comida pra gente. Ela é cristã ortodóxa e esse pessoal leva a quaresma à sério. Durante os quarenta dias que antecedem a Páscoa eles não comem nenhum produto de origem animal, ou seja, se tornam temporariamente veganos. Meus amigos ortodóxos me ensinaram várias receitas veganas e essa vizinha sempre divide conosco as delícias vegetais que ela prepara. Por isso quando ela perguntou se eu podia cuidar de Lucky, seu poodle idoso, eu não hesitei nem um segundo. Fiquei feliz em poder fazer um favor pra ela, já que ela é tão bacana com a gente. O pobre Lucky está velhinho, velhinho. Ele ficou cego e não consegue mais descer escadas. Ele sobe pra fazer xixi no jardim (que estranhamente é mais alto que nossas casas) e na hora de descer me chama pra ajudá-lo. Fiz essas fotos ano passado.

Se um ano atrás ele já estava doentinho, hoje a situação se degradou tanto que não tenho mais coragem de tirar foto dele. Coitadinho…

Pra acabar esse post de uma maneira mais alegre, aqui vai a receita dos deliciosos cupcakes. E em breve dividirei uma receita muito especial. Uma dica: vem enrolado em uma folha de alga e se come com pauzinhos.

Cupcakes de chocolate com laranja

Esses foram um dos bolos mais fofos, úmidos e deliciosos que já fiz. Garanto que se você não contar, ninguém vai adivinhar que esses cupcakes são veganos. Se quiser fazer um bolo grande, vá em frente. Só não esqueça de adaptar o tempo no forno. Como todos os bolos de chocolate, o sabor fica ainda melhor no dia seguinte então faça os bolinhos na véspera (mas só coloque a cobertura no dia que for servir).

3x de farinha de trigo

1x de açúcar

2cc de fermento

½ cc de bicarbonato

3/4x de cacau em pó (sem açúcar, não confundir com achocolatado)

3/4x de óleo de girassol

2x de suco de laranja fresco

1cs de raspas de laranja

forminhas de papel

Aqueça o forno em temperatura baixa/média (200°). Em um recipiente grande, misture todos os ingredientes secos. À parte, misture os ingredientes molhados. Despeje os molhados sobre os secos e, com um batedor de arame (fuet), bata durante dois minutos, ou até a massa ficar homogênea e sem nenhum carocinho. Coloque uma forminha de papel em cada compartimento de uma forma de cupcapes ( ou quindim, ou qualquer forma do estilo). Despeje colheradas da massa com cuidado, sem encher completamente cada forminha. A massa não deve chegar até a borda, mas quase. Asse de 15 à 20 minutos, dependendo do seu forno. Quando os bolinhos passarem no teste do palito está pronto. Por razões óbvias de tamanho, cupcakes assam mais rápido do que bolos então verifique depois de 15 minutos e, se ainda não estiver assado, coloque de volta no forno e teste novamente 5 minutos depois (mas fique por perto pois os bolinhos queimam em um piscar de olhos). Deixe esfriar completamente antes de colocar a cobertura. Dependendo do número de compartimentos da sua forma de cupcakes, repita a operação com o resto da massa. Rende 24 cupcakes (minhas formas são pequenas e uso mais ou menos 2cs de massa por cupcake).

Cobertura de chocolate

Essa cobertura (sem o licor de laranja) me lembra uns tubinhos de “moça fiesta” que eu gostava de comer quando adolescente. A conscistência, bem parecida com um brigadeiro mole, é perfeita pra cobrir bolos. As medidas são aproximadas pois faço essa cobertura misturando um pouquinho disso, com um pouquinho daquilo e assim por diante. Atenção: as colheres de sopa aqui não são rasas nem cheias, ficam entre os dois.

6cs de margarina vegetal não hidrogenada  óleo de coco (parei de usar margarina e desde então tenho substituído esse ingrediente por óleo de coco virgem)

2cs de cacau em pó (sem açúcar, não confundir com achocolatado)

4cs de açúcar (ou à gosto)

½ x de leite de soja

1cs de licor de laranja (opcional)

Em uma panela pequena, derreta a margarina. Junte o cacau e mexa bem com um batedor de arame, até ficar completamente dissolvido. Junte o açúcar e o leite de soja e cozinhe em fogo alto (não se afaste do fogão ou você terá uma desagradável surpresa!). Quando começar a ferver, baixe o fogo e cozinhe mexendo com uma colher de pau até engrossar. O fogo tem que ser baixíssimo senão a cobertura sobe e derrama. Pra testar o ponto, pingue um pouco da cobertura em uma colher e coloque no congelador por 30 segundos. Quando atingir a conscistência de um brigadeiro mole está pronto. Deixe esfriar completamente antes de cobrir os cupcakes.  Rende cobertura suficiente pra cobrir 24 cupcakes. Se fizer esses bolinhos pra um aniversário de criança, decore com granulado colorido, como na foto.

Sopa de cenoura e laranja

Há alguns dias comentei que um casal de amigos americanos veio jantar aqui em casa. Publiquei a sobremesa que servi pra eles aqui e hoje vou dividir com vocês a entrada que preparei naquele dia. Adoraria dividir a receita do prato principal, a verdadeira estrela da noite, mas isso terá que esperar até eu descobrir como fazer uma lasanha branca parecer apetitosa nas fotos (as tentativas que fiz até então foram desastrosas).

Mas antes de falar da sopa queria falar um pouco dos amigos. Uma das coisas que mais gosto aqui é poder encontrar gente do mundo inteiro e com horizontes tão diferentes. Você já ouviu falar nos “freegans”? Quem não conhece o freeganismo pode se informar com a mãe dos interessados. Vai lá, eu espero. Pois bem, esses amigos foram freegans durante anos nos EUA. Agoram que moram em Jerusalem, e trabalham em uma ONG internacional que cobre suas despesas com moradia e alimentação, eles abandonaram (temporariamente) esse modo de vida. Mas como a responsabilidade com o meio ambiente e o cuidado com a saúde ocupam um lugar essencial em suas vidas, eles continuam sem comer nenhum tipo de animal, com excessão das vezes em que são convidados e que a carne faz parte do menu. Eles se sentem mal quando recusam um prato preparado especialmente pra eles e preferem não ofender  o anfitrião. Eu encontro cada vez mais onívoros que tomaram consciência do que o consumo de carne significa (ruim pra saúde, péssimo pro meio ambiente) e que decidiram que carne pra eles é um luxo que deve ser aproveitado só de vez em quando. Tenho um amigo francês que seguiu o mesmo rumo e acabou levando a esposa também (Oi, Cédric! Oi, Lílian!). Encontrei alemães que só comiam carne se soubessem de onde ela vinha e tivessem a certeza que ela era orgânica e que o animal tinha sido criado em liberdade. Na prática isso significava que eles só comiam carne duas ou três vezes por ano, quando visitavam a fazenda dos pais.  O número de onívoros que não comem mais carne em casa, só quando vão ao restaurante, não pára de aumentar. Mesmo entre os “gourmets”, que sempre acreditaram que a carne ocupava o lugar principal na alta gastronomia, o consumo de carne está diminuindo e descobrir novas maneiras de utilizar vegetais virou tendência.

Fico muito feliz em ver que alguns onívoros estão adotando um consumo de carne responsável. Embora o meu coração deseje um mundo vegano, sei que pra muitas pessoas a idéia de nunca mais comer carne é simplesmente impensável. Aceito isso. Mas o que me deixa indignada são onívoros com comportamento de avestruz, que não sabem, não querem saber e têm raiva de quem tenta explicar que esse modo de vida é uma verdadeira catástrofe ambiental. Os “onívoros responsáveis” que conheço também adoram carne e apreciam um belo bife, exatamente como os “onívoros irresponsáveis/avestruzes”, mas eles deixam a razão, não o estômago, guiar suas escolhas. Sei que grande parte dos meus leitores não é veg, então gostaria de fazer um pedido: seja um onívoro responsável você também.

Agora voltemos à sopa do início do texto. Quando faço jantares em casa, geralmente sirvo salada ou algum tipo de patê e legumes crus na entrada. Porém fiz esse jantar naquela semana em que o aquecedor estava quebrado e fazia mais frio dentro de casa do que lá fora. Tudo que eu queria era uma sopinha pra aquecer o corpo. Como o prato principal era mais que robusto a sopa tinha que ser ultra leve. Sopa de cenoura e laranja foi a solução ideal: leve, saborosa e interessante o suficiente pra servir pra convidados. A combinação de sabores é inusitada, mas nossos amigos e eu adoramos. Já Anne não se entusiasmou tanto com a sopa, ela achou os sabores “estranhos”. Então fica o aviso: se for cozinhar pra pessoas que não são muito abertas à inovações gastronômicas talvez seja melhor escolher algo mais convencional.

Sopa de cenoura e laranja

Essa é uma sopa leve, perfeita pra servir antes de um prato robusto. Caramelizar a cenoura antes de acrescentar a água é essencial pois isso amplifia o seu sabor. A laranja se harmoniza perfeitamente com a cenoura e o resultado final é uma sopa intensa e viva.  Um prato extremamente simples mas interessante. Se você fizer essa sopa no verão sirva gelada em copinhos e você terá uma entrada refrescante.

1 cebola pequena

1 dente de alho

6x de cenouras em rodelas finas

1 litro de água

1 cubo de caldo de legumes (de preferência orgânico e sem conservantes)

Raspas de 1 laranja

Suco de 2 laranjas

2cs de azeite

Sal e pimenta do reino à gosto

Em uma panela grande, aqueça o azeite e refogue a cebola até ficar dourada. Junte o alho e a cenoura em rodelas, tampe e deixe cozinhar no vapor da panela, mexendo de vez em quando. Quando as cenouras estiverem ligeiramente caramelizadas (algumas vão pregar no fundo da panela, mexa bem pra desgrudá-las) junte o caldo de legumes e a água. Deixe cozinhar coberto até as cenouras amolecerem completamente. Deixe a sopa amornar e passe no liquidificador até ficar cremosa e sem nenhum pedacinho de cenoura visível. Devolva a sopa pra panela, junte o suco e as raspas de laranja e aqueça em forno baixo. Prove e junte uma pitada generosa de pimenta do reino e um pouco de sal, se achar necéssário (cuidado com o excesso de sal, o doce da cenoura e da laranja deve predominar). Serve 4-6 porções como entrada. Sirva em cumbucas pequenas e decore cada uma com folhas de salsinha.