Posts de categoria: Café da manhã e lanche

Alguns dias atrás o curso de Árabe que vim fazer aqui em Beirute terminou. Foram só cinco semanas, mas o alívio que senti no último dia de aula foi grande. Eu já tinha esquecido o que significa acordar cedo pra ir pra escola e passar a maior parte do seu dia sentada, olhando pra lousa ou pros cadernos. Mas adorei ter feito esse curso, pois aprendi, enfim!, a escrever e a ler em Árabe e conheci pessoas maravilhosas que espero manter na minha vida. E foi uma grande lição de humildade ser alfabetizada novamente aos 34 anos e ter que ler, na frente do professor e de uma sala repleta de alunos, com a mesma dificuldade e na mesma velocidade de quando eu tinha 6 anos (“b…b…ba…r…c…bar…co. Barco!). Aprender uma língua estrangeira depois de adulta é difícil, mas aprender uma língua estrangeira que tem um alfabeto completamente diferente do seu e que ainda por cima se escreve na direção oposta é como contratar um personnal trainer pros seus neurônios. Eles vão sofrer, suar, se esbaforir e quase colocar os bofes pra fora, mas sairão da experiência mais fortes e em melhor forma. Eu e meus coleguinhas de curso estamos nos sentindo muito mais sabidos agora do que cinco semanas atrás. Nos encontramos na rua e nos olhamos com respeito mútuo, pois fazemos parte do grupo que conseguiu conjugar os prefixos e sufixos do sistema verbal árabe- gênero, número, tempo e grau de probabilidade- escritos com letras que se metamorfoseiam de acordo com a posição dentro da palavra e que ainda por cima se escreve da direita pra esquerda!

Além de ter colocado meus neurônios em treinamento intensivo, pude sentir na pele o que já sabia de maneira teórica: comida tem um papel fundamental no aprendizado. O que faz com que a historinha do personnal trainer de neurônios seja ainda mais verdadeira. Sabe a obsessão que o mundo do fitness tem com a comida pré e pós treino? Deveríamos ter a mesma preocupação com a comida que entra no nosso corpo antes e depois do estudo.

Minha vida de estudante no Brasil tinha um cardápio bem diferente do que como hoje. Pequena, eu comia tapioca, cuscuz ou pão com mortadela (mortadela!!! haha). Durante a adolescência a coisa piorou ainda mais e meu café da manhã passou a ser coxinha fria com café preto (de mortadela à coxinha! hahahahaha!). Embora as referências políticas do meu café da manhã me façam rir hoje (tudo piada, gente! Veganas, por razões óbvias, não simpatizam nem com mortadela nem com coxinha ; ), meu pobre cérebro teve que funcionar durante anos e anos com uma carga de nutrientes bem pequena.

Nos anos de faculdade eu morava em Paris e as coisas mudaram bastante, embora não necessariamente pra melhor. Meu café da manhã era brioche, pão de leite ou outro pão branco com manteiga, queijo, muito queijo e café com leite. Mais pra frente troquei o pão branco por pão de forma integral com cereais, o que na época me parecia ser supra sumo da alimentação saudável, mas hoje vejo isso como uma melhora bem pequena levando em consideração que o resto continuou o mesmo.

Embora os cafés descritos acima fossem bem diferentes, os resultados eram mais ou menos os mesmos. Eu quase sempre saía de casa com o estômago pesado, mas curiosamente antes das 10h a barriga já estava roncando. Graças aos conhecimentos em nutrição que adquiri durante os últimos anos entendi o que estava fazendo errado e adotei uma refeição matinal que me nutre e sacia por várias horas. Sinto uma diferença imensa no meu nível de energia durante o dia quando estou viajando e, por não poder preparar meu café da manhã típico, acabo me alimentando mal pela manhã.

Ir pra escola depois de ter consumido um café da manhã pobre, depois do longo jejum da noite e esperar que seu cérebro tenha um desempenho optimal é loucura. Sem entrar nos detalhes do que uma criança ou adolescente deveria consumir antes de ir pra escola, porque sairia do tema desse post e do meu domínio de competência, vou me concentrar no que essa adulta aqui, que voltou a estudar, precisa pra sentir seu cérebro funcionando a todo vapor e seu estômago saciado até a hora do almoço. Espero que ajude e inspire os outros adultos lendo esse blog.

Depois que voltei pra escola percebi que minha adorada, idolatrada, salve!, salve! papa de aveia sozinha não era mais suficiente pra me saciar até a hora do almoço. Embora minhas papas sejam uma refeição completa e equilibrada, pois acrescento vários outros ingredientes à aveia, eu como uma porção relativamente modesta. Comer uma porção maior teria resolvido o problema, mas não consigo comer algo doce em grandes quantidades, logo é difícil pra mim engolir um pratão de papa de uma vez. Incluir uma fatia de pão integral com hummus na refeição seria outra solução, mas além de tentar comer o mínimo de pão possível (meu estômago é mais feliz sem glúten), aqui em Beirute já como hummus com bastante frequência no almoço. Como senti que precisava aumentar a quantidade de proteína do meu café, pois ela é uma das grandes responsáveis pela saciedade (expliquei tudo sobre como se sentir saciado com uma alimentação vegana nesse post), comecei a preparar omelete de grão de bico pra acompanhar a minha papa. Bingo!

Incrível como uma cumbuquinha de papa de aveia mais meio omelete de grão de bico (a outra metade ia pra Anne) ingeridos às 8h me deixa saciada e feliz até as 12h, sem no entanto pesar no estômago nem me fazer sentir lenta e sonolenta, que é o que acontece quando como pão de manhã. Aproveito pra dizer que percebi o que muita gente já deve saber: hidratar o corpo de manhã é indispensável, pois é possível confundir sede com fome, por mais estranho que isso possa parecer. Eu começo o dia com um limão espremido em um copo grande com água ou água de kefir (geralmente uma mistura das duas). É a primeira coisa que faço quando saio da cama e só depois vou preparar o café, tomar banho, me vestir, comer. Pra mim é indispensável seguir essa ordem, pois como o copo de água com limão é grande (acordo com muita sede), preciso de um tempinho entre o momento em que todo esse líquido entra no meu corpo e o momento em que sento pra degustar minha refeição matinal, senão fica difícil acomodar os dois no estômago. Antigamente eu tomava um copão de suco verde pela manhã, mas como não tenho liquidificador em casa e minha vida de nômade com orçamento limitado me impede de sair comprando um liquidificador pra cada casa nova que me acolhe, hoje em dia me contento com limão e água de kefir.

Outra coisa fantástica que descobri depois que me mudei pra Beirute: tahina na papa de aveia é uma delícia! Sabem como é, a necessidade é a mãe da criatividade. Justamente por não ter liquidificador, não posso fazer meus leites vegetais em casa e fui obrigada a procurar leites vegetais prontos. A oferta aqui é grande e consigo achar, pertinho de casa, leite orgânico de soja, arroz, amêndoas… Mas os preços são bem elevados. Como o Líbano produz a melhor tahina do mundo (junto com a tahina palestina) e que esse produto é bem barato aqui, pensei: “Se eu cozinhar a papa na água e acrescentar colheradas de tahina, é como se tivesse usado leite de gergelim!” E além de resolver o problema do leite vegetal, ganhei um super bônus: muito cálcio. Gergelim (e, consequentemente, tahina, que nada mais é do que gergelim moído até se tornar uma pasta) é extremamente rico em cálcio. E como uma fonte de gordura boa é igualmente indispensável pra dar saciedade, a tahina cumpre três papeis ao mesmo tempo. É meu substituto de leite vegetal, enriquece a papa com cálcio e é uma fonte de gordura boa. Geralmente o óleo de coco é a gordura boa das minhas papas, mas esse é outro ingrediente extremamente caro por aqui. Tento me alimentar da maneira mais local possível (melhor pro meio ambiente e pro bolso também!), então fazia mais sentindo usar um ingrediente local que é abundante, barato e delicioso. Se você usar a criatividade e tirar proveito dos alimentos locais, alimentação vegana pode ser sempre barata. E eu, que não paro de mudar de país, nunca deixo de me maravilhar com o imenso leque de possibilidades que o reino vegetal oferece.

E foi assim que nasceu essa variação árabe da minha papa de aveia clássica. A inspiração é árabe por causa dos ingredientes, mas na verdade ninguém aqui come papa de aveia e lógico que essa não é uma receita tradicional.

Como expliquei, faço essa receita só com água e tahina e o sabor fica bem intenso. Já testei com uma mistura de água e leite vegetal (de arroz ou soja) e ficou bem mais suave, então é essa versão que compartilho abaixo. Gosto de servir essa papa salpicada de nozes tostadas, porque é outro ingrediente típico daqui e porque elas aumentam a dose de proteína, gordura boa e ômega 3 da receita. E falando em ômega 3, aproveito pra relembrar que esse nutriente, importantíssimo pra qualquer pessoa, não pode ficar de fora da alimentação dos estudantes. Por isso sempre incluo semente de chia na minha papa. Pode até ser psicológico, mas acho que um café da manhã rico em ômega 3 me deixa mais inteligente.

Termino lembrando que escrevi esse post explicando tintin por tintin porque o café da manhã é tão importante, não só pra quem estuda, e vale a pena ler de novo. E se quiser ver mais receitas nutritivas e saborosas pra manhã é só clicar na página “Receitas” no cabeçalho e conferir a seção “café da manhã”.

 IMG_0499

Papa de aveia árabe (com tahina)

Tahina pode ser fluida e quase líquida, como as que encontramos no Líbano e na Palestina, ou bem densa e compacta, como as que encontramos nas lojas de produtos naturais. Adapte a quantidade de tahina nessa receita de acordo com o tipo que você tiver em casa e com as suas preferências. Gergelim tem um sabor delicadamente amargo que uns adoram e outros detestam. Se você gosta de tahina, vai adorar essa papa. Se não gosta, mas quer aprender a gostar, essa não é a receita ideal pra você, pois o amargor da tahina é bem presente aqui. Sugiro receitas como hummus e mutabbal, que também usam tahina, mas com resultados bem mais sutis. E se tahina não for a sua praia, publiquei outras receitas de papas deliciosas aqui, aqui e aqui.

1/2 x de aveia em flocos (finos ou grossos)

1 cs de chia

1 banana madura

1/2 x de leite vegetal (arroz, aveia, amêndoa, coco, soja…)

1 cc rasa de canela, ou a gosto

1 pitada de sal

Melado a gosto – opcional (se, como eu, você mora no Oriente Médio, melado de tâmara ou alfarroba deixa tudo ainda mais “árabe” e são ingredientes locais)

1-2 cs de tahina (leia explicações acima)

Um punhado de nozes – opcional

Na véspera, coloque a aveia e a chia em um recipiente pequeno, com tampa, e cubra com 1 xícara de água. Misture bem, tampe e deixe na geladeira durante a noite. Esse passo é opcional, mas vai deixar a sua aveia mais cremosa usando menos líquido e a papa vai ficar pronta muito mais rápido (quem estuda cedo não tem muito tempo pra cozinhar de manhã!).

Na manhã seguinte amasse a banana e transfira pra uma panela pequena. Junte a aveia/chia dormida, o leite vegetal, a canela, o sal e o melado, se estiver usando (entre 1cc e 1cs, dependendo da intensidade de doçura que você quiser). Leve ao fogo baixo e cozinhe por alguns minutos, mexendo de vez em quando, até a papa começar a borbulhar. Junte a tahina e misture bem pra incorporar. Se sua tahine for do tipo espessa e compacta vai ser preciso dissolve-la em um pouco de água/leite vegetal antes, senão vai ser difícil incorpora-la à papa de maneira uniforme. Depois de juntar a tahina a papa vai engrossar um pouco, então nesse ponto eu acrescento mais água ou leite vegetal (entre 1/3x e 1/2x), pois gosto da minha papa fluida e cremosa. Adapte a quantidade de líquido pra atingir a consistência que você preferir. Desligue o fogo e sirva imediatamente, salpicada de nozes (tostadas a seco elas são ainda mais saborosas). Rende 1 porção estudante ou 2 porções pequenas (pra quem gosta de comer outras coisas além da papa no café da manhã).

Quando me mudei pra Londres, em Março, trabalhei por alguns meses em um café vegano/vegetariano. Nada indicava a ausência de carne no nome do café (Moveable Feast) e apesar de ter uma plaquinha do lado da entrada dizendo que aquele era um café vegetariano, quase ninguém se dava o trabalho de ler. Então apesar de boa parte dos clientes ser veg, muitos onívoros iam parar ali desavisados. Todo os dias aparecia gente pedindo um burrito de frango (eu cozinhava a parte de inspiração mexicana -e totalmente vegana- do menu), ou perguntando que tipo de carne nós servíamos.

Gente do céu, a reação de algumas pessoas quando eu dizia que não tinha carne nenhuma no cardápio era coisa de cinema! Tinha gente que saía correndo a toda velocidade, como se eu tivesse uma doença contagiosa. Tinha gente que caía na gargalhada, enquanto eu repetia, muito séria, que estava falando a verdade. Teve um cliente que riu tanto, enquanto repetia “Não tem carne! HAHAHAHAHAHA! Essa foi a melhor do dia!” que tenho certeza que ele pensava que tinha uma câmera escondida atrás do balcão. Tinha gente que se ofendia profundamente e eu podia ler nos olhos deles algo como: “Como vocês tiveram a AUDÁCIA de abrir um restaurante sem carne? Que despautério! Que absurdo!”

O que achei mais interessante nisso tudo é que as reações mais negativas vinham quase sempre de homens. Eles eram os mais ofendidos, os mais indignados e os que sentiam a absoluta necessidade de me dizer: “Eu PRECISO de carne”. Depois de alguns meses trabalhando no café percebi como os homens são muito mais resistentes à ideia de comer comida vegetariana/vegana do que mulheres, mesmo que seja somente uma única refeição. Trabalhar no café foi uma verdadeira experiência antropológica.

Justiça seja feita, vários homens que chegaram pedindo carne reagiram de maneira extremamente positiva ao saber que o café era vegetariano (“A comida é vegetariana? Por que não?” ou “Vou experimentar! Assim como algo diferente.”). Depois de ver tanto homem reagir de maneira negativa, confesso que eu ficava com vontade de abraçar os moços de mente aberta. E também aconteceu de algumas mulheres reagirem de maneira menos educada, exibindo um dos comportamentos citados acima. Mas a maioria das mulheres tinha uma atitude aberta e quando eu explicava que eu só cozinhava comida vegetal elas abriam um sorriso e diziam: “Nossa! Que bacana!” Elas geralmente se empolgavam com a ideia de comer algo diferente. E mesmo quando não se interessavam pela comida por ser vegetariana, elas se contentavam em dizer um: “Não, obrigada” e iam embora na maior tranquilidade.

Conclusão do meu estudo antropológico no café: mulher, mesmo onívora, é mais aberta à ideia de comer algo vegano e até se empolga com a novidade. Já 7,5 em cada 10 homens onívoros que entraram nesse café, de acordo com o meu cálculo nada científico, acham a ideia de fazer uma única refeição sem carne tão absurda (ou perigosa) quanto defender um pênalti sem proteger o entreperna com as mãos.

Apesar de ter conseguido manter a compostura sempre, de tanto ver as mesmas reações se repetirem eu acabei elaborando algumas respostas que me faziam rir muito sozinha.

Pros que escutavam a palavra “vegetariano” e saíam correndo desembestados, como se veganismo fosse uma doença contagiosa, eu queria dizer: “Você pode tentar fugir o quanto quiser, mas nós sabemos onde você mora! Nós sabemos onde você trabalha! Nós temos o endereço da sua mãe! Mais cedo ou mais tarde o veganismo vai te pegar!”

Pras pessoas que caíam na gargalhada (cínica), como se um restaurante ser vegetariano fosse a maior piada do universo, eu queria dizer: “HAAAAAAA! Pegadinha do Malandro! Você caiu direitinho, hein? HAHAHAHAHA! Claro que nós temos carne……..(incorporando Vandinha Adams) humana.”

 Pro pessoal que só ia embora depois de me explicar: “Eu PRECISO de carne! PRECISO do meu bife!”, eu gostaria de dizer: “Perdoe a ignorância, eu confundi você com um humano. Claro que você faz parte de uma outra espécie, aquela que quando faz uma única refeição sem carne se desintegra instantaneamente.”

Continuo fazendo comida mexicana vegana pra mesma (micro) empresa,  mas saímos do café e atualmente preparamos nossos burritos, tacos e afins em festivais de comida. Nesses locais todas as outras barracas, sem excessão, vendem carne. Muita, muita carne. De vários animais diferentes. Mesmo assim algumas pessoas se revoltam quando descobrem que nossos burritos são veganos, algumas até fazendo sugestões do tipo: “Vocês deviam oferecer mais variedade, fazer metade dos pratos vegetarianos e metade com carne.” Que absolutamente todas as outras barracas oferecem carne não parece nunca ser suficiente.

 A reação mais absurda que presenciei aconteceu duas semanas atrás. Um homem chegou perguntando que tipo de carne eu cozinhava. Depois de ter explicar longamente que a comida era toda vegana, mas que era tudo preparado com muito amor e sabor e que talvez ele fosse gostar de provar algo diferente, ele acabou pedindo um burrito. Mas quando o recebeu declarou: “Eu vou comer, mas vou fingir que um porco foi abatido.”

Na hora suspirei e pensei: “Irmão, procure ajuda que isso é doença.” Mas depois de matutar com calma sobre o ocorrido fiquei foi com pena do camarada. Que triste ver a que ponto uma pessoa pode se sentir desconfortável com a ideia de se fazer uma só refeição sem causar sofrimento e morte de animais. Tão desconfortável que ele precisou fazer essa piada de mau gosto pra provocar os veganos ali presentes (já pensou como ia ficar a reputação dele se um migucho carnívoro o visse atracado com um burrito vegano???).

Pra esse pessoal que gosta de provocar e ridicularizar veganos (insegurança, tadinhos, eu sei…), eu tenho vontade de dizer: “Você tá se achando super engraçado porque tirou sarro dos veganos, né? Amigo, piadas como essa eu como com farinha! Já escutei tantas que a única coisa que você provoca em mim é pena. Onívoro fazendo piada de mau gosto com vegano é tão sem originalidade que ficou demodê. “

Felizmente na maior parte do tempo vivi momentos lindos no meu trabalho aqui, mas isso é assunto pra outro post.

 Agora passemos à minha obsessão do momento. Acreditem, quando não estou ocupando o meu tempo bolando respostas imaginárias como as que descrevi acima, estou na cozinha fazendo omelete de grão de bico. Eu já publiquei uma receita de omelete de grão de bico (na verdade duas) usando o grão cru, demolhado, aqui no blog. Mas também mencionei que era possível fazer omelete usando a farinha de grão de bico. Desde então recebi vários pedidos pra publicar a receita usando a farinha.

 Antes eu preferia a receita com grão de bico demolhado, mas desde que me mudei pra Londres a receita com farinha é a única que uso, então acabei aperfeiçoando a técnica até conseguir os resultados que eu procurava. E hoje eu gosto mais da receita usando a farinha!

Quatro coisas são essenciais. 1- A mistura deve ficar bem líquida. Percebi que se ela for espessa o omelete fica denso e pesado, mais parecido com uma panqueca. 2- Usar bastante azeite/óleo na hora de cozinhar o omelete e 3-não fazer omeletes nem muito grandes nem muito espessos. O óleo é essencial pra atingir a textura desejada (crocante por fora e ligeiramente cremoso por dentro). Aprendi a dica 1 e 2 na última vez que estive na Itália. 3- O omelete deve ser pequeno pra você conseguir virá-lo sem que ele se quebre e fininho pra que ele cozinhe de maneira uniforme. 4- O controle do fogo é uma das chaves do sucesso da receita. O omelete deve cozinhar por vários minutos e se o fogo tiver muito alto ele vai queimar antes de ficar cozido. Se estiver muito baixo ele vai ressecar e demorar demais pra ficar pronto.

Claro que meu omelete ficou com um sabor ainda melhor quando comecei a usar sal preto do Himalaia, aquele que tem cheiro e sabor idênticos ao ovo. Mas embora esse ingrediente seja mágico, ele não é indispensável e seu omelete ficará delicioso sem.

Na França é comum fazer omelete com cogumelos e eu sentia saudades desse prato. Não mais! Na primeira vez que usei cogumelos fiquei com medo de não dar certo (e se o omelete se quebrasse na hora de virar? E se os cogumelos, que já estavam cozidos, queimassem?), mas fiz exatamente como faria se estivesse cozinhando com ovos e o resultado foi PERFEITO.

Termino esse post com uma dica. Vegana(o)s lendo esse texto, se vocês também não aguentam mais escutar piada sem graça dos onívoros, sugiro o seguinte: respondam com uma dança interpretativa (os passinhos ficam a critério da imaginação de cada um).

 IMG_0146 2

Omelete de grão de bico com cogumelos (vegano, sem glúten)

Essa receita faz um omelete e foi desenvolvida pra ser usada em uma frigideira de 22cm de diâmetro. Esse tamanho faz com que o omelete fique na espessura ideal. Claro que você pode fazer o omelete sem os cogumelos ou usando as ervas que preferir. A massa tem que descansar uma noite antes de ir pra frigideira, então essa receita deve ser começada na véspera.

4 cs de farinha de grão de bico (usei uma colher medidora, rasa, pra ficar bem preciso)

150ml de água

2 cogumelos marrons frescos cortados em fatias (ou os cogumelos frescos que você preferir – um punhado depois de picados)

Duas pitadas de tomilho (seco ou fresco)

Pimenta do reino e sal a gosto (de preferência sal preto do Himalaia, que tem aroma e sabor de ovo)

Azeite

-Dissolva a farinha em um pouquinho de água até ficar cremoso e sem grumos. Acrescente o resto da água, cubra e deixe descansar na geladeira durante uma noite (12 horas).

-Na manhã seguinte aqueça, em fogo médio, uma frigideira pequena (idealmente com 22cm de diâmetro, medidos no fundo, não nas bordas) com 2cs de azeite. Refogue os cogumelos até eles amolecerem e dourarem um pouco.

-Enquanto isso tempere a mistura de grão de bico com sal e pimenta do reino a gosto, mais o tomilho. Jogue mais 2cs de azeite sobre os cogumelos refogados e despeje a mistura de grão de bico devagar, em um movimento circular do centro em direção às bordas. Imediatamente aumente o fogo e fique do lado do fogão. Espere 10 segundos e reduza o fogo pra médio. Esses 10 segundos iniciais são importantes pra criar uma crosta crocante e facilitar na hora de virar o omelete. Cozinhe em fogo médio-baixo até a parte de cima adquirir um aspecto de cozida. Use uma espátula de metal fina (essencial!!!) pra dar uma olhada na parte inferior do omelete e ter certeza que não está queimando (nesse casa baixe o fogo). Vire o omelete e deixe cozinhar até ficar bem dourado do outro lado. Às vezes aumento o fogo novamente durante os últimos segundos pra acelerar o processo e deixar o outra lado crocante, mas sempre ficando do lado pra não correr o risco de queimar. Na minha cozinha esse omelete leva, ao todo, uns 10-15 minutos pra ficar pronto. Com o tempo você vai adquirir prática e esse processo vai parecer bem menos complicado e intimidante.

-Sirva imediatamente. Rende uma porção.

 Algumas observações:

-A receita fica ainda melhor com uma cebolinha verde em rodelas finas (coloque na frigideira junto com os cogumelos, depois que eles estiverem cozidos, e refogue por alguns segundos antes de despejar a massa).

-Eu sei, 4cs de azeite pra uma porção pode parecer muito, mas lembre que grão de bico não tem praticamente gordura nenhuma, então fica tudo tranquilo.

-Eu triplico a receita e guardo a mistura farinha de grão de bico + água na geladeira pra quando bater a vontade inesperada de omelete vegano (no meu caso, duas vezes por dia). A mistura se conserva muito bem durante vários dias e deixa tudo muito mais prático e rápido.

Nem vou começar a explicar porque andei tão ausente desse pobre blog, pois o blá, blá, blá de sempre (muito trabalho, pouca energia, pouco tempo na cozinha criando novas receitas) não é nem um pouco interessante. Melhor fingir que ninguém percebeu meu sumiço e retomar a conversa de onde deixei da última vez que estive aqui.

Então, onde estávamos?

Ainda estou morando em Londres, cozinhando comida vegana em vários lugares diferentes, curtindo a cidade, fazendo amizades novas e recebendo pessoas queridas que me visitam de vez em quando. Minha amiga Johanna esteve aqui semana passada e passamos cinco dias inteirinhos comendo, caminhando e conversando. Ela se encantou com as delícias veganas que a cidade tem pra oferecer, principalmente com o iogurte de coco que conquistou o meu coração.

Anne também esteve por aqui mês passado. Algumas leitoras me escreveram perguntando onde ela estava. Como ela está sempre viajando, dependendo do dia a resposta era “Kasaquistão”, “Polônia”, “Berlim”, “Córsica” ou “França”. No final do ano passado nós decidimos não morar mais juntas e apesar de passar a maior parte do tempo na estrada, ela está atualmente morando em Berlim. Por enquanto o casamento em casas, na verdade países, separados está dando muito certo.

A vida londrina está indo muito bem, mas confesso que não vejo a hora de voltar pra Palestina. Fico aqui até o final de setembro e depois embarco em uma aventura de três meses na Terra Santa. (Falando em aventura, ainda tem vaga no tour Papacapim na Palestina. Se eu fosse você não perderia essa oportunidade por nada!)

Estou aproveitando minhas últimas semanas na cidade pra fazer eventos gastronômicos pra lá de especiais. Teve um jantar palestino que me emocionou muito (meu makluba, o melhor que já fiz até hoje, me encheu de orgulho). E teve um brunch vegano, o primeiro evento do tipo que já fiz.

Brunch sempre foi minha refeição preferida, mas infelizmente pra quem é vegana as opçōes dos restaurantes são extremamente limitadas. Então só me resta cozinhar o brunch vegano dos meus sonhos em casa. E de tanto reclamar desse problema pro pessoal do café veg onde eu trabalhava, os donos acabaram me convidando pra preparar um brunch vegano lá. Fiz um menu super bacana, com alguns dos meus pratos preferidos pra essa hora do dia, e eles adoraram. Só fizeram um pedido: o menu tinha que incluir uma rabanada vegana (ou “French toast”, como os anglófonos dizem).

Nunca tinha comido rabanada na vida, pois na minha região ninguém tem o costume de preparar essa iguaria. E como nunca gostei de pratos doces com ovo, tenho certeza que não perdi nada. Mas o pessoal daqui parece que adora a danada, então lá fui eu criar uma versão vegana de algo que eu nunca tinha provado. Fiz meus testes e chamei meu amigo Nimerod, que é vegano, mas que comeu muita rabanada quando era criança, pra ser minha cobaia. Ele me assegurou que tava tudo certinho e bem parecido com o original. Pra ter certeza servi o prato pros donos do café, que são vegetarianos e grandes apreciadores de rabanada. Eles ficaram impressionados com a receita e disseram que nunca teriam adivinhado que aquilo ali não tinha ovo. Ah, as maravilhas do grão de bico, o ovo vegetal…

photo 3-5

Eu também fiquei feliz com o resultado, principalmente porque servimos a rabanada acompanhada de iogurte de coco, morangos e mirtilos frescos e xarope de bordo. Mas aí lembrei que Anne me contou um dia que gostava de fazer rabanada salgada antes de se tornar vegana. Ela batia o ovo com leite, salgava e mergulhava o pão na mistura antes de fritar. Lembro que quando ela me explicou a criação achei a ideia genial! Um omelete grudado numa fatia de pão? Delícia!

Então depois do brunch tratei de continuar os testes em casa pra desenvolver uma versão vegana e salgada. Meu povo! Meu povo!!! Desde então não quero mais comer outra coisa. Me apaixonei perdidamente por essa receita e tenho certeza que vocês também vão adorar.

Eu confesso que ovo era uma das coisas que eu mais gostava de comer e apesar de ser vegana há quase oito anos, de vez em quando ainda acontece de bater um desejo de comer um (ou três). Não como porque hoje faço minhas escolhas com a cabeça e com o coração. Não deixo o meu estômago, sozinho, guiar minhas decisões na hora de encher o prato.  Então os deuses da gastronomia vegana resolveram me agraciar com uma descoberta que revolucionou minha vida. Na verdade foram meus amigos Marcelo e João, de Recife (oi, habibis!) que me apresentaram o ingrediente mágico que tem aroma e sabor de ovo, mas é 100% vegetal: sal preto do Himalaia.

Graças a um capricho da natureza ele tem a quantidade exata de enxofre pra imitar o sabor do ovo. Encontrei esse sal aqui em Londres dias atrás e desde então venho fazendo minha rabanada salgada, e meu omelete, com ele. Jesus, Maria, José! Parece que voltei a comer ovo frito, mas dessa vez sem explorar nem machucar nenhuma galinha!

Mesmo se você não tiver esse sal na sua cozinha (uma leitora me disse que é possível encontrá-lo na Zona Cerealista, em São Paulo), a receita vai ficar sublime e com um leve sabor de ovo. Santo grão de bico que, como expliquei, é um verdadeiro ovo vegetal! (Lembram da aquafaba?)

Então aqui vai a receita básica, simplérrima e facílima, da rabanada que me conquistou e impressionou tantas pessoas por aqui. Primeiro a versão salgada, minha preferida, e depois a doce, pois sei que muita gente por aqui aprecia doçuras.

photo 4-2

Rabanada vegana, salgada e doce

Gosto de usar uma baguete amanhecida aqui, pois a textura é ideal pra essa receita e as fatias, por serem pequenas, cozinham mais rápido e de maneira uniforme. Mas nada te impede de usar outro tipo de pão. Porém evite pão de forma, pois ele é mole demais e vai se desfazer quando mergulhado no líquido. Importante: a mistura de grão de bico deve descansar uma noite antes de ser utilizada, então essa não é uma receita que pode ser preparada de última hora.

Salgada

3 cs cheias de farinha de grão de bico

1/2 x de água

Baguete amanhecida, em rodelas não muito finas

Pimenta do reino e sal a gosto (melhor se for sal negro Kala Namak, que tem sabor de ovo)

Azeite pra fritar

Despeje um pouquinho da água sobre a farinha de grão de bico e misture vigorosamente pra dissolvê-la, amassando com as costas da colher as eventuais bolinhas de farinha que se formarem. Só então acrescente o resto da água e mexa bem. Deixe descansar coberto na geladeira ou em temperatura ambiente por uma noite.

No dia seguinte tempere com sal e pimenta do reino a gosto e mexa bem. Mergulhe as fatias de pão na mistura, uma de cada vez. Vá transferindo o pão coberto de líquido pra um prato grande e repita a operação até usar toda a mistura. Aqueça uma boa quantidade de azeite em uma frigideira grande e frite a rabanada, coberta e sem perturbá-la, até ficar bem dourada de um lado. Vire e deixe dourar do outro lado, dessa vez descoberta.

Sirva imediatamente, junto com uma salada, uma pasta, legumes refogados ou o que mais desejar. Eu sou humilde e degusto minha rabanada pura, com um café preto. Rende 2 porções comportadas.

Doce

3 cs cheias de farinha de grão de bico

1/2 x de leite vegetal sem açúcar (soja, amêndoa, coco…)

Baguete amanhecida, em rodelas não muito finas

1 cc de açúcar

1 cc de extrato de baunilha

1/2 cc de canela em pó

Óleo de coco ou azeite pra fritar

Despeje um pouquinho do leite sobre a farinha de grão de bico e misture vigorosamente pra dissolvê-la, amassando com as costas da colher as eventuais bolinhas de farinha que se formarem. Só então acrescente o resto do leite e mexa bem. Junte o açúcar, baunilha e canela e deixe descansar coberto na geladeira por uma noite.

Siga as instruções de preparo da rabanada salgada.

 A rabanada pura não é muito doce, então ela dever ser servida acompanhada de geleia, xarope de bordo ou agave e frutas frescas (morango, framboesas, mirtilos) ou caramelizadas (banana ou maçã fritas em um pouquinho de óleo de coco, até começarem a caramelizar, caem muito bem aqui). Um elemento cremoso e gelado, como o iogurte de coco (ou outro iogurte vegetal) transforma essa receita em algo inesquecível. Rende 2 porções comportadas.