Archives for posts with tag: Palestina

Eu conheci Ahmad Safi, um dos fundadores da Palestinian Animal League (PAL – Liga Animal Palestina), em 2015. Sou uma grande admiradora do trabalho que a PAL, a primeira Organização de Proteção aos Animais atuando dentro dos Territórios Palestinos Ocupados, está fazendo e tinha vontade de entrevistar Ahmad desde então. No final de abril deste ano, finalmente marcamos uma data e nos encontramos na hora do almoço no Sudfeh, o primeiro restaurante vegano/vegetariano da Palestina, localizada na Universidade Al Quds, em Abu Dis.

Ahmad chegou dizendo que não estava se sentindo tão bem. Na noite anterior soldados israelenses invadiram o campo de refugiados de Jalazone, onde ele vive com sua família, e atiraram nos moradores. “Ontem à noite eu encontrei um amigo e decidimos sair para nos divertir. Quando chegamos na entrada do campo vimos dois garotos feridos. Olhei pro que estava mais perto de mim e tinha tanto sangue que não o reconheci, mas me disseram que era meu vizinho. Eu coloquei o garoto no meu carro e meu amigo me ajudou a levá-lo ao hospital. Ele tinha ferimentos muito graves, parte do seu cérebro estava exposto. Não levamos o outro rapaz porque ele já estava morto. Outras pessoas no campo também estavam feridas. Infelizmente, meu vizinho morreu no hospital. Ele só tinha 16 anos. Hoje de manhã alguém estava grelhando carne. Durante a primeira intifada algumas pessoas do campo morreram queimadas e é exatamente o mesmo cheiro de carne sendo grelhada. Eu já senti o cheiro de muitos cadáveres na minha vida, mas na noite passada foi terrível. Eu me senti realmente mal. Vim trabalhar hoje pra tirar esses pensamentos da cabeça.”

 Esse é o dia a dia dos palestinos. Não foi a primeira vez que Ahmad presenciou alguém que ele conhecia, um vizinho, um amigo, sendo morto pelas forças de ocupação. A vida continua, mas não consigo não me sentir estranha perguntando a ele sobre veganismo depois de ouvir os terríveis eventos que aconteceram há poucas horas.

Mas durante a entrevista, Ahmad me lembrou que todas as lutas estão conectadas e que não podemos separar a luta por direitos humanos da luta por direitos animais. Especialmente agora que a comunidade vegana está crescendo dentro de Israel e o movimento está sendo usado como mais uma ferramenta do kit de propaganda israelense. Trata-se do chamado “veganwashing”, que usa a crescente popularidade do veganismo dentro da sociedade israelense pra apresentar uma imagem “progressista” do estado e tirar o foco da violência perpetrada contra os palestinos pelo projeto colonialista israelense. Até mesmo o exército israelense entrou nessa e tem oferecido a possibilidade de optar por refeições veganas e botas de couro sintético aos soldados que se declarem veganos, em uma tentativa de melhorar sua imagem.

O veganismo não é o único movimento de justiça social usado pelo governo israelense para “lavar” seus crimes. A comunidade LGBTQ frequentemente é usada para vender a imagem de país progressista e esconder as violações a direitos humanos praticadas por Israel, o que é conhecido como “pinkwashing”.

 

Como você se tornou vegano?

Assim que comecei a visitar matadouros. Quando eu vi o que acontecia lá, me tornei vegano.

 

O que é o método de abate halal? Como ele se diferencia dos métodos tradicionais de abate de animais?

Nós temos um ditado em Árabe que diz: “não importa quanta misericórdia você tenha, matar é matar”. Então não importa se é halal, se você fez com essa ou com aquela máquina, se a faca é afiada… matar é matar. Esse é um ponto muito importante que as pessoas costumam esquecer.

Quando nós precisamos comer carne? Quando não temos nada mais para comer e nossa sobrevivência depende disso, mas atualmente temos várias alternativas. Muitas alternativas.

Quando comecei a me dar conta disso, pensei: “preciso me tornar vegano”, mas dentro da PAL não temos uma regra que diz que você precisa ser vegano para participar, porque as pessoas vão aprender por conta própria e, quando tiverem informações suficientes, vão mudar.

 

O que você acha dos ativistas por direitos animais que diminuem o sofrimento humano ou que dizem que basta as pessoas se tornarem veganas pra obter justiça em todos os lugares e pra todo mundo?

É loucura. Essas pessoas são especistas se acham que animais valem mais do que humanos. Eu odeio isso. Humanos e animais são iguais. Todos os seres vivos têm o direito à vida. Você escolheu nascer? Você está aqui agora e você tem o direito de viver. Quem decide quem tem e quem não tem o direito à vida? Somente o ódio. Ódio. E ganância.

E, por isso, o que pensamos sobre animais é o mesmo que pensamos a respeito de humanos e vice-versa. Devíamos nos chamar apenas de “seres”. Somos todos seres e somos todos iguais.

 

Eu achei o seu artigo sobre o Islã e o veganismo muito interessante.

Comer animais era permitido porque nós vivíamos no deserto. Você tem que lembrar que era uma outra época. Se você está no deserto, os únicos alimentos disponíveis são trigo e tâmaras. Hoje importamos coisas de Portugal, da Espanha! É um mundo diferente. Agora eu posso encontrar milhares de alternativas para comer.

(Ahmad pede licença pra falar com uma pessoa que estava passando na hora. Quando ele volta à conversa ele percebe que uma outra estrangeira, que veio comigo, havia se sentado à mesa. Ele perguntou, em Árabe, como ela estava. Ela respondeu usando o masculino, pois em Árabe o gênero é expresso em todos os adjetivos. Eu apontei o erro, mas Ahmad riu e disse que não tinha importância. “Somos contra essa coisa de gênero. É uma construção social.” Começamos então uma conversa sobre o absurdo que é o gênero nas gramáticas das nossas línguas maternas).

 

Como começou a PAL?

Para ser honesto nós não pensávamos em direitos animais quando iniciamos. Criamos a PAL para educar as crianças sobre violência. Para quebrar o ciclo de violência. (Eu ouvi Ahmad explicando isso algumas vezes em apresentações. Um homem palestino apanha de um soldado israelense, vai para a prisão sem nenhuma razão, é torturado na prisão… então quando é solto, ele começa a reproduzir a violência da qual foi vítima dentro de casa, com sua esposa, que então a reproduz com os seus filhos; as crianças mais velhas reproduzem com as mais novas, e no final desse ciclo de violência estão os animais, que são abusados pelas crianças.) Mas então começamos a refletir sobre muitos problemas.

Uma das coisas que são realmente importantes para nós é empoderar as pessoas para que elas se ajudem. Nós fazemos muitas atividades. Por exemplo, voluntários nos ajudaram a limpar as ruas dos campos de refugiados. Queríamos ter o envolvimento das pessoas, que as crianças estivessem envolvidas. Todas as pessoas que são parte da sociedade deveriam se sentir responsáveis. Nós encorajamos as pessoas a questionar. “Por que nós existimos? ” Eu quero mudar as antigas ideias delas sobre serem ajudadas, sobre serem apenas consumidoras. Eu quero que elas (as pessoas) pensem: “Qual o meu lugar na sociedade? Qual a contribuição que eu sou capaz de fazer? ”

Quando recrutamos voluntários, a única pergunta que fazemos é: “Você gosta de animais? ” Se você acredita em bem-estar animal ou em direitos animais, tudo bem. Nós precisamos de sua ajuda, então você pode vir e ajudar da forma como puder. E ao mesmo tempo em que eles fazem o trabalho voluntário com a gente, eles aprendem. Essa é a maneira como trabalhamos.

Na minha opinião a PAL é um movimento, não uma organização ou uma instituição. Ela é um movimento, um movimento interseccional. Nós lutamos. Onde houver a necessidade de lutar para ajudar pessoas, nós iremos e lutaremos. Nós não paramos nos direitos animais. Atualmente nós estamos dando aulas aos estudantes com dificuldades na escola e temos voluntários ensinando inglês a eles. Por quê? Porque eles precisam. Por que deveríamos dizer: “Nós só trabalhamos com direitos animais? ” Isso não é certo.

 

Eu gostei do que você disse, que a PAL não deveria ser uma organização, mas sim um movimento. Quais são os objetivos desse movimento?

Direitos para todos os seres vivos. Qualquer ser vivo. Mas também criar a sociedade onde queremos viver. Há muita capacidade dentro da sociedade palestina, muitos jovens. 51% da sociedade palestina tem menos de 18 anos. Isso é poder e precisamos usá-lo. Este é nosso grande poder. E se nós o utilizarmos da maneira correta, nós teremos um Estado e estaremos prontos para esse Estado. Eu não nego que nós estamos também lutando por nosso país. Porque nós não podemos nos separar da luta de nosso povo, porque essa é nossa batalha diária. Nós não podemos estar alheios à situação atual.  A luta é pra mudar os estereótipos sobre a Palestina. Mudar a maneira como as pessoas olham para a Palestina. Mudar a forma que as pessoas pensam sobre os palestinos, porque não é da forma correta. As pessoas vêem os palestinos somente de duas maneiras: como vítimas ou como terroristas. Nós não precisamos de sua pena. Se alguém não tem direitos então você também não tem direitos. Se alguém está lutando, então você deve sentir que esta luta também é sua. Não precisamos de ajuda. Precisamos que as pessoas vivam conosco, entre nós e que acreditem que a nossa luta é a luta delas. O contrário também é verdadeiro. Nós pensamos que sua luta é a nossa luta. É assim que as coisas são. Então, se você quer vir aqui e se juntar a nós, fazer parte desse movimento, você é bem-vindo.

Tenho esperanças e planos de tornar esse movimento internacional. Neste momento nós temos a solidariedade de grupos na Europa, mas também nos EUA. Nós precisamos tornar esse movimento internacional. Estamos prestando atenção às lutas dentro da Palestina, mas também olhamos para fora. O povo palestino é ignorado pela mídia. Venham e convivam conosco, depois voltem pros seus países e digam ao seu povo o que viram, não o que a Fox News, a CNN e os outros meios de comunicação mostram pra vocês.

 

Você acha que essa é a nossa missão como estrangeiras? O que você espera das ativistas solidárias estrangeiras?

Eu tenho muitas missões pras pessoas de fora. Sua primeira missão é vir pra a Palestina. Venha, demonstre seu apoio e nos ajudem como iguais. Direitos iguais, lutas equivalentes. Venha e lute conosco. Então, volte e compartilhe sua experiência. Escreva sobre isso. Escreva sobre a Palestina a partir da sua perspectiva, sobre o que você  viu com seus próprios olhos. Entre em contato conosco, nos pergunte o que quiser. Nós recebemos muitos e-mails de estrangeiros com as mais diferentes perguntas e não ignoramos nenhum deles; nós respondemos todas as pessoas que nos escrevem fazendo perguntas.

E eu preciso de vocês para nos ajudar com algo. Sameh e eu estamos pensando em fazer a primeira reunião internacional de direitos dos animais na Palestina. E isso será uma tapa na cara do “veganwashing” dos ocupantes. Nós já estamos pensando nisso há um tempo. Essa será uma boa maneira de trazer as pessoas para cá, convidá-las pra trabalhar conosco, pra ir ao campo conosco, ver como vivemos.

Se tem um checkpoint, as pessoas verão o que significa atravessá-lo. Se tem uma marcha, você estará nela. E se o exército atirar gás lacrimogêneo em nós, você terá que correr com a gente. Você respira gás lacrimogêneo e depois vai lutar pelos animais. Isso é o que o povo palestino tem que atravessar e as pessoas não tem ideia do quão difícil é, para nós, ser ativistas pelos direitos dos animais sob uma ocupação militar. Não será como conferencias de direitos animais em outros lugares do mundo, onde você relaxa, se diverte… Pessoas virão, verão por si mesmas e se tornarão embaixadoras. Muitas pessoas entram em contato comigo para saber como se tornar voluntárias. Existe muito trabalho para fazer aqui. Muito.

(Ahmad interrompe a entrevista para dizer a um cliente que ele não precisa pagar pelo hummus. “Esse é por minha conta! Você paga na próxima vez.” ele diz. Chamo à atenção de que o restaurante não dará muito lucro se ele agir dessa forma e sua resposta é “Nós temos que encontrar uma forma de fazer as pessoas virem pro restaurante. Nós queremos que elas venham, tenham uma experiência agradável, façam suas atividades aqui… O que é lucro? Se for dinheiro, não é lucro. O lucro são as pessoas. Eu convido as pessoas pra cá, elas trazem mais pessoas, esse é o maior lucro para nós.”)

 

O grupo do meu último tour político – as pessoas que eu trouxe aqui em março – foi embora há menos de um mês e já organizou dois eventos em solidariedade à luta pelos direitos do povo palestino, no Brasil.

Está vendo? Eu não quero usar o termo “manpower” porque ele é sexista (sugiro “human power”). Human power. Quando pensamos em “human power” estou pensando nisso. É por isso que eu tenho que trazer as pessoas para cá.

 

Vocês estão tentando criar leis de proteção animal na Palestina. Como isso está indo?

Nesse momento nós estamos fazendo muitas reuniões com o Instituto de Leis na Universidade de Bierzeit e com o Ministério da Agricultura. Nós começaremos com o básico e isso se dará em quatro estágios. Primeiro nós estudaremos as leis antigas e prepararemos uma introdução para as novas leis. O segundo estágio será redigir as leis; o terceiro será o lobbying e o quarto será de avaliação e implementação. Isso toma muito tempo. Mas se nós fizermos isso, alcançaremos o objetivo principal de nossa estratégia de curto prazo: fazer leis de proteção animal na Palestina e elas serão as primeiras desse tipo.

(Sameh Arekat chega. Ele é o outro fundador da PAL)

(Ahmad) Eu fiz legumes com tahine pra nós. Está muito gostoso. Mas onde estávamos?

(Sameh e Ahmad, fundadores da Palestinian Animal League)

Quais são os maiores desafios que você enfrenta com esta missão?

Um dos maiores desafios é obter fundos pro nosso trabalho que não venham com uma agenda atrelada. Não temos uma agenda política, então os doadores não terão nenhum benefício político ao nos financiar. Algumas organizações e até embaixadas nos disseram que nos financiariam se assinássemos um documento dizendo que trabalharíamos com organizações israelenses. Alguns doadores nos disseram: “Vocês não precisam trabalhar diretamente com os israelenses, mas vamos fazer um projeto dual, um na Palestina e um em Israel”. Nós não vamos nos submeter à normalização. Mesmo se isso nos custar dinheiro, não faremos.

(De acordo com a Campanha Palestina para o Boicote Acadêmico e Cultural de Israel, “normalização” refere-se à “uma colonização da mente, em que o sujeito oprimido acredita que a realidade do opressor é a única realidade ‘normal’ a qual se deve subscrever e que a opressão é um fato da vida que deve ser aceitado. Aqueles que se envolvem na normalização ou ignoram essa opressão, ou a aceitam como o status quo no qual é possível viver. Contrapor-se à normalização é um meio pra resistir a opressão, seus mecanismos e estruturas “. No contexto dos Territórios Palestinos Ocupados, a normalização é definida como “a participação em qualquer projeto, iniciativa ou atividade, na Palestina ou internacionalmente, que visa (implicita ou explicitamente) reunir palestinos (e/ou árabes) e israelenses (pessoas ou instituições) sem colocar como objetivo a resistência e exposição da ocupação israelense e todas as formas de discriminação e opressão contra a povo palestino”. Quando financiam projetos na Palestina a maioria das instituições internacionais impõe aos palestinos a condição de trabalhar com israelenses, pessoas ou organizações. Recusar essa condição significa não ter acesso a financiamentos. Não participar da normalização significa reconhecer que enquanto os palestinos viverem sob a colonização e ocupação israelense, não existe a possibilidade de um diálogo entre iguais, pois a dinâmica de forças entre palestinos e israelenses é fundamentalmente injusta. Palestinos acreditam que somente quando conseguirem sua liberdade e autodeterminação poderá haver um dialogo justo e entre partes iguais com israelenses.)

O segundo maior desafio que enfrentamos é as pessoas pensarem que se fizerem uma doação pra PAL podem nos controlar, nos dizer como trabalhar, da maneira que costumam trabalhar. Mas os sapatos das outras pessoas não cabem nos nossos pés. Não somos o tipo de pessoas dispostas a comprometer princípios pra obter fundos. Não vamos comprometer nossos princípios. Tem pessoas que nos ajudam com boas intenções, mas às vezes boas intenções podem fazer o oposto de ajudar. Às vezes se transformam em “eu sei qual é a melhor maneira de ajudar vocês”. Não, nós sabemos qual é a melhor maneira de nos ajudarmos. Sugira idéias pra serem discutas, mas não nos diga como fazer o nosso trabalho. Se o seu dinheiro vem com condições e temos que seguir o que você considera a melhor maneira de trabalhar, você pode pegar seu dinheiro e ir embora. Não precisamos dele. Mas, em geral, sempre encontramos as pessoas certas para trabalhar com a gente.

Dentro da sociedade palestina, nosso maior desafio é criar leis de proteção animal. Precisamos conscientizar a população, mas precisamos da proteção da lei. E somente a lei pode proteger nosso movimento. Se eu vejo animais sendo mal tratados eu só posso dizer: “Não faça isso!”. Mas se tivéssemos leis, eles teriam proteção.

 

O que você acha que é o conceito mais errado que as pessoas têm com relação aos palestinos? Em geral, mas também dentro da comunidade de direitos animais?

Estereótipos. Algumas pessoas sentem simpatia por nós e querem nos apoiar, mas … percebi que havia esse problema quando estava no exterior. Nós temos uma abordagem intersseccional, mas descobri que a maioria dos ativistas não tem. Então estamos em um lugar radicalmente diferente dos outros ativistas de direitos dos animais. Estamos sempre trabalhando pela igualdade, mas esses ativistas dos direitos dos animais, eles não pensam em igualdade. Igualdade não é a palavra certa. Por exemplo, eu sou mais alto que Sameh. Se não podemos ver além do muro e pensarem que, em nome da igualdade, devemos receber um banco cada um que seja do mesmo tamanho, isso não é igualdade. Eu ainda serei mais alto e ele ainda pode não ser capaz de ver o que está do outro lado do muro. Levamos ajuda onde é necessário. Pras pessoas, pros animais … Quando fiz o tour pela Europa no ano passado, levei a conversa sobre a ocupação da Palestina pra mesa dos ativistas de direitos animais. Eles nem quiseram ouvir sobre a Palestina, escolheram fechar os olhos para a opressão das pessoas aqui.

(Sameh) Ele começava as palestras dizendo: “Eu não quero ser político, mas …”

(Eu) Mas veganismo é político.

(Ahmad) Eles pensam que se eles alimentam um cachorro e um gato e resgatam uma galinha, é isso, eles são pessoas boas. Dormirão bem à noite.

 

O que você acha do Banksy Hotel?

Gostei da idéia, mas tem alguns problemas. Você viu o filme Avatar? A ironia é que em filmes os americanos sempre salvam o mundo. Eles salvam o mundo, mesmo dos alienígenas ou do Armagedon, do julgamento final. Agora, eles podem salvar at é outros planetas. Eles ajudaram a plantar essa semente na mente dos brancos, que eles são nossos salvadores, que eles são as melhores pessoas do mundo e sua missão é nos salvar. Está no filme, está na cultura.

(Ahmad escreveu um excelente artigo sobre o ‘complexo do branco salvador’, a “idéia de que pessoas não brancas são ‘ incapazes’ e precisam de um branco pra salva-las, ao mesmo tempo em que o branco se mantém separado delas e ocupa uma posição de autoridade ou poder, ou seja, privilégio. Essa idéia, que antes justificava as conquistas brutais dos primeiros colonializadores, agora alimenta um sistema desequilibrado de ajuda em que os países desfavorecidos são obrigados a confiar na riqueza e na tomada de decisões de nações poderosas e muitas vezes predominantemente brancas. Embora haja boa vontade envolvida, o complexo do branco salvador está profundamente enraizado na premissa destrutiva de que um grupo é incapaz de se governar ou se ajudar. “)

(Sameh, Ahmad e Dahoud, o chef do restaurante Sudfeh)

Sameh, você pode responder a última pergunta? Qual é o seu sonho para a Palestina?

É uma pergunta muito difícil. Porque mesmo quando sonhamos, temos limitações pros nossos sonhos. Então temos que sonhar logicamente. Talvez o sonho mais louco seja viver em liberdade, porque só ouvimos falar sobre ela, nunca experimentamos. Nós tocamos a liberdade durante alguns dias da nossa vida, quando estávamos viajando no exterior. Nós vimos o quão fácil é pras pessoas se locomover de um lugar pra outro. Você pode morar na Alemanha, por exemplo, e decidir jantar na Holanda. Quando eu comparo com o quão difícil é para nós … Até pra ir daqui pra Ramallah. É o mesmo país, mas a ocupação pode impedir a gente de ir daqui pra lá.

(O prato de legumes com tahine chega à mesa. “Eu não deveria ter colocado beterraba no prato.” Diz Ahmad. “Ficou tudo cor-de-rosa. Eu fiz ‘pinkwashing’ na comida!”)

Depois do almoço Ahmad me deu uma carona pra Ramallah. Se você tiver sorte, o que significa “se o exército não bloquear as estradas ou te prender nos pontos de controle”, é uma viagem curta. Perguntei a Ahmad sobre a vida em Jalazone, o campo de refugiados onde ele mora. Ele me contou muitas histórias sobre o que significa viver em um campo de refugiados sob uma ocupação militar violenta. O que significa viver sob um sistema injusto e racista criado pra te oprimir e colonizar suas terras. Nesse momento passamos por um lugar que criava galinhas, o tipo de pequena empresa que você encontra em toda a Palestina, com galinhas doentes e sem penas presas em pequenas gaiolas nas calçadas. Por causa da colonização israelense da Palestina, a terra é escassa e as galinhas são criadas em gaiolas. Ahmad apontou pras gaiolas e disse: “Na sociedade em que quero construir e viver, isso será proibido. Nós tornaremos essa crueldade ilegal”.

Defendendo a Palestina: libertando o povo, a terra e os animais“, a conferência internacional organizada pela PAL acontecerá do 3 ao 6 de maio de 2018. “O foco da conferência será a luta compartilhada por terra e libertação pra todas as espécies na Palestina ocupada. Reforçaremos o trabalho de solidariedade internacional e as interseções com o movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções. A conferencia desafiará a narrativa de que Estados coloniais podem oferecer algo além do que destruição pros animais e pra terra, e fornecerá uma visão do trabalho específico de libertação animal nos contextos coloniais. Ela desafiará a propaganda de Brand Israel e o fenômeno internacional de veganwahsing, que justifica a ocupação brutal da Palestina em nome da defesa animal. Isso combaterá a islamofobia, a xenofobia e o racismo anti-árabe no movimento de direitos dos animais. Ela irá demonstrar como a supremacia branca e o colonialismo estão ligados à exploração animal e à devastação ecológica no mundo todo.”

Pra participar do evento e apoiar o trabalho da PAL, visite a página pal.ps

*Agradecimentos especiais pra Rosana, Diego, Marcelo e Thiago, que me ajudaram a traduzir a entrevista pro Português. Essas pessoas lindas participaram dos meus tours políticos na Palestina e se tornaram exatamente o que Ahmad pediu: embaixadoras e ativistas por justiça, liberdade e auto-determinação do povo palestino. Muito obrigada.

O último tour político-ativista-vegano-feminista na Palestina aconteceu em março desse ano. Assim como durante o tour de fevereiro, vivemos momentos difíceis, chocantes e revoltantes. Também vivemos momentos cheios de emoção, onde a humanidade e força das pessoas que encontramos nos tocou profundamente. Pela quinta vez pude ver as pessoas que participaram da viagem passarem pelas mesmas etapas que eu passei quando cheguei pela primeira vez na Palestina, 10 anos atrás. Surpresa, indignação, lágrimas, revolta, impotência, dor. Sempre que acompanho um grupo nessa montanha russa de emoções chega um momento em que me pergunto por que faço isso com essas pessoas tão bacanas que vieram de tão longe pra estar ali comigo. Mas elas nunca deixam de me lembrar a razão que me fez decidir fazer esse trabalho. Eu tenho uma responsabilidade moral em divulgar a realidade cruel da colonização e ocupação militar israelense na Palestina. Elas estão ali porque decidiram mostrar solidariedade ao povo palestino e se juntar às pessoas que lutam por justiça, a condição primeira pra se obter paz.

Tati e Thiago participaram do tour de março e escreveram relatos pessoais que me emocionaram muito. Tantas pessoas que participaram do tour se tornaram ativistas por direitos humanos e justiça na Palestina e além de me encher de felicidade, isso me dá forças pra continuar organizando essas viagens. Então eu precisava compartilhar esses relatos aqui no blog.

“Se eu tivesse optado por um turismo convencional, mesmo tendo uma visão crítica a respeito da ocupação israelense de terras palestinas, muito provavelmente teria voltado com percepções bem diferentes do que esse tour político me proporcionou. Cheguei um dia antes do combinado para me encontrar com o grupo e fiquei hospedada em Jerusalém. Algumas voltas no entorno, vendo israelenses e alguns palestinos na mesma cidade, me deram a falsa impressão de normalidade, de que ambos ocupavam o mesmo espaço sob condições iguais.

Andando apenas em transportes usados por turistas, eu provavelmente não teria percebido que alguns ônibus são reservados apenas para palestinos e outros para israelenses, o sinal mais óbvio de apartheid. Andando pelas ruas e observando as construções, eu certamente acharia que era opção estética ter ou não caixas d’água no teto, ao invés de saber que palestinos não têm água disponível 24h, ao contrário dos israelenses, mesmo essa água tendo sido captada em terras palestinas. Se estivesse em uma excursão tradicional, em ônibus de viagem, teria passado por vários “check points” sem perceber, pois esses ônibus não seriam parados. Mais ainda, eu teria percorrido vários quilômetros de estrada cortando terras palestinas e não saberia que na maioria daquelas estradas só é permitido o tráfego de israelenses. Teria visto as imensas colônias israelenses em terras palestinas e concluído ser apenas mais uma cidade. Teria visitado o Mar Morto sem ver um só palestino e achado que eles não frequentavam outros resorts por opção.

Depois dessas quase duas semanas na Palestina, pude entender perfeitamente o medo que Israel tem de que as pessoas entrem em contato com o povo palestino, o porquê de ter que mentir na imigração, de ter que jurar que não iria para a Palestina para conseguir o visto, o motivo de ter uma lei que proíba civis israelenses de entrar em cidades palestinas, de ter tantas placas dizendo se tratar de áreas perigosas. Porque se as pessoas realmente conhecerem o povo palestino, no mínimo, elas irão questionar a narrativa montada por Israel, o estereótipo construído em torno dos palestinos, sobretudo, os árabes.

Desde o momento em que passei pelo checkpoint, a frase que mais ouvi foi “bem-vinda à Palestina”, acompanhada de um sorriso caloroso. Mesmo quem não falava inglês arriscava algumas palavras para demonstrar o quanto a minha presença era importante ali. Às vezes, um cumprimento com a cabeça já transmitia o recado. Eu, que imaginava os palestinos como pessoas mais reservadas, sérias, desconstruí rapidamente essa imagem. Percebi muitas semelhanças com os brasileiros, a comunicabilidade, o calor humano e a alegria. Mais do que isso, eu me surpreendi com tamanha solidariedade e com uma vontade de apenas seguir a vida, sem rancor, algo que eu, sob as mesmas condições,  provavelmente não conseguiria.

É claro que devem existir discursos mais agressivos, mas, com tanta humilhação, privação e provocação em seu próprio território, me admira haver tão poucos. Aliás, é bom lembrar que é legítimo, reconhecido pelo direito internacional, o direito de um povo sob ocupação se defender.

A primeira coisa que me chamou a atenção quando entrei na Palestina foi a condição precária, a sensação de estar em um lugar permanentemente em obras. Com as barreiras e as condições impostas por Israel, a economia local tem se tornado mais e mais frágil e o índice de desemprego é altíssimo. Mesmo assim, não vi nenhum palestino morador de rua e eram raros os que me abordaram pedindo algo. Pareceu-me um paradoxo, mas, conhecendo um pouco mais da cultura deles, a força dos laços familiares e a generosidade, pude compreender que enquanto houvesse uma pessoa da família trabalhando (e família em sentido amplo), o restante não passaria fome, pois a renda seria dividida entre todos. E a generosidade se estendia inclusive para nós, turistas – foram inúmeros os presentes que ganhei e os convites para refeições que recebemos.

Mas o que mais me impressionou foi o apego deles à vida, a vontade de simplesmente ter uma vida normal, realizar seus planos sem a interferência de Israel. Resistir apesar das inúmeras dificuldades impostas por Israel, manter a cabeça erguida após cada humilhação, manter a serenidade mesmo tendo seus direitos violados dia após dia. É mais que um apartheid, são tantas as maneiras com que Israel consegue tornar a vida de um palestino insuportável que eu sozinha não teria imaginação para elaborar nem 1% dessas políticas. Tantas e tantas vezes me senti impotente, revoltada com as injustiças que via, e que para um palestino era apenas mais um dia de tantos outros.

Quando voltei ao Brasil, me disseram que para ver injustiças eu não precisava ter feito essa viagem. Sim, há injustiças por toda parte, mas a grande diferença é que lá essa injustiça é regulamentada em lei e não há o discurso para que isso mude, muito pelo contrário. O objetivo é tornar a vida do outro tão insuportável a ponto de ele largar tudo e ir embora. É tudo feito de forma descarada.

A diferença social foi outro aspecto que me chamou a atenção, visível mesmo em um território tão pequeno: a população das cidades, com condição financeira melhor e mais acesso aos serviços, e a população dos campos de refugiados, que perdeu tudo e teve que reconstruir sua vida. Como é de se esperar, os moradores dos campos de refugiados, com situação econômica mais difícil e sob constantes invasões de soldados, eram mais religiosos e conservadores. Como bem observou Sandra, nossa guia <3, antes da primeira intifada, na década de 80, eram poucas as palestinas que usavam véu, mas, com a situação de vida cada vez mais difícil, com o cerco israelense cada vez maior, a válvula de escape acaba sendo a religião.

Em Hebron, eu me senti sufocada com a pesada presença militar. Bastava olhar para cima para ver uma arma apontada. Parecia que não havia onde se esconder, que sempre haveria câmeras e mais soldados. Ao contrário de outras cidades palestinas, que estão sendo cercadas por colônias israelenses, em Hebron os colonos tomaram as ruas da cidade. Como resultado, há “check points” entre uma rua e outra, muro dentro da cidade, ruas em que todos os comércios palestinos foram fechados pelos israelenses, ataques a crianças, ruas cobertas com tela por causa dos ataques de colonos a palestinos – presenciei uma criança israelense cuspindo e jogando pedra nos palestinos que transitavam. O mais perturbador disso tudo é saber que todo esse dinheiro que Israel investe em militarização para oprimir os palestinos e proteger os invasores vem de ajuda internacional, é saber que os nossos governos apoiam esse massacre.

Saber disso é importante para aqueles que acham que a causa palestina é algo muito distante da nossa realidade, para aqueles que não tiveram a chance de, assim como eu, ver de perto, sentir empatia pela população, e se perguntam “por que a Palestina?”. Temos, sim, nossa parcela de responsabilidade. Precisamos pressionar o nosso governo a não assinar contratos de cooperação com Israel, a não comprar armamentos e tecnologias que são usados na opressão do povo palestino, pois somente a pressão internacional fará com que essa barbárie termine.

Divulgar o máximo de informações para contrapor a narrativa oficial daqueles que detêm o poder é o mínimo que eu posso fazer. Para aqueles que não puderem ir à Palestina, conversar com os locais e ver de perto as políticas impostas por Israel, sugiro, além de se manter sempre informado sobre o assunto, procurar a visão de quem está ou esteve dentro dessa sociedade que, cada vez mais, está sendo isolada por Israel. Os palestinos querem e precisam ter voz.

Repito aqui o que muitos já disseram durante o tour: que, por mais que eu tivesse lido e me informado sobre o assunto, nada teria me preparado para essa experiência transformadora. Vou carregar comigo, para sempre, os vários olhares cansados e tristes que presenciei; os pedidos para que levássemos as histórias deles para o mundo, para que eles pudessem ter voz; os abraços reconfortantes e toda generosidade que recebi; e, acima de tudo, um enorme carinho por essa terra e seu povo. Liberdade ao povo palestino! Palestina livre!”

Tati

“Conhecer a Palestina sempre foi um desejo. É impossível não ouvir falar sobre a “última grande causa do século XX” na mídia e, para quem tem um pouco de senso crítico, é igualmente impossível não questionar a qualidade e mesmo a veracidade das informações que nos chegam da região.

Essa falta de fé no modo como não apenas a Palestina, mas todo o Oriente Médio e a população árabe são retratados aumentou em muito minha vontade de visitar o local. Junte-se a isso a empolgação em conhecer um país que sempre ocupou um papel de destaque na história da humanidade e pronto, confesso que não pensei muito em me candidatar a participar de um tour pela região que a grande mídia descreve como uma das mais instáveis e violentas do mundo.

Com relação a minha integridade física, verdade seja dita, eu sabia quem poderia me fazer algum mal por lá e sabia também que, regra geral, meu status de estrangeiro me protegeria. 

Já em relação a meu emocional, acreditei que aguentaria o baque. Além de já ter lido bastante a respeito, achei que ter crescido na periferia de São Paulo teria me calejado para as violências e injustiças a que os palestinos são submetidos. Como eu estava enganado.

Sei que parece clichê dizer que é muito difícil estar preparado para o que se vê por lá, mas, acreditem, é verdade. A Palestina é um país muito pobre e com um alto índice de desemprego, mas, apesar de grande, a miséria não é o que mais choca por lá. Até porque, graças a um senso de comunidade que me impressionou bastante, um familiar empregado sempre acolhe os parentes mais necessitados, razão pela qual praticamente inexistem moradores de rua e pedintes. Assaltos e furtos também são raros.

Enfim, o que eu realmente não estava preparado para ver é o modo como Israel conduz a ocupação. Não tem como não se surpreender com o número de formas que esse governo encontra para oprimir, desabrigar, assassinar e humilhar todo o povo palestino. A começar pelo “muro da vergonha”, que, segundo o senso comum, se localiza na fronteira e existe por razões de segurança. Ele não está na fronteira, ele está no meio de terras palestinas, o que inclusive já derruba a tese de que ele existe por razões de segurança. O muro existe com o propósito de confiscar terras palestinas. Aliás, quantas leis e atitudes não existem com o único propósito de confiscar terras palestinas?

Mas não é só a bens materiais que eles parecem não ter direito. Os palestinos não podem sequer se locomover dentro de seu próprio território. Proibições, bloqueios e checkpoints fazem com que muitas vezes o simples ato de caminhar de uma rua a outra se transforme em um pesadelo.

Isso, claro, para não falar na violência física. Todo palestino com quem você conversar vai ter uma história sobre alguém que foi preso ou assassinado injustamente. Tem ideia de quanto dói ver um familiar ser morto injustamente e saber que nada vai ser feito a respeito?

Quando relatamos esses problemas é comum as pessoas dizerem que eles de fato existem e são terríveis, mas que não devemos confundir o governo com seu povo. Por mais que eu compreenda que nossos sistemas políticos estão longe de serem perfeitos no que diz respeito a representar a vontade popular, é fato que há 50 anos o povo israelense elege governos que oprimem cada vez mais o povo palestino.

E, sinceramente, o que mais choca nem são os políticos eleitos, são algumas atitudes da população mesmo. Em Hebron vi colonos israelenses jogando pedras, cuspindo e urinando em palestinos. Uma criança israelense tentou cuspir em mim e no meu grupo por estarmos em área palestina. Ver esse nível de ódio partindo de uma criança impressiona. 

Claro que existem israelenses que lutam contra essa opressão, mas, infelizmente, eles parecem ser poucos. Definitivamente não o suficiente para amenizar em algo o sofrimento palestino.

Por ser um relato pessoal não vou embasar minhas sensações com fatos, o objetivo aqui é dizer o quanto o contato com aquela realidade tem potencial de transformar o modo como vemos o mundo. Depois da vivência que tive – e nem foram muitos dias – passei a ver as coisas com outros olhos, a valorizar muito mais o que tenho e a rir de problemas que antes pareciam enormes.

Mas a principal sensação que eu trouxe foi a perplexidade em perceber o quanto o mundo parece dar as costas à causa palestina. Não dá para acreditar que um sofrimento tão grande persista por tanto tempo sem que a maioria das pessoas sequer saiba o que acontece por lá.

É assim que eu acho que nós, aqui de longe, podemos contribuir: com informação. Sabemos o quanto é difícil encontrar informações sobre o massacre a que os palestinos são submetidos diariamente, conhecemos o esforço da grande mídia em nos fazer acreditar que se trata de um “conflito” entre duas partes “igualmente poderosas” e precisamos fazer nossa parte para desconstruir esse discurso.

Não acredito que a solução para o problema venha de dentro de Israel se não houver pressão externa. O apartheid na África do Sul só acabou após a comunidade internacional se sensibilizar para o tema e aplicar uma série de boicotes e sanções ao país. Do mesmo modo, não acredito que Israel algum dia vá acordar disposto a abrir mão de todos os benefícios que a colonização da Palestina lhe garante.

Os palestinos estão há décadas fazendo a parte deles, resistindo heroicamente a uma ocupação que se esforça diariamente em desumanizá-los. Nossa parte nessa luta é infinitamente mais simples, precisamos enxergar e divulgar o que acontece, os políticos de nossos países precisam perceber que há uma preocupação com o tema para que o levem a esferas cada vez maiores de poder.

A mudança vem de fora, a mudança vem de baixo e, no que eu puder, estou disposto a fazer minha parte.”

Thiago

 

*Todas as fotos que ilustram esse post foram feitas por Tati, que me deu autorização pra publica-las aqui.

*Os próximos tours político-ativista-vegano-feministas na Palestina acontecerão em março/2018.

*Legendas das fotos, na ordem de aparição:

1-Feira em Hebron. 2- O grupo com meu amigo Marwan, que nos guiou durante a visita de dois vilarejos na região de Belém. 3-O muro construído por Israel dentro dos territórios palestinos, aqui em Belém. 4-Casa no vilarejo Zacharia. É costume se tirar os sapatos antes de entrar nas casas palestinas.  5-Torre de uma mesquita. 6-A placa colocada pelo governo israelense na entrada dos territórios palestinos ocupados, avisando que a lei israelense impede que seus cidadãos entrem ali. 7-Morador de Zacharia, um vilarejo palestino que se encontra cercado por colônias ilegais israelenses. 8-Sudfeh, o primeiro restaurante vegano da Palestina, na Universidade de Abu Dis. 9-Baha, uma amigo querido e nosso guia no distrito de Belém, brincando com a filha de outro amigo palestino. 10-Universidade de Abu Dis. 11-Nablus, no norte da Cisjordânia. 12- O filho de Fatima, que nos guiou em Nablus e organizou um curso de culinária palestina pra nós. 13-Nablus. 14-Jericó, no Vale do Jordão. 15- O padeiro de Nablus que faz os melhores pães com za’atar da cidade. 16- Feira em Hebron. 17-Soldados israelenses que tinham invadido a casa de Zleiha, nossa guia em Hebron, e que ameaçam crianças palestinas que estavam na rua. 18,19,20- Enterro do escritor e ativista por direitos humanos Basel Al Araj, assassinado em casa pelos soldados israelenses. 21- Belém. 22-Cabra que encontramos durante a trilha no deserto de Jericó. 23- Loja de especiarias em Nablus.

O quarto e o quinto tour Papacapim na Palestina aconteceram em fevereiro e março. Mais uma experiência transformadora, pras pessoas que participam do tour e pra mim mesma. As participantes terminam o tour meio sequeladas ou, como disse meu amigo Rogério, “acordadas”! Reviver, de novo e de novo, a montanha russa de emoções provocadas pelas atividades do tour e explicar, de novo e de novo, a injustiça e violações dos direitos humanos cometidas pela ocupação israelense na Palestina é doloroso pra mim. Claro que a dor que sentimos não pode nunca, nem de longe, ser comparada à dor vivida pelo povo palestino, mas não deixa de ser uma vivência difícil pra nós. Planejar esses tours exige meses de trabalho, muitas horas respondendo emails e tirando dúvidas de pessoas interessadas em participar, semanas coordenando as atividades com as pessoas palestinas que nos guiam e participam da programação… No final das contas acompanhar os grupos durante 11 dias é a menor parte do trabalho, mas é a parte que provoca um esgotamento físico e emocional que me obriga a ficar de cama por alguns dias depois de cada tour.

IMG_7647

Apesar disso tudo, esse é o trabalho mais gratificante dentre todos os trabalhos que faço. Poder sensibilizar pessoas sobre uma questão tão importante, poder levar solidariedade às palestinas que lutam incansavelmente por justiça, apoiar a economia local, que está sendo estrangulada pela ocupação, tudo isso não tem preço.  Também considero o trabalho mais importante que realizo no terreno dos direitos humanos, que é uma parte enorme do meu ativismo.

IMG_7499

IMG_8099

A programação muda um pouco a cada ano, dependendo da disponibilidade das pessoas palestinas que me ajudam a realizar esse projeto, da época do ano e dos eventos acontecendo por aqui durante a viagem. Além das atividades que sempre fazem parte do programa, pois são essenciais pra compreender o que acontece aqui, como a visita do campo de refugiados de Aida, onde os grupos ficam hospedados, o tour político da região de Belém (muro, colônias ilegais, estradas, sistema de apartheid), tour de Hebron (colônias e checkpoints dentro da cidade), cidade antiga de Belém e Jerusalém, tem também palestras com organizações de direitos humanos palestinas que oferecem apoio legal a prisioneiros políticos (Addameer) e refugiados (Badil), palestra com a única organização local de direitos animais, que faz um trabalho interseccional e também trabalha com direitos humanos (Palestinian Animal League), visita à Universidade Al Quds e conversa com estudantes e professoras…

IMG_7627

IMG_8076

E tantas outras coisas, tantos encontros com pessoas incríveis que estão resistindo e lutando de maneira tão corajosa. Como meu amigo Marwan, que ajuda agricultores a replantar oliveiras e reconstruir casas demolidas pelo governo israelense. Baha, que organiza tours políticos incríveis pra ativistas. Minha querida amiga Draguista, que coordena um projeto de mulheres bordadeiras no campo de refugiados de Deheisha. Sahar, que luta pela desmilitarização da sociedade israelense. Tali, outra amiga israelense, que promove a campanha BDS. Fatima, diretora do projeto de mulheres Beit Al Karama, em Nablus e Islam, diretora do projeto de mulheres Noor, no campo de refugiados de Aida.

IMG_8234

IMG_8145

IMG_7601

IMG_7659

IMG_7652

Tem também a parte mais turística, pois descobrir as belezas naturais da Palestina é um dos objetivos do tour. Como a trilha de seis horas no deserto de Jericó e visita dessa que é a cidade mais antiga do mundo que nunca deixou de ser habitada, mergulho no mar morto, o monastério de Mar Saba, no deserto da Judeia. Teve também uma tarde no hammam (banho turco), com direito a sauna e massagem, um tour gastronômico em Nablus, aula de culinária tradicional com um projeto de empoderamento de mulheres… E falando em comida, teve a parte comestível do tour.

IMG_7648
IMG_8213
IMG_7553

O lado gastronômico do tour é muito importante por dois motivos. Primeiro porque faz parte da minha missão divulgar as delícias da culínaria tradicional palestina. Uma das ferramentas da limpeza étnica que Israel vem fazendo contra a população palestina desde que foi criado na maior parte da Palestina histórica, em 1948, é apagar ou se apropriar da cultura desse povo. Podemos ver isso claramente com a culinária. Quantas vezes ouvi pessoas dizendo que hummus e falafel são israelenses, quando a verdade é que povos árabes já comiam essas duas preparações muito antes de 1948. Segundo porque é comum pessoas veganas sofrerem com falta de opção de comida vegetal e gostosa quando viajam e eu queria que esse tour fosse exatamente o contrário.

IMG_8205

IMG_8223

IMG_8243

IMG_8187

Não vou mentir, essa viagem é extremamente dura pro emocional da gente. Comida é uma maneira de não só se conectar com a cultura local e voltar a ter aquelas experiências gastronômicas inesquecíveis que tínhamos quando viajávamos na nossa época pré-vegana, mas também serve de reconforto no meio de toda a injustiça que presenciamos. Minha amiga Camila, que participou do tour de março e que adora comida tanto quanto eu, falou que todo dia passava da tristeza à alegria justamente por causa dessa combinação na nossa programação diária. A comida era uma tentativa de curar um pouco a dor que nossa alma sentia.

IMG_8216

IMG_8111

IMG_7731

IMG_7746

Pra quem mandou email perguntando quando serão as próximas viagens gostaria de explicar que esse tour é um projeto especial que faço somente quando condições favoráveis se reúnem. Nunca sei quando será o próximo, nem mesmo se haverá mais algum tour no futuro. Uma coisa é certa, esses foram os únicos tours de 2017. Nessa minha vida de nômade só consigo planejar um ano por vez e 2018 ainda é um mistério pra mim. Mas se acontecer mais algum tour ano que vem, será provavelmente no segundo semestre. Quem quiser colocar seu nome na lista de pessoas interessadas, e ser avisada de primeira mão, antes do anúncio do tour aparecer aqui no blog, basta enviar um email pra papacapimveg@gmail.com. Mas não prometo nada.

IMG_8232

IMG_7789

IMG_8079

Termino agradecendo a participação de cada pessoa que me deu a honra de sua presença no tour. Obrigada por terem se interessado pela Palestina, por terem vindo até aqui mostrar a solidariedade de vocês e por terem confiado em mim e acreditado no meu trabalho. E aqui vai a missão pós-tour que dou a todas as participantes: compartilhem o que viram e viveram aqui com o máximo de pessoas possível, sejam ativistas por justiça na Palestina da maneira que melhor couber no estilo de vida que levam e sejam a voz das palestinas que vocês encontraram aqui, presas na máquina cruel e injusta da ocupação militar israelense, na comunidade de vocês.