“A gente começa a envelhecer quando para de aprender. E eu ainda tenho vontade de aprender.” Vérène me disse isso quando já tinha cruzado a linha dos 90 anos.
Conheci essa senhora francesa quando estava na faculdade. Eu, que vim estudar na França sem bolsa e sem nenhum apoio financeiro da família, tive que trabalhar durante todo o curso pra me manter aqui. E além de ser babá, minha atividade profissional principal naqueles anos, também trabalhei como cuidadora do marido de Vérène, Charlie, que tinha Alzheimer. Foi assim que nossos caminhos se cruzaram, no início dos anos 2000.
Ela, com uma idade já avançada, cuidava sozinha do marido doente. Uma de suas netas teve a ideia de procurar uma pessoa pra cuidar dele uma vez por semana, pra que a avó pudesse descansar, almoçar com as amigas e ir ao cinema. Cuidei do marido de Vérène até o momento em que deixei a França pra ir morar na Palestina, em 2008. Mas o vínculo criado entre nós era forte e nossa amizade permaneceu, apesar da distância.
Quando cheguei na Palestina passei a enviar emails pra ela contando o que eu ia aprendendo sobre aquela terra. Muito tempo depois descobri que ela imprimia esses emails e lia pra todos os membros da família que iam visitá-la. Porque a história de Vérène com a Palestina é antiga.
Durante a segunda guerra mundial a família dela escondeu uma família judia em casa. Toda a família de Vérène participou da resistência contra a ocupação nazista, seja escondendo e ajudando pessoas judias a escapar da perseguição, seja pegando em armas e enfrentando os ocupantes nazistas, o que fez com que alguns parentes dela fosses presos e enviados aos campos de concentração. A família que Vérène ajudou a esconder conseguiu fugir e foi morar na Palestina (na época Israel ainda não tinha sido criado no território da Palestina histórica). Uma das filhas dessa família se chamava Esther e como ela tinha a mesma idade que Vérène, as duas se tornaram próximas e mantiveram o contato por cartas. Até que em 1967 Vérène foi visitar Esther no território palestino rebatizado de “Israel”. Ela esteve lá poucos meses antes da Guerra de Seis dias, quando o exército sionista passou a ocupar a totalidade da Palestina histórica e a controlar todo o povo palestino. Mas não foi essa a história que ela escutou. Durante anos ela só teve acesso à versão sionista da colonização (“Uma terra sem povo, para um povo sem terra”). Vérène me explicou que foi somente no início dos anos 80, quando ela começou a dar aulas de Francês de maneira voluntária pra mulheres imigrantes árabes, que ela descobriu a versão do povo colonizado. Suas alunas se tornaram amigas e junto com a amizade veio a vontade de saber mais sobre a cultura delas. Vérène até aprendeu Árabe! Ela diz se sentir envergonhada por ter se posicionado a favor da colonização sionista da Palestina no passado, mas hoje ela faz parte do movimento de solidariedade ao povo palestino.
Durante os anos que morei na Palestina e em outros países da Europa, sempre que eu passava por Paris dava um jeito de visitá-la. Às vezes eu ia até a casa dela, numa cidade na periferia sul de Paris. Às vezes, quando meu tempo era curto, era ela quem pegava o trem e me encontrava na capital, geralmente em um restaurante vegano que ela me pedia pra escolher e fazia questão de pagar. Vérène me conheceu antes do veganismo e acolheu essa mudança sem julgamento e com tranquilidade. Quando comíamos em restaurantes veganos, ela se empolgava pra descobrir novos sabores e sempre elogiava tudo. Se comíamos na casa dela, ela preparava algo vegetal que já fazia parte do repertório tradicional de receitas dela, sem nunca reclamar que era “complicado” cozinhar pra mim. Muito pelo contrário! O menu era sempre o mesmo e se tornou uma tradição entre nós: pimentão vermelho grelhado e verduras cruas de entrada, salada de lentilhas com nozes como prato principal e frutas de sobremesa.
Vérène repetia que se não fosse pelo marido doente, ela iria comigo pra Palestina pra ver com seus próprios olhos o lado da História que ela ignorou por tanto tempo. Então quando nos encontramos alguns meses depois do marido dela ter deixado esse mundo, falei: “É agora!”. No ano seguinte ela voltou a pisar naquele território, cinquenta anos depois, só que dessa vez pra encontrar o povo palestino. Apesar de já estar com 88 anos, ela recusou o hotel e ficou hospedada com uma família palestina, no campo de refugiados de Aida, em Belém, onde eu trabalhava. Encontramos militantes palestinas e fizemos todas as visitas políticas e de solidariedade que eu fazia com os grupos dos meus tours políticos. Apenas adaptei o ritmo das visitas pra ela conseguir acompanhar. Só que durante a nossa passagem por Hebron, o exército israelense invadiu a cidade e tivemos que correr pra buscar abrigo das bombas de gás lacrimogêneo que os soldados israelenses jogavam na população palestina. Visualise a cena: uma senhora octogenária atravessando correndo, tão rápido quanto as pernas permitiam, uma nuvem de gás lacrimogêneo, no meio de uma multidão desesperada. Vérène se manteve calma e quando chegamos em um lugar seguro seu único comentário foi sobre a indecência da ocupação israelense.
Faz 3 anos que voltei a morar na França e hoje posso visitar Vérène regularmente. Como ela não tem mais a mesma energia de antes, passei a me oferecer pra cozinhar pra nós. Ela adora, porque acha a minha comida deliciosa. Depois do almoço ela faz café e me oferece chocolate. Nesses momentos conversamos sobre a vida, política, minhas atividades militantes… E sobre a Palestina, sempre. Pergunto o que ela andou lendo ultimamente e trocamos recomendações de livros. Na última vez em que estive na casa dela voltei com o livro “As impacientes”, da escritora feminista camaronesa Djaïli Amadou Amal. Ela tinha acabado de ler esse livro e como gostou muito, queria compartilhar comigo. Olhei a estante do lado da cama dela e reparei que o número de livros sobre feminismo e romances escritos por feministas africanas só aumenta.
Conforme vão envelhecendo, muitas pessoas se tornam reacionárias. Vérène não só se manteve de mente aberta, como nunca perdeu o interesse em vivências diferentes da sua, em escutar vozes que estão nas margens. Lembro que durante o debate aqui na França sobre autorizar ou não a adoção de crianças por casais homossexuais, sua resposta bem-humorada pra homofobia geral era dizer que “Jesus tinha dois pais e se tornou uma pessoa ótima!”
Esposa de pastor protestante e mãe de cinco filhos, ela dedicou toda a sua vida a ajudar o próximo, principalmente o próximo “distante” (as pessoas imigrantes e racializadas), de maneiras muito concretas. Esses eram os ensinamentos de Cristo, na opinião dela. Porém depois de mais de oito décadas de fé cristã ela decidiu abandonar a religião. E a vontade de deixar a igreja começou a brotar do incômodo que, na minha opinião, foi plantado pelas suas leituras feministas. Outro dia ela me explicou o que achava dessa história de Maria ter engravidado virgem: “Engravidar sem ter conhecido o prazer de uma relação sexual? Que tristeza!” Vérène não quer mais acreditar em histórias tristes. Do alto dos seus 94 anos, ela só acredita no amor.
“Quem é Jesus pra você hoje?”, perguntei há uns tempos.
“Jesus, pra mim, é alguém que te ajuda a manter os olhos abertos e a amar. Porque, como dizia Charlie quando ele via pessoas ruins, tem umas pessoas que são muito difíceis de amar.”
“Você acha que essa é a nossa missão, amar?”
“Tenho certeza.”
“E você consegue?”
“Eu tento. Quando acordo de manhã eu penso: quem eu vou amar hoje? Amar é absolutamente necessário. O amor estrutura uma vida.”
Vérène mora sozinha e é extremamente lúcida. Mas apesar de ainda ter uma vida ativa (ela escreve regularmente pra pessoas em situação de privação de liberdade, organiza uma oficina de escritura semanal no abrigo de pessoas idosas da sua cidade, é voluntária da “Cruz Azul”, uma associação que acompanha pessoas dependentes de álcool), ela diz que gostaria de já ter ido embora desse mundo. Inclusive milita em um coletivo que se chama “Morrer com dignidade”, que luta pelo direito à eutanásia. Ela repete sempre, com um sorriso sereno no rosto, que teve uma vida cheia de alegria e felicidade e que está pronta pra morrer. Por mais que eu a ame e vá sentir sua falta, entendo o cansaço dela, um cansaço de quem viveu quase um século, e sei que sentirei alegria quando ela se for.
Mês passado tomamos o café depois do almoço na varanda do apartamento dela, que tem vista pra um pequeno jardim. Como era primavera, os passarinhos cantavam alto e as flores das jardineiras que decoram a varanda estavam todas abertas. Conversamos durante horas, uma do lado da outra, admirando a vista.
“Vérène, quando você for embora desse mundo, do que você vai sentir mais falta?”
“De tanta coisa…”, ela respondeu.
“Mas você acha que tem algo depois da morte?”
“Não tenho ideia, mas aceito plenamente o mistério”, ela disse rindo.
“Eu também. Então como não sabemos o que nos aguarda, não vou mais perguntar do que você vai sentir falta, mas sim o que você gostaria que tivesse do outro lado. O que você gostaria de encontrar lá, Vérène?”
“As pessoas que já se foram. Você quer encontrar o quê?”
“Flores”, eu disse.
“Morangos e cerejas”, ela continuou.
“O mar.”
“As montanhas.”
“Café.”
“Chocolate.”
“Você.”
(Depois de um pequeno silêncio, ela virou pro meu lado e disse:)
“E você.”

(Texto publicado originalmente na newsletter que eu enviei pras apoiadoras do meu trabalho entre 2022 e 2025.)














































































































































