Foi uma viagem muito especial, tocante e fora do comum que fizemos em outubro. A Palestina é um território ocupado (por Israel, desde 1967) e quem vem pra cá tem que conviver com checkpoints (barragens militares israelenses na fronteira e, principalmente, dentro dos territórios palestinos) que ditam quanto tempo levará cada um dos seus deslocamentos, soldados israelenses pesadamente armados que decidem pra onde as pessoas podem, ou não, ir e violações dos direitos humanos tão gigantescas e escancaradas que você vai ter vontade de colocar as mãos na cabeça e gritar: “Por que ninguém está fazendo nada pra impedir isso?”. Revolta e indignação são os dois sentimentos que colam em você logo na chegada e te acompanham durante toda a viagem. Pelo menos uma vez por dia você sentirá uma dolorosa sensação de impotência percorrer o seu corpo inteiro. E quando o monstro da injustiça aparecer ali na sua frente seus olhos se encherão de lágrimas. Se você for como eu, você vai chorar com frequência.

Esse foi o segundo tour político na Palestina que organizei. (O terceiro, e provavelmente o último, acontecerá em dezembro.) Dessa vez consegui me sentir menos culpada por mostrar aos participantes, que vieram de tão longe, tanta tristeza. Todos os dias eu repetia mentalmente: “Eles estão aqui porque querem descobrir essa realidade, vieram todos por livre e espontânea vontade”. Mas não vou mentir: a viagem de outubro foi, pra mim, ainda mais difícil do que a do ano passado. Porque a situação nos Territórios Palestinos Ocupados (TPO, como a ONU chama oficialmente – a sigla em Inglês é OPT) nesse mês de outubro de 2015 foi a pior que já vi desde que coloquei os pés aqui pela primeira vez, em 2007. Postei alguns artigos na página FB do blog e quem quiser saber do que estou falando basta dar uma passada por lá.

Mas não é disso que eu quero falar hoje. Diante de uma realidade tão injusta aconteceu algo curioso. Instintivamente usamos humor pra chegar no final do tour com a nossa sanidade mental intacta. A mesma coisa aconteceu durante o tour do ano passado e se vocês soubessem o quanto ri com os participantes desses tours vocês iam achar obsceno se divertir tanto quando um povo inteiro é oprimido, preso e assassinado debaixo do seu nariz. Mas o humor é uma estratégia de sobrevivência utilizada pelos palestinos também. É humano, muito humano. E além de ser uma estratégia pra enfrentar a realidade revoltante daqui, que te dá um murro no estômago várias vezes por dia, as pessoas que participam desses tours são incríveis, cheias de coisas boas e divertidíssimas. Juntamos uma coisa com a outra e rimos imensamente. Eu tenho muita sorte de poder conhecer tanta gente bacana.

Então o que eu vou levar comigo dessas duas semanas de tour são os momentos onde rimos muito, fizemos piadas com tudo e com todos, incluindo nós mesmos, tivemos conversas absurdamente hilárias e compartilhamos momentos de ternura.

Como quando Diego apresentou Dj Cremoso pro grupo (eu nem sabia que tecnobrega existia!) e passamos o resto da viagem fazendo mini sessões noturnas de dança. Na nossa sala, quando ninguém de fora podia nos ver, claro. The Smiths + DJ Cremoso!!!!! Quem imaginava que a maionese do brega era o que estava faltando na minha vida?

Lembro quando os meninos e eu sentamos no chão da cozinha, analisando se a música “Rock the casbah” era anti-muçulmana/racista, assistindo ao clip no celular, enquanto esperávamos a sopa de lentilha do jantar ficar pronta. Depois de muito analisar o tatu, os personagens do vídeo, refletir longamente sobre a frase “Drop your bombs between the minarets” e nos perguntarmos se todo punk é necessariamente anti-racista, ainda estamos sem resposta.

Planejamos do grupo inteiro fazer uma entrada triunfal na Igreja da Natividade, o lugar onde supostamente Jesus nasceu, todos vestidos de branco num afoxé improvisado, uns dançando e outros tocando atabaque, pra driblar a imensa fila de peregrinos que nos impedia de entrar na parte principal da igreja. Ia ser uma cena tão linda…

E falando em Jesus (cristãos não se ofendam, por favor. Eu admiro esse palestino tanto quanto vocês), nos divertimos montes visitando os lugares onde ele disse suas frases mais famosas, mas que não estão na Bíblia. Por exemplo, subimos na pedra onde Jesus disse: “Não me inveje, trabalhe!”. E sentamos embaixo da árvore onde ele disse: “Falar de mim é fácil, difícil é ser eu.” Foi emocionante!

Por alguma razão misteriosa viciamos na expressão “todo trabalhado no…” (ninguém sabe quem começou) e usávamos ela pra descrever tudo. Todo dia o grupo voltava pra casa “todo trabalhado no gás lacrimogêneo”. O café da manhã era “todo trabalhado no hummus”. Teve quem voltou do mar morto “toda trabalhada na areia”…

Escutei muito David Bowie com companheiro Diego, enquanto cozinhávamos juntos. E quando não tinha música por perto a gente cantava. Durante a colheita de azeitonas eu cantava, de cima de uma oliveira, “Turn and face the strange…” e ele, de cima de outra oliveira, respondia “Ch-ch-changes”. Os palestinos donos das oliveiras ainda estão se recuperando desse concerto não desejado.

Contei meus planos ultra secretos de fazer um flash mob no checkpoint de Belém: um grupo de estrangeiros cantando “Like a virgem”, de Madonna, apontando pra saída – Jerusalém- e falando pros palestinos esperando por trás das barreiras de ferro e de soldados: “I’m gonna take you there”. Alguém sugeriu um flash mob-afoxé (a gente queria muito tocar atabaque e dançar vestido de branco, não nos pergunte o por quê) e em uma das vezes que atravessamos o checkpoint começamos a mexer os ombros discretamente, mas seria a nossa última dança no país, pois seríamos todos deportados, então desistimos.

E tivemos conversas políticas profundas, envolvendo sexismo, discriminação de gênero/orientação sexual, racismo… Em Hebron uma colona israelense mandou os soldados prenderem a gente duas vezes (nosso crime? Andar por uma cidade palestina acompanhados de uma senhora palestina!) e como eles tinham coisas mais importantes pra fazer (coçar o entreperna, brincar no celular e oprimir palestinos) do que prender estrangeiros ela se revoltou e gritou pro nosso lado, desfigurada pelo ódio: “Espero que vocês todos morram”. Então eu devolvi a gentileza dizendo algo que até então nunca tinha dito na vida: mandei ela tomar no monossílabo. O que assustou o grupo, tadinhos, e mais tarde desencadeou um debate. Sabendo que tomar no monossílabo pode ser uma fonte de prazer, que essa atividade é praticada por uma parte da população que sofre discriminação (não são os únicos, sei) e que ainda por cima você está na verdade desejando que a pessoa xingada seja violentada sexualmente, chegamos a conclusão que o xingamento, além de não ser eficaz, é problemático. Então foi a primeira e a última vez que essas palavras saíram da minha boca. Ainda estamos procurando um substituto pros momentos em que tivermos vontade de mandar alguém tomar lá onde as costas mudam de nome. Sugestões são bem-vindas.

Nadja, que era a calma encarnada, conseguia se manter tranquila nas situações mais loucas. E ainda filmava tudo, sem nem pestanejar. Não tinha bomba de gás nem disparos nem soldados que a assustassem! Quando a gente perdia ela momentaneamente durante os protestos, nós correndo desesperados do gás e tentando não ficar entre os palestinos e os soldados israelenses (linha de tiro),  todo mundo esperava que ela aparecesse por trás dos soldados, câmera na mão, batendo delicadamente no ombro de um deles e dizendo: “Dá uma afastadinha aí, por favor, que você está atrapalhando a minha foto”. Os palestinos não entendiam porque ríamos tanto e alguns devem ter começado a se perguntar se o gás lacrimogêneo também tinha efeito hilariante nos gringos.

A gente também riu muito uns dos outros. Ninguém, com excessão de Diego, que já me conhecia pessoalmente, esperava que eu fosse engraçada (como assim, gente? Alguém mais aqui acha que não tenho senso de humor?). E eles ficaram impressionadíssimos com meu, huuum, talento pra dançar tecnobrega ou qualquer outro ritmo. Ameaçaram até filmar meus passinhos ultra originais e colocar aqui no blog pra todo mundo ver “a verdadeira Sandra”.

E não vou nem começar a contar as ideias malucas que tivemos lembrando do filme “A vida de Brian”. Só vou dizer que a inspiração veio da cena de apedrejamento.

Foi realmente uma viagem muito especial. Mas além dos momentos de emoção intensa, tanto positiva quanto negativa, vou sempre lembrar com carinho dos momentos onde, depois de um longo dia testemunhando injustiças, crimes, opressão e a desumanização dos palestinos pelas forças de ocupação israelenses, nos reuníamos ao redor do chá e abraçávamos a nossa humanidade. E o riso é uma das melhores maneiras de fazer isso.

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