Você sabe o que seu corpo precisa comer pra estar bem?
Não estou falando de recomendações das autoridades da saúde, nem de plano alimentar feito por nutricionista. Estou falando dos alimentos que seu corpo necessita pra que existir dentro dele seja uma experiência agradável.
No dia-a-dia tenho uma alimentação variada, equilibrada e, na minha opinião, muito saborosa (você pode conferir isso nesse post , nesse outro e mais nesse), mas já fiquei meses viajando a trabalho e passei por situações onde o acesso à comida era bastante limitado. E isso acabou me fazendo desenvolver clareza sobre os alimentos realmente indispensáveis pra mim. Traduzindo, o que preciso comer todo dia pra manter o intestino funcionando direitinho, ter disposição pra fazer as atividades do cotidiano (que, quando viajo a trabalho, são bem físicas) e me sentir nutrida. Esse último ponto está no centro da minha reflexão e vou tratar dele mais adiante.

Fiquei tão boa nesse exercício que acabei desenvolvendo uma escala alimentar pessoal, do “mínimo necessário” ao “ideal”. É bem difícil ter uma alimentação equilibrada e variada todos os dias quando estou na estrada, ou nas semanas com muito trabalho e pouco tempo pra preparar comida, mas ter uma visão do que seria o meu cardápio ideal cotidiano me ajuda a enxergar que passos dar pra me aproximar dele.
No nível “o mínimo necessário” que preciso comer todo dia pra ficar bem estão: um prato de feijão, pelo menos uma fruta fresca e uma porção de aveia.
Nenhuma comida tem um impacto positivo tão imediato e intenso na maneira como me sinto quanto feijão. Se eu não tiver comido feijão -ou outra leguminosa- durante o dia, parece que meu corpo não foi alimentado, independente do que eu tiver comido, e a bagunça no trânsito intestinal (principalmente se eu estiver viajando e comendo poucas frutas e verduras- ou seja, pouca fibra) é quase garantida. E deve ter alguma coisa na vitamina C natural (dentro de uma fruta, não de um comprimido) que aumenta a minha vitalidade, pois basta passar um dia sem comer frutas pra sentir a diferença. A aveia também aumenta a sensação de corpo nutrido pra mim, além de contribuir com mais fibras e saciedade.
Saber exatamente quais comidas são indispensáveis pro meu corpo me ajuda a não perder de vista o essencial no dia-a-dia. Isso simplifica o planejamento das compras da semana (sei o que a visita à feira é muito importante pra eu conseguir me alimentar bem) e guia a organização dos preparos na cozinha (cozinhar e congelar porções de feijão e preparar aveia dormida pro café da manhã são coisas essenciais). E quando o dinheiro está pouco e cada item que entra na sacola conta, lembro que frutas não é luxo, é necessidade.
Na outra ponta dessa escala está o meu cardápio ideal durante um dia: um prato de feijão + aveia + chia/linhaça + uma salada crua + duas verduras cozidas (uma verde) + quatro frutas + um tubérculo + um alimento fermentado (chucrute, iogurte natural de soja, kimchi, kefir ou kombucha).
Algumas coisas importantes ficaram de fora aqui. Toda semana como tapioca e cuscuz, tomo suco de mastruz e leite de coco… Isso alimenta meu corpo e me traz alegria, mas a experiência me ensinou que consigo ficar várias semanas sem comer essas coisas e ainda assim manter o bem-estar do meu corpo, enquanto ficar uma semana sem feijão, frutas, verduras, aveia e chia teria consequências negativas.

É difícil conseguir me alimentar dessa maneira todo dia quando estou fora de casa, mas considero esse tipo de conhecimento valioso porque, como já disse, saber quais alimentos terão o maior impacto positivo no seu bem-estar ajuda a identificar quais comidas priorizar.
Voltando ao contexto de viagens, sempre viajo com aveia e chia na mala, e, se estiver indo pra um lugar sem acesso à comida fresca (como quando fiquei cinco dias dentro de um barco) também levo uma penca de bananas. Com esses três alimentos já tenho o café da manhã, o lanche e, em caso de necessidade, um jantar leve. Agora basta procurar um restaurante no quilo e as chances de conseguir um prato com feijão (sem carne), uma salada crua um legume cozido são altas (se só tiver acesso a um PF, dá pra conseguir pelo menos o feijão). Pronto, nutri meu corpo e garanti uma visita ao banheiro no dia seguinte.
Decidi escrever sobre isso quando constatei que apesar de pouca gente conseguir responder à pergunta que abre esse texto (essa foi minha experiência até agora), ainda não encontrei uma só pessoa que não fosse capaz de fazer uma lista com comidas que trazem prazer. E “comidas prazeirosas” geralmente são doces, sobremesas, alimentos ricos em gordura e/ou ultraprocessados, por isso quando explico que minha lista de comidas “que fazem bem pro corpo” e “que dão prazer” é a mesma, as pessoas reagem com espanto ou descrença.
Fiquei refletindo sobre por que, pra maior parte das pessoas, ter prazer ao consumir comidas que fazem bem ao corpo, porque você se sente tão bem que passou a deseja-las, é uma ideia tão estranha.
Depois de um tempo ruminando, percebi que fazia sentido. Se há anos alguém tem uma alimentação composta por ultraprocessados e alimentos nutricionalmente pobres, como ela vai conseguir identificar quais alimentos fazem bem pra ela? Hoje a maior parte da população brasileira está diminuindo (ou eliminando) o feijão do prato e não consume frutas e verduras em quantidade suficiente. Enquanto isso, o consumo de ultraprocessados e carnes -muitas vezes embutidos- aumenta. Então não é surpreendente que essas pessoas conheçam bem o prazer viciante que esses produtos trazem (e busquem sempre por eles), mas não saibam que alimentos trazem bem-estar. Ou associem verduras e frutas a alimentos de sabor desagradável ou, na melhor das hipóteses, consumidos apenas por obrigação, não por prazer.
A questão não é demonizar comidas que oferecem muito prazer e poucos nutrientes. Comida é muito mais do que um aglomerado de nutrientes. A reflexão que queria trazer aqui é sobre prestar atenção no que o corpo nos comunica diariamente, ser capaz de interpretar seus sinais e se responsabilizar por atender as necessidades dele. Acredito que identificar o que nutre e fortalece o corpo é um trabalho importantíssimo que merecia mais tempo e consideração. Esse “autoconhecimento alimentar” (acabei de inventar o termo) é parte essencial do autocuidado.
E você, já parou pra pensar nos alimentos indispensáveis pro seu bem-estar? Comidas consideradas “saudáveis” estão numa categoria diferente das que te dão prazer?
Poxa, Sandra eu também tenho essa listinha e coincide com a sua. Eu não aguento passar sem feijão e sem aveia. A banana – qualquer tipo para mim é essencial – só acrescentaria umas castanhas e outras sementes como a de abobora e girassol. E sim: adoro seus posts, obrigada por esses contatos tão prazerosos. Não sou ninguem sem umas comidinhas gostosas e as melhores são simples, baratas e deliciosas. Beijos
Chega batendo 😀
Esse prato foi inspirador misturinha de macarrão com feijão é tudo de bom. Aproveito oportunidade para agradecer todos os posts e, sugestões. Um forte abraço a nossa família papa capim
Também amo feijão com macarrão!
a aveia custei um pouco a aprender a comer, mas quando finalmente achei o método de preparo que eu gosto (dormida com leite de soja e canela), todo dia acordo contente de saber que meu café da manhã me espera, geladinho, gostoso e saciante.
brigada pelo texto! vou levar essa reflexão em conta para minha próxima semana de compras.
Cresci comendo papa de aveia feita pela minha mãe, então meu amor por aveia vem de longe. Mas hoje, morando novamente no calor do Nordeste, fiquei como você: aveia dormida geladinha se tornou meu método de preparo preferido.
Recentemente cheguei a essa conclusão com cuscuz. Tem um restaurante vegano na minha cidade que serve café da manhã aos domingos e quando ia lá pedia o croissant na ideia de que “cuscuz eu como em casa e croissant é muito mais raro de comer e também gosto bastante”, mas sempre ficava com um desejo de pedir o cuscuz. Um dia decidi romper com o hábito do croissant, pedi o cuscuz e percebi que aquilo era de fato o alimento mais importante pro meu bem estar.
Como dizemos por aqui, cuscuz é melhor que muita gente 😀
Para mim, o feijão, também, é indispensável, fico até com fraqueza se não comer ele, falta sustância durante o dia e desregula meu trânsito intestinal. Sempre tento fazer em casa, porque quando não consigo, acho extremamente difícil achar algum lugar, aqui na Paraíba, que sirva feijão mais “natural” sinto que as pessoas não gostam muito do feijão como protagonista dele mesmo e a receita mais popular é sempre uma espécie de feijoada, ou seja, bem gordurosa, com várias carnes, embutidos e temperos ultraprocessados, o que, de certa forma, deve anular todos os benefícios de comer um pratão gostoso de feijão (seja qual o for o tipo dele). Agora, em se tratando de prazer, vinagrete é a coisa que mais alegra meu dia, até brinco com as pessoas que eu conheço sobre isso, que eu posso estar tendo um dia bem estressante, mas basta adicionar algumas colheradas generosas de vinagrete ao meu prato que tudo magicamente fica bem de novo. Incrível o poder que a comida (de verdade) tem!
Acho que a sua vinagrete funciona como a minha salada crua (que, inclusive, pode ser uma vinagrete). Comer algo fresco (cru, ácido) junto com feijão realça muito o sabor dele.
Primeiro, adoro suas escritas, me trazem conforto e me fazem viajar. Fiquei feliz de saber que o que nutre seu corpo é o feijão, que eu amo também! Ultimamente estou apaixnada pelo inhame, virou vitamina com frutas, sopa ou cozido para os lanches. Eu mesma cozinho para mim e procuro me organizar para manter meu mínimo: feijão, legumes, frutas e um pouco de carne. Tenho feito consumo da aveia, chia e linhaça fermentada, mas ainda não sei o que meu corpo sente. Fiquei uns 40 dias colocando pasta de amendoím no cafe – que só tomo pela manhã, e deu ruim. Também estava colocando 1 colher de óleo de coco, também retirei. Meu corpo não gostou de muita gordura ou da quentura do amendoim, ele é bem mal falado. Gsotei da expressão autoconhecimento alimentar, já tinha prestado atenção que abacate com banana não me fazem bem e mesmo o abacate sozinho, as vezes me dar mal estar. Vou prestar mais atenção!