Archives for posts with tag: aveia

Alguns dias atrás o curso de Árabe que vim fazer aqui em Beirute terminou. Foram só cinco semanas, mas o alívio que senti no último dia de aula foi grande. Eu já tinha esquecido o que significa acordar cedo pra ir pra escola e passar a maior parte do seu dia sentada, olhando pra lousa ou pros cadernos. Mas adorei ter feito esse curso, pois aprendi, enfim!, a escrever e a ler em Árabe e conheci pessoas maravilhosas que espero manter na minha vida. E foi uma grande lição de humildade ser alfabetizada novamente aos 34 anos e ter que ler, na frente do professor e de uma sala repleta de alunos, com a mesma dificuldade e na mesma velocidade de quando eu tinha 6 anos (“b…b…ba…r…c…bar…co. Barco!). Aprender uma língua estrangeira depois de adulta é difícil, mas aprender uma língua estrangeira que tem um alfabeto completamente diferente do seu e que ainda por cima se escreve na direção oposta é como contratar um personnal trainer pros seus neurônios. Eles vão sofrer, suar, se esbaforir e quase colocar os bofes pra fora, mas sairão da experiência mais fortes e em melhor forma. Eu e meus coleguinhas de curso estamos nos sentindo muito mais sabidos agora do que cinco semanas atrás. Nos encontramos na rua e nos olhamos com respeito mútuo, pois fazemos parte do grupo que conseguiu conjugar os prefixos e sufixos do sistema verbal árabe- gênero, número, tempo e grau de probabilidade- escritos com letras que se metamorfoseiam de acordo com a posição dentro da palavra e que ainda por cima se escreve da direita pra esquerda!

Além de ter colocado meus neurônios em treinamento intensivo, pude sentir na pele o que já sabia de maneira teórica: comida tem um papel fundamental no aprendizado. O que faz com que a historinha do personnal trainer de neurônios seja ainda mais verdadeira. Sabe a obsessão que o mundo do fitness tem com a comida pré e pós treino? Deveríamos ter a mesma preocupação com a comida que entra no nosso corpo antes e depois do estudo.

Minha vida de estudante no Brasil tinha um cardápio bem diferente do que como hoje. Pequena, eu comia tapioca, cuscuz ou pão com mortadela (mortadela!!! haha). Durante a adolescência a coisa piorou ainda mais e meu café da manhã passou a ser coxinha fria com café preto (de mortadela à coxinha! hahahahaha!). Embora as referências políticas do meu café da manhã me façam rir hoje (tudo piada, gente! Veganas, por razões óbvias, não simpatizam nem com mortadela nem com coxinha ; ), meu pobre cérebro teve que funcionar durante anos e anos com uma carga de nutrientes bem pequena.

Nos anos de faculdade eu morava em Paris e as coisas mudaram bastante, embora não necessariamente pra melhor. Meu café da manhã era brioche, pão de leite ou outro pão branco com manteiga, queijo, muito queijo e café com leite. Mais pra frente troquei o pão branco por pão de forma integral com cereais, o que na época me parecia ser supra sumo da alimentação saudável, mas hoje vejo isso como uma melhora bem pequena levando em consideração que o resto continuou o mesmo.

Embora os cafés descritos acima fossem bem diferentes, os resultados eram mais ou menos os mesmos. Eu quase sempre saía de casa com o estômago pesado, mas curiosamente antes das 10h a barriga já estava roncando. Graças aos conhecimentos em nutrição que adquiri durante os últimos anos entendi o que estava fazendo errado e adotei uma refeição matinal que me nutre e sacia por várias horas. Sinto uma diferença imensa no meu nível de energia durante o dia quando estou viajando e, por não poder preparar meu café da manhã típico, acabo me alimentando mal pela manhã.

Ir pra escola depois de ter consumido um café da manhã pobre, depois do longo jejum da noite e esperar que seu cérebro tenha um desempenho optimal é loucura. Sem entrar nos detalhes do que uma criança ou adolescente deveria consumir antes de ir pra escola, porque sairia do tema desse post e do meu domínio de competência, vou me concentrar no que essa adulta aqui, que voltou a estudar, precisa pra sentir seu cérebro funcionando a todo vapor e seu estômago saciado até a hora do almoço. Espero que ajude e inspire os outros adultos lendo esse blog.

Depois que voltei pra escola percebi que minha adorada, idolatrada, salve!, salve! papa de aveia sozinha não era mais suficiente pra me saciar até a hora do almoço. Embora minhas papas sejam uma refeição completa e equilibrada, pois acrescento vários outros ingredientes à aveia, eu como uma porção relativamente modesta. Comer uma porção maior teria resolvido o problema, mas não consigo comer algo doce em grandes quantidades, logo é difícil pra mim engolir um pratão de papa de uma vez. Incluir uma fatia de pão integral com hummus na refeição seria outra solução, mas além de tentar comer o mínimo de pão possível (meu estômago é mais feliz sem glúten), aqui em Beirute já como hummus com bastante frequência no almoço. Como senti que precisava aumentar a quantidade de proteína do meu café, pois ela é uma das grandes responsáveis pela saciedade (expliquei tudo sobre como se sentir saciado com uma alimentação vegana nesse post), comecei a preparar omelete de grão de bico pra acompanhar a minha papa. Bingo!

Incrível como uma cumbuquinha de papa de aveia mais meio omelete de grão de bico (a outra metade ia pra Anne) ingeridos às 8h me deixa saciada e feliz até as 12h, sem no entanto pesar no estômago nem me fazer sentir lenta e sonolenta, que é o que acontece quando como pão de manhã. Aproveito pra dizer que percebi o que muita gente já deve saber: hidratar o corpo de manhã é indispensável, pois é possível confundir sede com fome, por mais estranho que isso possa parecer. Eu começo o dia com um limão espremido em um copo grande com água ou água de kefir (geralmente uma mistura das duas). É a primeira coisa que faço quando saio da cama e só depois vou preparar o café, tomar banho, me vestir, comer. Pra mim é indispensável seguir essa ordem, pois como o copo de água com limão é grande (acordo com muita sede), preciso de um tempinho entre o momento em que todo esse líquido entra no meu corpo e o momento em que sento pra degustar minha refeição matinal, senão fica difícil acomodar os dois no estômago. Antigamente eu tomava um copão de suco verde pela manhã, mas como não tenho liquidificador em casa e minha vida de nômade com orçamento limitado me impede de sair comprando um liquidificador pra cada casa nova que me acolhe, hoje em dia me contento com limão e água de kefir.

Outra coisa fantástica que descobri depois que me mudei pra Beirute: tahina na papa de aveia é uma delícia! Sabem como é, a necessidade é a mãe da criatividade. Justamente por não ter liquidificador, não posso fazer meus leites vegetais em casa e fui obrigada a procurar leites vegetais prontos. A oferta aqui é grande e consigo achar, pertinho de casa, leite orgânico de soja, arroz, amêndoas… Mas os preços são bem elevados. Como o Líbano produz a melhor tahina do mundo (junto com a tahina palestina) e que esse produto é bem barato aqui, pensei: “Se eu cozinhar a papa na água e acrescentar colheradas de tahina, é como se tivesse usado leite de gergelim!” E além de resolver o problema do leite vegetal, ganhei um super bônus: muito cálcio. Gergelim (e, consequentemente, tahina, que nada mais é do que gergelim moído até se tornar uma pasta) é extremamente rico em cálcio. E como uma fonte de gordura boa é igualmente indispensável pra dar saciedade, a tahina cumpre três papeis ao mesmo tempo. É meu substituto de leite vegetal, enriquece a papa com cálcio e é uma fonte de gordura boa. Geralmente o óleo de coco é a gordura boa das minhas papas, mas esse é outro ingrediente extremamente caro por aqui. Tento me alimentar da maneira mais local possível (melhor pro meio ambiente e pro bolso também!), então fazia mais sentindo usar um ingrediente local que é abundante, barato e delicioso. Se você usar a criatividade e tirar proveito dos alimentos locais, alimentação vegana pode ser sempre barata. E eu, que não paro de mudar de país, nunca deixo de me maravilhar com o imenso leque de possibilidades que o reino vegetal oferece.

E foi assim que nasceu essa variação árabe da minha papa de aveia clássica. A inspiração é árabe por causa dos ingredientes, mas na verdade ninguém aqui come papa de aveia e lógico que essa não é uma receita tradicional.

Como expliquei, faço essa receita só com água e tahina e o sabor fica bem intenso. Já testei com uma mistura de água e leite vegetal (de arroz ou soja) e ficou bem mais suave, então é essa versão que compartilho abaixo. Gosto de servir essa papa salpicada de nozes tostadas, porque é outro ingrediente típico daqui e porque elas aumentam a dose de proteína, gordura boa e ômega 3 da receita. E falando em ômega 3, aproveito pra relembrar que esse nutriente, importantíssimo pra qualquer pessoa, não pode ficar de fora da alimentação dos estudantes. Por isso sempre incluo semente de chia na minha papa. Pode até ser psicológico, mas acho que um café da manhã rico em ômega 3 me deixa mais inteligente.

Termino lembrando que escrevi esse post explicando tintin por tintin porque o café da manhã é tão importante, não só pra quem estuda, e vale a pena ler de novo. E se quiser ver mais receitas nutritivas e saborosas pra manhã é só clicar na página “Receitas” no cabeçalho e conferir a seção “café da manhã”.

 IMG_0499

Papa de aveia árabe (com tahina)

Tahina pode ser fluida e quase líquida, como as que encontramos no Líbano e na Palestina, ou bem densa e compacta, como as que encontramos nas lojas de produtos naturais. Adapte a quantidade de tahina nessa receita de acordo com o tipo que você tiver em casa e com as suas preferências. Gergelim tem um sabor delicadamente amargo que uns adoram e outros detestam. Se você gosta de tahina, vai adorar essa papa. Se não gosta, mas quer aprender a gostar, essa não é a receita ideal pra você, pois o amargor da tahina é bem presente aqui. Sugiro receitas como hummus e mutabbal, que também usam tahina, mas com resultados bem mais sutis. E se tahina não for a sua praia, publiquei outras receitas de papas deliciosas aqui, aqui e aqui.

1/2 x de aveia em flocos (finos ou grossos)

1 cs de chia

1 banana madura

1/2 x de leite vegetal (arroz, aveia, amêndoa, coco, soja…)

1 cc rasa de canela, ou a gosto

1 pitada de sal

Melado a gosto – opcional (se, como eu, você mora no Oriente Médio, melado de tâmara ou alfarroba deixa tudo ainda mais “árabe” e são ingredientes locais)

1-2 cs de tahina (leia explicações acima)

Um punhado de nozes – opcional

Na véspera, coloque a aveia e a chia em um recipiente pequeno, com tampa, e cubra com 1 xícara de água. Misture bem, tampe e deixe na geladeira durante a noite. Esse passo é opcional, mas vai deixar a sua aveia mais cremosa usando menos líquido e a papa vai ficar pronta muito mais rápido (quem estuda cedo não tem muito tempo pra cozinhar de manhã!).

Na manhã seguinte amasse a banana e transfira pra uma panela pequena. Junte a aveia/chia dormida, o leite vegetal, a canela, o sal e o melado, se estiver usando (entre 1cc e 1cs, dependendo da intensidade de doçura que você quiser). Leve ao fogo baixo e cozinhe por alguns minutos, mexendo de vez em quando, até a papa começar a borbulhar. Junte a tahina e misture bem pra incorporar. Se sua tahine for do tipo espessa e compacta vai ser preciso dissolve-la em um pouco de água/leite vegetal antes, senão vai ser difícil incorpora-la à papa de maneira uniforme. Depois de juntar a tahina a papa vai engrossar um pouco, então nesse ponto eu acrescento mais água ou leite vegetal (entre 1/3x e 1/2x), pois gosto da minha papa fluida e cremosa. Adapte a quantidade de líquido pra atingir a consistência que você preferir. Desligue o fogo e sirva imediatamente, salpicada de nozes (tostadas a seco elas são ainda mais saborosas). Rende 1 porção estudante ou 2 porções pequenas (pra quem gosta de comer outras coisas além da papa no café da manhã).

Papa de aveia com farinha de coco, chia e banana caramelizada

Muito obrigada pelas mensagens deixadas no meu último post. Ainda não tive tempo de reponder a cada um de vocês, mas queria que soubessem que elas me encheram de alegria. Estou nesse momento abraçando mentalmente cada um de vocês. Obrigada.

Continuo (extremamente) ocupada com o livro (pra todos os que pediram mais informações sobre ele, aguardem que em breve falarei mais sobre o assunto) e sem meu computador. Estou usando um computador emprestado, mas que está mais cansado do que eu, tem um teclado sem nenhum acento e que não corrige textos em Português, por isso vou logo me desculpando se cometi algum atentado à nossa língua. Mas esse blog está precisando muito de uma receita. E não qualquer receita, uma receita capaz de reconfortar depois desse período tão sombrio

Quem leu esse post sabe que cresci comendo papa de aveia e pra mim ela sempre será o equivalente comestível de um abraço de mãe. Reconforta, alimenta e aquece a alma. Já publiquei algumas receitas de papa de aveia aqui e parece que muita gente virou fã depois de ter experimentado em casa. Fico muito feliz em ter conseguido fazer algumas pessoas entenderem, enfim, toda a deliciosidade dessa comida tão humilde, mas que é extremamente nutritiva. Tem tanta gente por aí achando que investir na saúde significa comprar super alimentos exóticos e suplementos alimentares que custam uma fortuna, mas que ignoram que alguns dos melhores alimentos pra nossa saúde são baratinhos e são vendidos em qualquer mercearia. A aveia é um ótimo exemplo.

Mas essa papa é muito especial. E tem super alimentos exóticos e caros, mas eu posso explicar. A aveia sozinha já é muito nutritiva. Meia xícara de aveia em flocos (40g) tem 6g de proteína, 4g de fibra e é pobre em gordura (zero gordura saturada, zero colesterol). Mas eu acho que papa de aveia é o veículo ideal pra todo tipo de super alimento por três motivos. Primeiro porque ela tem um sabor suave, que combina com uma infinidade de outros sabores e pode ser personalizada à vontade. Segundo porque isso vai melhorar muito o seu café da manhã (pão com café pode ser bom de vez em quando, mas está longe de ser a opção mais nutritiva). Depois do jejum da noite seu corpo ficará extremamente feliz em começar o dia com uma refeição carregada de nutrientes. E terceiro porque super alimentos são super caros e acho um absurdo usa-los em receitas que, por serem carregadas de ingredientes nada saudáveis, vão acabar minimizando suas propriedades nutritivas. Por exemplo, usar chia ou farinha de coco em bolos e outras sobremesas. Sei que essas iniciativas partem de uma boa intenção, que é deixar sobremesas mais saudáveis, e eu não estaria fazendo essa crítica se chia e farinha de coco fossem baratinhas. Mas a verdade é que super alimentos são produtos de luxo que pesam no bolso, então a maioria das pessoas (incluindo eu mesma) só pode usar pequenas quantidades por vez. Logo a maneira mais inteligente de consumi-los é misturando com alimentos que também são saudáveis, maximizando assim os benefícios pra saúde. Por isso acho que papa de aveia é o veículo ideal pra eles. E essa receita tem não um, não dois, mas TRÊS super alimentos, além da aveia : semente de chia, castanha do Pará e farinha de coco.

A farinha de coco que comprei no Brasil (não estou ganhando nada pra fazer a propaganda desse produto, só recomendo porque realmente gostei dele).

Tudo que sei sobre a chia está nesse post, com mais algumas coisinhas nesse outro post. Falei sobre castanhas do Pará nesse post sobre oleaginosas. E se você ainda não conhece a farinha de coco, leia as próximas frases com atenção, pois tenho certeza que será o novo super alimento da moda no Brasil (ela já faz sucesso em outros lugares). Vi farinha de coco pela primeira vez dois anos atrás, em uma loja de produtos orgânicos na França. Até então eu nunca tinha ouvido falar dela, mas fiquei curiosa pra testa-la na minha cozinha. A embalagem explicava que farinha de coco era o que sobrava da polpa do coco maduro depois de ter sido prensada pra extrair o óleo de coco virgem. Ou seja, aquele bagaço que sobra na peneira depois que fazemos leite de coco em casa, só que desidratado e triturado finíssimo. A maior vantagen dessa farinha é que ela é riquíssima em fibras, mas também tem bastante proteína, além de não ter glúten. Esse ano, durante as férias no Brasil, encontrei farinha de coco orgânica em um supermercado da minha cidade e agora posso falar desse ingrediente sabendo que vocês vão poder compra-lo aí, se quiserem experimentar. Mas notei uma diferença entre a farinha de coco que comprei na Europa e a farinha de coco brasileira. Enquanto a primeira era branquinha e bem fina, a segunda tem um cor bege e é mais granulada. Mas a diferença principal parece ser o método de fabricação. Pelo que entendi (lendo a embalagem e o site do fabricante), a farinha de coco brasileira é feita de polpa de coco madura, triturada e desidratada, e não do bagaço que sobra depois da extração do óleo de coco. Escrevi um email pra empresa pedindo maiores esclarecimentos, mas nunca recebi resposta. Minha confusão aumentou quando comparei a quantidade de nutrientes das duas. Imaginei que, por conter ainda todo o óleo de coco, a farinha brasileira seria mais calórica, mas elas são praticamente idênticas em tudo (fibras, calorias, proteina). Mistério…

Vi várias receitas de bolos e muffins usando farinha de coco (misturada com outras farinhas ou pura) e acho que deve ser uma delícia. Mas paguei quase 15 reais por um pacote de meio quilo dessa farinha, então, como expliquei mais acima, acho melhor consumi-la em pequenas quantidades, pra fazer meu pacotinho durar meses. Como a vantagem principal desse produto é a grande quantidade de fibras, acrescentar uma colher de sopa na sua papa já é suficiente (uma colher de sopa dessa farinha tem 4,5g de fibras !). Então me diverti um pouquinho calculando a quantidade de maravilhas que tem na receita de hoje. Uso meia xícara de aveia ( 4g de fibra e 6g de proteína), 1 colher de sopa de farinha de coco (4,5g de fibra, 1,3g de proteína), 1 colher de sopa de chia (5,5g de fibra, 2g de proteína), uma banana (3g de fibra, 1g de proteína), uma xícara e meia de leite de amêndoas (11g de proteína) e duas castanhas do Pará (2g de proteína). Então essa papa tem 17g de fibra e 23,3g de proteína ! Lembrem-se que precisamos de 25g a 35g de fibra por dia e de 0,8g de proteína por quilo de massa corpórea. Pra fazer uma comparação malvada, se o seu café da manhã é um pão francês com uma fatia de queijo mussarela, você está consumindo 7g de proteína e zero fibra. Caso seu café da manhã seja mais « saudável » e você coma duas fatias de pão 100%  integral com uma colher de sopa de requeijão, você esta colocando dentro do corpo 11,72g de proteína e aproximadamente 6g de fibra. E tem gente achando que pão integral é a coisa mais fibrosa (e saudável) que existe…

Mas voltemos à nossa papa. Com 17g de fibra, 23,3g de proteína (eu RIO na cara de quem diz que minha alimentação é carente em proteína, ha, ha, ha !), pouca gordura saturada e zero colesterol (o que nao é o caso do pão com queijo), todo o selênio que precisamos em um dia, graças às castanhas do Pará, e uma boa dose de ômega 3, graças à chia, não tem maneira melhor de começar o dia. Quase esqueço de dizer que essa papa também é delicosa. Sempre misturei banana com minha papa de aveia matinal, mas desde que comecei a caramelizar a banana, essa fruta tão singela deu uma nova dimensão ao meu café da manhã. E combinada com o sabor suave de coco (farinha de coco tem um gosto delicado, mais tímido do que coco ralado, e nessa receita ele não vai incomodar quem não gosta de coco) ficou melhor ainda. Sou tão apaixonada por essa receita que faz três meses que a preparo todas as manhãs, religiosamente, e ainda não enjoei. Muitas vezes vou me deitar pensando na papa delícia que me espera na manhã seguinte…

Papa de aveia com farinha de coco, chia e banana caramelizada

Uso aveia em flocos grossos que trituro levemente no liquidificador (na verdade uso a função ‘pulsar’ e pulso duas ou três vezes). Assim parte dos flocos vira farinha, fazendo com que a papa cozinhe mais rápido e fique bem cremosa. Você pode usar aveia em flocos finos, pra evitar esse trabalho extra. Essa papa é adoçada unicamente com uma banana, porque gosto assim, mas sinta-se livre pra usar um pouco de açucar mascavo, passas ou aumentar a quantidade de banana pra fazer uma papa mais docinha. Falando em banana, eu compro vários quilos e quando elas ficam do jeito que gosto (maduras, mas não demais) corto em rodelas e congelo em sacos. Assim nunca falta banana pro meu café da manhã. Coloco as rodelas congeladas diretamente na panela na hora de fazer a papa. Uso leite de amêndoas, mas você pode substitui-lo pela mesma quantidade de leite de soja. Nesse caso sua papa terá 21,3g de proteína (a fibra continua a mesma). No dia da foto eu estava sem castanhas do Pará, mas sempre polvilho minhas papas com elas (ou com nozes). Castanha do Pará é uma das melhores fontes de selênio, um poderoso antioxidante que estimula o sistema imunológico e protege o coração. Duas unidades fornecem o selênio que precisamos em um dia.

1 banana (é mais fácil caramelizar se ela estiver congelada)

1/2x de aveia em flocos (leia acima)

1cs de farinha de coco

1 1/2x de leite vegetal (uso esse leite de amêndoas, mas preparado com 4x de água)

1cs de sementes de chia

1/3 cc de canela

uma pitada de sal

2 castanhas do Pará

Corte a banana em rodelas e cozinhe, em uma panela bem pequena, até ficar ligeiramente caramelizada. Cozinhe em fogo baixo, sem colocar água nem gordura na panela, pois a banana vai caramelizar sozinha. Vire os pedaços de banana pra caramelizar do outro lado. Amasse a banana com uma colher de pau (veja as fotos acima) e retire do fogo por alguns instantes. Polvilhe a aveia em flocos e a farinha de coco sobre a banana e despeje 1/2x de leite por cima. Misture bem com a colher de pau, pra umedecer a aveia, e junte mais 1/2x de leite, a canela e uma pitada de sal. Coloque novamente sobre o fogo e cozinhe, mexendo de vez em quando, até ficar cremoso. Quando a papa estiver cozida junte a 1/2x restante de leite e assim que começar a ferver desligue o fogo. Polvilhe a papa cozida com as sementes de chia, mexa mais uma vez e deixe descansar, coberta, por 3 minutos. Sirva com as castanhas do Pará picadas e, se quiser uma papa mais docinha, algum adoçante natural. Rende 1 porção.  Como essa papa é riquíssima em fibras, aconselho acompanha-la de bastante líquido, pros 17g de fibra não ficarem entupidos lá dentro. Eu gosto de comer minha papa com uma caneca de chá (preto ou verde), mas você também pode acompanha-la de um suco natural ou simplesmente beber bastante água durante a manhã.

Biscoitos de aveia, tahina e passas

Depois de mais de quatro anos de veganismo eu não sinto falta de (quase) nenhum produto de origem animal. Mas de vez em quando me sinto tentada a quebrar meu veganismo não por sentir desejo de comer algo não vegano, mas por pura preguiça. Explico. Por mais que eu adore cozinhar, às vezes gostaria de comer algo que não tenha sido preparado por mim. Isso me pouparia o trabalho, a limpeza da cozinha, a lavagem de louça…  Nesses momentos já me aconteceu de entrar em uma mercearia, ver um biscoito escocês ou um sorvete americano que eu adorava quando era onívora e sentir a tentação de comprá-los. Existem versões veganas desses itens por aqui, mas a qualidade é tão pobre, e a lista de produtos químicos tão longa, que nunca tenho vontade de comê-los. Geralmente saio correndo da mercearia pra não ter que escutar a briga do anjinho do ombro direito com o diabinho do ombro esquerdo. Felizmente assim que coloco os pés fora da mercearia me dou conta que o que me empurrava pra aquele biscoito não era a vontade de comê-lo (dificilmente algo industrializado, mesmo vegano, agrada o meu paladar), mas sim a preguiça de cozinhar.

Vivi a situação acima sábado passado. Fazia tempo que eu queria comer um biscoitinho crocante, daqueles que pedem pra ser mergulhados no café ou no chá, e depois de ter encarado a caixa de biscoito escocês por alguns segundos voltei pra casa obstinada a deixar a preguiça de lado e criar o biscoito dos meus sonhos: integral, sem açúcar, sem farinha de trigo, sem ingredientes duvidosos, vegano e gostoso. Além disso ele precisava ficar pronto em pouco tempo, com o mínimo de trabalho e de louça suja.  Sábado, às cinco da tarde, todos os meus desejos (de biscoito) foram realizados.

Mas antes de correr pra cozinha pra preparar essa maravilha, preciso explicar a natureza desses biscoitos. Eles entram na categoria de doces saudáveis que tem gosto de… saudáveis. Não se deixe ludibriar pelo chocolate, a essência desse biscoito é natureba, puxando pro macrobiótico. Se ele fosse uma pessoa seria com certeza um hippie de camiseta tie-dye, morando em uma Kombi cheirando a incenso, estacionada em alguma praia do litoral baiano. O sabor característico da aveia domina, mas tem também um fundo de tahina (que tem aquele sabor forte que uns adoram e outros detestam) e pinceladas de passas. Eles são crocantes e a doçura é bem tímida, perfeitos pra acompanhar o cafezinho. Meus biscoitos de aveia têm poucas chances de agradar crianças e pessoas que preferem doces bem doces, mas eu gostei tanto deles que pensei que os leitores que têm um paladar parecido com o meu gostariam de provar essa receita.

Se você gosta de bolacha integral e tahina, se toma café sem açúcar e se fruta pra você é sobremesa, esse biscoitos vão agradar. Se, ao contrário, você adora biscoito recheado e cookies com gotas de chocolate, talvez essa receita seja muito tie-dye pra você. (Pra você não sair daqui sem receita, aconselho minhas trufas de bolo com avelã e uísque).

Biscoitos de aveia, tahina e passas

Pra fazer uma versão mais doce você pode servir os biscoitos com geleia no lugar do chocolate (passe a geleia somente no momento de servir, pra não amolecer os biscoitos). As tâmaras podem ser substituídas por 4cs de melado (mel de engenho, melaço). Nesse caso o sabor será um pouco diferente, pois o melado é mais marcante do que as tâmaras. A tahina que uso aqui é bem fluida. Se a sua for do tipo espessa, use somente 3cs e acrescente mais 1cs de água. Se biscoitos integrais, sem açúcar e com manteiga de oleaginosas te interessa, Márcia publicou uma receita de bolachas de manteiga de amêndoa que é da mesma família desses biscoitos.

1x de farinha de aveia (eu  trituro aveia em flocos no liquidificador)

1cs de linhaça moída

1cs de maisena

1/3cc de bicarbonato de sódio

1/4x de passas

3 tâmaras

4cs de tahina

1/4x de água

20g de chocolate amargo (entre 50 e 70% de cacau)

Misture os cinco primeiros ingredientes e reserve (se seu bicarbonato tiver umas pedrinhas, passe-o por uma peneira fina pra desmanchar). Remova o caroço das tâmaras e amasse com um garfo até obter uma pasta. Se suas tâmaras estiverem ressecadas e duras, cubra com água quente e deixe de molho durante meia hora antes de amassá-las. Misture com a tahina e a água e bata bem (com o garfo) até ficar homogêneo. Você também pode fazer isso em um mini processador: coloque as tâmaras e a tahina e triture até virar uma pasta, em seguida acrescente a água aos poucos, com o motor ligado. Despeje essa mistura sobre os ingredientes secos e mexa bem. A massa deve ficar bem espessa e densa. Unte uma placa de assar biscoitos com um pouquinho de óleo (uso um pedaço de papel toalha pra espalhar o óleo e criar uma película finíssima) e distribua colheradas da massa formando dez montinhos. Molhe os dedos com água (pra massa não colar) e achate os montinhos formando os biscoitos. Asse em forno baixo, sem pré-aquecer, durante aproximadamente 20 minutos, ou até ficar bem dourado nas bordas e na parte de baixo. Retire do forno e, usando uma espátula de metal, descole os biscoitos com cuidado e vire-os pra assar do outro lado. Deixe mais 5 minutos no forno, ou até os biscoitos ganharem uma cor dourado-amarronzada. Pique o chocolate e distribua sobre os biscoitos quentes. Quando tiver derretido, use uma faca arredondada pra espalhar o chocolate. Deixe os biscoitos esfriarem completamente antes de servir. Se quiser que o chocolate endureça, coloque os biscoitos alguns minutos no congelador. Rende 10 biscoitos.