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Eu conheci Ahmad Safi, um dos fundadores da Palestinian Animal League (PAL – Liga Animal Palestina), em 2015. Sou uma grande admiradora do trabalho que a PAL, a primeira Organização de Proteção aos Animais atuando dentro dos Territórios Palestinos Ocupados, está fazendo e tinha vontade de entrevistar Ahmad desde então. No final de abril deste ano, finalmente marcamos uma data e nos encontramos na hora do almoço no Sudfeh, o primeiro restaurante vegano/vegetariano da Palestina, localizada na Universidade Al Quds, em Abu Dis.

Ahmad chegou dizendo que não estava se sentindo tão bem. Na noite anterior soldados israelenses invadiram o campo de refugiados de Jalazone, onde ele vive com sua família, e atiraram nos moradores. “Ontem à noite eu encontrei um amigo e decidimos sair para nos divertir. Quando chegamos na entrada do campo vimos dois garotos feridos. Olhei pro que estava mais perto de mim e tinha tanto sangue que não o reconheci, mas me disseram que era meu vizinho. Eu coloquei o garoto no meu carro e meu amigo me ajudou a levá-lo ao hospital. Ele tinha ferimentos muito graves, parte do seu cérebro estava exposto. Não levamos o outro rapaz porque ele já estava morto. Outras pessoas no campo também estavam feridas. Infelizmente, meu vizinho morreu no hospital. Ele só tinha 16 anos. Hoje de manhã alguém estava grelhando carne. Durante a primeira intifada algumas pessoas do campo morreram queimadas e é exatamente o mesmo cheiro de carne sendo grelhada. Eu já senti o cheiro de muitos cadáveres na minha vida, mas na noite passada foi terrível. Eu me senti realmente mal. Vim trabalhar hoje pra tirar esses pensamentos da cabeça.”

 Esse é o dia a dia dos palestinos. Não foi a primeira vez que Ahmad presenciou alguém que ele conhecia, um vizinho, um amigo, sendo morto pelas forças de ocupação. A vida continua, mas não consigo não me sentir estranha perguntando a ele sobre veganismo depois de ouvir os terríveis eventos que aconteceram há poucas horas.

Mas durante a entrevista, Ahmad me lembrou que todas as lutas estão conectadas e que não podemos separar a luta por direitos humanos da luta por direitos animais. Especialmente agora que a comunidade vegana está crescendo dentro de Israel e o movimento está sendo usado como mais uma ferramenta do kit de propaganda israelense. Trata-se do chamado “veganwashing”, que usa a crescente popularidade do veganismo dentro da sociedade israelense pra apresentar uma imagem “progressista” do estado e tirar o foco da violência perpetrada contra os palestinos pelo projeto colonialista israelense. Até mesmo o exército israelense entrou nessa e tem oferecido a possibilidade de optar por refeições veganas e botas de couro sintético aos soldados que se declarem veganos, em uma tentativa de melhorar sua imagem.

O veganismo não é o único movimento de justiça social usado pelo governo israelense para “lavar” seus crimes. A comunidade LGBTQ frequentemente é usada para vender a imagem de país progressista e esconder as violações a direitos humanos praticadas por Israel, o que é conhecido como “pinkwashing”.

 

Como você se tornou vegano?

Assim que comecei a visitar matadouros. Quando eu vi o que acontecia lá, me tornei vegano.

 

O que é o método de abate halal? Como ele se diferencia dos métodos tradicionais de abate de animais?

Nós temos um ditado em Árabe que diz: “não importa quanta misericórdia você tenha, matar é matar”. Então não importa se é halal, se você fez com essa ou com aquela máquina, se a faca é afiada… matar é matar. Esse é um ponto muito importante que as pessoas costumam esquecer.

Quando nós precisamos comer carne? Quando não temos nada mais para comer e nossa sobrevivência depende disso, mas atualmente temos várias alternativas. Muitas alternativas.

Quando comecei a me dar conta disso, pensei: “preciso me tornar vegano”, mas dentro da PAL não temos uma regra que diz que você precisa ser vegano para participar, porque as pessoas vão aprender por conta própria e, quando tiverem informações suficientes, vão mudar.

 

O que você acha dos ativistas por direitos animais que diminuem o sofrimento humano ou que dizem que basta as pessoas se tornarem veganas pra obter justiça em todos os lugares e pra todo mundo?

É loucura. Essas pessoas são especistas se acham que animais valem mais do que humanos. Eu odeio isso. Humanos e animais são iguais. Todos os seres vivos têm o direito à vida. Você escolheu nascer? Você está aqui agora e você tem o direito de viver. Quem decide quem tem e quem não tem o direito à vida? Somente o ódio. Ódio. E ganância.

E, por isso, o que pensamos sobre animais é o mesmo que pensamos a respeito de humanos e vice-versa. Devíamos nos chamar apenas de “seres”. Somos todos seres e somos todos iguais.

 

Eu achei o seu artigo sobre o Islã e o veganismo muito interessante.

Comer animais era permitido porque nós vivíamos no deserto. Você tem que lembrar que era uma outra época. Se você está no deserto, os únicos alimentos disponíveis são trigo e tâmaras. Hoje importamos coisas de Portugal, da Espanha! É um mundo diferente. Agora eu posso encontrar milhares de alternativas para comer.

(Ahmad pede licença pra falar com uma pessoa que estava passando na hora. Quando ele volta à conversa ele percebe que uma outra estrangeira, que veio comigo, havia se sentado à mesa. Ele perguntou, em Árabe, como ela estava. Ela respondeu usando o masculino, pois em Árabe o gênero é expresso em todos os adjetivos. Eu apontei o erro, mas Ahmad riu e disse que não tinha importância. “Somos contra essa coisa de gênero. É uma construção social.” Começamos então uma conversa sobre o absurdo que é o gênero nas gramáticas das nossas línguas maternas).

 

Como começou a PAL?

Para ser honesto nós não pensávamos em direitos animais quando iniciamos. Criamos a PAL para educar as crianças sobre violência. Para quebrar o ciclo de violência. (Eu ouvi Ahmad explicando isso algumas vezes em apresentações. Um homem palestino apanha de um soldado israelense, vai para a prisão sem nenhuma razão, é torturado na prisão… então quando é solto, ele começa a reproduzir a violência da qual foi vítima dentro de casa, com sua esposa, que então a reproduz com os seus filhos; as crianças mais velhas reproduzem com as mais novas, e no final desse ciclo de violência estão os animais, que são abusados pelas crianças.) Mas então começamos a refletir sobre muitos problemas.

Uma das coisas que são realmente importantes para nós é empoderar as pessoas para que elas se ajudem. Nós fazemos muitas atividades. Por exemplo, voluntários nos ajudaram a limpar as ruas dos campos de refugiados. Queríamos ter o envolvimento das pessoas, que as crianças estivessem envolvidas. Todas as pessoas que são parte da sociedade deveriam se sentir responsáveis. Nós encorajamos as pessoas a questionar. “Por que nós existimos? ” Eu quero mudar as antigas ideias delas sobre serem ajudadas, sobre serem apenas consumidoras. Eu quero que elas (as pessoas) pensem: “Qual o meu lugar na sociedade? Qual a contribuição que eu sou capaz de fazer? ”

Quando recrutamos voluntários, a única pergunta que fazemos é: “Você gosta de animais? ” Se você acredita em bem-estar animal ou em direitos animais, tudo bem. Nós precisamos de sua ajuda, então você pode vir e ajudar da forma como puder. E ao mesmo tempo em que eles fazem o trabalho voluntário com a gente, eles aprendem. Essa é a maneira como trabalhamos.

Na minha opinião a PAL é um movimento, não uma organização ou uma instituição. Ela é um movimento, um movimento interseccional. Nós lutamos. Onde houver a necessidade de lutar para ajudar pessoas, nós iremos e lutaremos. Nós não paramos nos direitos animais. Atualmente nós estamos dando aulas aos estudantes com dificuldades na escola e temos voluntários ensinando inglês a eles. Por quê? Porque eles precisam. Por que deveríamos dizer: “Nós só trabalhamos com direitos animais? ” Isso não é certo.

 

Eu gostei do que você disse, que a PAL não deveria ser uma organização, mas sim um movimento. Quais são os objetivos desse movimento?

Direitos para todos os seres vivos. Qualquer ser vivo. Mas também criar a sociedade onde queremos viver. Há muita capacidade dentro da sociedade palestina, muitos jovens. 51% da sociedade palestina tem menos de 18 anos. Isso é poder e precisamos usá-lo. Este é nosso grande poder. E se nós o utilizarmos da maneira correta, nós teremos um Estado e estaremos prontos para esse Estado. Eu não nego que nós estamos também lutando por nosso país. Porque nós não podemos nos separar da luta de nosso povo, porque essa é nossa batalha diária. Nós não podemos estar alheios à situação atual.  A luta é pra mudar os estereótipos sobre a Palestina. Mudar a maneira como as pessoas olham para a Palestina. Mudar a forma que as pessoas pensam sobre os palestinos, porque não é da forma correta. As pessoas vêem os palestinos somente de duas maneiras: como vítimas ou como terroristas. Nós não precisamos de sua pena. Se alguém não tem direitos então você também não tem direitos. Se alguém está lutando, então você deve sentir que esta luta também é sua. Não precisamos de ajuda. Precisamos que as pessoas vivam conosco, entre nós e que acreditem que a nossa luta é a luta delas. O contrário também é verdadeiro. Nós pensamos que sua luta é a nossa luta. É assim que as coisas são. Então, se você quer vir aqui e se juntar a nós, fazer parte desse movimento, você é bem-vindo.

Tenho esperanças e planos de tornar esse movimento internacional. Neste momento nós temos a solidariedade de grupos na Europa, mas também nos EUA. Nós precisamos tornar esse movimento internacional. Estamos prestando atenção às lutas dentro da Palestina, mas também olhamos para fora. O povo palestino é ignorado pela mídia. Venham e convivam conosco, depois voltem pros seus países e digam ao seu povo o que viram, não o que a Fox News, a CNN e os outros meios de comunicação mostram pra vocês.

 

Você acha que essa é a nossa missão como estrangeiras? O que você espera das ativistas solidárias estrangeiras?

Eu tenho muitas missões pras pessoas de fora. Sua primeira missão é vir pra a Palestina. Venha, demonstre seu apoio e nos ajudem como iguais. Direitos iguais, lutas equivalentes. Venha e lute conosco. Então, volte e compartilhe sua experiência. Escreva sobre isso. Escreva sobre a Palestina a partir da sua perspectiva, sobre o que você  viu com seus próprios olhos. Entre em contato conosco, nos pergunte o que quiser. Nós recebemos muitos e-mails de estrangeiros com as mais diferentes perguntas e não ignoramos nenhum deles; nós respondemos todas as pessoas que nos escrevem fazendo perguntas.

E eu preciso de vocês para nos ajudar com algo. Sameh e eu estamos pensando em fazer a primeira reunião internacional de direitos dos animais na Palestina. E isso será uma tapa na cara do “veganwashing” dos ocupantes. Nós já estamos pensando nisso há um tempo. Essa será uma boa maneira de trazer as pessoas para cá, convidá-las pra trabalhar conosco, pra ir ao campo conosco, ver como vivemos.

Se tem um checkpoint, as pessoas verão o que significa atravessá-lo. Se tem uma marcha, você estará nela. E se o exército atirar gás lacrimogêneo em nós, você terá que correr com a gente. Você respira gás lacrimogêneo e depois vai lutar pelos animais. Isso é o que o povo palestino tem que atravessar e as pessoas não tem ideia do quão difícil é, para nós, ser ativistas pelos direitos dos animais sob uma ocupação militar. Não será como conferencias de direitos animais em outros lugares do mundo, onde você relaxa, se diverte… Pessoas virão, verão por si mesmas e se tornarão embaixadoras. Muitas pessoas entram em contato comigo para saber como se tornar voluntárias. Existe muito trabalho para fazer aqui. Muito.

(Ahmad interrompe a entrevista para dizer a um cliente que ele não precisa pagar pelo hummus. “Esse é por minha conta! Você paga na próxima vez.” ele diz. Chamo à atenção de que o restaurante não dará muito lucro se ele agir dessa forma e sua resposta é “Nós temos que encontrar uma forma de fazer as pessoas virem pro restaurante. Nós queremos que elas venham, tenham uma experiência agradável, façam suas atividades aqui… O que é lucro? Se for dinheiro, não é lucro. O lucro são as pessoas. Eu convido as pessoas pra cá, elas trazem mais pessoas, esse é o maior lucro para nós.”)

 

O grupo do meu último tour político – as pessoas que eu trouxe aqui em março – foi embora há menos de um mês e já organizou dois eventos em solidariedade à luta pelos direitos do povo palestino, no Brasil.

Está vendo? Eu não quero usar o termo “manpower” porque ele é sexista (sugiro “human power”). Human power. Quando pensamos em “human power” estou pensando nisso. É por isso que eu tenho que trazer as pessoas para cá.

 

Vocês estão tentando criar leis de proteção animal na Palestina. Como isso está indo?

Nesse momento nós estamos fazendo muitas reuniões com o Instituto de Leis na Universidade de Bierzeit e com o Ministério da Agricultura. Nós começaremos com o básico e isso se dará em quatro estágios. Primeiro nós estudaremos as leis antigas e prepararemos uma introdução para as novas leis. O segundo estágio será redigir as leis; o terceiro será o lobbying e o quarto será de avaliação e implementação. Isso toma muito tempo. Mas se nós fizermos isso, alcançaremos o objetivo principal de nossa estratégia de curto prazo: fazer leis de proteção animal na Palestina e elas serão as primeiras desse tipo.

(Sameh Arekat chega. Ele é o outro fundador da PAL)

(Ahmad) Eu fiz legumes com tahine pra nós. Está muito gostoso. Mas onde estávamos?

(Sameh e Ahmad, fundadores da Palestinian Animal League)

Quais são os maiores desafios que você enfrenta com esta missão?

Um dos maiores desafios é obter fundos pro nosso trabalho que não venham com uma agenda atrelada. Não temos uma agenda política, então os doadores não terão nenhum benefício político ao nos financiar. Algumas organizações e até embaixadas nos disseram que nos financiariam se assinássemos um documento dizendo que trabalharíamos com organizações israelenses. Alguns doadores nos disseram: “Vocês não precisam trabalhar diretamente com os israelenses, mas vamos fazer um projeto dual, um na Palestina e um em Israel”. Nós não vamos nos submeter à normalização. Mesmo se isso nos custar dinheiro, não faremos.

(De acordo com a Campanha Palestina para o Boicote Acadêmico e Cultural de Israel, “normalização” refere-se à “uma colonização da mente, em que o sujeito oprimido acredita que a realidade do opressor é a única realidade ‘normal’ a qual se deve subscrever e que a opressão é um fato da vida que deve ser aceitado. Aqueles que se envolvem na normalização ou ignoram essa opressão, ou a aceitam como o status quo no qual é possível viver. Contrapor-se à normalização é um meio pra resistir a opressão, seus mecanismos e estruturas “. No contexto dos Territórios Palestinos Ocupados, a normalização é definida como “a participação em qualquer projeto, iniciativa ou atividade, na Palestina ou internacionalmente, que visa (implicita ou explicitamente) reunir palestinos (e/ou árabes) e israelenses (pessoas ou instituições) sem colocar como objetivo a resistência e exposição da ocupação israelense e todas as formas de discriminação e opressão contra a povo palestino”. Quando financiam projetos na Palestina a maioria das instituições internacionais impõe aos palestinos a condição de trabalhar com israelenses, pessoas ou organizações. Recusar essa condição significa não ter acesso a financiamentos. Não participar da normalização significa reconhecer que enquanto os palestinos viverem sob a colonização e ocupação israelense, não existe a possibilidade de um diálogo entre iguais, pois a dinâmica de forças entre palestinos e israelenses é fundamentalmente injusta. Palestinos acreditam que somente quando conseguirem sua liberdade e autodeterminação poderá haver um dialogo justo e entre partes iguais com israelenses.)

O segundo maior desafio que enfrentamos é as pessoas pensarem que se fizerem uma doação pra PAL podem nos controlar, nos dizer como trabalhar, da maneira que costumam trabalhar. Mas os sapatos das outras pessoas não cabem nos nossos pés. Não somos o tipo de pessoas dispostas a comprometer princípios pra obter fundos. Não vamos comprometer nossos princípios. Tem pessoas que nos ajudam com boas intenções, mas às vezes boas intenções podem fazer o oposto de ajudar. Às vezes se transformam em “eu sei qual é a melhor maneira de ajudar vocês”. Não, nós sabemos qual é a melhor maneira de nos ajudarmos. Sugira idéias pra serem discutas, mas não nos diga como fazer o nosso trabalho. Se o seu dinheiro vem com condições e temos que seguir o que você considera a melhor maneira de trabalhar, você pode pegar seu dinheiro e ir embora. Não precisamos dele. Mas, em geral, sempre encontramos as pessoas certas para trabalhar com a gente.

Dentro da sociedade palestina, nosso maior desafio é criar leis de proteção animal. Precisamos conscientizar a população, mas precisamos da proteção da lei. E somente a lei pode proteger nosso movimento. Se eu vejo animais sendo mal tratados eu só posso dizer: “Não faça isso!”. Mas se tivéssemos leis, eles teriam proteção.

 

O que você acha que é o conceito mais errado que as pessoas têm com relação aos palestinos? Em geral, mas também dentro da comunidade de direitos animais?

Estereótipos. Algumas pessoas sentem simpatia por nós e querem nos apoiar, mas … percebi que havia esse problema quando estava no exterior. Nós temos uma abordagem intersseccional, mas descobri que a maioria dos ativistas não tem. Então estamos em um lugar radicalmente diferente dos outros ativistas de direitos dos animais. Estamos sempre trabalhando pela igualdade, mas esses ativistas dos direitos dos animais, eles não pensam em igualdade. Igualdade não é a palavra certa. Por exemplo, eu sou mais alto que Sameh. Se não podemos ver além do muro e pensarem que, em nome da igualdade, devemos receber um banco cada um que seja do mesmo tamanho, isso não é igualdade. Eu ainda serei mais alto e ele ainda pode não ser capaz de ver o que está do outro lado do muro. Levamos ajuda onde é necessário. Pras pessoas, pros animais … Quando fiz o tour pela Europa no ano passado, levei a conversa sobre a ocupação da Palestina pra mesa dos ativistas de direitos animais. Eles nem quiseram ouvir sobre a Palestina, escolheram fechar os olhos para a opressão das pessoas aqui.

(Sameh) Ele começava as palestras dizendo: “Eu não quero ser político, mas …”

(Eu) Mas veganismo é político.

(Ahmad) Eles pensam que se eles alimentam um cachorro e um gato e resgatam uma galinha, é isso, eles são pessoas boas. Dormirão bem à noite.

 

O que você acha do Banksy Hotel?

Gostei da idéia, mas tem alguns problemas. Você viu o filme Avatar? A ironia é que em filmes os americanos sempre salvam o mundo. Eles salvam o mundo, mesmo dos alienígenas ou do Armagedon, do julgamento final. Agora, eles podem salvar at é outros planetas. Eles ajudaram a plantar essa semente na mente dos brancos, que eles são nossos salvadores, que eles são as melhores pessoas do mundo e sua missão é nos salvar. Está no filme, está na cultura.

(Ahmad escreveu um excelente artigo sobre o ‘complexo do branco salvador’, a “idéia de que pessoas não brancas são ‘ incapazes’ e precisam de um branco pra salva-las, ao mesmo tempo em que o branco se mantém separado delas e ocupa uma posição de autoridade ou poder, ou seja, privilégio. Essa idéia, que antes justificava as conquistas brutais dos primeiros colonializadores, agora alimenta um sistema desequilibrado de ajuda em que os países desfavorecidos são obrigados a confiar na riqueza e na tomada de decisões de nações poderosas e muitas vezes predominantemente brancas. Embora haja boa vontade envolvida, o complexo do branco salvador está profundamente enraizado na premissa destrutiva de que um grupo é incapaz de se governar ou se ajudar. “)

(Sameh, Ahmad e Dahoud, o chef do restaurante Sudfeh)

Sameh, você pode responder a última pergunta? Qual é o seu sonho para a Palestina?

É uma pergunta muito difícil. Porque mesmo quando sonhamos, temos limitações pros nossos sonhos. Então temos que sonhar logicamente. Talvez o sonho mais louco seja viver em liberdade, porque só ouvimos falar sobre ela, nunca experimentamos. Nós tocamos a liberdade durante alguns dias da nossa vida, quando estávamos viajando no exterior. Nós vimos o quão fácil é pras pessoas se locomover de um lugar pra outro. Você pode morar na Alemanha, por exemplo, e decidir jantar na Holanda. Quando eu comparo com o quão difícil é para nós … Até pra ir daqui pra Ramallah. É o mesmo país, mas a ocupação pode impedir a gente de ir daqui pra lá.

(O prato de legumes com tahine chega à mesa. “Eu não deveria ter colocado beterraba no prato.” Diz Ahmad. “Ficou tudo cor-de-rosa. Eu fiz ‘pinkwashing’ na comida!”)

Depois do almoço Ahmad me deu uma carona pra Ramallah. Se você tiver sorte, o que significa “se o exército não bloquear as estradas ou te prender nos pontos de controle”, é uma viagem curta. Perguntei a Ahmad sobre a vida em Jalazone, o campo de refugiados onde ele mora. Ele me contou muitas histórias sobre o que significa viver em um campo de refugiados sob uma ocupação militar violenta. O que significa viver sob um sistema injusto e racista criado pra te oprimir e colonizar suas terras. Nesse momento passamos por um lugar que criava galinhas, o tipo de pequena empresa que você encontra em toda a Palestina, com galinhas doentes e sem penas presas em pequenas gaiolas nas calçadas. Por causa da colonização israelense da Palestina, a terra é escassa e as galinhas são criadas em gaiolas. Ahmad apontou pras gaiolas e disse: “Na sociedade em que quero construir e viver, isso será proibido. Nós tornaremos essa crueldade ilegal”.

Defendendo a Palestina: libertando o povo, a terra e os animais“, a conferência internacional organizada pela PAL acontecerá do 3 ao 6 de maio de 2018. “O foco da conferência será a luta compartilhada por terra e libertação pra todas as espécies na Palestina ocupada. Reforçaremos o trabalho de solidariedade internacional e as interseções com o movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções. A conferencia desafiará a narrativa de que Estados coloniais podem oferecer algo além do que destruição pros animais e pra terra, e fornecerá uma visão do trabalho específico de libertação animal nos contextos coloniais. Ela desafiará a propaganda de Brand Israel e o fenômeno internacional de veganwahsing, que justifica a ocupação brutal da Palestina em nome da defesa animal. Isso combaterá a islamofobia, a xenofobia e o racismo anti-árabe no movimento de direitos dos animais. Ela irá demonstrar como a supremacia branca e o colonialismo estão ligados à exploração animal e à devastação ecológica no mundo todo.”

Pra participar do evento e apoiar o trabalho da PAL, visite a página pal.ps

*Agradecimentos especiais pra Rosana, Diego, Marcelo e Thiago, que me ajudaram a traduzir a entrevista pro Português. Essas pessoas lindas participaram dos meus tours políticos na Palestina e se tornaram exatamente o que Ahmad pediu: embaixadoras e ativistas por justiça, liberdade e auto-determinação do povo palestino. Muito obrigada.

No início do mês Anne foi convidada pra participar de uma conferência em Marseille (sul da França), no dia internacional da mulher. O evento foi organizado pelas ‘Femmes en Noir’ de Marseille, um grupo criado em solidariedade com o movimento ‘Women in Black‘, formado por mulheres israelenses que lutam há 26 anos contra a ocupação israelense nos territórios palestinos. Se você nunca ouviu falar desse movimento, vale a pena visitar o website. E não deixem de ver também a foto-reportagem feita por Activestills (o coletivo de fotógrafos do qual Anne faz parte).

Mas voltando ao evento, Anne foi convidada pra falar da luta das mulheres palestinas contra a ocupação israelense, acompanhada de uma ativista palestina, Manal Tamimi (da cidade de Nabi Saleh) e de uma ativista israelense, Haidi Motola. Anne voltou pra casa com o discurso de Haidi na bolsa, pois tinha gostado tanto do que ela disse durante a palestra que decidiu publicar suas palavras no blog dela (se você ainda não conhece, vai lá: Chroniques de Palestine et d’Ailleurs). Eu, que não participei do evento, li o discurso de Haidi no metrô e, como era de se esperar, achei muito interessante e forte.

Eu já falei da situação na Palestina por aqui e espero que vocês tenham lido a série ‘Histórias Palestinas’, onde alguns dos meus amigos palestinos mais próximos dividiram fragmentos de suas vidas conosco. Então além de ter dado a minha opinião de estrangeira morando na Palestina, que não tem lá muita importância, procuro também dar a palavra aos habitantes da região, palestinos e israelenses, pra que eles contem histórias sobre a ocupação na primeira pessoa. Foi por isso que ano passado entrevistei Sahar Vardi, uma ativista de Jerusalém (um post imperdível!). E gostaria de dividir duas coisas com vocês hoje.

A primeira é a carta aberta dos jovens israelenses objetores de consciência desse ano. Em Israel o serviço militar é obrigatório tanto pra homens (3 anos) quanto pra mulheres (2 anos), mas todo ano alguns jovens se recusam a servir o exército por razões políticas e morais. Esse ano o grupo de objetores de consciência é o maior desde 2008 (60 pessoas) e, juntos, eles escreveram uma carta ao primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, explicando porque se recusam a fazer parte do exército. Ela começa assim:

Nós, cidadãos do Estado de Israel, somos designados para o serviço militar. Apelamos aos leitores desta carta que coloquem de lado o que sempre foi tido como uma evidência e que reconsiderem as implicações do serviço militar.

Nós, abaixo assinados, temos a intenção de recusar de fazer o serviço militar e a principal razão para esta recusa é a nossa oposição à ocupação militar dos territórios palestinos. Palestinos nos territórios ocupados vivem sob o governo israelense, apesar de não terem escolhido isso, e não têm acesso a nenhum recurso legal para influenciar este regime nem os processos de tomada de decisão. Isto não é nem igualitário nem justo. Nesses territórios os direitos humanos são violados e atos definidos pelo direito internacional como crimes de guerra são perpetuados diariamente.

 

Vocês podem ler o resto da carta aqui e saber um pouco mais sobre os objetores de consciência israelenses aqui.

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A segunda coisa que queria compartilhar com vocês hoje é o discurso que Haidi fez durante o evento em Marseille. As palavras dela são mais uma janela de compreensão que se abre sobre a questão da ocupação dos territórios palestinos por Israel. E o fato dessa janela ser aberta por uma israelense, que faz parte da força ocupante, torna o relato ainda mais interessante e, pra quem tem dificuldade em aceitar a versão dos ocupados, mais fácil de ser acreditado.

Nasci em Haifa e cresci no norte de Israel , na Galileia. Mas somente muito anos depois eu aprendi que era a Palestina também. Hoje os dois são inseparáveis pra mim, tragicamente ligados um ao outro. Eu venho de Palestina / Israel.

Eu cresci em uma pequena cidade. As cidades vizinhas mais próximas eram todas árabes , palestinas , mas nossas vidas estavam separadas . Escolas e playgrounds diferentes. Só mais tarde, em Tel Aviv, eu comecei a conhecer pessoas que tinham crescido ali do meu lado. E foi em grande parte através da minha experiência na Cisjordânia que eu também aprendi sobre a situação dos palestinos dentro de Israel.

Eu decidi não fazer o serviço militar obrigatório quando completei 18 anos, mas não posso dizer que eu realmente sabia naquela época o que era a ocupação. Eu só sabia que não queria fazer parte de um exército que estava ocupando outra nação. Foi depois que eu entendi que através da minha simples existência como cidadã israelense eu também participava dessa ocupação, que é realizada em meu nome e que somente através da resistência ativa eu podia mudar isso.

Eu não tinha então a consciência política que tenho hoje e não era madura o suficiente pra fazer da minha recusa um ato político. Eu admiro hoje os jovens que se recusam a fazer o serviço militar e que, no lugar disso, vão pra a cadeia. Eles são corajosos, não só por escolherem ser marginalizados pela sociedade, mas ao dizer isso em voz alta – nós somos contra a ocupação e a repressão, nós nos recusamos a ver isso como a única possibilidade, nós nos recusamos a nos tornarmos soldados neste estado militar.

Já que eu não tinha conhecido a realidade nos territórios ocupados durante o serviço militar, que é o caso da maioria dos israelenses, ela continuou obscura pra mim por um longo tempo. Ramallah, Al Khalil, Nablus, Jenine eram apenas buracos negros no mapa em minha mente. Eu morava em Tel Aviv, 20 minutos do checkpoint mais próximo, mas só o vi quando escolhi conscientemente ir lá. Eu acho que a situação mudou e a ocupação tornou-se mais visível e presente até mesmo na vida escapista de Tel Aviv. Mas seis anos atrás foi realmente impressionante pra mim ver o quanto ela era invisível e como eu podia viver sem ver a opressão e a violência acontecendo ali do meu lado. Tem todo um sistema que trabalha pra esconder, reprimir e justificar as violações dos direitos humanos que estão acontecendo todos os dias.

Somente aos 25 anos decidi que eu tinha que saber e ver com meus próprios olhos o que estava acontecendo. Eu me tornei voluntária na B’Tselem, uma organização de direitos humanos que trabalha nos territórios ocupados. Então, pela primeira vez, eu vi os checkpoints, as estradas de apartheid, o outro lado do muro de separação, as demolições de casas, os toques de recolher, os ataques à meia-noite e as prisões, as restrições de movimento, a falta de água e de infra-estruturas, as detenções e interrogatórios de menores. E o que você viu uma vez não pode voltar a ser invisível.

Foi então que percebi pela primeira vez que a violência tem muitas faces diferentes e que geralmente apenas a violência extrema, o sangue e as explosões, aparece na mídia e entra no nosso consciente. Mas qual é a cara da violência na vida de todos os dias? A insegurança constante, restrições, perseguições e humilhações, que cara elas têm, quem as vê ?

Começamos uma pequena oficina de vídeo, na cidade de Ni’ilin, como parte do projeto ‘Shooting Back’, de B’Tselem. Os alunos eram um pequeno grupo de adolescentes. Eu dei exercícios sobre a composição e a luz e eles filmaram manifestações. Eu falava sobre o enquadramento e narração e eles filmavam manifestações. Eu mostrei os princípios da edição e eles editavam manifestações.  Finalmente eu me juntei a eles pra ver com meus próprios olhos a manifestação semanal da sexta-feira, contra a construção do muro de separação na cidade. Eu tinha ido como fotógrafa e fiquei como manifestante.

As manifestações semanais em Ni’ilin começaram em meados de 2008, quando a construção do muro de separação recomeçou, depois de uma pausa causada por processos judiciais. A cidade está inteiramente localizada na área C, ou seja, completamente sob a autoridade militar israelense. Ela fica cerca de 3 km da linha verde e perto de uma dos maiores colônias israelenses, Modi’in Ilit . A rota do muro de separação estava prestes a cortar os moradores de uma grande parte de suas terras agrícolas. Ele foi claramente projetado considerando não apenas razões de segurança, mas levando em conta os planos de futura expansão das colônias israelenses. Hoje a barreira, um muro de concreto de 7 metros de altura, privou a cidade de cerca de 30% de suas terras.

Não longe dali, na cidade de Bil’in, um símbolo do protesto popular, as manifestações começaram em 2005. Depois de uma longa batalha legal eles conseguiram fazer com que o traçado do muro fosse mudado, mas 150 hectares de terras da cidade ainda estão do outro lado do muro. As manifestações da sexta-feira ainda acontecem todas as semanas, há nove anos.

Nabi Saleh é um vilarejo com cerca de 500 habitantes, que tem lutado de maneira corajosa contra o opressão. Eu conheci Nabi Saleh em 2009, quando os protestos começaram em resposta à confiscação de terras do vilarejo por colonos israelenses. Já que temos a sorte de ter Manal Tamimi aqui, eu vou deixá-la apresentar seu vilarejo e sua luta.

Estes são apenas alguns exemplos. Existem mais cidades que organizam manifestações semanais e claro que existem outros meios de luta não-violenta , ações diretas, desobediência civil e organizações de base que acontecem em ambos os lados do muro.

O grupo Anarchists Against the Wall (Anarquistas Contra o Muro) foi formado em 2003 como uma resposta à decisão de construir a barreira de separação, o muro que foi declarado ilegal pelo Tribunal Internacional de Justiça. Esse muro, símbolo da ocupação, é apenas uma das muitas formas de opressão e de controle da população palestina nos territórios ocupados. Anarchists Against the Wall tem sido ativo de diferentes maneiras na resistência à ocupação tanto dentro de Israel quanto na Cisjordânia. Por exemplo, participando e apoiando essas manifestações.

Há outras organizações israelenses e israelo/palestinas que trabalham e lutam também. Pra citar apenas algumas: “Machsom Watch” – um movimento de mulheres israelenses que observam e documentam o que acontece nos checkpoints e tribunais militares, “The Coalition of Women for Peace” que, entre outros, tem investigado a implicação econômica da ocupação no projeto de pesquisa “Quem lucra com a ocupação?”, ‘Boycott from within” um grupo israelense de apoio ao pedido de boycott aos produtos israelenses feito pela sociedade civil palestina (BDS). Esse último grupo esteve recentemente nas manchetes em Israel por causa da ‘lei Anti-boycott’ e por causa do crescimento desse movimento e da pressão que ele vem exercendo sobre a economia israelense. Há muitos outros ainda, talvez não em número suficiente, mas o tempo é curto e não poderei apresentar todos agora.

Organizar e participar de manifestações em Israel é uma coisa, nos territórios ocupados a história é completamente diferente. A liberdade de protestar e de se reunir, um direito humano fundamental, é negada aos palestinos na Cisjordânia. A luta popular não violenta é confrontado e reprimida pelo exército e a polícia de fronteira israelenses de várias maneiras diferentes .

Muitas vezes as áreas onde acontecem os protestos semanais são declaradas zonas militares fechadas enquanto durar a manifestação, transformando o protesto em algo “ilegal” e fazendo com que os participantes sejam sujeitos a detenção e processos judiciais. Em alguns casos foram emitidas ordens proibindo totalmente algumas cidades de fazerem manifestações. Pra dispersar os chamados protestos “ilegais”, o exército usa vastos meios de controle de multidões, mesmo quando as manifestações não são violentas, algumas vezes impedindo que elas aconteçam antes mesmo de começar. 

Durante anos temos assistido a desvios repetidos dos regulamentos de ‘abrir fogo’, causando ferimentos graves e mortes. O meio mais comumente utilizado é o gás lacrimogêneo, em suas diferentes formas e métodos de disparo. Ele é teoricamente não-letal, mas quando uma lata de gás lacrimogêneo é disparada na direção de uma pessoa ela se torna uma arma muito perigosa. Balas de aço revestidas de borracha são outro meio não-letal, mas, no entanto, causam mortes quando atiradas à queima-roupa e quando o tiro visa a parte superior do corpo. Mais uma vez, essas práticas vão contra os regulamentos citados acima. 

Munição real deve ser acionado somente em caso de ameaça imediata à vida, porém ela tem sido usada durante as manifestações, geralmente contra pessoas atirando pedras, quando a ameaça à vida é totalmente questionável. O “skunk ” é, de fato, não-letal, mas é uma maneira muito desagradável de dispersar a multidão. O skunk (gambá em Inglês) é uma mistura química extremamente fedorenta, desenvolvida pela polícia israelense, que é pulverizada através de um canhão de água montado em um caminhão. Às vezes ele é pulverizado dentro da cidade, deixando o mau cheiro nas casas e nas pessoas por muito tempo. Frequentemente toda a cidade sofre quando o exército entra em uma área povoada: restrição de movimento, gás lacrimogêneo, skunk e danos às propriedades.

O uso indevido de armas de controle da multidão durante as manifestações causaram muitos acidentes e dezenove mortes. Quatorze causadas por munição real, três por gás lacrimogêneo e duas por balas de aço revestidas de borracha. Além disso o exército muitas vezes invade as cidades e casas durante a noite, pra prender pessoas.

Muitos dos organizadores foram perseguidos na justiça, acusados de ‘organizar manifestações’ e ‘incitação à violência’. Alguns ativistas estrangeiros que vieram mostrar solidariedade foram deportados por terem participado das manifestações. Muitos palestinos tiveram suas permissões pra entrar em Israel ou simplesmente pra ter acesso às suas terras do outro lado do muro confiscadas como punição. Tudo isso numa tentativa de suprimir a luta popular.

“Pare ou eu atiro!” gritou o soldado para mim. O exército tinha invadido Nabi Saleh e eu estava correndo entre as oliveiras. “Você não pode estar falando sério “, pensei para mim mesma, mas parei, pois estava com medo demais pra ver se ele estava realmente falando sério. Fui presa e acusada de atirar pedras contra os soldados, uma acusação grave, mas muito mais grave se você é palestino. Um sistema legal diferente é aplicado se você é palestino ou israelense. Isso inclui os colonos israelenses que vivem na verdade na mesma área geográfica que os palestinos.

Enquanto os palestinos são sujeitos à lei militar e são julgados em um tribunal militar, que praticamente proíbe toda manifestação, israelenses e estrangeiros são julgados em um tribunal civil israelense, que reconhece a liberdade de protesto, conforme as normas em uma democracia. Os palestinos são frequentemente detidos por muitos meses sem ver um juiz ou um advogado e isso inclui menores de idade. Os direitos dos palestinos são constantemente violados, métodos coercitivos são usados ​​durante os interrogatórios e as multas e encargos que eles enfrentam são muito maiores do que eles receberiam pelas mesmas ações se fossem julgados no tribunal civil.

O sistema de justiça civil não permitiria tão facilmente que um grupo de soldados invadisse uma casa na calada da noite pra prender menores. Com certeza não permitiria que eles fossem interrogados sem a presença dos pais e sem qualquer orientação jurídica. Mas na Palestina isso acontece muito frequentemente, como as histórias de Nabi Saleh e Ni’ilin nos mostram. Os testemunhos desses meninos apavorados são então usados como prova para condenar outras pessoas, um método que não seria aceito em nenhum sistema de justiça democrático.

Fui detida por 24 horas (o máximo permitido no meu caso), mais algumas horas extras porque era Shabat. Antes de me liberar o juíz me  perguntou: “Você não tem nada melhor para fazer numa sexta-feira ?” Na hora eu não respondi, mas agora eu gostaria de responder: “Não, eu não posso imaginar uma maneira melhor de passar uma sexta-feira do que resistindo à ocupação violenta e destrutiva e abraçando a possibilidade de uma mudança e de uma maneira de viver diferente.”

Uma das razões que me levaram a escrever esse post foi ter percebido que muitas pessoas se interessam em saber como nós, veganos, nos tornamos herbívoros. Como gostaria de usar esse espaço pra compartilhar histórias, experiências e inspirar quem passa por aqui, decidi juntar uma coisa com a outra e pedir a alguns dos meus amigos pra contar aqui no blog como o veganismo entrou na vida deles.

E pra estrear essa nova série de posts eu entrevistei uma das minhas melhores amigas, Johanna, que também foi a primeira pessoa vegana que eu conheci. Quando nos encontramos pela primeira vez, em um albergue de Jerusalém, mais de cinco anos atrás, fazia somente dois meses que eu tinha me tornado vegana. Nossa afinidade foi imediata e ela se tornou uma das pessoas mais importantes na minha vida. Johanna também adora cozinhar e tenho a impressão de que passamos a maior parte desses cinco anos na cozinha ou ao redor da mesa. Refizemos o mundo com uma tigela de papa de aveia na mão, choramos nossas mágoas enquanto preparávamos o jantar e filosofamos horas a fio sem nunca parar de movimentar nossos garfos.

Johanna é alemã, mas já faz alguns anos que ela passa o seu tempo entre Tel Aviv, onde mora e trabalha, e Jerusalém, onde estuda música árabe (Johanna é violinista). Antes de vir pro Brasil entrevistei minha amiga em Jerusalém, entre duas colheradas de sopa (a minha era de jerimum, a dela era um minestrone). Com vocês, Johanna Riethmueller.

 “Eu me tornei vegetariana aos 12 anos. Um dia comi língua de boi na casa da minha avó e pela primeira vez fiz a conexão: a comida no meu prato era um animal morto. A partir daquele dia não consegui mais comer animais. Além de não comer mais carne, passei a  só consumir laticínios e ovos orgânicos, pois me preocupava com o bem estar dos animais.

Anos mais tarde fiz um estágio em uma fazenda orgânica de produção de leite (uma das melhores da Alemanha) e descobri que a etiqueta ‘orgânica’ não significava muita coisa em matéria de bem estar animal. Foi então que percebi que não comer carne porque eu não quereria maltratar animais, mas continuar consumindo seus derivados, era uma atitude hipócrita.

Então aos 16 anos me tornei vegana. Fiz a transição ao mesmo tempo que o meu irmão, que é alguns anos mais velho. Essa decisão fez com que eu começasse a pensar sobre o meu lugar no mapa político mundial. Onde eu me situava com relação à produção e ao consumo de alimentos? Percebi que o onivorismo se insere muito bem no sistema capitalista, que cria vidas, humanas e não-humanas, pra desperdiça-las. Me tornar vegana foi uma maneira de me tornar politizada e lutar contra a norma. É impossível separar o veganismo da minha visão política do mundo. Comecei a me perguntar: “Como quero tratar o mundo?” Comer carne é um ato de violência e eu não queria gerar mais violência no mundo. Pra mim esse é um raciocínio tão lógico quanto uma operação matemática.

Assim que me tornei vegana eu tinha uma atitude muito mais ativa na divulgação do veganismo. Eu participava de ações pró-veganismo em Hamburgo, minha cidade natal.  Agora que moro em Tel Aviv, onde o veganismo tem muitos adeptos, já não sinto mais a necessidade de fazer isso. Em Israel, e principalmente em Tel Aviv, veganismo se tornou algo popular.  Ao ponto de às vezes eu me sentir desconfortável, como se estivesse fazendo parte de uma moda.

Eu não tenho vontade de participar de ações que expõem a violência sofrida por animais em fazendas industriais e abatedouros, como mostrar vídeos e fotos de animais sofrendo nas ruas. Não gosto de terapia de choque, mas não desvalorizo nem critico o trabalho de quem escolheu essa linha de ativismo. Afinal não tem absolutamente nada de errado em gritar alto e forte as injustiças do mundo. Mas as pessoas já sabem da crueldade sofrida pelos animais de abate,  sabem que eles foram mortos pra que a carne chegasse no nosso prato. Acho que quando as pessoas me veem bem, saudável, feliz e sem comer nada de origem animal, isso é um incentivo muito mais forte pra que elas se tornem veganas. Pessoalmente prefiro esse tipo de ativismo: inspirar mudanças através do exemplo positivo, através da maneira como vivo. Ou namorando onívoros pra convertê-los 🙂 Eu promovo o veganismo sendo uma vegana saudável e feliz. Porém se sinto que as pessoas se interessaram pelo meu estilo de vida eu falo sobre o veganismo de maneira direta.

O veganismo abriu os meus olhos com relação ao mundo, mas também fez com que minhas papilas despertassem e descobri inúmeros novos sabores. Minha alimentação seria menos rica, eu comeria muito menos legumes, frutas, leguminosas e oleaginosas se não fosse vegana. Essa mudança também me fez acordar com relação ao consumismo na alimentação. Comecei a me perguntar de onde vinha a minha comida, que ingredientes entravam na sua composição. Comecei a me alimentar de maneira mais responsável.

Johanna, Judith e Sandra

Sei que como uma pessoa privilegiada de um país ocidental, cada vez que compro algo no supermercado eu prejudico direta ou indiretamente alguém. Eu tenho o privilégio de escolher o que como, por isso escolho ser vegana e isso me faz feliz. Sei que ainda tem vários antagonismos nas minhas ações. O fato de consumir café e chocolate é um bom exemplo disso. Esses alimentos são produzidos de maneira muitas vezes duvidosa, utilizando trabalho escravo, infantil e de uma forma geral os direitos desses trabalhadores são raramente respeitados. Mas, enquanto tento fazer o meu melhor em todas as escolhas que faço, acredito que mesmo em condições extremamente difíceis nós, humanos, ainda temos escolha, ainda que muitas vezes reduzida. Com exceção de alguns exemplos extremos podemos escolher continuar trabalhando aqui ou ir pra outro lugar. Já os animais não têm escolha nenhuma e não têm absolutamente nenhuma chance de escapar desse sistema de exploração e morte. Então ser vegana, pra mim, é também um ato de solidariedade com os animais. Continuarei a ser vegana enquanto for um ser com pensamentos políticos e éticos. Adotar o veganismo é o primeiro passo pra transformar o mundo em um lugar melhor.”

Você se tornou vegana durante a adolescência e vários leitores jovens me escrevem reclamando da dificuldade em convencer os pais a aceitarem o veganismo deles. Como seus pais reagiram?

Ao me tornar vegana comecei a preparar minhas próprias refeições e a me aventurar na cozinha. Ver que eu estava feliz com a minha opção, saudável e comendo pratos saborosos ajudou a tranquilizar a minha mãe. E tem mais. Ela nunca foi uma boa cozinheira então ela adorou quando eu assumi o controle do fogão. Meu pai, que se separou da minha mãe quando eu ainda era bem pequena, também não foi contra a mudança na minha alimentação. A esposa dele não come carne e ele já estava acostumado com maneiras alternativas de se alimentar.

Um conselho pra quem acabou de se tornar vegano(a)?

Seja um vegano feliz. E leia o blog de Sandra. Não precisa se punir comendo sempre a mesma comida sem graça. Aprenda a cozinhar, prepare comida vegana deliciosa e divida com os seus amigos.

Mas alguns onívoros se sentem incomodados pelo simples fato de ter um vegano na mesa e acabam atacando a pessoa com comentários desagradáveis…

A comparação que faço é a seguinte: antigamente se um machista encontrava uma feminista ele também se sentia incomodado e atacava. Até que chegamos num ponto em que ninguém mais tolera esse tipo de comportamento e se tornou politicamente incorreto ser machista. Acho que a situação vai evoluir de maneira parecida.

O que você acha do movimento que defende a carne orgânica, produzida de maneira mais humana e mais ecológica, que alguns chegam a chamar de ‘carne feliz’?

Concordo com alguns dos argumentos, do ponto de vista puramente ecológico, mas não vivemos nesse mundo orgânico perfeito. Quem defende a ‘carne feliz’ está pregando uma maneira de se alimentar que faria sentido em um mundo orgânico perfeito, mas não podemos esquecer que ainda vivemos a anos luz desse modelo. No modelo atual em que vivemos o veganismo ainda me parece a melhor opção. E eu acredito que animais têm alma, então matar animais pra comer sua carne é pra mim moralmente inaceitável.

Se a gente pudesse passar um dia na sua cozinha, o que encontraríamos no seu prato?  

Café da manhã: granola com leite de soja ou, quando estou com vontade de comer algo salgado, pão, uma pasta (como hummus) e uma salada crua.

Almoço/jantar: Procuro comer leguminosas várias vezes por semana. Gosto muito de acompanha-las com legumes assados e uma salada crua grande (procuro comer duas saladas cruas por dia). Quando quero preparar algo mais especial faço lasanha, quiche, pizza…

No dia a dia meus doces são frutas frescas, mas de vez em quando gosto de preparar bolos e biscoitos. Agora que ganhei uma máquina de fazer sorvete de Sandra vou começar a brincar com receitas de sorvetes veganos também.

Quais é o seu prato preferido?

Impossível escolher um só…

Então quais são seus três pratos preferidos?

Lasanha, sopa thai e meze (seleção de pastas e saladas, muito comum no mundo árabe, mas também em outros países mediterrâneos). Adoro preparar hummus, mutabbal, pasta de tahina e várias saladas cruas pra degustar com pão.

Se você soubesse que iria morrer amanhã, qual seria sua última refeição antes de deixar esse mundo? Você pode pedir qualquer coisa: algo que a sua avó preparava, um prato feito por um chef famoso… Qualquer comida vale, vegana ou não.

Definitivamente eu pediria algo vegano. Escolheria um prato simples e reconfortante, nada muito sofisticado nem gourmet. Macarrão com seu molho de queijo (vegano) e algum legume, talvez brócolis, mais uma salada de tomate cereja com azeite e vinagre balsâmico pra acompanhar. E de sobremesa pediria aquele seu cheescake de maçã e caramelo.

Divida uma receita simples e saborosa conosco.

Meu mousse de chocolate*.  Aqueça 400ml de leite de coco (quanto mais cremoso e rico em gordura, melhor) e, fora do fogo, junte 150g de chocolate meio amargo picado. Quando derreter completamente acrescente 5cs de cacau de ótima qualidade e açúcar a gosto (uso umas 3 ou 4 cs cheias). Bata vigorosamente com um batedor de arame (manual), até o cacau se dissolver e a mistura ficar levemente aerada. Transfira o mousse pro congelador (em um recipiente grande ou em copinhos, se quiser fazer porções individuais) e deixe umas 3, 4 horas por lá, até ficar firme, mas não totalmente congelado. No frio a mistura, que começou líquida, vai ficar com a consistência de mousse.

mousse chocolate

*Johanna levou seu famoso mousse de chocolate pro nosso brunch de casamento e ele desapareceu antes que eu pudesse fazer uma foto. Só sobrou o que vocês estão vendo acima.

(E quem quiser ver Johanna fazendo música é só clicar aqui.)