Defendendo a Palestina: libertando o povo, a terra e os animais

Eu conheci Ahmad Safi, um dos fundadores da Palestinian Animal League (PAL – Liga Animal Palestina), em 2015. Sou uma grande admiradora do trabalho que a PAL, a primeira Organização de Proteção aos Animais atuando dentro dos Territórios Palestinos Ocupados, está fazendo e tinha vontade de entrevistar Ahmad desde então. No final de abril deste ano, finalmente marcamos uma data e nos encontramos na hora do almoço no Sudfeh, o primeiro restaurante vegano/vegetariano da Palestina, localizada na Universidade Al Quds, em Abu Dis.

Ahmad chegou dizendo que não estava se sentindo tão bem. Na noite anterior soldados israelenses invadiram o campo de refugiados de Jalazone, onde ele vive com sua família, e atiraram nos moradores. “Ontem à noite eu encontrei um amigo e decidimos sair para nos divertir. Quando chegamos na entrada do campo vimos dois garotos feridos. Olhei pro que estava mais perto de mim e tinha tanto sangue que não o reconheci, mas me disseram que era meu vizinho. Eu coloquei o garoto no meu carro e meu amigo me ajudou a levá-lo ao hospital. Ele tinha ferimentos muito graves, parte do seu cérebro estava exposto. Não levamos o outro rapaz porque ele já estava morto. Outras pessoas no campo também estavam feridas. Infelizmente, meu vizinho morreu no hospital. Ele só tinha 16 anos. Hoje de manhã alguém estava grelhando carne. Durante a primeira intifada algumas pessoas do campo morreram queimadas e é exatamente o mesmo cheiro de carne sendo grelhada. Eu já senti o cheiro de muitos cadáveres na minha vida, mas na noite passada foi terrível. Eu me senti realmente mal. Vim trabalhar hoje pra tirar esses pensamentos da cabeça.”

 Esse é o dia a dia dos palestinos. Não foi a primeira vez que Ahmad presenciou alguém que ele conhecia, um vizinho, um amigo, sendo morto pelas forças de ocupação. A vida continua, mas não consigo não me sentir estranha perguntando a ele sobre veganismo depois de ouvir os terríveis eventos que aconteceram há poucas horas.

Mas durante a entrevista, Ahmad me lembrou que todas as lutas estão conectadas e que não podemos separar a luta por direitos humanos da luta por direitos animais. Especialmente agora que a comunidade vegana está crescendo dentro de Israel e o movimento está sendo usado como mais uma ferramenta do kit de propaganda israelense. Trata-se do chamado “veganwashing”, que usa a crescente popularidade do veganismo dentro da sociedade israelense pra apresentar uma imagem “progressista” do estado e tirar o foco da violência perpetrada contra os palestinos pelo projeto colonialista israelense. Até mesmo o exército israelense entrou nessa e tem oferecido a possibilidade de optar por refeições veganas e botas de couro sintético aos soldados que se declarem veganos, em uma tentativa de melhorar sua imagem.

O veganismo não é o único movimento de justiça social usado pelo governo israelense para “lavar” seus crimes. A comunidade LGBTQ frequentemente é usada para vender a imagem de país progressista e esconder as violações a direitos humanos praticadas por Israel, o que é conhecido como “pinkwashing”.

 

Como você se tornou vegano?

Assim que comecei a visitar matadouros. Quando eu vi o que acontecia lá, me tornei vegano.

 

O que é o método de abate halal? Como ele se diferencia dos métodos tradicionais de abate de animais?

Nós temos um ditado em Árabe que diz: “não importa quanta misericórdia você tenha, matar é matar”. Então não importa se é halal, se você fez com essa ou com aquela máquina, se a faca é afiada… matar é matar. Esse é um ponto muito importante que as pessoas costumam esquecer.

Quando nós precisamos comer carne? Quando não temos nada mais para comer e nossa sobrevivência depende disso, mas atualmente temos várias alternativas. Muitas alternativas.

Quando comecei a me dar conta disso, pensei: “preciso me tornar vegano”, mas dentro da PAL não temos uma regra que diz que você precisa ser vegano para participar, porque as pessoas vão aprender por conta própria e, quando tiverem informações suficientes, vão mudar.

 

O que você acha dos ativistas por direitos animais que diminuem o sofrimento humano ou que dizem que basta as pessoas se tornarem veganas pra obter justiça em todos os lugares e pra todo mundo?

É loucura. Essas pessoas são especistas se acham que animais valem mais do que humanos. Eu odeio isso. Humanos e animais são iguais. Todos os seres vivos têm o direito à vida. Você escolheu nascer? Você está aqui agora e você tem o direito de viver. Quem decide quem tem e quem não tem o direito à vida? Somente o ódio. Ódio. E ganância.

E, por isso, o que pensamos sobre animais é o mesmo que pensamos a respeito de humanos e vice-versa. Devíamos nos chamar apenas de “seres”. Somos todos seres e somos todos iguais.

 

Eu achei o seu artigo sobre o Islã e o veganismo muito interessante.

Comer animais era permitido porque nós vivíamos no deserto. Você tem que lembrar que era uma outra época. Se você está no deserto, os únicos alimentos disponíveis são trigo e tâmaras. Hoje importamos coisas de Portugal, da Espanha! É um mundo diferente. Agora eu posso encontrar milhares de alternativas para comer.

(Ahmad pede licença pra falar com uma pessoa que estava passando na hora. Quando ele volta à conversa ele percebe que uma outra estrangeira, que veio comigo, havia se sentado à mesa. Ele perguntou, em Árabe, como ela estava. Ela respondeu usando o masculino, pois em Árabe o gênero é expresso em todos os adjetivos. Eu apontei o erro, mas Ahmad riu e disse que não tinha importância. “Somos contra essa coisa de gênero. É uma construção social.” Começamos então uma conversa sobre o absurdo que é o gênero nas gramáticas das nossas línguas maternas).

 

Como começou a PAL?

Para ser honesto nós não pensávamos em direitos animais quando iniciamos. Criamos a PAL para educar as crianças sobre violência. Para quebrar o ciclo de violência. (Eu ouvi Ahmad explicando isso algumas vezes em apresentações. Um homem palestino apanha de um soldado israelense, vai para a prisão sem nenhuma razão, é torturado na prisão… então quando é solto, ele começa a reproduzir a violência da qual foi vítima dentro de casa, com sua esposa, que então a reproduz com os seus filhos; as crianças mais velhas reproduzem com as mais novas, e no final desse ciclo de violência estão os animais, que são abusados pelas crianças.) Mas então começamos a refletir sobre muitos problemas.

Uma das coisas que são realmente importantes para nós é empoderar as pessoas para que elas se ajudem. Nós fazemos muitas atividades. Por exemplo, voluntários nos ajudaram a limpar as ruas dos campos de refugiados. Queríamos ter o envolvimento das pessoas, que as crianças estivessem envolvidas. Todas as pessoas que são parte da sociedade deveriam se sentir responsáveis. Nós encorajamos as pessoas a questionar. “Por que nós existimos? ” Eu quero mudar as antigas ideias delas sobre serem ajudadas, sobre serem apenas consumidoras. Eu quero que elas (as pessoas) pensem: “Qual o meu lugar na sociedade? Qual a contribuição que eu sou capaz de fazer? ”

Quando recrutamos voluntários, a única pergunta que fazemos é: “Você gosta de animais? ” Se você acredita em bem-estar animal ou em direitos animais, tudo bem. Nós precisamos de sua ajuda, então você pode vir e ajudar da forma como puder. E ao mesmo tempo em que eles fazem o trabalho voluntário com a gente, eles aprendem. Essa é a maneira como trabalhamos.

Na minha opinião a PAL é um movimento, não uma organização ou uma instituição. Ela é um movimento, um movimento interseccional. Nós lutamos. Onde houver a necessidade de lutar para ajudar pessoas, nós iremos e lutaremos. Nós não paramos nos direitos animais. Atualmente nós estamos dando aulas aos estudantes com dificuldades na escola e temos voluntários ensinando inglês a eles. Por quê? Porque eles precisam. Por que deveríamos dizer: “Nós só trabalhamos com direitos animais? ” Isso não é certo.

 

Eu gostei do que você disse, que a PAL não deveria ser uma organização, mas sim um movimento. Quais são os objetivos desse movimento?

Direitos para todos os seres vivos. Qualquer ser vivo. Mas também criar a sociedade onde queremos viver. Há muita capacidade dentro da sociedade palestina, muitos jovens. 51% da sociedade palestina tem menos de 18 anos. Isso é poder e precisamos usá-lo. Este é nosso grande poder. E se nós o utilizarmos da maneira correta, nós teremos um Estado e estaremos prontos para esse Estado. Eu não nego que nós estamos também lutando por nosso país. Porque nós não podemos nos separar da luta de nosso povo, porque essa é nossa batalha diária. Nós não podemos estar alheios à situação atual.  A luta é pra mudar os estereótipos sobre a Palestina. Mudar a maneira como as pessoas olham para a Palestina. Mudar a forma que as pessoas pensam sobre os palestinos, porque não é da forma correta. As pessoas vêem os palestinos somente de duas maneiras: como vítimas ou como terroristas. Nós não precisamos de sua pena. Se alguém não tem direitos então você também não tem direitos. Se alguém está lutando, então você deve sentir que esta luta também é sua. Não precisamos de ajuda. Precisamos que as pessoas vivam conosco, entre nós e que acreditem que a nossa luta é a luta delas. O contrário também é verdadeiro. Nós pensamos que sua luta é a nossa luta. É assim que as coisas são. Então, se você quer vir aqui e se juntar a nós, fazer parte desse movimento, você é bem-vindo.

Tenho esperanças e planos de tornar esse movimento internacional. Neste momento nós temos a solidariedade de grupos na Europa, mas também nos EUA. Nós precisamos tornar esse movimento internacional. Estamos prestando atenção às lutas dentro da Palestina, mas também olhamos para fora. O povo palestino é ignorado pela mídia. Venham e convivam conosco, depois voltem pros seus países e digam ao seu povo o que viram, não o que a Fox News, a CNN e os outros meios de comunicação mostram pra vocês.

 

Você acha que essa é a nossa missão como estrangeiras? O que você espera das ativistas solidárias estrangeiras?

Eu tenho muitas missões pras pessoas de fora. Sua primeira missão é vir pra a Palestina. Venha, demonstre seu apoio e nos ajudem como iguais. Direitos iguais, lutas equivalentes. Venha e lute conosco. Então, volte e compartilhe sua experiência. Escreva sobre isso. Escreva sobre a Palestina a partir da sua perspectiva, sobre o que você  viu com seus próprios olhos. Entre em contato conosco, nos pergunte o que quiser. Nós recebemos muitos e-mails de estrangeiros com as mais diferentes perguntas e não ignoramos nenhum deles; nós respondemos todas as pessoas que nos escrevem fazendo perguntas.

E eu preciso de vocês para nos ajudar com algo. Sameh e eu estamos pensando em fazer a primeira reunião internacional de direitos dos animais na Palestina. E isso será uma tapa na cara do “veganwashing” dos ocupantes. Nós já estamos pensando nisso há um tempo. Essa será uma boa maneira de trazer as pessoas para cá, convidá-las pra trabalhar conosco, pra ir ao campo conosco, ver como vivemos.

Se tem um checkpoint, as pessoas verão o que significa atravessá-lo. Se tem uma marcha, você estará nela. E se o exército atirar gás lacrimogêneo em nós, você terá que correr com a gente. Você respira gás lacrimogêneo e depois vai lutar pelos animais. Isso é o que o povo palestino tem que atravessar e as pessoas não tem ideia do quão difícil é, para nós, ser ativistas pelos direitos dos animais sob uma ocupação militar. Não será como conferencias de direitos animais em outros lugares do mundo, onde você relaxa, se diverte… Pessoas virão, verão por si mesmas e se tornarão embaixadoras. Muitas pessoas entram em contato comigo para saber como se tornar voluntárias. Existe muito trabalho para fazer aqui. Muito.

(Ahmad interrompe a entrevista para dizer a um cliente que ele não precisa pagar pelo hummus. “Esse é por minha conta! Você paga na próxima vez.” ele diz. Chamo à atenção de que o restaurante não dará muito lucro se ele agir dessa forma e sua resposta é “Nós temos que encontrar uma forma de fazer as pessoas virem pro restaurante. Nós queremos que elas venham, tenham uma experiência agradável, façam suas atividades aqui… O que é lucro? Se for dinheiro, não é lucro. O lucro são as pessoas. Eu convido as pessoas pra cá, elas trazem mais pessoas, esse é o maior lucro para nós.”)

 

O grupo do meu último tour político – as pessoas que eu trouxe aqui em março – foi embora há menos de um mês e já organizou dois eventos em solidariedade à luta pelos direitos do povo palestino, no Brasil.

Está vendo? Eu não quero usar o termo “manpower” porque ele é sexista (sugiro “human power”). Human power. Quando pensamos em “human power” estou pensando nisso. É por isso que eu tenho que trazer as pessoas para cá.

 

Vocês estão tentando criar leis de proteção animal na Palestina. Como isso está indo?

Nesse momento nós estamos fazendo muitas reuniões com o Instituto de Leis na Universidade de Bierzeit e com o Ministério da Agricultura. Nós começaremos com o básico e isso se dará em quatro estágios. Primeiro nós estudaremos as leis antigas e prepararemos uma introdução para as novas leis. O segundo estágio será redigir as leis; o terceiro será o lobbying e o quarto será de avaliação e implementação. Isso toma muito tempo. Mas se nós fizermos isso, alcançaremos o objetivo principal de nossa estratégia de curto prazo: fazer leis de proteção animal na Palestina e elas serão as primeiras desse tipo.

(Sameh Arekat chega. Ele é o outro fundador da PAL)

(Ahmad) Eu fiz legumes com tahine pra nós. Está muito gostoso. Mas onde estávamos?

(Sameh e Ahmad, fundadores da Palestinian Animal League)

Quais são os maiores desafios que você enfrenta com esta missão?

Um dos maiores desafios é obter fundos pro nosso trabalho que não venham com uma agenda atrelada. Não temos uma agenda política, então os doadores não terão nenhum benefício político ao nos financiar. Algumas organizações e até embaixadas nos disseram que nos financiariam se assinássemos um documento dizendo que trabalharíamos com organizações israelenses. Alguns doadores nos disseram: “Vocês não precisam trabalhar diretamente com os israelenses, mas vamos fazer um projeto dual, um na Palestina e um em Israel”. Nós não vamos nos submeter à normalização. Mesmo se isso nos custar dinheiro, não faremos.

(De acordo com a Campanha Palestina para o Boicote Acadêmico e Cultural de Israel, “normalização” refere-se à “uma colonização da mente, em que o sujeito oprimido acredita que a realidade do opressor é a única realidade ‘normal’ a qual se deve subscrever e que a opressão é um fato da vida que deve ser aceitado. Aqueles que se envolvem na normalização ou ignoram essa opressão, ou a aceitam como o status quo no qual é possível viver. Contrapor-se à normalização é um meio pra resistir a opressão, seus mecanismos e estruturas “. No contexto dos Territórios Palestinos Ocupados, a normalização é definida como “a participação em qualquer projeto, iniciativa ou atividade, na Palestina ou internacionalmente, que visa (implicita ou explicitamente) reunir palestinos (e/ou árabes) e israelenses (pessoas ou instituições) sem colocar como objetivo a resistência e exposição da ocupação israelense e todas as formas de discriminação e opressão contra a povo palestino”. Quando financiam projetos na Palestina a maioria das instituições internacionais impõe aos palestinos a condição de trabalhar com israelenses, pessoas ou organizações. Recusar essa condição significa não ter acesso a financiamentos. Não participar da normalização significa reconhecer que enquanto os palestinos viverem sob a colonização e ocupação israelense, não existe a possibilidade de um diálogo entre iguais, pois a dinâmica de forças entre palestinos e israelenses é fundamentalmente injusta. Palestinos acreditam que somente quando conseguirem sua liberdade e autodeterminação poderá haver um dialogo justo e entre partes iguais com israelenses.)

O segundo maior desafio que enfrentamos é as pessoas pensarem que se fizerem uma doação pra PAL podem nos controlar, nos dizer como trabalhar, da maneira que costumam trabalhar. Mas os sapatos das outras pessoas não cabem nos nossos pés. Não somos o tipo de pessoas dispostas a comprometer princípios pra obter fundos. Não vamos comprometer nossos princípios. Tem pessoas que nos ajudam com boas intenções, mas às vezes boas intenções podem fazer o oposto de ajudar. Às vezes se transformam em “eu sei qual é a melhor maneira de ajudar vocês”. Não, nós sabemos qual é a melhor maneira de nos ajudarmos. Sugira idéias pra serem discutas, mas não nos diga como fazer o nosso trabalho. Se o seu dinheiro vem com condições e temos que seguir o que você considera a melhor maneira de trabalhar, você pode pegar seu dinheiro e ir embora. Não precisamos dele. Mas, em geral, sempre encontramos as pessoas certas para trabalhar com a gente.

Dentro da sociedade palestina, nosso maior desafio é criar leis de proteção animal. Precisamos conscientizar a população, mas precisamos da proteção da lei. E somente a lei pode proteger nosso movimento. Se eu vejo animais sendo mal tratados eu só posso dizer: “Não faça isso!”. Mas se tivéssemos leis, eles teriam proteção.

 

O que você acha que é o conceito mais errado que as pessoas têm com relação aos palestinos? Em geral, mas também dentro da comunidade de direitos animais?

Estereótipos. Algumas pessoas sentem simpatia por nós e querem nos apoiar, mas … percebi que havia esse problema quando estava no exterior. Nós temos uma abordagem intersseccional, mas descobri que a maioria dos ativistas não tem. Então estamos em um lugar radicalmente diferente dos outros ativistas de direitos dos animais. Estamos sempre trabalhando pela igualdade, mas esses ativistas dos direitos dos animais, eles não pensam em igualdade. Igualdade não é a palavra certa. Por exemplo, eu sou mais alto que Sameh. Se não podemos ver além do muro e pensarem que, em nome da igualdade, devemos receber um banco cada um que seja do mesmo tamanho, isso não é igualdade. Eu ainda serei mais alto e ele ainda pode não ser capaz de ver o que está do outro lado do muro. Levamos ajuda onde é necessário. Pras pessoas, pros animais … Quando fiz o tour pela Europa no ano passado, levei a conversa sobre a ocupação da Palestina pra mesa dos ativistas de direitos animais. Eles nem quiseram ouvir sobre a Palestina, escolheram fechar os olhos para a opressão das pessoas aqui.

(Sameh) Ele começava as palestras dizendo: “Eu não quero ser político, mas …”

(Eu) Mas veganismo é político.

(Ahmad) Eles pensam que se eles alimentam um cachorro e um gato e resgatam uma galinha, é isso, eles são pessoas boas. Dormirão bem à noite.

 

O que você acha do Banksy Hotel?

Gostei da idéia, mas tem alguns problemas. Você viu o filme Avatar? A ironia é que em filmes os americanos sempre salvam o mundo. Eles salvam o mundo, mesmo dos alienígenas ou do Armagedon, do julgamento final. Agora, eles podem salvar at é outros planetas. Eles ajudaram a plantar essa semente na mente dos brancos, que eles são nossos salvadores, que eles são as melhores pessoas do mundo e sua missão é nos salvar. Está no filme, está na cultura.

(Ahmad escreveu um excelente artigo sobre o ‘complexo do branco salvador’, a “idéia de que pessoas não brancas são ‘ incapazes’ e precisam de um branco pra salva-las, ao mesmo tempo em que o branco se mantém separado delas e ocupa uma posição de autoridade ou poder, ou seja, privilégio. Essa idéia, que antes justificava as conquistas brutais dos primeiros colonializadores, agora alimenta um sistema desequilibrado de ajuda em que os países desfavorecidos são obrigados a confiar na riqueza e na tomada de decisões de nações poderosas e muitas vezes predominantemente brancas. Embora haja boa vontade envolvida, o complexo do branco salvador está profundamente enraizado na premissa destrutiva de que um grupo é incapaz de se governar ou se ajudar. “)

(Sameh, Ahmad e Dahoud, o chef do restaurante Sudfeh)

Sameh, você pode responder a última pergunta? Qual é o seu sonho para a Palestina?

É uma pergunta muito difícil. Porque mesmo quando sonhamos, temos limitações pros nossos sonhos. Então temos que sonhar logicamente. Talvez o sonho mais louco seja viver em liberdade, porque só ouvimos falar sobre ela, nunca experimentamos. Nós tocamos a liberdade durante alguns dias da nossa vida, quando estávamos viajando no exterior. Nós vimos o quão fácil é pras pessoas se locomover de um lugar pra outro. Você pode morar na Alemanha, por exemplo, e decidir jantar na Holanda. Quando eu comparo com o quão difícil é para nós … Até pra ir daqui pra Ramallah. É o mesmo país, mas a ocupação pode impedir a gente de ir daqui pra lá.

(O prato de legumes com tahine chega à mesa. “Eu não deveria ter colocado beterraba no prato.” Diz Ahmad. “Ficou tudo cor-de-rosa. Eu fiz ‘pinkwashing’ na comida!”)

Depois do almoço Ahmad me deu uma carona pra Ramallah. Se você tiver sorte, o que significa “se o exército não bloquear as estradas ou te prender nos pontos de controle”, é uma viagem curta. Perguntei a Ahmad sobre a vida em Jalazone, o campo de refugiados onde ele mora. Ele me contou muitas histórias sobre o que significa viver em um campo de refugiados sob uma ocupação militar violenta. O que significa viver sob um sistema injusto e racista criado pra te oprimir e colonizar suas terras. Nesse momento passamos por um lugar que criava galinhas, o tipo de pequena empresa que você encontra em toda a Palestina, com galinhas doentes e sem penas presas em pequenas gaiolas nas calçadas. Por causa da colonização israelense da Palestina, a terra é escassa e as galinhas são criadas em gaiolas. Ahmad apontou pras gaiolas e disse: “Na sociedade em que quero construir e viver, isso será proibido. Nós tornaremos essa crueldade ilegal”.

Defendendo a Palestina: libertando o povo, a terra e os animais“, a conferência internacional organizada pela PAL acontecerá do 3 ao 6 de maio de 2018. “O foco da conferência será a luta compartilhada por terra e libertação pra todas as espécies na Palestina ocupada. Reforçaremos o trabalho de solidariedade internacional e as interseções com o movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções. A conferencia desafiará a narrativa de que Estados coloniais podem oferecer algo além do que destruição pros animais e pra terra, e fornecerá uma visão do trabalho específico de libertação animal nos contextos coloniais. Ela desafiará a propaganda de Brand Israel e o fenômeno internacional de veganwahsing, que justifica a ocupação brutal da Palestina em nome da defesa animal. Isso combaterá a islamofobia, a xenofobia e o racismo anti-árabe no movimento de direitos dos animais. Ela irá demonstrar como a supremacia branca e o colonialismo estão ligados à exploração animal e à devastação ecológica no mundo todo.”

Pra participar do evento e apoiar o trabalho da PAL, visite a página pal.ps

*Agradecimentos especiais pra Rosana, Diego, Marcelo e Thiago, que me ajudaram a traduzir a entrevista pro Português. Essas pessoas lindas participaram dos meus tours políticos na Palestina e se tornaram exatamente o que Ahmad pediu: embaixadoras e ativistas por justiça, liberdade e auto-determinação do povo palestino. Muito obrigada.

“Estou disposto a fazer a minha parte”

O último tour político-ativista-vegano-feminista na Palestina aconteceu em março desse ano. Assim como durante o tour de fevereiro, vivemos momentos difíceis, chocantes e revoltantes. Também vivemos momentos cheios de emoção, onde a humanidade e força das pessoas que encontramos nos tocou profundamente. Pela quinta vez pude ver as pessoas que participaram da viagem passarem pelas mesmas etapas que eu passei quando cheguei pela primeira vez na Palestina, 10 anos atrás. Surpresa, indignação, lágrimas, revolta, impotência, dor. Sempre que acompanho um grupo nessa montanha russa de emoções chega um momento em que me pergunto por que faço isso com essas pessoas tão bacanas que vieram de tão longe pra estar ali comigo. Mas elas nunca deixam de me lembrar a razão que me fez decidir fazer esse trabalho. Eu tenho uma responsabilidade moral em divulgar a realidade cruel da colonização e ocupação militar israelense na Palestina. Elas estão ali porque decidiram mostrar solidariedade ao povo palestino e se juntar às pessoas que lutam por justiça, a condição primeira pra se obter paz.

Tati e Thiago participaram do tour de março e escreveram relatos pessoais que me emocionaram muito. Tantas pessoas que participaram do tour se tornaram ativistas por direitos humanos e justiça na Palestina e além de me encher de felicidade, isso me dá forças pra continuar organizando essas viagens. Então eu precisava compartilhar esses relatos aqui no blog.

“Se eu tivesse optado por um turismo convencional, mesmo tendo uma visão crítica a respeito da ocupação israelense de terras palestinas, muito provavelmente teria voltado com percepções bem diferentes do que esse tour político me proporcionou. Cheguei um dia antes do combinado para me encontrar com o grupo e fiquei hospedada em Jerusalém. Algumas voltas no entorno, vendo israelenses e alguns palestinos na mesma cidade, me deram a falsa impressão de normalidade, de que ambos ocupavam o mesmo espaço sob condições iguais.

Andando apenas em transportes usados por turistas, eu provavelmente não teria percebido que alguns ônibus são reservados apenas para palestinos e outros para israelenses, o sinal mais óbvio de apartheid. Andando pelas ruas e observando as construções, eu certamente acharia que era opção estética ter ou não caixas d’água no teto, ao invés de saber que palestinos não têm água disponível 24h, ao contrário dos israelenses, mesmo essa água tendo sido captada em terras palestinas. Se estivesse em uma excursão tradicional, em ônibus de viagem, teria passado por vários “check points” sem perceber, pois esses ônibus não seriam parados. Mais ainda, eu teria percorrido vários quilômetros de estrada cortando terras palestinas e não saberia que na maioria daquelas estradas só é permitido o tráfego de israelenses. Teria visto as imensas colônias israelenses em terras palestinas e concluído ser apenas mais uma cidade. Teria visitado o Mar Morto sem ver um só palestino e achado que eles não frequentavam outros resorts por opção.

Depois dessas quase duas semanas na Palestina, pude entender perfeitamente o medo que Israel tem de que as pessoas entrem em contato com o povo palestino, o porquê de ter que mentir na imigração, de ter que jurar que não iria para a Palestina para conseguir o visto, o motivo de ter uma lei que proíba civis israelenses de entrar em cidades palestinas, de ter tantas placas dizendo se tratar de áreas perigosas. Porque se as pessoas realmente conhecerem o povo palestino, no mínimo, elas irão questionar a narrativa montada por Israel, o estereótipo construído em torno dos palestinos, sobretudo, os árabes.

Desde o momento em que passei pelo checkpoint, a frase que mais ouvi foi “bem-vinda à Palestina”, acompanhada de um sorriso caloroso. Mesmo quem não falava inglês arriscava algumas palavras para demonstrar o quanto a minha presença era importante ali. Às vezes, um cumprimento com a cabeça já transmitia o recado. Eu, que imaginava os palestinos como pessoas mais reservadas, sérias, desconstruí rapidamente essa imagem. Percebi muitas semelhanças com os brasileiros, a comunicabilidade, o calor humano e a alegria. Mais do que isso, eu me surpreendi com tamanha solidariedade e com uma vontade de apenas seguir a vida, sem rancor, algo que eu, sob as mesmas condições,  provavelmente não conseguiria.

É claro que devem existir discursos mais agressivos, mas, com tanta humilhação, privação e provocação em seu próprio território, me admira haver tão poucos. Aliás, é bom lembrar que é legítimo, reconhecido pelo direito internacional, o direito de um povo sob ocupação se defender.

A primeira coisa que me chamou a atenção quando entrei na Palestina foi a condição precária, a sensação de estar em um lugar permanentemente em obras. Com as barreiras e as condições impostas por Israel, a economia local tem se tornado mais e mais frágil e o índice de desemprego é altíssimo. Mesmo assim, não vi nenhum palestino morador de rua e eram raros os que me abordaram pedindo algo. Pareceu-me um paradoxo, mas, conhecendo um pouco mais da cultura deles, a força dos laços familiares e a generosidade, pude compreender que enquanto houvesse uma pessoa da família trabalhando (e família em sentido amplo), o restante não passaria fome, pois a renda seria dividida entre todos. E a generosidade se estendia inclusive para nós, turistas – foram inúmeros os presentes que ganhei e os convites para refeições que recebemos.

Mas o que mais me impressionou foi o apego deles à vida, a vontade de simplesmente ter uma vida normal, realizar seus planos sem a interferência de Israel. Resistir apesar das inúmeras dificuldades impostas por Israel, manter a cabeça erguida após cada humilhação, manter a serenidade mesmo tendo seus direitos violados dia após dia. É mais que um apartheid, são tantas as maneiras com que Israel consegue tornar a vida de um palestino insuportável que eu sozinha não teria imaginação para elaborar nem 1% dessas políticas. Tantas e tantas vezes me senti impotente, revoltada com as injustiças que via, e que para um palestino era apenas mais um dia de tantos outros.

Quando voltei ao Brasil, me disseram que para ver injustiças eu não precisava ter feito essa viagem. Sim, há injustiças por toda parte, mas a grande diferença é que lá essa injustiça é regulamentada em lei e não há o discurso para que isso mude, muito pelo contrário. O objetivo é tornar a vida do outro tão insuportável a ponto de ele largar tudo e ir embora. É tudo feito de forma descarada.

A diferença social foi outro aspecto que me chamou a atenção, visível mesmo em um território tão pequeno: a população das cidades, com condição financeira melhor e mais acesso aos serviços, e a população dos campos de refugiados, que perdeu tudo e teve que reconstruir sua vida. Como é de se esperar, os moradores dos campos de refugiados, com situação econômica mais difícil e sob constantes invasões de soldados, eram mais religiosos e conservadores. Como bem observou Sandra, nossa guia <3, antes da primeira intifada, na década de 80, eram poucas as palestinas que usavam véu, mas, com a situação de vida cada vez mais difícil, com o cerco israelense cada vez maior, a válvula de escape acaba sendo a religião.

Em Hebron, eu me senti sufocada com a pesada presença militar. Bastava olhar para cima para ver uma arma apontada. Parecia que não havia onde se esconder, que sempre haveria câmeras e mais soldados. Ao contrário de outras cidades palestinas, que estão sendo cercadas por colônias israelenses, em Hebron os colonos tomaram as ruas da cidade. Como resultado, há “check points” entre uma rua e outra, muro dentro da cidade, ruas em que todos os comércios palestinos foram fechados pelos israelenses, ataques a crianças, ruas cobertas com tela por causa dos ataques de colonos a palestinos – presenciei uma criança israelense cuspindo e jogando pedra nos palestinos que transitavam. O mais perturbador disso tudo é saber que todo esse dinheiro que Israel investe em militarização para oprimir os palestinos e proteger os invasores vem de ajuda internacional, é saber que os nossos governos apoiam esse massacre.

Saber disso é importante para aqueles que acham que a causa palestina é algo muito distante da nossa realidade, para aqueles que não tiveram a chance de, assim como eu, ver de perto, sentir empatia pela população, e se perguntam “por que a Palestina?”. Temos, sim, nossa parcela de responsabilidade. Precisamos pressionar o nosso governo a não assinar contratos de cooperação com Israel, a não comprar armamentos e tecnologias que são usados na opressão do povo palestino, pois somente a pressão internacional fará com que essa barbárie termine.

Divulgar o máximo de informações para contrapor a narrativa oficial daqueles que detêm o poder é o mínimo que eu posso fazer. Para aqueles que não puderem ir à Palestina, conversar com os locais e ver de perto as políticas impostas por Israel, sugiro, além de se manter sempre informado sobre o assunto, procurar a visão de quem está ou esteve dentro dessa sociedade que, cada vez mais, está sendo isolada por Israel. Os palestinos querem e precisam ter voz.

Repito aqui o que muitos já disseram durante o tour: que, por mais que eu tivesse lido e me informado sobre o assunto, nada teria me preparado para essa experiência transformadora. Vou carregar comigo, para sempre, os vários olhares cansados e tristes que presenciei; os pedidos para que levássemos as histórias deles para o mundo, para que eles pudessem ter voz; os abraços reconfortantes e toda generosidade que recebi; e, acima de tudo, um enorme carinho por essa terra e seu povo. Liberdade ao povo palestino! Palestina livre!”

Tati

“Conhecer a Palestina sempre foi um desejo. É impossível não ouvir falar sobre a “última grande causa do século XX” na mídia e, para quem tem um pouco de senso crítico, é igualmente impossível não questionar a qualidade e mesmo a veracidade das informações que nos chegam da região.

Essa falta de fé no modo como não apenas a Palestina, mas todo o Oriente Médio e a população árabe são retratados aumentou em muito minha vontade de visitar o local. Junte-se a isso a empolgação em conhecer um país que sempre ocupou um papel de destaque na história da humanidade e pronto, confesso que não pensei muito em me candidatar a participar de um tour pela região que a grande mídia descreve como uma das mais instáveis e violentas do mundo.

Com relação a minha integridade física, verdade seja dita, eu sabia quem poderia me fazer algum mal por lá e sabia também que, regra geral, meu status de estrangeiro me protegeria. 

Já em relação a meu emocional, acreditei que aguentaria o baque. Além de já ter lido bastante a respeito, achei que ter crescido na periferia de São Paulo teria me calejado para as violências e injustiças a que os palestinos são submetidos. Como eu estava enganado.

Sei que parece clichê dizer que é muito difícil estar preparado para o que se vê por lá, mas, acreditem, é verdade. A Palestina é um país muito pobre e com um alto índice de desemprego, mas, apesar de grande, a miséria não é o que mais choca por lá. Até porque, graças a um senso de comunidade que me impressionou bastante, um familiar empregado sempre acolhe os parentes mais necessitados, razão pela qual praticamente inexistem moradores de rua e pedintes. Assaltos e furtos também são raros.

Enfim, o que eu realmente não estava preparado para ver é o modo como Israel conduz a ocupação. Não tem como não se surpreender com o número de formas que esse governo encontra para oprimir, desabrigar, assassinar e humilhar todo o povo palestino. A começar pelo “muro da vergonha”, que, segundo o senso comum, se localiza na fronteira e existe por razões de segurança. Ele não está na fronteira, ele está no meio de terras palestinas, o que inclusive já derruba a tese de que ele existe por razões de segurança. O muro existe com o propósito de confiscar terras palestinas. Aliás, quantas leis e atitudes não existem com o único propósito de confiscar terras palestinas?

Mas não é só a bens materiais que eles parecem não ter direito. Os palestinos não podem sequer se locomover dentro de seu próprio território. Proibições, bloqueios e checkpoints fazem com que muitas vezes o simples ato de caminhar de uma rua a outra se transforme em um pesadelo.

Isso, claro, para não falar na violência física. Todo palestino com quem você conversar vai ter uma história sobre alguém que foi preso ou assassinado injustamente. Tem ideia de quanto dói ver um familiar ser morto injustamente e saber que nada vai ser feito a respeito?

Quando relatamos esses problemas é comum as pessoas dizerem que eles de fato existem e são terríveis, mas que não devemos confundir o governo com seu povo. Por mais que eu compreenda que nossos sistemas políticos estão longe de serem perfeitos no que diz respeito a representar a vontade popular, é fato que há 50 anos o povo israelense elege governos que oprimem cada vez mais o povo palestino.

E, sinceramente, o que mais choca nem são os políticos eleitos, são algumas atitudes da população mesmo. Em Hebron vi colonos israelenses jogando pedras, cuspindo e urinando em palestinos. Uma criança israelense tentou cuspir em mim e no meu grupo por estarmos em área palestina. Ver esse nível de ódio partindo de uma criança impressiona. 

Claro que existem israelenses que lutam contra essa opressão, mas, infelizmente, eles parecem ser poucos. Definitivamente não o suficiente para amenizar em algo o sofrimento palestino.

Por ser um relato pessoal não vou embasar minhas sensações com fatos, o objetivo aqui é dizer o quanto o contato com aquela realidade tem potencial de transformar o modo como vemos o mundo. Depois da vivência que tive – e nem foram muitos dias – passei a ver as coisas com outros olhos, a valorizar muito mais o que tenho e a rir de problemas que antes pareciam enormes.

Mas a principal sensação que eu trouxe foi a perplexidade em perceber o quanto o mundo parece dar as costas à causa palestina. Não dá para acreditar que um sofrimento tão grande persista por tanto tempo sem que a maioria das pessoas sequer saiba o que acontece por lá.

É assim que eu acho que nós, aqui de longe, podemos contribuir: com informação. Sabemos o quanto é difícil encontrar informações sobre o massacre a que os palestinos são submetidos diariamente, conhecemos o esforço da grande mídia em nos fazer acreditar que se trata de um “conflito” entre duas partes “igualmente poderosas” e precisamos fazer nossa parte para desconstruir esse discurso.

Não acredito que a solução para o problema venha de dentro de Israel se não houver pressão externa. O apartheid na África do Sul só acabou após a comunidade internacional se sensibilizar para o tema e aplicar uma série de boicotes e sanções ao país. Do mesmo modo, não acredito que Israel algum dia vá acordar disposto a abrir mão de todos os benefícios que a colonização da Palestina lhe garante.

Os palestinos estão há décadas fazendo a parte deles, resistindo heroicamente a uma ocupação que se esforça diariamente em desumanizá-los. Nossa parte nessa luta é infinitamente mais simples, precisamos enxergar e divulgar o que acontece, os políticos de nossos países precisam perceber que há uma preocupação com o tema para que o levem a esferas cada vez maiores de poder.

A mudança vem de fora, a mudança vem de baixo e, no que eu puder, estou disposto a fazer minha parte.”

Thiago

 

*Todas as fotos que ilustram esse post foram feitas por Tati, que me deu autorização pra publica-las aqui.

*Os próximos tours político-ativista-vegano-feministas na Palestina acontecerão em março/2018.

*Legendas das fotos, na ordem de aparição:

1-Feira em Hebron. 2- O grupo com meu amigo Marwan, que nos guiou durante a visita de dois vilarejos na região de Belém. 3-O muro construído por Israel dentro dos territórios palestinos, aqui em Belém. 4-Casa no vilarejo Zacharia. É costume se tirar os sapatos antes de entrar nas casas palestinas.  5-Torre de uma mesquita. 6-A placa colocada pelo governo israelense na entrada dos territórios palestinos ocupados, avisando que a lei israelense impede que seus cidadãos entrem ali. 7-Morador de Zacharia, um vilarejo palestino que se encontra cercado por colônias ilegais israelenses. 8-Sudfeh, o primeiro restaurante vegano da Palestina, na Universidade de Abu Dis. 9-Baha, uma amigo querido e nosso guia no distrito de Belém, brincando com a filha de outro amigo palestino. 10-Universidade de Abu Dis. 11-Nablus, no norte da Cisjordânia. 12- O filho de Fatima, que nos guiou em Nablus e organizou um curso de culinária palestina pra nós. 13-Nablus. 14-Jericó, no Vale do Jordão. 15- O padeiro de Nablus que faz os melhores pães com za’atar da cidade. 16- Feira em Hebron. 17-Soldados israelenses que tinham invadido a casa de Zleiha, nossa guia em Hebron, e que ameaçam crianças palestinas que estavam na rua. 18,19,20- Enterro do escritor e ativista por direitos humanos Basel Al Araj, assassinado em casa pelos soldados israelenses. 21- Belém. 22-Cabra que encontramos durante a trilha no deserto de Jericó. 23- Loja de especiarias em Nablus.

Tour político-ativista-vegano-feminista na Palestina, 2017

O quarto e o quinto tour Papacapim na Palestina aconteceram em fevereiro e março. Mais uma experiência transformadora, pras pessoas que participam do tour e pra mim mesma. As participantes terminam o tour meio sequeladas ou, como disse meu amigo Rogério, “acordadas”! Reviver, de novo e de novo, a montanha russa de emoções provocadas pelas atividades do tour e explicar, de novo e de novo, a injustiça e violações dos direitos humanos cometidas pela ocupação israelense na Palestina é doloroso pra mim. Claro que a dor que sentimos não pode nunca, nem de longe, ser comparada à dor vivida pelo povo palestino, mas não deixa de ser uma vivência difícil pra nós. Planejar esses tours exige meses de trabalho, muitas horas respondendo emails e tirando dúvidas de pessoas interessadas em participar, semanas coordenando as atividades com as pessoas palestinas que nos guiam e participam da programação… No final das contas acompanhar os grupos durante 11 dias é a menor parte do trabalho, mas é a parte que provoca um esgotamento físico e emocional que me obriga a ficar de cama por alguns dias depois de cada tour.

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Apesar disso tudo, esse é o trabalho mais gratificante dentre todos os trabalhos que faço. Poder sensibilizar pessoas sobre uma questão tão importante, poder levar solidariedade às palestinas que lutam incansavelmente por justiça, apoiar a economia local, que está sendo estrangulada pela ocupação, tudo isso não tem preço.  Também considero o trabalho mais importante que realizo no terreno dos direitos humanos, que é uma parte enorme do meu ativismo.

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A programação muda um pouco a cada ano, dependendo da disponibilidade das pessoas palestinas que me ajudam a realizar esse projeto, da época do ano e dos eventos acontecendo por aqui durante a viagem. Além das atividades que sempre fazem parte do programa, pois são essenciais pra compreender o que acontece aqui, como a visita do campo de refugiados de Aida, onde os grupos ficam hospedados, o tour político da região de Belém (muro, colônias ilegais, estradas, sistema de apartheid), tour de Hebron (colônias e checkpoints dentro da cidade), cidade antiga de Belém e Jerusalém, tem também palestras com organizações de direitos humanos palestinas que oferecem apoio legal a prisioneiros políticos (Addameer) e refugiados (Badil), palestra com a única organização local de direitos animais, que faz um trabalho interseccional e também trabalha com direitos humanos (Palestinian Animal League), visita à Universidade Al Quds e conversa com estudantes e professoras…

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E tantas outras coisas, tantos encontros com pessoas incríveis que estão resistindo e lutando de maneira tão corajosa. Como meu amigo Marwan, que ajuda agricultores a replantar oliveiras e reconstruir casas demolidas pelo governo israelense. Baha, que organiza tours políticos incríveis pra ativistas. Minha querida amiga Draguista, que coordena um projeto de mulheres bordadeiras no campo de refugiados de Deheisha. Sahar, que luta pela desmilitarização da sociedade israelense. Tali, outra amiga israelense, que promove a campanha BDS. Fatima, diretora do projeto de mulheres Beit Al Karama, em Nablus e Islam, diretora do projeto de mulheres Noor, no campo de refugiados de Aida.

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Tem também a parte mais turística, pois descobrir as belezas naturais da Palestina é um dos objetivos do tour. Como a trilha de seis horas no deserto de Jericó e visita dessa que é a cidade mais antiga do mundo que nunca deixou de ser habitada, mergulho no mar morto, o monastério de Mar Saba, no deserto da Judeia. Teve também uma tarde no hammam (banho turco), com direito a sauna e massagem, um tour gastronômico em Nablus, aula de culinária tradicional com um projeto de empoderamento de mulheres… E falando em comida, teve a parte comestível do tour.

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O lado gastronômico do tour é muito importante por dois motivos. Primeiro porque faz parte da minha missão divulgar as delícias da culínaria tradicional palestina. Uma das ferramentas da limpeza étnica que Israel vem fazendo contra a população palestina desde que foi criado na maior parte da Palestina histórica, em 1948, é apagar ou se apropriar da cultura desse povo. Podemos ver isso claramente com a culinária. Quantas vezes ouvi pessoas dizendo que hummus e falafel são israelenses, quando a verdade é que povos árabes já comiam essas duas preparações muito antes de 1948. Segundo porque é comum pessoas veganas sofrerem com falta de opção de comida vegetal e gostosa quando viajam e eu queria que esse tour fosse exatamente o contrário.

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Não vou mentir, essa viagem é extremamente dura pro emocional da gente. Comida é uma maneira de não só se conectar com a cultura local e voltar a ter aquelas experiências gastronômicas inesquecíveis que tínhamos quando viajávamos na nossa época pré-vegana, mas também serve de reconforto no meio de toda a injustiça que presenciamos. Minha amiga Camila, que participou do tour de março e que adora comida tanto quanto eu, falou que todo dia passava da tristeza à alegria justamente por causa dessa combinação na nossa programação diária. A comida era uma tentativa de curar um pouco a dor que nossa alma sentia.

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Pra quem mandou email perguntando quando serão as próximas viagens gostaria de explicar que esse tour é um projeto especial que faço somente quando condições favoráveis se reúnem. Nunca sei quando será o próximo, nem mesmo se haverá mais algum tour no futuro. Uma coisa é certa, esses foram os únicos tours de 2017. Nessa minha vida de nômade só consigo planejar um ano por vez e 2018 ainda é um mistério pra mim. Mas se acontecer mais algum tour ano que vem, será provavelmente no segundo semestre. Quem quiser colocar seu nome na lista de pessoas interessadas, e ser avisada de primeira mão, antes do anúncio do tour aparecer aqui no blog, basta enviar um email pra papacapimveg@gmail.com. Mas não prometo nada.

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Termino agradecendo a participação de cada pessoa que me deu a honra de sua presença no tour. Obrigada por terem se interessado pela Palestina, por terem vindo até aqui mostrar a solidariedade de vocês e por terem confiado em mim e acreditado no meu trabalho. E aqui vai a missão pós-tour que dou a todas as participantes: compartilhem o que viram e viveram aqui com o máximo de pessoas possível, sejam ativistas por justiça na Palestina da maneira que melhor couber no estilo de vida que levam e sejam a voz das palestinas que vocês encontraram aqui, presas na máquina cruel e injusta da ocupação militar israelense, na comunidade de vocês.

Ainda dá tempo

Janeiro ainda não acabou e eu já dormi em dez camas diferentes esse mês. Dez! Mas é com muita felicidade que digo que essa décima cama será minha por três meses inteirinhos. Sei que parece pouco, mas quando você anda arrastando sua mala há mais de dois anos, três meses são suficientes pra te deixar feliz e sentindo que tem uma casa.

Cheguei na Palestina antes de ontem e depois de ter passado uma noite com a minha melhor amiga em Tel Aviv, cheguei ontem no meu lar de adoção: Belém. Anne chegou uns dias antes e teve a sorte de achar uma casa pra alugar rapidinho. Voltamos a morar na Rua da Estrela, onde moramos durante cinco anos. Essa é a rua mais antiga da cidade, o caminho que (supostamente) os três reis magos pegaram pra chegar no estábulo onde estava o menino Jesus. No final da minha rua fica a Igreja da Natividade, construída (supostamente) onde um dia esteve o estábulo. Tudo supostamente, não porque eu não acredite na história (não vou dizer que sim nem que não), mas porque esses lugares foram “descobertos” séculos depois da passagem de Jesus por esse planeta e desconfio (e não desconfio sozinha) que não tinha sobrado muitos vestígios do estábulo pra contar a história. E quem viu os reis magos passarem, hein? Quatrocentos anos depois ainda tinha alguém daquela turma vivo? Mas eu gosto de histórias e, no final das contas, que diferença faz se o estábulo estava aqui ou ali, se os reis magos passaram por aqui ou por lá, não é? A minha rua é linda e é nela, mais do que qualquer lugar no mundo, que me sinto em casa.

Mas não vim aqui só falar da minha rua e dos meus problemas de cama (ou falta dela, na verdade). Voltei pra Palestina pra guiar novamente dois grupos de pessoas brasileiras num tour político-ativista-vegano-feminista de onze dias pela Terra Santa. O primeiro tour será no início de fevereiro e o segundo, em março. Os dois estavam completos, mas a vida gosta de pregar peças na gente e às vezes nos programamos pra fazer uma coisa e ela te avisa, de repente, que tem outros planos pra você. Acontece. E como isso aconteceu com uma das participantes do grupo de março, ela teve que cancelar a viagem. Por isso abriu uma vaga nesse grupo. O grupo está novamente completo! O tour será do 8 ao 18/03 e sei que está super em cima da hora pra programar uma viagem desse tipo, tão importante, tão longe, que muda a gente de maneira tão profunda, em um mês e meio. Mas eu já fiz esse tipo de loucura algumas vezes, então pensei que podia ter alguém aqui como eu. Caso você se interesse pela vaga e possa embarcar nessa aventura, é só me enviar um email (papacapimveg@gmail.com). Só mando informações sobre o tour por email, então peço que me envie suas perguntas por lá e não aqui nos comentários.

Mas quem quiser se informar mais sobre essa viagem incrível, mesmo quem não puder participar do tour, e ver muitas fotos e relatos sobre a Palestina é só clicar na página “Tour na Palestina”.

E já falei que comemos muito bem durante o tour? Essa é a parte “vegana” da viagem e uma das minhas maiores alegrias é fazer as pessoas que participam do tour descobrirem as delícias (naturalmente veganas) da Palestina. Quando me perguntam: “É muito difícil ser vegana na Palestina?” eu sempre respondo que a Palestina é o lugar mais fácil de ser vegana que conheço. Mas só vindo aqui pra descobrir e degustar isso. Então corre que ainda dá tempo de encher a cara de hummus com a gente.

Tour Papacapim na Palestina – 2017

Eu disse que não teria outro, porém seguindo o ditado francês que diz que “só os idiotas não mudam de ideia” vim aqui anunciar oficialmente que vai ter mais um tour político-ativista-gastronômico-vegano na Palestina ano que vem. Na verdade dois. O primeiro acontecerá em fevereiro e o segundo em março. Dessa vez estou avisando com bastante antecedência porque muitas pessoas queriam participar dos tours em 2014 e 2015, mas não viram o anúncio a tempo e não conseguiram se juntar ao grupo. Dessa vez vocês têm um ano pra organizar a viagem (pedir férias, procurar as passagens mais baratas etc.).

Sempre que acabo um tour juro de pé junto que nunca mais farei outro. Não que a experiência seja ruim, muito pelo contrário. É sempre uma aventura incrível, que deixa marcas profundas em quem participa, incluindo na minha pequena pessoa e justamente por isso no final das duas semanas me despeço do grupo completamente exausta (fisicamente, mentalmente e emocionalmente) e faço Anne prometer que vai me impedir de fazer outro tour, caso eu surte novamente. Mas as semanas vão passando e eu só consigo lembrar de como foi lindo encontrar aquelas pessoas, de como é importante que mais gente saiba o que está realmente acontecendo na Palestina ocupada, do apoio financeiro ao projeto no campo de refugiados, da alegria que sinto ao mostrar as belezas daquela terra e compartilhar os quitutes veganos locais… E como desde dezembro, quando anunciei que não haveria tour em 2016, venho recebendo emails e mensagens de leitoras pedindo mais um tour na Palestina, eu não podia recusar.

Então em 2017 voltarei pra Terra Santa pra guiar mais dois grupos em uma viagem única, que combina solidariedade ao povo palestino, ativismo, explorações gastronômicas e visitas a alguns dos lugares mais famosos e lindos do mundo. O tour oferece uma visão ampla e justa da realidade local através de visitas (campos de refugiados, check-points, terras confiscadas, muro de separação, colônias ilegais…) e encontros com ativistas e defensores de direitos humanos (palestinos e israelenses). Temos a oportunidade de apoiar diretamente um projeto de mulheres no campo de refugiados de Aida e também de apoiar a economia local, que vem sendo estrangulada há décadas por causa da ocupação israelense. E pra ficar perfeito o tour é vegano, porque solidariedade aqui é uma palavra conjugada no sentido mais amplo, que vai além do humano. E também porque uma das coisas que mais gosto de fazer quando viajo é provar comidas típicas e descobrir novos sabores e pessoas veganas também têm o direito de incluir o prazer gastronômico nas suas viagens.

O tour dura onze dias e visitaremos várias cidades. Nossa base é Belém e a hospedagem é no campo de refugiados de Aida (a poucos quilômetros de Jerusalem). Postarei o programa completo das visitas/encontros assim que ele for definido, mas já vou aproveitar pra responder as perguntas que me fazem com mais frequência:

1- Embora o tour seja vegano, não precisa ser vegana/o pra participar. Já teve participantes vegetarianos e até onívoros. Todas as refeições que fazemos em casa são veganas, mas quando comemos em restaurantes cada um é livre pra pedir o que quiser, sem julgamentos.

2- Não precisa ser ativista nem ter nenhuma competência especial pra se juntar ao grupo. Você só precisa ter a mente e o coração abertos pra escutar o que a população local vai te contar e humildade suficiente pra aceitar que tudo que você sabe (ou pensa que sabe) sobre a Palestina e Israel poderá ser desconstruído durante a viagem.

3- Não precisa falar Inglês pra participar. Embora os encontros com os ativistas locais aconteçam em Inglês eu sempre estou presente pra fazer a tradução, se necessário.

4- Esse tour não é uma viagem turística organizada e você terá que providenciar as passagens e os seguros (obrigatórios) sozinha/o. Eu tento oferecer o máximo de ajuda possível, mas é importante lembrar que essa é uma viagem alternativa e que eu não ofereço os serviços de uma agência de viagem.

5- Exatamente pela razão mencionada acima (viagem alternativa) gostaria de lembrar que a hospedagem é em um campo de refugiados e que usamos transportes locais (vans e ônibus). Não tem hotel nem ônibus especial nesse tour por duas razões. Primeiro porque queira oferecer uma experiência próxima das pessoas que moram ali e da realidade local. Levar pessoas à Palestina pra viajar dentro de uma bolha não faria sentido nenhum pra mim. Segundo porque queira que o tour fosse acessível pro bolso dos meus leitores. É tudo muito simples e o nível de conforto é básico (mas tem cama macia, água quente e wi-fi na casa onde ficamos hospedadas/os).

6- Caminhamos muito durante a viagem e tem uma trilha de um dia inteiro no deserto. Embora você não precise ser atleta pra se juntar à nós, um mínimo de preparo físico é necessário. Se você não gosta ou não pode andar por várias horas seguidas, durante onze dias, esse tour não é pra você.

7- Mulheres, é totalmente seguro visitar a Palestina e ninguém precisa usar véu em momento algum. E ninguém vai te desrespeitar porque você não é muçulmana. É bom lembrar que uma parte da população palestina é Cristã, então não-muçulmanos fazem parte da paisagem local.

8- E falando em segurança, apesar de tudo que vocês vêem na televisão e jornais sobre a Palestina, turistas estrangeiros não correm nenhum perigo lá. Morei muitos anos lá e nunca tive nenhum problema e os ônibus de peregrinos do mundo inteiro entram e saem de Palestina todos os dias em toda segurança. Eu não organizaria esses tours se eles representassem algum tipo de perigo pros participantes.

As datas dos tours em 2017 são: grupo de fevereiro – 01 ao 11/02 e grupo de março – 08 ao 10/03. Quem quiser mais informações sobre a viagem deve escrever pra papacapimveg@gmail.com Cada grupo tem apenas 6 vagas e duas já estão reservadas, por isso quem quiser participar do tour deve me contactar o mais rapidamente possível.

Pra ter uma ideia do que fazemos durante a viagem e ver muitas fotos das aventuras precedentes dê uma olhada nesses posts:

 Tour 2014 – parte 1

Tour 2015 – parte 2

Tour 2015/I – a parte comestível

Tour 2015/I – a colheita de azeitonas

Tour 2015/I – sobre humanidade

Tour 2015/II

Sigam-me os bons!

O segundo tour na Palestina (de 2015)

Faz exatamente um mês que passei aqui pelo blog. A causa da ausência foi o trabalho na Palestina (quem me segue no Instagram acompanhou toda a aventura). Esse foi o terceiro Tour Papacapim na Palestina que organizei e, como sempre, gostaria de dividir com vocês alguns dos momentos que passamos juntos. As fotos foram feitas por mim, mas principalmente por Carol e Marcelo e mostram um pouco do que vivemos durante as duas semanas do tour. Talvez as imagens pareçam um pouco confusas pra quem olha de fora e não conhece muita coisa sobre a Palestina, mas elas traduzem bem o espírito dessa viagem.

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1- No campo de refugiados de Aida, em Belém, onde o grupo fica hospedado durante o tour.

2 e 3- Nossa casa no campo e as várias conversas que tivemos por lá.

4- Passeando por Belém encontramos uma coleção das armas usadas pelo exército israelense contra a população civil (latinhas e granadas de gás lacrimogêneo, balas reais, balas de chumbo coberta com uma camada de borracha…). As ruas ficam cobertas com essas armas, principalmente nas sextas quando tem o protesto semanal contra a ocupação.

5- Na Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém.

6- Lubna, que trabalha na ONG de direitos humanos Badil, explicando o regime de deslocamento forçado da população, colonização e Apartheid imposto por Israel.

7, 8, 9, 10- Aula de culinária tradicional palestina (e vegana!) com Islam, que nos hospedou no campo de Aida. Fizemos folhas de parreira e abobrinhas recheadas (com arroz e verdurinhas), pão com za’atar e azeite e salada com molho de tahine.

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11- Durante o tour político em Hebron, no sul da Cisjordânia, tivemos que passar por dentro das casas dos moradores pois o exército israelense fechou boa parte da cidade aos palestinos e estrangeiros. Nessa cidade palestina, onde centenas de colonos israelenses moram ilegalmente, a maioria em casas confiscadas aos palestinos, protegidos por milhares de soldados, a vida da população local é um inferno constante. Desde o começo de outubro dezenas de palestinos dessa cidade foram assassinados pelo exército ou pelos colonos. Como um parte da cidade foi fechada aos palestinos, os moradores tiveram que derrubar os muros entre as casas pra poderem se locomover de um ponto a outro diariamente, no caminho do trabalho, escola, faculdade… E foi o que fizemos.

12 e 13- Zuleikha, nossa guia local, e eu tentando convencer os soldados israelenses a nos deixarem passar pela rua e visitar um jardim de infância palestino. A ‘conversa’ durou quase meia hora e a história de como conseguimos passar é quase surreal.

14- Entrando no jardim de infância, depois de ter conseguido convencer os soldados israelenses que uma senhora palestina visitando um jardim de infância na própria cidade acompanhado de alguns amigos não é crime.

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15- Piquenique no vilarejo Artas.

16 e 17- Almoço tradicional no restaurante Afteen, em Belém.

18- O grupo com Islam, nossa anfitriã e a coordenadora do projeto de empoderamento de mulheres Noor, e sua filha caçula, Sidra. Islam, Myriam (uma voluntária belga) e eu criamos o projeto cinco anos atrás e ele continua firme e forte.

 19- Torres de sabão de azeite, um produto tradicional palestino, secando em uma fábrica em Nablus, no norte da Cisjordânia.

 20- Minha mercearia preferida em Nablus.

 21- O grupo completo: Marina, Carolina,Daniela, Meriel, Marcelo e eu.

 22- O melhor, o mais incrível, o mais maravilhoso hummus do mundo: Abu Shukri, na cidade antiga de Jerusalém. O grupo ficou tão impressionado que resolveu criar uma nova religião: o Hummuismo. Eu já me converti e todos os dias colocamos nossos tapetinhos no chão na direção do restaurante Abu Shukri e rezamos pro Hummus primordial.  Agora sou hummusexual e hummuista:)

Ando recebendo muitas perguntas (por email, via Instagram e FB) sobre o tour do ano que vem. Vou repetir aqui o que andei dizendo por lá: não haverá tour em 2016. Eu tenho vários planos pro ano que vem e infelizmente não vai caber a Palestina na minha agenda. Mas quem sabe em 2017…

Mais fotos e histórias dos tours passados:

Novembro de 2014

Voltando aos pouquinhos

Parte 1

Parte 2

Outubro de 2015

A parte comestível do tour

A colheita de azeitonas

Sobre humanidade

Sobre humanidade

Foi uma viagem muito especial, tocante e fora do comum que fizemos em outubro. A Palestina é um território ocupado (por Israel, desde 1967) e quem vem pra cá tem que conviver com checkpoints (barragens militares israelenses na fronteira e, principalmente, dentro dos territórios palestinos) que ditam quanto tempo levará cada um dos seus deslocamentos, soldados israelenses pesadamente armados que decidem pra onde as pessoas podem, ou não, ir e violações dos direitos humanos tão gigantescas e escancaradas que você vai ter vontade de colocar as mãos na cabeça e gritar: “Por que ninguém está fazendo nada pra impedir isso?”. Revolta e indignação são os dois sentimentos que colam em você logo na chegada e te acompanham durante toda a viagem. Pelo menos uma vez por dia você sentirá uma dolorosa sensação de impotência percorrer o seu corpo inteiro. E quando o monstro da injustiça aparecer ali na sua frente seus olhos se encherão de lágrimas. Se você for como eu, você vai chorar com frequência.

Esse foi o segundo tour político na Palestina que organizei. (O terceiro, e provavelmente o último, acontecerá em dezembro.) Dessa vez consegui me sentir menos culpada por mostrar aos participantes, que vieram de tão longe, tanta tristeza. Todos os dias eu repetia mentalmente: “Eles estão aqui porque querem descobrir essa realidade, vieram todos por livre e espontânea vontade”. Mas não vou mentir: a viagem de outubro foi, pra mim, ainda mais difícil do que a do ano passado. Porque a situação nos Territórios Palestinos Ocupados (TPO, como a ONU chama oficialmente – a sigla em Inglês é OPT) nesse mês de outubro de 2015 foi a pior que já vi desde que coloquei os pés aqui pela primeira vez, em 2007. Postei alguns artigos na página FB do blog e quem quiser saber do que estou falando basta dar uma passada por lá.

Mas não é disso que eu quero falar hoje. Diante de uma realidade tão injusta aconteceu algo curioso. Instintivamente usamos humor pra chegar no final do tour com a nossa sanidade mental intacta. A mesma coisa aconteceu durante o tour do ano passado e se vocês soubessem o quanto ri com os participantes desses tours vocês iam achar obsceno se divertir tanto quando um povo inteiro é oprimido, preso e assassinado debaixo do seu nariz. Mas o humor é uma estratégia de sobrevivência utilizada pelos palestinos também. É humano, muito humano. E além de ser uma estratégia pra enfrentar a realidade revoltante daqui, que te dá um murro no estômago várias vezes por dia, as pessoas que participam desses tours são incríveis, cheias de coisas boas e divertidíssimas. Juntamos uma coisa com a outra e rimos imensamente. Eu tenho muita sorte de poder conhecer tanta gente bacana.

Então o que eu vou levar comigo dessas duas semanas de tour são os momentos onde rimos muito, fizemos piadas com tudo e com todos, incluindo nós mesmos, tivemos conversas absurdamente hilárias e compartilhamos momentos de ternura.

Como quando Diego apresentou Dj Cremoso pro grupo (eu nem sabia que tecnobrega existia!) e passamos o resto da viagem fazendo mini sessões noturnas de dança. Na nossa sala, quando ninguém de fora podia nos ver, claro. The Smiths + DJ Cremoso!!!!! Quem imaginava que a maionese do brega era o que estava faltando na minha vida?

Lembro quando os meninos e eu sentamos no chão da cozinha, analisando se a música “Rock the casbah” era anti-muçulmana/racista, assistindo ao clip no celular, enquanto esperávamos a sopa de lentilha do jantar ficar pronta. Depois de muito analisar o tatu, os personagens do vídeo, refletir longamente sobre a frase “Drop your bombs between the minarets” e nos perguntarmos se todo punk é necessariamente anti-racista, ainda estamos sem resposta.

Planejamos do grupo inteiro fazer uma entrada triunfal na Igreja da Natividade, o lugar onde supostamente Jesus nasceu, todos vestidos de branco num afoxé improvisado, uns dançando e outros tocando atabaque, pra driblar a imensa fila de peregrinos que nos impedia de entrar na parte principal da igreja. Ia ser uma cena tão linda…

E falando em Jesus (cristãos não se ofendam, por favor. Eu admiro esse palestino tanto quanto vocês), nos divertimos montes visitando os lugares onde ele disse suas frases mais famosas, mas que não estão na Bíblia. Por exemplo, subimos na pedra onde Jesus disse: “Não me inveje, trabalhe!”. E sentamos embaixo da árvore onde ele disse: “Falar de mim é fácil, difícil é ser eu.” Foi emocionante!

Por alguma razão misteriosa viciamos na expressão “todo trabalhado no…” (ninguém sabe quem começou) e usávamos ela pra descrever tudo. Todo dia o grupo voltava pra casa “todo trabalhado no gás lacrimogêneo”. O café da manhã era “todo trabalhado no hummus”. Teve quem voltou do mar morto “toda trabalhada na areia”…

Escutei muito David Bowie com companheiro Diego, enquanto cozinhávamos juntos. E quando não tinha música por perto a gente cantava. Durante a colheita de azeitonas eu cantava, de cima de uma oliveira, “Turn and face the strange…” e ele, de cima de outra oliveira, respondia “Ch-ch-changes”. Os palestinos donos das oliveiras ainda estão se recuperando desse concerto não desejado.

Contei meus planos ultra secretos de fazer um flash mob no checkpoint de Belém: um grupo de estrangeiros cantando “Like a virgem”, de Madonna, apontando pra saída – Jerusalém- e falando pros palestinos esperando por trás das barreiras de ferro e de soldados: “I’m gonna take you there”. Alguém sugeriu um flash mob-afoxé (a gente queria muito tocar atabaque e dançar vestido de branco, não nos pergunte o por quê) e em uma das vezes que atravessamos o checkpoint começamos a mexer os ombros discretamente, mas seria a nossa última dança no país, pois seríamos todos deportados, então desistimos.

E tivemos conversas políticas profundas, envolvendo sexismo, discriminação de gênero/orientação sexual, racismo… Em Hebron uma colona israelense mandou os soldados prenderem a gente duas vezes (nosso crime? Andar por uma cidade palestina acompanhados de uma senhora palestina!) e como eles tinham coisas mais importantes pra fazer (coçar o entreperna, brincar no celular e oprimir palestinos) do que prender estrangeiros ela se revoltou e gritou pro nosso lado, desfigurada pelo ódio: “Espero que vocês todos morram”. Então eu devolvi a gentileza dizendo algo que até então nunca tinha dito na vida: mandei ela tomar no monossílabo. O que assustou o grupo, tadinhos, e mais tarde desencadeou um debate. Sabendo que tomar no monossílabo pode ser uma fonte de prazer, que essa atividade é praticada por uma parte da população que sofre discriminação (não são os únicos, sei) e que ainda por cima você está na verdade desejando que a pessoa xingada seja violentada sexualmente, chegamos a conclusão que o xingamento, além de não ser eficaz, é problemático. Então foi a primeira e a última vez que essas palavras saíram da minha boca. Ainda estamos procurando um substituto pros momentos em que tivermos vontade de mandar alguém tomar lá onde as costas mudam de nome. Sugestões são bem-vindas.

Nadja, que era a calma encarnada, conseguia se manter tranquila nas situações mais loucas. E ainda filmava tudo, sem nem pestanejar. Não tinha bomba de gás nem disparos nem soldados que a assustassem! Quando a gente perdia ela momentaneamente durante os protestos, nós correndo desesperados do gás e tentando não ficar entre os palestinos e os soldados israelenses (linha de tiro),  todo mundo esperava que ela aparecesse por trás dos soldados, câmera na mão, batendo delicadamente no ombro de um deles e dizendo: “Dá uma afastadinha aí, por favor, que você está atrapalhando a minha foto”. Os palestinos não entendiam porque ríamos tanto e alguns devem ter começado a se perguntar se o gás lacrimogêneo também tinha efeito hilariante nos gringos.

A gente também riu muito uns dos outros. Ninguém, com excessão de Diego, que já me conhecia pessoalmente, esperava que eu fosse engraçada (como assim, gente? Alguém mais aqui acha que não tenho senso de humor?). E eles ficaram impressionadíssimos com meu, huuum, talento pra dançar tecnobrega ou qualquer outro ritmo. Ameaçaram até filmar meus passinhos ultra originais e colocar aqui no blog pra todo mundo ver “a verdadeira Sandra”.

E não vou nem começar a contar as ideias malucas que tivemos lembrando do filme “A vida de Brian”. Só vou dizer que a inspiração veio da cena de apedrejamento.

Foi realmente uma viagem muito especial. Mas além dos momentos de emoção intensa, tanto positiva quanto negativa, vou sempre lembrar com carinho dos momentos onde, depois de um longo dia testemunhando injustiças, crimes, opressão e a desumanização dos palestinos pelas forças de ocupação israelenses, nos reuníamos ao redor do chá e abraçávamos a nossa humanidade. E o riso é uma das melhores maneiras de fazer isso.

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A colheita de azeitonas durante o tour

Continuando o relato do Tour Papacapim na Palestina de outubro, dessa vez teve uma atividade que não fez parte da programação do ano passado: colher azeitonas. Outubro é a época da colheita de azeitonas aqui na Palestina e é, na minha opinião, o melhor mês pra estar aqui. Eu não sabia nada sobre o cultivo de azeitonas nem sobre a produção de azeite até ter me mudado pra cá, em 2008. Fiquei encantada quando descobri a parte fundamental que a oliveira tem na cultura e na vida dos palestinos. Talvez o mais impressionante pra mim foi descobrir que não existem ‘cultivadores de azeitonas’. Como oliveiras precisam de pouquíssimo cuidado e só recebem água da chuva, os ‘donos’ das oliveiras têm todos uma profissão, que eles exercem durante as outras cinquenta semanas do ano. Durante duas semanas, no início ou no final do mês (de acordo com o amadurecimento das azeitonas), professores, médicos, pedreiros, advogados, estudantes, psicólogos, sociólogos, eletricistas, cozinheiros… todos largam temporariamente suas ocupações e vão pro campo. A família inteira, muitas vezes três gerações juntas, participa da colheita. Uma parte das azeitonas será marinada durante várias semanas e elas serão degustadas acompanhando o café da manhã típico daqui. Mas a maior parte delas vai ser prensada e virará azeite, que aparece na mesa familial durante o ano inteiro.

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Aqui na Palestina a maioria das famílias tem oliveiras, que passa de geração em geração. Oliveiras são árvores de crescimento lento e elas vivem séculos. Não é raro ver oliveiras de 600, 800 anos (!!!!) aqui em Belém. E elas continuam dando frutinhas ano após ano. Algumas árvores têm mais de mil anos e a mais antiga do país tem mais de 4 mil anos. Quando a gente descobre isso entende porque os palestinos são tão apegados às suas oliveiras. Eles as receberam dos seus antepassados e será a herança que eles deixarão pros seus filhos.

Infelizmente desde o início da ocupação na Palestina, que começou em 1967, Israel destruiu mais de 800 mil oliveiras, afetando mais de 80 mil famílias. Isso representa uma perda de 12,3 milhões de dólares por ano. Oliveiras são arrancadas pra construçāo das colônias ilegais israelenses nos territórios palestinos, pra criar ‘zonas militares’, pra ceder o espaço pro muro de separação, também ilegal…  E se isso não fosse triste e revoltante o suficiente, todos os anos os colonos israelenses fazem o possível pra impedir as famílias que ainda tem oliveiras de colhe-las. Em Hebron uma senhora palestina nos explicou que os colonos roubam as azeitonas das árvores durante a noite. Por toda a Cisjordânia colonos colocam fogo nos campos e nas árvores, agridem fisicamente os palestinos que fazem a colheita, em alguns casos causando ferimentos graves e até a morte. Quando os soldados israelenses chegam nos locais, ao invés de oferecer proteção aos palestinos vítimas das agressões dos colonos israelenses, na melhor das hipóteses eles não fazem absolutamente nada, na pior, eles prendem os palestinos.

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Por isso todos os anos os palestinos fazem um pedido ao voluntários estrangeiros: acompanha-los durante a colheita. A presença de gente de fora não impede que os colonos israelenses agridam os palestinos, nem que eles destruam suas oliveiras, mas pelo menos faz com que o exército se comporte um tiquinho melhor e os palestinos acabam se sentindo um tiquinho mais protegidos. A solidariedade internacional nesse época do ano, que é tão importante pros palestinos, é extremamente bem-vinda. Por isso levei o grupo pra colher azeitonas com uma família daqui da região de Belém. As oliveiras da família ficam do lado de uma estrada utilizada pelos colonos e todo ano eles causam problemas. No dia em que estivemos no campo, ajudando a família, foi tudo tranquilo e não fomos perturbados pelos colonos nem pelo exército. Foi um dia lindo e cheio de alegria, como vocês podem ver nessas fotos. E colhemos 100 kg de azeitonas (três árvores e meia)! E segundo as crianças da família que estávamos ajudando, Nadja ganhou o prêmio da melhor ‘colhedora’ de azeitonas do grupo. Em algumas das fotos dá pra ver uma mancha vermelha por trás da folhagem ou em cima das oliveiras. É ela!

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Falei mais sobre a colheita de azeitonas na Palestina nesse post e mostrei como o azeite é feito nesse outro post.

A parte comestível do tour

O primeiro tour Papacapim na Palestina de 2015 acabou faz uma semana. Sei que muita gente está esperando pra saber os detalhes, e ver as fotos, da viagem, mas é tanta informação que vou precisar fazer alguns posts pra conseguir mostrar tudo. E, como fiz ano passado, vou começar com a parte mais agradável e simples de contar: comida.

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Só uma pessoa no grupo era vegana, as outras três eram vegetarianas (elas tinham feito a transição não muito tempo atrás). E acreditam que um dos vegetarianos se tornou vegano durante o tour? Ele já estava ensaiando o veganismo há um tempo, mas me disse que dessa vez ele ia se manter firme no veganismo. Sempre explico pros participantes não-veganos que apesar de só entrar comida vegetal na nossa casa palestina, nos restaurantes cada um é livre pra pedir o que quiser. O pessoal desse ano decidiu aceitar a aventura de ser vegano por duas semanas e adorei mostrar todas as delícias naturalmente veganas que a Palestina tem pra oferecer.

Degustar a gastronomia palestina é uma parte importante do tour, não só pra mostrar a riqueza da culinária desse povo, que ainda surpreende muita gente que cresceu com ideas pré-concebidas sobre a Palestina, mas também pra que as pessoas vejam que comida vegana pode ser acessível, barata e fazer parte do patrimônio cultural de um povo desde sempre. E, um detalhe que alguns carnistas acreditam ser impossível, que comida 100% vegetal pode agradar onívoros também. Afinal nunca encontrei um palestino, por mais adorador de carne que fosse, que não adorasse, e consumisse regularmente, hummus e falafel.

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Sobre as fotos:

1-Café da manhã típico, no campo de refugiados de Aida, onde ficamos hospedados durante as duas semanas do tour. Aqui tem: pão, azeite, za’atar (um tipo de tomilho selvagem, desidratado e misturado com gergelim), batata doce, hummus, azeitonas locais, falafel, pepino e mini berinjelas recheadas com nozes e pimenta.

2- Mais um café da manhã no campo.

3-Provando pickles na feira (suk) de Hebron.

4 e 5- Aula de culinária com as mulheres do projeto Noor.

6- Jantar com a família de Islam, que nos hospedou no campo de Aida.

7- Amêndoas locais na casca (foto de Diego).

8- Romã, pronta pra ser transformada num dos sucos mais populares daqui (foto de Diego).

9- Berinjela se transformando em muta’abal.

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10, 11- Hosh Yasmin, meu restaurante preferido na região. Fica em Beit Jala, do lado de Belém, e o dono cultiva quase tudo que ele serve ali mesmo, utilizando os princípios da permacultura. É tudo orgânico, fresquinho e delícia! E pra ficar ainda melhor, eles adaptam todos os pratos do cardápio que não são veganos. Ou seja, você pode pedir absolutamente tudo que eles trazem em versão 100% vegetal.

12- Almoço no Hosh Yasmim. Alguns pratos tradicionais palestinos: folhas de parreira e mini abobrinhas recheadas com arroz, fuhara (legumes cozinhados lentamente em uma panela de barro, no forno à lenha), berinjela com tomate, fatush (salada crua com pedaços de pão integral fritos no azeite).

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13, 14- A melhor loja de especiarias de Nablus, cidade no norte da Palestina.

15- O hummus de Abu Shukri, o melhor de Jerusalém e do mundo inteirinho (na minha opinião, mas há controvérsias).

16- A mercearia do meu amigo Tawfic, em Belém. Além das especiarias maravilhosas, ele vende o próprio azeite, que é um dos meus preferidos (foi o que servi pro grupo durante todo o tempo que cozinhei pra eles e foi também esse azeite que voltou na mala dos participantes).

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17-A doceira ultra secreta na cidade antiga de Jerusalém onde é feito mutabak (massa filo recheada com nozes e canela ou queijo fresco), uma sobremesa típica da Palestina. O senhor, de uma destreza impressionante, faz massa filo na mão (!!!!!!) e prepara cada mutabak na sua frente. O lugar só vende mutabak (as duas versões) e a receita passa de geração em geração há muitos anos.

18- Mutabak de nozes e canela, recém saído do forno.

Claro que o grupo voltou pra casa com a mala cheia de gostosuras e temperos daqui, pra prolongar o prazer da viagem aí no Brasil. Cenas do próximo capítulo: a tão esperada colheita de azeitonas.

(Agradecimentos especiais a Diego, que me emprestou duas fotos 🙂

Tour político/ativista/gastronômico (vegano) na Palestina 2015

Lembram do tour Papacapim na Palestina que aconteceu em novembro? Se você é novo no blog, aqui vai um resumo breve. Ano passado decidi colocar em prática uma ideia antiga: guiar um grupo de brasileiros na Palestina, pra compartilhar um pouco da vivência incrível que tive naquela terra durante os cinco anos em que chamei a Terra Santa de lar. Foram duas semanas intensas, recheadas de momentos especiais e encontros inesquecíveis. Esses posts mostram um pouco do que vivemos por lá, com  relatos dos participantes  e muitas fotos:

Tour Papacapim na Palestina – parte 1

Tour Papacapim na Palestina – parte 2

Hoje eu vim trazer boas notícias. O sucesso do tour foi tanto que esse ano vou levar mais dois grupos pra lá, um em outubro (9 ao 23/10) e outro em dezembro (4 ao 18/12).

Ficaremos o tempo inteiro na Palestina, mais precisamente na Cisjordânia (a Faixa de Gaza não faz parte do nosso roteiro). Visitaremos Belém, Jerusalém, Hebron, Ramala, Jericó e Nablus. A hospedagem será no campo de refugiados de Aida, onde seremos temporariamente adotados por uma família palestina que faz parte do projeto que ajudei a criar alguns anos atrás.

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Algumas das atividades programadas durante a viagem são: visita guiada dos campos de refugiados de Aida e Deheisha, tour político de Jerusalém Oriental, encontro com um Comitê de Resistência Popular, piquenique no deserto, caminhada de 6 horas em um oásis no caminho de Jericó, excursões gastronômicas pra provar as delícias típicas da região, aula de culinária tradicional (naturalmente vegana) com as mulheres do projeto no campo de refugiados de Aida, visita da feira de Belém, um dia relaxando no mar morto, encontro com ativistas palestinos e israelenses e muito mais.

O grupo de outubro ainda terá direito a um super bônus. Vamos participar da colheita de azeitonas e ver como essas frutas são transformadas em azeite. Vai ser mágico!

Os grupos são pequenos, com 6 pessoas cada, e estarei o tempo todo com os participantes, dormindo na mesma casa, partilhando informações, respondendo suas perguntas e dúvidas político-gastronômicas e ocasionalmente cozinhado pra turma.

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Os objetivos dessa viagem são: mostrar a Palestina que não aparece nos jornais, com suas paisagens lindas, sua culinária e cultura ricas e seu povo caloroso e resiliente, mas também apoiar a economia local, que está sendo estrangulada pela ocupação israelense. Os participantes também vão descobrir as iniciativas de resistência não-violenta que florescem por todos os lados e que não ganham atenção da mídia, e encontrar os ativistas palestinos, mas também israelenses, que estão por trás delas.

Serão 14 dias inesquecíveis, com encontros emocionantes com pessoas que estão lutando por justiça na região e degustação de pratos e mais pratos de hummus, além de uma quantidade obscena de falafel. Porque mudar o  (nosso) mundo é muito bom, mas mudar o mundo comendo hummus e falafel é melhor ainda!

Quem quiser fazer parte dessa aventura só precisa mandar um e-mail pra papacapimveg@gmail.com pra receber todos os detalhes (programação completa + preços). E acredite, o preço do tour é muito menor do que você deve estar imaginando. Aviso importante: mais da metade dos lugares já foram reservados (nos dois tours), então se você quiser se juntar a nós, me escreva o mais rapidamente possível.

Espero te ver daqui a alguns meses ao redor dessa mesa, ouvindo histórias e degustando as delícias que a Terra Santa tem pra oferecer.

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Fotos: Monastério grego ortodoxo no deserto (perto de Belém), onde faremos um piquenique, Jerusalém, Mar Morto, o Muro de Separação (construído por Israel) no campo de Aida, onde ficaremos hospedados (foto de Anne Paq), a Rua da Estrela, no centro antigo de Belém, que leva à Igreja da Natividade e comida típica no restaurante ao ar livre Hosh Yasmin, em Beit Jala.

Tour Papacapim na Palestina – parte 2

Um dia, quando morava na Palestina, tive uma ideia louca: levar um grupo de brasileiros pra lá e dividir com eles um pouco do que vi, vivi e presenciei naquelas terras. A luta por justiça, a criatividade na maneira de resistir a ocupação militar israelense, a dignidade do povo, mas também as paisagens, a comida, os sorrisos… A ideia de um tour político-gastronômico-ativista morou no meu peito durante alguns anos, mas eu sempre pensava: “Quem seria louco ou louca o suficiente pra ir até a Palestina fazer um tour desses com a minha pessoa?”.

Esse ano a minha vida, que já era meio torta, deu várias cambalhotas e resolveu ficar definitivamente de cabeça pra baixo. Então pensei que já que eu estava no meio de um turbilhão, o momento era ideal pra ousar uma maluquice dessas. Coloquei esse post aqui no blog e imediatamente depois fui tomada por uma mistura de excitação e dor de barriga. Eu não sabia se levantava e dançava de alegria ou se corria pro banheiro. Eu estava convencida que a ideia era um dos maiores absurdos que já tinha saído da minha cabeça, mas ao mesmo tempo algo dentro de mim dizia que se a coisa fosse pra frente seria um absurdo tão maravilhoso que valia a pena tentar. Pra minha grande alegria, e espanto, começou a chover e-mails de pessoas interessadas em participar do tour. (Tantas, na verdade, que já tem mais dois tours programados pra 2015!)

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Então deixei Bruxelas, que foi meu lar durante o último ano, e peguei o avião que me levaria de volta pra Palestina, depois de um ano e meio sem colocar os pés lá. Cheguei uns dias antes do início do tour pra organizar tudo e dia 4 de novembro fui encontrar o grupo em Jerusalém Oriental. Passei os dias que antecederam esse encontro com a mesma mistura de excitação e dor de barriga que senti no dia que anunciei o tour aqui no blog. E pouco antes do horário marcado pro encontro tive uma leve crise de pânico. O medo de decepcionar o grupo, de não estar à altura das expectativas do pessoal e de ter planejado a pior viagem de todos os tempos me invadiu e eu não parava de repetir que não queria mais fazer tour coisa nenhuma e que, com licença, me deixem ir embora correndo.

Mas não saí correndo. Pude dividir um pouco da Palestina que me emociona e me inspira com um grupo de pessoas maravilhosas, passei 14 dias incríveis e fiz um dos trabalhos mais significativos da minha vida. E além dos cinco brasileiros que decidiram embarcar nessa aventura o acaso trouxe uma islandesa pro nosso grupo, porque loucura pouca pra mim é bobagem. Nosso grupo era um óvni. Imaginem eu explicando a empreitada pros palestinos: “Opa! Tudo certinho? Eu tenho um blog de culinária vegetal em Português e estou guiando uns brasileiros, não, essa daí é islandesa (não, nem irlandesa nem finlandesa, islandesa da Islândia), num tour político-gastronômico pela Palestina e nós gostaríamos de bater um papinho sobre o papel das mulheres no movimento de resistência popular contra a ocupação. Pode ser?”. Juntos vivemos coisas intensas, emocionantes, revoltantes e inspiradoras. Nas fotos vocês podem ver alguns dos lugares que visitamos e algumas das pessoas, principalmente palestinas, mas também israelenses,  que encontramos durante essas duas semanas (muitas não apareceram nessas fotos).

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Além das visitas e dos encontros com pessoas que contam imensamente pra mim e que fazem um trabalho remarcável na luta por justiça, também teve a descoberta da culinária palestina, que oferece inúmeras opções veganas. Cada participante comeu o dobro do seu peso em hummus e falafel. Tinha três veganos (contando comigo), três vegetarianas e uma onívora e embora todas as refeições preparadas no nosso lar provisório (no campo de refugiados de Aida) fossem veganas, deixei bem claro que cada um era livre pra se alimentar da maneira que preferisse. Tive receio que a onívora da turma se sentisse mal (julgada, criticada, oprimida), mas ela me garantiu, com a boca cheia de hummus, que estava tudo tranquilo e que ela podia sobreviver muito bem duas semanas sem carne.

No final da viagem pedi que cada participante dividisse suas impressões e quero compartilhar com vocês o que cada um escreveu (o texto não foi editado por mim, está do jeitinho que cada pessoa escreveu).

“Permaneci, durante os primeiros dias da viagem, endurecida pela iminente tensão sionista, como se tivesse ativado um mecanismo de defesa, afinal, envolver-se nos deixa mais vulneráveis ao sofrimento. Já conhecia a questão palestina e meu objetivo era o contato mais próximo com a luta, mas numa posição analítica, e não emotiva.

Durante a manifestação em Al Ma’sara, Yasser, um menino de 14 anos aproximou-se e perguntou:

– I love Palestine. – e, apontando pra mim – I love Palestine?

Respondi:

– Yes, I love Palestine.

Lembro da sensação instantânea de meu coração amolecer, e a certeza da inevitabilidade de me apaixonar por esse lugar. Palestina tem algo, uma força solidária que te acolhe como um abraço entre irmãos. Impossível não se embriagar pela força e generosidade do povo, pelo Al-Corão sendo entoado pelas altas torres da mesquita, pelo aroma das lojas de especiarias, pelas conversas regadas à chá e café… pois bem, minha visão analítica virou praticamente uma atrapalhada carta de amor adolescente, resultado de uma experiência que ainda não digeri, mas que faz bater aquela dor aguda no peito quando acordamos de manhã, sentindo a ausência da distância, e a certeza de que parte de mim ficou confinada pelo muro, esperando pelo retorno. Quem sabe ano que vem? Ainda guardo a chave.” (Nozomi)

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“Escrever sobre a experiência daqueles dias na Palestina, é como querer contar uma história que não sabemos do final. Sabia que seria uma grande aventura e de várias descobertas, tanto físicas como espirituais, mas da esperada aventura que duraria supostamente 14 dias, ainda sinto intensamente que jamais voltarei. A cada dia, reflexões, aprendizados e lições me transformam a cada amanhecer. Muito agradecido e feliz por te feito parte desse grupo nessa experiência única e engrandecedora.” (Josias)

“Há quase três anos conheci o Papacapim. Eu já era vegetariana e, decidida em me nutrir corretamente, já fazia minhas incursões tímidas na cozinha. Quando encontrei o blog de Sandra, percebi que havia encontrado ouro. Excelente escrita, lindas fotos e um detalhamento nas receitas que me levaram a uma temporada de testes, cada dia duas ou três receitas por uns dois meses. Depois dessa temporada comecei a receber pessoas em casa para jantares e percebi que, por causa de Sandra, minhas habilidades culinárias tinham atingido um outro nível. E entre uma receita e outra, vinham notícias da Palestina. A história de Sandra e seu ativismo me comoveram de tal forma que comecei a contá-la por aí, e a minha atenção às notícias que de lá chegavam ganharam um novo significado.

Mas apesar de ler notícias sobre o assunto, parte de mim não conseguia exatamente compreender ou formar uma imagem mental da situação, e minha forma de atuar no mundo parte do princípio que eu não posso agir sem antes compreendê-lo. Sou uma pessoa visual e só concebo, vendo.

Quando li o post que anunciava a viagem foi um “sim” automático. Corajoso, impulsivo e inconsequente, mas caiu como sopa no mel nesse momento da vida. E decidi ainda que gostaria de tentar mostrar ao mundo, ao meu modo, o que quer que eu encontrasse. Portanto, munida de um equipamento humilde, decidi experimentar registrar o tour em vídeo.

Num primeiro olhar, eu esperava uma situação muito pior. Quando Sandra disse que ficaríamos num campo de refugiados, a imagem mental que eu fazia era uma mistura de favela e um cenário apocalíptico. Mas não, o campo de refugiados é na verdade um lugar de boa aparência. A casa de Islam e as instalações em geral eram bem confortáveis, e dentro do campo eu me senti absolutamente segura, mesmo andando sozinha e à noite.

Durante a viagem encontramos seres humanos extraordinários que fazem coisas extraordinárias. Resistem à ocupação Israelense, cada um ao seu modo, com extrema solidariedade, resiliência e criatividade. Recebemos a generosidade de todas as pessoas que Sandra nos apresentou. Percebemos também que o papel do estrangeiro por lá é vital. Nossa presença lá realmente é de grande ajuda.

E num segundo momento, imergindo nas informações que chegavam, do ponto de vista político, concluí que a situação era na verdade muito pior do que eu poderia imaginar. A violação dos direitos humanos é perversa e humilhante. Encurrala e desola. Ainda estou buscando palavras para formular juízos sobre o que vimos. E um sentimento de dualidade me tomou – há muito o que se fazer, mas é difícil demais fazer algo efetivo para modificar essa situação.

E não vou dizer que tudo foram flores. Confesso que, apesar de termos comido muito bem, tive problemas com o veganismo. Fiquei doente, triste, confusa e devagar. Também por conta da carga emocional do que estávamos presenciando, que pra mim, foi bastante pesada.

Mas ainda assim, apesar de tudo, saí de lá inspirada. É hora de refletirmos sobre as nossas decisões, sobre os nossos posicionamentos e os privilégios que temos, que não são compartilhados pela maioria dos seres humanos neste planeta. É momento de agir. Ainda que os problemas pareçam grandes demais, que nossas vidas pareçam já ter complicações suficientes, precisamos tentar mudar o mundo um projeto de cada vez, uma pessoa de cada vez, um passo de cada vez.

Eu poderia ler e pesquisar por quantos anos fossem, e nada nunca poderia substituir o fato de que eu estive lá e me encontrei com essas pessoas e experimentei um pouco da cultura, da alegria, do sofrimento e da luta Palestina. Estou feliz por ter vivido essa experiência. O desafio agora é como traduzir essa vivência e os videos captados em um produto.

Minha profunda gratidão à Sandra e a todos que nos receberam de braços abertos.” (Bianca)

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“Viajar é a possibilidade de sair do seu conforto e ser confrontado por uma realidade diferente. Quando há interesse por uma causa, além de pesquisar e estudar, a vivência concreta dentro daquele mundo é uma oportunidade de testar na prática aquilo que se acreditava ser o justo. Fui à Palestina como um ser, regressei sendo outro. Uma subjetividade externa se emaranhou em minha essência reforçando meus interesses e ideais. Vi tristeza, vi humilhação, vi tortura e sobretudo vi e vivi a injustiça. Agradeço à todos que participaram direta e indiretamente dessa transformação. Os momentos vividos e as pessoas extraordinárias que conheci sempre farão parte da minha lembrança, e principalmente, da minha existência.”  (Havana)

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Foram catorze dias de viagem, de momentos e vivências tão intensos que não sei nem por onde começar. Mas tenho que começar.

Eu poderia falar sobre os direitos humanos, sobre o direito à saúde, à educação, à moradia, a ir e vir, à infância e de como tudo isso não existe na Palestina. Poderia falar de histórias terríveis que as pessoas nos contaram, sobre assassinatos, sobre mandados de prisão contra crianças de 12 anos, sobre violência física e psicológica generalizada, sobre o medo, a revolta contida e sobre a impunidade dos soldados. Poderia falar do muro da vergonha, das construções obscenas feitas pelo governo israelense na Cisjordânia para, aos poucos, enclausurar e excluir a população palestina, e sobre a facilidade de aquisição de armas pelos residentes dessas construções ilegais. Poderia também falar sobre Hebron e a ONG que forma voluntários para servir de escudo humano e proteger as crianças de serem alvejadas com pedras atiradas por colonos israelenses no caminho à escola. Poderia falar sobre uma mãe que deixou seu filho sair no quintal enquanto a visitávamos, porque a nossa presença intimidou o soldado israelense que fazia a “ronda”, e assim o menino pôde passear em seu triciclo sem medo de ser alvo da crueldade alheia. Eu poderia contar sobre a infinidade de vezes que um dos nossos guias disse a frase “Palestinians are not allowed”, enquanto nos contava sobre as oliveiras de mais de 2000 anos de idade que tinham resistido bravamente ao passar dos anos, mas não resistiram às motosserras dos colonos israelenses. Mas prefiro compartilhar algo bonito dentro da tragédia, um momento de equilíbrio dentro do caos. 

Quando chegamos ao campo de Aida, fomos recebidos por uma família extraordinária. Sandra nos contou uma história trágica, ocorrida ali naquela sala, há não tantos anos, no mesmo lugar onde naquele momento compartilhávamos o jantar. Uma história que me marcou profundamente, e na qual não parava de pensar sempre que chegava ou saía de casa, passando ao lado da porta.

Mas, no penúltimo dia da viagem, na festinha surpresa organizada para o aniversário de Sandra, e sobre o mesmo solo, a filha mais nova dessa família presenteou a todos com uma dança típica palestina enquanto fazia caras e bocas, e todos os expectadores pudemos compartilhar sonoras gargalhadas. Todos aqueles sentimentos de desespero, frustração e raiva acumulados ao longo dos dias e existentes dentro de mim se esvaíram para dar lugar ao riso, à gratidão e ao amor, enquanto a menina pedia que marcássemos o ritmo com palmas para continuar dançando.

Se existe algo que eu gostaria de dividir, é que é muito fácil sentir descomunal ódio pelo país opressor, pelos seus nacionais e por tudo ao redor. Mas também é enriquecedor ver a resistência e a coragem de um povo desprovido de tudo o que se possa imaginar, enfrentando em seu dia a dia tantas imoralidades de maneira honrada, com a esperança de que um dia se faça justiça. Desejo do fundo de meu ser que seu brio, confiança e fortaleza moral lhes permitam caminhar na mesma direção.

Peço desculpas se meu relato pode ter parecido piegas ou clichê, apenas considero extremamente difícil colocar em palavras sentimentos tão profundos e tão controversos. E Sandra, habibti, obrigada pela oportunidade, pela paciência e pela sua enorme generosidade. Você é única. Palestinian people, may you always shine. Justice will come. Inshallah.” (Tati)

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Legendas das fotos (mais uma vez agradeço Tati por me deixar publicar algumas de suas fotos aqui no blog): 1- O muro de separação, construído ilegalmente por Israel em terras palestinas, em Belém.  2- Entrada do campo de refugiados de Aida, em Belém. 3-Na frente da nossa casa em Aida. 4 e 5-Pátio e frente da escola da ONU no campo de Aida, com o muro de separação no fundo. 6-Uma parte do muro em Aida. 7,8 e 9- Tour político do distrito de Belém, com Baha. 10- Zuleikha, nossa guia em Hebron (sul da Cisjordânia), no teto da sua casa. 11- A tela de metal que os moradores de Hebron colocaram em uma das ruas do centro, pra se proteger dos ataques dos colonos israelenses que ocupam a parte superior de alguns prédios (e parte da cidade antiga) e que jogam lixo e pedras nos passantes palestinos. 12-Check point (barragem militar israelense, que controla a passagem das pessoas) no centro de Hebron. 13- Tour político de Jerusalém Oriental, com Johanna. 14- O muro, que anexa terras palestinas ao território israelense e separa comunidades. 15- Apresentação de Sahar, uma ativista israelense, sobre a militarização da sociedade israelense. 16- Uma página de um livro didático israelense, ensinando crianças pequenas a contar. 17- “Aviso. Essa terra é ocupada ilegalmente. Estado da Palestina.” 18- Check point entre Belém e Jerusalém. 19- Os livros que o grupo levou pra casa, na Educational Bookshop, em Jersualém. 20- No campo de refugiados de Deheisha, o segundo maior da Cisjordânia. 21- Manal, uma ativista do vilarejo de Nabi Saleh, que falou sobre a presença das mulheres na resistência popular. 22-Tali, ativista israelense que trabalha com BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), e que explicou a origem e a importância do movimento de boicote econômico, cultural e acadêmico a Israel. 23- Durante o protesto semanal em Nabi Saleh, contra o roubo das terras do vilarejo por colonos israelenses. 24-Mais uma foto do grupo, sem nossa querida islandesa (que fez a foto) durante a caminhada de cinco horas que fizemos no deserto, no caminho de Jericó.

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A parte 1 do tour pode ser vista aqui. E quem se interessar em participar do tour no ano que vem (ainda tem alguns lugares disponíveis), é só escrever pra papacapimveg@gmail.com

Eu não podia terminar esse post sem mostrar o meme feito por Nozomi e que fez a gente chorar de tanto rir. A foto foi feita por Tati, durante o protesto semanal no vilarejo de Nabi Saleh, e eu apareci nela por acaso.  Nada como correr pelos campos com uma ruma de soldados israelenses atirando gás lacrimogêneo atrás de você : )

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Tour Papacapim na Palestina – parte 1

Não é fácil descrever tudo que aconteceu durante o tour político-gastronômico/vegan-ativista que organizei na Palestina em Novembro. Ainda estou pensando em como dividir essa experiência, tão intensa, emocionante e repleta de momentos impossíveis de traduzir em palavras, com vocês. Então a primeira parte, gastronômica-turística, será visual. Essas foram algumas (só algumas) das coisas que degustamos e visitamos durante as duas semanas que durou a viagem.

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Legendas das fotos: 1- O mar morto com a Jordânia no horizonte. 2-Picles, picles e mais picles (e o molho de pimenta que os palestinos chamam de shatta). 3-Picles de uvas verdes. 4- Mini berinjela recheada com nozes e especiarias.

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5-Wadi Qelt, onde fizemos uma caminhada de 5 horas em pleno deserto. 6- Beit Jala, perto de Belém. 7- Entrada do restaurante Hosh Yasmin, em Beit Jala (de onde foi feita a foto 6). 8- Wadi Qelt. 9- Deserto perto de Jericó.

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10- Suco fresco de romã, que é super popular na Palestina (eles espremem romãs como nós esprememos laranjas). 11- Pão com azeite e za’atar (mistura de tomilho selvagem e gergelim). 12- Aula de culinária palestina (e vegana) no campo de refugiados. 13- Almoço no restaurante Hosh Yasmim (destaque pro copo de Tayebeh, a única cerveja produzida na Palestina, aprovada pelo grupo). 14- O almoço preparado pelo grupo durante o curso de culinária palestina: warak shol, folhas de um tipo de couve recheadas com arroz, grão de bico e verduras.  15- Dona Papacapim preparando legumes assados pro grupo, no nosso lar temporário no campo de refugiados de Aida.

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16- Mar morto.  17- Marsaba, monastério grego ortodoxo. 18- Deserto no caminho de Marsaba. 19- Festa na casa de Islam, nossa anfitriã, no dia do meu aniversário. 20 – Especiarias em Jerusalém.  21- Almoço em Hosh Yasmim.

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E esse é o nosso grupo (visualmente boicotado pela minha máquina fotográfica, que decidiu desenvolver um problema de superexposição justo nesse dia), no teto da escola da ONU no campo de refugiados de Aida, onde estávamos hospedados.

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* Agradecimentos especiais à Tati, pois boa parte das fotos que apareceram nesse post foram feitas por ela.

“Eu me recuso a agir de maneira violenta”- entrevista com a ativista israelense Sahar Vardi

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Em uma conferência com objetores de consciência israelenses na cidade palestina de Beit Sahour (Sahar está no centro).

Depois de ter publicado a história de três amigos palestinos aqui no blog (vocês podem ler os relatos aqui, aqui e aqui), gostaria de escrever sobre uma amiga israelense. Durante minhas palestras e conversas sobre a Palestina escutei algumas vezes coisas do tipo “Ah, mas você escolheu ficar do lado dos Palestinos”, como se as informações que eu repasso fossem tendenciosas (sempre respondo que escolhi o meu lado, sim: os diretos humanos). Mas é por isso que hoje eu gostaria de dar a palavra a uma israelense. Sahar é uma das pessoas mais engajadas e interessantes que conheço e nessa entrevista ela fala sobre ativismo, a militarização da sociedade israelense (e suas consequências na população) e como ela imagina o futuro da região. Fiz essa entrevista ano passado e ela foi publicada originalmente na Revista Fórum de novembro.

Sahar Vardi tem 22 anos e estuda História e Educação na Universidade Hebraica de Jerusalém, cidade onde nasceu. Ela cresceu em uma família, segundo sua própria descrição, judia sionista e hoje é uma das ativistas israelenses mais engajadas contra a ocupação militar na Palestina.

Aos 13 anos Sahar foi pela primeira vez aos territórios palestinos, acompanhada pelo pai. Durante a segunda intifada (2000-2002) o pai se tornou ativista, participando das ações realizadas pelo grupo israelense Ta’yush. Foi seu primeiro contato com palestinos. “Apesar de ser muito fácil visitar uma cidade palestina, é possível viver toda a sua vida em Israel e nunca encontrar um único palestino. Jerusalém é uma cidade mista, com mais de 36% de palestinos, mas aqui a segregação é total. Existem bairros exclusivamente judeus, escolas, ônibus… Não há interação entre palestinos e israelenses.” No vilarejo palestino de No’man ela participou de atividades com os habitantes, plantou oliveiras e ajudou a trocar a encanação de algumas casas. “A população de No’man é bastante instruída e todos falam Hebraico ou Inglês ou os dois, então foi fácil conversar com jovens da minha idade. A única diferença visível entre eu e aquelas pessoas era a cor da nossa carteira de identidade.” (Palestinos da Cisjordânia recebem identidades verdes) Nesse vilarejo Sahar viu o que a ocupação significa para o povo palestino. “A estrada que ligava o vilarejo à Jerusalém tinha sido fechada pelo exército israelense e o muro de separação construído por Israel isolou No’man dos outros vilarejos palestinos. Essa separação física estava ali para me convencer que não, nós não éramos iguais. A escola tinha me ensinado que a ocupação só existe por razões de segurança, para proteger os israelenses judeus, mas esse argumento desmoronou quanto entrei em contato com a população de No’aman.” Depois desse primeiro contato com pessoas “do outro lado do muro”, Sahar começou a participar de ações contra a ocupação israelense na Palestina, como as passeatas semanais contra a construção do muro e a confiscação de terras pelo governo israelense nos vilarejos de Al-Ma’sara e Bil’in.

Em Israel o serviço militar é obrigatório: três anos para os homens e dois anos para as mulheres. Mas ao completar 18 anos, Sahar se recusou a entrar para o exército. Junto com um pequeno grupo de jovens objetores de consciência, escreveu uma carta aberta ao Ministro da Defesa Israelense. O primeiro parágrafo dessa carta diz: “Nos recusamos a servir o exército em primeiro lugar e acima de tudo em sinal de protesto contra a política israelense de separação, controle, opressão e assassinato nos Territórios Palestinos Ocupados, pois acreditamos que oprimir, assassinar e semear o ódio não pode trazer paz ao mundo e que isso vai contra os valores fundamentais de uma sociedade que se diz democrática.” Junto com essa carta coletiva, Sahar escreveu uma mensagem pessoal onde dizia (extratos): “Em casa e na escola me ensinaram os direitos fundamentais, como justiça, liberdade e igualdade, mas muito cedo percebi que o país onde vivo nega esses direitos a milhões de pessoas para que eu possa desfrutar da ‘liberdade’ que ele me ensinou que todos merecem. Eu não posso ficar em um posto de controle e separar uma raça de outra, um tipo de carteira de identidade de outro, não posso bombardear cidades cheias de homens, mulheres e crianças, mesmo se isso for feito como parte de uma guerra, e não posso punir milhões de inocentes pelos crimes cometidos por alguns. É nossa obrigação como seres humanos não ferir os outros, é nossa obrigação recusar a participação de qualquer ação que possa prejudicar os outros, mesmo se estivermos seguindos ordens do nosso país. Eu me recuso a agir de maneira violenta, sob ordens ou não.”

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Sendo presa por soldados israelenses durante uma manifestação nos Territórios Palestinos Ocupados.

 A resposta do governo israelense aos jovens que recusam o exército é a prisão. Sahar ficou dois meses na cadeia e três meses em um centro de detenção. Depois de ser liberada, Sahar continuou suas atividades de ativista, mas começou a trabalhar de maneira mais ativa em Jerusalém. Ela trabalhou alguns anos no ICAHD (Comitê Israelense Contra Demolições de Casas), onde coordenava projetos de reconstrução de casas palestinas demolidas pelo governo israelense e organizava tours políticos em sua cidade natal. Hoje ela faz parte de uma organização que promove a desmilitarização da sociedade israelense e propõe alternativas às pessoas que não querem servir o exército, oferecendo bolsas de estudos e programas de voluntariado no exterior. O sistema universitário em Israel é determinado pelo trabalho feito no exército, de modo que pessoas que não fazem o serviço militar não podem obter bolsas de estudos e, se um projeto de lei for aprovado, não poderão fazer certos cursos, como medicina e direito. Sahar explica que “embora essas leis se apliquem aos objetores de consciência, elas foram criadas para punir os árabes-israelenses, que não fazem o serviço militar”.  Paralelo aos estudos e ao trabalho, ela ainda participa regularmente de ações de solidariedade com o povo palestino e manifestações contra a ocupação.

Tive a sorte de escutar Sahar em duas conferencias, a primeira logo depois que ela foi liberada da prisão, a segunda alguns meses atrás, e acompanho com admiração o seu trabalho. Encontrei Sahar em uma tarde de junho, na Universidade Hebraica de Jerusalém. Ela tinha acabado de chegar de uma conferência na Grécia e já estava se preparando para a próxima viagem, à Alemanha, onde participaria de uma conferência sobre a militarização da juventude no mundo. Entre duas aulas, ela gentilmente se dispôs a responder algumas perguntas e conversar sobre sua vida e seu trabalho.

Você se define como “uma ativista de Jerusalém”. Quanto da sua vida foi modelado pelo ativismo?

Minha adolescência e minha vida adulta foram definidas em função do meu ativismo. Ele influencia o tipo de trabalho que faço, o que eu leio, o que eu como, o curso que escolhi na faculdade, as pessoas com quem decido conviver… Tudo na minha vida é influenciado pelo ativismo.

Qual foi a reação de sua família quando você se recusou a fazer o serviço militar?

Minha família não se surpreendeu, eles já imaginavam que eu faria isso. Aqui é relativamente fácil evitar o serviço militar obrigatório e eu poderia ter usados várias desculpas para não servir o exército. Por exemplo, 12% da população evita o serviço militar alegando motivos de saúde mental e há poucas chances que esse pessoal todo seja louco. Mas para mim era importante enviar uma mensagem ao meu governo, manifestar publicamente minha desaprovação. Em Israel não existe a opção de recusar de servir o exército. Ao completar 18 anos todo israelense se torna automaticamente soldado, independente da vontade de cada um. Então você, que é considerado um soldado, vai para a prisão não por ter se recusado à servir o exército, mas por ter desobedecido à ordem do seu comandante de ir para a sua base militar. Depois desses cinco meses de prisão e detenção, acabei sendo liberada por motivos de saúde mental, já que não é possível sair desse sistema alegando motivos políticos. Então eu sou oficialmente louca. Mas durante todo esse processo pude contar com o apoio da minha família, que também apoiou a decisão do meu irmão de fazer o serviço militar. Hoje ele segue carreira no exército, mas sempre se recusou a combater nos territórios palestinos. Fomos expostos à mesma realidade, mas seguimos caminhos diferentes e minha família respeita as minhas razões e as dele.

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Você trabalha atualmente em uma organização que promove a desmilitarização da sociedade israelense. Como acontece e quando começa o processo de militarização no seu país?

A militarização da sociedade começa muito cedo, na escola.  Nossos livros nos ensinam a contar ligando imagens de tanques, aviões de caça etc, aos números correspondentes.  Nas datas comemorativas os alunos enviam presentes para os soldados. Durante toda a nossa educação aprendemos que segurança justifica todo e qualquer ato e que o exército, e a ocupação nos Territórios Palestinos, é a única maneira de manter um lar para o povo judeu. Tudo é uma grande preparação para o exército, principalmente quando os alunos se aproximam da idade de fazer o serviço militar. Lições de História sobre a perseguição sofrida por judeus, os combates para obter o nosso país… Esse doutrinamento aplicado à população pode ser visto de maneira explícita todos os anos nas semanas entre abril e maio. Começa com Pesach, a páscoa judaica (comemoração da liberação do povo hebreu do Egito, travessia do mar vermelho e chegada à terra prometida), depois vem o dia da memória do holocausto, seguido do dia da memória dos soldados e, no dia seguinte, o dia da independência de Israel. A mensagem é muito clara: os judeus sofreram e foram perseguidos durante toda a História, o Holocausto é um bom exemplo disso, muitas pessoas lutaram e perderam a vida pra que hoje os judeus tivessem um país e é nossa obrigação seguir lutando se quisermos continuar vivendo aqui. O medo é um elemento importante no processo de militarização da sociedade e faz parte do sistema educacional israelense, cujo objetivo principal é formar bons soldados.

Quais são as consequências internas dessa militarização da sociedade?

Quando uma sociedade inteira passa por um sistema militar onde a única maneira de resolver problemas é através da violência, você cria uma sociedade muito violenta. Quando todos os jovens de 18 anos passam por um sistema que é por definição patriarcal e sexista, com estereótipos muito claros sobre o papel da mulher e do homem no exército, isso acaba se reproduzindo na nossa vida civil. Ao entrar no exército cada soldado homem recebe um cartão postal com a foto de um soldado sentado em cima de um tanque, o canhão estrategicamente posicionado entre suas pernas, com a seguinte frase: “Muitas coisas são duras no exército”. O cartão vem acompanhado de uma camisinha, caso a mensagem não tenha sido clara o suficiente. Nos ensinam que o serviço militar é uma parte indispensável da vida de todo israelense e se é assim que homens devem tratar as mulheres no exército, por extensão é assim que elas devem ser tratadas na sociedade.

Você faz parte do pequeno grupo de ativistas israelenses cujo trabalho e posições políticas vão contra a opinião da maior parte da população. Qual é a sua relação com o israelense médio?

Depende da situação. Se sou confrontada com pessoas cujas opiniões são extremamente diferentes das minhas, o que acontece o tempo todo, procuro manter a calma e ser paciente. Houve uma época em que um extremista sionista descobriu o meu número e me ligava constantemente dizendo montanhas de insultos. Eu sempre escutava e tentava responder educadamente, com argumentos racionais. Depois de algumas semanas ele acabou se acalmando e tivemos algumas conversas interessantes. Não sei se ele mudou de opinião, mas pelo menos ele escutou, talvez pela primeira vez na vida, uma opinião diferente. Alguns dos meus amigos de infância cresceram em colônias ilegais na Cisjordânia e ainda tenho contato com eles. Já aconteceu de encontrar colegas da escola durante uma manifestação na Cisjordânia, eu ao lado dos palestinos e eles em uniforme de soldado. Nessas ocasiões o diálogo é limitado, geralmente um olha para o outro e diz: “Então é isso que você está fazendo agora…”

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Logo após ter sido ferida por um soldado israelense durante uma manifestação na cidade palestina de Hebron.

Qual o papel dos ativistas israelenses na luta contra a ocupação militar nos Territórios Palestinos? O que você acha do conceito de “co-resistência”, segundo o qual israelenses lutam contra a ocupação ao lado dos palestinos?

Como israelense, é minha obrigação denunciar os crimes cometidos pelo meu governo e tentar fazer com que isso cesse. São meus impostos que financiam o exército, foi o meu voto que elegeu esse governo e é meu dever lutar por uma sociedade mais justa.  Nas ações contra a ocupação na Cisjordânia, a presença de ativistas israelenses contem um pouco a reação dos soldados, que seria muito mais violenta se houvesse somente palestinos ali. O fato de falar Hebraico também ajuda a acalmar um pouco os soldados. Durante essas ações, ativistas israelenses também podem tentar impedir que palestinos sejam presos. Se formos presos durante uma ação as consequências para nós serão mínimas (Israelenses presos durante ações contra a ocupação são liberados algumas horas depois, enquanto um palestino preso nas mesmas circunstancias pode ficar anos na cadeia). Claro que um ativista palestino e um ativista israelense não correm os mesmos riscos nem sofrem o mesmo tipo de repressão, mas co-resistência para mim não significa que estamos lutamos da mesma maneira, no mesmo nível. Mesmo entre israelenses a resistência é diferente: como mulher eu apanharei menos do que um ativista homem durante uma ação, mas ele será levado mais a sério do que eu. Mas são exatamente essas diferenças que nos permitem de agir de maneiras variadas, em vários setores. Porém co-resistir hoje é complicado devido à falta de visão comum entre os ativistas israelenses. Há muitas divergências de opiniões entre nós. Existe uma diferença clara entre gerações também. Os ativistas mais velhos, por exemplo, ainda servem o exército (Depois do serviço militar obrigatório, todo israelense deve servir o exército um mês por ano até a idade de 45 anos). Se Israel e Palestina fossem um único país haveria uma unidade na luta por justiça e a co-resistência seria mais fácil.

Que tipos de ações você se recusa a participar, por divergências de opinião com os organizadores ou por não concordar com os métodos empregados, por exemplo?

Ações que usem violência. Tenho minhas prioridades, mas se eu concordar com o objetivo da ação, participo mesmo sabendo que alguns dos participantes têm opiniões políticas diferentes das minhas. Apesar das divergências, se sinto que estamos trabalhando por um objetivo comum, não vejo problema em participar.

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Você vê o J14 com otimismo ou ceticismo? (No dia 14 de Junho de 2011 uma israelense de Tel Aviv colocou uma tenda no centro da cidade para protestar contra o preço elevado da moradia no país. Outros israelenses se juntaram a ela e esse foi o início de uma série de manifestações pedindo justiça social e uma melhor distribuição de riquezas. O movimento ficou conhecido como J14, ou Movimento por Justiça Social, e continua ativo.)

Sou otimista nesse sentido: enquanto o pessimista diz que a situação não pode piorar, o otimista diz: “Sim, sim, ela pode piorar!”. (Risos) Acho que as pessoas envolvidas nesse movimento têm boas intenções, mas eles pecam por quererem ser sempre “os bonzinhos”. O Movimento por Justiça Social quer agradar a todos, quer ser “mainstream”, mas é impossível fazer uma real mudança na sociedade sem irritar uma parte dela. Mas o movimento teve alguns efeitos positivos nas pessoas. Durante as manifestações muitos participantes foram presos e pela primeira vez na vida eles sentiram na pele a injustiça e a repressão da qual o nosso governo é capaz. Nesse sentido eles puderam se identificar com os palestinos e isso é muito importante. Então eu tenho esperanças, sim.

Como você imagina o futuro post ocupação? Um estado ou dois?

Definitivamente um estado. Sonho com um país formado por três federações: uma judia, uma árabe e uma para quem preferir não ser identificado nem como judeu nem como árabe. As pessoas precisam sentir que o fato de fundir Israel e Palestina em um único país não mudará a vida delas e que a diversidade cultural será preservada. Então esse país terá autonomia cultural, mas as leis serão as mesmas para todos. Como o que aconteceu na África do Sul depois do fim do apartheid. Um só país, para mim, não significa que os habitantes serão forçados a se homogeneizar nem a mudar o local de suas residências. Eu, por exemplo, não tenho nenhuma intenção de deixar Jerusalém e ir morar em Ramala (capital administrativa da Cisjordânia) com a minha namorada.  Não gostaria de viver dentro da sociedade palestina. Um estado com três federações daria essa opção à população, cada cidadão seria livre para escolher viver na federação com a qual tem mais afinidades, com a garantia de ser protegido pelas mesmas leis e usufruir dos mesmos direitos.

*Todas as fotos que aparecem aqui foram feitas por Anne Paq.

Zaaki*

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No início desse mês o livro de receitas palestinas que eu criei pra arrecadar fundos pro projeto de mulheres no campo de refugiados de Aida ficou (enfim!) pronto. Além de ensinar a fazer 15 receitas tradicionais, o livro explica a situação dos refugiados palestinos e conta a história do projeto. Ele é o fruto de três árduos meses de trabalho e quando o segurei nas mãos pela primeira vez senti uma mistura de alegria e alívio. Nunca imaginei que fazer um livro (sozinha) fosse tão penoso: entre recolher as receitas, fotografar os pratos, escrever os textos e fazer o design/layout, quase perco o juízo. Mas agora que ele está aqui olhando pra mim, estou extremamente feliz por ter controlado a vontade de desistir e ter ido até o final. (Clique nas imagens pra aumenta-las.)

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No início queríamos usar o dinheiro da venda do livro pra fazer um jardim de infância pras crianças especiais do campo. Mas só tínhamos verba pra publicar cem exemplares e como o dinheiro não será suficiente pra dar início a esse novo projeto, decidimos deixar esse sonho pra mais tarde. Então o dinheiro do livro será usado pra organizar uma viagem pras dez famílias do projeto. Se tudo correr como o planejado, em abril iremos ao mar morto, passar o dia tomando sol, piquenicando e nos banhando naquela água salgadíssima. Devido à situação econômica difícil (a taxa de desemprego em Aida é de 70%!), essas famílias raramente saem do campo, então a viagem será o acontecimento do ano e desde janeiro as crianças só falam disso.

livro projeto3Queria mostrar algumas das fotos do nosso livro, pra vocês verem o mimo que ele ficou, e aproveitar pra compartilhar mais uma receita palestina. Adas fat é um prato muito humilde, feito com lentilha (que os palestinos chamam de “a carne do pobre”) e pão. Ele é consumido principalmente no inverno, quando o corpo precisa de alimentos que aquecem e reconfortam.  Essa receita é tradicionalmente vegana, mas a versão que vocês veem aqui é um tiquinho diferente da versão do livro. Islam, que me ensinou a fazer adas fat, usa somente cebola, lentilha, água e sal na sua sopa. Eu gosto de incrementar um pouquinho, juntando mais dois ou três ingredientes. Mesmo ‘incrementada’, essa receita é extremamente simples, barata e nutritiva. O tipo de receita que quebraria um galhão pros estudantes veg(etari)anos, ou qualquer pessoa que queira um jantar rápido, fácil de preparar, mas cheio de proteína (e completa!) e outros nutrientes.

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Em novembro, quando falei que estava escrevendo esse livro, alguns leitores ficaram muito interessados. Pensei em fazer uma versão digital do livro em Português, já que não seria viável enviar exemplares pra tão longe. Mas por causa dos meus diferentes projetos não terei tempo de traduzi-lo esse ano (o livro foi escrito em Inglês). Porém se alguma alma caridosa se oferecer pra fazer a tradução (são só 37 páginas, muitas delas com fotos), eu aceitarei de muito bom grado!

*Zaaki significa ‘gostoso’ em Árabe. O título completo do livro em Português é: Zaaki– Receitas palestinas saborosas direto da nossa cozinha no campo de refugiados de Aida.

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Adas fat (sopa palestina de lentilha coral e pão)

Lentilha coral cozinha mais rápido e tem um sabor mais suave do que lentilha verde. Ela é tradicionalmente usada em sopas, pois se desfaz durante o cozimento (nunca tente fazer uma salada com esse tipo de lentilha!). Se você não conseguir encontrar lentilha coral na sua cidade, sugiro essa outra receita palestina que usa lentilha comum.

1 cebola grande, picada

4 dentes de alho, ralados/picados

1x de lentilha coral

2 tomates, picados

Uma pitada generosa de cúrcuma

1 folha de louro

Azeite, suco de limão, sal e pimenta do reino a gosto

Pão, de preferência integral

Aqueça 1cs de azeite e doure a cebola. Junte o alho e cozinhe mais 30 segundos. Acrescente a lentilha coral, os tomates, a cúrcuma, o louro, sal e 1 litro de água. Quando começar a ferver baixe o fogo e deixe cozinhar, coberto, até a lentilha ficar bem macia. Desligue o fogo e tempere com pimenta do reino, 1cs de azeite e suco de limão a gosto (usei o suco de  ½ limão grande). Prove e corrija o sal (talvez você queira junta mais um pouco de suco de limão também).

pão e azeite

Toste o pão até ficar ligeiramente crocante. Rasgue o pão em pedaços e distribua nos pratos onde for servir a sopa (cerca de duas fatias pequenas por porção). Regue o pão com azeite (1cs por porção) e cubra com a sopa quente. Rende 4 porções.

*Pra complementar a refeição: esse prato é tradicionalmente servido com uma salada crua de tomate, pepino, pimentão e salsinha, temperada com sal, azeite e suco de limão. Os legumes crus aumentam a dose de vitaminas da refeição e são o complemento perfeito pra esse prato (que já tem a proteína da lentilha e os carboidratos complexos do pão integral).

Abraço

abraço

O muro construído por Israel na Cisjordânia mutila ainda mais as terras palestinas, isola cidades e seus habitantes e priva agricultores de seus campos. Ele foi julgado ilegal pelo Tribunal Internacional de Justiça em 2004, mas continua avançando. O muro de segregação, como é chamado pelos defensores dos direitos humanos, é onipresente aqui em Belém. É difícil esquecer os crimes cometidos pela ocupação israelense quando nos deparamos com esse ‘lembrete’ de concreto de 8 metros de altura cada vez que levantamos o nariz.

Uns tempos atrás uma associação palestina, com o apoio de uma ONG holandesa, criou um projeto de resistência através do conto, onde palestinos dividem histórias pessoais relacionadas com a ocupação. Cartazes com essas histórias foram colados ao longo do muro em Belém e o objetivo é sensibilizar os turistas que passam por aqui, mas que não têm a mínima ideia do que acontece com os palestinos há décadas (a maioria dos peregrinos acha que Belém fica em Israel…). Um desses depoimentos me emocionou tanto que eu fiquei com vontade de publica-lo aqui. (O texto original é em Inglês e foi traduzido por mim.)

Abraço

Durante a primeira intifada tanques israelenses ficavam na frente da nossa casa. Nossos rapazes (palestinos) tinham que passar por aqui pra ir pros seus trabalhos em Jerusalém. Os soldados israelenses paravam os rapazes e os obrigavam a esperar. Às vezes eles eram forçados a ficar horas em pé, com o rosto contra o muro da nossa casa. Um dia os soldados pararam dois rapazes. A gente não conseguiu escutar a conversa, mas os soldados começaram a espanca-los. De repente uma mulher na rua se aproximou gritando. A gente escutou ela dizer que os rapazes eram seus filhos. Ela abraçou os rapazes e perguntou aos soldados o que eles queriam. Ela salvou os dois rapazes, que na verdade ela não conhecia.

Melvina, Belém.

O exemplo dessa mulher abraçando os rapazes e protegendo com o próprio corpo a vida de dois desconhecidos foi uma das maiores lições de amor ao próximo que tive a honra de receber. Tantas vezes ouvi pessoas falarem: “As mães palestinas não sentem amor pelos filhos. Elas os criam pra se tornarem homens-bombas do outro lado da fronteira.” Se algum dia vocês escutarem uma declaração injusta e racista como essa, contem a história dessa palestina, que arriscou a vida pra salvar os filhos de outra.