Se já não for tarde demais esse ano…

Há exatos cinco anos publiquei a receita de canjica (que algumas partes do Brasil chamam de “curau”) que aprendi com uma prima, a maior canjiqueira da família. Eu acharia uma heresia fazer bagunça com esse prato sagrado da nossa cultura alimentar, então aquela receita é tudo que preciso pro resto da vida. Porém tinha um aspecto da fabricação da canjica que acabava sendo um obstáculo entre essa iguaria e a minha boca: o longo tempo de preparo.

Canjica é uma comida desenvolvida em uma época em que a cozinha era espaço de rituais coletivos e passar horas mexendo um caldeirão era visto como uma etapa totalmente aceitável no caminho que levava a um bom prato. Torço pra que fazer canjica continue sendo um ritual coletivo (um monte de gente se reunindo na cozinha em junho, caldeirões fumegantes e muitos braços se revezando pra mexer seu conteúdo, sentar pra compartilhar os frutos desse esforço coletivos e depois levar um pratinho de canjica pra uma vizinha, pra uma parente…) e meu desejo é que as pessoas voltem a ter tempo pra cozinhar e partilhar alimentos. Mas se você mora sozinha, ou tem uma família pequena, ou tem pouco tempo pra cozinhar e nenhuma oportunidade de preparar comida com mais pessoas, eu gostaria de te oferecer a receita de hoje.

Um dia, uma ideia atravessou meus pensamentos: canjica na panela de pressão! Esse utensílio de cozinha tão humilde e tão comum reduz muito o tempo de cozimento dos alimentos, então será que funcionaria pra reduzir o tempo de preparo da canjica? Testei minha teoria, deu muito certo e logo em seguida perguntei pra internet, que não esconde nada de ninguém, se “canjica na panela de pressão” era algo que outras pessoas já tinham testado. Óbvio que essa ideia luminosa brotou em outras mentes antes de aparecer pra mim mas talvez seja novidade pra você, então pensei que valia a pena compartilhar.

O São João passou e levou com ele as melhores espigas de milho mas percebi que hoje em dia a época do milho é praticamente o ano todo. Ontem, mesmo, comprei milho fresco na feira do meu bairro e espero que você consiga encontrar umas espigas bonitas no seu território. Se não for o caso e já for tarde demais pra fazer receitas com milho na sua região, não deixe de salvar essa receita num cantinho da cabeça pra testar no ano que vem.

Canjica na pressão

A receita não tem medidas mas seguindo as instruções, vai dar certo. Na primeira receita que postei aqui não usei manteiga. Só que encontrei uma receita muito antiga de canjica, no livro História da Alimentação no Brasil, do meu conterrâneo Câmara Cascudo, e vi que, apesar de originalmente a canjica ser feita (somente) com leite de coco na minha região, como defendi naquele post, um pouco de manteiga entrava na fabricação do prato. Resolvi testar e gostei muito do resultado, então recomendo que você use uma manteiga vegetal suave (uso a da marca amazonense Tayná, feita com gordura de dendê). Só uso leite de coco caseiro, pois acho infinitamente superior à versão industrializada e nessa receita, faz toda a diferença.

Milho fresco (maduro, bom pra fazer canjica)

Leite de coco caseiro (receita aqui)

Açúcar

Canela

Manteiga vegetal (opcional mas bom)

Sal

Com uma faca afiada, corte o milho das espigas. Coloque o milho cru no liquidificador e junte leite de coco suficiente pra cobrir os caroços (você vai precisar de aproximadamente a mesma quantidade de leite de coco pra usar depois então deixe essa parte reservada, em temperatura ambiente). Bata bem e coe a mistura em uma peneira.

Despeje o líquido coado na panela de pressão e junte açúcar a gosto (comece com uma quantidade pequena, é possível acrescentar mais depois, se necessário). Pra não deixar você completemente sem parâmetro aqui, imagine que está adoçando um mingau, não fazendo um doce. Acrescente uma colher de chá de manteiga vegetal (ou colher de sopa, dependendo da quantidade de milho utilizada) e uma pitada generosa de sal.

Ligue o fogo e cozinhe mexendo com uma colher de pau ou espátula de silicione até a mistura engrossar ligeiramente. Faço isso antes de fechar a panela de pressão porque enquanto a mistura crua estiver fria o amido (natural) do milho desce pro fundo da panela se não for mexido constantemente (e não dá pra mexer o conteúdo de uma panela de pressão fechada) e pode emboloar. Felizmente essa etapa dura apenas alguns minutos: assim que o liquido aquece o amido já encorpa e não separa mais.

Tampe a panela de pressão e deixe cozinhar, em fogo médio-alto, até começar a chiar. Baixe o fogo e conte de 10 a 15 minutos de cozimento à partir desse ponto, dependendo da quantidade de canjica que você estiver preparando. Depois desse tempo desligue o fogo e deixe a pressão escapar naturalmente.

Abra a panela, prove pra ver se precisa de mais açúcar (tem que acrescentar mais enquanto a canjica ainda está bem quente, pra dissolver) e junte leite de coco caseiro suficiente pra que a canjica se fluidifique (lembre que ela vai engrossa muito depois que esfriar). Tem que ficar com a consistência de um creme meio líquido. As fotos acima foram feitas logo depois de liberar a pressão, antes de acrescentar o leite de coco, por isso está super encorpada (e, sinceramente, com cara de queijo derretido 0_0).

Agora tem duas maneiras de continuar a receita. Você pode transferir a canjica pra um recipiente de vidro (ou vários pratos, pra esfriar mais rápido), tomando o cuidado de não raspar o fundo da panela e depois comer as raspas sozinha (muitas dirão que é a melhor parte da canjica) enquanto espera a canjica esfriar. Ou você pode raspar o fundo da panela e misturar à canjica, antes de transferir pra um recipiente de vidro (canjica recheada com raspas de canjica!). Nos dois casos, cubra a canjica com canela em pó.

Deguste morna ou em temperatura ambiente. Se sobrou canjica, pode guardar na geladeira e consumir no dia seguinte mas acho que ela perde um pouco do sabor. Lembre que canjica é um prato que deve ser partilhado, então chame as amigas, as parentas e as vizinhas pra comer com você.

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