Nutrição vegetal popular

No último post comecei a falar sobre o projeto que fizemos nos meses de março e abril, junto com cozinhas populares e solidárias em Recife e Fortaleza. Foi um projeto piloto pra levar informação sobre nutrição e saúde comunitária, além de oferecer formação em receitas vegetais, realizado por uma pequena equipe de mulheres veganas: duas nutricionistas e uma cozinheira. A cozinheira sou eu, que também fiquei responsável pela coordenação do projeto. Leila D’Barsoles executou o projeto comigo em Recife e Sara Ortins, em Fortaleza. Em Recife, contamos também com a participação especial da minha amiga Bárbara Bastos, uma das fundadoras da UVA, que nos ajudou em uma das oficinas de culinária com o MTST.

A ideia surgiu na minha cabeça uns anos atrás: e se uma das tarefas do Veganismo Popular defendido pela UVA fosse formar “agentes populares de nutrição”? Eu me inspirei no modelo de Agentes Populares de Saúde do SUS mas depois descobri que o MST também tem um programa de Agentes Populares de Saúde que é ainda mais próximo do que eu tinha em mente. Comecei a pensar nisso enquanto viajava pelo Norte e Nordeste fazendo reportagens sobre a destruição (nas matas, nos rios, na terra e na vida das pessoas e dos outros animais) causada pelo avanço de pecuária em territórios tradicionais. E pude constatar que o estrago que o complexo soja-boi causa na alimentação de populações tradicionais é assustador. E isso também chegou no prato de quem vive em contexto urbano, principalmente nas populações mais vulneráveis. O Brasil atravessa um período de intensa mudança de padrão alimentar. Comemos cada vez mais carne de boi, frango e ultraprocessados e cada vez menos milho, farinha de mandioca e até feijão, que costumava ser a base da nossa alimentação.

No Brasil de hoje, apenas uma em cada cinco pessoas consome a quantidade recomendada de frutas e verduras pela OMS, que é de 400g (que, convenhamos, é bem baixa!). E apenas 34% da população consome frutas e verduras regularmente. Esses dados vem de uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais realizada com adultos (18 anos ou mais) residentes em 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal, de 2008 a 2023. Eu vi essa realidade de perto durante aquela viagem-reportagem e voltei pra casa convencida de que tentar mudar isso poderia ser uma das tarefas do veganismo popular.

Percebi, conversando com as pessoas que eu ia entrevistando, que as pessoas se sentiam perdidas com relação à alimentação, ao mesmo tempo em que perdiam qualidade de vida por causa das doenças crônicas não transmissíveis que elas tinham (diabetes, hipertensão). Enquanto isso muitas pessoas, principalmente as mais jovens, já não conheciam mais os pratos tradicionais vegetais de seus territórios. Pensando em unir o útil ao gostoso, comecei a imaginar um projeto que compartilhasse as informações sobre nutrição que não estavam chegando até elas mas que também resgatasse as receitas tradicionais à base de plantas, porque pra fortalecer nossa cultura alimentar e a saúde do povo, precisamos voltar a encher o prato do que nossas avós colhiam.

Nos meus sonhos mais empolgados, faríamos esse projeto no Brasil inteiro mas eu tinha que começar com algo menor, perto do que eu já conheço bem (o Nordeste). Era preciso testar minhas ideias na prática e ver se aquilo fazia sentido, mesmo. Depois de escrever o projeto piloto e conseguir um pequeno financiamento (obrigada, The Pollination Project!), caí na estrada.

Tive a imensa sorte de encontrar duas parceiras maravilhosas nessa aventura. Eu conheço Sara Ortins, que também é uma das fundadoras da UVA e a companheira que nos deu o termo “veganismo popular”, há muitos anos. Quando comecei a escrever o projeto já sabia que queria trabalhar com ela em Fortaleza. Mas eu não conhecia nenhuma nutricionista vegana pra trabalhar comigo em Recife e graças a uma sugestão de Bárbara, Leila D’Barsoles entrou no projeto. Ganhei mais uma parceira incrível e uma amiga. Gostaria de deixar registrado aqui a minha imensa gratidão à essas duas mulheres. Sem elas, o projeto não teria se realizado. Agora estou de dedos cruzados pra conseguir levar esse sonho pra frente e seguir colaborando com elas.

Juntas, organizamos rodas de conversas sobre saúde, nutrição e alimentação saudável, além de oficinas de culinária, nas cozinhas solidárias do MTST e da rede Mãos Solidárias (MST) em Recife, e nas cozinhas populares do programa “Ceará sem fome”, em Fortaleza. Essas cozinhas distribuem refeições diariamente pra pessoa em situação de insegurança alimentar. As maiores servem mais de 100 refeições por dia, de segunda à sexta. As menores servem 60, algumas vezes por semana. Todas funcionam também como centros comunitários, oferecendo, além da alimentação, atividades variadas pra população local (creche pras crianças, aulas de música e capoeira, reforço escolar, exercício físico pra pessoas idosas…).

Depois de dois meses de trabalho (sem contar os muitos meses escrevendo o projeto e procurando financiamento pra ele), oito oficinas de culinária e várias rodas de conversa, encerrei essa etapa feliz e triste ao mesmo tempo. Feliz porque conheci pessoas lindas nesse processo, colaborei com profissionais dedicadas e aprendi muito. Sempre que acho que vou ensinar alguma coisa, a vida me mostra que tenho muito mais a aprender. Esses momentos de troca de conhecimentos e de aprendizado coletivo são uma das minhas maiores fontes de alegria.

Mas tem também muita tristeza no meu peito. A situação nos contextos urbanos me pareceu ainda pior do que tudo que vi nos territórios tradicionais destruídos pela pecuária. A transição alimentar (menos comida de verdade e vegetal, mais comida animal e ultraprocessada) é ainda mais drástica nas comunidades vulneráveis nas cidades, e as pessoas estão ainda mais adoecidas por isso.

Também percebi que, nas cidades, existe uma verdadeira rejeição a vegetais (verduras, frutas e feijão), como falei no post passado. E é exatamente por isso que estou ainda mais decidida a levar esse projeto adiante. Enquanto eu cozinhava com as mulheres e escutava minhas companheiras nutricionistas tirarem as milhares de dúvidas que choviam sobre elas nas rodas de conversa, vi que ele é muito mais necessário -e urgente- do que imaginei. Falta só encontrar uma maneira de concretizar isso (entenda “encontrar financiamento”).

Termino com algo que vi lá em Recife, na cozinha solidária do MTST, e que me inspirou muito. Nos fundos da cozinha tem uma horta agroecológica onde verduras, ervas medicinais e algumas frutas crescem na terra alimentada pelas cascas que saem da cozinha. Passeando entre os pés de couve e as bananeiras percebi que eu tinha deixado de fora algo muito importante quando escrevi a primeira versão do projeto: hortas comunitárias.

Eu estava visitando territórios tradicionais quando a soma das minhas observações deu nascimento a ideia do projeto. Depois de teorizar por vários meses, voltei pro campo pra ver se minhas teorias faziam sentido na prática. E depois de aplicar minhas ideias na realidade de dezenas de pessoas, em duas cidades diferentes do Nordeste, vou precisar reformar algumas, melhorar outras, incorporar o que aprendi pelo caminho…

Militância, pra mim, é isso: transformar a vida agora, ao meu redor, ao mesmo tempo em que contribuo com a tarefa de traçar caminhos alternativos pra chegar em lugar melhor pra todo mundo, sem distinção de espécie. Tudo isso enquanto cozinho moqueca de banana da terra e de fruta pão pras companheiras.

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