Venho de uma família de grandes apreciadores de pimenta. Eu gosto muito, meus irmãos adoram e até minha sobrinha de 12 anos é fã. Mas ninguém aqui gosta mais de comida ardida do que meu pai. Ele gosta de cozinhar, bem mais do que minha mãe, e de vez em quando prepara condimentos apimentados pra incrementar suas refeições. Quando cheguei aqui, algumas semanas atrás, tive a sorte de provar sua última invenção: um molho de pimenta bem temperado, muito perfumado e ardido na medida certa. Sei que pimenta não é algo que agrada muita gente, mas se você gostar da coisa, essa receita é uma verdadeira pérola!

Eu não podia deixar de contar a história por trás desse molho, que fez rir a família inteira. Um vizinho deu de presente ao meu pai umas pimentas, pra ele guardar as sementes e plantar lá no sítio. Meu pai colocou as pimentas no bolso de trás da calça, foi andando pra casa e acabou esquecendo o presente que estava carregando. Mais tarde entrou no carro e o levou ao lava-jato do bairro. Durante a viagem as pimentas se amassaram e começaram a liberar um suquinho ardido. Enquanto esperava o carro ser lavado, ele sentiu um incômodo na retaguarda, que logo virou uma coceira braba e acabou se transformando em um ardor insuportável. Meu pai, ainda esquecido do presentinho que levava no bolso, começou a esfregar desesperadamente o traseiro contra a parede, amassando ainda mais as pimentas e piorando a coceira e o ardor. Ele enfiou a mão no bolso calça pra se coçar e quando a viu manchada do vermelho suco de pimenta concluiu, precipitadamente, que o problema era grave: seu traseiro já estava sangrando! Só depois de analisar melhor o líquido meu pobre pai se deu conta que aquilo era suco de pimenta, o que explicava o terrível desconforto que ele estava sentindo. Meu pai disse que foi ao banheiro do lava-jato pra lavar o derrière e aliviar suas dores, mas corre um boato que ele, enlouquecido com o ardor, baixou as calças na frente de todos e se jogou sobre o carro que estava sendo lavado, numa tentativa desesperada de conter o fogo da pimenta com os jatos de água. Ele nega essa parte da história. Quando chegou em casa, meu pai contou o ocorrido e declarou: “Eu perco o monossílabo, mas não perco as pimentas!”. E de fato ele conseguiu salvar as benditas, que usou pra preparar esse molho.

 

O molho de pimenta do meu pai

Meu pai faz esse molho sem medir nenhum ingrediente, mas de tanto perguntar como ele fez a receita, consegui essas estimativas. Mas preciso avisar que as medidas são aproximadas, então sintam-se à vontade pra adaptá-las de acordo com seus gostos. Misturar pimentas ardidas com pimentas suaves é o segredo pra conseguir um molho perfumadíssimo e saboroso. Quem não gosta de ardor pode usar muita pimenta de cheiro (ou biquinho) e só uma ou outra pimenta forte (como a malagueta e a pimenta bode). Meu pai usa um tiquinho de tempero completo industrializado (uma mistura de alho, cebola e especiarias), pra realçar o sabor do molho. Pra deixar a receita mais acessível e natural, aconselho substituir esse ingrediente pela mistura de especiarias em pó citadas abaixo.

2 punhados de uma mistura de pimentas fortes e suaves (meu pai usa pimenta malagueta, pimenta bode e pimenta de cheiro)

alguns dentes de alho (entre 3 e 5, dependendo da sua afinidade com ele)

1/3 de cebola

1/3x de vinagre (ou suco de limão)

1/4x de azeite

1 pitada generosa de sal

1 pitada de cada: semente de coentro, pimenta do reino, salsa desidratada e louro em pó

Bata tudo no liquidificador, juntando um pouco de água pra formar um molho líquido, mas ligeiramente encorpado. Use um funil pra transferir o molho pra uma garrafa com tampa e conserve na geladeira. Meu pai não sabe quanto tempo esse molho pode ser conservado, mas já faz mais de um mês que ele fez o último e ele continua bom (comemos todos os dias e vamos todos muito bem, obrigada). Rende uma quantidade grande de molho, então sugiro que você encha garrafinhas pequenas e presenteie os amigos com algumas.

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