Archives for posts with tag: cenoura

Quinoa: vermelha e amarela

Tem um grande amigo meu de passagem na cidade e antes de sair do seu habitat (as florestas do norte da França) pro meu (os confins do Oriente Médio), ele teve a gentileza de me perguntar se eu queria que ele trouxesse algo pra mim, algo que eu não encontro aqui. Adoro quando me fazem essa pergunta e tratei logo de preparar uma lista, o que obrigou meu amigo a fazer sua primeira visita à uma loja de produtos orgânicos. Ele chegou aqui dizendo que descobriu um mundo novo, exatamente como aconteceu comigo alguns anos atrás. Só tem um problema: ele não sabe como preparar nada desse mundo novo. Depois dessa conversa tive uma ideia: incluir outros produtos, além de vegetais, na série “Como preparar…”.

Quinoa (ou quinua, na ortografia original) é o cereal que comemos com mais frequência aqui em casa (botanicamente falando não é um cereal, mas isso é um detalhe sem importância). É integral, rica em proteínas e minerais (100gr de quinoa tem: 15g de proteínas, 68g de carboidratos, 286mg de fósforo, 112mg de cálcio, 9,5mg de ferro), uma boa fonte de fibras e fica pronta em poucos minutos. E o melhor de tudo: quinoa é uma proteína completa. O único ponto negativo é seu preço, mas tenho esperanças que quando o cultivo dessa planta aumentar no nosso país, o preço vai baixar consideravelmente. Pelo que descobri na Wikipédia “…o Brasil apresenta um enorme potencial para produzir a quinoa na região central, mais árida – pois a planta não exige muita chuva e pode ser cultivada na entressafra da soja – bem como nas áreas mais altas e frias da região sul. A quinoa também apresenta um bom resultado como cultura de verão nas entressafras; por ser botanicamente diferente das espécies nativas, é mais resistente às pragas e doenças que ficam nos restos de cultura e plantas espontâneas, diminuindo seu impacto negativo.” Maravilha! Além de deliciosa, prática e nutritiva, quinoa é ecológica!

Segue então explicações sobre como preparar quinoa e duas receitas simples. Quinoa com legumes e molho de tahina é o almoço que tenho comido com mais frequência nos últimos meses. Ano passado Anne passou umas semanas longe de casa, a trabalho, e voltou dizendo que quinoa com tahina tinha sido a base da sua alimentação durante esse tempo. Achei a ideia estranha, mas ela elogiou tanto a mistura que resolvi experimentar. Desde então não se passou uma semana sem que o prato, com dezenas de variações, aparecesse na nossa mesa. Adapte a receita ao seu gosto, usando seus  legumes preferidos, ou os que achar na geladeira. Garanto não tem como dar errado.

Como cozinhar quinoa

1/3x de quinoa (qualquer cor: amarela, vermelha ou preta)

1x de água

1/4cc de sal

 Em uma panela pequena (a menor que você tiver) misture a quinoa com a água e o sal e leve ao fogo alto. Quando começar a ferver baixe o fogo e deixe cozinhar 15 minutos. Não cubra a panela nem aumente o fogo, ou a quinoa vai derramar. Quando a água tiver evaporado completamente e a quinoa estiver macia (dependendo do tamanho da sua panela você vai precisar juntar um pouco mais de água: quanto maior a panela mais rápido a evaporação) desligue o fogo e deixe descansar coberto 5 minutos antes de servir. A quinoa está cozida quando estiver macia, mas ligeiramente firme (cozinhado demais ela vira papa), e o germe ficar exposto.  O germe é o interior do grão e parece com um “rabinho” em forma de vírgula (clique na foto abaixo pra ver melhor). Rende 1 1/3x de quinoa cozida.

Quinoa com brócolis, abobrinha e tomate, molho de tahina

 1 1/3x de quinoa cozida (receita acima)

1 cebola em tirinhas

1 dente de alho picado

2x de brócolis em pedaços pequenos

1x de abobrinha em pedaços pequenos

1x de tomate em cubinhos

2cs de azeite

sal e pimenta do reino a gosto

molho de tahina (veja receita no final da página)

Aqueça o azeite e refogue a cebola durante alguns minutos. Junte o brócolis, a abobrinha, o alho e sal a gosto. Cozinhe tampado (sem acrescentar água) até os legumes ficarem macios (eu gosto dos meus legumes “al dente”). Desligue o fogo e junte o tomate (que deve permanecer cru). Corrija o sal e junte uma pitada generosa de pimenta do reino. Sirva ao lado da quinoa, com o molho de tahina. Aqui em casa gosto de misturar os legumes com a quinoa e servir com uma boa dose de molho por cima. Se sua quinoa tiver sido preparado antes e estiver fria, o segundo método é ideal pois vai aquecê-lo. Serve duas porções generosas.

 

Quinoa com couve, cenoura e brócolis, molho tahina

1 1/3x de quinoa cozida (receita acima)

1 cebola em tirinhas

1 dente de alho picado

2x de brócolis em pedaços pequenos

1 cenoura pequena em rodelas finas

2x de couve em tirinhas finas

1 punhado de salsinha ou coentro picado

2cs de azeite

sal e pimenta do reino a gosto

molho de tahina (veja receita no final da página)

 Aqueça o azeite e refogue a cebola durante alguns minutos. Junte a cenoura e cozinhe tampado durante 4 minutos. Junte o brócolis e o alho e cozinhe (sempre tampado) por mais 5 minutos. Junte a couve e cozinhe mais um minuto. Acrescentados nessa ordem os legumes vão cozinhar por igual, mas continuar ligeiramente crocantes. Adapte o tempo de cozimento se quiser legumes mais macios. Tempere com sal e pimenta do reino a gosto, junte a salsinha, a quinoa (deixe aquecer alguns minutos coberto, se ele estiver frio) e sirva com o molho de tahina por cima. Serve duas porções generosas.

Molho de tahina

4 cs (rasas) de tahina

2 cs de suco de limão

3 cs de água

¼ cc de sal

pimenta do reino a gosto

Misture a tahina com o liquido (junto 1cs por vez) e bata vigorosamente até ficar cremoso. Se ficar muito espesso junte um pouco mais de água (o molho deve ficar um pouco mais líquido que maionese). Tempere com sal e pimenta do reino.

Depois do merecido chocolate quente, voltemos aos nossos legumes. Cenoura é um dos poucos legumes que são unanimidade: quase todo mundo gosta. Mas ser apreciada por todos não é sempre uma vantagem. Sem precisar fazer esforços criativos pra transformar a cenoura em algo interessante, afinal ela agrada a todos, os cozinheiros não costumam dar uma atenção especial à probrezinha. Na minha família cenoura só era preparada de duas maneiras: cozida no vapor junto com outros legumes, que acabavam todos envolvidos em uma espessa camada de maionese, ou ralada e misturada a outras verduras cruas na salada. (Uma das minhas primas gosta de preparar bolos de cenoura, mas quando ela se tornou nossa vizinha e passou a dividir regularmente sua produção de bolos conosco, eu fui morar no velho mundo e não pude aproveitar essa delícia.)

Felizmente acabei descobrindo maneiras mais interessantes de preparar cenouras. Aqui na Palestina as mulheres preparam cenouras recheadas com arroz e carne. Eu sei, parece absurdo (e impossível) rechear cenouras, mas elas têm uma “ferramenta” especial pra cavar o interior dos legumes e são capazes de rechear qualquer coisa. Por razões óbvias, nunca provei a tal cenoura recheada, mas quando posso me delicio com outra especialidade local: suco de cenoura fresco (sem água e sem açúcar, 100% cenoura!). Além de ser vendido em quase todo restaurante e lanchonete, em alguns lugares têm até vendedores ambulantes de suco de cenoura. Aqui só tem carência de vitamina A quem quer (100gr de cenoura oferece mais de 600% da vitamina A que precisamos por dia)!

As duas receitas que seguem são minhas maneiras preferidas de preparar cenoura. Elas ficam prontas em poucos minutos, usam um mínimo de ingredientes e deixam o sabor delicado brilhar com toda sua força. Cozinhar cenoura no vapor não tá com nada! Ela fica muito melhor se salteada em um pouco de azeite até ficar ligeiramente caramelizada, depois misturada com uma boa dose de alho e coentro. Sei que todo mundo sabe preparar cenoura ralada (tsc, tsc, tsc… daqui a pouco vou ensinar como passar margarina no pão) mas essa receita produz cenoura ralada de luxo, que fala francês e tudo! Os franceses preparam as melhores cenouras raladas do mundo inteiro e você vai precisar provar pra crer como uma coisa tão banal pode ser tão saborosa. Ao ralar a cenoura bem fininha, você vai liberar um pouco do seu suco adocicado, que se misturará com o molho e… bem, só provando pra entender.

Cenoura ralada à la francesa

Quanto melhor a cenoura, melhor o resultado final. Se puder usar cenouras orgânicas, como as da primeira foto (cenouras irlandesas, lembra?), melhor ainda. O ideal é usar vinagre de cidra (não confundir com vinagre de álcool perfumado com maçã), que é bem suave e se harmonisa com o sabor da cenoura. Se não encontar esse ingrediente, substitua por vinagre balsâmico.

1 cenoura  média (orgânica, se possível)

2cs de salsinha fresca picada

2cc de vinagre de cidra (ou balsâmico)

4cc de azeite

1/3cc de mostarda de dijon (opcional, só use se gostar)

sal à gosto

Lave bem a cenoura (os franceses sempre descascam as cenouras, mas eu nunca faço isso) e rale usando os menores furinhos do seu ralo. A cenoura tem que ser ralada bem fininho pra liberar mais sabor e um pouco do suco. Transfira a cenoura ralada pro prato onde for servir e misture com a salsinha picada. A parte, misture o vinagre, o azeite e a mostarda até ficar cremoso. Despeje sobre a cenoura e mexa bem. Sirva imediatamente. Rende 1 porção.

Cenoura salteada

Adoro essas cenouras com coentro, mas você pode usar salsinha se preferir.

2 cenouras médias

1 dente de alho

2cs de azeite

1 punhadinho de coentro

sal e pimenta do reino a gosto

Lave as cenouras (descasque, se quiser) e corte-as em rodelas fininhas. Em uma frigideira funda e com tampa, aqueça o azeite e refogue as cenouras. Cubra a frigideira e deixe cozinhar alguns minutos em fogo baixo (não acrescente água). Enquanto isso pique o alho e o coentro. Quando as cenouras tiverem amolecido um pouco (cerca de 5 minutos) junte o alho picado e mexa bem. Tampe e deixe cozinhar (mexendo de vez em quando, sempre em fogo baixo) até as cenouras ficarem macias e dourada em alguns lugares. Desligue o fogo, junte o coentro e tempere com sal e pimenta do reino. Sirva quente. Rende 2 porções.

Sopa de cenoura e laranja

Há alguns dias comentei que um casal de amigos americanos veio jantar aqui em casa. Publiquei a sobremesa que servi pra eles aqui e hoje vou dividir com vocês a entrada que preparei naquele dia. Adoraria dividir a receita do prato principal, a verdadeira estrela da noite, mas isso terá que esperar até eu descobrir como fazer uma lasanha branca parecer apetitosa nas fotos (as tentativas que fiz até então foram desastrosas).

Mas antes de falar da sopa queria falar um pouco dos amigos. Uma das coisas que mais gosto aqui é poder encontrar gente do mundo inteiro e com horizontes tão diferentes. Você já ouviu falar nos “freegans”? Quem não conhece o freeganismo pode se informar com a mãe dos interessados. Vai lá, eu espero. Pois bem, esses amigos foram freegans durante anos nos EUA. Agoram que moram em Jerusalem, e trabalham em uma ONG internacional que cobre suas despesas com moradia e alimentação, eles abandonaram (temporariamente) esse modo de vida. Mas como a responsabilidade com o meio ambiente e o cuidado com a saúde ocupam um lugar essencial em suas vidas, eles continuam sem comer nenhum tipo de animal, com excessão das vezes em que são convidados e que a carne faz parte do menu. Eles se sentem mal quando recusam um prato preparado especialmente pra eles e preferem não ofender  o anfitrião. Eu encontro cada vez mais onívoros que tomaram consciência do que o consumo de carne significa (ruim pra saúde, péssimo pro meio ambiente) e que decidiram que carne pra eles é um luxo que deve ser aproveitado só de vez em quando. Tenho um amigo francês que seguiu o mesmo rumo e acabou levando a esposa também (Oi, Cédric! Oi, Lílian!). Encontrei alemães que só comiam carne se soubessem de onde ela vinha e tivessem a certeza que ela era orgânica e que o animal tinha sido criado em liberdade. Na prática isso significava que eles só comiam carne duas ou três vezes por ano, quando visitavam a fazenda dos pais.  O número de onívoros que não comem mais carne em casa, só quando vão ao restaurante, não pára de aumentar. Mesmo entre os “gourmets”, que sempre acreditaram que a carne ocupava o lugar principal na alta gastronomia, o consumo de carne está diminuindo e descobrir novas maneiras de utilizar vegetais virou tendência.

Fico muito feliz em ver que alguns onívoros estão adotando um consumo de carne responsável. Embora o meu coração deseje um mundo vegano, sei que pra muitas pessoas a idéia de nunca mais comer carne é simplesmente impensável. Aceito isso. Mas o que me deixa indignada são onívoros com comportamento de avestruz, que não sabem, não querem saber e têm raiva de quem tenta explicar que esse modo de vida é uma verdadeira catástrofe ambiental. Os “onívoros responsáveis” que conheço também adoram carne e apreciam um belo bife, exatamente como os “onívoros irresponsáveis/avestruzes”, mas eles deixam a razão, não o estômago, guiar suas escolhas. Sei que grande parte dos meus leitores não é veg, então gostaria de fazer um pedido: seja um onívoro responsável você também.

Agora voltemos à sopa do início do texto. Quando faço jantares em casa, geralmente sirvo salada ou algum tipo de patê e legumes crus na entrada. Porém fiz esse jantar naquela semana em que o aquecedor estava quebrado e fazia mais frio dentro de casa do que lá fora. Tudo que eu queria era uma sopinha pra aquecer o corpo. Como o prato principal era mais que robusto a sopa tinha que ser ultra leve. Sopa de cenoura e laranja foi a solução ideal: leve, saborosa e interessante o suficiente pra servir pra convidados. A combinação de sabores é inusitada, mas nossos amigos e eu adoramos. Já Anne não se entusiasmou tanto com a sopa, ela achou os sabores “estranhos”. Então fica o aviso: se for cozinhar pra pessoas que não são muito abertas à inovações gastronômicas talvez seja melhor escolher algo mais convencional.

Sopa de cenoura e laranja

Essa é uma sopa leve, perfeita pra servir antes de um prato robusto. Caramelizar a cenoura antes de acrescentar a água é essencial pois isso amplifia o seu sabor. A laranja se harmoniza perfeitamente com a cenoura e o resultado final é uma sopa intensa e viva.  Um prato extremamente simples mas interessante. Se você fizer essa sopa no verão sirva gelada em copinhos e você terá uma entrada refrescante.

1 cebola pequena

1 dente de alho

6x de cenouras em rodelas finas

1 litro de água

1 cubo de caldo de legumes (de preferência orgânico e sem conservantes)

Raspas de 1 laranja

Suco de 2 laranjas

2cs de azeite

Sal e pimenta do reino à gosto

Em uma panela grande, aqueça o azeite e refogue a cebola até ficar dourada. Junte o alho e a cenoura em rodelas, tampe e deixe cozinhar no vapor da panela, mexendo de vez em quando. Quando as cenouras estiverem ligeiramente caramelizadas (algumas vão pregar no fundo da panela, mexa bem pra desgrudá-las) junte o caldo de legumes e a água. Deixe cozinhar coberto até as cenouras amolecerem completamente. Deixe a sopa amornar e passe no liquidificador até ficar cremosa e sem nenhum pedacinho de cenoura visível. Devolva a sopa pra panela, junte o suco e as raspas de laranja e aqueça em forno baixo. Prove e junte uma pitada generosa de pimenta do reino e um pouco de sal, se achar necéssário (cuidado com o excesso de sal, o doce da cenoura e da laranja deve predominar). Serve 4-6 porções como entrada. Sirva em cumbucas pequenas e decore cada uma com folhas de salsinha.