Algumas semanas são tão intensas que fico com a impressão de que um mês inteiro conseguiu se espremer entre dois fins de semanas. Teve as manifestações em solidariedade aos afegãos requerentes de asilo, que correm o risco de serem expulsos a qualquer momento, a visita de um dos meus amigos mais queridos, que me ajudava a fazer as oficinas pra crianças no campo de Aida (Palestina), uma palestra com o historiador israelense Ilan Pappé, que me deixou, como sempre que escuto sua lucidez estonteante, com vontade de sufoca-lo de abraços e beijos.

Teve também encontros que me emocionaram, como esse palestino nascido nos campos de refugiados da Síria, um amigo de um amigo, cujo santo bateu tão bem com o meu que já nos encontramos três vezes em cinco dias e estamos combinando uma parceria profissional-amistosa que será muito bacana. E também esse afegão, que chegou na Bélgica aos 17 anos, fugindo dos talibãs, mas que cinco anos depois ainda não recebeu o visto pra morar legalmente aqui. Ele é chef e me convidou pra ajuda-lo a cozinhar pra centena de afegãos que está atualmente ocupando uma escola abandonada no bairro onde moro. Também teve um brunch com alguns amigos belgas, que vieram conhecer meu novo lar doce lar e chegaram com sacolas de louça, talheres e panelas, dividindo comigo um pouco do que eles tinham em casa e me ajudando a equipar minha cozinha vazia. Porque, assim como eu, eles acreditam na solidariedade e sabem que compartilhar (tempo, abraços ou panelas) é um ato transformador.

Encontrei uma amiga belga que conheci na Palestina, mas que não via há quatro anos, e fui apresentada ao seu bebê de seis meses, provavelmente a criatura mais adorável desse país. Teve a filmagem do clip de um jovem afegão requerente de asilo que canta rap, que assisti embaixo de uma chuva fina, impressionada com a originalidade da situação e preocupada com o carro da polícia que passava por perto. E teve também uma visita nada agradável à prefeitura, onde um funcionário me explicou, enquanto folheava meu passaporte, que ter uma relação com um europeu só pra conseguir um visto era ilegal e que eu corria o risco de receber uma ordem pra deixar o território. Ao ver meus olhos arregalados ele completou: “Estou me referindo àquela parte da população que reside ilegalmente aqui e tenta conseguir vistos por todos os caminhos possíveis.” Voltei pra casa pensando em como ele devia tratar a ‘parte da população’ em questão (apesar de não ser branca o suficiente pro pessoal daqui, o tratamento teria sido cem vezes pior se eu fosse negra ou árabe) e sonhando com um mundo sem racismo e sem fronteiras. 

Mas no meio disso tudo (e a censura me obrigou a deixar alguns acontecimentos de lado), pra fazer dessa semana uma das mais loucas de todas, estava eu em estado de choque no meio da rua, depois da polícia belga ter prendido de maneira extremamente violenta 168 pessoas (quase todos afegãos requerentes de asilo) durante uma manifestação pacífica, quando escuto alguém chamar meu nome. Olhei pro lado e uma moça me perguntou em Português se eu era eu. Ela explicou que era leitora do blog e por isso tinha me reconhecido. O surrealismo da cena me deixou desnorteada durante alguns segundos, mas quando minha cabeça voltou a funcionar normalmente tentei impressionar Anne com a minha recém descoberta notoriedade, mas ela disse ‘ah’ e saiu correndo pra fotografar um afegão desmaiado, um dos poucos que tinha escapado da polícia. Então minha vontade de impressionar se evaporou e fui me juntar ao resto do grupo de solidariedade aos requerentes de asilo afegãos pra ver como eu podia ser útil. A leitora em questão faz parte do grupo e desde então me manda notícias da situação. 

Hoje o amigo querido que estava de visita voltou pra França e almoçamos juntos aqui em casa, curtindo o sol de outono na varanda (deliciosamente quente pra essa época do ano) e aproveitando os últimos momentos juntos. Então eu preparei uma das receitas que mais gosto de preparar pros amigos, pois ela conforta o estômago de tal maneira que tem o efeito de um abraço de dentro pra fora. Postei uma receita de sopa por aqui não faz muito tempo, mas como descobri que sopa é muito mais popular do que imaginava entre os meus leitores, acho que ninguém vai reclamar. Essa sopa fez parte da oficina de culinária que fiz em Recife em Julho e foi a receita que mais fez sucesso naquele dia.

Já fiz essa sopa tantas vezes, pra família, amigos, leitores, que estava na hora dela aparecer por aqui. Nesses tempos difíceis precisamos dar e receber muitos abraços. De dentro pra fora e de fora pra dentro. 

 sopa de lentilha coral, jerimum e coco2

Sopa de lentilha coral, jerimum e coco

Lentilha coral cozinha mais rápido e se desfaz no caldo, deixando a sopa mais grossa. É possível usar lentilha comum (verde) nessa receita, mas nesse caso o tempo de cozimento é maior e será preciso passar uma parte da sopa pronta no liquidificador pra encorpar o caldo. Embora o gengibre e o curry deixem a sopa extra especial, eles são opcionais. Se preferir deixa-los de fora, use mais alho e uma pitada de pimenta do reino mais generosa. Na última vez que fiz essa sopa não tinha leite de coco em casa então acrescentei 2cs de óleo de coco extra virgem à sopa pronta, pra aumentar a cremosidade e intensificar o sabor de coco da receita. E se a mistura jerimum-coco-gengibre te agrada, essa sopa cremosa também é uma delícia!

1 cebola grande, picada

3 dentes de alho, ralados/amassados

1cs de gengibre fresco ralado (ou a gosto)

1cc de curry em pó

2x de lentilha coral

4x de jerimum de leite (ou abóbora do tipo butternut), descascado e cortado em cubos pequenos

1x de leite de coco

Um punhado generoso de coentro picado

2cs de óleo de coco extra virgem,

Sal e pimenta do reino a gosto

 

Aqueça 1cs de óleo de coco e doure a cebola. Junte o alho e o gengibre e deixe cozinhar mais alguns minutos, até ficar bem dourado. Junte o jerimum (ou a abóbora butternut), a lentilha coral, o curry e um pouco de sal. Cubra tudo com água e deixe cozinhar, coberto, em fogo baixo, até o jerimum e a lentilha ficarem completamente cozidos e se desfazendo. Acrescente mais água durante o cozimento, se achar necessário. Atenção: a sopa deve ficar encorpada, então vá juntado água aos pouquinhos (lembre que ela ficará mais líquida depois que você acrescentar o leite de coco). Junte o leite de coco, uma pitada de pimenta do reino, 1cs de óleo de coco extra virgem e o coentro e misture bem. Prove e corrija o sal, se achar necessário. Sirva bem quente. Rende 4 porções como prato principal.