Sobre a primavera no Nordeste e pássaros

Como está a primavera aí onde você mora? Faz algumas semanas que venho percebendo mudanças ao meu redor. As mais evidentes são as flores amarelas enfeitando a imensa craibeira na minha calçada e os ninhos que os passarinhos fizeram ao redor da minha casa. Tem ninhos na craibeira, altos demais pra eu conseguir identificar seus ocupantes, mas os sibites (que em outras partes do Brasil são chamados de “cambacica”) escolheram a coité que fica no jardim e os bem-te-vis fizeram um ninho enorme no poste de eletricidade que fica na calçada, do outro lado do meu muro. Passei dias e dias observando eles pegarem o material de construção no quintal e construindo o ninho. Agora observo essas criaturinhas brabas e gasguitas protegerem os filhotes lá dentro. Olhar a tela do celular me parece cada vez mais entediante quando posso observar, maravilhada, a vida ao meu redor.

Dias atrás o equinócio chegou e deixou os dias mais quentes e com menos vento (dedos cruzados pra não já ser os efeitos do super El Niño). Na feira do meu bairro, os primeiros cajus apareceram (vindos dos cajueiros do Sertão, sempre mais avançados que os do litoral, que frutificam mais tarde). E depois dos cajus aparecem as mangas espada, então em breve vou poder comer minhas duas frutas preferidas juntas.

No começo do mês fiz uma curta viagem à Cabaceiras, no Sertão do Cariri, interior da Paraíba. Minha sobrinha Luna cresceu e hoje tem uma agência de viagens junto com a noiva, Carol, e essa foi a primeira viagem organizada da Nortear Mundo. Aproveitei pra levar Anne pra conhecer outra parte do Sertão, pra além do RN, e ver de perto a Roliúde Nordestina (pesquise aí pra saber por que Cabaceiras tem esse apelido).

Não, não é pistache! É sorvete de umbu (verde).

A cidade é um mimo, os lajedos ao redor dela são belíssimos e de frente à igreja (tá reconhecendo?) tem um café que vende um sorvete de umbu maravilhoso! Eu amo umbu, pra mim é realmente o sabor do Sertão. Uma tia sertaneja tinha um umbuzeiro no quintal, onde passei muitas férias, e minha infância tem gosto de umbu. Não consigo entender por que não é um sabor mais popular de sorvete (ou sobremesas em geral).

E falando em sabores, ando testando novas receitas. Fazia tempo que eu sonhava em criar um bolo de macaxeira com maracujá e o primeiro teste foi bem-recebido. Agora quero fazer um bolo de macaxeira com abacaxi e comparar qual das duas frutas casa melhor com macaxeira. Também improvisei um coisa recentemente, pra aproveitar umas bananas-jasmim que estavam passando do ponto, e fiquei tão feliz com o resultado que vou fazer novamente, fotografar e trazer pra cá. Mas nem tudo é sucesso na minha cozinha. A receita de iogurte de soja, na qual trabalho há meses, ainda produz resultados irregulares. Tem semana que fica perfeito, aí na semana seguinte o negócio desanda. Sigo tentando desvendar o mistério, par poder publicar a receita aqui.

A iguana-criança que se mudou pra cá durante o inverno continua aqui e a coabitação já dura quatro meses. O prato preferido dela parece ser o hibisco cannabinus que plantei na frente da casa e ela passa a maior parte do tempo lá. Mas de vez em quando entra em casa, dá bom dia, passeia pelos móveis e volta pro jardim. Batizei ela de Onofra.

Onde está Onofra? Ganha um sorvete de umbu quem encontrar ela aqui.

Mas nem sempre a convivência é tranquila nessa comunidade multi-espécie que chamo de lar. As formigas roçadeiras declararam guerra ao meu quintal e depois de comer os pezinhos de pinha (três vezes!), de jerimum, de milho, de pimenta e os cravos, elas começaram a comer meus mamoeiros. Danadinhas! De tudo que planto na minha rocinha de quintal, parece que elas só não gostam das bananeiras e dos pés de tomate. Já me resignei, afinal elas estavam aqui antes de mim e eu que cheguei, com todas as minhas mudinhas, no território delas. Pelo menos elas me ofereceram um plano de partilha: elas ficam com o quintal e eu, com o jardim. Juro que tem um tratado dividindo o terreno e elas não cruzam a linha imaginária que separa os dois (e se cruzam, não comem nada do outro lado).

E falando em comunidade multi-espécie, preciso dizer que morar em uma casa com quintal, do lado de um bosque (uma tripinha de mata, cobrindo as dunas, que sobreviveu à construção do meu bairro, no início dos anos 80) me trouxe uma proximidade diária com outras espécies que está sendo uma grande fonte de aprendizado. Tem as formigas roçadeiras, sim, mas também Onofra, as aranhas, lagartixas e pererecas (outra convivência pacífica), morcegos (um deles, Abelardo, mora no coqueiro e sempre aparece pra dar boa noite), uma ou outra cobra e alguns escorpiões (um sustinho de vez em quando é bom pra lembrar que não somos os donos dessa Terra), insetos (muriçoca é a única espécie pra quem eu gostaria de enviar uma ordem de despejo), um timbu (mucura) que passa à noite e, claro, uma imensa população de pássaros.

Me faz vergonha admitir o quão ignorante eu era dos povos do ar. Sabia reconhecer, talvez, três ou quatro espécies de pássaros (uma delas exótica: os pombos) e mal reparava nessas criaturas serelepes e musicais. Hoje vivo encantada com os bichinhos, minha meditação diária passou a ser deitar na rede e observar passarinho e até improvisamos um cantinho no quintal pra tomar café da manhã mais perto deles.

Faz pouco mais de um ano que me mudei pra essa casa, em Natal, e por viver cercada de pássaros (a craibeira é quase um cohab de passarinhos, onde moram espécies diferentes, e o quintal é o restaurante da passarinhada do quarteirão), acabei desenvolvendo um interesse por eles que já se transformou em paixão. Agora passo horas observando os bichinhos e pesquisando sobre eles. O interesse saiu do quintal e me acompanha em todos os lugares: por onde passo, reparo nos passarinhos. Eu vejo passarinhos por todos os lados e pareço uma criança aprendendo a falar: sempre que vejo um, aponto e falo o nome dele me voz alta. O meu quintal é frequentado por: bem-te-vis, dois tipos de beija-flores (garganta-verde e tesoura), rolinhas, bicos de lacre, canários da terra, sabiás, sibites, sanhaços, anum brancos, vem-vem (não vou ousar escrever o plural desse nome), os exóticos pombos e pardais, e juro que um dia vi um concriz (currupião)! Sem falar que, por cima do quintal, voam carcarás, urubus e gaviões.

E foi um gavião carijó que partiu meu coração, fato que mencionei no último post. Mas isso é assunto pra outro dia.

2 comentários em “Sobre a primavera no Nordeste e pássaros”

  1. Adoro seus posts! Você escreve com tanta leveza e propriedade. Morar assim, junto a natureza, é uma benção de nosso Deus Criador, do céu e da terra.
    Quero saber sobre o gavião carijó.
    obrigada!
    Deus te abençoe!

  2. Uma delicia ler tuas crônicas! Até me deu vontade de sair de Buenos Aires, onde moro há mais de 50 anos e ir a Natal, que eu não conheço, só pra te conhecer! Quem sabe um dia desses eu apareço por aí! Beijos

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