Das pequenas e grandes coisas necessárias pra mudar o mundo

Sempre me surpreendeu ver a distância que separa o que as pessoas acham que é “militar” e o cotidiano de militantes engajadas. Não estou falando de militância performática das redes sociais. E também não estou falando da militância de atos espetaculares, que brilha pra quem está de fora. Na maior parte do tempo, as tarefas da militância não são o que as pessoas que não militam imaginam. E pra além de “tarefas”, uma parte necessária da militância pode parecer invisível até pras próprias militantes, porque está imbricada no nosso dia-a-dia. Se você me perguntar como vejo a militância hoje, eu direi que é o fio que costura os gestos que formam o cotidiano, não algo que acontece fora dele. Exatamente por essa razão sempre digo pra mim mesma que gostaria de ter um diário, pra ver com mais nitidez esse fio me ligando ao mundo e às pessoas.

Em 2023, quando estava morando na França pela segunda vez (dessa vez, na periferia de Paris), eu passei um tempo rabiscando partes dos meus dias num caderno. Alguns trechos se juntaram pra formar uma das newsletters que enviei pras pessoas que apoiam o meu trabalho aqui no blog, que chamei de “Das pequenas e grandes coisas necessárias pra mudar o mundo”. Acabo de reler esse material pela primeira vez e fui invadida por uma onda de ternura. Eu tinha esquecido como era o meu cotidiano naquele ano, tinha esquecido daqueles momentos… Engraçado que na minha memória tinha ficado apenas a impressão de ter sido uma época difícil. Reler esses fragmentos de diário três anos depois me vez ver outra coisa. Que vida rica de significado! Segue o texto, fragmentos dos meus dias no início de 2023.

Hoje de manhã G e E (camaradas do coletivo) vieram aqui pra casa. Em janeiro criamos um grupo de apoio entre nós 3, porque somos filhas de uma pessoa com doença degenerativa: minha mãe tem Alzheimer, a mãe de E e o pai de G têm Parkinson. Nos encontramos uma vez por mês, ao redor de um café, e abrimos nosso coração. Também compartilhamos material (livros, podcasts, filmes) relacionado ao tema e que nos trouxeram algum alívio. Às vezes a gente ri muito. Às vezes a gente reclama das pessoas, da vida, do sexismo (em sua maioria esmagadora, os maridos abandonam as esposas doentes, enquanto as esposas cuidam dos maridos doentes, e nossas experiências pessoais confirmam isso). Às vezes a gente chora. E sempre, sempre, a gente se escuta.

Tarde: encontro com Anne. Apesar de morarmos juntas, a gente tem um dia na semana reservado pra nós. Hoje almoçamos em um café em Paris e depois vimos uma exposição de fotos. Depois voltamos pra casa e eu fiz um jantar especial, à luz de velas, como fazemos sempre no nosso dia juntas.

——

Depois do almoço nos encontramos pra estudar um texto feminista, Anne, G e H (que também faz parte do coletivo). Há tempos começamos uma reflexão sobre nosso desejo de criar uma comunidade de mulheres militantes pra que possamos envelhecer juntas e se apoiando mutuamente. O texto era sobre comunidades de lésbicas separatistas nos EUA nos anos 70 e abriu uma grande discussão. Queremos envelhecer na cidade? Como criar pontes entre comunidades militantes rurais e as lutas nas cidades?  Quem vai cuidar da gente quando não pudermos mais cuidar de nós mesmas? Autorizamos a presença de homens na nossa futura comunidade de idosas militantes? (Em solidariedade às camaradas hetero, decidimos que elas poderão receber visitas de homens sempre que quiserem, mas que eles ficarão em um espaço restrito e, importante, não usarão nossos banheiros!) Obviamente se tratava de um exercício de imaginação, não de um plano de ação. Mas imaginar é uma parte essencial na luta pra mudar o mundo. 

—— 

Passei o dia escrevendo no blog, respondendo emails e fazendo outras coisas no computador. No final da tarde Anne viajou pra Itália, pra mostrar o filme dela num festival de filmes palestinos. À noite J, minha namorada, veio aqui pra casa. Dormimos juntas pelo menos um dia por semana, na minha casa ou na ocupação onde ela mora. Cozinhei pra ela. 

——

No final da tarde eu tinha um encontro com uma amiga, que também milita com a gente. Desde que voltei do Brasil nós estamos tentando nos encontrar pra colocar a conversa em dia. Fiz chá e comemos a sobremesa que eu preparei ontem. Nutrimos um paixão platônica uma pela outra e é gostoso saber que nem todo sentimento romântico precisa existir dentro de uma relação romântica. 

À noite uma amiga baiana, e camarada da UVA, me convidou pra fazer uma palestra (online) sobre veganismo popular pro grupo espírita do qual ela faz parte. Minha militância antiespecista se manifesta das mais variadas formas. A conversa foi muito interessante, mas terminei exausta. Por causa da diferença no fuso horário começamos às 22h e terminamos depois das 23h aqui na França. Fui dormir temendo o cansaço no dia seguinte, que seria de trabalho na mercearia.

——

Sextas e sábados são os dias que trabalho na mercearia. Trabalho das 9h às 20h30, o que significa que saio de casa às 8h e chego depois às 21h30. Nesses dias me sinto completamente despossuída do meu tempo. Cada minuto é contado e ocupado pelo trabalho. Acordo cedo, me arrumo, pego o metrô (lotado), trabalho (em pé) durante 10 horas seguidas, almoço minha marmita nos fundos da mercearia, pego o metrô (lotado) no final do dia e, ao chegar em casa, só tenho tempo e forças pra tomar banho, comer, preparar a marmita do dia seguinte e desmaiar na cama. 

——

Depois de dois dias de trabalho na mercearia eu acordo toda doída. Parece que corri uma maratona: minhas costas doem (carrego muita caixa de mercadoria) e meus pés latejam. Então no domingo eu retomo a possessão do meu tempo e vivo no meu ritmo. Acordei com calma e sem despertador. Tomei um café gostoso e tranquilo, admirando os passarinhos no jardim. Arrumei a casa, lavei roupa, cuidei das plantas. Anne chegou no final da tarde. Tomamos chá com biscoitos enquanto ela me contava sobre a viagem. Fiz um jantar especial pra comemorar o fato do filme dela ter ganhado o prêmio de melhor documentário no Festival de Filme Palestino de Sardenha. 

——

Passei o dia escrevendo a newsletter que envio pras pessoas que apoiam o meu trabalho. Fiz uma sessão de remo (tenho uma máquina de remar no quintal), pra amolecer as juntas que endurecem quando passo muito tempo sentada. E fiz um bolo de jerimum pra levar pra reunião da noite.

Fui de bicicleta, como sempre, pra reunião semanal do nosso coletivo anarquista, que acontece na ocupação onde mora a minha namorada (e outras pessoas do coletivo). Era uma reunião importante e quando temos reuniões importantes, jantamos juntas. Compartilhar comida fortalece os laços entre camaradas e discutir sobre questões políticas difíceis de bucho cheio é sempre mais agradável, além de aumentar nossa paciência com as divergências internas. A sopa, preparada pelas camaradas que moram na ocupação, estava mais ou menos (os vegetais são de descarte e às vezes o sabor deixa a desejar). Mas meu bolo de jerimum fez sucesso. 

——

Depois de uma manhã de trabalho no computador e na cozinha, preparando uma receita pro blog, fui pro hammam (também conhecido como “banho turco”) com Anne. É uma atividade tradicional entre os povos árabes e como a maior parte da população na nossa cidade é árabe, tem alguns aqui perto.  Esses banhos são lugares de socialização e relaxamento, com horários só pras mulheres e só pros homens. Estar entre mulheres, numa atmosfera relaxante e de cuidado, me faz um bem enorme. E o calor da sauna sempre alivia minhas dores nas costas.

——

Anne saiu antes das 5h pra cobrir a resistência dos garis, que estão em greve há semanas, em protesto contra o projeto de reforma da previdência. Ela voltou por volta das 8h e me acordou pra dizer que J tinha sido espancada pela polícia, junto com mais duas camaradas do coletivo, no piquete de greve. A mais jovem tem 18 anos e foi pra escola depois, apesar de estar levemente ferida. Um dos camaradas foi levado pela polícia, mas foi liberado pouco depois, evitando a detenção. Geralmente deixamos o celular em casa quando participamos de ações desse tipo (pra não ser confiscado pela polícia, o que colocaria todo o coletivo em risco), então enviei mensagens pro pessoal da ocupação onde J mora pra saber se ela já tinha voltado. Foram duas horas de angústia. Ela teria sido detida pela polícia no caminho de casa, o que aconteceu algumas vezes com camaradas essa semana? Estaria ferida demais pra pedalar e estava voltando pra casa a pé, o que explicaria a demora? Quando finalmente ela deu notícias, contou que tinha ido ajudar companheiros em outro piquete de greve, apesar de estar com a perna e o pé cobertos de hematomas. O alívio de saber que ela estava em segurança foi maior do que a vontade de criticar suas tendências de mártir da militância.

Esquentei restos pro almoço e logo depois Anne saiu pra comprar composto com Dolorès, a amiga-jardineira e militante na luta de defesa dos Jardins Operários. Seria um trabalho braçal exaustivo, já que é um lugar onde você pega a pá e enche vocé mesma seus sacos de composto.  Anne estava com dor nas costas, mas como no momento minha dor nas costas é maior que a dela e que Dolores precisava de ajuda, ela foi mesmo assim. 

Enquanto Anne enchia sacos e mais sacos de composto, fiquei em casa preparando comida pros próximos dias. Também fiz bolas de aveia e pasta de amêndoas. Anne gosta de comer essas bolas de aveia durante os protestos e ações militantes e as chama de “bolas de poder”. Diz ela que dá forças pra correr da polícia. 

Enquanto cozinhava pra semana, aproveitei pra cuidar das mudas (todos os vegetais que irão ser plantados na nossa horta), que estão crescendo na varanda. Aguei os brotinhos escutando a banda palestina 47Soul: “Are you doing the right thing, rising up?” (“Você está fazendo o que é certo, se erguendo?”) Lembrei de uma amiga que há meses atravessa uma crise de depressão séria e enviei um vídeo dos brotinhos, se erguendo em busca da luz, pra alegrá-la.

No final da tarde Anne voltou e ajudei a descarregar os sacos de composto. Depois ela foi ajudar Dolores a descarregar os sacos dela nos Jardins Operários e eu fui pra ocupação encontrar J. Os ferimentos dela são menos graves do que eu tinha imaginado, mas percebi que ela estava se esforçando pra não mancar na minha frente. Conversamos sobre a grande ação que aconteceu no fim de semana, no interior da França, contra um projeto de barragem que é um desastre ecológico, da qual ela participou. Levei hummus que fiz ontem pra ela e lanchamos enquanto ela me contava sobre a terrível repressão policial do fim de semana de luta, que deixou 200 militantes feridas e dois no hospital, entre a vida e a morte. Depois esquentamos o curry de legumes e lentilha coral que ela tinha feito pro almoço. Dormimos juntas na ocupação. Eu tive muita insônia e no pouco tempo que consegui dormir, tive pesadelos horríveis (sequestro, violência policial).

——

Acordei antes de J, mas permaneci quietinha na cama pra deixar ela descansar mais um pouco. Troquei mensagens com Anne, que estava, novamente, no piquete de greve dos garis desde às 5h da manhã, pra me assegurar que ela estava bem. Quando J acordou, pedi pra dar uma olhada nos hematomas dela. Estavam, como era de se esperar, ainda maiores e mais coloridos. Decidi passar o dia ali, cuidando dela. 

À tarde tinha protesto contra a reforma da previdência e, tirando nós duas, todo o pessoal do coletivo foi. Fizemos o almoço juntas e eu preparei um prato que ela adora. Almoçamos com V, um rapaz russo, requerente de asilo aqui na França por ser homossexual, que se mudou pra ocupação há um mês. Depois do almoço testamos uma receita de biscoito de coco do livro de confeitaria vegetal que dei de presente pra ela. Fizemos bastante pra compartilhar com as camaradas na volta do protesto. Seria um pequeno reconforto depois de todo o gás lacrimogêneo. Passei a tarde de olho no celular, caso Anne, que também tinha ido pra manifestação, fosse detida e precisasse da minha ajuda (eu sou o contato de emergência dela). 

Saí da ocupa no início da noite e cheguei em casa quase ao mesmo tempo que Anne. O estado de cansaço dela era imenso e a dor nas costas tinha piorado muito. Depois do trabalho com a pá e o composto, de dois dias seguidos nos piquetes de greve às 5h da manhã, no frio, com uma manifestação no final, sempre carregando o pesado equipamento de fotografia dela, ela mal conseguia se mexer. Dessa vez a dor nas costas dela era maior que a minha. Ela tomou banho e se deitou enquanto eu preparava o jantar. Fiz macarrão, o prato preferido dela. Depois do jantar fiz uma massagem com óleo de arnica nas costas dela e preparei uma bolsa de água quente pra esquentar nossos pés sob o cobertor. 

Espero dormir melhor hoje, pois amanhã tem muito trabalho na horta coletiva.

O que comi em junho – lanche e jantar

Voltei com a segunda parte do post sobre o que comi em junho, pra ajudar quem precisa de inspiração pra diversificar – e vegetalizar- a alimentação. Depois de ter compartilhado alguns cafés da manhã e almoços, vim mostrar alguns lanches (da tarde) e jantares que comi mês passado.

Dessa vez o post vai ser mais curto, pois como eu estava mais focada nas refeições da primeira metade do dia – as principais pra mim – acabei fazendo menos registros do que comi na segunda metade do dia. Mesmo assim, ficou bem representativo do que como à tarde e à noite.

Lanche

Meu lanche varia de acordo com as atividades da tarde. Se estou trabalhando (no computador) em casa, geralmente como só uma fruta. Se vou pra natação no final da tarde (faço natação duas vezes por semana), tomo uma vitamina com leite de soja (que eu faço misturando extrato de soja – ou proteína isolada de soja – com água), fruta congelada e linhaça. Mais raramente, se o almoço tiver sido leve ou quando vou cuidar do jardim ou quintal (capinar, mesmo), faço algo salgado e com mais sustância. Nesses casos, quase sempre preparo uma “arepa” de carimã (mandioca puba) misturada com um tubérculo cozido (batata doce, macaxeira ou cará) e alguma pasta que tenha na geladeira.

À esquerda: goiaba. (Repita comigo: “Fruta também é lanche.”) À direita: “arepa”de carimã com batata doce e hummus, guacamole com algas e tofu fervido. (Receita da arepa: misturo carimã, que compro na feira do meu bairro, com batata doce cozida e amassada, tempero com sal -às vezes com temperos desidratados, como cebola, alho e ervas- , junto uma colherada de hummus pra dar liga, faço uma bolinha e achato numa frigideira antiaderente untada com azeite. Cozinho uns cinco minutos de cada lado, com a frigideira coberta, e voilà!)

À esquerda: hummus, batata doce cozida e uvas. À direita: vitamina de banana, leite de soja, cacau (100%) e linhaça (triturada). (Talvez eu tenha colocado uma colherinha de pasta de amendoim. Talvez não.)

À esquerda: vitamina de goiaba e banana com leite de soja e linhaça. À direita: grãomelete, macaxeira cozida e bolo de macaxeira e coco (esse não foi feito por mim, mas minha receita, praticamente idêntica, está aqui ) + café com leite de aveia. (Eu evito tomar café à tarde, porque perturba o meu sono, mas nesse dia eu devia estar precisando de mais energia, vá saber.)

À esquerda: suco verde feito com mastruz, hortelã, abacaxi e água de coco. Centro: manga. (Fruta também é lanche! Fruta também é lanche!) À direita: pão (que não vou chamar de “francês” porque minha esposa francesa acha isso uma afronta) recheado com grãomelete e mutabbal + café. (Talvez isso seja um café da manhã e eu tenha confundido com lanche e colocado a foto na pasta errada? Provavelmente. Mas fica a dica pro lanche.)

Acima: arepa de carimã, cará, linhaça e queijo de castanha fermentado (tudo junto dentro da massa) + melancia.

Jantar

Meu jantar é sempre uma refeição leve. Geralmente como os restos do almoço (em quantidades menores), ou então cuscuz, um tubérculo ou sopa. E janto cedo, por volta das 18h, porque sou uma senhora que gosta de estar na cama, com seus livrinhos, antes das 20h. (Deixa eu contar que dormir e acordar com as galinhas é um dos fatores mais importantes pra manter minha saúde mental e física em bom estado.)

À esquerda: cuscuz com coco, tofu mexido (essa é uma versão mais simples dessa receita) e quiabo grelhado + salada de repolho roxo, maçã e semente de jerimum tostada. À direita: sopa de feijão preto e beterraba, com semente de jerimum + manga. (Apesar de não ser a mesma, deixo minha receita de sopa de feijão pra você que ainda não sabe fazer sopa de feijão.)

À esquerda: hummus com pasta de amendoim e coentro, repolho roxo cru, abacaxi, tofu fervido, sementes de jerimum e batata doce cozida. À direita: salada com alface, rúcula, pepino, abacaxi, tofu fervido, semente de jerimum e molho de tahina.

À esquerda: cuscuz com coco, tofu fervido e hummus + salada de frutas. À direita: harira (sopa marroquina com lentilha, grão de bico, arroz e tomate) + ameixa.

Acima: quinoa com legumes e tomate, couve, tofu fervido e semente de jerimum + pinha.

Espero que esses dois posts te ajudem a diversificar o cardápio aí na sua casa e te inspirem a comer mais frutas e verduras (e a bater a meta de fibras, lembra?).

O que comi em junho – café e almoço

Em 2024, assim que voltei a morar em Natal, fiz um post mostrando o que como em uma semana. Depois fiz outro em 2025, quando estava na França (morei uma parte do ano lá e outra cá). Então, pra se tornar uma tradição anual, trouxe mais um “o que como em uma semana”, agora novamente em Natal. Só que dessa vez fui além.

Naquele primeiro post eu já tinha dito que não achava interessante compartilhar o que como em um dia, que é um tipo de conteúdo bem comum nas redes sociais. Um dia é muito pouco pra ter uma ideia de como alguém se alimenta. Tem dias que estamos mais atarefadas, outros em que a geladeira está vazia porque é véspera de feira, ou que comemos algo especial que aparece raramente na nossa alimentação. E esses dias, isolados, podem não ser representativos da sua alimentação mas, juntos, formam uma imagem mais fiel e completa. Por isso escolhi documentar uma semana inteira de refeições nos dois primeiros posts dessa série.

Como parte do meu trabalho de pesquisadora, mergulhei recentemente em artigos sobre a quantidade de vegetais e de fibras que as pessoas no Brasil consumem e decidi anotar (e fotografar) tudo que comi mês passado pra calcular o meu próprio consumo de vegetais e fibras. Como meu objetivo aqui é inspirar quem lê o blog a diversificar -e vegetalizar- mais a alimentação, faz sentido aproveitar esse material visual pra compartilhar o que como num período mais longo.

Escolhi refeições que fiz em junho (mostrar tudo ficaria longo demais) e como o objetivo é dar ideias pra vocês, separei tudo por refeição, não por dia. Nessa primeira parte compartilho cafés e almoços e, na segunda parte, mostrarei os lanches e jantares.

Café da manhã

Eu acordo bem cedo (5h15) e musculação é a minha primeira atividade do dia, geralmente 3 dias na semana (às vezes mais, às vezes menos). Nunca me exercito de barriga vazia, então como aveia dormida com chia, leite de soja e banana antes de ir pra academia (e não, não vou chamar de “pré-treino”). Quando volto da musculação, tomo café da manhã, ou melhor, tomo a segunda parte do café da manhã.

Nos dias em que não faço musculação, como a aveia dormida junto com o resto do café da manhã ou guardo pra comer no meio da manhã. Então se a aveia dormida não aparecer na foto, é porque comi em outro momento mas amo aveia e como praticamente todo dia.

1-Tapioca com tomate e cebola grelhadas, queijo de castanha firme (feito pela minha irmã) grelhado e orégano da minha horta + mamão com linhaça (triturada em casa) e iogurte de soja (natural, sem açúcar e feito por mim) + café (sempre preto e amargo – zero açúcar/adoçante). 2- Tapioca com hummus com pasta de amendoim e coentro + aveia dormida com chia, banana, 1 castanha do Pará e leite de soja + café. 3 – Pão de fermentação natural + hummus com pasta de amendoim e coentro + tofu fervido + aveia dormida (mesma receita acima) com manga + café.

1- Grãomelete fermentado + batata doce cozida + mamão + café. 2- Cará cozido + hummus com amendoim e coentro + tofu mexido + banana da terra (comprida) cozida (parece grelhada porque esquentei na frigideira, depois de cozida, sem óleo) + café. 3- Pão de fermentação natural + hummus com amendoim e coentro + aveia dormida com chia, leite de soja, 1 castanha do Pará, banana e abacaxi + café. 4- Tapioca recheada com grãomelete + tomate grelhado no azeite + mamão com semente de linhaça triturada + café.

1- Banana da terra cozida + grude (prato típico daqui, feito com goma de tapioca, coco seco fresco e sal) + tofu mexido + mutabbal (pasta de beringela defumada e tahina) + aveia dormida (mesma receita de sempre) com abacaxi. 2- Cará cozido + tofu fervido + hummus com amendoim e coentro + mamão + café.

1- Banana da terra cozida + pão de fermentação natural + patê de semente de girassol, coentro e salsinha (ainda não coloquei essa receita aqui) + creme fermentado de amendoim + mamão com linhaça triturada + café. 2- Grãomelete com tomate e cebola roxa grelhadas + creme fermentado de amendoim + aveia dormida com banana e nibs de cacau + mamão + café.

1- Tapioca com creme fermentado de amendoim + tofu fervido + mamão + café. 2- Tapioca com queijo de castanha fermentado e tomate fresco + café. 3- Aveia dormida com banana, maracujá (gosto de comer assim, com semente) e 1 castanha do Pará (como expliquei mais acima, isso é o que como antes de ir pra academia, assim que acordo).

1- Pão de fermentação natural + tofu mexido + queijo de castanha + patê de semente de girassol, coentro e salsinha + mamão + café. 2- Macaxeira cozida + tofu mexido + mamão com semente de linhaça triturada + café. 3- Cará cozido + tofu fervido e temperado (depois de fervido) com ervas secas + muta’abal + café. 4- Tapioca com grãomelete, tomate grelhado e orégano fresco + abacaxi com semente de linhaça + café.

1- Cuscuz temperado com verduras (tomate, cebola, alho, quiabo, leite de coco) + tofu fervido + patê de semente de girassol com coentro e salsinha + mamão + café. 2- Pão de fermentação natural + grãomelete + banana da terra cozida + patê de semente de girassol com coentro e salsinha + creme fermentado de amendoim + mamão + café.

Almoço

Agora que estou sozinha (Anne voltou- temporariamente- pra França), meus almoços seguem quase sempre a minha fórmula preferida: feijão (ou outra leguminosa) + legumes verdes cozidos + uma imensa salada crua com frutas e sementes. Não gosto de arroz nem de macarrão, então como pouco (só quando estou na casa da minha mãe). Gosto da minha salada sem molho, mesmo, mas ando fazendo molho de tahina, pra garantir minha dose de cálcio, e uso tanto pra acompanhar saladas cruas quanto legumes cozidos.

1- Feijão macaça (de corda) com coentro e cebolinha + quinoa com legumes + beterraba cozida (no vapor) com molho de tahina + alface, rúcula, pepino e abacaxi. 2- Feijão preto com maxixe + batata doce cozida + couve refogada (não dá pra ver porque está por baixo da salada, mas tem 100g de couve aqui), alface, pepino, repolho roxo, abacaxi, cebolinha + molho de tahina. 3- Fava com tomate + arroz + couve e abobrinha refogadas + molho de tahina + alface, rúcula, pepino, abacaxi e semente de girassol (tostada). 4- Feijão macaça + ensopado de jerimum com leite de coco, coentro e cebolinha + alface, rúcula, pepino, abacaxi + acelga e cenoura fermentadas com cúrcuma (do meu quintal!).

1- Grão de bico + alface, rúcula, pepino, tomate cereja, couve, manga, coentro, hortelã e cebolinha + molho de tahina (tem 190g de grão de bico aqui e + de 400g de legumes, então é uma saladona de 600g). 2- Feijão macaça com coentro e cebolinha + quinoa + couve + brócolis (no vapor) + molho de tahina + alface, rúcula, repolho roxo, broto de feijão e abacaxi. 3- Feijão carioca + milho verde refogado + abobrinha com tomate e macarrão + alface, rúcula e pepino + kimchi (acelga fermentada com pimenta – feito pela minha irmã) + salada de frutas (banana, abacaxi, manga, mamão e laranja).

1- Alface, rúcula, pepino, maçã, semente de girassol + acelga e cenoura fermentadas com cúrcuma + molho tahine + feijão verde com batata doce e coentro. 2- Feijão preto + arroz com cenoura + jerimum cozido (no vapor) + jiló refogado com tomate + alface, rúcula e abacaxi. 3- Rubacão + banana da terra grelhada + alface, rúcula, repolho roxo, pepino, mamão e semente de jerimum (tostada). 4- Feijão preto + brócolis cozido + batata doce + alface verde e roxa, rúcula, pepino, acelga, tomate + kimchi.

1- Rúcula, acelga, repolho roxo, maçã, semente de girassol e molho de tahina + restos de arroz da terra, feijão macaça e verduras, mais coentro e cebolinha. 2- Fava com couve + quiabo grelhado + batata doce + alface, rúcula, pepino, cenoura ralada, semente de girassol e molho de tahina + melancia. 3- Feijão preto + cuscuz + batata doce + rúcula e abacaxi.

1- Feijão carioca + arroz + chuchu refogado + alface, rúcula, pepino, mexerica + kimchi. 2- Feijão preto + cuscuz com verduras (quiabo, tomate, cebola, alho, coentro) + brócolis cozido + alface, rúcula, pepino, repolho roxo e semente de jerimum + melão. 3- Quinoa com couve, abobrinha, tomate, semente de girassol e molho de tahina + alface, rúcula e melão.

1- Feijão preto com bastante coentro + brócolis cozido com semente de jerimum e molho de tahina + alface, rúcula, pepino, repolho roxo, melão + acelga e cenoura fermentadas com cúrcuma. 2- Feijão preto com maxixe e berinjela + quiabo grelhado + jerimum cozido + alface, rúcula, abacate e abacaxi.

1- Feijão com maxixe e berinjela + couve-flor grelhada + alface, rúcula, pepino, beterraba cozida, semente de girassol + molho de tahina + abacaxi. 2- Feijão macaça com couve e tomate + alface, rúcula, pepino, repolho roxo, semente de jerimum e molho de tahina + melão. 3- Feijão preto + arroz + jiló + banana da terra grelhada + tomate, pepino e abacaxi.

Se você chegou até aqui e ainda não está com fome, parabéns! No próximo post volto com a segunda parte desse post, onde vocês verão meus lanches e jantares do mês de junho.

A meta que realmente devemos nos preocupar em bater

Nas últimas semanas fiz uma experiência. Pesei e anotei tudo que comi, depois fiz os cálculos pra saber quantos gramas de verduras e frutas eu como por dia e qual o meu consumo diário de fibra no momento.

Já disse em vários posts que as pessoas no Brasil não comem vegetais nem fibras suficientes. Essas duas coisas estão relacionadas, já que SÓ existe fibras em vegetais (ovos, laticínios e carnes de animais não tem fibra). Frutas e verduras desempenham um papel essencial na proteção contra Doenças Crônicas Não Transmissíveis (diabetes do tipo 2, hipertensão, doenças coronárias), que são as doenças que mais matam no Brasil e no mundo hoje. E por que o consumo de fibras, especificamente, é tão importante? Porque elas ajudam a controlar a glicemia e o colesterol, aumentam a saciedade e, algo importantíssimo mas tristemente ignorado por quase todo mundo, alimentam a microbiota intestinal. Um intestino com uma população microbiana diversa e saudável é essencial pra manter a saúde como um todo. 

Por isso a OMS recomenda o consumo diário de 400g de frutas, legumes e hortaliças e entre 25g-30g de fibras, no mínimo, por dia. Infelizmente, no Brasil, apenas uma em cada cinco pessoas bate a meta de 400g de vegetais e as Pesquisas de Orçamentos Familiares, feitas regularmente pelo IBGE, mostram que o consumo médio de fibras está bem abaixo do recomendado e continua diminuindo a cada ano. O aumento do consumo de ultra-processados explica esse triste fenômeno, mas com certeza a obsessão por proteína e a fobia do feijão (caaaarbo!) também estão empurrando a galera na direção errada.

Contrariamente ao que a obsessão por proteína sugere, não existe déficit de proteína na população (independente da classe social). O que realmente falta na dieta das pessoas brasileiras é feijão, verduras e frutas, por isso precisamos substituir a insanidade atual de “bater meta de proteína”, que já colonizou a cabeça até das pessoas veganas, por “bater a meta de fibras e de vegetais”.

Alguns países estão numa situação ainda pior do que a nossa, é verdade. No Reino Unido, onde morei por um tempo, existe, desde 2003, uma campanha criada pelo governo chamada “Five a day” (“Cinco por dia”). Lá preferem falar em “comer 5 porções de verduras e frutas por dia”, o que é uma maneira mais simples e visual de falar “400g de vegetais”. Apesar desses esforços, em 2023 somente uma em cada sete pessoas adultas, e menos de uma em cada dez pessoas entre 11 e 18 anos, consumia os 400g de frutas e verduras diárias recomendados! Preciso dizer que lá a obsessão por proteína (animal) também virou surto e até salgadinhos de pacote e sorvetes passaram pelo raio hiperproteinador?

Voltando pra minha cozinha, e pra minha pequena experiência, fiquei muito feliz ao constatar que, em uma semana típica, eu como por volta de 800g de frutas e verduras por dia, enquanto o meu consumo diário de fibras fica em torno de 50g. Ou seja, o dobro das recomendações da OMS, comendo apenas alimentos integrais (não uso suplemento de fibras)! 

Está se perguntando se isso é fibra demais? Desculpa insistir, mas já reparou que ficamos desconfiadas (com razão) com o  consumo de qualquer coisa em excesso mas, no cenário atual, essa regra de bom senso básico parece não se aplicar à proteína? Todo dia vejo um artigo, um vídeo, um podcast falando sobre como ingerir 100g, 120g, 150g até 200g de proteína (animal) por dia, como se limites não se aplicassem a esse nutriente “santificado”, supostamente capaz de resolver todos os seus problemas!

Sim, nada em excesso é saudável. Porém, não estou sozinha em pensar que 50g de fibras, consumidas dentro de uma alimentação integral, trás muitos benefícios. Vou repetir: não uso suplementos de fibras, apenas como vegetais em abundância. Faz muitos anos que consumo mais de 40g de fibras por dia, como prova esse post de 2012, e até hoje ainda não encontrei uma única desvantagem nisso. 

Claro que se você é uma pessoa brasileira média, que consome apenas 15g de fibras por dia (ou menos, o que não é incomum), triplicar o seu consumo da noite pro dia vai ter consequências. Pode ser que seu intestino fique estranho com a mudança súbita, ou que você fique com gases, já que as bactérias que povoam seu intestino, e que são essenciais pra manter nosso sistema imunológico e saúde geral funcionando, vão se deparar, de repente, com uma montanha de comida (de novo: fibras são o alimento das bactérias que povoam nossa microbiota intestinal). Mas acredito que tem poucas chances disso acontecer. Vamos ser realistas! Se você tem uma alimentação pobre em vegetais, as chances de você passar a comer uma grande quantidade deles de uma hora pra outra são bem pequenas, né? Você vai precisar aprender a comer mais vegetais – e a gostar disso- e isso vai fazer com que leve um certo tempo até que você esteja comendo 50g de fibras por dia. E talvez isso nunca aconteça, o que não é de jeito nenhum um problema, pois não estou sugerindo que todo mundo tem que passar a consumir 50g de fibras por dia.

O que estou tentando dizer nesse post é o seguinte. No caso de pessoas como eu (vegana, que adora verduras e tem uma alimentação fresca e totalmente integral, sem ultra-processados), ingerir 50g de fibras por dia não é algo excessivo, muito menos perigoso. Se você me perguntar, vou dizer que é algo bem fácil e delicioso! E a segunda coisa que vim dizer com esse post, a mais importante, é que consumir fibras suficiente todo dia é vital pra saúde e todo mundo deveria se esforçar pra atingir pelo menos os 30g por dia recomendados pela OMS, assim como os 400g de frutas e verduras. 

Como fotografei o que comi enquanto estava fazendo o experimento, o próximo post vai ser mais um “o que comi em uma semana”, pra mostrar, com exemplos concretos, o que é uma alimentação rica em vegetais. Com um pouco de sorte, isso vai servir de inspiração pras leitoras que estão com dificuldades pra imaginar refeições com mais fibras e mais ricas em vegetais. 

O silêncio das pantufas

Em 2023 eu estava morando (mais uma vez) na França e constatando, metade triste, metade revoltada, o aumento da xenofobia e das políticas anti-imigrantes. Naquela época presenciei um acontecimento que me mexeu muito e senti necessidade de escrever sobre ele. Meu relato foi enviado como newsletter pras apoiadoras do blog em março daquele ano e, continuando meus planos de trazer algumas dessas newsletters aqui pro blog, vim compartilhar esse texto hoje.

“Eu estava no trem, voltando pra casa depois de uma palestra em Nantes, quando presenciei o ocorrido. 

Em uma das paradas um passageiro subiu e sentou duas poltronas atrás da minha. Eu não teria percebido a presença dele se não fosse pelo que aconteceu em seguida. 

O fiscal do trem pediu pra ver a passagem dele. Depois de alguns segundos de silêncio o fiscal, percebendo que o passageiro era estrangeiro, repetiu o pedido em Inglês. Como o passageiro parecia não ter passagem, o fiscal disse que ele teria que comprar uma ali, com ele, mas o passageiro seguia em silêncio. Foi então que o fiscal pediu pra ver os documentos dele e escutei pela primeira vez a voz do passageiro, mas tudo que ele disse foi “no”. Não dava pra saber se o “não” significava que ele não queria mostrar seus documentos ou se ele não tinha documentos. Naquele momento eu, que já estava de orelha em pé desde o início da conversa, agucei a audição pra acompanhar o desenrolar dos eventos. O passageiro era, claramente, um refugiado afegão e eu estava com medo do que aconteceria com ele.

O fiscal se mantinha educado, mas depois de alguns minutos tentando fazer o rapaz afegão mostrar seu passaporte, a conversa tinha se tornado “ou você mostra seu passaporte, ou vou alertar a polícia imediatamente e você será entregue às autoridades na próxima parada do trem”.

Ao ouvir a palavra “polícia” meu coração disparou. Além de ser detido, o rapaz, por não ter documentos nem visto, correria o risco de receber uma ordem judicial pra sair do território francês. Se não obedecesse, isso poderia terminar em prisão, seguido de deportação. Eu precisava intervir, mas e se eu piorasse o caso do rapaz, chamando mais atenção pra situação dele? E se os fiscais me dissessem que eu não tinha nada que me meter ali? As outras passageiras e passageiros olhavam pela janela, sem prestar a mínima atenção no que estava acontecendo. Ou sem se importar. 

Enquanto eu me debatia com esses pensamentos, o fiscal chamou um segundo fiscal e deu ordem ao rapaz afegão de segui-los. Entraram no corredor, o espaço que separa dois vagões, e eu podia ver a discussão entre os fiscais e o rapaz atrás das portas de vidro, sem ouvir uma palavra do que era dito. Meu coração batia cada vez mais forte. Eu tinha que fazer alguma coisa. Se eu estivesse no Brasil não teria hesitado um segundo, mas o fato de também ser uma estrangeira nessa terra faz com que o medo de não ser legítima me acompanhe sempre. E me faz hesitar nesse tipo de situação.

Cinco minutos depois os fiscais escoltaram o rapaz de volta ao seu assento e como eu estava virada pra trás, acompanhando tudo, pela primeira vez nossos olhos se cruzaram. Tentei esboçar um sorriso e ele pareceu surpreso e confuso com a minha tentativa tímida de empatia. Os dois fiscais se juntaram ao grupo de fiscais, seis ao todo, sentados algumas fileiras na minha frente. Será que eles já tinham chamado a polícia? Será que ainda daria tempo de fazer alguma coisa pra ajudar o rapaz afegão?

Agora eu tinha olhado nos olhos dele e sabia que a partir daquele momento sempre que o rosto daquele rapaz aparecesse na minha memória ele seria acompanhado de uma imensa vergonha. Vergonha de não ter feito o certo. Eu tinha dinheiro na carteira e, além da possibilidade de escutar uma resposta grosseira do fiscal, eu não corria risco nenhum. Eu poderia viver com a vergonha de ser destratada e humilhada por fiscais dos caminhos de ferro franceses na frente de um vagão cheio de pessoas francesas bem vestidas. Mas viver com a vergonha de não ter sido solidária com uma pessoa que precisava da minha ajuda seria muito mais doloroso. Tirei a carteira da bolsa, respirei fundo pra conter a emoção e levantei.

-Eu gostaria de regularizar a situação do rapaz que não tem passagem – eu disse pro primeiro fiscal. 

Diante da cara de incompreensão dele, repeti:

-Aquele rapaz está viajando sem passagem e eu gostaria de comprar uma passagem pra ele – repeti calmamente, me esforçando pra falar o meu melhor francês.

Antes que dissessem que não era da minha conta, acrescentei: “Eu também sou refugiada e a situação dele me tocou.” Não sou refugiada, mas pra mim a solidariedade é horizontal. Essa terra é de todo mundo, ou não é de ninguém.

O primeiro fiscal disse, com um certo desdém, que a situação já estava resolvida. 

-Vocês chamaram a polícia?- perguntei. 

-Ele pagou a passagem. 

-Então vocês não vão chamar a polícia pra prender ele, não é?- insisti.

O fiscal, que era árabe, se levantou, se aproximou de mim e começou um discurso que faria chorar Frantz Fanon: 

-Veja, eu também já fui uma pessoa indocumentada. Eu me compadeço com a situação dessas pessoas, mas não posso dar mole. Se ele tivesse vindo falar comigo assim que subiu no trem, explicando a situação, eu teria sido compreensivo. Mas ele se escondeu, pensando que a gente não ia achar ele. Isso eu não tolero! Se deixarmos passar um, ele vai contar pros outros e todos os refugiados vão querer fazer a mesma coisa. Isso eu não admito! É errado!

Escutar um homem racializado, árabe (o grupo social mais discriminado na sociedade francesa, junto com os Rom), defender o mesmo sistema que o discrimina me dói. Eu queria dizer isso pra ele. Dizer que ele estava defendendo as pessoas que nos dominam, que nos colonizam. Que por mim todas as pessoas refugiadas poderiam pegar aquele trem sem pagar e que isso seria o mínimo! E que ele sabia muito bem que nenhuma pessoa refugiada na França, ou na Europa, tem razões pra confiar em fiscais de trem ou em qualquer autoridade. Que essas pessoas só conhecem a violência do Estado e de seus agentes e que de todo jeito ele não teria deixado o rapaz viajar sem passagem, coisa nenhuma, independente da maneira como ele tivesse pedido. Mas não era o momento de dizer aquilo. Tudo que eu queria era saber se eles tinham chamado ou não a polícia.

-Chamaram ou não chamaram a polícia?- eu repetia.

Depois de terem me garantido que não, voltei pra minha poltrona aliviada, mas ainda remexida pelo esforço em controlar minhas emoções. Foi aí que aconteceu uma coisa curiosa.

O segundo fiscal, que também era árabe, veio até onde eu estava, se aproximou do meu rosto e falou em voz baixa:

-Eu só queria que você soubesse que a passagem comprada a bordo do trem custa 80 euros, mas como eu vi a situação difícil do rapaz, eu fiz por 20 euros. É importante pra mim que você saiba disso, porque você foi muito gentil querendo ajudá-lo.

-Muito obrigada por ter feito isso por ele – falei com a mão no coração, um gesto que aprendi com amigas árabes.

-Eu que te agradeço pelo gesto tão gentil -ele respondeu, também com a mão no coração.

Quando chegamos no terminal, em Paris, decidi esperar o rapaz refugiado descer do trem e segui-lo discretamente pra ter certeza que não teria policiais esperando por ele na estação. Enquanto todo mundo pegava casaco e malas, criando um aglomerado de gente no corredor do trem, um passageiro que também viajava no nosso vagão chamou ele e disse algo que eu não ouvi. Se tratava de um senhor negro, de idade avançada e muito elegante. Ele era o único outro passageiro racializado, além do rapaz afegão e eu mesma, naquele vagão. Os dois desceram do trem juntos e foram andando na direção do metrô. Como eu também iria pegar o metrô, continuei caminhando alguns metros atrás dos dois. Quando entrei na estação vi o senhor comprando passagens de metrô pro rapaz refugiado e explicando como chegar aonde ele queria ir.

Fazer o certo num mundo injusto tem sempre um custo e é ainda mais difícil ser a primeira a sair do estado de inércia de um grupo de indiferentes. Um camarada do nosso coletivo tem um moletom onde está escrito: “Não é o barulho das botas que me dá medo, é o silêncio das pantufas.” O que me dá forças pra continuar na luta é saber que depois que a primeira pessoa se levanta contra uma injustiça, fica mais fácil pras outras se levantarem também.”

Minha mãe nunca disse que me amava

Do início de 2022 ao início de 2025 escrevi uma newsletter pras pessoas que apoiam o blog. Minha ideia era agradecer a generosidade das minhas leitoras fazendo o que faço melhor: contando histórias (cozinhar é a segunda coisa que faço melhor). Infelizmente, quando minha vida ficou tão instável e caótica que encontrar espaço mental pra escrever textos extremamente pessoais se tornou impossível, tive que encerrar a newsletter. Mas era uma delícia escrever aqueles textos e alguns fizeram tanto sucesso que foram compartilhados fora do círculo de apoiadoras do blog e chegaram em pessoas que eu nem conhecia! Por isso, de vez em quando, me pego sonhando em retomar o projeto.

Enquanto isso não acontece, e porque esse blog segue com problemas técnicos e não posso carregar fotos novas (o que impossibilita a publicação de novas receitas), pensei em publicar algumas das newsletters aqui, o que seria também uma maneira de impedir que elas desapareçam. Como eu disse, são textos muito pessoais e se você é leitora recente desse blog, talvez estranhe a mistura de relatos pessoais com receitas e artigos sobre diferentes lutas anti-dominação. Mas o blog sempre misturou o político com o pessoal (o pessoal segue sendo político). Tudo começou com aquela história de amor improvável de 2012, quando eu morava na Palestina (acho que o post mais lido no blog até hoje) e dali em diante nunca mais parei. Falei de como tentei reconquistar uma ex com alcachofras (outro post extremamente popular aqui), sobre quando cheguei pela primeira vez em Jerusalém e me apaixonei, sobre um protesto feminista que teve o efeito de dez anos de terapia pra mim e até sobre o meu casamento no interior da França . Tem coisas ainda mais pessoais aqui, mas te convido pra fazer uma “caça ao tesouro” nos arquivos do blog e descobrir sozinha 😉

Agora voltemos à newsletter.

Essa primeira que vou compartilhar foi publicada em janeiro de 2023 e se chama “Minha mãe nunca disse que me amava.”

__________________________________________________________________________________________________

“Até alguns meses atrás, essa era a história que eu contava. “Minha mãe não gostava de carinho, nem de dizer que amava a gente.” Falo no passado, embora ela esteja viva, porque a mãe a quem faço referência aqui já se foi. O Alzheimer levou a mente dela pro lugar misterioso pra onde ele leva a mente das pessoas, enquanto seus corpos continuam aqui entre nós, habitados por uma personalidade cada dia mais diferente da que conhecíamos. 

Novembro passado eu estava com três amigas de Recife, conversando sobre comida como veículo pra expressar amor, e essa evidência me atingiu em cheio. A partir daquele momento uma parte da minha história foi re-significada.

Comecei a trabalhar muito jovem. Aos 16 eu já saía de casa antes das 7h e voltava depois das 23h. Quando acordava, minha mãe já estava de pé, já tinha feito o café e já tinha ido comprar o pão que eu levava na mochila e que me servia de almoço. Quando eu chegava, depois de 8h de trabalho, 4 ônibus e mais de 4 horas de aulas na Escola Técnica, minha mãe estava me esperando sentada numa cadeira de balanço. Ela era a única pessoa acordada na casa naquela hora, e a estratégia dela pra não sucumbir ao cansaço e adormecer também era rezar o terço. Eu atravessava o portão, cumprimentava minha mãe, ela dava graças a Deus por eu ter chegado bem, se levantava e colocava na mesa um prato de comida tirado do forno. Era lá que ela guardava minha parte de jantar, quase sempre cuscuz. Eu comia devagar, enquanto minha mãe compartilhava os acontecimentos do seu dia. Lembro de não fazer quase nenhum comentário, as poucas forças que restavam no meu corpo adolescente eram usadas pra levar a garfo até a boca, que, de todo jeito, estava ocupada com o cuscuz. Mesmo assim, minha mãe parecia apreciar esses momentos onde eu ouvia em silêncio seus monólogos sobre a vida dentro das paredes de casa, que eram o limite do mundo dela. 

A conversa durava exatamente o tempo que eu levava pra comer aquele prato de cuscuz, e depois de encher a barriga, e os ouvidos, eu pedia a benção dela e cada uma seguia em direção ao seu quarto. Nosso ritual noturno se repetiu sem falha durante anos e aqueles eram os únicos momentos em que minha mãe conversava comigo. 

É impossível saber com exatidão o que ainda existe na memória da minha mãe mas tenho a impressão que ela comporta apenas fragmentos. Na parte física, ela perdeu quase toda a autonomia e precisa de assistência pra tomar banho, se vestir, ir ao banheiro e, claro, se alimentar. Hoje somos nós que preparamos a comida dela. Nós, mulheres: as filhas, as netas, uma sobrinha e uma cuidadora.

Estive em Natal no final do ano passado e passei dois meses cozinhando as refeições da minha mãe. Encher o prato dela de comida, preparada por mim, enchia, simultaneamente, o meu peito de alegria. Sua memória gustativa ainda não se foi, e hoje é através dela que eu reencontro a minha mãe. Por isso acho muito importante oferecer os alimentos que ela sempre gostou. Vê-la sentir prazer ao comer é um momento mágico. Ao mesmo tempo em que ela deixa o mundo distante pra onde o Alzheimer a levou e volta pra materialidade do presente, quando ela come o que gosta sinto que ela se aproxima um pouco da pessoa que era antes de adoecer. E essa pessoa, entre outras coisas, era a minha mãe.

A história que conto hoje é a seguinte: “Minha mãe dizia que me amava através da comida que ela preparava pra mim”. E eu vejo que não era só o meu sustento que ela garantia naqueles momentos. Da maneira dela, sem palavras de amor nem gestos afetuosos, ela estava alimentando a nossa relação também.

25 anos depois, os papeis se inverteram e eu tento, da mesma maneira que ela fazia quando eu era adolescente, nutrir a nova relação que se estabeleceu entre nós através da comida. Hoje é ela quem come em silêncio enquanto eu falo. E quando, sentada na mesma mesa onde ela me alimentou por tantos anos, minha mãe me olha sorrindo, entre duas colheradas, e pergunta se eu quero um pouco da comida dela, meu coração perde dois batimentos e tudo que eu desejo é habitar esse instante onde ela voltou a ser a minha mãe e eu voltei a ser a filha dela.”

__________________________________________________________________________________________________

Reler esse texto três anos depois me emocionou. Hoje a situação da minha mãe piorou bastante. Ela já não se senta mais à mesa. Não come com a própria mão. A fala já abandonou completamente a boca dela. A mente se mudou de vez pra essa terra onde só ela tem acesso. Minha mãe também não tem mais cuidadora paga, por isso me mudei de volta pro Brasil há um ano e divido com minhas irmãs e uma prima os cuidados com ela. Usar a comida como uma maneira de comunicar amor se tornou muito difícil. Ela come cada vez menos, às vezes não quer comer durante muitas horas. Mas ainda tem uma única coisa que ela gosta muito: mamão. Então oferecemos mamão à ela todos os dias e ela parece relembrar o prazer de comer quando a fruta encontra a língua.

A única coisa que ainda a faz reagir, às vezes, é quando chamamos o nome dela. Há tempos ela não responde mais se eu chamar “Mãe!” mas, de vez em quando, e isso está ficando cada vez mais raro, eu chamo o nome dela e uma mágica acontece: por um segundo ela volta a habitar o corpo e responde. Sei que isso parece pouco. Muito pouco. Quase nada. Mas é o último sopro de personalidade que ainda não deixou completamente o corpo da minha mãe. A única interação que ainda temos com ela. Então, pra mim, isso é tudo.

Quando ela parou de responder ao “mãe”, mas seguiu respondendo ao nome dela, pensei: “Esqueceu da gente, mas ainda lembra quem ela é!” Não recordo ter ficado triste, e sim ter concluído que fazia sentindo que agora, no final da vida, ela voltasse pro começo, quando era só ela, sem a gente. Já me conformei que minha mãe se foi.

Mas quando falei “Mãe!” semana passada e ela respondeu – com um fio de voz quase inaudível- “Oi, filha!”, o que não fazia há muito tempo, me joguei na cama dela e a cobri de beijos enquanto repetia que eu era a filha dela, sim.

Quer organizar sua alimentação? Comece por aqui.

Recentemente uma amiga que não tem muitas habilidades na cozinha me pediu ajuda. A rotina de trabalho dela mudou e ela precisa organizar o preparo dos alimentos e fazer marmitas pra semana. Depois de uma conversa onde tentei entender as necessidades dela, pra poder criar um plano que fizesse sentido, e de ter passado horas relendo posts antigos e procurando receitas pra ela, pensei que deve ter muita gente por aí precisando dos mesmos conselhos. Mas antes de falar sobre fazer marmitas pra semana, deixa eu tentar te convencer que talvez essa não seja a melhor solução.

Quando eu trabalhava como chef a domicílio, tanto em Bruxelas quanto em Berlim, eu costumava preparar componentes de pratos, pra que minhas clientes pudessem montar o cardápio na hora das refeições. Eu fazia um ou no máximo dois pratos prontos por semana, pra que elas comessem nos dias em que tivessem zero tempo pra cozinhar, mas a maior parte do meu trabalho consistia em cozinhar leguminosas e cereais (separados), higienizar folhas, assar legumes e preparar molhos. Na hora de comer, elas misturavam isso com aquilo, juntavam o molho e montavam pratos diferentes de acordo com as vontades e necessidades do momento. Preciso dizer que essas clientes gostavam de cozinhar e não queriam delegar inteiramente esse ato no cotidiano.

Cozinhar é uma fonte de alegria e prazer pra mim, mas não tenho tempo nem energia pra preparar uma refeição do zero todos os dias. Ao organizar a alimentação da semana aqui em casa dessa maneira, tenho o melhor dos dois mundos: algumas horas de trabalho intenso por semana rendem comida saborosa e variada, pronta em poucos minutos todos os dias.

Pra mim, essa maneira de organizar a rotina alimentar é muito melhor do que congelar várias marmitas prontas. Quem realmente não gosta de cozinhar ou tem pouquíssimo tempo pra se alimentar vai achar a ideia de ter marmitas prontas e congeladas uma solução superior. Tira do congelador, coloca no microondas pra descongelar enquanto faz outra coisa (frequentemente essa “outra coisa” é mexer no celular – e sim, eu julgo) e depois come. E tudo bem se o preço da conveniência for comer a mesmíssima coisa todos os dias. Se dá certo pra você, beleza!

Mas deixa eu te contar que, analisando direitinho, o outro método (cozinhar componentes e montar na hora de comer) talvez exija menos esforços e a comida vai ficar pronta no mesmo tempo em que o microondas levaria pra descongelar a marmita. Sem falar que tem uma grande vantagem extra: produzir refeições mais variadas e ter mais liberdade pra decidir o que comer. Por isso estou aqui compartilhando as dicas que gostaria de dar pra qualquer pessoa que queira se alimentar melhor e não tenha dinheiro pra contratar uma chef a domicílio.

Então bora lá. O problema que estamos tentando resolver aqui é: ter comida saudável e saborosa na mesa todos os dias, passando pouco tempo na cozinha. Claro que “pouco tempo” é relativo. Precisamos aceitar que, pra comer bem, vai ser preciso passar algumas horas por semana na cozinha. E vamos reconhecer também que ter uma alimentação saudável precisa ser uma prioridade, pois é um dos pilares da saúde e sem saúde, perdemos qualidade de vida e todos os outros aspectos da existência são prejudicados. É mais difícil, às vezes impossível, lutar pelos nossos direitos, cuidar das nossas amizades e amores, se divertir e desfrutar da vida quando estamos doentes.

Primeiro, as compras

Adoro feiras livres e sabemos do papel positivo que elas desempenham na alimentação da população. Percebo que, nas semanas em que não posso ir à feira, minha alimentação fica menos diversa e saborosa, mesmo tendo comprado verduras e frutas no supermercado. Mas talvez você prefira fazer as compras no supermercado ou num sacolão. Tudo bem, as dicas se aplicam em todos os casos.

Planejar a feira fica mais simples se você analisar os hábitos alimentares da sua casa primeiro e comprar pensando nas refeições que serão preparadas durante a semana. A fórmula do almoço, pra você, é “feijão + arroz + mistura”? Prefere fazer um prato único? Gosta de comer salada todos os dias? Isso vai te guiar na hora de pensar em receitas/cardápios e determinar suas compras. Pense primeiro no seu padrão alimentar, ou no da família, e, a partir dele, escolha os alimentos que garantam as refeições da semana na sua casa. Assim, as compras ficam mais práticas, econômicas e alinhadas aos gostos e necessidades de quem vive na casa.

Uma pergunta que pode ajudar, e que uso pra me guiar, é: o que preciso comer todos os dias/toda semana pra me sentir bem? Sei que preciso comer pelo menos uma fruta por dia, que tem que ter salada crua no almoço, que preciso comer legumes verdes (couve, brócolis, quiabo) algumas vezes na semana e que feijão (ou outra leguminosa) tem que aparecer todos os dias no meu prato. Isso é o mínimo pra mim, em termos de alimentação, e saber disso me ajuda a não voltar da feira com várias sacolas, mas sem o essencial. Se você não conhece a resposta pra essa pergunta (porque nunca prestou atenção em como se sente ao se alimentar) ou se sua resposta não vai funcionar como guia pra ter uma alimentação saudável (entram aqui respostas como “sobremesas” e “ultraprocessados”), eu escrevei um guia bem simples e prático (em 2013!) que pode te ajudar: Guia Papacapim de Alimentação Saudável – 12 hábitos simples que transformarão a sua alimentação.

Outra dica importante: em vez de seguir uma lista fixa, seja mais flexível, adaptando as compras conforme a qualidade, a disponibilidade e os preços dos alimentos. Ter em mente algumas categorias básicas, de acordo com seu padrão alimentar — as minhas são: temperos frescos, verduras pra salada, legumes para cozinhar, tubérculos e frutas — ajuda a não esquecer nada e permite aproveitar melhor as ofertas do dia.

Importante! Antes de sair para comprar, confira o que ainda tem na geladeira, no congelador e na fruteira pra evitar desperdícios. E falando em desperdício…

Sobre evitar desperdícios

Para evitar desperdícios de frutas, a principal estratégia é comprar alimentos em diferentes estágios de maturação, garantindo que amadureçam ao longo da semana e possam ser consumidos no momento ideal. Também é possível aproveitar promoções de frutas muito maduras para congelá-las e utilizá-las depois em vitaminas, sucos ou outras preparações. A cada quinze dias compro palmas de banana ultra maduras (que custam menos) e assim que chego em casa, congelo tudo pra fazer vitaminas. Parece óbvio, mas vale ressaltar que isso funciona porque quase sempre tomo uma vitamina de banana no lanche. Uma dica pode ser ótima na teoria, mas na prática pode não fazer sentido pra você.

As verduras e legumes estão murchando no fundo da geladeira? Faça uma sopa! Restos de legumes cozidos e de feijão (ou outra leguminosa)? Junta tudo e bate no liquidificador! Sopa é uma maravilha, pois além de ser a rainha do reaproveitamento de alimentos, ainda deixa sua alimentação mais saudável e econômica com um mínimo de tempo e esforço.

Ao chegar da feira (ou supermercado/sacolão) higienize os vegetais antes de guardar. Isso aumenta a conservação e facilita muito o uso durante a semana. (Aprenda a higienizar vegetais aqui.) Depois de lavadas, enrolo folhas e ervas frescas em um pano de prato limpo, coloco dentro de recipientes fechados e guardo na geladeira. Legumes e frutas maduras também vão pra geladeira, enquanto frutas verdes, tubérculos (batata doce, cará), alho e cebola vão pra fruteira e ficam em temperatura ambiente. Alguns alimentos, como macaxeira descascada e frutas muito maduras (descascadas e cortadas), vão pro congelador.

Essa organização torna o acesso aos alimentos mais prático, economiza tempo na cozinha e reduz perdas ao longo da semana.

Elaborar cardápios e colocar a mão na massa

Ao invés de uma lista de receitas, o cardápio pode servir como um guia da ordem em que os alimentos serão consumidos, tornando o preparo das refeições mais prático. Se você deseja melhorar a alimentação, aproveito pra dizer que essa etapa pode te ajudar a atingir seu objetivo. Ao invés de tentar mudar tudo de uma vez, sugiro que comece com mudanças simples e sustentáveis, como incluir uma salada crua no almoço, ou comer uma fruta no lanche.

Agora chegou a hora de acender o fogão. Retire um momento na semana pra fazer a base do cardápio, aquelas preparações que precisam de mais tempo. Estou falando de feijão e arroz (ou outro grão), mas também de tubérculos (batata doce, inhame, cará, macaxeira) que podem ser a base do seu café da manhã e jantar ao longo da semana. O feijão é a única coisa que congelo: faço uma vez por semana, deixo uma parte na geladeira (que vai ser consumida rapidamente) e congelo a outra parte em porções individuais.

Também cozinho no vapor ou asso um ou dois legumes (os que preparo com mais frequência: brócolis, couve-flor, jerimum e beterraba). Isso me ajuda muito nos dias em que o tempo está muito curto ou quando volto pra casa muito cansada, depois de um longo dia de cuidados com a minha mãe.

Complemento a preparação da alimentação com mais 2 coisas. 1- Faço molho de tahine, que vai acompanhar todas as saladas cruas da semana e os legumes no vapor. 2- Descasco/corto uma fruta grande (geralmente um abacaxi ou um pedaço de melancia), que vai acompanhar o almoço e servir de lanche por alguns dias.

Você ganha muitos pontos extras se fizer uma pasta/patê em quantidade pra semana inteira. Com um mínimo de planejamento, é possível substituir produtos ultraprocessados (“queijos” e “requeijões” vegetais, por exemplo) por opções simples, saborosas, muito mais saudáveis e muito mais baratas. E com uma pastinha sempre pronta na geladeira + algum tubérculo cozido, você tem uma refeição pronta pra ser consumida, que pode ser seu café da manhã, jantar ou lanche. (Precisando de inspiração nessa área? Aqui está a lista de pastas, cremes e patês que publiquei no blog.)

Na prática, como funciona?

Vou descrever como preparo os almoços aqui em casa, seguindo esse método de “preparar componentes ao invés de marmitas”.

Quando o relógio vai chegando perto das 12h, vou pra cozinha e vejo o que tem pronto na geladeira. Se o preparo foi feito direitinho, vou encontrar feijão, um grão (como quinoa ou arroz), um tubérculo e dois legumes cozidos. Esquento uma porção de feijão + o grão (ou tubérculo, dependendo do que estiver com vontade de comer) + um dos legumes cozidos. Não tenho microondas e esquento tudo numa frigideira com tampa. Enquanto a comida esquenta, escolho algumas folhas (que já foram higienizadas) e corto ou ralo uma verdura crua (pepino, cenoura) pra fazer a salada, que complemento com uma fruta (que já está cortada), sementes de girassol ou de jerimum e o molho de tahine. Às vezes o molho vai sobre o legume cozido, não na salada (não faço questão de molho na salada). E voilà! Tudo fica pronto em 5 minutos.

Se eu estiver de plantão com a minha mãe, geralmente como na casa dela, mas às vezes levo a minha marmita, que preparo simplesmente reunindo o feijão + grão + legume cozido num recipiente e a salada, em outro.

Nos dias em que tenho mais tempo, ou que estou com vontade de comer algo diferente, preparo a salada do mesmo jeito e esquento o feijão (a base do meu almoço), mas faço uma verdura mais caprichada. Geralmente faço couve refogada, quiabo grelhado ou quiabada (no coco), banana da terra grelhada, ensopado de jerimum no leite de coco… Ainda assim consigo preparar o almoço todo em no máximo meia hora e como sempre faço uma porção grande, essa meia hora também rende o almoço do dia seguinte e um complemento de jantar.

“Li até aqui e ainda quero fazer marmitas e congelar pra semana.”

Tudo bem, a amiga do início do texto também decidiu, após a nossa conversa, que ainda assim gosta mais da ideia de ter marmitas completas congeladas esperando por ela na volta do trabalho. Nesse caso, eu escrevi um post bem detalhado, com muitas fotos, explicando como cozinhar pratos pra semana inteira.

Espero ter sido útil. Se ficou alguma dúvida ou se quiser expandir a aula, recomendo muito que leia os posts abaixo:

Um breve curso sobre fazer feira, comer bem e evitar desperdício na cozinha – Parte 1

Um breve curso sobre fazer feira, comer bem e evitar desperdício na cozinha – Parte 2

O paradigma da mistura parte 1 – pra aprender a cozinhar vegetais com mais sabor.

O paradigma da mistura – Parte 2 – pra repensar a maneira como estruturamos os cardápios (e preparar refeições em menos tempo).

O que como em uma semana – muitas fotos pra servir de inspiração na hora de variar o cardápio.

Nutrição vegetal popular

No último post comecei a falar sobre o projeto que fizemos nos meses de março e abril, junto com cozinhas populares e solidárias em Recife e Fortaleza. Foi um projeto piloto pra levar informação sobre nutrição e saúde comunitária, além de oferecer formação em receitas vegetais, realizado por uma pequena equipe de mulheres veganas: duas nutricionistas e uma cozinheira. A cozinheira sou eu, que também fiquei responsável pela coordenação do projeto. Leila D’Barsoles executou o projeto comigo em Recife e Sara Ortins, em Fortaleza. Em Recife, contamos também com a participação especial da minha amiga Bárbara Bastos, uma das fundadoras da UVA, que nos ajudou em uma das oficinas de culinária com o MTST.

A ideia surgiu na minha cabeça uns anos atrás: e se uma das tarefas do Veganismo Popular defendido pela UVA fosse formar “agentes populares de nutrição”? Eu me inspirei no modelo de Agentes Populares de Saúde do SUS mas depois descobri que o MST também tem um programa de Agentes Populares de Saúde que é ainda mais próximo do que eu tinha em mente. Comecei a pensar nisso enquanto viajava pelo Norte e Nordeste fazendo reportagens sobre a destruição (nas matas, nos rios, na terra e na vida das pessoas e dos outros animais) causada pelo avanço de pecuária em territórios tradicionais. E pude constatar que o estrago que o complexo soja-boi causa na alimentação de populações tradicionais é assustador. E isso também chegou no prato de quem vive em contexto urbano, principalmente nas populações mais vulneráveis. O Brasil atravessa um período de intensa mudança de padrão alimentar. Comemos cada vez mais carne de boi, frango e ultraprocessados e cada vez menos milho, farinha de mandioca e até feijão, que costumava ser a base da nossa alimentação.

No Brasil de hoje, apenas uma em cada cinco pessoas consome a quantidade recomendada de frutas e verduras pela OMS, que é de 400g (que, convenhamos, é bem baixa!). E apenas 34% da população consome frutas e verduras regularmente. Esses dados vem de uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais realizada com adultos (18 anos ou mais) residentes em 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal, de 2008 a 2023. Eu vi essa realidade de perto durante aquela viagem-reportagem e voltei pra casa convencida de que tentar mudar isso poderia ser uma das tarefas do veganismo popular.

Percebi, conversando com as pessoas que eu ia entrevistando, que as pessoas se sentiam perdidas com relação à alimentação, ao mesmo tempo em que perdiam qualidade de vida por causa das doenças crônicas não transmissíveis que elas tinham (diabetes, hipertensão). Enquanto isso muitas pessoas, principalmente as mais jovens, já não conheciam mais os pratos tradicionais vegetais de seus territórios. Pensando em unir o útil ao gostoso, comecei a imaginar um projeto que compartilhasse as informações sobre nutrição que não estavam chegando até elas mas que também resgatasse as receitas tradicionais à base de plantas, porque pra fortalecer nossa cultura alimentar e a saúde do povo, precisamos voltar a encher o prato do que nossas avós colhiam.

Nos meus sonhos mais empolgados, faríamos esse projeto no Brasil inteiro mas eu tinha que começar com algo menor, perto do que eu já conheço bem (o Nordeste). Era preciso testar minhas ideias na prática e ver se aquilo fazia sentido, mesmo. Depois de escrever o projeto piloto e conseguir um pequeno financiamento (obrigada, The Pollination Project!), caí na estrada.

Tive a imensa sorte de encontrar duas parceiras maravilhosas nessa aventura. Eu conheço Sara Ortins, que também é uma das fundadoras da UVA e a companheira que nos deu o termo “veganismo popular”, há muitos anos. Quando comecei a escrever o projeto já sabia que queria trabalhar com ela em Fortaleza. Mas eu não conhecia nenhuma nutricionista vegana pra trabalhar comigo em Recife e graças a uma sugestão de Bárbara, Leila D’Barsoles entrou no projeto. Ganhei mais uma parceira incrível e uma amiga. Gostaria de deixar registrado aqui a minha imensa gratidão à essas duas mulheres. Sem elas, o projeto não teria se realizado. Agora estou de dedos cruzados pra conseguir levar esse sonho pra frente e seguir colaborando com elas.

Juntas, organizamos rodas de conversas sobre saúde, nutrição e alimentação saudável, além de oficinas de culinária, nas cozinhas solidárias do MTST e da rede Mãos Solidárias (MST) em Recife, e nas cozinhas populares do programa “Ceará sem fome”, em Fortaleza. Essas cozinhas distribuem refeições diariamente pra pessoa em situação de insegurança alimentar. As maiores servem mais de 100 refeições por dia, de segunda à sexta. As menores servem 60, algumas vezes por semana. Todas funcionam também como centros comunitários, oferecendo, além da alimentação, atividades variadas pra população local (creche pras crianças, aulas de música e capoeira, reforço escolar, exercício físico pra pessoas idosas…).

Depois de dois meses de trabalho (sem contar os muitos meses escrevendo o projeto e procurando financiamento pra ele), oito oficinas de culinária e várias rodas de conversa, encerrei essa etapa feliz e triste ao mesmo tempo. Feliz porque conheci pessoas lindas nesse processo, colaborei com profissionais dedicadas e aprendi muito. Sempre que acho que vou ensinar alguma coisa, a vida me mostra que tenho muito mais a aprender. Esses momentos de troca de conhecimentos e de aprendizado coletivo são uma das minhas maiores fontes de alegria.

Mas tem também muita tristeza no meu peito. A situação nos contextos urbanos me pareceu ainda pior do que tudo que vi nos territórios tradicionais destruídos pela pecuária. A transição alimentar (menos comida de verdade e vegetal, mais comida animal e ultraprocessada) é ainda mais drástica nas comunidades vulneráveis nas cidades, e as pessoas estão ainda mais adoecidas por isso.

Também percebi que, nas cidades, existe uma verdadeira rejeição a vegetais (verduras, frutas e feijão), como falei no post passado. E é exatamente por isso que estou ainda mais decidida a levar esse projeto adiante. Enquanto eu cozinhava com as mulheres e escutava minhas companheiras nutricionistas tirarem as milhares de dúvidas que choviam sobre elas nas rodas de conversa, vi que ele é muito mais necessário -e urgente- do que imaginei. Falta só encontrar uma maneira de concretizar isso (entenda “encontrar financiamento”).

Termino com algo que vi lá em Recife, na cozinha solidária do MTST, e que me inspirou muito. Nos fundos da cozinha tem uma horta agroecológica onde verduras, ervas medicinais e algumas frutas crescem na terra alimentada pelas cascas que saem da cozinha. Passeando entre os pés de couve e as bananeiras percebi que eu tinha deixado de fora algo muito importante quando escrevi a primeira versão do projeto: hortas comunitárias.

Eu estava visitando territórios tradicionais quando a soma das minhas observações deu nascimento a ideia do projeto. Depois de teorizar por vários meses, voltei pro campo pra ver se minhas teorias faziam sentido na prática. E depois de aplicar minhas ideias na realidade de dezenas de pessoas, em duas cidades diferentes do Nordeste, vou precisar reformar algumas, melhorar outras, incorporar o que aprendi pelo caminho…

Militância, pra mim, é isso: transformar a vida agora, ao meu redor, ao mesmo tempo em que contribuo com a tarefa de traçar caminhos alternativos pra chegar em lugar melhor pra todo mundo, sem distinção de espécie. Tudo isso enquanto cozinho moqueca de banana da terra e de fruta pão pras companheiras.

Sobre mudanças no padrão alimentar, tristeza e falta de fibras

Cheguei de uma viagem de trabalho dias atrás e fui no pequeno mercado do meu bairro comprar algumas frutas e verduras, só pra ter o que comer enquanto esperava o dia da feira. Chegando no caixa, a jovem que trabalhava ali perguntou que tipo de manga era aquela, pra colocar o código correspondente e cobrar o valor certo. Depois comentou que não entendia nada de frutas, pois não comia nenhuma. “Nem banana?”, arrisquei. “Nem banana!”, ela respondeu. Em seguida ela pegou um maço de couve e perguntou se aquilo era couve-flor ou couve-folha. “Couve folha”, respondi. Ela ainda insistiu: 

-“Couve-flor?” 

-“Não. Folha! Olha aí, são folhas, né? Couve-flor é grande assim (mostrei com as mãos), branca e tem um formato que lembra uma flor, mas dura.” 

-“Ah… Não entendo nada de verduras. Não como nenhum tipo de verdura.”

-“Você não come nem frutas nem verduras?”

-“Nem feijão. Também não como feijão de jeito nenhum!”

Não disfarcei o meu espanto e perguntei o que ela comia, então. “Pão com ovo de manhã. Arroz com frango no almoço. Pão com queijo no jantar. Às vezes tapioca com ovo.” Estamos falando aqui de uma moça jovem, que parecia ter acabado de chegar na casa dos 20. Falei que ela podia estar bem agora, mas que um dia ela iria sentir as consequências negativas daquele tipo de alimentação na saúde. A jovem respondeu que achava que tinha anemia, pois sentia um grande cansaço, o tempo todo, ao ponto de ter parado de frequenta a academia por causa disso. A conta dela já tinha chegado. 

Pode parecer um caso extremo, mas infelizmente não é. Durante a viagem de trabalho que mencionei no início desse post, tive a tristeza de constatar que a falta de frutas, verduras e feijão no prato está se tornando um padrão. E com um agravante: à medida que sai comida vegetal fresca, entra mais carne e mais produtos alimentares ultraprocessados na dieta. 

Nos meses de março e abril realizamos um projeto de formação em nutrição e culinária vegetal pras cozinhas solidárias e populares em Recife e Fortaleza (a viagem de trabalho que mencionei no início desse post). Junto com duas nutricionistas (Leila, em Recife e Sara, em Fortaleza) fizemos rodas de conversa pra falar sobre saúde comunitária e também oficinas de culinária usando ingredientes e receitas que fazem parte da nossa cultura alimentar. O objetivo do projeto era diversificar a oferta de vegetais nas cozinhas solidárias e populares, além de aumentar o conhecimento em nutrição das cozinheiras e beneficiárias. 

Ter visto de perto (na verdade, de dentro) o mundo das cozinhas solidárias e populares me fez refletir muito sobre como o caminho pra libertação animal está ligado a práticas de cuidado e a saúde da classe trabalhadora. Essa é a visão do veganismo popular e ter feito esse trabalho só reforçou minhas convicções. 

Mas eu queria levantar um ponto que me surpreendeu bastante. Eu já sabia, observando as pessoas à minha volta e por ter feito pesquisas de campo no Norte e no Nordeste, que se tornou muito comum, entre pessoas em situação de vulnerabilidade econômica, comer mais animais do que alimentos vegetais. As duas últimas Pesquisas de Orçamentos Familiares, feitas pelo IBGE, confirmaram isso. E por ter lido as POF eu também sabia que, à medida que o consumo de animais aumenta, o consumo de feijão diminui. Mas fiquei chocada quando comecei a ouvir das cozinheiras que, além de não comerem verduras nem frutas, elas simplesmente pararam totalmente de comer feijão.

Veja, não estou falando de pessoas que não têm acesso a feijão nem verduras. Estou falando de pessoas que cozinham todos os dias no contexto do trabalho (as cozinhas solidárias e populares oferecem um cardápio feito por nutricionistas, que inclui feijão e verduras todos os dias) e tem acesso a esses alimentos, mas que mesmo assim não colocam eles no prato. O nível de rejeição aos vegetais chegou ao extremo de algumas cozinheiras se recusaram até mesmo provar os pratos vegetais que preparamos juntas, apesar de terem gostado de aprender a preparar receitas novas. Perguntei o que elas gostavam de comer em casa, quando tinham a liberdade de escolher o que colocavam na panela. A resposta foi unânime: carne, muita carne, e massas. Por “massas”, entenda: macarronada, lasanha, pizza… 

Estamos em plena mudança de padrão alimentar no Brasil e os alimentos que fazem parte da nossa cultura alimentar (feijão, milho, macaxeira) estão desaparecendo do prato da população economicamente vulnerável, enquanto aumenta o consumo de carne, frango e ultraprocessados, incluindo embutidos (salsicha, mortadela). E o impacto disso na saúde é assustador. Durante as rodas de conversa, quando eu perguntava às cozinheiras e beneficiárias das cozinhas solidárias se elas, ou alguém na casa delas, tinha diabetes, pressão alta ou colesterol alto, praticamente todas as mãos levantavam. 

Enquanto a obsessão por proteína (animal) aumenta, juntamente com o estrago na saúde pública causado por ela e o rastro de destruição ambiental deixado pela exploração animal, não deixo de pensar que pouco ou nada se fala sobre o que realmente falta na dieta das pessoas. Estou falando de fibra, aquele composto essencial pra manutenção da nossa saúde e que só existe nos alimentos de origem vegetal. Quanto mais carne, frango e ovos se come, menos fibras ingerimos, esse elemento que faria toda a diferença na saúde daquelas pessoas que levantaram a mão durante as rodas de conversa. 

Muito se fala sobre a quantidade de proteína que supostamente precisamos (o que, de acordo com quem lucra vendendo suplemento de proteína, não para de aumentar) mas quem sabe quantos gramas de fibra precisamos por dia?

De acordo com a OMS, a recomendação para uma pessoa adulta é de 25 g a 30 g de fibras por dia, entre fibras solúveis e insolúveis. No mínimo! Agora eu espero que você esteja se perguntado: “E qual é o consumo médio de fibras no Brasil?”, pois essa pergunta expõe uma imensa crise na saúde pública. De acordo com a POF de 2017-2018, a resposta é 15,6 g. Estamos bem abaixo do mínimo e, curiosamente, não vejo ninguém falando nas redes sociais em “bater a meta de fibra” do dia.

Na POF anterior, de 2008-2009, esse número era 20,5 g, o que significa que nosso consumo de fibra, que já era insuficiente na época, diminuiu de quase 25% em dez anos! Eu tenho é medo de ler a próxima POF! Provavelmente a situação piorou ainda mais, já que o consumo de ultraprocessados aumentou desde então e isso impacta diretamente a quantidade de fibras da dieta. 

Enquanto a população brasileira segue consumindo mais proteína animal do que é recomendado (e sim, mesmo entre as classes empobrecidas!), em 2023 79% das pessoas que moram nas capitais do país não consumia nem sequer a quantidade mínima de vegetais recomendada pela OMS, que é de 400g por dia!

Termino com duas recomendações.

Primeiro, o estudo da USP “O mito de déficit proteico“, publicado por pesquisadores da USP na Revista de Saúde Pública.

Segundo, um post meu de 2012: “Fibras: por que comer e onde encontrar“. Embora hoje eu mudaria/acrescentaria algumas coisas, principalmente sobre a importância da relação entre fibras e microbiota intestinal (estou estudando sobre isso no momento), ainda acho que vale a pena ler. Além de informações importantes, o post tem um gostinho “vintage” e mostra o que eram, e como eram escritos, os blogs no início da década passada, quando eles estavam no ápice do sucesso. Gente, e a leveza com a qual eu escrevia, mesmo morando na Palestina naquele momento e vendo e vivendo coisas terríveis todos os dias? Não sei como eu conseguia, sinceramente…

No próximo post falarei mais sobre o projeto com as cozinhas solidárias e como isso vem alimentando minhas reflexões desde então.

(Foto de abertura do post: quintal agroecológico na cozinha solidária do MTST, em Recife, feita por Anne Paq.)

Reflexões olhando uma coité

Na frente da casa onde moro hoje, aqui em Natal, tem uma coité (ou “cuieira”, se você é do Norte). Essa árvore, que já foi muito importante, se tornou rara por essas bandas, então quando visitei a casa pela primeira vez e descobri uma coité no jardim da frente e outra no quintal, me encantei. A da frente da casa é a maior e com a forma mais bonita. Seus galhos longos, cobertos de folhas até as pontas, se esticam pros lados, como se a árvore estivesse se espreguiçando. Os mais baixos quase tocam a terra. Pra completar a minha alegria, ela frutifica muito e vive cheia de lindas cuias, algumas muito grandes. É um deleite pros olhos ter essa escultura viva embelezando o jardim. E como a separação entre a minha casa e a calçada não é feita por um muro, mas sim por uma grade de ferro, minha coité também enfeita a vista de quem passa pela rua. 

Acontece que quase ninguém mais reconhece uma coité por aqui e isso causou algumas situações engraçadas.

Da mesa da sala, de onde trabalho na maior parte dos dias, eu vejo o jardim, a coité e também quem passa pela rua. Pouco tempos depois de ter me mudado pra cá escutei uma criança, que ia passando com o pai, perguntar o que eram aqueles frutos. Depois de refletir por um tempo, o pai disse que era fruta-pão. De dentro da sala, eu ri. A árvore que dá fruta-pão é imensa, com folhas muito grandes e rasgadas, lindíssimas! Mas pouca gente na minha cidade já viu uma árvore de fruta-pão, é verdade. Pensei em gritar daqui de dentro que aquilo eram “cuias”, mas não foi necessário. Um senhor idoso, vindo de um tempo onde a coité ocupava um lugar mais importante, passou naquele momento e desfez o mal-entendido. Desde então essa cena se repetiu outras vezes, com algumas variações. Pessoas passam pela minha casa e param, intrigadas, observando a coité. Se eu estiver no jardim, me chamam pra pedir explicações.

Dias atrás aconteceu de novo. Eu estava plantando umas mudinhas quando uma mulher, acompanhada do seu cachorro, me chamou no portão e disse: “Eu passo aqui todo dia e fico olhando pra essa árvore. Por favor, mate a minha curiosidade e me diga o que é isso aí!”.

Quando chamo um carro de aplicativo é quase certeza o motorista perguntar o que é aquilo crescendo na frente da minha casa. Sempre respondo assim: “Sabe a expressão ‘de mala e cuia’?” – onde moro todo mundo sabe – “Pois avalie, jovem, que isso aqui é um pé de cuia! Você pode chamar de ‘cuieira’ ou de ‘coité’.” Gosto de imaginar os motoristas chegando em casa e contando pra alguém o que aprenderam naquele dia: “Vi um pé de cuia pela primeira vez hoje! Cuia, como na expressão “de mala e cuia”, sabe?”

Se você não sabe do que estou falando, explico. Chegar “de mala e cuia” significa chegar com todos os seus pertences, logo, “chegar pra morar”. Exemplo: “Viesse passar quanto tempo em Natal?” “Dessa vez vim de mala e cuia!” E pra que serve a cuia? Antigamente ela era o prato onde se comia em casa e também a marmita pra levar o almoço pra roça (com um pano de prato amarrado ao redor, que além de protejer a comida facilita o transporte). Por isso coités eram tão importantes por aqui: elas ofereciam esse utensílio indispensável.

Felizmente ainda tem quem valorize as cuias. Um dia um senhor me chamou no portão e perguntou se eu venderia uma cuia pra ele. Respondi que não venderia minhas cuias: daria de presente quantas ele quisesse! Ele escolheu uma bem grande e saiu feliz da vida. Depois voltou umas semanas depois pra pedir outra. Foi ele quem me ensinou a preparar o fruto pra que ele se tornasse um utensílio. Graças a ele fiz várias cuias e utilizo bastante. Teve também um rapaz e uma moça que me chamaram no portão, me explicaram que eram do candomblé e que faziam instrumentos musicais com as cuias, pra tocar nos rituais. Me pediram uma e perguntaram como fazer pra ter um pé no terreiro. Fico muito feliz quando posso compartilhar cuias com a vizinhança. 

Mas a verdade é que, de acordo com minha pesquisa altamente rigorosa que consiste em conversar com motoristas de carro de aplicativo e escutar a conversa de passantes, pouquíssima gente saber reconhecer uma coité. Deixa eu contar uma história que mostra o ponto de “iletramento da natureza” em que chegamos. 

Semanas atrás abri o portão pra receber uma encomenda e o entregador, depois de me entregar o pacote, perguntou se aquilo era coco. COCO! Se morássemos num lugar do Brasil onde não tem coqueiro, eu até poderia entender. Mas estamos em Natal! No Nordeste! Coqueiro não falta por aqui. Inclusive tem alguns no meu quintal, que podem ser vistos da rua, e mais uma ruma do outro lado da rua. Respondi: “Que é isso, irmão! Nunca visse um coqueiro?” e mostrei o coqueiro mais próximo que fica, juro, a 20 metros do meu portão. Ele disse, apontando pra uma cuia: “É que isso aí é redondo e verde, que nem coco.” 

Me dá tristeza constatar, de novo e de novo, o quão alienadas estamos das outras formas de vida que nos cercam. Percebi isso enquanto guiava crianças da periferia de Paris pelos Jardins Operários. Eu ia mostrando as árvores frutíferas e os pés de verduras e pedindo pras crianças adivinharem e elas quase nunca acertavam. E isso acontece em muitos lugares. Tenho um sobrinho de 20 anos que mora na mesma rua que eu e quando o meu irmão mostrou o pé de romã no quintal da casa nova -cheio de romãs- e perguntou se ele sabia o que era aquilo, meu sobrinho chutou: “Cebola?”

Essa alienação afeta o nosso destino coletivo. Fica mais fácil pros “comedores de mundo” (expressão que aprendi com Davi Kopenawa Yanomami) destruirem a trama de existências que sustenta a vida no planeta quando já ninguém mais se importa com elas. Não se defende aquilo que não sabemos que existe. Não cuidamos do que não conhecemos.

Isso nos afeta também de maneira individual. 

Fiquei com pena daquele entregador (e das crianças da periferia de Paris e do meu sobrinho). Juro que não é condescendência! Não me sinto nem um pouco superior por saber diferenciar uma coité de um coqueiro (e ambos de um pé de fruta-pão): me sinto mais feliz. Eu sei, e essa é uma verdade que habita o meu corpo, não que aprendi em algum livro, que viver alienada das outras espécies, vegetais e animais, empobrece a experiência de existir nesse mundo.  E meu desejo é que todas as pessoas tenham uma existência rica.

Não consegui fotografar a coité inteira com minha câmera, que não é uma grande angular, então fiquem com uma foto menos bonita feita com o telefone.

Ideias de ceia de natal (pra veganas e simpatizantes)

Tem o pessoal tradicional, que faz questão de comer sempre a mesma coisa no natal. E tem o pessoal que gosta de experimentar coisas diferentes.

Eu gosto de tradições alimentares. Elas podem trazer reconforto e alegria – quando não envolvem violência contra outros animais, claro. A boa notícia o elemento que faz com que tradições alimentares sejam tão especiais não é a violência contra os animais, e sim do fato de criar memórias compartilhadas ao redor da mesa, com pessoas que contam pra nós. Logo, à medida que incorporamos a noção de responsabilidade e cuidado nas nossas práticas, as tradições alimentares podem se transformar, sem precisar sacrificar o sabor.

O natal está próximo e vim recomendar alguns pratos pra ceia de quem é vegana ou quer celebrar essa época do ano com pratos da terra (e deixar os animais no presépio em paz). E já que estamos criando novas tradições, minhas sugestões são pratos que, além de vegetais, são mais leves e adaptadas ao verão brasileiro. Porque independente dos pinheiros de plástico e da neve artificial nas decorações dessa época do ano, ainda vivemos num país tropical. E cada vez mais quente (cortesia do colapso ambiental)!

Na categoria acompanhamentos, começo dizendo que farofa é tradicional e eu amo. Algumas coisas não precisam mudar. A farofa de banana caramelizada e cebola tostadinha da minha prima Íris é presença garantida na nossa ceia todos os anos. Se farofa é a sua praia, o blog tem várias pepitas nessa categoria.

Pra quem faz questão de batata na ceia, postei minha versão de “gratin dauphinois” (pronuncie “gratã dofinuá”), o famoso prato de batata gratinada francês, há muitos anos. É um prato simples (a versão original leva só batata e leite de vaca) e pouco conhecido por aqui, mas é delicioso e sempre impressiona.

Ainda na categoria batata, tem a minha salada de batata preferida. É um tanto trabalhosa e cara (tofu defumado custa um rim!), mas é tão gostosa que vale a pena fazer e pode muito bem ser o prato principal da sua ceia. E se a gente não fizer pratos elaborados no natal, quando vamos fazer? Bora lá, é agora ou nunca! (Bônus: nesse post você vai ver um vídeo-receita com uma Sandra muito mais jovem e otimista).

Continuando a categoria “pode ser acompanhamento ou prato principal”, uma torta salgada de legumes é sempre uma boa ideia. Assim como essas panquecas salgadas de abobrinha e grão de bico.

Chegou a hora dos pratos principais e tenho três sugestões esse ano: estrogonofe potiguar (com carne de caju e molho de amendoim), tofu com molho de manga e gengibre e, resgatada lá do fundo dos arquivos Papacapim, crepes com recheio de creme de tofu e espinafre, servido com molho de tomate assado.

E, pra finalizar minhas sugestões de ceia de natal, não podemos ficar sem sobremesas. Tenho uma grande preferencia por sobremesas à base de frutas e nessa época do ano, as frutas abundam na feira. Vou fazer uma sugestão ousada, mas sei que tem pessoas ousadas me lendo e que vão gostar: creme gelado de jaca com tapioca. E se eu estivesse fazendo uma ceia só pra mim, era isso que eu serviria de sobremesa. Outra sugestão com fruta, deliciosa e também com um ingrediente ousado (mas que produz um resultado que vai agradar todo mundo, garanto!) é essa cocada cremosa com maracujá.

Mas pra muita gente, só é sobremesa se tiver chocolate. Vou fazer esse pavê de chocolate e paçoquinha pra minha família na noite de natal, um sucesso garantido entre veganas e adoradoras de leite condensado. E, mais uma vez, diretamente do fundo do baú desse blog, esse pavê de morango com ganache de chocolate junta a fruta mais popular desse país (embora ela não seja daqui, e seja cheia de melindres pra crescer embaixo do Equador) com o amado, idolatrado, salve, salve, chocolate. Não tem como dar errado!

Desejo abundância e cuidado na mesa de vocês nesse natal.

Abraços natalinos.

Sinal de vida

Quando comecei esse blog, quinze anos atrás, postava uma receita nova por semana. Às vezes duas! Agora apareço aqui com menos frequência, mas me dei conta que talvez as pessoas nem percebam, pois a frequência com que as pessoas lêem esse blog (qualquer blog) também diminuiu muito. Já faz alguns anos que vivo em dois tempos diferentes: enquanto os acontecimentos na vida analógica brotavam numa velocidade maior do que os meus dedos podiam digitar aqui, o blog desacelerava. Se antes era quase um diário (semanário?) com receitas, hoje tem uma curadoria exigente de ideias e penso muito antes de escrever algo aqui. Sei que, em 2025, a atenção dada aos blogs é pequena, então quero que cada encontro valha a pena.

Acontece que, com tanta exigência, acabo me ausentando por longos períodos. Isso não quer dizer que não esteja “trabalhando pro blog”, muito pelo contrário. O trabalho nos bastidores (pesquisar receitas tradicionais e inventar novas, entrevistar pessoas, explorar lugares pra entender melhor a política da comida, ler livros sobre temas relacionados, cozinhar e fazer muitos testes…) é imenso.

Faz dois meses que publiquei o último post, mas correu tanta água embaixo da minha ponte que parece que foram dois anos. Passei esse tempo todo na Amazônia, principalmente em Belém, mas com uma semana no Bailique (Amapá). Aliás, a foto acima é dessa viagem (tentem me achar no meio dessa floresta de redes). Teve muito trabalho de jornalista (fazendo reportagens), teve o ENUVA (Encontro Nacional da União Vegana Antiespecista) e teve a COP 30.

São muitos causos, e receitas, pra compartilhar, mas apesar de ter voltado pra casa (Natal) há duas semanas, ainda preciso descansar mais um pouco e escolher com carinho o que vou trazer pra cá. Hoje vim aqui só pra atualizar o blog, pra que ninguém passando por aqui pense que esse espaço está fora de uso. Volto em breve.

PS Lembram que eu tinha voltado pro Instagram meses atrás? Saí de novo e dessa vez por escolha. Então minha única presença online é aqui, mesmo.

Por que a gente não come animais

Oi, minha flor

Estou te mandando essa mensagem porque sua mãe me pediu pra eu conversar com você. Ela me falou que seu pai, depois de anos sendo vegetariano, voltou a comer animais porque, segundo ele te contou, o “organismo” dele “estava precisando comer carne”. Ela me explicou que você está se sentindo muito traída pois, tendo nascido vegetariana e crescido com uma mãe vegana e um pai vegetariano, você acredita que animais não são comida. Mas, ao mesmo tempo, essa mudança veio do seu pai, que você ama, então isso provocou uma confusão dentro do seu peito. Agora que você vai conviver, nos dias em que estiver com o seu pai, com pessoas que comem animais, talvez você escute comentários que te deixem desconfortável ou te façam se perguntar se você também precisa comer carne. Por isso sua mãe me pediu pra eu te lembrar, de uma maneira à altura da sua idade, mas sem ser superficial, por que não comemos animais. 

Fiquei honrada com o pedido e feliz de ter a oportunidade de trocar ideias com você, mesmo estando tão longe. 

Primeiro, deixa eu te contar que as pessoas não precisam comer outros animais pra ter saúde. Nem animais nem derivados de animais, como leite e ovo. As pessoas comem porque gostam, porque querem, porque estão acostumadas, porque não sabem que é possível viver de outra maneira, mas não é uma necessidade. Sabia que já faz 18 anos que sou vegana? E estou muito bem. Conheço até pessoas que nasceram veganas e que são muito saudáveis. E sabia que existe populações no mundo que são vegetarianas há muitos séculos? Na Índia, por exemplo, tem milhões de pessoas que não comem animais há muitas, muitas gerações. Elas fazem isso porque a religião delas fala pra não matar os animais. Se fosse verdade que as pessoas precisam comer animais, esse povo já tinha morrido. 

Agora deixa eu te falar por que nós, veganas, vegetarianas, escolhemos não comer outros animais. É importante pra gente que todo ser nesse mundo tenha a oportunidade de ser feliz. Todos os seres: os que têm pelos, os que têm penas, os que tem pele ou escamas. Todos os que existem e estão vivos hoje têm tanto direito de viver quanto a gente. Os animais sentem as mesmas dores que a gente sente, o mesmo medo, a mesma felicidade. Eles têm o direito de viver em liberdade, de beber água quando quiserem, de comer uma comidinha boa, de ter amigos, de ter o carinho da mãe. Achamos injusto pegar uma galinha, um peixe ou uma vaca e cortar em pedaços pra gente comer, sabendo que não precisamos disso pra viver. Se a gente matar eles, a gente impede eles de serem felizes.

Tem uma última coisa que eu queria te dizer. Ser vegana é, pra mim, motivo de muita alegria. É maravilhoso botar a cabeça no travesseiro de noite e saber que hoje nenhum animal foi preso, torturado nem morto por minha causa. Gostaria que você lembrasse sempre que escolher não comer animais é uma fonte de alegria, porque estamos contribuindo pra transformar o mundo num lugar melhor pra todo mundo. Todo mundo mesmo: pessoas, animais, cachorros, vacas, galinhas, porcos, peixes, passarinhos. Quando me falam: “É muito difícil ser vegana!”, respondo que, muito pelo contrário, que é motivo de alegria. 

E, olha, eu fico muito feliz por ter a sua mãe e você do meu lado enquanto a gente transforma o mundo e deixa tudo melhor e mais bonito pra toda criatura que vive. 

Um cheiro. Saudades de você.

Mudanças

Eu tinha sete anos quando nos mudamos pra essa casa. O bairro fica em cima de dunas e o quintal era cheio de árvores frutíferas. Minhas preferidas eram o pé de seriguela e a mangueira (manga espada, minha preferida). Aos poucos todas as árvores do terreno foram cortadas pra dar espaço a mais quartos, uma segunda casa, uma oficina… Mas a foto abaixo foi feita quanto todas as árvores estavam de pé, incluindo o coqueiro que nos ofereceu, pra minha irmã caçula e pra mim, o lanche daquele dia. Meu sorriso banguela era a manifestação da alegria de estar morando numa casa onde frutas cresciam por todos os lados.

Era aqui que eu morava, nessa rua com nome de rio, quando deixei o Brasil e me mudei pra França. O ano era 2002 eu tinha acabado de comemorar meu vigésimo aniversário. Vinte anos dos quais sete tinham sido passados planejando ir embora. Não de casa, do bairro, da cidade ou do estado. Eu queria ir embora pra bem mais longe. Deixar o país e atravessar o Atlântico. E assim foi.

Vinte e três anos depois, resolvi voltar. Pra mesma rua com nome de rio, no mesmo bairro sobre as dunas. As razões são 80% pessoais (difíceis e doloridas) e 20% militantes (o dever me chama). Pra sempre? Por enquanto.

Tenho muita coisa pra contar sobre essa volta, os projetos no Brasil, trabalhos, planos, desejos, ideias de receitas. Mas vou fazer isso aos poucos.

Outra volta que preciso anunciar aqui: depois de alguns anos longe do Instagram (três? quatro?), fiz um novo perfil por lá. Os motivos pra fazer isso, depois de ter jurado que não voltaria pra aquele lugar nem amarrada, foram vários. Ainda não sei se foi uma volta temporária (enquanto finalizo alguns trabalhos) ou definitiva, mas uma coisa é certa: vou continuar compartilhando meus melhores pensamentos, receitas e observações aqui no blog e minha presença naquela rede social vai ser bem mais tímida. Minha casa física mudou, mas minha casa digital vai seguir sendo essa aqui. Se mesmo assim quiser me acompanhar por lá, é só procurar por @papacapim_sandra

Horta de quintal – parte 2

Essa é a segunda parte do mini-curso sobre como fazer uma horta no quintal, que começou no último post. “Mini-curso” é provavelmente um exagero, já que estou repassando as informações de maneira bem resumida. O meu objetivo com esses posts é te dar vontade de plantar a própria comida, mesmo que seja em vasos ou sacos de estopa num cantinho da laje, da varanda ou do quintal. Por isso estou acompanhando esses posts de tantas fotos.

Na primeira parte falei sobre compostagem, preparar o solo, a técnica da “lasanha” e fazer mudas à partir de sementes. E é à partir desse último ponto que vou continuar a prosa.

Quando a primavera chegou, minha casa virou um viveiro de plantas. Eu fiz mudas pra nossa horta de quintal, mas também pro lote que cultivamos coletivamente nos jardins operários (junto com camaradas do nosso coletivo, a Brigada de Solidariedade Popular). E como plantar incentiva a generosidade, a gente sempre faz muito mais mudas do que vai precisar pra compartilhar com as amigas que tem horta. Aliás, elas fazem a mesma coisa e acabamos trocando mudas e aumentando a variedade de legumes e flores que plantamos.

O berçário ficou na nossa varanda por várias semanas e todo dia tinha que regar todas aquelas mudinhas, colocar do lado de fora durante o dia e colocar de volta pra dentro de casa durante a noite. Dá um certo trabalho, sim, mas o encantamento de acompanhar a mágica da semente brotando e se tornando uma planta é, pra mim, precioso demais. Eu volto a ser criança, pulo de alegria acompanhando cada vitória das mudinhas e converso com todas. De acordo com Lila, uma amiga da Síria e nossa vizinha de lote, conversar com as mudinhas é tão importante quanto terra boa e água pra que elas cresçam com vigor. Você faz o que quiser com as suas mudas, mas eu também converso (muito) com as minhas.

Na hora de fazer as mudas a gente colocar várias sementes na terra ao mesmo tempo, pois se você der azar, poucas vão brotar. Mas o contrário pode acontecer também e aí geralmente mais do que cabe ali no potinho. Pra que elas não morram sufocadas, faz parte do processo arrancar uma parte delas pra que as outras tenham espaço pra continuar crescendo. Depois de semanas cuidando delas, eu acho doído, mas tem que ser feito. Então agradeço pelo esforço antes de arrancar (ela saiu da semente e virou planta, meu povo! Palmas pra mudinha!) e coloco na composteira. Dependendo da muda, eu como (se for muda de couve, alface, ervas…). Mas as de tomate (foto acima, à direita), eu não como, então vai pra composteira.

Quando as mudinhas cresceram o suficiente, chega a hora de colocar na terra. Dolorès, minha amiga lavradora e mentora, diz que tem que esperar sair “as folhas verdadeiras” das mudinhas antes de plantar. Quando brotam, as sementes produzem um par de folhinhas muito parecidas e só depois dessas primeiras duas é que aparecem folhas características da planta em questão (folha de tomate é de um jeito, folha de berinjela é de outro, etc). Mas o momento de colocar na terra vai depender do clima também.

Aqui na França tem uma tradição que eu acho linda, pura sabedoria popular. As lavradoras me contaram pra sempre esperar passar os dias dos “saints de glace” (santos de gelo), que correspondem aos dias 11, 12 e 13 de maio, às vezes também os dias 14 e 15, antes de colocar as mudas na terra. E por que não plantar antes do dia 15 de maio? Porque até o meio de maio ainda tem chances de ter geadas durante a noite. Como esse período corresponde aos dias de São Mamert, São Pancrácio, São Servácio e outros santos desconhecidos no Brasil, eles ficaram conhecidos como os santos de gelo. E quem planta onde faz muito frio sabe: se você colocar uma mudinha na terra, essa coisinha frágil e delicada, e logo em seguida vier uma geada, ela não vai sobreviver.

Esse ano, quando fui plantar no nosso lote, quase que os santos do gelo me pegaram. A temperatura já estava alta há semanas, então no dia 12 de maio pensei que já podia colocar as mudas na terra. Uma amiga francesa, lavradora de quintal também, arregalou os olhos e perguntou se eu não ia esperar passar os santos de gelo e eu respondi que com o colapso climático essa antiga sabedoria popular não devia estar mais valendo. Mas ela conseguiu me fazer hesitar e preferi esperar mais alguns dias. Pois vocês acreditam que na caída da noite do dia 12, o dia em que eu tinha planejado colocar as mudinhas na horta, choveu granizo?! Minhas mudinhas teriam morrido se eu não tivesse seguido o conselho da minha amiga francesa. Os santos de gelo são uns danadinhos!

Acima, o dia em que plantei os pezinhos de tomate. Pra conservar a umidade no solo a gente cobre a terra com palha ou folhas secas (evita uma evaporação excessiva da água), mas fiz essa foto antes de cobrir tudo com palha, então vocês vão ter que usar a imaginação. Criamos essas estruturas de bambu pra dar apoio aos tomates enquanto eles crescem. Pé de tomate gosta de subir, mas precisa de apoio. A gente amarrava pedaços de barbante fininho e macio nos pés e amarrava a outra ponta nos bambus. Se não fizer isso os galhos se quebram e aí, não tem tomate. Tem gente aqui que usa uma técnica diferente: enfiam barras de ferro torcidas (compradas em lojas de jardinagem, especiais pra isso) na terra, do lado dos pezinhos de tomate, e vão enrolando o pé de tomate na barra à medida que ele vai crescendo.

Abaixo, as mudinhas de manjericão da folha miúda, da folha graúda e roxo (coloquei as sementes diretamente no vaso). E à direita, os pezinhos de tomate que coloquei dentro do “saco de plantar” (falei sobre ele no post anterior).

Acima: manjericão e coentro nos vasos e, atrás (na terra), acelga verde (do caule vermelho), favas e ervilha torta. Abaixo, na “lasanha” que fizemos no pé de uma árvore, vários pés de jerimum e ervilha de cheiro (a florzinha lilás, no centro). Lembrando que folhas de jerimum são comestíveis, como expliquei nessa receita. As flores também, aliás (coma as flores machos, que não trazem frutos).

Percebeu que demos um pulo de várias semanas, né? O jerimum já estava grande e a horta principal (foto baixo) já estava bem desenvolvida. Os pezinhos de tomate já tinham virado uma mini-floresta de tomate (no fundo), com alguns pés de abobrinha embaixo. Na parte da frente da horta tem: couve, berinjela, várias flores (capuchinha, calêndula, cosmos e girassol) e, nos jarros, manjericão (olha como cresceu!).

Os girassóis cresceram e passaram dos tomates. Na foto abaixo, à direita, a horta menor (a lasanha mais recente, que mostrei como fazer no post anterior) coberta de berinjela, jerimum, couve-flor e capucinha. Ao fundo dá pra ver os pés de tomate crescendo dentro do “saco de plantar”.

Abaixo: pé de berinjela com sua florzinha lilás e de jerimum, com suas flores amarelas. À direita, o canto da horta onde estavam a maior parte dos pés de tomates, que já estavam com frutos maduros.

Essa berinjela é da Palestina. As sementes vieram diretamente da roça de laje (tem roça de quintal e roça de laje) de uma amiga querida que mora em um campo de refugiados e planta a maior parte do que a família come na laje de casa. Como é uma variedade crioula de lá, ela não se deu bem nessa parte do mundo, que tem um clima bem diferente. Plantamos vários pés e só colhemos duas ou três berinjelas. Eu falei que é pra priorizar as sementes do seu território, né? Mas a vontade de ter um pedacinho da Palestina crescendo no meu quintal foi maior que o bom senso de lavradora.

Plantamos 14 variedades de tomate. Sim, existem muitas, muitas variedades de tomate. Muito mais que 14, mas fizemos uma seleção das variedades que mais gostamos (sabor), outras que são muito produtivas (tomates pequenos) mais duas ou três que nunca tínhamos plantados antes. E à partir de agora vou ostentar com muitas fotos dos nossos tomates lindos, orgânicos e deliciosos.

Tem tomate de diversos tamanhos, alguns pequenos como uma acerola, outros grandes como um abacate. Alguns são redondos, outros são alongados, outros são irregulares (chegando a esse tomate engraçado que parece que estava morrendo de rir). Alguns tem a pele mais fina, outros, mais grossa. Tem tomate amarelo, laranja, rosa, branco, rajado, bicolor e até vermelho. Eu colhi muito tomate naquele ano. Não sei quantos quilos no total, mas no pico da safra eu colhia uma vasilha dessa acima por dia. Então a gente comia tomate no café, almoço e jantar, compartilhava com a dona da casa, com as amigas e ainda sobrava pra fazer molho. Uma riqueza, minha gente!

Enquanto isso eu também colhia couve e ervas todo dia, aproveitava das uvas da vinhas selvagem (pode até não serem lindas como as uvas de supermercado, mas eram muito gostosas) e nossos jerimuns cresciam tranquilamente. Comecei a colher alguns também, mas eu guardava num lugar escuro e fresco pra comer mais tarde. Outra dica de Dolorès: não coma o jerimum assim que colher, deixe maturando por algumas semanas antes de degustar (não sei se no calor do Nordeste essa dica faz sentido).

A foto abaixo é do quintal da minha vizinha Vigi, que é do Sri Lanka. Vigi e o marido também lavram o quintal e reparem que o quintal dela é coberto com cimento! A danada conseguiu plantar um montão de jerimum num buraco no cimento, onde a terra ficava exposta. Achei tão incrível que fiz esse registro. Ela também plantou tomates nos canteiros dos muros e muitas outras coisas em vasos.

Acho importante dizer que plantar não é a única maneira de ter comida crescendo no quintal. Muitas plantas que crescem de maneira espontânea são comestíveis e a gente nem sabe. Ou sabe e não valoriza. Na foto abaixo, à esquerda, tem dente de leão (as folhas são amargas, mas acho uma delícia nas saladas) e hera de canteiro, que gosto de comer tanto crua quanto cozida. Um dia uma outra lavradora de quintal me disse uma coisa que me marcou muito. Ela falou que quando a gente quer fazer uma horta, primeiro arranca todas essas plantas selvagens, que crescem sem precisar da gente, pra depois plantar umas alfaces que são muito menos saborosas e nutritivas do que as plantas que estavam ali antes. Na hora de preparar nossas refeições, eu sempre misturava as coisas que a gente cultivava na horta com as plantas alimentícias tradicionais. Fica mais gostoso, nutritivo e, muito importante, quanto mais diversidade de vegetais você comer, mais rica fica sua flora intestinal.

Esse girassol belíssimo não cresceu no meu quintal, e sim no lote nos Jardins Operários. Mas achei ele tão mimoso que tive que incluir aqui. Imagine a alegria de olhar pra essa lindeza todos os dias?

E falando nos Jardins Operários, eu nunca voltei de lá sem trazer uma coisinha pra comer na bolsa. Seja ela colhida no nosso lote ou presenteada pelas outras lavradoras de lá. Até que teve um dia, mais pro final do verão, que fui aguar nosso lote e voltei pra casa com tudo isso na foto abaixo. Presente de várias pessoas que plantam do nosso lado. Eu contei 14 variedades de frutas e verduras, mais urtiga (colhida por mim). Antes que achem que cresce umbu por aqui, vou logo explicando que as bolinhas amarelas na foto são um tipo de ameixa chamada “Mirabela”.

Quando cheguei em casa e coloquei tudo em cima da mesa me senti muito, muito rica. E conectada com uma rede de pessoas maravilhosas. Transformei as maçãs em compota, coloquei em vários potinhos e levei de volta pros jardins pra compartilhar com quem ia passando pelo meu lote. Eu nunca vou parar de repetir: horta incentiva a generosidade.

No pico da safra, enquanto nos deliciamos com os frutos que a terra dá, é importante lembrar guardar as sementes pro ano seguinte. Abaixo, sementes de quatro variedades de tomate secando, antes de ser guardada em potes com tampa.

O processo de guardar semente de tomate também me foi ensinado por Dolorès. Primeiro você escolhe os frutos mais bonitos e saborosos. Tem que colher quando estiverem maduros! Aí você separa uma parte das sementes e coloca num recipiente com água durante alguns dias (até aquele plasma que envolve as sementes de tomate se solte e fique boiando na superfície – tudo bem se mofar um pouco). Aí você escorre as sementes usando uma peneira fina, lava bem pra retirar todo o resto do plasma e coloca pra secar em um pedaço de pano, dentro de casa, num local arejado. Dolorès me deu a dica de secar em papel-toalha porque dá pra escrever o nome da variedade de tomate antes e evita misturar sementes ou esquecer quem é quem. Fica a dica. Depois de bem secas, é só guardar em um recipiente bem fechado e usar no ano seguinte (ou na próxima vez que quiser plantar). Assim você consegue ter autonomia e não precisa depender do mercado pra comprar sementes. Lembre: quem controla as sementes, controla a vida.

Aqui na grande Paris se colhe tomate até o início do outono, em setembro. Mas como 2023 foi um ano muito quente (e esse é o novo normal), deu pra colher tomate até outubro. Tem gente que acha isso o máximo e diz que daqui a pouco vai ter tomate até o natal (no hemisfério norte isso significa inverno). Gente, isso é consequência do aquecimento global! Comer tomate e melão nos meses em que antes se fazia boneco de neve pode até parecer uma boa notícia, mas é de um egoísmo e uma alienação sem tamanho, porque se o inverno no Norte vai virar verão, então o verão no Sul vai se tornar um inferno! Vão comer tomate aqui na França enquanto a gente no Brasil vai morrer de fome, de sede e de calor.

Voltando pro outono na minha roça de quintal. Depois de ter nos alimentado generosamente por alguns meses, nossa horta tinha chegado ao final de um ciclo. A terra precisava descansar novamente. Então em outubro a gente colheu os últimos tomates ainda verdes (por causa do frio eles não amadureciam mais no pé) e arrancamos os pés, já bem secos. Íamos fazendo isso aos poucos, à medida que eles iam morrendo. Na foto abaixo, à direita, a horta maior depois de termos arrancado todos os pés de tomate e colhido tudo que estava crescendo ali. Só deixamos as couves, pois elas sobrevivem o inverno e continuam dando folhas de um ano pra outro.

Você tem duas soluções pros tomates verdes. Tem gente que envolve tudo em papel kraft ou jornal e deixa num local mais quentinho da cozinha até eles amadurecerem. Mas você pode fazer geleia de tomate verde ou chutney. Optei pela segunda opção, mas não fui eu quem transformou nossos tomates verdes em chutney, foi nossa amiga Dolorès. Depois ela nos deu uma parte e ficou com o resto. Até o último sopro de vida da horta, ela alimenta as relações de partilhas.

Depois de arrancar todos os pés secos da horta (deixei ali mesmo, pra voltar pro solo) a gente espalha uma camada grossa de folhas secas. Imagine que é um cobertor pra deixar a terra (e todos os bichinhos que moram nela) aquecida durante o inverno. Repare que alguns jerimuns ainda não tinham amadurecido, então a horta menor, onde só tinha jerimum, ficou ainda umas semanas ali. Os legumes de verão (tomate, pimentão, berinjela) desaparecem com a estação, mas jerimum/abóbora é um legume de outono aqui e resiste ao início do frio.

Acima, uma foto do quintal no outono. Reparem que as folhas da árvore já estavam amarelas e o chão estava coberto de folhas secas. No fundo, a hortinha no “saco de plantar” já tinha morrido e só os jerimuns e uma couve-flor ainda seguiam firmes, enfrentando o frio.

Colhi a couve-flor (as folhas também são comestíveis). Colhi os últimos jerimuns (plantei três variedades, como dá pra ver na foto acima). A terra estava coberta com folhas secas, descansando. As sementes estavam todas guardadas, esperando a primavera pra voltarem pra terra. Fiz um café e, mais uma vez, agradeci a generosidade da terra que me deu sustento e forças pra seguir lutando.

Horta de quintal

Cresci na cidade e ninguém plantava nada ao meu redor. Hoje tenho o maior orgulho de dizer que sou lavradora de quintal. Mas deixa eu contar como tudo começou.

No final de 2019 me mudei pra França. Pra uma pequena cidade na periferia norte de Paris, pra ser precisa. Uma cidade tão perto geograficamente de Paris que dá pra ir andando (fica a duas estações de metrô), mas tão longe socialmente que parece outro país. Fomos morar, Anne e eu, em um alojamento social, um CoHab com muitos prédios e uma população em sua maioria composta de migrantes. Nosso pequeno apartamento de 30m2 ficava no 17° andar e tinha vista pra pracinha que ficava bem no meio das torres, de onde eu via coisas que não imaginei ver na França. Como violência policial quase quotidiana e pessoas revirando o lixo procurando comida. Bem-vinda à periferia do Norte global, onde o centro vira margem. E por que estou contando tudo isso num texto sobre horta? Porque foi ali, naquele pequeno apartamento no 17° andar, que minha vontade de plantar nasceu. Eu nunca tinha vivido cercada de tanto cimento e concreto, tão longe da terra e aquilo estava mexendo comigo de uma maneira que eu não estava gostando nem um pouco.

Meu psicológico devia estar bem abalado, mesmo, porque minha primeira tentativa de horta foi essa aqui. Juro que plantei raízes das verduras numa pequena vasilha de plástico. Eu colhia as folhinhas à medida que elas apareciam, mas obviamente que eu estava ciente que aquilo era apenas uma tentativa simbólica de me aproximar da terra, não uma maneira de produzir alimento. Isso foi no início de 2020, o que aqui significa inverno. Assim que a temperatura aumentou comecei a plantar em vasos que eu colocava no parapeito da janela da sala. Meu apartamento era muito ensolarado e tinha uma janela imensa, então aproveitei pra plantar comida pela primeira vez na vida. Plantei batata num vaso de barro (meu desespero pra plantar me faz rir hoje), alguns pezinhos de tomate cereja, um de pimentão e manjericão. Era tudo que eu conseguia colocar ali. Infelizmente não consegui achar fotos da minha horta de janela, mas lembro muito bem da alegria quando colhi meus primeiros tomates e do sabor das minhas batatinhas, que eram miúdas (porque o pote de barro era pequeno), mas deliciosas.

Pula pra 2021. Saímos do apartamento no CoHab e fomos morar numa casa na mesma cidade. Na verdade alugávamos só uma parte da casa, a garagem. A dona da casa, que é mexicana, morava sozinha na casa de dois andares e nós ficávamos no subsolo (em comparação ao nível da rua), que tinha sido transformado em kitnet. Mas a vantagem de estar no subsolo era que tínhamos acesso direto ao quintal da casa. E aí, minha gente, as humilhadas foram exaltadas! Saímos de um mar de cimento e concreto pra um pequeno paraíso, com algumas arvores (magnólias e louro), uma vinha selvagem, flores e um gramado. Nos mudamos no finalzinho da primavera e estávamos muito envolvidas na luta pra salvar os Jardins Operários, as hortas comunitárias que existem, e alimentam famílias das classes populares aqui na periferia, há quase cem anos. Então naquele ano plantamos, coletivamente, nos lotes ameaçados de destruição nos Jardins Operários. Infelizmente, no início do outono os lotes que estávamos defendendo foram destruídos, mas a luta continua até hoje.

Os meses de ocupação, e plantio, nos Jardins Operários foram um verdadeiro curso prático de roça. Tive a honra de plantar do lado de pessoas que cultivam há muitos anos e aprendi muita coisa ali. Então no ano seguinte, em 2022, me senti segura pra começar minha primeira roça de quintal.

A foto acima mostra uma parte do nosso jardim antes da gente começar a plantar. Quando chegamos ali já tinha 3 composteiras (a caixa de madeira na foto acima é uma delas) e isso foi indispensável pra começar a horta. A primeira etapa pra fazer uma horta é cuidar do solo, então um solo rico e fértil deve ser seu objetivo antes mesmo de começar a pensar no que plantar no quintal. Sim, em matéria de horta, a gente começa pelo fim (fim da vida dos legumes). Então essa é a primeira dica que tenho pra compartilhar: comece a compostar os resíduos orgânicos da sua casa. Você pode comprar adubo vegetal pronto, principalmente se quiser começar a plantar imediatamente, mas pra mim, buscar autonomia faz mais sentido. Compostar no seu quintal também faz com que o ciclo se complete: você planta, colhe, come e as cascas do que plantou se tornam a terra onde você plantará novamente. Lindo!

Não vou escrever sobre os detalhes da compostagem aqui, porque o texto vai ficar longo demais, porém preciso explicar uma coisa importante, que imagino que algumas pessoas estão se perguntando agora. Por razões antiespecistas, nunca comprei nem comprarei minhocas pra fazer “compostagem com minhoca”. Mas repare que tendo quintal, basta cavar um buraco pra enterrar suas cascas que as minhocas, e outros bichinhos, virão decompor a matéria por livre e espontânea vontade. Veja que as “composteiras” aqui são simplesmente caixas de madeira sem fundo, mas com tampa, e que também abrem na frente (fica mais fácil tirar o adubo dali depois). Você coloca a matéria orgânica vegetal ali dentro, em contato direto com a terra do quintal, alternando com punhados de folhas secas (pra impedir que odores desagradáveis escapem e pra equilibrar a umidade – o ideal é que não fique nem molhado, nem seco) e só. Quando uma composteira enchia, deixávamos ela descansar e começávamos a encher a outra. Quando a segunda composteira chegava no limite, os bichinhos na primeira já tinham terminado o trabalho de decomposição e transformado aquela montanha de vegetais e sementes numa terra preta, ou seja, em adubo (foto acima, à esquerda).

A gente começou a usar duas dessas caixas-composteiras pra colocar os resíduos orgânicos vegetais e a terceira pra guardar as folhas secas que caíam no outono (além de utiliza-las nas composteiras, elas são importantes pra preparar a terra da horta). Mas mesmo produzindo uma quantidade grande de restos vegetais, o que acontece quando você é vegana e que 90% da sua comida tem casca, não embalagem, uma casa com 3 pessoas não conseguiria encher as duas composteiras em poucos meses. A dona da casa é vegetariana, mas cozinhava pouco, logo produzia pouca casca. Sem falar que depois de se decompor, a matéria orgânica reduz muito. Então de vez em quando Anne ia à feira do bairro, na hora em que feirantes estavam indo embora e levava pra casa restos de vegetais que tinham sido descartados. Principalmente antes de começar uma nova “lasanha”. Mais na frente explicarei sobre o que é lasanha nesse contexto.

Fizemos a horta em 2022, num espaço pequeno, e plantamos poucas coisas, porque a ideia era fazer um teste. Esse é meu segundo conselho pra você: se você nunca plantou na vida, sua primeira horta deve ser bem pequena. Deu tão certo que no ano seguinte resolvemos triplicar o tamanho da horta. As fotos que vocês vão ver à partir de agora são do segundo ano da nossa roça de quintal.

Então imaginem (porque esqueci de fazer fotos) que fizemos a horta em 2022, colhemos muito tomate no verão (julho-agosto), os pés morreram, no início do outono (final de setembro) arrancamos tudo, agradecemos a terra pelo alimento ofertado, cobrimos ela com folhas secas e deixamos descansar por um mês, mais ou menos. Entre o final de outubro e o início de novembro plantamos favas do lado de onde tínhamos plantado os tomates. Primeiro, porque queríamos comer favas no início da primavera. Segundo, e mais importante, porque leguminosas (fava, feijão, grão de bico, etc) fixam nitrogênio no solo, o que o deixa mais rico. É um fertilizante natural, que coloca de volta no solo os nutrientes que ajudaram a produzir a comida que cresceu ali. Como diria Nego Bispo, “a terra dá, a terra quer”.

Na foto acima, à esquerda, os pezinhos de fava ainda pequenos e a hortelã, que voltava sempre depois dos meses frios. E, claro, Satan, o gato que morava com a gente. À partir de abril começamos a colher favas, ao mesmo tempo em que preparávamos a terra (onde tínhamos plantado tomate no ano anterior) pra plantar novamente, cobrindo com uma nova camada de adubo – a terra preta do composto do nosso quintal (foto acima, à direita).

Entre abril e maio (primavera) também é o momento de começar a preparar as mudas. Mas antes disso, é importante fazer um plano da horta, determinando onde e o que você quer plantar (foto acima, à direita). Essa é minha terceira dica. É preciso saber onde tem mais sol, onde só tem sombra, que plantas gostam de crescer juntas e planejar de acordo. Também tem que incluir flores, porque elas atraem polinizadores (besouros, borboletas, abelhas) e hortas dependem desses animais pra dar certo.

Depois de escolher o que plantar, a gente seleciona as sementes pra fazer as mudas (foto acima, à esquerda – cada pacotinho desses tem dezenas de sementes). Temos sementes dos Jardins Operários, da nossa horta (que guardamos no ano anterior), da Palestina, da Irlanda, da Bósnia e da Síria. As sementes que vieram de longe foram ofertadas por amigas e eram uma maneira de nos manter conectadas à elas. Mas elas foram uma parte pequena do que plantamos porqu o ideal é usar sementes do seu território, que estão bem aclimatadas e são mais resistentes. Essa é minha quarta dica.

Vou falar mais sobre as mudas no próximo post, mas pra manter a ordem cronológica dessa aula informal, aqui estão algumas fotos do processo. Acima tem mudinhas de couve e diferentes tipos de alface. E enquanto as mudinhas vão crescendo, você vai preparando a terra pra recebe-las.

Então bora fazer um resumo do meu processo de roça de quintal. Primeiro, comecei a alimentar as composteiras. Depois fiz um plano do que queria plantar e de onde iria plantar, consegui sementes e fiz mudinhas. Depois fui preparar a terra onde eu iria plantar as mudinhas. E é agora que explico o que é uma “lasanha”.

Lembra que aprendi a plantar com pessoas que tem lotes nos Jardins Operários? Tenho vergonha de admitir que, apesar de ser filha de agricultor (hoje aposentado) nunca pedi pro meu pai, nem minha mãe, compartilharem esses conhecimentos comigo. E a pessoa com quem mais aprendi aqui, uma força da natureza chamada Dolorès, pratica permacultura e planta sempre em “lasanhas”, o que nada mais é do que uma técnica que vai alternando camadas de materiais diferentes pra deixar a terra o mais fértil possível.

Nas fotos acima dá pra ver uma composteira ainda com matéria orgânica não decomposta e também o adubo mais antigo, já totalmente decomposto. Os dois estados são necessários pra fazer uma lasanha. Nunca vou deixar de me maravilhar ao ver essa transformação. Como pode pedaços de cenoura, casca de batata e restos de limão (sim, pode colocar frutas cítricas na composteira de quintal, que fica em contato direto com a terra) se tornarem terra preta? Uma coisa mágica!

Como queríamos expandir a área da roça, tivemos que fazer duas lasanhas novas e nas fotos abaixo tem o passo-a-passo dessa técnica. E, se quiser tentar aí no seu quintal, essa é minha quarta dica.

1-A primeira camada é de papelão (sem fita adesiva e sem cor -texto ou imagens impressas). É bom começar uma horta assim, pois reduz a quantidade de ervas não desejadas crescendo entre seus legumes e reduz a perda de nutrientes que podem escoar com a água, mas não é indispensável.

2- Por cima do papelão vai uma camada mais espessa de madeira picada. Aqui usamos os galhos que caem das árvores durante o inverno, mais galhos maiores das podas das árvores que foram triturados. Uma vez por ano a dona da casa podava as árvores e pedia emprestado uma máquina pra triturar madeira de uma amiga. Em seguida a gente guardava esses flocos de madeira, bem protegidos da chuva, pra usar na horta.

3- Por cima dos pedacinhos de madeira, espalhei o “adubo verde”. Ou seja, as cascas e restos de verduras ainda não decompostas.

4- A quarta camada é de folhas secas, também recolhidas durante o inverno, no nosso quintal. Mas antes, colocamos pedaços de madeira pra delimitar a horta e impedir que o material orgânico se espalhasse pelo quintal cada vez que aguássemos.

5- Por último vem a terra preta, o adubo, que deve ser a camada mais espessa.

Importante: entre cada camada é preciso regar com bastante água, pra facilitar a decomposição da matéria ali. Depois de fazer sua lasanha, tem que esperar um pouco antes de plantar. Ela só vai estar pronta dali a algumas semanas (o tempo de decomposição varia de acordo com a temperatura no seu quintal).

Cada camada da lasanha traz nutrientes diferentes pra sua futura horta. O objetivo é tentar reproduzir o que aconteceria no solo de uma floresta, onde caem galhos, folhas, frutas, adubo (nesse caso, cocô dos bichinhos morando ali na floresta)… Depois chove, passa o tempo, faz calor e tudo se decompõe e se transforma numa terra preta e fértil.

Essa de camiseta laranja é Claire, a irmã caçula de Anne. Ela estava nos visitando no dia em que fizemos as lasanhas novas e nos ajudou durante todo o processo. Vejam que na cabeceira dessa lasanha tem algo que só posso descrever como sacos de plantar. Foi presente de uma amiga e apesar de terem sido criados pra quem quer fazer uma micro-horta em um lugar onde não tem terra (em cima de uma laje ou numa varanda de apartamento, por exemplo), resolvemos testar o sistema no nosso quintal e fizemos as mesmas camadas da lasanha ali dentro.

Eu disse que a gente queria triplicar o espaço da horta, não foi? Pois além de aumentar a primeira lasanha, criar uma lasanha menor, acompanhada dos “sacos de plantar”, também fizemos outra lasanha no pé de uma das magnólias (foto acima). Esse era o lugar mais sombreado do jardim, mas resolvemos testar plantar ali vegetais que não precisam de tanto sol.

No próximo post: colocar as mudinhas na terra, cuidar da horta, colher e comer e, mais uma vez, deixar a terra descansar.

Khubeza

No começo da primavera reparei que tinha uma planta crescendo no nosso lote. Uma planta que eu não tinha visto por ali antes e que ninguém tinha plantado. Se trata de uma planta “selvagem”, que cresce espontaneamente em vários lugares. Ela chamou minha atenção porque era uma planta que eu vi muito na Palestina. Se trata de um tipo de malva chamada, em Árabe, “khubeza” (leia “Rubeza”, e a sílaba tônica é “be”). Comi muita khubeza preparada pelas minhas amigas palestinas, pois essa planta faz parte da cultura alimentar dos países da região (Palestine, Jordânia, Líbano e Síria). A visão daquela planta ali, no nosso lote, na periferia de Paris, me emocionou. Lembrei das refeições compartilhadas com amigos e amigas palestinas e a saudade apertou meu peito.

Descobri a khubeza na nossa horta bem no momento em que as pessoas começaram a morrer de fome em Gaza. Israel, na sua campanha genocida contra o povo palestino, que já dura mais de um ano e meio, impedia qualquer ajuda humanitária de entrar em Gaza. Usando a fome como arma de guerra pra seguir com a limpeza étnica do povo palestino, a parte mais fragilizada da população- bebês, crianças e idosas- estava morrendo. A ONU tinha acabado de declarar que se Israel seguisse impedindo a comida de entrar em Gaza, 14 mil bebês morreriam de fome nas próximas 48 horas. E se você se pergunta por que essas pessoas precisam de ajuda humanitária pra comer, aqui vai a resposta: 95% das terras agrícolas em Gaza foram destruídas (bombardeadas) e/ou são inacessíveis (porque o exército israelense impede o povo palestino de pisar ali). Foi o que um relatório da FAO, a agência da ONU para alimentação e agricultura, feito em abril revelou.

Umas semanas depois do encontro com a khubeza da horta, comecei a ler histórias sobre pessoas palestinas escapando da morte por inanição graças à essa planta. Li um palestino, que só comia khubeza há tempos, dizer: “Pessoas sobreviveram aos momentos mais sombrios dessa guerra graças à Khubeza, pois é a única coisa que elas comem. Ela nos apoiou mais do que qualquer pessoa no mundo.” Só que até mesmo colher uma planta selvagem pra escapar da fome imposta por Israel é algo perigoso pro povo palestino. Muitas pessoas foram assassinadas por atiradores do exército israelense enquanto colhiam khubeza. Imagine ter que escolher entre ver suas crianças morrerem de fome ou tentar procurar comida e correr o risco de levar um tiro na cabeça.

Meu coração, com um machucado que não sara desde o início do genocídio cometido por Israel ao povo palestino, dói todo dia. E naquele dia, a dor foi amplificada. Às vezes eu choro muito e a dor, misturada com revolta e vergonha (vergonha por ser testemunha de um genocídio e não fazer nada pra que ele cesse), se espalha pelo corpo inteiro.

No final do dia fui pro lote nos jardins operários cuidar da nossa horta. Ainda não descobri tratamento melhor pra amenizar as dores do coração e os males da cabeça do que colocar a mão na terra. Aí vi o pezinho de khubeza crescendo ali, bem no meio do lote. Colhi algumas folhas e mandei uma mensagem pra minha grande amiga Draguitsa, que mora no campo de refugiados de Desheisha, em Belém (a palestina), perguntando como cozinhar a planta. Apesar de ter comido muita khubeza por lá, era sempre preparada por uma das minhas amigas palestinas e eu queria fazer igualzinho. Mandei a mesma mensagem pra Lila, uma amiga, e vizinha de lote, síria porque fiquei curiosa pra saber se no país dela o preparo era diferente. As duas me responderam com praticamente a mesma receita: lave a khubeza (folhas e talos tenros) e pique miúdo, dê uma fervura nela (Lila pula essa etapa), escorra, refogue cebola (Lila usa alho também) em bastante azeite, junte a khubeza picada, salgue e cozinhe até que fique bem macio. Sirva com molho de pimenta e coma com pão. Lila gosta de servir com limão e me disse que em Alepo, a cidade natal dela, também é comum preparar essa folha com quiabo.

Chegando em casa preparei a khubeza colhida no meu lote seguindo as instruções das minhas amigas. Cozinhei com muito carinho, mas acabei temperado tudo com lágrimas. E acho que quando isso acontece, a gente sente a tristeza quando coloca a comida na boca e acabei chorando de novo quando sentei pra jantar, depois de ter feito uma oração pedindo que não faltasse comida na mesa de ninguém em Gaza.

Mas no meio de toda essa tragédia (criada por Israel, nunca é demais repetir, já que a mídia se refere à fome em Gaza como “crise humanitária”, como se não fosse algo intencional. Não é crise humanitária! É genocídio, é limpeza étnica, são crimes contra a humanidade e Israel é um projeto colonial que já dura quase cem anos), no meio de toda essa tragédia, pensar que de uma terra devastada, que recebeu- e recebe ainda- toneladas de bombas, brota uma planta que é a diferença entre a vida e a morte pra um povo, me emocionou.

O que como em uma semana – periferia de Paris

Ano passado publiquei um post mostrando o que eu comia em uma semana e foi um grande sucesso por aqui. Naquele momento eu estava morando em Natal e as comidas que apareceram no meu prato refletiam meu modo de vida por lá e, principalmente, a oferta de alimentos locais, naquela estação. Por isso achei importante voltar com mais uma “semana de refeições” agora que estou num ponto do globo muito distante de cajueiros e plantações de macaxeira: o distrito 93, que fica na periferia norte de Paris, França.

Apesar do estilo das minhas refeições ser diferente quando estou na França (por exemplo, quase sempre faço pratos completos, tudo misturado, e não o esquema de pf no Brasil com feijão+arroz+verdura cozida+salada) sigo a mesma linha de alimentação aqui. Não tenho acompanhamento de nutricionista, não calculo macro nutrientes nem peso comida e ainda não aderi à obsessão mundial por proteína, que já entrou na cabeça de muitas veganas “fitness”. Embora eu prepare minhas refeições com intenção de nutrir o meu corpo e cuidar da saúde pra seguir na peleja da vida e da militância, eu como o que eu gosto e me dá prazer. Tenho a imensa sorte de amar verdura, de achar fruta a sobremesa mais perfeita, de não gostar de frituras nem sentir necessidade de comer doces. Que mais? Feijão é a minha comida preferida, junto com favas e as outras leguminosas, e não bebo suco (prefiro comer a fruta).

No momento estou incluindo mais alimentos à base de soja na minha alimentação porque entrei na peri-menopausa (pré-menopausa) e a soja tem muitos benefícios pra quem está atravessando essa fase…desafiadora. Detalhe importante: todos os alimentos à base de soja que você vai ver aqui foram feitos com soja orgânica, não transgênica, cultivada na França e ainda assim priorizo os fermentados (iogurte natural) e minimamente processados (tofu, leite).

Aproveito pra dizer que todos os vegetais frescos aqui foram cultivados na França ou, em alguns casos, na Itália ou Espanha. Idem pros cereais (aveia, trigo, arroz, cevada, quinoa) e sementes/castanhas (amêndoas, chia, girassol, jerimum). É algo importante pra mim e isso acaba reduzindo um pouco as opções. Nos supermercados da Europa tem quase tudo o ano inteiro, porque importam qualquer coisa de qualquer país (abacaxi do Kenya, kiwi da Nova Zelândia, manga da Índia, limão do Brasil, abacate do Peru, uva do Chile…), mas me recuso a participar dessa insanidade. Até porque, mesmo com as opções limitadas, ainda tem muita coisa pra comer por aqui e nos países vizinhos. Essa época do ano é um pouco difícil porque os vegetais de inverno acabaram, mas os vegetais de verão ainda não chegaram de vez. Mas depois de ver as fotos todas juntas vi muita diversidade e pensei que, realmente, não tenho do que reclamar.

Segunda-feira

Café da manhã: aveia dormida (com chia e leite de soja), iogurte natural de soja, compota de maçã (sem açúcar, feita por uma amiga), pasta de amêndoas, 1 castanha da Amazônia + café (sempre amargo). Almoço: salada completa com cuscuz de cevada (no estilo do cuscuz marroquino, que é de trigo), pepino, funcho, repolho roxo, tofu defumado e repolho fermentado (chucrute), temperada com limão e azeite. Jantar: sopa de lentilha coral, arroz e brócolis, salada de endívia, laranja e semente de jerimum tostada.

Eu falei que tento comprar comida que cresce por aqui, mas claro que o café e a castanha da Amazônia vêm de longe. Adoro chucrute, e todo tipo de legume fermentado, e acho importante incluir alimentos fermentados na minha alimentação cotidiana (a flora intestinal agradece). Um informação sobre as saladas que acompanham minhas refeições: prefiro sem tempero nenhum, nem molho nem azeite.

Terça-feira

Café da manhã: aveia dormida (com chia e leite de soja) com ameixa passa, pasta de amêndoas, 1 castanha da Amazônia e canela + café Lanche da manhã: pão de fermentação natural com nozes, queijo de tofu + cappuccino com leite de aveia. Almoço: mistura de leguminosas (feijão vermelho e branco, grão de bico e ervilha seca) com tomate e abobrinha, salada crua de pepino, repolho roxo e rabanete preto (só a casca é preta) e chucrute. Lanche da tarde: pão de fermentação natural com nozes, queijo de tofu e salsicha de tofu com mostarda de Dijon. Jantar: foul (pasta de fava marrom com tahina e cominho), mâche (um tipo de alface), pepino e funcho + iogurte natural de soja e laranja.

Eu amo ameixa passa e aqui elas são vendidas sem açúcar (não é ameixa em calda!). A receita do queijo de tofu já apareceu aqui no blog e recomendo demais. Essa salsicha também é feita de tofu (75% da salsicha é tofu) com óleo de girassol, alguns vegetais e temperos. É algo que não como com frequência, porque é mais caro do que feijão e arroz e porque é um alimento pra comer em ocasiões especiais, mesmo. Ainda não tem tomate fresco por aqui, então ainda estou usando tomate de lata (100% tomate e nada mais) ou extrato de tomate (também 100% tomate) pra temperar meus pratos.

Quarta-feira

Café da manhã: esqueci de fotografar, mas foi minha amada aveia dormida com maçã. Almoço: mexidão de arroz integral com proteína de soja temperada com tomate e ervilha torta (da nossa horta), salada com mâche (um tipo de alface), pepino, rabanete preto e chucrute. Jantar: macarrão integral com molho de tomate, abobrinha e queijo de tofu, salada de mâche, rabanete e laranja.

Momento histórico: em 15 anos de blog, essa foi a primeira vez que proteína texturizada de soja (PTS) apareceu aqui. Eu não gosto do sabor, por isso a ausência dela nas minhas receitas. Semana passada comprei um pacotinho de PTS orgânica e resolvi dar uma chance pra bichinha, mas sigo sem gostar do sabor. Agora não sei como vou fazer pra dar cabo do pacote que está no armário.

Quinta-feira

Café da manhã: aveia dormida (com chia e leite de soja), maçã, iogurte natural de soja, pasta de amêndoas e 1 castanha da Amazônia, pão de fermentação natural com nozes e queijo de tofu + café. Almoço: o resto do macarrão de ontem, cenoura e pepino, foul (pasta de fava). Jantar: rolinhos de verão com molho de amendoim

Esqueci de fazer uma foto do jantar, porque recebi amigas pra jantar com a gente aqui em casa e não uso o telefone quando tenho companhia, mas coloquei uma foto do post onde explico como fazer esses rolinhos maravilhosos (com muitas, muitas verduras cruas, tofu e um molho de amendoim e gengibre de cair da cadeira de tão gostoso) pra vocês saberem do que estou falando.

Sexta-feira

Café da manhã: grãomelete fermentado, baguette de fermentação natural + café Lanche da manhã: aveia dormida (com chia e leite de soja), mirtilo, iogurte natural de soja, pasta de amêndoas e 1 castanha da Amazônia. Almoço: os restos dos vegetais (rabanete, pepino, cenoura, alface e hortelã) e molho de amendoim dos rolinhos do jantar de ontem, mais macarrão de arroz (também do recheio dos rolinhos) esquentado na frigideira (quase uma panqueca) + iogurte natural de soja com mirtilos. Lanche da tarde: cenoura e funcho crus, foul (pasta de fava e tahina), pão assado (na frigideira) com azeite e laranja. Jantar: lentilha com uma mistura de vegetais do nosso lote nos Jardins Operários (urtiga branca, folha de malva, hera terrestre e cebolinha) + salada com acelga verde, folha de dente de leão, azedinha e uma alface selvagem (tudo do nosso lote), maçã e nozes, temperada com melado de romã (da Palestina) + morango com melissa e flores de borragem (também do nosso lote).

Passamos a tarde, Anne e eu, cuidando da horta nos Jardins Operários, então aproveitei pra colher os ingredientes do jantar. Adoro incluir plantas selvagens (plantas comestíveis tradicionais – antigamente conhecidas como PANCs) na minha alimentação. Tanto porque o sabor é interessante, quanto pra aumentar ainda mais a variedade da minha dieta.

O iogurte que compro aqui é realmente natural: sem açúcar e sem nada além de soja orgânica, água e bactérias pra fermentar o leite. Acho uma pena os iogurtes vegetais no Brasil serem todos adoçados e cheios de ingredientes estranhos.

Os morangos da nossa horta são miudinhos e perfumados e tive a ideia de misturar com folhas de melissa e achei a combinação maravilhosa (da próxima vez vou só diminuir a quantidade de folhas, pois tinha mais melissa que morango).

Sábado

Café da manhã: aveia dormida (com chia e leite de soja), maçã, pasta de amêndoas e 1 castanha da Amazônia + café. Almoço: mistura de leguminosas (feijão vermelho e branco, grão de bico e ervilha seca) com tomate e coentro, cuscuz de cevada, salada com acelga verde, alface, azedinha, folha de dente de leão, semente de jerimum tostada e chucrute. Lanche: 1/2 sanduíche com “atum” vegetal (à base de proteína de ervilha e algas), rúcula e cebola roxa e 1/2 fatia de quiche de legumes. Jantar: sopa de lentilha rosa (só lentilha, cebola, cominho, e limão) com coentro, rabanete e cubinhos de pão tostado no azeite.

Fui pra Paris com Anne e passamos do lado de uma padaria 100% vegetal que vende muita coisa gostosa. Esse sanduíche de “atum vegetal” é assustador de tão parecido e as quiches são deliciosas. Recomendo muito esse lugar pra quem estiver de passagem por Paris, se chama Land&Monkeys. Mas nesse dia Anne passou mal e à noite ela me pediu um prato que sempre cura as doenças dela (e as minhas): sopa de lentilha palestina, feita com lentilha rosa, cominho e muito limão. Depois do jantar ela já estava boazinha. (Fiz uma versão simplificada dessa receita, sem arroz e sem alho).

Falei que kiwi aqui vem da Nova Zelândia, mas esses que aparecem na minha mesa vieram da Itália. De todas as frutas, kiwi é uma das que eu menos gosto e foi a primeira vez na vida que comprei kiwi. Mas como a oferta de frutas que cresce por aqui é pequena no momento (vai melhorar quando o verão chegar com todas as suas frutas suculentas), eu acabei trazendo uns kiwis orgânicos pra casa pra variar um pouco (senão era só laranja e maçã todo dia).

Domingo

Café da manhã: tofu mexido com tahina e limão, pão de fermentação natural + café. Almoço: mutabbal (pasta de berinjela defumada) com baguette de fermentação natural e rabanetes. Jantar: soba (macarrão de trigo sarraceno) no leite de soja e tahina, tofu defumado e coentro, salada de favas verdes com laranja e semente de girassol. Ceia: pão de fermentação natural com queijo de tofu, kiwi e iogurte natural de soja.

Passei o dia nos Jardins Operários, cuidando do nosso lote junto com camaradas do coletivo. Queria ter preparado o almoço pra levar, mas preferi encher o bucho de tofu de manhã e tomar vários cafés enquanto conversava com Anne (domingo só presta se começar assim). Então só deu tempo de fazer um mutabbal, lavar uns rabanetes e pedir pra uma camarada levar pão. Claro que quando saí dos jardins, às 16h, já estava morrendo de fome. Então jantamos cedo, por volta das 17h, e antes de dormir fiz uma ceia leve. O prato do jantar pode parecer estranho, mas é a minha obsessão há meses! Me inspirei de um prato maravilhoso servido num restaurante japonês vegano de Paris e desde que descobri que conseguia fazer uma versão simplificada em casa, como isso pelo menos uma vez por semana.

Termino esse post com as duas colheitas que fiz durante a semana na nossa horta coletiva (espere até o verão chegar, com seus tomates e abobrinhas, e a colheita vai ser muito mais impressionante!). Tudo isso apareceu no cardápio que mostrei acima. E não fotografei, mas também consumi bastante keffir (de água) feito por mim mesma e vários pedaços de chocolate 100% cacau.

Bônus

Acima, duas refeições que fiz antes de começar a documentar todo que comi na última semana. Na esquerda tem um banquete feito pela minha amiga (e vizinha de lote nos Jardins operários) Lila, que é síria e cozinha maravilhosamente bem. Aqui tem salada de favas (maduras), fatush (salada de legumes crus com pão pita frita no azeite), mutabbal, taboulê (salada de legumes crus e triguilho), mais a pimenta e legumes fermentados que ela mesma prepara. Na foto da direita tem um almoço feito por mim: quinoa com brócolis, cogumelos ostra salteados, salada de repolho roxo, pepino e coentro com molho de tahina e missô + laranja.

Abaixo meu almoço de hoje: risoto com arroz integral, favas verdes (da horta) e maduras, salada de alface e cenoura crua com molho de tahina e semente de jerimum, mais iogurte natural de soja com laranja (deu pra perceber que amo essa combinação, né?). E à direita, meu chocolate preferido. Gosto de chocolate 100% (totalmente amargo) e esse aqui é um desbunde! Mas chocolate é comida de luxo e só como um quadradinho por vez. Felizmente o sabor é tão intenso que me satisfaz totalmente. Essa barra de 100g (dividida em 24 quadradinhos) dura um mês inteiro, se eu estiver comendo sozinha.

Sobre ter uma prática vegana na estrada

Muitas, muitas luas atrás, quando esse blog ainda era um bebê de pouco mais de um ano, e que eu ainda usava o masculino como neutro, escrevi um post chamado “Vegano na estrada“, com dicas pra não passar fome durante viagens. Além das dicas, que ainda considero úteis, aquele post tem fotos de uma versão muito mais jovem e otimista da autora dessas linhas.

Não vim revisitar o post mencionado nem fazer uma versão atualizada das dicas. Vim falar do que a Sandra jovem e otimista evitou abordar naquele texto, porque ela não queria afastar as pessoas do veganismo, queria passar uma imagem positiva e convidativa em qualquer circunstância. Quase uma década e meia depois, não só parei de me importar com esse tipo de coisa, como meu pensamento se desenvolveu muito e hoje vejo restrições como: 1-inevitáveis, 2- um convite a repensar prioridades e 3-o ponto de partida pra uma reflexão muito mais profunda, que vai além da comida. Vou usar alguns exemplos de situações e refeições que fiz na viagem que fiz na Amazônia no final do ano passado, quando fiquei quase dois meses na estrada.

Nas duas fotos acima vemos refeições feitas “na estrada”, em lugares muito simples e que seriam considerados “sem opção vegana”. Não porque não tinha nenhuma comida de origem vegetal, mas porque são comidas vistas como “acompanhamentos” e se alimentar dessa categoria de alimentos é considerado pela maioria como uma refeição que não é “completa”.

A primeira foto é de um café da manhã em uma pousada numa cidade bem pequena, na zona onde o Nordeste se torna Amazônia. No buffet tinha três frutas (melão, mamão e banana), cuscuz (sem nenhum tipo de leite, só na água e sal), café e tapiocas recheadas com queijo e/ou ovo. Chamei a cozinheira e perguntei se ela podia fazer tapioca sem nada pra gente (Anne e eu) e ela fez, sem problemas. Num canto do restaurante da pousada, usado no buffet do almoço, vi que tinha uma garrafa de azeite. Perguntei se poderia usar o azeite na minha tapioca e isso também me foi concedido com um sorriso.

A foto acima, à direita, é de um almoço em uma churrascaria na beira da estrada, no caminho pra São Luís. Naquele momento nós já estávamos viajando há mais de um mês e foi a primeira vez que, em um restaurante self-service/no quilo, todos os feijões tinham animais ou derivados de animais dentro. Acho revoltante quando um restaurante tem um montão de opções de carnes animais e mesmo assim enfia mais animais dentro de todos os feijões. Mas tudo bem, mesmo nessa situação consegui um prato de alimento: macarrão no alho e óleo, arroz, beterraba e jerimum cozidos, salada de tomate com pepino, abacaxi e melão (Anne também comeu macaxeira frita, porque ela ama!).

Ouço vozes indignadas gritando “Cadê a proteína???” Sim, nos dois casos as refeições teriam sido mais nutritivas (e teriam me saciado por mais tempo) se tivesse uma aveia com leite de soja, ou um hummus pra passar na tapioca na primeira, e duas boas conchas de feijão na segunda. Mas ninguém se desintegra automaticamente depois de fazer uma refeição com mais carboidrato do que proteína, meu povo! Bora relaxar um pouco a obsessão com proteína, bora? Até porque poderia ser muito pior: você poderia não encontrar nada pra comer e ficar com fome.

E falando em ficar pior, tem, realmente, momentos mais difíceis quando a gente é vegana e está viajando de ônibus, trem e barco no interiozão desse território conhecido como Brasil.

A foto acima, à esquerda, foi de um almoço improvisado em uma universidade federal. A lanchonete só vendia salgados e sanduíches com animais. Tinha uma pessoa vendendo quentinhas na universidade, mas já com carne de animais misturada dentro da comida. Quando o estômago roncou e eu ainda precisava ficar mais um pouco ali, vi que a lanchonete também vendia bolacha do tipo água e sal de uma marca que eu sei que não usa ingredientes de origem animal. Comprei um pacote, que acompanhamos de suco de laranja natural. Isso está muito longe de ser um almoço equilibrado, ou até razoavelmente satisfatório. Mas enganou a fome por mais uma hora, o tempo que precisávamos pra sair dali e procurar um almoço de verdade em outro lugar.

Aí tem momentos que você não encontra nada pra comer. Um noite, ao chegar em uma pousadinha de beira de estrada, já bem tarde, o único lugar que ainda estava aberto (entregando comida) não tinha absolutamente nenhuma opção vegetal, nem sequer “veganizável” com alguns ajustes. Felizmente, essa vegana aqui sempre anda com comida na bolsa e antes de subir no ônibus que me levou até aquela cidadezinha, 24 horas antes, eu tinha comprado uma penca de bananas na rodoviária. Sim, fruta é comida e nos interiores do Brasil ainda é fácil encontrar frutas pra vender, principalmente próximo (às vezes dentro) das rodoviárias. Então nós, que já estávamos nos alimentando praticamente só de bananas, comemos as últimas bananas da penca e fomos dormir.

Por maior a frustração que os momentos acima tenham me causado, entendo que eles são acontecimentos pontuais, dentro de uma vida de fartura, onde não só nunca fui dormir de barriga vazia, como a maior parte das minhas refeições são extremamente saborosas e variadas. Mais uma vez, ninguém morre se jantar duas bananas uma vez na vida .

Termino com mais dois exemplos de como se virar na estrada, quando se tem uma prática vegana. A refeição à esquerda foi feita no barco que nos levou de Manaus pra Belém. O almoço servido a bordo era composto por feijão, arroz, macarrão e uma carne animal. Eu pedia sem animal e completava a refeição com uma banana (levei várias pencas na bagagem, pois a viagem durou 5 dias) e com uma mistura de gergelim e semente de girassol torrados, cebola e alho desidratados e um pouco de sal que fiz especialmente pra esse trecho da viagem. Coloquei num potinho e salpicava os meus almoços com esse mistura (inspirada no gersal da culinária macrobiótica), pra que eles ficassem mais nutritivos e saborosos. É uma maneira bem prática de melhorar refeições na estrada. Basta ter alguns elementos-chaves na bolsa (sementes, castanhas, frutas secas e/ou frescas) pra melhorar o ordinário.

Na última foto: abacaxi e manga, degustados no voo que marcou o fim da viagem e nos levou de volta pra Natal. Vou repetir: fruta também é comida. E pode ser um lanche completo, sem mais nada. Enquanto as passageiras ao meu redor comiam os biscoitos/bolachas distribuídas pela companhia aérea, junto com sucos de caixinha, eu me fartava com as delícias que a natureza nos oferta.

Sempre penso nas pessoas que dizem ter deixado de ser veganas porque viajam muito e “não tem opção vegana nas viagens”. Obviamente que essas pessoas, apesar de se alimentarem de vegetais, não o faziam por razões éticas. Eu não sei você, mas quando penso em todo o sofrimento que o complexo industrial especista – a indústria da exploração animal- causa nos animais, que são torturados e mortos aos milhões a cada dia, só no Brasil (sim, MILHÕES a cada dia!), fazer uma refeição aqui outra acolá que não seja ideal, e até jantar só uma banana, me parece um “sacrifício” bem pequeno pra não quebrar a minha solidariedade e passar do lado de dos que participam dessa injustiça tão cruel. Irrisório, até. Veja que não estou falando aqui de passar fome, simplesmente de aceitar que em certos contextos (viagens) a gente não vai encontrar uma opção vegana perfeita (gostosa, nutritiva, acessível) e que se contentar com algo mais simples faz parte da vida de uma vegana dentro de uma sociedade especista e capitalista. E esse é o cerne da questão.

Pra além de discutir a suposta dificuldade de ter uma prática vegana na estrada, estou cada vez mais convencida da importância de chamar a atenção das pessoas pra algo que não tem nada a ver com veganismo. A mentalidade capitalista nos condicionou a esperar ter tudo, o tempo todo, do jeito que a gente prefere, na hora que a gente quer. Por isso fazer uma refeição, ou algumas, que não sejam “ideias”, mesmo num contexto específico e de duração limitada (viagem), pode parecer como um sacrifício impensável. E talvez o veganismo, além de ser uma prática de solidariedade com outros animais, seja também uma oportunidade de ter atitudes mais maduras (leia: menos mimadas) com relação à comida. E, indo ainda mais longe, entender que é preciso aceitar ter menos, de vez em quando, pra que tenha suficiente pra todo mundo.

PS Se as bananas me salvaram da fome no Maranhão, foram as mangas (foto de abertura desse post) que me salvaram no Acre. Depois de quase um dia inteiro sem comida, cruzar com uma mangueira carregada foi uma fonte de alegria, além de calorias, pra todo um grupo de pessoas, das quais apenas duas eram veganas.

Domingo – 2

Um segunda rodada de recomendações dominicais, mais de dois meses depois da primeira.

A jornalista Eliane Brum criou, em 2022, o site Sumaúma: jornalismo do centro do mundo. Se você ainda não conhece essa plataforma de notícias da Amazônia, não perca mais tempo. Os artigos e reportagens são excelentes, mas gostaria de recomendar hoje a série em HQ “Guariba: Uma visão não-humana da história da Amazônia” onde acompanhamos um macaco guariba enquanto ele “explora sua casa-floresta e tenta entender os humanos que o ameaçam.” Em seu manifesto, o site Sumaúma se coloca como antiespecista e além dessa série tem uma coluna chamada “Mais-que-humanes” com notícias e histórias dos povos da Amazônia que quase nunca ganham manchetes, os outros animais.

Não é de hoje que o debate sobre ultraprocessados de origem vegetal (os famosos “plant based”) alimenta divergências dentro do movimento vegano. Tem quem ache que é um atalho pra que mais pessoas consumam produtos veganos e tem quem ache que essa estratégia é um tiro no pé (como nós, que construímos o veganismo popular). Recentemente começou a pipocar reportagens sobre “ultraprocessados menos piores”, “mais saudáveis” e “do bem”. O Joio e o Trigo respondeu de maneira muito didática à essa questão.

Mas deixa eu chamar sua atenção pra um ponto muito importante. O complexo industrial especista anda se aproveitando da discussão em torno de ultraprocessados pra descer o cacete nos produtos ultraprocessados “plant based”, com manchetes como: “Ultraprocessados à base de plantas podem aumentar risco cardiovascular”. Repare que a linha traçada aqui é desonesta e tem um único intuito: fazer as pessoas acreditarem que uma dieta vegetal é perigosa e descreditar o veganismo. O ruim nos produtos descritos na reportagem que citei é o fato de serem ultraprocessados, não o fato de serem à base de plantas. Percebe a desonestidade? E, mais uma vez, percebe o tiro no pé que é apostar em ultraprocessados vegetais como estratégia dentro do movimento vegano?

A primavera chegou no hemisfério norte e nossa horta nos jardins operários está toda florida. Estou ansiosa pra comer nossas favas (foto de abertura desse post), mas ainda vai demorar alguns meses. Enquanto isso, sigo germinando sementes e preparando as mudas dos legumes de verão que serão plantados mês que vem (tomate, abobrinha, berinjela…). Minha cozinha foi transformada em berçário de plantas e, no meio de todas as dificuldades que estou atravessando no momento, cuidar desses bebês é uma das coisas que está segurando meu juízo dentro da caixola. Plantar é um dos melhores antidepressivos que existe.

Desde ontem estou desejando meu creme voluptuoso de chocolate e laranja. Até hoje é a minha sobremesa mais popular aqui no blog.

E porque nos domingos a saudade da minha mãe aumenta, fui reler a última conversa que nós tivemos, antes dela parar de falar de vez, e me emocionei de novo: Um punhado de farinha e um pedaço de rapadura .

Desejo que a semana que vem sorria pra nós.

Um cheiro

S

Na minha periferia, sionistas e fascistas não se criam!