Pra reabastecer o corpo

Sopa de espinafre e batata.
Sopa de espinafre e batata.

Essa semana não foi das mais fáceis pra mim. Não consegui imprimir o livro de receitas do projeto a tempo (mil e um problemas técnicos) e como viajo depois de amanhã, isso significa que o livro só verá o dia em janeiro. Vamos perder a oportunidade de vender o livro durante a única época do ano em que Belém é invadida pelos turistas: o natal. Sei que fiz tudo que estava ao meu alcance, mas não consegui não ficar triste e estou com um gostinho de decepção na boca.

A correria dos últimos dias (finalização do livro, preparativos pra viagem e encontros com amigos pra desejar um feliz natal antes de partir) e um sistema imunológico que não está no melhor da sua forma (culpa do estresse e das poucas horas de sono das últimas semanas) fez meu estômago gritar “Comida nutritiva e leve, pelas caridades!” Em períodos de estresse, quando sinto que meu corpo está fragilizado, tento compensar o desgaste ingerindo alimentos super ricos em vitaminas, minerais e antioxidantes, mas ao mesmo tempo de digestão fácil, pois não quero dar mais trabalho pro meu corpo cansado.

Vou confessar algo que talvez surpreenda meus leitores. Enquanto Anne estava em Gaza e eu arrancava os cabelos criando o livro pro projeto, ao mesmo tempo em que tentava desesperadamente não me desesperar, acabei deixando o cansaço me vencer e me alimentei muito mal. Passei dias e mais dias comendo só essa papa de aveia (o que me salvou, pois era a refeição mais nutritiva do dia), pão integral com hummus e mexericas. Sei que poderia ter sido pior (parece que gente que come biscoito recheado com refrigerante em períodos de estresse…), mas cheguei ao cúmulo de comprar, pela primeira vez em anos, cereal de caixa. Daquela marca demoníaca! Com açúcar!! Foi o meu fundo do poço gastronômico/nutritivo e não tenho orgulho nenhum disso. (Pausa pra baixar a cabeça com vergonha.)

Então agora é mais importante do que nunca reabastecer meu corpo com comida nutritiva, pois não quero passar as férias doente (já arrasto uma quase gripe desde o final de novembro).  Mas, como expliquei mais acima, essa semana está sendo uma correria só, logo a comida que sai da minha cozinha tem que ficar pronta em pouco tempo, além de ser rica em nutrientes e de fácil digestão, claro. Tarefa impossível?  Me dou conta que é justamente aqui que nos deixamos seduzir por comida nada nutritiva, mas que já vem pronta (hum… como a caixa de cereais da marca demoníaca). Mas com um mínimo de preparação e os ingredientes certos na geladeira, o problema está resolvido. Alguns exemplos do que passou pelo meu estômago nos últimos dias: suco verde, feijão (cozinhei uma quantidade grande e fui usando durante a semana), legumes salteados ou assados (brócolis, couve-flor, cenoura…), a super papa, sopa de feijão e beterraba, essa salada de lentilha, limão espremido com água (ótimo pra limpar o organismo), chia, castanha do Pará (rica em selênio, um poderoso antioxidante) e muitas folhas verdes (espinafre, acelga verde, folha de rabanete…).

Falando em folhas verdes, ontem à noite eu estava querendo um jantar ultra leve e cheio de espinafre. Nasceu então essa sopa. Durante o inverno, quando é época de legumes folhosos, eu poderia comer espinafre todos os dias sem nunca me cansar. A sopa ficou pronta em menos de meia hora e era exatamente o que o meu corpo estava precisando. Ela é extremamente simples, mas é saborosa e alimenta sem pesar no estômago. Receitas humildes, rústicas, saborosas e práticas são as minhas preferidas.

Agora preciso continuar os preparativos da viagem. Na próxima vez que aparecer por aqui estarei em outro continente. Até lá estarei comendo muitas folhas, oleaginosas, leguminosas, tomando limão espremido com água e cobrindo os meus ouvidos se a caixa de cereal demoníaca ousar chamar o meu nome de novo.

sopa espinafre batata 2

 Sopa de espinafre e batata

Se quiser aumentar a quantidade de proteína dessa receita junte uma xícara de feijão branco ou grão de bico cozido (no momento em que colocar o espinafre na panela).

1 cebola grande, picadinha

4 dentes  de alho, ralados/amassados

2 tomates, picados

2 batatas grandes, cortadas em cubos médios

300g de espinafre, picado

1 caldo de legumes (de preferência sem conservantes)*

Sal e pimenta do reino a gosto

1cs de azeite

Azeite e limão pra servir

Refogue a cebola em 1cs de azeite até ficar dourada. Junte o alho e refogue mais 30 segundos. Junte o tomate, a batata, o cubo de caldo de legumes e 750 ml de água. Deixe cozinhar, coberto, até a batata começar a se desfazer. Use as costas de uma concha de sopa pra amassar ligeiramente uma parte das batatas. O objetivo não é fazer um purê e sim engrossar um pouco o caldo, então cuidado pra não amassar demais. Junte o espinafre e cozinhe mais alguns minutos, até ele amolecer. Tempere com pimenta do reino, prove e corrija o sal. No momento de servir, regue cada porção com azeite e um pouco de suco de limão, se gostar. Rende duas porções generosas.

*Pode ser substituído por 750 ml de caldo de legumes caseiro.

 

Um risotto pra Lobo

Risotto de cevada com espinafre e tomate seco

A melhor parte de ter um blog é que você acaba entrando em contato com muita gente bacana. Um dos meus primeiros “amigos de blog” foi Antônio Pasolini, conhecido na rede como Lobo Repórter. O fato de trabalharmos pela mesma causa, embora de maneiras diferentes, nos aproximou e desde então ele acompanha minhas receitas de lá e eu acompanho as notícias no seu ótimo blog de direitos animais de cá. Hoje é o aniversário dele e pra comemorar a data ele teve uma ideia super original: pedir aos amigos pra adotar uma dieta vegana durante essa semana (da segunda, dia 8, à sexta, dia 12) como presente. Vinte e sete amigos toparam o desafio e Lobo sugeriu o Papacapim como fonte de inspiração em matéria de receitas vegetais.

Ficaria extremamente feliz se hoje eu pudesse preparar um jantar especial pra ele e os amigos que embarcaram nessa aventura. Infelizmente enquanto nossa amizade continuar “virtual” o presente terá que ser virtual também. Essa foi a receita que criei dias atrás especialmente pra ele, mas que todos vocês podem fazer e se deliciar.

Quem ainda não conhece cevada precisa correr pro supermercado e levar um pacote pra casa. Esse cereal é gostoso, facílimo de preparar e extremamente rico em fibras. Por ter bastante amido, assim como o arroz de grão curto, ele fica ótimo como risotto. Dois anos atrás publiquei uma receita de risotto de cevada com tomate e abobrinha que é uma delícia, mas a receita de hoje é mais próxima de um risotto tradicional. Claro que “tradicional” na minha cozinha está longe de ser considerado tradicional por cozinheiros clássicos. Tanto os ingredientes quanto a técnica se afastam do risotto tradicional, mas o resultado é tão delicioso quanto, além de ter a imensa vantagem de ser menos trabalhoso. Cevada cozida tem uma textura interessante, mais firme do que arroz, mas ao mesmo tempo macia. É difícil descrever, só provando pra entender do que estou falando. E o trio creme-espinafre-tomate seco produz uma combinação maravilhosa de sabores.  Se você gostou do meu espinafre com creme, esse risotto será seu novo prato preferido.

Feliz aniversário, Lobo! Espero que você goste do risotto e se quiser provar esse e outros quitutes veganos feitos por mim, sabe que será mais que bem-vindo aqui na Terra Santa.

 

Risotto de cevada com espinafre e tomate seco

Cevada demora mais pra cozinhar do que arroz, mas é mais fácil fazer risotto com ela pois não tem perigo de passar do ponto: ela continua “al dente” mesmo depois de um longo cozimento. Se você não encontrar cevada, pode substitui-la por um arroz de risoto, mas essa receita é bem mais interessante com cevada. Se usar castanhas de caju como substituto pra creme de leite de vaca é algo novo pra você, ou se você tem medo da gordura das castanhas, você precisa ler esse post urgentemente.

1 cebola grande, picada

3 dentes de alho, amassados/ralados

1x de cevada (cevadinha)

1/2x de vinho branco seco

250g de espinafre, lavado e picado

2cs (bem cheias) de tomate seco, picado (de preferência o tipo que não é conservado no óleo)

1cs de azeite

1 cubo de caldo de legumes (sem conservantes)

1 litro de água

2/3x de castanha de caju (sem sal), de molho por 6 horas

1 1/2x de água

1/2cc de amido de milho (maisena)

Sal e pimenta do reino a gosto

Aqueça o azeite e doure a cebola. Junte o alho e deixe cozinhar mais alguns segundos. Acrescente a cevada, mexa bem e molhe com o vinho. Deixe evaporar totalmente e junte o caldo de legumes e 1 litro de água. Quando abrir fervura baixe o fogo e deixe cozinhar, semicoberto, até todo o líquido evaporar e a cevada ficar macia (ela continua um pouco firme mesmo depois de cozida). Se por acaso a água evaporar antes da cevada cozinhar, junte mais um pouquinho.

Bata a castanha de caju no liquidificador com 1 ½ x de água (pode usar a água do molho) e o amido de milho. A castanha deve se desintegrar totalmente, então seja paciente. Reserve.

Quando a cevada estiver macia e o líquido tiver evaporado, despeje o espinafre picado na panela, cubra e deixe cozinhar 30 segundos. Vai parecer que tem espinafre demais pra quantidade de cevada, mas esse legume reduz muito depois de cozido. Depois que o espinafre murchar junte o creme de castanha e o tomate seco e cozinhe mais 3-5 minutos, até o creme encorpar e o risoto ficar bem cremoso. Prove, corrija o sal e tempere com pimenta do reino a gosto. Deixe repousar 5 minutos, coberto, antes de servir. Rende 3-4 porções.

Nota: Risotto feito com arroz é melhor consumido imediatamente depois de preparado, mas eu gosto desse risotto ainda mais no dia seguinte, pois os sabores ficam mais intensos e a textura anda mais cremosa.

Pequeno guia do macarrão perfeito

Espaguete com abobrinha grelhada, espinafre e alho

Graças ao amor incondicional que Anne tem por macarrão, pude criar infinitas receitas de massas. Já que sou obrigada a comer macarrão pelo menos uma vez por semana, procuro criar pratos que me agradem, acrescentando sempre uma dose generosa de legumes. O bom de comer algo que não gosto muito é que sou extremamente exigente com essas receitas e acabei me tornando uma expert em macarrão, o que nem de longe eu sonhava em ser antes de Anne entrar na minha vida. Sabe como é, quando a gente adora um tipo de comida qualquer versão dela (bem preparada ou não) agrada. Eu sou louca por sopa e, independente do que coloco na panela, dificilmente acho o resultado final ruim. Sopa pra mim é uma delícia de qualquer jeito. Já macarrão, que raramente sinto vontade de comer, precisa ser muito, muito bom pra me empolgar.

Pensando nisso resolvi dividir com vocês algumas dicas pra preparar macarrão capaz de empolgar até quem torce o nariz pra ele. Sei que todo mundo sabe como cozinhar esse cereal e ele é um dos primeiros pratos que aprendemos a preparar (em alguns casos, o único). Mas vi tanto macarrão sendo massacrado por aí que achei que algumas dicas seriam mais que úteis. Lá vai:

-Os italianos costumam dizer que fora da Itália cozinhamos o macarrão demais e salgamos a água do cozimento de menos. Pra cozinhar o macarrão nas regras da arte, leve uma grande quantidade de água ao fogo e quando começar a ferver junte uma dose generosa de sal (se você acrescentar o sal no início, a água demorará mais pra ferver). O que significa “uma dose generosa de sal”? Na Itália é costume dizer que a água onde cozinhamos o macarrão deve ser tão salgada quanto o mar Mediterrâneo. Nunca deixo minha água tão salgada quanto o mar, pois tenho pena de estruir tanto sal (afinal aquela água toda vai embora pela pia depois que escorremos o macarrão), mas chego perto. Prove um pouco da água e se não estiver quase tão salgada quanto o mar, junte mais sal.

– Cozinhe o macarrão al dente. Isso significa que ele deve ficar macio, mas ainda ligeiramente firme. Não precisa ter medo de comer macarrão cru no jantar. Durante o processo de escorrer a massa, misturar com o molho (que também deve estar quente) e servir, ela continua cozinhando e quando você começar a comer estará perfeitamente cozida. Pode confiar. Se, ao contrário, você esperar o macarrão cozinhar totalmente antes de escorrer, ele vai acabar passando do ponto. E nada menos apetitoso do que papa de macarrão.

– Antes de escorrer a massa, retire uma xícara da água do cozimento e reserve. Essa água, rica em amido, ajuda o molho a “colar” na massa e também serve pra afinar um molho que ficou espesso demais. Nem sempre uso a água reservada, mas às vezes ela é extremamente útil (principalmente quando uso molhos à base de creme).

– Outra regra de ouro: sempre prepare o molho antes de cozinhar o macarrão. O molho pode esperar (e ser requentado sem problemas), já o macarrão, não. A exceção aqui é macarrão ao alho e óleo, já que o molho fica pronto em segundos e não pode ser requentado.

– A única maneira de fazer com que sua massa não grude é escorrer o macarrão e misturá-lo imediatamente ao molho. Mais uma razão pra fazer o molho antes de cozinhar a massa. Esqueça essa história de colocar óleo na água do cozimento e nem pense em “enxaguar” seu macarrão depois de cozido (além de esfriar o macarrão, o enxague retira o amido que envolve a massa e o molho não vai aderir).

– Cada forma de macarrão casa melhor com um certo tipo de molho, mas acho que é importante levar em consideração suas preferências. Aqui em casa gostamos de usar espaguete com molhos de tomate leves e com legumes ao azeite (como a receita de hoje). Usamos massas longas e chatas, como fettuccini e linguini, com molhos à base de creme e molhos brancos. Já massas curtas, como pene, parafuso e concha, ficam ótimas em saladas frias e em gratinados. Mas se suas preferências são diferentes, siga seu instinto. Minha dica aqui é: esqueça os manuais e escolha a massa que preferir. O mais bacana de fazer a própria comida é que podemos deixa-la exatamente do jeitinho que a gente gosta e garanto que a polícia do macarrão não vai bater na sua porta se você servir espaguete com molho branco.

– Mais uma dica que vai contra a tradição. Sabe como os italianos vivem dizendo que nós (os não italianos) colocamos molho demais no macarrão? É verdade e eu serei a primeira a concordar que isso estraga um pouco o prato. Pra mim três fios de macarrão nadando em uma piscina de molho está mais pra sopa do que outra coisa. Porém macarrão é algo tão pobre em nutrientes (a composição da maioria das massas secas vendidas em supermercados é farinha de trigo e água, ou seja, carboidrato com pouca proteína e praticamente nenhuma vitamina nem mineral) que acho importante juntar uma quantidade boa de ingredientes nutritivos. Não precisa afogar sua massa no molho, mas não tenha medo de carregar nos legumes, leguminosas e ervas. Sua saúde e suas papilas vão agradecer.

– Nem só de parmesão vive o macarrão. Se você é vegano e está a procura de um substituto vegetal saboroso pra esse queijo, ou se você é onívoro/vegetariano, mas gostaria de ampliar seus horizontes em matéria de cobertura pra massas, experimente meu mix de sementes ou meu parmepão. Outra maneira simples e de aumentar o sabor e os nutrientes da sua massa é polvilhá-la com castanhas do Pará raladas.

– E já que estamos falando de ingredientes pra “finalizar” o macarrão pronto, pimenta do reino moída na hora e sal marinho (de preferência em flocos) polvilhados diretamente sobre o prato, no momento de servir, fazem uma imensa diferença no produto final. Pimenta do reino em pó perde seu aroma rapidamente e se você ainda não tem um moinho de pimenta, corra e compre um. E se você tem um azeite extra virgem especial (aquela garrafinha que custou uma fortuna), um fio sobre o prato pronto realçará bastante o sabor de suas massas (com uma exceção: molhos brancos cremosos não precisam da dose extra de azeite).

Agora passemos à receita de hoje. Esse espaguete com abobrinha e espinafre foi a minha adaptação de uma ideia simples que Anne teve outro dia. Lembram que passei duas semanas com o pé enfaixado, com o tendão de Aquiles do pé direito inflamado? Anne acabou preparando vários jantares durante minha convalescência e um deles foi macarrão com abobrinha. Confesso que quando ela anunciou o menu desconfiei que aquilo não ia ser muito bom, mas pra minha surpresa o prato era uma delícia. Desde então preparei esse espaguete várias vezes, mas não pude resistir à tentação de fazer algumas melhoras. Como a criadora do prato aprovou a minha versão, e que esse blog tem poucos pratos com massa, fiquei com vontade de publicar a receita aqui.

Imaginem que um espaguete no alho e óleo se juntou com abobrinhas grelhadas e espinafre cozido. O prato é suculento, perfumado e extremamente saboroso. Eu, que nunca gostei de macarrão no azeite e exigia sempre molho de tomate ou molho branco cremoso na minha massa, estou encantada com essa receita.

Espaguete com abobrinha grelhada, espinafre e alho

Cozinho os legumes na mesma frigideira, em etapas, por isso é importante usar a maior e mais funda que você tiver. Pra transformar essa receita em um prato completo, junte 1x de grão de bico cozinhado (escorrido e temperado com sal) aos legumes antes de acrescentar o macarrão. Também gosto de polvilhar esse prato com castanhas do Pará raladas: fica ainda mais gostoso e nutritivo.

2 abobrinhas pequenas (aproximadamente 5x depois de cortadas)

200g de espinafre

4-8 dentes de alho (de acordo com o seu gosto)

200g de espaguete cru

Azeite, sal e pimenta do reino

Prepare os legumes. Lave as abobrinhas e corte cada uma ao meio, no sentido do comprimento. Em seguida corte cada metade em fatias finas, criando meia luas.  Corte o alho em fatias finíssimas. A quantidade vai depender do seu gosto, mas acho que quanto mais alho você usar, mais saboroso ficará o prato. Lave o espinafre e pique finamente. Aqueça 1cs de azeite em uma frigideira grande e doure as fatias de abobrinha em fogo alto. Mexa bem pra dourar as fatias do outro lado. Esse processo é bem rápido e a abobrinha pode passar de dourado pra queimado em poucos segundos, logo não saia de perto do fogão. Baixe o fogo e deixe cozinhar mais alguns minutos, até ela ficar bem macia. Empurre pros lados da frigideira, despeje um pouquinho de azeite no centro e doure o alho em fogo baixo. Mais uma vez, fique de olho, pois o alho só precisa de alguns segundos pra dourar e queima muito facilmente. Misture o alho frito com as fatias de abobrinha e empurre tudo pra um cantinho da frigideira, deixando espaço pra cozinhar o espinafre. Despeje o espinafre picado (não precisa acrescentar mais azeite) e cozinhe até ele murchar e quase toda a água evaporar. Misture todos os legumes, tempere com sal e pimenta do reino a gosto e reserve, coberto, enquanto cozinha o espaguete. Ferva bastante água em uma panela grande. Quando começar a ferver, junte um dose generosa de sal e o espaguete cru. Cozinhe até ficar al dente (macio, mas ainda ligeiramente firme). Pouco antes do macarrão ficar pronto, aqueça os legumes. Escorra o espaguete e despeje na frigideira com os legumes. Regue com 1cs de azeite e misture bem. Prove e corrija o tempero. Sirva imediatamente, polvilhado com mais pimenta do reino (melhor se for moída na hora) e, se quiser, castanhas do Pará raladas. Rende 2 porções como prato principal.

Esses aqui me fizeram pular

Crepes recheados com creme de tofu, castanha e espinafre e molho de tomate assado.

Acho que já escrevi aqui no blog que tenho uma vizinha palestina-americana que faz stand up comedy e que passa por aqui de vez em quando pra fazer shows na região. Quando ela vem à Belém sempre me contrata como sua “personal chef”, o que significa que durante uma semana eu preparo todas as suas refeições. Além de poder colocar alguma coisa na carteira, é uma oportunidade pra preparar pratos ultra caprichados que eu nunca teria coragem de preparar no dia-a-dia.

Porém o melhor de tudo é o desafio criativo de desenvolver novas receitas e melhorar as antigas. Fazia tempos que eu lapidava uma receita de crepe sem nunca ficar totalmente satisfeita. Mas dessa vez consegui alcançar exatamento o resultado que esperava. Vou poupar vocês do relato do quase desastre que aconteceu na noite que resolvi fazer crepes pra vizinha sem receita, pois nunca me dei o trabalho de anotar as tentativas anteriores, no improviso e às nove horas quando o jantar deveria ser servido às dez em ponto (eu gosto de viver perigosamente) e irei direto à receita. Eu não me empolgo facilmente com os pratos que crio, não exatamente por modéstia, mas porque sou extremamente exigente e perfeccionista na cozinha. Já me aconteceu várias vezes de servir um prato pros convidados e enquanto eles soltavam exclamações admirativas eu pensava com meus botões “Humpf! tá faltando um pouco disso, tem muito daquilo, eu devia ter feito assim…”. Mas de vez em quando, se sinto que acertei a loteria culiária, dou uma risada de bruxa e começo a pular (cada um expressa sua alegria como quer e prefiro não reprimir essas reações bizarras, a menos que tenha gente na cozinha, claro). Esses crepes, amigos, me fizeram dar muitos pulos.

Crepes veganos

Eu estava procurando uma receita de “ricota” vegetal há tempos, mas ao invés de usar tofu amassado, como vi em vários restaurantes vegetarianos, resolvi usar a base da minha receita de patê de tofu. Ela é extremamente cremosa e saborosa, mas neutra o suficiente pra ser combinada com outros ingredientes, nesse caso o espinafre. A mistura não poderia ter ficado melhor e casa perfeitamente com o sabor delicado dos crepes. Embora os crepes recheados sejam deliciosos, a adição do molho de tomate assado acrescentou uma nota viva e leve ao prato e completou a equação. O veredicto? Crepes feitos pros anjinhos no restaurante do paraíso vegano!

A receita parece complicada, mas não é. Tem várias etapas, certo, mas elas podem ser executadas de olhos fechados até por quem não tem muita experiência na cozinha. Tirando, talvez, a confecção dos crepes, mas com um pouquinho de prática você fará crepes com as mãos amarradas nas costas. E pra ganhar tempo, prepare o recheio no dia anterior (ele sobrevive à uma noite na geladeira sem nenhum efeito colateral) e asse os tomates pro molho enquanto faz os crepes. Com o recheio pronto você só vai precisar de 40 minutos antes de sentar à mesa com um prato de deliciosos crepes recheados na sua frente. E posso garantir que eles compensam cada segundo passado na cozinha.

 

Crepes veganos recheados com creme de tofu, castanha e espinafre e molho de tomate assado

A receita é longa, mas você pode dividir as etapas e preparar o recheio no dia anterior. Coloque os tomates pra assar enquanto você faz os crepes e o jantar ficará pronto em meros 40 minutos. Bonus: você não vai precisar de todo o creme de tofu e castanha pra fazer a receita, então você terá um delicioso patê pra passar no pão durante os próximos dias (se quiser junte um pouco de tomates secos e ervas, como expliquei aqui).

Crepes

1 ½ x de leite vegetal (usei meu leite de amêndoas, mas pode ser substituido por leite de soja não adoçado)

1x de farinha de trigo

1cs de azeite (ou óleo de girassol)

1/3 cc (rasa) de sal

1 pitada de cúrcuma (opcional, mas é o que da a cor amarelada tipica dos crepes)

azeite pra untar a frigideira

Recheio

300gr de tofu (quanto mais fresco, melhor)

1/2x de castanha de caju (não tostada e sem sal), de molho por 6 horas

1 cebola picada

2 dentes de alho picados

1cc de levedo de cerveja (se for maltado, o que é o ideal, usar 2cc)

1cs de suco de limão

1cs de azeite

1/2cc (rasa) de sal, ou a gosto

uma pitada generosa de pimenta do reino

1/2x de água

1/2kg de espinafre

1cs de azeite

1 cebola picadinha

Molho

6 tomates bem maduros

1 dente de alho grande

3cs de azeite

sal e pimenta do reino a gosto

Comece preparando o recheio. Aqueça 1cs de azeite e refogue a cebola até ficar dourada. Junte o alho e deixe cozinhar mais 1 minuto. Reserve. Coloque todos os ingredientes do creme (do tofu até a água) no liquidificador. Ligue o motor e adicione a água aos pouquinhos. Será necessário parar o motor algumas vezes e mexer o creme pra que todos os ingredientes sejam triturados. Dependendo da textura do tofu utilizado você precisará de mais ou menos água (o objetivo é atingir a conscistência de um patê espesso e cremoso). Reserve. Lave bem o espinafre e corte em pedaços bem pequenos. Coloque o espinafre picado em uma panela grande, leve ao fogo baixo (não precisa acrescentar azeite nem água) e cozinhe tampado durante 2 minutos, ou o suficiente pra que ele murche ligeiramente. Deixe esfriar e esprema o espinafre entre as mãos, retirando o máximo de água possível. Aqueça 1cs de azeite e doure a cebola picadinha. Misture ao espinafre e tempere com sal e pimenta do reino. Junte metade do creme de tofu e misture bem. Eu gosto de colocar mais espinafre do que creme no recheio, mas use mais creme se preferir o inverso. Prove, corrija o tempeiro e reserve. (Guarde o resto do creme na geladeira e use como patê pra passar no pão).

Prepare o molho. Lave e corte os tomates em 4. Descasque o alho e corte em fatias finas. Espalhe 1cs de azeite em uma forma de vidro (mais fácil de limpar depois), disponha o tomate e o alho por cima e polvilhe um pouco de sal. Regue com mais 1cs de azeite e asse em forno médio-alto até os tomates ficarem bem macios e começarem a se desintegrar (entre 15 e 20 minutos). Deixe esfriar um pouco, transfira tudo pro liquidificador (não esqueça de recolher o líquido que ficou na forma) e triture até ficar homogêneo. Com o motor ligado, despeje 1cs de azeite em fio pra criar uma leve emulsão. Corrija o sal e tempere com pimenta do reino a gosto. Reserve.

Prepare os crepes. Coloque todos os ingredientes no liquidificador e bata até ficar homogêneo. Aqueça uma frigideira anti-aderente rasa. Quando estiver bem quente (mas não fumegando!) espalhe um pouco de azeite (meu método: despejo o equivalente a 1cc de azeite e espalho com papel toalha). Despeje um pouco de massa no centro da frigideira e, usando movimentos circulares, deixe a mistura escorrer e cubrir toda a superfície. Se você não souber fazer crepes desse jeito, despeje um pouco de massa no centro da frigideira e use as costas de uma colher pra espalhar a massa, fazendo uma espiral do centro em direção às bordas. Os crepes devem ficar bem finos e você vai precisar de um pouco de prática pra saber a quantidade exata de massa necessária pra cada um. Quando as bordas do crepe ficarem ligeiramente douradas e despregrarem da frigideira, use uma espátula pra virá-lo e deixe cozinhar do outro lado. Repita a operação com o resto da massa, colocando sempre um pouco de azeite na frigideira entre um crepe e outro.

Montagem. Recheie cada crepe com um pouco do creme de espinafre (a quantidade vai depender do tamanho do seu crepe, mas se eles forem fininhos, como devem ser, não precisa carregar no creme) e enrole como se fosse uma panqueca. Arrume os crepes recheados em uma forma (não precisa untar) e aqueça em forno baixo por alguns minutos (só o suficiente pra aquecer o recheio). Sirva com o molho morno, em porções individuais pra cada pessoa ir mergulhando seus crepes na cumbuquinha de molho enquanto come. Rende 4 porções (se apetites moderados ou se for servido acompanhado de outros pratos).

O prato que servi pra vizinha.

Amor verde

Salada de espinafre com abacate e tomate

Essa semana estarei mais ocupada do que nunca. Além dos projetos (inúmeros e todos voluntários) que coordeno normalmente, estou substituindo um professor da escola maternal francesa de Belém. Passar cinco dias tomando conta de crianças de três anos não me empolga nem um pouco, mas eu já falei que o trabalho que faço aqui é voluntário?  Pois bem, quando aparece um emprego pago eu não posso recusar, mesmo quando o emprego em questão envolve acompanhar criancinhas ao banheiro de cinco em cinco minutos.

Então, pra simplificar minha semana difícil, a receita de hoje é simples: salada de espinafre. Uma das comidas que mais adoro são folhas verdes. Me refiro aqui às folhas verde escuro, como espinafre, couve e cia, não aos diferentes tipos de alface. Sou capaz de comer uma bacia inteira de folhas em segundos, achando aquilo a coisa mais deliciosa do mundo. Agora é inverno na Palestina e as feiras estão cheias dessas maravilhas. Duas vezes por semana volto pra casa com uma montanha de folhas embaixo do braço. Nas compras de ontem trouxe seis tipos diferentes! Minha geladeira anda tão parecida com a selva amazônica que não me surpreenderia se um macaquinho saísse lá de dentro um dia desses.

Não vou entrar nos detalhes nutricionais de folhas verdes pois acredito que todos sabem que esses são provavelmente os alimentos com a maior concentração de vitaminas, minerais, fibras e anti-oxidantes que existe. Sei no entanto que, apesar de todas essas qualidades, folhas verdes não fazem a maioria das pessoas salivar. Mas estamos em janeiro, todo mundo exagerou nas festas de fim de ano e estamos precisando de algo mais leve (e nutritivo) pra nos recuperarmos. Essa salada é tudo que você precisa.

 

Salada de espinafre com abacate e tomate

Aviso importante: essa receita só agradará os amantes de espinafre (e “mato” em geral). Se você não gosta muito da coisa, essa não é a receita que vai fazer você começar a apreciar folhas verdes. Espinafre cozido é mais aconselhado nesse caso, pois o sabor fica mais suave. Depois não digam que não avisei.

Eu preparo o espinafre usando uma técnica que aprendi nos livros de culinária viva. A vantagem de massagear folhas é que elas ganham uma conscistência quase cozida, enquanto que todos os nutrientes são preservados. Se você preferir usar espinafre baby, de gosto mais suave, não precisa massageá-lo. O abacate acrescenta gorduras boas e, junto com o tomate, equilibra o sabor marcante do espinafre. Sempre faço essa salada sem medir os ingredientes, então as proporções aqui são aproximadas. Sinta-se livre pra adaptá-las aos seus gostos.

2 punhados generosos de espinafre (use as duas mãos pra medir)

1 abacate pequeno em cubinhos (cerca de 1x)

2 tomates picados

2 cebolinhas (parte branca e um pouco do verde) picadinhas (cerca de 1/3x)

suco de meio limão pequeno

1cs de azeite

sal marinho e pimenta do reino moída na hora

Lave as folhas de espinafre e pique em pedaços pequenos. Em uma bacia grande, regue o espinafre com metade do suco de limão e uma pitada generosa de sal. Massageie com as mãos até o espinafre muchar e adquirir uma aparencia de cozido (um ou dois minutos são suficientes). Junte o abacate, os tomates, as cebolinhas, regue com o azeite  e tempere com sal (lembre-se que o espinafre já está salgado) e pimenta do reino. Misture bem e prove o tempero. Junte  o resto do suco de limão e/ou mais azeite se achar necessário. Rende… depende do seu amor por espinafre. Eu como essa porção sozinha e pode me chamar de Popeye que eu respondo.

Você merece lasanha

Minha lasanha preferida

Foi uma semana difícil. Daquelas em que nada dá certo e os problemas não param de se multiplicar. A nuvem negra foi tão pesada que atingiu até minha cozinha. Fiz um bolo de maçã que foi parar no lixo (apesar da minha consciência ter doído, como acontece sempre que desperdiço comida) e almocei paratha (um pão indiano) cru, pois a receita não deu certo e a massa não assou direito (depois do episódio do bolo, não tive coragem de estragar comida pela segunda vez na mesma semana). Torço pra que o culpado disso tudo seja o tal do inferno astral, já que meu aniversário está próximo. Mas sem querer esperar a mudança de idade pra ver o fim dessa onda de acontecimentos negativos, resolvi tomar meu destino em mãos e melhorar a situação imediatamente. Fazendo lasanha. Continuar lendo “Você merece lasanha”