Sobre mudanças no padrão alimentar, tristeza e falta de fibras

Cheguei de uma viagem de trabalho dias atrás e fui no pequeno mercado do meu bairro comprar algumas frutas e verduras, só pra ter o que comer enquanto esperava o dia da feira. Chegando no caixa, a jovem que trabalhava ali perguntou que tipo de manga era aquela, pra colocar o código correspondente e cobrar o valor certo. Depois comentou que não entendia nada de frutas, pois não comia nenhuma. “Nem banana?”, arrisquei. “Nem banana!”, ela respondeu. Em seguida ela pegou um maço de couve e perguntou se aquilo era couve-flor ou couve-folha. “Couve folha”, respondi. Ela ainda insistiu: 

-“Couve-flor?” 

-“Não. Folha! Olha aí, são folhas, né? Couve-flor é grande assim (mostrei com as mãos), branca e tem um formato que lembra uma flor, mas dura.” 

-“Ah… Não entendo nada de verduras. Não como nenhum tipo de verdura.”

-“Você não come nem frutas nem verduras?”

-“Nem feijão. Também não como feijão de jeito nenhum!”

Não disfarcei o meu espanto e perguntei o que ela comia, então. “Pão com ovo de manhã. Arroz com frango no almoço. Pão com queijo no jantar. Às vezes tapioca com ovo.” Estamos falando aqui de uma moça jovem, que parecia ter acabado de chegar na casa dos 20. Falei que ela podia estar bem agora, mas que um dia ela iria sentir as consequências negativas daquele tipo de alimentação na saúde. A jovem respondeu que achava que tinha anemia, pois sentia um grande cansaço, o tempo todo, ao ponto de ter parado de frequenta a academia por causa disso. A conta dela já tinha chegado. 

Pode parecer um caso extremo, mas infelizmente não é. Durante a viagem de trabalho que mencionei no início desse post, tive a tristeza de constatar que a falta de frutas, verduras e feijão no prato está se tornando um padrão. E com um agravante: à medida que sai comida vegetal fresca, entra mais e mais produtos alimentares ultraprocessados na dieta. 

Nos meses de março e abril realizamos um projeto de formação em nutrição e culinária vegetal pras cozinhas solidárias e populares em Recife e Fortaleza (a viagem de trabalho que mencionei no início desse post). Junto com duas nutricionistas (Leila, em Recife e Sara, em Fortaleza) fizemos rodas de conversa pra falar sobre saúde comunitária e também oficinas de culinária usando ingredientes e receitas que fazem parte da nossa cultura alimentar. O objetivo do projeto era diversificar a oferta de vegetais nas cozinhas solidárias e populares, além de aumentar o conhecimento em nutrição das cozinheiras e beneficiárias. 

Ter visto de perto (na verdade, de dentro) o mundo das cozinhas solidárias e populares me fez refletir muito sobre como o caminho pra libertação animal está ligado a práticas de cuidado e a saúde da classe trabalhadora. Essa é a visão do veganismo popular e ter feito esse trabalho só reforçou minhas convicções. 

Mas eu queria levantar um ponto que me surpreendeu bastante. Eu já sabia, observando as pessoas à minha volta e por ter feito pesquisas de campo no Norte e no Nordeste, que se tornou muito comum, entre pessoas em situação de vulnerabilidade econômica, comer mais animais do que alimentos vegetais. As pessoas estão consumindo menos frutas e verduras e mais carnes e ultraprocessados, e as duas últimas Pesquisas de Orçamentos Familiares, feitas pelo IBGE confirmaram isso. E por ter lido as POF eu também sabia que, à medida que o consumo de animais aumenta, o consumo de feijão diminui. Mas fiquei chocada quando comecei a ouvir das próprias cozinheiras que, além de não comerem verduras nem frutas, elas simplesmente pararam de comer feijão.

Veja, não estou falando de pessoas que não têm acesso a feijão nem verduras. Estou falando de pessoas que cozinham todos os dias feijão e verduras no contexto do trabalho (as cozinhas solidárias e populares oferecem um cardápio feito por nutricionistas, que inclui feijão e verduras todos os dias) e tem acesso a esses alimentos, mas que mesmo assim não colocam eles no prato. O nível de rejeição aos vegetais chegou ao extremo de algumas cozinheiras se recusaram até mesmo provar os pratos vegetais que preparamos juntas, apesar de terem gostado de aprender a preparar receitas novas! Perguntei o que elas gostavam de comer em casa, quando tinham a liberdade de escolher o que colocavam na panela. A resposta foi unânime: carne, muita carne, e massas. Por “massas”, entenda: macarronada, lasanha, pizza… 

Estamos em plena mudança de padrão alimentar no Brasil e os alimentos que fazem parte da nossa cultura alimentar (feijão, milho, macaxeira) estão desaparecendo do prato da população economicamente vulnerável, enquanto aumenta o consumo de carne, frango e ultraprocessados, incluindo embutidos (salsicha, mortadela). E o impacto disso na saúde é assustador. Durante as rodas de conversa, quando eu perguntava às cozinheiras e beneficiárias das cozinhas solidárias se elas, ou alguém na casa delas, tinha diabetes, pressão alta ou colesterol alto, praticamente todas as mãos levantavam. 

Enquanto a obsessão por proteína (animal) aumenta, juntamente com o estrago na saúde pública causado por ela e o rastro de destruição ambiental deixado pela exploração animal, não deixo de pensar que pouco ou nada se fala sobre o que realmente falta na dieta das pessoas. Estou falando de fibra, aquele composto essencial pra  manutenção da nossa saúde e que só existe nos alimentos de origem vegetal. Quanto mais carne, frango e ovos se come, menos fibras ingerimos, esse elemento que faria toda a diferença na saúde daquelas pessoas que levantaram a mão durante as rodas de conversa. 

Muito se fala sobre a quantidade de proteína que supostamente precisamos (o que, de acordo com quem lucra vendendo suplemento de proteína, não para de aumentar) mas quem sabe quantos gramas de fibra precisamos por dia?

De acordo com a OMS, a recomendação para uma pessoa adulta é de 25 g a 30 g de fibras por dia, entre fibras solúveis e insolúveis, no mínimo. Agora eu espero que você esteja se perguntado: “E qual é o consumo médio de fibras no Brasil?”, pois essa pergunta é muito expõe uma imensa crise na saúde pública. De acordo com a POF de 2017-2018, a resposta é 15,6 g. Estamos bem abaixo do mínimo e, curiosamente, não vejo ninguém falando nas redes sociais em “bater a meta de fibra” do dia.

Na POF anterior, de 2008-2009, esse número era 20,5 g, o que significa que nosso consumo de fibra, que já era insuficiente na época, diminuiu de quase 25% em dez anos! Eu tenho é medo de ler a próxima POF e descobrir que a situação piorou ainda mais, o que tem fortes chances de ser verdade, já que o aumento do consumo de ultraprocessados aumentou desde então e isso impacta diretamente a quantidade de fibras da dieta. 

Enquanto a população brasileira segue consumindo mais proteína animal do que é recomendado (e sim, mesmo entre as classes empobrecidas!), em 2023 79% das pessoas que moram nas capitais do país não consumia nem sequer a quantidade mínima de vegetais recomendada pela OMS, que é de 400g por dia!

Termino com duas recomendações.

Primeiro, o estudo da USP “O mito de déficit proteico“, publicado por pesquisadores da USP na Revista de Saúde Pública.

Segundo, um post meu de 2012: “Fibras: por que comer e onde encontrar“. Embora hoje eu mudaria/acrescentaria algumas coisas, principalmente sobre a importância da relação entre fibras e microbiota intestinal (estou estudando sobre isso no momento), ainda acho que vale a pena ler. Além de informações importantes, o post tem um gostinho “vintage” e mostra o que eram, e como eram escritos, os blogs no início da década passada, quando eles estavam no ápice do sucesso. Gente, e a leveza com a qual eu escrevia, mesmo morando na Palestina naquele momento e vendo e vivendo coisas terríveis todos os dias? Não sei como eu conseguia, sinceramente…

No próximo post falarei mais sobre o projeto com as cozinhas solidárias e como isso vem alimentando minhas reflexões desde então.

(Foto de abertura do post: quintal agroecológico na cozinha solidária do MTST, em Recife, feita por Anne Paq.)

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