Minha mãe nunca disse que me amava

Do início de 2022 ao início de 2025 escrevi uma newsletter pras pessoas que apoiam o blog. Minha ideia era agradecer a generosidade das minhas leitoras fazendo o que faço melhor: contando histórias (cozinhar é a segunda coisa que faço melhor). Infelizmente, quando minha vida ficou tão instável e caótica que encontrar espaço mental pra escrever textos extremamente pessoais se tornou impossível, tive que encerrar a newsletter. Mas era uma delícia escrever aqueles textos e alguns fizeram tanto sucesso que foram compartilhados fora do círculo de apoiadoras do blog e chegaram em pessoas que eu nem conhecia! Por isso, de vez em quando, me pego sonhando em retomar o projeto.

Enquanto isso não acontece, e porque esse blog segue com problemas técnicos e não posso carregar fotos novas (o que impossibilita a publicação de novas receitas), pensei em publicar algumas das newsletters aqui, o que seria também uma maneira de impedir que elas desapareçam. Como eu disse, são textos muito pessoais e se você é leitora recente desse blog, talvez estranhe a mistura de relatos pessoais com receitas e artigos sobre diferentes lutas anti-dominação. Mas o blog sempre misturou o político com o pessoal (o pessoal segue sendo político). Tudo começou com aquela história de amor improvável de 2012, quando eu morava na Palestina (acho que o post mais lido no blog até hoje) e dali em diante nunca mais parei. Falei de como tentei reconquistar uma ex com alcachofras (outro post extremamente popular aqui), sobre quando cheguei pela primeira vez em Jerusalém e me apaixonei, sobre um protesto feminista que teve o efeito de dez anos de terapia pra mim e até sobre o meu casamento no interior da França . Tem coisas ainda mais pessoais aqui, mas te convido pra fazer uma “caça ao tesouro” nos arquivos do blog e descobrir sozinha 😉

Agora voltemos à newsletter.

Essa primeira que vou compartilhar foi publicada em janeiro de 2023 e se chama “Minha mãe nunca disse que me amava.”

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“Até alguns meses atrás, essa era a história que eu contava. “Minha mãe não gostava de carinho, nem de dizer que amava a gente.” Falo no passado, embora ela esteja viva, porque a mãe a quem faço referência aqui já se foi. O Alzheimer levou a mente dela pro lugar misterioso pra onde ele leva a mente das pessoas, enquanto seus corpos continuam aqui entre nós, habitados por uma personalidade cada dia mais diferente da que conhecíamos. 

Novembro passado eu estava com três amigas de Recife, conversando sobre comida como veículo pra expressar amor, e essa evidência me atingiu em cheio. A partir daquele momento uma parte da minha história foi re-significada.

Comecei a trabalhar muito jovem. Aos 16 eu já saía de casa antes das 7h e voltava depois das 23h. Quando acordava, minha mãe já estava de pé, já tinha feito o café e já tinha ido comprar o pão que eu levava na mochila e que me servia de almoço. Quando eu chegava, depois de 8h de trabalho, 4 ônibus e mais de 4 horas de aulas na Escola Técnica, minha mãe estava me esperando sentada numa cadeira de balanço. Ela era a única pessoa acordada na casa naquela hora, e a estratégia dela pra não sucumbir ao cansaço e adormecer também era rezar o terço. Eu atravessava o portão, cumprimentava minha mãe, ela dava graças a Deus por eu ter chegado bem, se levantava e colocava na mesa um prato de comida tirado do forno. Era lá que ela guardava minha parte de jantar, quase sempre cuscuz. Eu comia devagar, enquanto minha mãe compartilhava os acontecimentos do seu dia. Lembro de não fazer quase nenhum comentário, as poucas forças que restavam no meu corpo adolescente eram usadas pra levar a garfo até a boca, que, de todo jeito, estava ocupada com o cuscuz. Mesmo assim, minha mãe parecia apreciar esses momentos onde eu ouvia em silêncio seus monólogos sobre a vida dentro das paredes de casa, que eram o limite do mundo dela. 

A conversa durava exatamente o tempo que eu levava pra comer aquele prato de cuscuz, e depois de encher a barriga, e os ouvidos, eu pedia a benção dela e cada uma seguia em direção ao seu quarto. Nosso ritual noturno se repetiu sem falha durante anos e aqueles eram os únicos momentos em que minha mãe conversava comigo. 

É impossível saber com exatidão o que ainda existe na memória da minha mãe mas tenho a impressão que ela comporta apenas fragmentos. Na parte física, ela perdeu quase toda a autonomia e precisa de assistência pra tomar banho, se vestir, ir ao banheiro e, claro, se alimentar. Hoje somos nós que preparamos a comida dela. Nós, mulheres: as filhas, as netas, uma sobrinha e uma cuidadora.

Estive em Natal no final do ano passado e passei dois meses cozinhando as refeições da minha mãe. Encher o prato dela de comida, preparada por mim, enchia, simultaneamente, o meu peito de alegria. Sua memória gustativa ainda não se foi, e hoje é através dela que eu reencontro a minha mãe. Por isso acho muito importante oferecer os alimentos que ela sempre gostou. Vê-la sentir prazer ao comer é um momento mágico. Ao mesmo tempo em que ela deixa o mundo distante pra onde o Alzheimer a levou e volta pra materialidade do presente, quando ela come o que gosta sinto que ela se aproxima um pouco da pessoa que era antes de adoecer. E essa pessoa, entre outras coisas, era a minha mãe.

A história que conto hoje é a seguinte: “Minha mãe dizia que me amava através da comida que ela preparava pra mim”. E eu vejo que não era só o meu sustento que ela garantia naqueles momentos. Da maneira dela, sem palavras de amor nem gestos afetuosos, ela estava alimentando a nossa relação também.

25 anos depois, os papeis se inverteram e eu tento, da mesma maneira que ela fazia quando eu era adolescente, nutrir a nova relação que se estabeleceu entre nós através da comida. Hoje é ela quem come em silêncio enquanto eu falo. E quando, sentada na mesma mesa onde ela me alimentou por tantos anos, minha mãe me olha sorrindo, entre duas colheradas, e pergunta se eu quero um pouco da comida dela, meu coração perde dois batimentos e tudo que eu desejo é habitar esse instante onde ela voltou a ser a minha mãe e eu voltei a ser a filha dela.”

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Reler esse texto três anos depois me emocionou. Hoje a situação da minha mãe piorou bastante. Ela já não se senta mais à mesa. Não come com a própria mão. A fala já abandonou completamente a boca dela. A mente se mudou de vez pra essa terra onde só ela tem acesso. Minha mãe também não tem mais cuidadora paga, por isso me mudei de volta pro Brasil há um ano e divido com minhas irmãs e uma prima os cuidados com ela. Usar a comida como uma maneira de comunicar amor se tornou muito difícil. Ela come cada vez menos, às vezes não quer comer durante muitas horas. Mas ainda tem uma única coisa que ela gosta muito: mamão. Então oferecemos mamão à ela todos os dias e ela parece relembrar o prazer de comer quando a fruta encontra a língua.

A única coisa que ainda a faz reagir, às vezes, é quando chamamos o nome dela. Há tempos ela não responde mais se eu chamar “Mãe!” mas, de vez em quando, e isso está ficando cada vez mais raro, eu chamo o nome dela e uma mágica acontece: por um segundo ela volta a habitar o corpo e responde. Sei que isso parece pouco. Muito pouco. Quase nada. Mas é o último sopro de personalidade que ainda não deixou completamente o corpo da minha mãe. A única interação que ainda temos com ela. Então, pra mim, isso é tudo.

Quando ela parou de responder ao “mãe”, mas seguiu respondendo ao nome dela, pensei: “Esqueceu da gente, mas ainda lembra quem ela é!” Não recordo ter ficado triste, e sim ter concluído que fazia sentindo que agora, no final da vida, ela voltasse pro começo, quando era só ela, sem a gente. Já me conformei que minha mãe se foi.

Mas quando falei “Mãe!” semana passada e ela respondeu – com um fio de voz quase inaudível- “Oi, filha!”, o que não fazia há muito tempo, me joguei na cama dela e a cobri de beijos enquanto repetia que eu era a filha dela, sim.

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