O silêncio das pantufas

Em 2023 eu estava morando (mais uma vez) na França e constatando, metade triste, metade revoltada, o aumento da xenofobia e das políticas anti-imigrantes. Naquela época presenciei um acontecimento que me mexeu muito e senti necessidade de escrever sobre ele. Meu relato foi enviado como newsletter pras apoiadoras do blog em março daquele ano e, continuando meus planos de trazer algumas dessas newsletters aqui pro blog, vim compartilhar esse texto hoje.

“Eu estava no trem, voltando pra casa depois de uma palestra em Nantes, quando presenciei o ocorrido. 

Em uma das paradas um passageiro subiu e sentou duas poltronas atrás da minha. Eu não teria percebido a presença dele se não fosse pelo que aconteceu em seguida. 

O fiscal do trem pediu pra ver a passagem dele. Depois de alguns segundos de silêncio o fiscal, percebendo que o passageiro era estrangeiro, repetiu o pedido em Inglês. Como o passageiro parecia não ter passagem, o fiscal disse que ele teria que comprar uma ali, com ele, mas o passageiro seguia em silêncio. Foi então que o fiscal pediu pra ver os documentos dele e escutei pela primeira vez a voz do passageiro, mas tudo que ele disse foi “no”. Não dava pra saber se o “não” significava que ele não queria mostrar seus documentos ou se ele não tinha documentos. Naquele momento eu, que já estava de orelha em pé desde o início da conversa, agucei a audição pra acompanhar o desenrolar dos eventos. O passageiro era, claramente, um refugiado afegão e eu estava com medo do que aconteceria com ele.

O fiscal se mantinha educado, mas depois de alguns minutos tentando fazer o rapaz afegão mostrar seu passaporte, a conversa tinha se tornado “ou você mostra seu passaporte, ou vou alertar a polícia imediatamente e você será entregue às autoridades na próxima parada do trem”.

Ao ouvir a palavra “polícia” meu coração disparou. Além de ser detido, o rapaz, por não ter documentos nem visto, correria o risco de receber uma ordem judicial pra sair do território francês. Se não obedecesse, isso poderia terminar em prisão, seguido de deportação. Eu precisava intervir, mas e se eu piorasse o caso do rapaz, chamando mais atenção pra situação dele? E se os fiscais me dissessem que eu não tinha nada que me meter ali? As outras passageiras e passageiros olhavam pela janela, sem prestar a mínima atenção no que estava acontecendo. Ou sem se importar. 

Enquanto eu me debatia com esses pensamentos, o fiscal chamou um segundo fiscal e deu ordem ao rapaz afegão de segui-los. Entraram no corredor, o espaço que separa dois vagões, e eu podia ver a discussão entre os fiscais e o rapaz atrás das portas de vidro, sem ouvir uma palavra do que era dito. Meu coração batia cada vez mais forte. Eu tinha que fazer alguma coisa. Se eu estivesse no Brasil não teria hesitado um segundo, mas o fato de também ser uma estrangeira nessa terra faz com que o medo de não ser legítima me acompanhe sempre. E me faz hesitar nesse tipo de situação.

Cinco minutos depois os fiscais escoltaram o rapaz de volta ao seu assento e como eu estava virada pra trás, acompanhando tudo, pela primeira vez nossos olhos se cruzaram. Tentei esboçar um sorriso e ele pareceu surpreso e confuso com a minha tentativa tímida de empatia. Os dois fiscais se juntaram ao grupo de fiscais, seis ao todo, sentados algumas fileiras na minha frente. Será que eles já tinham chamado a polícia? Será que ainda daria tempo de fazer alguma coisa pra ajudar o rapaz afegão?

Agora eu tinha olhado nos olhos dele e sabia que a partir daquele momento sempre que o rosto daquele rapaz aparecesse na minha memória ele seria acompanhado de uma imensa vergonha. Vergonha de não ter feito o certo. Eu tinha dinheiro na carteira e, além da possibilidade de escutar uma resposta grosseira do fiscal, eu não corria risco nenhum. Eu poderia viver com a vergonha de ser destratada e humilhada por fiscais dos caminhos de ferro franceses na frente de um vagão cheio de pessoas francesas bem vestidas. Mas viver com a vergonha de não ter sido solidária com uma pessoa que precisava da minha ajuda seria muito mais doloroso. Tirei a carteira da bolsa, respirei fundo pra conter a emoção e levantei.

-Eu gostaria de regularizar a situação do rapaz que não tem passagem – eu disse pro primeiro fiscal. 

Diante da cara de incompreensão dele, repeti:

-Aquele rapaz está viajando sem passagem e eu gostaria de comprar uma passagem pra ele – repeti calmamente, me esforçando pra falar o meu melhor francês.

Antes que dissessem que não era da minha conta, acrescentei: “Eu também sou refugiada e a situação dele me tocou.” Não sou refugiada, mas pra mim a solidariedade é horizontal. Essa terra é de todo mundo, ou não é de ninguém.

O primeiro fiscal disse, com um certo desdém, que a situação já estava resolvida. 

-Vocês chamaram a polícia?- perguntei. 

-Ele pagou a passagem. 

-Então vocês não vão chamar a polícia pra prender ele, não é?- insisti.

O fiscal, que era árabe, se levantou, se aproximou de mim e começou um discurso que faria chorar Frantz Fanon: 

-Veja, eu também já fui uma pessoa indocumentada. Eu me compadeço com a situação dessas pessoas, mas não posso dar mole. Se ele tivesse vindo falar comigo assim que subiu no trem, explicando a situação, eu teria sido compreensivo. Mas ele se escondeu, pensando que a gente não ia achar ele. Isso eu não tolero! Se deixarmos passar um, ele vai contar pros outros e todos os refugiados vão querer fazer a mesma coisa. Isso eu não admito! É errado!

Escutar um homem racializado, árabe (o grupo social mais discriminado na sociedade francesa, junto com os Rom), defender o mesmo sistema que o discrimina me dói. Eu queria dizer isso pra ele. Dizer que ele estava defendendo as pessoas que nos dominam, que nos colonizam. Que por mim todas as pessoas refugiadas poderiam pegar aquele trem sem pagar e que isso seria o mínimo! E que ele sabia muito bem que nenhuma pessoa refugiada na França, ou na Europa, tem razões pra confiar em fiscais de trem ou em qualquer autoridade. Que essas pessoas só conhecem a violência do Estado e de seus agentes e que de todo jeito ele não teria deixado o rapaz viajar sem passagem, coisa nenhuma, independente da maneira como ele tivesse pedido. Mas não era o momento de dizer aquilo. Tudo que eu queria era saber se eles tinham chamado ou não a polícia.

-Chamaram ou não chamaram a polícia?- eu repetia.

Depois de terem me garantido que não, voltei pra minha poltrona aliviada, mas ainda remexida pelo esforço em controlar minhas emoções. Foi aí que aconteceu uma coisa curiosa.

O segundo fiscal, que também era árabe, veio até onde eu estava, se aproximou do meu rosto e falou em voz baixa:

-Eu só queria que você soubesse que a passagem comprada a bordo do trem custa 80 euros, mas como eu vi a situação difícil do rapaz, eu fiz por 20 euros. É importante pra mim que você saiba disso, porque você foi muito gentil querendo ajudá-lo.

-Muito obrigada por ter feito isso por ele – falei com a mão no coração, um gesto que aprendi com amigas árabes.

-Eu que te agradeço pelo gesto tão gentil -ele respondeu, também com a mão no coração.

Quando chegamos no terminal, em Paris, decidi esperar o rapaz refugiado descer do trem e segui-lo discretamente pra ter certeza que não teria policiais esperando por ele na estação. Enquanto todo mundo pegava casaco e malas, criando um aglomerado de gente no corredor do trem, um passageiro que também viajava no nosso vagão chamou ele e disse algo que eu não ouvi. Se tratava de um senhor negro, de idade avançada e muito elegante. Ele era o único outro passageiro racializado, além do rapaz afegão e eu mesma, naquele vagão. Os dois desceram do trem juntos e foram andando na direção do metrô. Como eu também iria pegar o metrô, continuei caminhando alguns metros atrás dos dois. Quando entrei na estação vi o senhor comprando passagens de metrô pro rapaz refugiado e explicando como chegar aonde ele queria ir.

Fazer o certo num mundo injusto tem sempre um custo e é ainda mais difícil ser a primeira a sair do estado de inércia de um grupo de indiferentes. Um camarada do nosso coletivo tem um moletom onde está escrito: “Não é o barulho das botas que me dá medo, é o silêncio das pantufas.” O que me dá forças pra continuar na luta é saber que depois que a primeira pessoa se levanta contra uma injustiça, fica mais fácil pras outras se levantarem também.”

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