Sempre me surpreendeu ver a distância que separa o que as pessoas acham que é “militar” e o cotidiano de militantes engajadas. Não estou falando de militância performática das redes sociais. E também não estou falando da militância de atos espetaculares, que brilha pra quem está de fora. Na maior parte do tempo, as tarefas da militância não são o que as pessoas que não militam imaginam. E pra além de “tarefas”, uma parte necessária da militância pode parecer invisível até pras próprias militantes, porque está imbricada no nosso dia-a-dia. Se você me perguntar como vejo a militância hoje, eu direi que é o fio que costura os gestos que formam o cotidiano, não algo que acontece fora dele. Exatamente por essa razão sempre digo pra mim mesma que gostaria de ter um diário, pra ver com mais nitidez esse fio me ligando ao mundo e às pessoas.
Em 2023, quando estava morando na França pela segunda vez (dessa vez, na periferia de Paris), eu passei um tempo rabiscando partes dos meus dias num caderno. Alguns trechos se juntaram pra formar uma das newsletters que enviei pras pessoas que apoiam o meu trabalho aqui no blog, que chamei de “Das pequenas e grandes coisas necessárias pra mudar o mundo”. Acabo de reler esse material pela primeira vez e fui invadida por uma onda de ternura. Eu tinha esquecido como era o meu cotidiano naquele ano, tinha esquecido daqueles momentos… Engraçado que na minha memória tinha ficado apenas a impressão de ter sido uma época difícil. Reler esses fragmentos de diário três anos depois me vez ver outra coisa. Que vida rica de significado! Segue o texto, fragmentos dos meus dias no início de 2023.

Hoje de manhã G e E (camaradas do coletivo) vieram aqui pra casa. Em janeiro criamos um grupo de apoio entre nós 3, porque somos filhas de uma pessoa com doença degenerativa: minha mãe tem Alzheimer, a mãe de E e o pai de G têm Parkinson. Nos encontramos uma vez por mês, ao redor de um café, e abrimos nosso coração. Também compartilhamos material (livros, podcasts, filmes) relacionado ao tema e que nos trouxeram algum alívio. Às vezes a gente ri muito. Às vezes a gente reclama das pessoas, da vida, do sexismo (em sua maioria esmagadora, os maridos abandonam as esposas doentes, enquanto as esposas cuidam dos maridos doentes, e nossas experiências pessoais confirmam isso). Às vezes a gente chora. E sempre, sempre, a gente se escuta.
Tarde: encontro com Anne. Apesar de morarmos juntas, a gente tem um dia na semana reservado pra nós. Hoje almoçamos em um café em Paris e depois vimos uma exposição de fotos. Depois voltamos pra casa e eu fiz um jantar especial, à luz de velas, como fazemos sempre no nosso dia juntas.
——
Depois do almoço nos encontramos pra estudar um texto feminista, Anne, G e H (que também faz parte do coletivo). Há tempos começamos uma reflexão sobre nosso desejo de criar uma comunidade de mulheres militantes pra que possamos envelhecer juntas e se apoiando mutuamente. O texto era sobre comunidades de lésbicas separatistas nos EUA nos anos 70 e abriu uma grande discussão. Queremos envelhecer na cidade? Como criar pontes entre comunidades militantes rurais e as lutas nas cidades? Quem vai cuidar da gente quando não pudermos mais cuidar de nós mesmas? Autorizamos a presença de homens na nossa futura comunidade de idosas militantes? (Em solidariedade às camaradas hetero, decidimos que elas poderão receber visitas de homens sempre que quiserem, mas que eles ficarão em um espaço restrito e, importante, não usarão nossos banheiros!) Obviamente se tratava de um exercício de imaginação, não de um plano de ação. Mas imaginar é uma parte essencial na luta pra mudar o mundo.
——
Passei o dia escrevendo no blog, respondendo emails e fazendo outras coisas no computador. No final da tarde Anne viajou pra Itália, pra mostrar o filme dela num festival de filmes palestinos. À noite J, minha namorada, veio aqui pra casa. Dormimos juntas pelo menos um dia por semana, na minha casa ou na ocupação onde ela mora. Cozinhei pra ela.
——
No final da tarde eu tinha um encontro com uma amiga, que também milita com a gente. Desde que voltei do Brasil nós estamos tentando nos encontrar pra colocar a conversa em dia. Fiz chá e comemos a sobremesa que eu preparei ontem. Nutrimos um paixão platônica uma pela outra e é gostoso saber que nem todo sentimento romântico precisa existir dentro de uma relação romântica.
À noite uma amiga baiana, e camarada da UVA, me convidou pra fazer uma palestra (online) sobre veganismo popular pro grupo espírita do qual ela faz parte. Minha militância antiespecista se manifesta das mais variadas formas. A conversa foi muito interessante, mas terminei exausta. Por causa da diferença no fuso horário começamos às 22h e terminamos depois das 23h aqui na França. Fui dormir temendo o cansaço no dia seguinte, que seria de trabalho na mercearia.
——
Sextas e sábados são os dias que trabalho na mercearia. Trabalho das 9h às 20h30, o que significa que saio de casa às 8h e chego depois às 21h30. Nesses dias me sinto completamente despossuída do meu tempo. Cada minuto é contado e ocupado pelo trabalho. Acordo cedo, me arrumo, pego o metrô (lotado), trabalho (em pé) durante 10 horas seguidas, almoço minha marmita nos fundos da mercearia, pego o metrô (lotado) no final do dia e, ao chegar em casa, só tenho tempo e forças pra tomar banho, comer, preparar a marmita do dia seguinte e desmaiar na cama.
——
Depois de dois dias de trabalho na mercearia eu acordo toda doída. Parece que corri uma maratona: minhas costas doem (carrego muita caixa de mercadoria) e meus pés latejam. Então no domingo eu retomo a possessão do meu tempo e vivo no meu ritmo. Acordei com calma e sem despertador. Tomei um café gostoso e tranquilo, admirando os passarinhos no jardim. Arrumei a casa, lavei roupa, cuidei das plantas. Anne chegou no final da tarde. Tomamos chá com biscoitos enquanto ela me contava sobre a viagem. Fiz um jantar especial pra comemorar o fato do filme dela ter ganhado o prêmio de melhor documentário no Festival de Filme Palestino de Sardenha.
——
Passei o dia escrevendo a newsletter que envio pras pessoas que apoiam o meu trabalho. Fiz uma sessão de remo (tenho uma máquina de remar no quintal), pra amolecer as juntas que endurecem quando passo muito tempo sentada. E fiz um bolo de jerimum pra levar pra reunião da noite.
Fui de bicicleta, como sempre, pra reunião semanal do nosso coletivo anarquista, que acontece na ocupação onde mora a minha namorada (e outras pessoas do coletivo). Era uma reunião importante e quando temos reuniões importantes, jantamos juntas. Compartilhar comida fortalece os laços entre camaradas e discutir sobre questões políticas difíceis de bucho cheio é sempre mais agradável, além de aumentar nossa paciência com as divergências internas. A sopa, preparada pelas camaradas que moram na ocupação, estava mais ou menos (os vegetais são de descarte e às vezes o sabor deixa a desejar). Mas meu bolo de jerimum fez sucesso.
——
Depois de uma manhã de trabalho no computador e na cozinha, preparando uma receita pro blog, fui pro hammam (também conhecido como “banho turco”) com Anne. É uma atividade tradicional entre os povos árabes e como a maior parte da população na nossa cidade é árabe, tem alguns aqui perto. Esses banhos são lugares de socialização e relaxamento, com horários só pras mulheres e só pros homens. Estar entre mulheres, numa atmosfera relaxante e de cuidado, me faz um bem enorme. E o calor da sauna sempre alivia minhas dores nas costas.
——
Anne saiu antes das 5h pra cobrir a resistência dos garis, que estão em greve há semanas, em protesto contra o projeto de reforma da previdência. Ela voltou por volta das 8h e me acordou pra dizer que J tinha sido espancada pela polícia, junto com mais duas camaradas do coletivo, no piquete de greve. A mais jovem tem 18 anos e foi pra escola depois, apesar de estar levemente ferida. Um dos camaradas foi levado pela polícia, mas foi liberado pouco depois, evitando a detenção. Geralmente deixamos o celular em casa quando participamos de ações desse tipo (pra não ser confiscado pela polícia, o que colocaria todo o coletivo em risco), então enviei mensagens pro pessoal da ocupação onde J mora pra saber se ela já tinha voltado. Foram duas horas de angústia. Ela teria sido detida pela polícia no caminho de casa, o que aconteceu algumas vezes com camaradas essa semana? Estaria ferida demais pra pedalar e estava voltando pra casa a pé, o que explicaria a demora? Quando finalmente ela deu notícias, contou que tinha ido ajudar companheiros em outro piquete de greve, apesar de estar com a perna e o pé cobertos de hematomas. O alívio de saber que ela estava em segurança foi maior do que a vontade de criticar suas tendências de mártir da militância.
Esquentei restos pro almoço e logo depois Anne saiu pra comprar composto com Dolorès, a amiga-jardineira e militante na luta de defesa dos Jardins Operários. Seria um trabalho braçal exaustivo, já que é um lugar onde você pega a pá e enche vocé mesma seus sacos de composto. Anne estava com dor nas costas, mas como no momento minha dor nas costas é maior que a dela e que Dolores precisava de ajuda, ela foi mesmo assim.
Enquanto Anne enchia sacos e mais sacos de composto, fiquei em casa preparando comida pros próximos dias. Também fiz bolas de aveia e pasta de amêndoas. Anne gosta de comer essas bolas de aveia durante os protestos e ações militantes e as chama de “bolas de poder”. Diz ela que dá forças pra correr da polícia.
Enquanto cozinhava pra semana, aproveitei pra cuidar das mudas (todos os vegetais que irão ser plantados na nossa horta), que estão crescendo na varanda. Aguei os brotinhos escutando a banda palestina 47Soul: “Are you doing the right thing, rising up?” (“Você está fazendo o que é certo, se erguendo?”) Lembrei de uma amiga que há meses atravessa uma crise de depressão séria e enviei um vídeo dos brotinhos, se erguendo em busca da luz, pra alegrá-la.
No final da tarde Anne voltou e ajudei a descarregar os sacos de composto. Depois ela foi ajudar Dolores a descarregar os sacos dela nos Jardins Operários e eu fui pra ocupação encontrar J. Os ferimentos dela são menos graves do que eu tinha imaginado, mas percebi que ela estava se esforçando pra não mancar na minha frente. Conversamos sobre a grande ação que aconteceu no fim de semana, no interior da França, contra um projeto de barragem que é um desastre ecológico, da qual ela participou. Levei hummus que fiz ontem pra ela e lanchamos enquanto ela me contava sobre a terrível repressão policial do fim de semana de luta, que deixou 200 militantes feridas e dois no hospital, entre a vida e a morte. Depois esquentamos o curry de legumes e lentilha coral que ela tinha feito pro almoço. Dormimos juntas na ocupação. Eu tive muita insônia e no pouco tempo que consegui dormir, tive pesadelos horríveis (sequestro, violência policial).
——
Acordei antes de J, mas permaneci quietinha na cama pra deixar ela descansar mais um pouco. Troquei mensagens com Anne, que estava, novamente, no piquete de greve dos garis desde às 5h da manhã, pra me assegurar que ela estava bem. Quando J acordou, pedi pra dar uma olhada nos hematomas dela. Estavam, como era de se esperar, ainda maiores e mais coloridos. Decidi passar o dia ali, cuidando dela.
À tarde tinha protesto contra a reforma da previdência e, tirando nós duas, todo o pessoal do coletivo foi. Fizemos o almoço juntas e eu preparei um prato que ela adora. Almoçamos com V, um rapaz russo, requerente de asilo aqui na França por ser homossexual, que se mudou pra ocupação há um mês. Depois do almoço testamos uma receita de biscoito de coco do livro de confeitaria vegetal que dei de presente pra ela. Fizemos bastante pra compartilhar com as camaradas na volta do protesto. Seria um pequeno reconforto depois de todo o gás lacrimogêneo. Passei a tarde de olho no celular, caso Anne, que também tinha ido pra manifestação, fosse detida e precisasse da minha ajuda (eu sou o contato de emergência dela).
Saí da ocupa no início da noite e cheguei em casa quase ao mesmo tempo que Anne. O estado de cansaço dela era imenso e a dor nas costas tinha piorado muito. Depois do trabalho com a pá e o composto, de dois dias seguidos nos piquetes de greve às 5h da manhã, no frio, com uma manifestação no final, sempre carregando o pesado equipamento de fotografia dela, ela mal conseguia se mexer. Dessa vez a dor nas costas dela era maior que a minha. Ela tomou banho e se deitou enquanto eu preparava o jantar. Fiz macarrão, o prato preferido dela. Depois do jantar fiz uma massagem com óleo de arnica nas costas dela e preparei uma bolsa de água quente pra esquentar nossos pés sob o cobertor.
Espero dormir melhor hoje, pois amanhã tem muito trabalho na horta coletiva.






















































































































































