Não existe comida “vegana”

Essa reflexão surgiu do lado de cá da tela há um certo tempo. E leitoras atentivas desse blog já devem ter percebido que mencionei isso algumas vezes nos posts dos últimos meses. Acho que foi no ano passado que decidi parar de usar o termo “comida vegana” pra descrever comida de origem vegetal. Mas foi o episódio do chocolate oferecido por uma amiga francesa que fez com que eu compreendesse que chegou a hora de escrever sobre o assunto.

Aconteceu meses atrás. A amiga, que não é vegana, me deu “um chocolate vegano” de presente. Era um chocolate com coco (leite e açúcar de coco, além de coco seco), mas tinha um selo “Vegano” na embalagem. “Provei com a minha irmã, mas não gostamos de chocolate vegano”, ela disse. Respondi: “Você não gostou de chocolate com coco. Chocolate ‘vegano’ é qualquer chocolate sem leite de mamífera” e ela insistiu: “É vegano, sim! Tá escrito na embalagem.” O selo fez com que minha amiga visse aquilo como “chocolate vegano”, não como o chocolate com coco que ele era, e quando percebeu que não gostava, ela não declarou: “Não gosto de chocolate com coco”, mas sim: “Não gosto de chocolate vegano”. 

Isso aconteceu pouco tempo depois de outra conversa do tipo. Uma camarada que se diz vegana me explicou que compra sapatos de couro porque “Gosto de ser estilosa e sapatos veganos não são bonitos.” Ela não falou que não encontrava seu estilo de sapato preferido feito com material vegetal e sim que “sapatos veganos são feios”. (Vamos passar sob silêncio a reflexão sobre a fragilidade do compromisso dessa pessoa com o veganismo, que acha que “ser estilosa” passa na frente do direito fundamental à vida dos animais outros que humanos e ainda assim se diz vegana).

Eu tive conversas desse tipo centenas de vezes desde que me tornei vegana. Normalmente isso não teria chamado minha atenção, mas como os dois episódios aconteceram a poucos dias de intervalo, uma luz se acendeu na minha cabeça.

Essa reflexão vem de longe e começou na culinária. Agradeço meu compa de luta e panelas Ruan Felix por ter dado o último empurrão na minha reflexão. Ele conta que sempre que vê pessoas vendendo “torta vegana” nas feiras tem vontade de ir lá explicar que: “Vegano não é sabor!” Eu faço a mesma coisa quando alguém, geralmente cheia de boa vontade, aponta pra alguma comida na mesa (seja durante uma reunião da militância ou entre amigas) e diz: “Tem bolo vegano!” Sempre respondo com outra pergunta: “O bolo é de quê? Chocolate? Maçã? Banana?” E repito o que Ruan falou: “Vegano” não é sabor”.

Sei que as pessoas usam esse termo (“comida vegana”) pra sinalizar que ali naquele prato não entrou nenhum ingrediente de origem animal. Mas veganismo não é regime alimentar (vegetarianismo é), nem modo de preparar alimentos. 

Vegana é a pessoa que se opõe à mercantilização e coisificação de corpos e vidas de animais outros que humanos. Nossa solidariedade política aos animais outros que humanos se dá através da não-cooperação com o sistema que os explora e lucra com sua dor e morte. Ou seja, boicotamos os produtos, assim como toda atividade, vindos da exploração e morte animal. 

“Vegano” não é etiqueta que se cola em chocolate com coco, hambúrguer de soja ou sandália de borracha. E por que estou insistindo nisso? Porque quando agimos como se produtos fossem “veganos”, transformamos esse movimento social em modo de consumo. Daí a brecha pra especistas dizerem coisas como “não gosto de comida vegana”, reduzindo a imensa diversidade da culinária vegetal a produtos (ou receitas) que elas comeram e não aprovaram. E ao ver o veganismo como modo de consumo fica mais fácil rejeitá-lo, sem precisar entrar na reflexão que realmente importa: é moralmente aceitável dispor de corpos e vidas animais quando não precisamos disso pra viver?

Não existe comida vegana, nem acessórios veganos. Existe comida e acessórios feitos com ingredientes/materiais vegetais. Veganas são as pessoas. 

Isso me lembra outro episódio, que me foi contado por uma amiga anos atrás. Ela disse que estava vendo uma reportagem na televisão sobre crianças veganas e a repórter entrevistou um menino pequeno sobre seus hábitos alimentares.

-Você não come carne? – ela perguntou

-Não – respondeu o menino

-Nem frango?

-Não.

-Nem peixe?

-Não.

-Nem ovo?

-Não. 

-E o que você come? 

-Comida. 

9 comentários em “Não existe comida “vegana”

  1. Muito interessante a reflexão. Confesso que percebi nos últimos posts seus comentários sobre não existir comida vegana e fiquei curiosa, torcendo que você escrevesse um post sobre o assunto. Já tinha debatido internamente sobre o assunto, mas nunca tinha chegado tão longe ou a uma conclusão de fato. Obrigada pela partilha!

  2. Maravilhosa e pertinente reflexão. Ser vegano é estado de espirito, é posicionamento político e não marca de sapato ou de comida!

  3. Obrigado por colocar em palavras tão claras essa questão tão corriqueira! Agora tenho um texto pequeno que posso compartilhar com pessoas amigas a respeito desse uso desleixado da palavra vegano 🙂

  4. Sabe… O tanto que esse “batismo”das coisas como “veganas” também apaga a culinária tradicional de base vegetal, o que faz com que nesse misticismo (e elitismo) de chamar os preparos/produtos de veganos muitas pessoas não percebam que um prato de arroz e feijão não envolve nenhum produto de origem animal!

  5. Já imaginava que esse post iria aparecer ainda esse ano no blog.

    Quando você falou que veganas são as pessoas, isso é verdade. Uma pessoa pode comer comidas vegetais e usar cosméticos vegetais/não testados em animais e essa pessoa pode não ser vegana.

    Quanto a essa “vegana que usam calçados animais”, ela não é vegana porque ela é vegetariana estrita.

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