Archives for posts with tag: Palestina

O último tour político-ativista-vegano-feminista na Palestina aconteceu em março desse ano. Assim como durante o tour de fevereiro, vivemos momentos difíceis, chocantes e revoltantes. Também vivemos momentos cheios de emoção, onde a humanidade e força das pessoas que encontramos nos tocou profundamente. Pela quinta vez pude ver as pessoas que participaram da viagem passarem pelas mesmas etapas que eu passei quando cheguei pela primeira vez na Palestina, 10 anos atrás. Surpresa, indignação, lágrimas, revolta, impotência, dor. Sempre que acompanho um grupo nessa montanha russa de emoções chega um momento em que me pergunto por que faço isso com essas pessoas tão bacanas que vieram de tão longe pra estar ali comigo. Mas elas nunca deixam de me lembrar a razão que me fez decidir fazer esse trabalho. Eu tenho uma responsabilidade moral em divulgar a realidade cruel da colonização e ocupação militar israelense na Palestina. Elas estão ali porque decidiram mostrar solidariedade ao povo palestino e se juntar às pessoas que lutam por justiça, a condição primeira pra se obter paz.

Tati e Thiago participaram do tour de março e escreveram relatos pessoais que me emocionaram muito. Tantas pessoas que participaram do tour se tornaram ativistas por direitos humanos e justiça na Palestina e além de me encher de felicidade, isso me dá forças pra continuar organizando essas viagens. Então eu precisava compartilhar esses relatos aqui no blog.

“Se eu tivesse optado por um turismo convencional, mesmo tendo uma visão crítica a respeito da ocupação israelense de terras palestinas, muito provavelmente teria voltado com percepções bem diferentes do que esse tour político me proporcionou. Cheguei um dia antes do combinado para me encontrar com o grupo e fiquei hospedada em Jerusalém. Algumas voltas no entorno, vendo israelenses e alguns palestinos na mesma cidade, me deram a falsa impressão de normalidade, de que ambos ocupavam o mesmo espaço sob condições iguais.

Andando apenas em transportes usados por turistas, eu provavelmente não teria percebido que alguns ônibus são reservados apenas para palestinos e outros para israelenses, o sinal mais óbvio de apartheid. Andando pelas ruas e observando as construções, eu certamente acharia que era opção estética ter ou não caixas d’água no teto, ao invés de saber que palestinos não têm água disponível 24h, ao contrário dos israelenses, mesmo essa água tendo sido captada em terras palestinas. Se estivesse em uma excursão tradicional, em ônibus de viagem, teria passado por vários “check points” sem perceber, pois esses ônibus não seriam parados. Mais ainda, eu teria percorrido vários quilômetros de estrada cortando terras palestinas e não saberia que na maioria daquelas estradas só é permitido o tráfego de israelenses. Teria visto as imensas colônias israelenses em terras palestinas e concluído ser apenas mais uma cidade. Teria visitado o Mar Morto sem ver um só palestino e achado que eles não frequentavam outros resorts por opção.

Depois dessas quase duas semanas na Palestina, pude entender perfeitamente o medo que Israel tem de que as pessoas entrem em contato com o povo palestino, o porquê de ter que mentir na imigração, de ter que jurar que não iria para a Palestina para conseguir o visto, o motivo de ter uma lei que proíba civis israelenses de entrar em cidades palestinas, de ter tantas placas dizendo se tratar de áreas perigosas. Porque se as pessoas realmente conhecerem o povo palestino, no mínimo, elas irão questionar a narrativa montada por Israel, o estereótipo construído em torno dos palestinos, sobretudo, os árabes.

Desde o momento em que passei pelo checkpoint, a frase que mais ouvi foi “bem-vinda à Palestina”, acompanhada de um sorriso caloroso. Mesmo quem não falava inglês arriscava algumas palavras para demonstrar o quanto a minha presença era importante ali. Às vezes, um cumprimento com a cabeça já transmitia o recado. Eu, que imaginava os palestinos como pessoas mais reservadas, sérias, desconstruí rapidamente essa imagem. Percebi muitas semelhanças com os brasileiros, a comunicabilidade, o calor humano e a alegria. Mais do que isso, eu me surpreendi com tamanha solidariedade e com uma vontade de apenas seguir a vida, sem rancor, algo que eu, sob as mesmas condições,  provavelmente não conseguiria.

É claro que devem existir discursos mais agressivos, mas, com tanta humilhação, privação e provocação em seu próprio território, me admira haver tão poucos. Aliás, é bom lembrar que é legítimo, reconhecido pelo direito internacional, o direito de um povo sob ocupação se defender.

A primeira coisa que me chamou a atenção quando entrei na Palestina foi a condição precária, a sensação de estar em um lugar permanentemente em obras. Com as barreiras e as condições impostas por Israel, a economia local tem se tornado mais e mais frágil e o índice de desemprego é altíssimo. Mesmo assim, não vi nenhum palestino morador de rua e eram raros os que me abordaram pedindo algo. Pareceu-me um paradoxo, mas, conhecendo um pouco mais da cultura deles, a força dos laços familiares e a generosidade, pude compreender que enquanto houvesse uma pessoa da família trabalhando (e família em sentido amplo), o restante não passaria fome, pois a renda seria dividida entre todos. E a generosidade se estendia inclusive para nós, turistas – foram inúmeros os presentes que ganhei e os convites para refeições que recebemos.

Mas o que mais me impressionou foi o apego deles à vida, a vontade de simplesmente ter uma vida normal, realizar seus planos sem a interferência de Israel. Resistir apesar das inúmeras dificuldades impostas por Israel, manter a cabeça erguida após cada humilhação, manter a serenidade mesmo tendo seus direitos violados dia após dia. É mais que um apartheid, são tantas as maneiras com que Israel consegue tornar a vida de um palestino insuportável que eu sozinha não teria imaginação para elaborar nem 1% dessas políticas. Tantas e tantas vezes me senti impotente, revoltada com as injustiças que via, e que para um palestino era apenas mais um dia de tantos outros.

Quando voltei ao Brasil, me disseram que para ver injustiças eu não precisava ter feito essa viagem. Sim, há injustiças por toda parte, mas a grande diferença é que lá essa injustiça é regulamentada em lei e não há o discurso para que isso mude, muito pelo contrário. O objetivo é tornar a vida do outro tão insuportável a ponto de ele largar tudo e ir embora. É tudo feito de forma descarada.

A diferença social foi outro aspecto que me chamou a atenção, visível mesmo em um território tão pequeno: a população das cidades, com condição financeira melhor e mais acesso aos serviços, e a população dos campos de refugiados, que perdeu tudo e teve que reconstruir sua vida. Como é de se esperar, os moradores dos campos de refugiados, com situação econômica mais difícil e sob constantes invasões de soldados, eram mais religiosos e conservadores. Como bem observou Sandra, nossa guia <3, antes da primeira intifada, na década de 80, eram poucas as palestinas que usavam véu, mas, com a situação de vida cada vez mais difícil, com o cerco israelense cada vez maior, a válvula de escape acaba sendo a religião.

Em Hebron, eu me senti sufocada com a pesada presença militar. Bastava olhar para cima para ver uma arma apontada. Parecia que não havia onde se esconder, que sempre haveria câmeras e mais soldados. Ao contrário de outras cidades palestinas, que estão sendo cercadas por colônias israelenses, em Hebron os colonos tomaram as ruas da cidade. Como resultado, há “check points” entre uma rua e outra, muro dentro da cidade, ruas em que todos os comércios palestinos foram fechados pelos israelenses, ataques a crianças, ruas cobertas com tela por causa dos ataques de colonos a palestinos – presenciei uma criança israelense cuspindo e jogando pedra nos palestinos que transitavam. O mais perturbador disso tudo é saber que todo esse dinheiro que Israel investe em militarização para oprimir os palestinos e proteger os invasores vem de ajuda internacional, é saber que os nossos governos apoiam esse massacre.

Saber disso é importante para aqueles que acham que a causa palestina é algo muito distante da nossa realidade, para aqueles que não tiveram a chance de, assim como eu, ver de perto, sentir empatia pela população, e se perguntam “por que a Palestina?”. Temos, sim, nossa parcela de responsabilidade. Precisamos pressionar o nosso governo a não assinar contratos de cooperação com Israel, a não comprar armamentos e tecnologias que são usados na opressão do povo palestino, pois somente a pressão internacional fará com que essa barbárie termine.

Divulgar o máximo de informações para contrapor a narrativa oficial daqueles que detêm o poder é o mínimo que eu posso fazer. Para aqueles que não puderem ir à Palestina, conversar com os locais e ver de perto as políticas impostas por Israel, sugiro, além de se manter sempre informado sobre o assunto, procurar a visão de quem está ou esteve dentro dessa sociedade que, cada vez mais, está sendo isolada por Israel. Os palestinos querem e precisam ter voz.

Repito aqui o que muitos já disseram durante o tour: que, por mais que eu tivesse lido e me informado sobre o assunto, nada teria me preparado para essa experiência transformadora. Vou carregar comigo, para sempre, os vários olhares cansados e tristes que presenciei; os pedidos para que levássemos as histórias deles para o mundo, para que eles pudessem ter voz; os abraços reconfortantes e toda generosidade que recebi; e, acima de tudo, um enorme carinho por essa terra e seu povo. Liberdade ao povo palestino! Palestina livre!”

Tati

“Conhecer a Palestina sempre foi um desejo. É impossível não ouvir falar sobre a “última grande causa do século XX” na mídia e, para quem tem um pouco de senso crítico, é igualmente impossível não questionar a qualidade e mesmo a veracidade das informações que nos chegam da região.

Essa falta de fé no modo como não apenas a Palestina, mas todo o Oriente Médio e a população árabe são retratados aumentou em muito minha vontade de visitar o local. Junte-se a isso a empolgação em conhecer um país que sempre ocupou um papel de destaque na história da humanidade e pronto, confesso que não pensei muito em me candidatar a participar de um tour pela região que a grande mídia descreve como uma das mais instáveis e violentas do mundo.

Com relação a minha integridade física, verdade seja dita, eu sabia quem poderia me fazer algum mal por lá e sabia também que, regra geral, meu status de estrangeiro me protegeria. 

Já em relação a meu emocional, acreditei que aguentaria o baque. Além de já ter lido bastante a respeito, achei que ter crescido na periferia de São Paulo teria me calejado para as violências e injustiças a que os palestinos são submetidos. Como eu estava enganado.

Sei que parece clichê dizer que é muito difícil estar preparado para o que se vê por lá, mas, acreditem, é verdade. A Palestina é um país muito pobre e com um alto índice de desemprego, mas, apesar de grande, a miséria não é o que mais choca por lá. Até porque, graças a um senso de comunidade que me impressionou bastante, um familiar empregado sempre acolhe os parentes mais necessitados, razão pela qual praticamente inexistem moradores de rua e pedintes. Assaltos e furtos também são raros.

Enfim, o que eu realmente não estava preparado para ver é o modo como Israel conduz a ocupação. Não tem como não se surpreender com o número de formas que esse governo encontra para oprimir, desabrigar, assassinar e humilhar todo o povo palestino. A começar pelo “muro da vergonha”, que, segundo o senso comum, se localiza na fronteira e existe por razões de segurança. Ele não está na fronteira, ele está no meio de terras palestinas, o que inclusive já derruba a tese de que ele existe por razões de segurança. O muro existe com o propósito de confiscar terras palestinas. Aliás, quantas leis e atitudes não existem com o único propósito de confiscar terras palestinas?

Mas não é só a bens materiais que eles parecem não ter direito. Os palestinos não podem sequer se locomover dentro de seu próprio território. Proibições, bloqueios e checkpoints fazem com que muitas vezes o simples ato de caminhar de uma rua a outra se transforme em um pesadelo.

Isso, claro, para não falar na violência física. Todo palestino com quem você conversar vai ter uma história sobre alguém que foi preso ou assassinado injustamente. Tem ideia de quanto dói ver um familiar ser morto injustamente e saber que nada vai ser feito a respeito?

Quando relatamos esses problemas é comum as pessoas dizerem que eles de fato existem e são terríveis, mas que não devemos confundir o governo com seu povo. Por mais que eu compreenda que nossos sistemas políticos estão longe de serem perfeitos no que diz respeito a representar a vontade popular, é fato que há 50 anos o povo israelense elege governos que oprimem cada vez mais o povo palestino.

E, sinceramente, o que mais choca nem são os políticos eleitos, são algumas atitudes da população mesmo. Em Hebron vi colonos israelenses jogando pedras, cuspindo e urinando em palestinos. Uma criança israelense tentou cuspir em mim e no meu grupo por estarmos em área palestina. Ver esse nível de ódio partindo de uma criança impressiona. 

Claro que existem israelenses que lutam contra essa opressão, mas, infelizmente, eles parecem ser poucos. Definitivamente não o suficiente para amenizar em algo o sofrimento palestino.

Por ser um relato pessoal não vou embasar minhas sensações com fatos, o objetivo aqui é dizer o quanto o contato com aquela realidade tem potencial de transformar o modo como vemos o mundo. Depois da vivência que tive – e nem foram muitos dias – passei a ver as coisas com outros olhos, a valorizar muito mais o que tenho e a rir de problemas que antes pareciam enormes.

Mas a principal sensação que eu trouxe foi a perplexidade em perceber o quanto o mundo parece dar as costas à causa palestina. Não dá para acreditar que um sofrimento tão grande persista por tanto tempo sem que a maioria das pessoas sequer saiba o que acontece por lá.

É assim que eu acho que nós, aqui de longe, podemos contribuir: com informação. Sabemos o quanto é difícil encontrar informações sobre o massacre a que os palestinos são submetidos diariamente, conhecemos o esforço da grande mídia em nos fazer acreditar que se trata de um “conflito” entre duas partes “igualmente poderosas” e precisamos fazer nossa parte para desconstruir esse discurso.

Não acredito que a solução para o problema venha de dentro de Israel se não houver pressão externa. O apartheid na África do Sul só acabou após a comunidade internacional se sensibilizar para o tema e aplicar uma série de boicotes e sanções ao país. Do mesmo modo, não acredito que Israel algum dia vá acordar disposto a abrir mão de todos os benefícios que a colonização da Palestina lhe garante.

Os palestinos estão há décadas fazendo a parte deles, resistindo heroicamente a uma ocupação que se esforça diariamente em desumanizá-los. Nossa parte nessa luta é infinitamente mais simples, precisamos enxergar e divulgar o que acontece, os políticos de nossos países precisam perceber que há uma preocupação com o tema para que o levem a esferas cada vez maiores de poder.

A mudança vem de fora, a mudança vem de baixo e, no que eu puder, estou disposto a fazer minha parte.”

Thiago

 

*Todas as fotos que ilustram esse post foram feitas por Tati, que me deu autorização pra publica-las aqui.

*Os próximos tours político-ativista-vegano-feministas na Palestina acontecerão em março/2018.

*Legendas das fotos, na ordem de aparição:

1-Feira em Hebron. 2- O grupo com meu amigo Marwan, que nos guiou durante a visita de dois vilarejos na região de Belém. 3-O muro construído por Israel dentro dos territórios palestinos, aqui em Belém. 4-Casa no vilarejo Zacharia. É costume se tirar os sapatos antes de entrar nas casas palestinas.  5-Torre de uma mesquita. 6-A placa colocada pelo governo israelense na entrada dos territórios palestinos ocupados, avisando que a lei israelense impede que seus cidadãos entrem ali. 7-Morador de Zacharia, um vilarejo palestino que se encontra cercado por colônias ilegais israelenses. 8-Sudfeh, o primeiro restaurante vegano da Palestina, na Universidade de Abu Dis. 9-Baha, uma amigo querido e nosso guia no distrito de Belém, brincando com a filha de outro amigo palestino. 10-Universidade de Abu Dis. 11-Nablus, no norte da Cisjordânia. 12- O filho de Fatima, que nos guiou em Nablus e organizou um curso de culinária palestina pra nós. 13-Nablus. 14-Jericó, no Vale do Jordão. 15- O padeiro de Nablus que faz os melhores pães com za’atar da cidade. 16- Feira em Hebron. 17-Soldados israelenses que tinham invadido a casa de Zleiha, nossa guia em Hebron, e que ameaçam crianças palestinas que estavam na rua. 18,19,20- Enterro do escritor e ativista por direitos humanos Basel Al Araj, assassinado em casa pelos soldados israelenses. 21- Belém. 22-Cabra que encontramos durante a trilha no deserto de Jericó. 23- Loja de especiarias em Nablus.

O quarto e o quinto tour Papacapim na Palestina aconteceram em fevereiro e março. Mais uma experiência transformadora, pras pessoas que participam do tour e pra mim mesma. As participantes terminam o tour meio sequeladas ou, como disse meu amigo Rogério, “acordadas”! Reviver, de novo e de novo, a montanha russa de emoções provocadas pelas atividades do tour e explicar, de novo e de novo, a injustiça e violações dos direitos humanos cometidas pela ocupação israelense na Palestina é doloroso pra mim. Claro que a dor que sentimos não pode nunca, nem de longe, ser comparada à dor vivida pelo povo palestino, mas não deixa de ser uma vivência difícil pra nós. Planejar esses tours exige meses de trabalho, muitas horas respondendo emails e tirando dúvidas de pessoas interessadas em participar, semanas coordenando as atividades com as pessoas palestinas que nos guiam e participam da programação… No final das contas acompanhar os grupos durante 11 dias é a menor parte do trabalho, mas é a parte que provoca um esgotamento físico e emocional que me obriga a ficar de cama por alguns dias depois de cada tour.

IMG_7647

Apesar disso tudo, esse é o trabalho mais gratificante dentre todos os trabalhos que faço. Poder sensibilizar pessoas sobre uma questão tão importante, poder levar solidariedade às palestinas que lutam incansavelmente por justiça, apoiar a economia local, que está sendo estrangulada pela ocupação, tudo isso não tem preço.  Também considero o trabalho mais importante que realizo no terreno dos direitos humanos, que é uma parte enorme do meu ativismo.

IMG_7499

IMG_8099

A programação muda um pouco a cada ano, dependendo da disponibilidade das pessoas palestinas que me ajudam a realizar esse projeto, da época do ano e dos eventos acontecendo por aqui durante a viagem. Além das atividades que sempre fazem parte do programa, pois são essenciais pra compreender o que acontece aqui, como a visita do campo de refugiados de Aida, onde os grupos ficam hospedados, o tour político da região de Belém (muro, colônias ilegais, estradas, sistema de apartheid), tour de Hebron (colônias e checkpoints dentro da cidade), cidade antiga de Belém e Jerusalém, tem também palestras com organizações de direitos humanos palestinas que oferecem apoio legal a prisioneiros políticos (Addameer) e refugiados (Badil), palestra com a única organização local de direitos animais, que faz um trabalho interseccional e também trabalha com direitos humanos (Palestinian Animal League), visita à Universidade Al Quds e conversa com estudantes e professoras…

IMG_7627

IMG_8076

E tantas outras coisas, tantos encontros com pessoas incríveis que estão resistindo e lutando de maneira tão corajosa. Como meu amigo Marwan, que ajuda agricultores a replantar oliveiras e reconstruir casas demolidas pelo governo israelense. Baha, que organiza tours políticos incríveis pra ativistas. Minha querida amiga Draguista, que coordena um projeto de mulheres bordadeiras no campo de refugiados de Deheisha. Sahar, que luta pela desmilitarização da sociedade israelense. Tali, outra amiga israelense, que promove a campanha BDS. Fatima, diretora do projeto de mulheres Beit Al Karama, em Nablus e Islam, diretora do projeto de mulheres Noor, no campo de refugiados de Aida.

IMG_8234

IMG_8145

IMG_7601

IMG_7659

IMG_7652

Tem também a parte mais turística, pois descobrir as belezas naturais da Palestina é um dos objetivos do tour. Como a trilha de seis horas no deserto de Jericó e visita dessa que é a cidade mais antiga do mundo que nunca deixou de ser habitada, mergulho no mar morto, o monastério de Mar Saba, no deserto da Judeia. Teve também uma tarde no hammam (banho turco), com direito a sauna e massagem, um tour gastronômico em Nablus, aula de culinária tradicional com um projeto de empoderamento de mulheres… E falando em comida, teve a parte comestível do tour.

IMG_7648
IMG_8213
IMG_7553

O lado gastronômico do tour é muito importante por dois motivos. Primeiro porque faz parte da minha missão divulgar as delícias da culínaria tradicional palestina. Uma das ferramentas da limpeza étnica que Israel vem fazendo contra a população palestina desde que foi criado na maior parte da Palestina histórica, em 1948, é apagar ou se apropriar da cultura desse povo. Podemos ver isso claramente com a culinária. Quantas vezes ouvi pessoas dizendo que hummus e falafel são israelenses, quando a verdade é que povos árabes já comiam essas duas preparações muito antes de 1948. Segundo porque é comum pessoas veganas sofrerem com falta de opção de comida vegetal e gostosa quando viajam e eu queria que esse tour fosse exatamente o contrário.

IMG_8205

IMG_8223

IMG_8243

IMG_8187

Não vou mentir, essa viagem é extremamente dura pro emocional da gente. Comida é uma maneira de não só se conectar com a cultura local e voltar a ter aquelas experiências gastronômicas inesquecíveis que tínhamos quando viajávamos na nossa época pré-vegana, mas também serve de reconforto no meio de toda a injustiça que presenciamos. Minha amiga Camila, que participou do tour de março e que adora comida tanto quanto eu, falou que todo dia passava da tristeza à alegria justamente por causa dessa combinação na nossa programação diária. A comida era uma tentativa de curar um pouco a dor que nossa alma sentia.

IMG_8216

IMG_8111

IMG_7731

IMG_7746

Pra quem mandou email perguntando quando serão as próximas viagens gostaria de explicar que esse tour é um projeto especial que faço somente quando condições favoráveis se reúnem. Nunca sei quando será o próximo, nem mesmo se haverá mais algum tour no futuro. Uma coisa é certa, esses foram os únicos tours de 2017. Nessa minha vida de nômade só consigo planejar um ano por vez e 2018 ainda é um mistério pra mim. Mas se acontecer mais algum tour ano que vem, será provavelmente no segundo semestre. Quem quiser colocar seu nome na lista de pessoas interessadas, e ser avisada de primeira mão, antes do anúncio do tour aparecer aqui no blog, basta enviar um email pra papacapimveg@gmail.com. Mas não prometo nada.

IMG_8232

IMG_7789

IMG_8079

Termino agradecendo a participação de cada pessoa que me deu a honra de sua presença no tour. Obrigada por terem se interessado pela Palestina, por terem vindo até aqui mostrar a solidariedade de vocês e por terem confiado em mim e acreditado no meu trabalho. E aqui vai a missão pós-tour que dou a todas as participantes: compartilhem o que viram e viveram aqui com o máximo de pessoas possível, sejam ativistas por justiça na Palestina da maneira que melhor couber no estilo de vida que levam e sejam a voz das palestinas que vocês encontraram aqui, presas na máquina cruel e injusta da ocupação militar israelense, na comunidade de vocês.

Janeiro ainda não acabou e eu já dormi em dez camas diferentes esse mês. Dez! Mas é com muita felicidade que digo que essa décima cama será minha por três meses inteirinhos. Sei que parece pouco, mas quando você anda arrastando sua mala há mais de dois anos, três meses são suficientes pra te deixar feliz e sentindo que tem uma casa.

Cheguei na Palestina antes de ontem e depois de ter passado uma noite com a minha melhor amiga em Tel Aviv, cheguei ontem no meu lar de adoção: Belém. Anne chegou uns dias antes e teve a sorte de achar uma casa pra alugar rapidinho. Voltamos a morar na Rua da Estrela, onde moramos durante cinco anos. Essa é a rua mais antiga da cidade, o caminho que (supostamente) os três reis magos pegaram pra chegar no estábulo onde estava o menino Jesus. No final da minha rua fica a Igreja da Natividade, construída (supostamente) onde um dia esteve o estábulo. Tudo supostamente, não porque eu não acredite na história (não vou dizer que sim nem que não), mas porque esses lugares foram “descobertos” séculos depois da passagem de Jesus por esse planeta e desconfio (e não desconfio sozinha) que não tinha sobrado muitos vestígios do estábulo pra contar a história. E quem viu os reis magos passarem, hein? Quatrocentos anos depois ainda tinha alguém daquela turma vivo? Mas eu gosto de histórias e, no final das contas, que diferença faz se o estábulo estava aqui ou ali, se os reis magos passaram por aqui ou por lá, não é? A minha rua é linda e é nela, mais do que qualquer lugar no mundo, que me sinto em casa.

Mas não vim aqui só falar da minha rua e dos meus problemas de cama (ou falta dela, na verdade). Voltei pra Palestina pra guiar novamente dois grupos de pessoas brasileiras num tour político-ativista-vegano-feminista de onze dias pela Terra Santa. O primeiro tour será no início de fevereiro e o segundo, em março. Os dois estavam completos, mas a vida gosta de pregar peças na gente e às vezes nos programamos pra fazer uma coisa e ela te avisa, de repente, que tem outros planos pra você. Acontece. E como isso aconteceu com uma das participantes do grupo de março, ela teve que cancelar a viagem. Por isso abriu uma vaga nesse grupo. O grupo está novamente completo! O tour será do 8 ao 18/03 e sei que está super em cima da hora pra programar uma viagem desse tipo, tão importante, tão longe, que muda a gente de maneira tão profunda, em um mês e meio. Mas eu já fiz esse tipo de loucura algumas vezes, então pensei que podia ter alguém aqui como eu. Caso você se interesse pela vaga e possa embarcar nessa aventura, é só me enviar um email (papacapimveg@gmail.com). Só mando informações sobre o tour por email, então peço que me envie suas perguntas por lá e não aqui nos comentários.

Mas quem quiser se informar mais sobre essa viagem incrível, mesmo quem não puder participar do tour, e ver muitas fotos e relatos sobre a Palestina é só clicar na página “Tour na Palestina”.

E já falei que comemos muito bem durante o tour? Essa é a parte “vegana” da viagem e uma das minhas maiores alegrias é fazer as pessoas que participam do tour descobrirem as delícias (naturalmente veganas) da Palestina. Quando me perguntam: “É muito difícil ser vegana na Palestina?” eu sempre respondo que a Palestina é o lugar mais fácil de ser vegana que conheço. Mas só vindo aqui pra descobrir e degustar isso. Então corre que ainda dá tempo de encher a cara de hummus com a gente.